A morte da calopsita

por Alfredo de Oliveira Neto

miro3(Mujer y pájaro a la luz de la luna, Miró, 1949.)

Um dia fui fazer uma visita domiciliar na Tijuca que abalou minhas certezas, ou suposições, sobre como o mundo deve girar sobre o seu eixo.

Psicóloga há 24 anos, atuante em consultório, conseguiu reservar economias para comprar um apartamento, onde mora há 10 anos. Não casou e nem teve filhos, conviveu desde então com 5 calopsitas.

Foi demitida de um emprego e o consultório começou a minguar faz uns dois anos. No início do ano passado fechou o consultório e trouxe todos os móveis e livros para a sala de seu apartamento de 67 m².

Desde que sua mãe faleceu há 4 anos vem amargando uma tristeza que se ampliou com o abismo financeiro. Perdeu o contato com todos os irmãos.

Como também é bacharel em direito, foi atrás de recursos, estava sem nenhuma renda, e conseguiu uma bolsa-família. Sim, aquele benefício que até então, pensava eu, nenhuma família moradora de um apartamento na Tijuca jamais precisasse, e caso fosse, não teria direitos pois certamente nos morros do Borel e do Formiga haveria centenas de famílias mais necessitadas. Culturalmente conservadores, muitos tijucanos, pensava eu, inclusive são contra o bolsa-família, consideram uma esmola assistencialista desnecessária, muitos bateram panela contra o governo que associou este benefício como uma de suas marcas. Só que não.

Não só recebe 85 reais mensais do bolsa, como também é ajudada por um Centro Espírita próximo à sua casa que lhe fornece uma cesta básica mensalmente. E só.

É completamente lúcida, sabe que não durará muito apenas com feijão, macarrão e arroz e por isso já tentou suicídio com medicações, sem sucesso. Com 57 anos, não possui a menor perspectiva de como ampliar a renda, já tentou voltar a atender em sua sala, mas supõe que a condição em que vive – organização da casa, auto-higiene e saúde abalada afastaram os últimos clientes. A sua lucidez é um castigo.

Há alguns meses sofreu uma queda da própria altura, vem se sentindo tonta, o que reforçou o medo prévio de sair de casa. Sai apenas uma vez por mês para ir à lotérica receber o benefício.

Diz não comer uma fruta ou proteína há muito. Obviamente diz que sim, passa fome.

No entanto, o que mais a abalou recentemente foi a morte de 1 de suas 5 calopsitas. “Morreu de fome”. Desde então decidiu passar um pouco mais de necessidade para garantir a parte do feijão, macarrão e arroz para as quatro calopsitas restantes. Neste momento da visita, ouvimos uma longa cantarolada das aves que moram numa gaiola na cozinha. “Tá vendo? Elas sempre sabem quando eu falo delas…”

Voltei dirigindo para casa em silêncio sepulcral, não ousei ligar o som e nem conferir o zap, o meu mundo estava em franco processo de reequilíbrio à procura de outro eixo.

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