Depois do medo

Somos Todos Um | Somos Todos UM

por Deborah Silva

Depois do medo, a COVID-19.

Ela chegou sorrateiramente, driblando todos os artifícios que adotamos: lavar as mãos com água e sabonete, após o álcool gel; sair, só para ir ao mercado e farmácia, usando máscara, ficando o menor tempo possível em locais que comumente geram aglomeração de pessoas e mantendo as orientações de distanciamento social.

Dia seguinte à sua invasão, foi aniversário de meu irmão. O abraço foi através da porta de vidro; não teve bolo de aniversário. Ele passou esse precioso dia de cama, com febre, nauseado; nada além do chá com
mel ele ingeriu naquele dia. Meu medo se tornou preocupação, com ele, comigo, com nossa mãe idosa. Com todas as precauções que pude, fiz o que faço de melhor: cuidar. Cuidei de suas refeições, de sua hidratação, conversando por aplicativo a cada meia hora, mandando mensagens de “tudo vai ficar bem”.

Dia seguinte, acordei meio estranha, uma dor no corpo, dor de cabeça. “Mãe, acho que peguei também”. Vai descansar, disse ela, que eu cuido de vocês dois. E eu fui, me isolei ao máximo no meu quarto. Travei a luta contra o medo. De onde veio, não sei, mas sobreveio uma coragem suficiente para enfrentar aquela dispneia, acompanhada de taquiarritmia e uma estranha diaforese. Fui à UBS, a duas quadras de casa, e não queriam fazer o teste, pois não tinha tido febre aferida. Insisti. Agendaram o teste rápido para a outra semana. Eu agradeci e voltei pra casa, levemente desapontada. Não fosse o entorpecimento da fase aguda da COVID-19, eu teria discutido baseada em evidências com a pessoa que me atendeu para realizar naquele mesmo dia o PCR. Meu irmão fez o PCR assim que adoeceu; o resultado demorou uma semana para sair. Positivou. Meu teste rápido deu negativo. Três dias depois perdi o olfato e o paladar.


Gradativamente nós dois fomos melhorando e pela graça de Deus nossa mãe não adoeceu. Após um mês de quarentena total, pudemos novamente começar a circular (com os mesmos cuidados iniciais) como antes. Comemorei meu aniversário mesmo estando só eu e a mãe em casa. Sentindo-me bem, naquela semana, aproveitei minha ida a Joinville e fiz o teste IgG e IgM para COVID-19; IgG positivo. A gente acha que o pesadelo tinha acabado, mas esquece que a COVID-19 tem suas fases.

Na quinta semana da doença, uma semana após meu aniversário, numa sexta feira, próximo das 22 horas, tive forte dor na cabeça, acompanhada de tontura e náusea. Pensei: pronto, só faltava essa, tive um AVC. Se eu piorar na próxima hora, chamo minha mãe para irmos a Joinville fazer exames. Tomei um analgésico e a dor aliviou; dormi. No dia seguinte, percebi melhora na cefaleia, porém com uma certa dificuldade para andar, bem diferente da dificuldade da crise de ataxia. Achei estranha a minha mão direita, parecia que não me pertencia e ficou ainda pior subir e descer as escadas. Dia subsequente, franca crise de ataxia. Braço e perna direitos com fraqueza desproporcional; a descoordenação motora foi intensa. O medo voltou em forma de assombração de uma possível sequela neurológica. Chorei muito. Alguns copos escaparam da minha mão e se quebraram; não consegui escrever por alguns dias.

Reiniciou-se então a rotina de consultas, exames, terapias e repouso. A crise durou uns 20 dias. A assombração da sequela trouxe junto uma outra assombração: a da incapacidade laborativa. A cada 15 dias, novos sintomas de ataxia; nunca houve uma frequência de crises em tão curto espaço de tempo. A palavra sequela pousou na minha lista de comorbidades e dali não quis mais sair. Minha mente entrou em um estado confuso, assombrado pelo medo da incapacidade laborativa. Logo agora que terminei a Residência, pensei… logo agora… logo agora! As terapias foram me fortalecendo e, afinal, a COVID-19 chegou lá em casa apesar das medidas de precaução.

Até que… meu irmão contou que, em seu plantão, seu colega de turno foi trabalhar sintomático e aguardando o resultado do exame (pois, afinal, estava se sentindo bem e a COVID-19 é só uma gripinha). Não bastando, compartilharam o mesmo alojamento. O vírus não chegou lá em casa por acaso, mas por irresponsabilidade de um médico. Nesse momento fui tomada de raiva e mágoa, como aquelas experimentadas decorrentes das mais graves traições. Agora, no quarto mês de reabilitação, já me sinto quase como antes da COVID-19. Ainda tenho medo de não poder mais trabalhar, medo de precisar terminar minha carreira com apenas 15 anos de prática. Mas ainda luto contra os sentimentos de raiva e mágoa por você, caro colega, que também adoeceu de COVID-19, que também teve suas sequelas, mas que foi irresponsável o suficiente para ir trabalhar sintomático.

Assim, termino meu texto com o exercício mais árduo de toda minha reabilitação: que você, caro colega, seja feliz; que você, caro colega, não sofra; que você, caro colega, encontre as verdadeiras causas da felicidade; que você, caro colega, supere todas as causas do sofrimento; que você, caro colega, supere toda a ignorância, carma negativo e negatividades; que você, caro colega, tenha lucidez; que você, caro colega, tenha capacidade de trazer benefício aos outros seres e que você, caro colega, encontre nisso a verdadeira felicidade.

Eu quero gozar!

por Arthur Fernandes

O Que É Erupção Vulcânica? | Mundo Ecologia

Terça, 15h é um bom horário para conversar sobre climatério com uma mulher de 48 anos na UBS. A consulta teria que ser algo breve porque, apesar de agendada com antecedência, aquele dia estava sendo corrido. Gestão do tempo, que fala? Ouvi boatos que sim, o tempo da consulta/turno/agenda está sempre sendo reavaliado.
Voltemos ao climatério.
– E aí, dona Berta, o que manda?
– Então, primeira vez aqui com o senhor, né. Eu vim pedir uns exames, um check-up completo, porque faz muito tempo que não faço nada.
– Aham, tudo bem. E a senhora tem algum problema de saúde, usa algum remédio?
– Não, nada.
– Bebe? Fuma?
– Bebo só nos fins de semana. Mas fumo que nem uma condenada. E num ria não! 😂
– Oxe! Que nem uma condenada? 😂
– É, fumo umas 2 carteiras e meia, desde meus 14 anos. – Berta tinha 48 anos. – Já disse pro senhor não rir! 😂
– Mas meu Deus, e por que isso? 😂
– Porque eu vou ficar toda xixada rindo também! 😂
É óbvio que eu estava rindo. E muito. Não dela, claro, mas com ela. Voltando.
– E era disso mesmo que eu queria falar. Eu tô ficando toda xixada. Não posso, rir, chorar, tossir, nem nada, que a urina sai. Até de noite, algumas vezes. Acordo toda molhada e fico puta da vida.
– E desde quando isso?
– Tem uns 5 meses.
Conversamos mais um pouco sobre essa queixa e combinamos alguns exercícios de fisioterapia para a pelve, a princípio.
– Algo mais para hoje?
– Eu queria saber só mais uma coisa. Por que eu não gozo?
– Não goza? Como assim?
– Meu marido tava viajando a trabalho há 4 meses, voltou semana passada. Transamos todos os dias. Ele goza. E eu não.
– Sei… e isso já era assim antes?
– Não, antes era ótimo, doutor. ÓTIMO. Pense. Eu gozava normal. Aliás, eu gozava era muito. E agora: nada!
– Hum. E ele? Como está nisso?
– Eu acho que ele tem algum problema.
– Por quê?
– Porque antes era normal. Agora ele goza rápido e depois dorme. Parece que morreu.
– Mas às vezes era saudade acumulada desses meses, não? 😂
– É, mas eu já tô matando a saudade faz uma semana e nada! Ele esfrega aquele negócio em mim e goza. Assim não dá!

Riscos laborais

por César Monte Serrat Titton

Coronavírus: ônibus lotados preocupam passageiros em meio à pandemia

Junho: enquanto eu atendia Maria por dores nas pernas, ela me explica que segue trabalhando como empregada doméstica durante a pandemia e que não tem sido possível manter distanciamento no ônibus e no trabalho – aliás, ela conta que o patrão costuma vir tossir perto dela, de propósito, “brincando”: “olha o corona!” – o que lhe parece apenas uma brincadeira sem graça, e que ela não teria o que fazer a respeito… Converso sobre o risco disso, e talvez sobre usar máscaras no trabalho, mas não se sente a vontade para tal. Hesita quando indico atestado para três dias de afastamento para tratar das pernas pelo medo de perder o emprego e “porque eles não conseguem ficar sem mim”…

Julho: numa manhã em que eu estava na sala da Unidade de Saúde dedicada para atender suspeita de Covid-19, chega Maria, com tosse e falta de ar… Quando pergunto se teve algum contato com alguém com Covid-19, ela explica que o patrão foi internado, “mas disseram que é por uma pneumonia que não é do coronavírus” – embora ela desconfie que possa ser… Dessa vez, quando ela conta de novo de quando o patrão tossia perto dela de propósito, o tom passou a ser de indignação. Aceita atestado para completar afastamento de 14 dias sem problemas.

Agosto: Maria volta, já quase totalmente recuperada de Covid-19, que chegou a ficar de intensidade moderada, não precisou internar. Esteve duas semanas sem trabalhar e melhorou das dores nas pernas mas, assim que voltou a lida, voltou a ter a dor nas pernas, agora também nos pés. Pergunto dos familiares, seu filho até teve sintomas respiratórios leves, mas já melhorou. Aí ela conta que o patrão morreu – de Covid-19 mesmo… 

Contato físico

por Maria Carolina Falcão

Isolamento Social | GPET Física

“Dor no pulmão, sensação febril, calafrio e dor de cabeça”.

Assim chega a segunda paciente do dia, relatando suas queixas para o profissional da triagem. Paciente direcionada à sala de isolamento para atendimento, uma vez que seus sintomas são compatíveis com infecção pelo novo coronavírus.

Entro na sala e percebo um rosto (ou meio rosto, já que agora estamos aprendendo a reconhecer os outros pelos olhos) conhecido. Tínhamos nos visto há 5 dias., sem sintomas desse tipo. “Oi doutora Carol, sábado começou do nada uma dor de cabeça, um mal estar danado… Sinto um negócio aqui que nem sei” dizia, massageando o peito e pescoço. Peço para explicar de novo, como/quando tinha começado, se faltava o ar, se precisou tomar medicação.

“Começou logo depois que vi meu neto no vídeo. Ele fez assim com a mãozinha, chamando ‘vem vovó’ e eu não pude ir, doutora. Eu não pude ir…” Diz, com os olhos marejando. “A minha nora ficou com medo, sabe? Botou o menino debaixo do braço e carregou de volta pra Paraíba. Ele nasceu lá em casa, eu apertava ele aqui nos peito todos os dias”. A essa altura, já afastava pelo exame físico básico qualquer sinal de falta de ar preocupante, febre ou alteração na pressão. Pergunto o que tinha feito depois disso. “Ah, eu acabei não deixando chorar o que precisava na hora e acho que fiquei com dor de cabeça por isso” desceu a primeira lágrima. Entrego uns lenços de papel, querendo saber qual era o problema em chorar. “Aqui num tem, né?”, aperta os olhos, deixando o choro vir.

Questiono sobre a dor no peito: “Eu tô é sentindo um vazio, um aperto. Mas quando eu respiro dá uma melhora… Eu posso estar com o corona?” Pondero se pode ser falta do neto, falta de contato. Ela diz que sim. “E pior é que não tem remédio pra saudade. O remédio mesmo é agarrar ele. É colocar o menino aqui ó, dentro do peito. Saudade matadeira, doutora. A pior que tem”, seca as últimas lágrimas.

Hipótese diagnóstica: saudade matadeira. A pior que tem.

Oriento sobre manejo do distanciamento social, sobre sinais e sintomas do novo coronavírus, sobre as indicações de retornar à clínica ou procurar assistência. Pensamos em ferramentas pra diminuir a distância, pra contornar a falta.

“O vídeo não é a mesma coisa não… mas é o jeito” dá de ombros, agradece e se vai. Fico pensando em quando ela vai conseguir ter o remédio que precisa, esse tal de contato físico. Esse aperto no neto, pra preencher o vazio que ficou com o isolamento.

Ironia

por Ezequiel Fernandes

Significado de ironia: veja a definição e conceito dessa palavra

Queria uma palavra que pudesse

Descrever toda essa pandemia

Não sei bem o porquê, mas só consigo pensar em ironia

Talvez porque tudo o que hoje acontece

É o contrário do que pra o mundo eu sonhei,

Algo que beirasse a utopia

Jamais imaginei ter que atender na UBS

Sem poder apertar as mãos ou abraçar

E, disfarçado, ter que dar bom dia

E, disfarçando, esconder o sentimento de histeria

Torcer pra que o oxímetro no dedo da pessoa

Traga as boas novas de que ela só precisa ir pra casa,

Ficar com a família e agradecer por mais um dia

– Tenho muita tosse, doutor!

– Sinto muita febre e falta de ar!

– Não sinto o cheiro e o gosto de mais nada!

– O que pode me curar?

Parece mesmo ironia, mas eu também não sei

Qual o melhor remédio pra te medicar

“Só sei que nada sei” nunca fez tanto sentido

E, se algo tem me deixado feliz, é não saber

Porque por não saber tanto quanto você

É que eu posso te consolar

Eu sei o que você sente e, também, não sei o que fazer

Mas minha escuta está além da minha ausculta

E é com isso que eu vou te ajudar

É o que tenho dito, é o que tenho feito

É o remédio que tenho para usar

Saber nada nunca foi saber tanto

Não poder fazer nada nunca foi fazer tanto

É o que tem nos ensinado a pandemia

Que em meio a esse caos

Nada importa tanto

Quanto ao outro se igualar

E praticar a empatia

Uma das experiências mais difíceis que a medicina me proporcionou

por Leonardo Cardoso

Divagar entre PINTURAS e outras ARTES: Um Abraço em Pinturas

-Boa tarde, D. Ester? Meu nome é Leonardo e falo em nome da Secretaria Municipal de Saúde, tudo bem?
-Tudo, meu filho. Na verdade, não.

Ela me fala sobre o internamento do filho, a descoberta que ele estava com coronavírus e sobre o dia em que ele partiu. Conta-me que seu outro filho veio para cá para cuidar dela na última semana e que no dia em que conversamos haviam feito o teste para pesquisa do Covid. O dele negativo. O dela positivo.

-Meu filho, estou com medo. Estou com alguns sintomas. Tenho medo de piorar. Medo de contaminar meu filho. Medo de morrer. Medo de perder ele. Eu acabei de perder um filho.

Esqueço tudo o que está ao meu redor. Essa ligação é diferente de todas as outras que recebi nos últimos meses. Pergunto sobre problemas de saúde, confirmo os sintomas e algumas informações necessárias. Explico como iremos ajudá-la.

-D. Ester quero novamente colocar nosso serviço à disposição da senhora. Pode ficar a vontade para ligar se precisar.

-Muito obrigado, meu filho.

-E D. Ester, eu queria dizer pra senhora que não posso imaginar o que a senhora está sentido, por que eu acredito que apenas uma mãe que perde um filho pode mensurar essa dor…

A senhora do outro lado da linha começa a chorar. Um choro sincero. Um choro doído. Um choro que só me faz pensar em como queria abraça-la neste momento.

-Mas, quero dizer pra senhora que estou aqui se a senhora precisar. Quero que saiba que nesse momento eu peço que Deus esteja confortando e consolando seu coração.

Chorando, ela diz que questiona o porquê de Deus não ter levado ela no lugar dele.

-Eu entendo a senhora. É normal as dúvidas surgirem. Mas, se tem uma coisa que tenho aprendido ao longo dessa caminhada que escolhi é que nada acontece por acaso. E eu acredito que seu filho está num lugar tranquilo agora, em paz, e que um dia vamos todos nos encontrar.

-Meu filho era muito espiritualizado. Muito bom. Ele está sim.

Aos poucos ela vai parando de chorar.

-D. Ester, se a senhora me permitir, posso colocá-la em minhas orações?

-Pode sim, meu querido. Você faria isso?

-Farei, sim. É uma forma de estar perto da senhora neste momento em que não podemos estar tão próximos e nos abraçar.

-Ah, meu querido. Muito obrigado mesmo! Foi tão bom falar com você. Que Deus o abençoe, sua caminhada, seu trabalho.

Nos despedimos e quando desligo o telefone um turbilhão ocorre em minhas emoções. Seguro. Nem sempre podemos dar vazão a nossas emoções no exato momento em que elas vêm. Há vários outros pacientes aguardando por um atendimento do outro lado da linha.

Saio do trabalho e continuo pensando em D. Ester. Existem alguns pacientes que mexem com a gente de forma especial. E quando sento para escrever sobre sua história, já no fim da noite, dou vazão as minhas emoções. Lembro dos meses em que acompanhei D. Júlia e de como chorei enquanto escrevia sobre ela. O mesmo ocorre agora quando escrevo sobre Ester. Choro. Por ela. Por sua perda. Por não poder abraça-la. E peço apenas que Deus a abrace por mim.

Confidencial

Pensei que fosse doença da Idade Média': o novo avanço da sífilis no mundo  e no Brasil - BBC News Brasil

por Ricardo Mannato

“Boa noite, como posso ajudar o senhor?”, ele me perguntou do outro lado do balcão da pizzaria. Meus olhos, vidrados nas mil opções de sabores do cardápio, se voltaram para o caixa e puderam captar o exato momento do reconhecimento – um milésimo de segundo. Ele, subitamente acuado, como uma presa no instante que precede o abate, arregalou os olhos, manteve-se estático, me encarou profundamente e consentiu com a inevitabilidade de seu destino entregue às minhas mãos. Eu, transvestido na pele do algoz, segurando um poder que me foi imposto, vi o desalento perpassar pelas suas retinas mais uma vez e perdi a voz. 

Não tinha dúvidas de que eu reconheceria aquele olhar em uma multidão, mesmo que tanto tempo depois – um ano. Abri a porta do consultório da Clínica da Família, chamei seu nome e o jovem rapaz, da mesma idade que eu, um pouco mais alto e loiro, de camisa vermelha e boné azul, sentou à minha frente.

“Bom dia, como posso ajudar o senhor?”

Uma alergia de pele que não passava por nada, já estava o irritando há um mês e só piorava. Trabalhava como pizzaiolo e o chefe tinha trocado ele de posição; não poderia deixar um funcionário com lesões tão aparentes na pele trabalhar com a produção de alimentos. Agora, estava montando caixas de entrega, aceitando os pedidos pelo aplicativo e fazendo as tarefas administrativas, mas gostava mesmo era de botar a mão na massa, literalmente. Precisava de ajuda.

Manchas vermelhas pouco maiores que uma moeda de um real pintavam todo seu corpo, com pouco espaço entre uma e outra. Nada de alergia: sífilis. De volta à mesa e, quando indagado, respondeu que sim tinha prática sexual, poucas vezes sem camisinha, mas estava numa secura pior que o sertão de onde veio, risos. Topou fazer os exames, descontraído, só pra afastar a hipótese. 

Tão logo, com os resultado em mãos, eu segurava más notícias: sífilis e HIV. Lembro de chamar a preceptora e, juntos, acolhê-lo no consultório. Lembro dos seus olhos no chão, do seu rosto instantaneamente vermelho, dentes rangendo, mãos na cabeça e do riso agônico, gutural, incrédulo. Do silêncio. O mundo parou e só existíamos nós, o resultado e as quatro paredes. Negação, frustração, raiva, medo, dúvidas, coragem, aceitação, tudo em segundos, minutos. Ergueu a cabeça e nos olhou com seus olhos marejados, conformado. Bola para frente, eu vim do interior do Ceará para poder ser quem eu sou por inteiro aqui no Rio. Se é isso que a Vida colocou no meu caminho, vai ser só mais uma barreira que vou quebrar.

Nos abraçou, agradeceu, iniciou os remédios. Seguiu sua vida e eu a minha. E ali, nos encontrávamos. Eu, ele, a informação, o cardápio. O fio que conduzia nossa narrativa estava solto no ar e não cabia a mim amarrá-lo. Sabia de um segredo, talvez o maior de sua vida, e estava do outro lado do balcão, aflito com o poder e a responsabilidade do reconhecimento. Ele olhava para os lados, buscando alguma saída, como se temeroso com algum escape meu. Ou talvez também tenha revivido nesse segundo todas as cenas do nosso último encontro. Respirei, sorri brevemente um sorriso de “claro-que-me-lembro-e-só-espero-que-você-esteja-bem” para tentar alcançá-lo sem palavras. 

“Pode ser marguerita. No débito, por favor. Obrigado.”

Ele assentiu, esboçou um sorriso tímido – aliviado. Nossa interação acabou ali: dois minutos. Sem presas ou predadores, apenas dois personagens de um encontro íntimo e que agora compartilhavam de um acordo invisível, tácito. Confidencial. 

O caso social

por Gabriela Beites

Crack - efeitos, produção, dependência - Drogas - InfoEscola

O dia já começou cheio, uma retaguarda do pronto-socorro lotada. Muitas pessoas com doenças respiratórias, situações graves. “Paciente indo pro tubo” (ou seja, pessoa em condições respiratórias ruins, precisando de uma intubação orotraqueal). Quase final do dia, residentes e chefes manejando os casos mais graves que chegavam, internos tentando ajudar como dava. Chega paciente na emergência. “Interna, vai lá colher a historinha e fazer a admissão”. “Ih, é caso social, pesado”. “Usuário de droga”. 

“Oi, médica. Eu to bom, eu to bom, cadê a tia Angela*”, “tira a mão de mim”, “médica, eu sei escrever meu nome”. 

“Dona Angela, o que houve com o Alan*?”

“Apareceu no CAPS, tinha usado 40 pedras, tá com pneumonia, o médico de lá achou melhor transferir”. 

“Médica, não vou ser internado não. Se me internar, eu saio de lá pior, o tio Tadeu que falou. Eu to bom, eu to bom. Não precisa. Cadê minha vó?”

“Calma, Alan…”

“Médica, eu vou tomar remédio na veia? Cadê minha vó? Vou embora daqui. Não me segura.”

“Alan, calma… preciso saber se só usou pedra”.

“Não, uso pedra, maconha e tinner… não gosto dessas coisas de injetar, isso não faço não”

Aglomeração na sala, “chama assistente social”, “deixa fugir”, “não vou correr atrás de paciente não”. 

“Olha aí, minha vó chegou. Oi, vó! Eu to bom!”

Avó cansada, mais três pra cuidar, “manda chamar o traste do pai dele”. Corre a assistente social resolver. Interna pra tratar a pneumonia. Será que é tuberculose?

“Médica, eu usei 40 pedras na segunda, eu to com abstinência, tem que me dar remédio”, “Médica, vou ficar aqui? Posso tomar um banho? Quero tomar banho! Tem mamadeira? Quero leite com chocolate”

Internação, passar o caso, pedir pra medicar, pedir pra nutrição avaliar, pedir leito de isolamento, ir embora.

Dia seguinte, hora da visita com residente e chefe. “Manda embora, não da pra segurar aqui não”, “Cadê o pai?”, “Assistente social já viu?”. Chega assistente social. “Manda embora”, “não tem condições de segurar”, “é risco pra outros pacientes”. Interna desesperada “mas gente, espera! E a pneumonia? Ele tá doente! Tem que tratar! Depois vai embora!”… conclusão: vamos transferir, mas cadê o pai pra acompanhar?

Chega o pai. Tudo calmo. Ele pede a vó. A vó está na recepção. Corre pelo corredor, quer a avó. Segurança leva ele de volta pro quarto. O pai fecha a porta e dá tapas na cara dele, fortes. Todos olham, ninguém, NINGUÉM (nem o segurança), intervém. 

Interna chega, presencia a cena, entra. Já chega. “Senhor, com licença”, Alan aos gritos, o pai foge. 

“Médica, não me abandona. Meu pai é um monstro. Ele e minha madrasta. Ele me bate. Quando sair daqui vou me afundar nas drogas de novo”. Abraço forte, choro desesperado, tenta achar a calma no aperto e na mamadeira. 

Chocante. Triste. E eu nem cheguei na pior parte. 

Alan, negro, 12 anos, usuário de crack há 3 anos, viciado em tinner desde os 7 anos, ninguém sabe quando começou a usar maconha. 

*Nomes modificados para preservar os envolvidos na situação 

Mas, tem certeza?

porAna Paula Lemes Martins

“Medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade”

Uma simpática senhorinha de unhas rosas, bem feitinhas, com glitter. Vem em cadeira de rodas, mas porque vem sentindo dor no pé: não suporto pisar no chão, doutora.


Escuta e interrogatório feitos. Exame físico realizado.


Resumindo: ela foi acometida de dois AVC (Acidente Vascular Cerebral) isquêmico há 8 meses e, desde então, tem crises de perda de consciência e vômitos associados. A família achava normal, até porque “ela é exagerada, doutora”.
Eu também queria achar que era um exagero. Mas o fato é que a senhorinha de unhas rosas ficou com sequela do AVC e tem agora epilepsia. Teve ao início, crises leves, porém apresentou há dois dias da consulta, uma crise generalizada. Tanto que quebrou o tornozelo, quando passou mal no pronto socorro (como foi isso, Deus do céu? – pensei)
Ela e a filha fitaram meu olhos por um tempo.

A filha: tem certeza que é epilepsia?

Eu: certeza, certeza absoluta eu não posso afirmar, mas quando juntarmos tudo que me contaram e as respostas ao que perguntei… sim.. a chance é grande de ser epilepsia. Vamos fazer um combinado? Eu prescrevo o remédio e a gente vê se melhoram esses problemas. O que acham?


A senhorinha de unhas rosas respondeu: Mas, tem certeza?
Então veio peso da certeza que jamais teremos: na medicina, como no amor, nem sempre, nem nunca.