Beatriz, Joana ou Acácio

por Marina Galhardi

‘Você vai só renovar a receita ou vai consultar?’ – perguntou Beatriz, mas bem podia ter sido Joana ou Acácio.

Desde quando nos tornamos renovadores de receitas?

Veja bem, renovar a receita aqui na sua frente e não perguntar minimamente o porquê do uso dessa medicação ou como você está, seria total perda de tempo de ambos. Porque não renovo então na sua ausência, se é só para renovar? 

Acontece que eu não conhecia a pessoa e o medicamento em questão, psicotrópico, não vinha sendo usado há mais de um ano. Não temos mesmo outra opção, se não ‘consultar’, minha querida. 

O fato é que queria a medicação porque teve uma crise recente, no último fim de semana, em que fiquei muito muito ansiosa – eu sempre fui muito ansiosa – até vomitei, não conseguia dormir por nada. Tomei dois comprimidos desse  remédio aí, da mãe, e não adiantou. Ah, porque o Dr. Fulano já conhecia a nossa história, deu o mesmo remédio para nós duas. Tomei também uns pedacinhos dessa outra medicação aqui, um amigo me deu – outro psicotrópico – por uns dias, para conseguir dormir. E agora quero voltar a tomar esse remédio, não consigo ficar sem ele.

Entendendo. Mas o que aconteceu para desencadear essa crise?

Parece um pouco preguiçosa: tenho mesmo que falar, o Dr. Fulano só me dava a receita, ah, me desentendi com a minha mãe.

Sigo escarafunchando aqui e ali. Porque é que as pessoas não querem falar do que incomoda, não querem contar sua história e querem medicações que as ajudem a lidar com ela. Curioso. Essa foi a sociedade que a gente construiu?

Encurtando a história: a mãe há 5 anos, desde a partida do pai, estava um pouco amarga demais, agressiva vez ou outra, passava horas na internet vendo sobre coisas políticas e se queixando aqui e ali o tempo todo – eu entendendo, não está fácil – a filha que era a única que morava com ela, a mais próxima, não aguentava mais, ficava irritada e ansiosa demais nessa convivência com a mãe. O médico então tinha dado um remedinho para elas duas, assim se davam melhor, se incomodavam menos. Já pararam aí para pensar como temos medicado nossas relações?

Para eu não me incomodar com o outro eu tomo uma pílula. Uma solução boa essa ne, quem foi que inventou?

Bem, sigamos, perguntas me ocorreram várias, mas me concentrei em dizer: parece que você teve um bom motivo para ter uma crise de ansiedade, não é mesmo? e ficou um ano sem medicação e vinha vindo bem, o que você fez esse ano?

Ah, passei mais tempo com a minha mãe, as vezes via uns filmes com ela para ela sair um pouco da internet.

Eu sei que essa crise foi muito intensa e você tem medo de ter outras, mas percebe que a medicação não ajudou nela, você mesma disse, e você sobreviveu mesmo assim, está aqui agora dias depois conversando comigo tranquilamente.

É mas acho que não vou conseguir, preciso dessa medicação.

Foram muitos minutos de conversa e de tentativa de re-conhecimento ou re-conexão. Usei metáforas clichês como a sujeira debaixo do tapete, ou a muleta, ou qualquer coisa que o valha. Ridículo, eu sei. Acabei dando o tal remédio junto a uma lista de dicas sobre ansiedade e clínicas de psicoterapia populares. Duvido que tenha adiantado alguma coisa, juro. Me frustrei.

Se esse fosse um atendimento isolado na vida eu nem ligaria. Mas não foi. Tem sido isso todos os dias.

Porque você toma essa medicação? A maioria das pessoas se choca com a pergunta. Como assim? Outras respondem um genérico “sou muito ansioso”, e quando eu pergunto, e como é sua ansiedade? se chocam novamente e não conseguem uma resposta que faça sentido. Desculpe, mas não faz. Tem ainda um terceiro grupo de pessoas, mais seleto, que me explica para que serve a medicação com palavras bonitas e científicas até. Veja bem, eu sei para que serve (na maioria das vezes, se não pesquiso), o que quero saber é se realmente serve para você.


Uma outra paciente outro dia veio nas mesmas condições: renovar uma medicação. Precisava muito dela, mas ela não estava fazendo mais efeito para dormir. Propus mudarmos a perspectiva. E porque é que você não dorme? Outro choque, nem ela sabia. No fundo sabia sim, estavam engavetados todos os motivos que ela não queria olhar, mas queria sim uma medicação que nem funcionava mais. Tentei inclusive propor outra medicação. Mas não. Me digam, porque alguém quer uma medicação que nem funciona mais?


A verdade é que viver dói, imensamente. E não estamos podendo doer. Precisamos estar sempre alegres, sorridentes e não temos espaço para dizer do que dói. Você já deve ter tido aí essa experiência de tentar conversar com alguém, com um amigo, qualquer pessoa sobre algo que não tem te feito bem, quantas dessas pessoas conseguem fazer uma escuta empática? quantos conseguem não dar conselhos, não contar de si, e não se esquivar te mandando para uma terapia? Raríssimas, mesmo. E no futuro distópico elas nem vão mais existir.


Nesse contexto, talvez eu não traga esperança nenhuma. Sigo o caminho de formiguinha de tentar perguntar, ei, o que é exatamente que vai mal na sua vida? As pessoas vão mal em trabalhos de que não gostam mas pagam suas contas. Vão mal em relações que não suportam, mas melhor do que ficar sozinho. Vão mal porque comem mal, dormem mal, não sabem nem do que gostam ou o que desejam. Quererem apenas não sentir. 


A crise é boa, é potente, ela traz transformações. Sigo acreditando, ainda que só.

2 comentários sobre “Beatriz, Joana ou Acácio

  1. Já saem da faculdade com essa premissa. Porque o remedinho age mais rápido, toma menos tempo…até fazem uso próprio. Mas eu também não desisto. Já somos duas formiguinhas…

    Curtir

  2. Gostaria de ser atendida por uma médica que me ajudasse a encontrar soluções ao invés de remédios, como você. Que tivesse uma escuta empática verdadeiramente, pois, atualmente, nem os psicólogos têm mais (principalmente eles, eu acho). Amei seu olhar, seu texto, tudo. Um abraço grande e gratidão por compartilhar, nunca desista de ser quem você, por favor!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s