Probo

por Ricardo Mannato

“Hoje a visita vai ser em Bonsucesso. Precisamos entregar o encaminhamento de consulta oftalmológica para o senhor Zé Maria.” Uma tarefa simples e cotidiana para a Estratégia de Saúde da Família, mas que ganha uma grande complexidade para a equipe do Consultório na Rua: onde está o usuário?

Nossa odisséia iniciou-se dando voltas e voltas pelo entorno do supermercado central do bairro, local de referência que ele registrou para a equipe. Perguntamos a vendedores ambulantes e bancas de jornal e procuramos os locais de ponto de apoio aos moradores de rua da redondeza. No entanto, ninguém parecia conhecer o cidadão. Eram onze horas da manhã e o local estava a todo vapor: transeuntes entrando e saindo de lojas de roupas e utensílios, senhores jogando damas e cartas na praça, filas em bancos e trabalhadores  comendo em bares e lanchonetes. Em meio a toda essa agitação, voltando os olhos para o chão, dispersos pelos cantos, esquinas e marquises, encontravam-se homens e mulheres, deitados em caixas de papelão, envoltos em cobertores finos e sujos, dormindo feito pedra; pedras no caminho.

O olhar, treinado a suprimi-los, abriu-se e, em choque, pôde ver. Acompanhei a médica preceptora da equipe e seguindo seu exemplo, abordamos um a um, apresentando a equipe, ofertando nosso serviço e indagando sobre o paradeiro do paciente em questão. “Bom dia, o senhor conhece o Zé Maria? Um morador de rua, branco, uns 70 anos, anda meio torto”, perguntei ao idoso negro que recostava-se na loja de tintas fechada, sentado em cima de uma cama de papelão e cobertores, comendo sua quentinha.

“De nome assim não. Tem algum apelido? Na rua a gente só se chama por apelido.
Mas conheço todo mundo dessa região e não sei quem é esse cara não.”

“Tá difícil achar ele! Agradeço de todo modo. Nós somos do Consultório na Rua, equipe de saúde que atende moradores de rua com médica, psicóloga, enfermeira, assistente social e agentes territoriais. Precisa da gente para alguma coisa?” “De saúde eu até que tô bem, não tenho nada não. Meu problema é que meus documentos que não saem. Já tô há três meses falando com os assistentes sociais do Conselho para retirar minha certidão de nascimento e carteira de trabalho. Me ofereceram uma vaga de trabalho aqui num armazém, carregando e descarregando os caminhões, tô só dependendo disso.”

“Dá um pulo lá na clínica essa semana, nossa assistente social conversa melhor com o senhor para agilizar isso aí.”

“Eu agradeço muito, difícil ver gente boa como vocês, a maior parte das pessoas tem muito preconceito, passa direto. Você sabe qual é a diferença entre morador de rua e quem mora na rua? Morador de rua é aquele cara que tem até a opção de ter uma casa, mas prefere ficar usando droga e bebendo cachaça na rua. Eu moro na rua, tô aqui  porque não tive opção. Não gosto do cheiro de cigarro e nem cerveja eu bebo. Trabalho segunda, quarta e sexta nas feiras daqui do bairro e nos finais de semana sou flanelinha do baile funk. Aqui todo mundo me conhece, me dá roupa, comida, água. Preciso só dessa saída para arranjar um emprego e alugar um espacinho pra mim. Olhe bem, vocês sabem o que é probo?”
“Probo? Nunca ouvi essa palavra”, retruquei.
“Vocês têm ensino superior e eu que moro na rua que vou ensinar isso para vocês?”, divertiu-se com a ideia. “Eu sou um cara probo. Aprendi isso quando estava no exército e desde então uso essa palavra para me definir. Probo.”

Probo
adjetivo
1. de caráter íntegro; honrado, honesto, reto.

 

Ricardo Mannato faz medicina na UFRJ e dividiu conosco esse causo que viveu em seu internato rotatório em MFC.

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Pérola

por Carolina Reigada

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Quando a puérpera chegou para a consulta com sua bebê, brinquei: nossa, mas cadê aquela barriga toda?

“Nasceu!”

E como vocês estão?

A ex-gestante-atual-mãe-puérpera me olhou com olhos firmes e expressão convicta: ‘ela está machucando muito meu peito, mas não quero deixar de dar de mamar’.

Nossa, realmente os dois peitos estavam muito machucados. No exame da recém-nascida, percebi uma língua “presa”, que podia estar dificultando a pega. Rápida conversa com a dentista, conversamos com a mãe, e ela concordou com o procedimento: a dentista liberou a língua daquele freio crescido, para facilitar o trabalho daquelas duas, uma recém-mãe e uma recém-chegada a esse mundo.

Na outra consulta, como essa mãe estava mais feliz! Peitos sarados, amamentação estabelecida, as preocupações voaram longe.

Eis que a mãe precisa ser internada às pressas. Pedra na vesícula. Com sintomas, com infecção. Além da internação, cirurgia e antibióticos. Internada, ela continuou ordenhando, e a filha mamava sempre que possível. Mas o leite foi diminuindo. Fiquei sabendo dessa história toda na outra consulta, algumas semanas após a cirurgia, quando descobrimos que o peso da menina estava ruim. “Não teve o peito, e ela não aceitou a fórmula”. Nossa, como a mãe sofria. Me perguntou se o leite voltaria.

Claro, eu disse. Claro, o pai e marido disse. Ela olhou para ele agradecida.

Hoje ela voltou para a consulta de 6 meses da bebê. Eu nem lembrava desses obstáculos todos. Mas, completando 6 meses, fui conversar sobre alimentação complementar.

“A avó dá osso de galinha pra ela chupar, eu só me aventurei em dar fruta, mesmo”

Cada família com sua cultura, fui introduzindo as orientações de praxe (muito menos divertidas que o osso de galinha, tenho que admitir).

No meio da conversa sobre as comidas da bebê, perguntei:

“Ela ainda mama?”

“Sim!”

Mas gente, é que não tirei foto. Do sorriso. Da pura alegria desse “sim, ela mama”. Respondeu olhando para mim, logo olhou para a filha, descobriu o peito e deu para ela mamar. “Sim! Mesmo com tudo aquilo, eu consegui!”.

Que pérola foi aquele sorriso, aquele orgulho. Guardei pra mim, e quis dividir aqui também.

Ficam reforçando por aí que mãe é cuidado, mãe é amor…é, mãe é isso. Mas também é muita força, viu? Não esqueçam desse nosso lado.

Bênção

por Artur Mendes

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Quando eu estava entrando na adolescência Dona Firmina, beata que era nossa vizinha de frente, apareceu certo dia me presenteando com um terço azul.

_ É bento pelo padre… _ explicou

Agradeci, claro. Contudo, embora as expectativas de Dona Firmina com meu futuro fossem as melhores, acho que se arrependeu quando os anos a fizeram perceber que, para a desgraça dos anjos, as noites de aventuras me atraiam mais que as alcovas do seminário. Deve ter imaginado que eu não tinha salvação, mas aí já era tarde: o presente estava dado… Não consegui jamais ter uma rotina religiosa e o tercinho azul restou perdido em alguma gaveta da vida.

Anos depois, já médico trabalhando, eu me encontrava regularmente com outra dona Firmina. Portadora de um quadro mental grave, nunca usava os medicamentos e sempre dizia estar pior que no atendimento anterior. Para mal das coincidências, essa Firmina era tão religiosa quando aquela.

Um dia, depois do atendimento, logo depois de se levantar, fez um pedido diferente:

_ Posso rezar em você?

Com o estranho do pedido, só pude aceitar. Alguns minutos depois de vários sinais da cruz e palavras ininteligíveis, dona Firmina pareceu terminar seu intento.

_ Era para que a reza?

_ Para ajudar o senhor a me curar. Meu caso é muito difícil…

Ainda sem saber qual a reação correta, arrisquei:

_ E está dando certo?…

Ela passou a mão vasculhando o corpo e alma e deu um resposta decidida:

_ Parece que sim.

E qual um ruflar de asas, num abre e fecha de portas ela sumiu pelo corredor, como tantas vezes, mas agora me deixando com a impressão de ter sido abençoado.

O puxador de sonhos

por Alfredo de Oliveira Neto

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Não era São João. Quando ultrapassei a porta pela primeira vez, o lençol o embalsamava. Em poucas circunstâncias, ele cedia, arreando a barra do lençol para debaixo dos olhos. Ele estava vivo, mas se fazia de morto.

José era o paciente mais difícil para a equipe de enfermagem do 9º andar do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco: recusava medicação, diálogo, comida e procedimentos. É daqueles que causa rebuliço de vozes pelo corredor:

  • José hoje tá que tá!
  • Sabe de uma coisa? Se quiser morrer, que morra!
  • Bicho cabuloso, se não quer ficar bom, dê a vaga pra outro…

Em nosso primeiro encontro, não me lembro ter dito mais de duas frases, recheamos nosso espaço de silêncio em aproximadamente uma hora. Eu sentado, ele se fingindo de morto, embrulhado da cabeça a baixo. No final mandei um “até mais ver”. Na outra semana, também numa segunda- feira e num horário semelhante estava eu, a cadeira, o embalsamado e um violão como um novo visitante. Falei menos ainda, no entanto o silêncio foi quebrado por alguns acordes desmembrados. Às vezes parecia ir na linha de uma canção, outros se desgarravam, talvez num impulso de começar uma outra vida. O lençol escorregou para debaixo dos olhos, o tempo da visita terminou, outro até mais ver. Ao sair da enfermaria, onde ele estava “sepultado”, apertei o botão do elevador e olhei meio desconfiado para o instrumento o qual carregava.

Estava no início do 3º ano de medicina e pertencia a um grupo recém-fundado, “O Caminho”, que já pintava umas fachadas estranhas, porém interessantes aos olhos alheios na velha estrutura do HC. Eram grupos pequenos de estudantes que iam visitar toda segunda à tarde pacientes que, antes do primeiro encontro, nunca haviam se visto. Um projeto de extensão universitária. Havia música, teatro e até um espaço para se assistir a filmes, escolhidos pelos próprios pacientes, chamado “cine-enfermaria”. E ainda se discutia notícias nacionais e internacionais através de jornais e revistas novas. Como eu era um dos veteranos do grupo, as auxiliares de enfermagem deste 9º andar, que eram parceiras do projeto, me incubiram da tarefa mais difícil: “dar um jeito em José”. Uma estudante desse grupo já havia tentado, mas havia se frustrado em lágrimas.

Conforme fazíamos, antes da primeira visita não recorri ao prontuário para saber de sua história clínica, o que era um dos objetivos do projeto: despir-se do jaleco, abrir-se da defesa da impessoalidade.

Apenas por volta do terceiro ou quarto encontro, descobri que José, um jovem de trinta e algo, havia sido vítima de uma tragédia, já banalizada pela imprensa: teve sua bicicleta roubada e um projétil de arma de fogo lhe roubou o prazer de andar com as próprias pernas. Naquela hora vi todo um errado que abraçava o mundo, um cinto apertado de erros. O roubo, a necessidade, o morar na Linha do Tiro, seres humanos que ganharam dinheiro na fabricação e venda daquele revolver e daquela bala, ter acontecido com quem só tem as pernas como única opção de meio de transporte, o estreitamento do caminho, a esperança encurralada com o coração na boca. Hoje percebo que o errado, o certo e a verdade obedecem a um outro mecanismo de apreender a realidade, no qual, estou ou estamos bem aquém de conhecer.

Por trás da tragédia, havia um palco com outras possibilidades sobre o qual me apoiei e compreendi o porquê a música era um eficiente instrumento de comunicação entre nós dois. José havia passado grande parte da vida num posto social que o destacava perante seus vizinhos. Era “puxador de quadrilha”, daquelas estilizadas com visibilidade na imprensa durante o mês de junho. Coordenava e planejava a coreografia, as cores dos vestidos e das camisas, escolhia as músicas. O baião e o forró eram seus gêneros musicais de predileção. Mobilizava a comunidade onde morava, injetava em bolus ampolas de vida no terreno da violência. Era, na verdade, um puxador de sonhos.

No terceiro ou quarto encontro, já trocávamos algumas palavras e a barra do lençol já se encontrava na linha do tórax. Depois disso, não lembro em qual visita, propus que coordenássemos dentro da enfermaria uma quadrilha fora de época. Não sei bem se sua expressão na hora era definida, mas se percebia que ali estava se iniciando um duelo entre o possível e o improvável. Pois o impossível já se vinha diluindo desde o silêncio, quando José se fingia de morto.

As cinco semanas seguintes foram de puro trabalho: pesquisa da origem das quadrilhas (descobrimos que os matutos dançavam passos de nobres), escolha do repertório, elaboração dos diálogos do padre, noivos, delegado, dos sogros, de todo aquele teatro. Acho que foi a primeira vez que o vi sorrir. Chegavam as auxiliares de enfermagem e elas me agradeciam. José não só estava se alimentando melhor, como também estava colaborativo com as medicações e os cuidados de higiene. Eu levava toda semana um microsystem e alguns cds de forró e baião. Ouvíamos, discutíamos sobre as letras e acabamos elegendo o repertório em cima de uma coletânea de Dominguinhos. Por algum tempo, o parceiro do leito ao lado, eram dois nessa enfermaria, nos ajudava, pois, além de gostar das canções, havia cantado na noite. Lembro-me de uma tarde notável um pouco antes da quadrilha. A noite já caía e com pandeiros e violão, auxiliado por outros parceiros do projeto, fizemos uma mini-serenata. Acabamos registrando tudo em vídeo. Tocávamos côco, José já sentado com o encosto da cama levantado, a barra do lençol nos pés, batia palmas, remexia o tronco e dava gargalhadas.

Voltei à minha casa espantado com o poder da música. A depender de sua manipulação, um instrumento tanto do cuidado quanto do descuido. Faz as pessoas sentirem saudade, medo, força para viver, melancolia. As cornetas que ajudam nos campos de batalha o homem matar um desconhecido, o ilú do candomblé que favorece o transe e convida as entidades a participarem da dança, o hino do time que amolece os corações mais endurecidos, a música do casal que acabou de completar bodas de ouro, e do outro, no mesmo baile, que acabou de se apaixonar. A música da paixão, a música da guerra, a música da evocação dos deuses. Às vezes a linguagem do próprio divino, do religare.

Em outra circunstância, ele me deu a impressão de que ia desisitir, como se percebesse que aquilo não passava de uma palhaçada. Estava na cara que não daria para ele voltar ao que era e que, de volta à comunidade, terra onde qualquer dificuldade a mais é encosto e, como, num navio afundando, o corpo inútil que tem um certo peso é jogado ao mar, ele temia ser escanteado quando da sua volta. Sem carro e nem às vezes micro-ônibus para transportar a quadrilha para os ensaios e apresentações já era difícil, imagina agora sem pernas em cima de uma cadeira de rodas? E se conseguir uma, pois até agora ninguém havia se pronunciado… Era melhor ter morrido, imaginava eu através dele quando o via assim acabrunhado.

Não era São João, mas o hall da enfermaria enfeitava-se de bandeirinhas e balões e era palco do desfile das matutas dos mais coloridos trajes. Chapéus de palha repousavam junto aos pés-de-moleque e pamonhas em cima de uma mesa. Apareciam novos cavanhaques e bigodes a lápis de olho. Haviam sido convidados pacientes, acompanhantes e profissionais não só daquele andar, mas também de outros. Chegavam em cadeiras de roda, sustentando os soros, outros carregavam bolsas das enterostomias. Ali abatidos, acolá se mantendo em pé, aqui um que acabou de receber alta e comemora a ida em alto estilo. José, já portando um desses chapéus, engatilha o microfone e convida os casais para um passeio na roça. Havíamos ensaiado umas duas vezes, eu ali servindo de “assistente de direção” fazia a ponte da comunicação, pois ele se aborrecia com os passos em falso e a falta de sincronia. No dia não se deu para perceber deslizes. Ele ia à toda com a cadeira de rodas, como se abrisse o Mar Vermelho “cavalheiro de um lado e dama do outro”, ai de quem ficasse na frente. Parecia estar segurando uma batuta e se descabelando perante uma orquestra.

Pouco tempo depois recebeu alta, ganhou uma cadeira de rodas de uma instituição beneficente e ensaiava a volta para casa. Senti um quê de tristeza de perder um amigo. Prometi- lhe ir à sua casa, levar um VHS para assistirmos ao vídeo da quadrilha, que havia sido registrado. Nunca fui. Não sei se vive, ou se já puxou outras quadrilhas depois disso. Tomei- lhe como exemplo de superação. O amor com o qual tinha cultivado a dança e a música, tinha-o feito perceber uma melhora, que culminou com sua alta hospitalar. Não sei dimensionar cientificamente até que ponto esse resgate da sua história o ajudou na sua favorável evolução clínica. Até que ponto o amor pelo seu trabalho o fez reagir. Até porque não era São João. Era São José. José são.

 

Rendas

por Mayara Floss

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Ela deixava o fio correr pelas mãos. Do barbante branco saía renda, as mãos viajavam nos bilros contando histórias com as pernas apoiadas no encosto. Havia uma cadência nos bilros e nas histórias. Aprendeu entre as mãos da avó e da sua mãe o ritmo dos bilros batendo e trançando o pique. Sentava no chão  quando menina em meio a cantoria, olê mulher rendeira, olê mulher renda, tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar. Colcha, toalha, caminho de mesa, vestidos, blusas, renda de guardanapo. Rendilhava a linha do tempo, da menina, da mulher e agora da velhice. “O problema é que estou velha” ela me explicava.  A linha do tempo cortava a pele e os bilros, caminhava cambaleante, mas o ritmo, o ritmo dos bilros era preciso. A casa da mulher rendeira tinha uma única toalha de mesa, em formato de peixe, bem branca marcando o tempo, das rendas que segundo ela “duravam uma eternidade”, aquela ali tinha sido feita quando ela era moça. Inclusive aquela renda ia durar mais do que ela que já não ia durar muito, me explicava.
Os rituais eram precisos, lavar a mão, pegar o carretel, as linhas mais novas, os alfinetes. Fala enquanto os dedos trançam os caminhos, pagam as contas, folhas e tranças, frouxo, apertado. Renda margarida, renda fina, renda de mamica de porca, renda Iracema. Às vezes quando a trança tranca tem que voltar e fazer de novo. Os nós. Nós.
Os fios entrelaçados e os óculos na ponta do nariz carregam um certo medo da mulher rendeira, que faz renda das linhas do rosto, o medo de não ter para quem passar, quem irá continuar rendilhando o tempo? Maria foi rendando os olhos, as linhas da testa, as linhas que cruzam as bochechas, os lábios. Seu rosto é uma renda das mais finas e delicadas. Foi fazendo renda da linha branca e forte das suas mãos enquanto suas pernas ficaram cambaleantes e hoje se pergunta quem seguirá seu ofício. Se angustia com as modernidades, os celulares, os carros, com as caixinhas pequenas de som que fazem muito barulho. Nenhuma neta, nenhuma mulher quis aprender, nenhuma das mulheres que ela alimentou com a renda. Ela ensinou muitas mulheres, mas não do seu sangue. Explica-me e suspira, lembrando da infância aprendendo a trançar os bilros. Com doze anos ela já fazia as rendas mais bonitas.
Esse é o motivo da tristeza, quem vai continuar batendo os bilros na cadência das mãos dela? Penso no tempo e que não tem remédio para tratar a falta de pessoas da família para ensinar a fazer renda. Aproximo-me dos bilros, ela me explica, e deixo combinada uma visita domiciliar para a próxima semana. Aos poucos vou descobrindo a renda familiar, os nós, o genograma, as angústias, o ecomapa, a renda da vida de Maria. De certa forma, começo a fazer renda com ela, aprendendo com o fio da vida, batendo os bilros e trançando o envelhecer e o final da vida. Estamos nós no pique, fazendo os desenhos, mulheres, médicas, rendeiras.

A luz em meio ao caos

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por Ariana Leite

 

Quase há 8 horas naquele corre-corre do pronto socorro, em meio a queixas não tão graves e pessoas ansiosas por um diagnóstico, e chamo mais um paciente para o atendimento e aparece seu Délcio, um senhor de 72 anos, vestido com uma calça social e uma camisa muito bem limpas e passadas, com sua higiene impecável e um sorriso no rosto que iluminou meu dia.

Quando ele senta e eu o questiono no que posso ajudá-lo, ele me diz que veio para a internação, uma vez que seu exame estava alterado e já tinha ido ao hospital no dia anterior, mas não pôde ficar porque tinha que receber seu pagamento e acertar todas as suas contas (sim, não era certo, mas estava diante de um aposentado, que mesmo não ganhando um salário tão justo, era honesto com suas contas).

Quando olhei o exame, vi que ele estava com uma anemia grave e necessitava de hemotransfusão, iniciei  o preenchimento dos papéis da internação enquanto ele ficava me observando e com aquele sorriso no rosto, a médica entrou e disse que se eu quisesse ele poderia aguardar do lado de fora do consultório, eu respondi que não havia necessidade, afinal, não é todo paciente que te traz aquela sensação de paz !

Seu Délcio continuou a conversa comigo: ” Doutora, minha mãe faleceu tem 6 meses, ela tinha 98 anos, tinha uma saúde, se Deus quiser a gente chega lá !” Diante do quadro delicado, terminei de preencher os papéis e me despedi dele. Ao sair do consultório, meu coração tinha um desejo profundo…”Sim, seu Délcio, se Deus quiser o senhor terá saúde pra completar seus 98 anos e continuar iluminando a vida das pessoas simplesmente com o seu sorriso e sua serenidade, assim como fez com o meu dia.”

Óleo Ungido

Por Maria Carolina Falcão

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Existem momentos durante uma consulta em que você percebe que quem está à sua frente quer falar algo, mas ainda não sabe como. Pode ser por medo da reação do profissional, ou por vergonha do seu modo de falar. Às vezes é por um sintoma considerado embaraçoso ou porque se “auto medicou e isso a gente sabe que não pode mas faz, né?”. Dessa vez, foi por conta da fé:

A consulta já estava quase no fim, mas recebi aquela olhadela de quem quer perguntar, mas estava com receio. Incentivo: “A senhora gostaria de falar alguma coisa?” Ela pega na lateral de sua saia longa, olha para baixo algo envergonhada. O coque bem preso na cabeça, roupas modestas e chinelo de dedos me lembram das senhoras da igrejinha de uma comunidade que já frequentei. O jeitinho manso de falar também: “É que eu tô com essas rachaduras no pé…” Ela levanta um pouco a saia, para que eu possa examinar. Aquela pele de quem caminha, trabalha e vive. Suave, mas com sinais de um dia a dia atarefado que envolve lavar chão com produtos de limpeza pesados, provavelmente sem o calçado protetor adequado. Pego a luva, sento no banquinho perto dela, peço para que apoie o pé na minha perna, para examinar melhor: uma ferida algo mais profunda, com sinais de infecção secundária. Outras ranhuras um pouco mais hidratadas, cuidadas à sua maneira. “E como a senhora está tratando isso?” E me olha constrangida, com os ombros tensos: “Ah, doutora Carol… eu tô passando óleo ungido…” e tira da bolsa um frasquinho para me mostrar. “A pastora lá da igreja que me deu”.

Minha herança familiar me permite ser familiarizada com esse termo. Muitas comunidades de fé, em especial as cristãs evangélicas, tradicionalmente usam óleos essenciais aromáticos para ungir as pessoas: as mãos, a testa, as chagas… Em geral são distribuídos frasquinhos para este fim. Sorrio. “Acho que foi uma boa ideia! O que você achou?” Ela fica um pouco surpresa: “Achei que melhorou um pouco sim, mas essa ali do canto tá custando a passar” e aponta para a infectada. “Vamos fazer o seguinte? Temos aqui na clínica um óleo e uma pomada que acho que podem ajudar a continuar melhorando. O óleo para todo o pé e a pomada para aquela ali do cantinho, que tal?” Ela concorda com a cabeça e se ajeita pra ir embora.

“Ah, mais uma coisa! Não esquece de levar lá pra pastora ungir esse óleo daqui também!”

Ela para já na porta, arregala o olho: “Sério, doutora?!”

Faço que sim com a cabeça: “Sério, ué?! Essa é a parte mais importante do tratamento!”

Esses dias ela voltou para mostrar o resultado do óleo ungido, a pele mais hidratada e lisa, poucas lesões, nem sinal da infecção: “Olha só como ficou! Fiz como você disse. A pastora abençoou o óleo, a pomada e fez uma oração por sua vida e da sua família!” “Oba, que beleza! Agradeça a ela por mim.” Me diz que ficou com medo de eu brigar com ela (pense!) por ter usado o óleo da igreja. Conta como sua família se engajou nas massagens nos pés, na aplicação da pomada e como sua comunidade de fé participou em seu processo de cura. E eu fico grata por essa especialidade me permitir prescrever óleo ungido e observar o trabalho conjunto da oração e da competência cultural. Do respeito e do amor ao próximo. O poder da escuta. Fico grata por me permitir compreender que, no final, ela mesma já sabia seu tratamento, desde o princípio, e o auto cuidado sobreveio graciosamente.

Me lembro, então, de uma passagem do evangelho e recito mentalmente, enquanto ela sai sorridente do consultório: “Vá em paz, mulher! A tua fé te salvou.”