O dia em que a caixa foi aberta

por Lucas Gaspar

Caja de Pandora

(Pandora, John William Waterhouse - 1896.)

Dia de reunião da unidade, único dia do mês que todos que trabalham ali conseguem se sentar para discutir coisas comuns da unidade (duas equipes ampliadas, farmácia, vacina,recepção, deve ser umas 30 pessoas). Nesse dia nosso gerente não estava pois tirara férias.

Pensei em uma proposta nova para a reunião, sem pauta pré-determinada, com uma dinâmica de localização e resolução de problemas, dinâmico, avaliativo, abrir voz a todos para falar e ajudar a resolver. Sabe, nós estamos em um momento muito crítico, em que muitos estão insatisfeitos com a organização local, quem sabe não dá certo? Vamos tentar, vamos motivar, vamos mudar…

E começa a situação, de repente, aproveitando a ausência do gerente ali, começam a descer a lenha nele. Tudo que ruim que acontece ali é culpa dele. Uma ou outra vez aparecem outras críticas, inclusive da relação funcionários-usuários (inclusive eu fui citado negativamente, tudo bem.. estou ali só ouvindo agora), do espaço físico, dentre outros. A carga dessa reunião começa a ficar pesada, negativa, como está em toda a unidade, na verdade.

Meu estômago dói, minha ATM dói. Minha cabeça não para – mas que ideia de jerico foi essa, Lucas? Puta merda, como sair desse mato sem cachorro agora??? Saco viu.. Mas que dor de estômago!!

E os problemas se acumulam, se aumentam, a cada 3 reclamações, criticas, uma é do gerente, uma é da organização da unidade, ou desorganização(?), e outra da falha de comunicação de todos. De vez em quando vem uma ou outra coisa diferente (raramente…).

Começo a olhar nos olhos de todos, ver o que todos estão sentindo, se passando, tentando ler suas mentes. Raiva, decepção, desejo de ir embora, angústias com todo o processo. E a esperança, ninguém ali com esperança de mudança!! Tristeza que aperta ali no fundo, será que só eu tenho esperança de melhora aqui?

Depois de muita coisa ruim, muita chateação, começam a surgir ideias, propostas, formas novas de organizar algumas coisas que ficaram para trás (os prontuários – acho que já falei dele alguma vez anteriormente..). Pronto, ali, um gancho para falar de gestão compartilhada, de assumir responsabilidades, de ser um dos agentes da mudança, de comunicação da equipe! Durou pouco, resolvido o problema de organização dos prontuários, logo volta ao tema principal, o “chefe”.

Ai a frustração, a raiva, a tristeza, só pioram, a dor volta (somatização do caceta!!). Nem todos os dias são flores, nem todos os pacientes são bons, nem tudo dá certo, mas ainda tem uma coisa dentro da Caixa de Pandora, esta que está sempre presa ali, o único mal que ficou – a esperança.

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