Toninho

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Tem pacientes que a gente se apega. Toninho era um deles. Há cerca de 4 anos o visitava freqüentemente. Idoso frágil, 85 anos, polimorbidade ,polifármacia, polimédicos. Muito bem cuidado pela esposa e sua filha mais velha.
Toninho sempre tinha um sorriso no rosto, era alegre e gostava de cachorro, era palmeirense e gostava de café e água de coco.
Sujeito gente boa, que graças a Deus, pude ajudar algumas vezes. Insulinizei, prescrevi, desprecrevi, drenei hematoma no cotovelo, encaminhei para operar a catarata…
Estava eu ali mais uma vez. Toninho estava dormindo no sofá. A filha me diz:
– Ele tomou banho para te receber. Mas ultimamente fica cansado por qualquer coisa.
O cabelo estava molhado e seu cachorro deitado a seu lado.
– Então! Doutor só me sobrou você. Fui no cardiologista falei que o pai estava desmaiando. Ele apaga, às vezes só para ir no banheiro. Ele fez um teste. Depois que o papai ficou deitado ao se levantar perdeu os sentidos. Isso acontece frequentemente. Ele disse que a culpa era do remédio da cabeça e os da ansiedade. Disse para conversar com neurologista para ele tirar. Fui no neurologista e ele disse que a culpa era dos remédios do cardiologista, o que faço?
– Temos um diagnóstico de hipotensão ortostática. Deixa eu conferir esses remédios. Esse medicamento é novo eu não conheço muito bem. Deixa eu ver a bula… efeitos adversos…hipotensão. Interessante. Menos um, vamos parar com esse.  Seu pai está bem controlado daquelas crises que ele teve de agitação. Podemos reduzir a dose desse aqui também. Os remédios do coração é difícil mexer, pois a insuficiência cardíaca do seu pai é grave. Ele está com quanto de diurético?
– Ele estava com 4. Liguei para o Cardio ele baixou para 3 ontem depois que o neuro não tirou os remédios.
– Então já deve ajudar. Ele está sequinho olha a perna.
Toninho começou a acordar. Deu aquele sorriso bobo como de costume.
– Estávamos falando do senhor. Eu disse em voz alta, aproximando-se do seu ouvido.
– Bem ou mal?
– Eu estava falando para ela, para a gente tirar um pouco desses remédios o que for possível.
– Graças a Deus! Por isso que eu gosto do senhor.
– Deixa eu olhar aqui as costas. Ele está com os pulmões limpos, podemos manter 3 comprimidos de diurético.
– Ele está me pedindo para eu levar ele para ver a irmã dele doutor. Ela está fraca e ele quer muito vê-la.
– Olha acho que devemos levar muito a sério um pedido desse e fazer o que podermos para realizar.
– É cerca de 3 horas de carro.
– Vamos ver como ele fica esta semana. Se para com essas síncopes e queda de pressão. Acho que uma meia elastica também pode ajudar, até na viagem. Coloca pela manhã nele, vamos ver se ele se habitua…
Toninho ficou bem a semana toda. Também animado para ver a irmã. Viajou e retornou em segurança. Eu o visitei algumas outras vezes até seu falecimento a cerca de 1 ano.
E é com carinho que eu o homenageio neste singelo causo.

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