Sobre Perdão

por Carolina Reigada

Essa história vem de aaaantes da pandemia. A atendi em um momento delicado da vida. Descobriu que o marido, com quem compartilhava a vida há mais de 30 anos, a vinha traindo, sempre com a mesma mulher, inclusive na própria casa deles e – golpe quase fatal – o filho tudo sabia, e tudo acobertava. Dupla traição. Seu porto seguro era a filha, com quem abria o coração, e o neto, que alegrava seus dias. Tivemos algumas consultas, mas a pandemia nos interrompeu – interrompeu todo o mundo. Um ano se passou, ela retorna ao consultório. Quis perguntar sobre os conflitos familiares, mas ela entrou com outra agenda: pegou COVID. O marido, que tinha colocado as coisas no carro e se mudado para o estado em que mora a amante, começou a ter sintomas no mesmo período. A amante, também.

Marido e amante evoluíram rápido para quadros graves, e precisaram de internação. Ele não conseguiu vaga, e quando conseguiu, faleceu em dois dias. Ela, internada, após mais de um mês de cuidados intensivos, recebeu alta.

“Como a senhora ficou com o falecimento do seu marido?”, eu perguntei

Ela me contou que nem deu tempo de sentir. No dia que o corpo do marido chegou à Brasília, ao que seu filho saía de casa para o enterro do pai, ela saía de casa para o hospital, pois a falta de ar só piorava. Lembra de chegar em um primeiro hospital, de ser internada, de ver a filha falando com médicos.

Depois, se lembra de acordar e se ver rodeada de médicos, em um leito de hospital.

Olhou para a porta e leu “centro de cuidados intensivos”, e o nome de outro hospital, muito longe de sua casa.

Olhou novamente para todos aqueles médicos.

“Você está bem?”, eles perguntaram.

“Sim”, ela respondeu, sentindo-se flutuando no vazio.

Nisso, um deles mostrou, em um tablet, uma foto da filha e do neto.

Ela me contou que, nesse momento, uma EXPLOSÃO de alegria aconteceu no peito dela, que a deixou até sem palavras para explicar. Ali, ela encontrou todas as explicações que precisava, vendo aqueles dois rostinhos.

Recebeu alta, foi pra casa, começou todo o processo de recuperação e reabilitação fisioterápica que 22 dias no CTI impõem ao corpo.

Começou, também, a curar seu coração.

“Antes, meu coração era escuro e duro, parecia uma pedra de carvão, de tanto que eu desejava o mal pro meu ex-marido e pra amante dele. Eu só pensava nisso, era uma obsessão. Me fazia mal. Minha filha foi conversando comigo, falando em perdão, e hoje eu só sinto aquela mesma alegria de quando eu vi os rostinhos deles no tablet. Não tem espaço no meu coração pra toda aquela escuridão.”

“Fico muito feliz por você”, eu falei. “Perdoar é um ato de amor a nós mesmos, nos livra dos pesos para que possamos seguir em frente.”

“É, hoje eu ainda não entendi que ele morreu. Pra mim, ele ainda está lá, na casa da amante.”

Aí ela deu um sorrisinho.

“E ela sobreviveu, mas está muito mal, viu? Vi as fotos do aniversário dela no facebook. E acabou que não nos divorciamos no papel, então ele morreu como se ainda estivéssemos casados.”

“A senhora dedicou mais de 30 anos da sua vida a cuidar dele, mesmo”, eu falei

“É. Eu perdoei. Mas ela que não venha procurar problema aqui, que tudo que ela ganha é um tapa na cara”

Eu soltei uma risada. Reabilitar o coração demora mais tempo que reabilitar o corpo, e isso todos nós sabemos.

Merecedores de vacina

por Mateus Queiroz

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Duas pacientes vieram por motivos parecidos para consultas separadas, porém com abordagens opostas de um problema central. Vacina. Ou melhor, a falta dela. A primeira, possui asma não grave, porém não incapaz de trazer problemas ao longo da sua vida até hoje. Relata que tem asma desde sempre, chegando a ser internada quando criança e fazendo uso de bombinha até hoje, especialmente nas mudanças de tempo que tivemos nessas últimas semanas. Veio para receber um laudo para vacinação contra a COVID-19. Apesar de ter sido incisiva, e obviamente sofrer com a sua condição, não possuía indicação de acordo com as recomendações da prefeitura. Acompanhava a residente da minha equipe, e tomei para mim a missão de conversar e tentar explicar para aquela mulher as questões que nos levaram a não fornecer o laudo. A paciente com seus 30 e poucos anos entrou na sala de atendimento portando em mãos seu álcool-gel e sua máscara PFF2, algo bastante raro nos atendimentos que acompanho. Expliquei a situação de que no momento, a indicação era apenas para pacientes com casos considerados mais graves de asma, o que a gente conseguia identificar pela medicação usada e, para minha surpresa, o questionamento dela não veio disso inicialmente. “Tem até autista e síndrome de Down tomando que não sobra vacina pra quem precisa” Decidi tentar ser mais incisivo, porém didático. Expliquei que, na minha visão, antes de qualquer discussão sobre vacina, é necessário lembrar que o governo federal se recusou e continua se recusando a realizar um planejamento funcional sobre a vacinação contra a COVID. Expliquei que a fala dela era errada por uma questão de direito e de saúde pública que garante o direito desses grupos serem priorizados na vacinação, e que na verdade, o certo era todas as pessoas serem vacinadas, que a vacinação não é um movimento individual, mas sim coletivo. Me pareceu mais receptiva com os conceitos que expliquei. Depois tive que explicar como a gente considerava a gravidade dos casos de asma e como a gente sabia do incômodo que isso trazia na vida dela, porém não era considerado suficiente para vacinação prioritária, não de acordo com a gente, mas de acordo com o que preconiza a secretaria de saúde. A paciente ficou visivelmente irritada com a recusa. Todos sabemos os fatores estressantes que a pandemia nos impõe, mas a ideia inicial dessa paciente claramente contribuía para aumentar esse estresse e, sinceramente, conseguia entender o ponto de vista dela. Ora, qual é o motivo deu, que tenho doença e sigo à risca as recomendações, não poder ser vacinada, mas alguém que tem uma doença que talvez a paciente nem compreendesse muito bem poder? O segundo paciente era obeso, IMC por volta de 39, disse que tinha tomado coragem para vir saber se podia receber laudo para vacinação. Fiquei curioso, “como assim tomado coragem? De sair de casa com o vírus por aí?”. Paciente ri e diz que não, tinha tomado coragem pois havia refletido muito na última semana sobre se merecia ou não se vacinar e se estaria furando a fila da vacinação de alguma forma, com medo dos tais “fiscais de comorbidade”.

Nas reflexões que tive após esses momentos fiquei feliz em perceber como a Medicina de Família e Comunidade se coloca sim como agente político, no sentido de promover alterações materiais na vida dessas pessoas. Como o ser humano é mais do que os seus sofrimentos. “Ser é mente; o corpo, mero porta-voz. Não existe doença básica. O indivíduo é um complexo biopsicossocial. Institucionalizar simples organicismo ao ato do atendimento médico é confundir sintoma com doença, é negar a importância da escuta qualificada, da competência em reconhecer o que escapa ao óbvio da história clínica. Uma consulta serve a vários propósitos. Uma queixa pode ser uma pergunta ou uma resposta.” Seja ao realizar visitas domiciliares, seja ao realizar pré-natal de gente que nem tem casa para morar.

Nesse momento devo ter esboçado um sorriso por baixo da máscara, de alívio por eu estar ali na consulta, e não alguns colegas de faculdade que tem mostrado posturas no mínimo questionáveis para não dizer outras coisas. Comecei explicando que qualquer discussão sobre vacinação precisa partir do princípio que o processo de compra de vacinas tem sido ativamente sabotado pelo governo federal. Falei sobre os processos de vacinação não serem medidas individuais, mas sim coletivas, então para se analisar é preciso pelo menos considerar uma perspectiva coletiva. Como as comorbidades são elementos que muitas vezes as pessoas carregam e nem sequer se dão conta de como pode ser prejudicial ao longo da vida. Não era uma questão sobre se o IMC dele era próximo o suficiente de 40, mas sim que era direito dele pelo menos saber sobre isso, e não ser coagido a nem procurar, por pena de um julgamento moral. Após conversarmos mais um pouco descobrimos que o paciente era também era hipertenso, o que tornaria a exigência de IMC para vacinação bem mais baixa do que o IMC 40. Laudo na mão, continuei a explicação pois senti que o paciente havia tirado um grande peso das costas e estava extremamente receptivo para aquele momento de troca. Meu último ponto foi que até então, nenhuma secretaria de saúde do país havia relatado falta de vacinas devido a algum suposto excesso de pessoas com comorbidade se vacinando. Na verdade, não só não houve falta, mas a cidade do Rio de Janeiro só vacinou 65% das pessoas com comorbidade e está tendo que fazer repescagem de vacina (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/05/30/rio-meta-vacinacao-comorbidade.html). Como se fosse algum tipo de culpa das pessoas elas terem condições que estatisticamente vão diminuir a expectativa delas. Aproveitei para incentivá-lo a postar fotos e vídeos do momento sim, que ninguém tinha o direito de constrange-lo, e que, acima de tudo, aquele seria um momento extremamente marcante em sua vida, e que ele tinha todo o direito de curtir o momento. Assim como foi para mim no meu dia de tomar vacina. Gostaria de dizer que é uma postura inacreditável de parte relevante da comunidade médica e dos estudantes, mas a realidade é que não é. Nem um pouco. A individualização de absolutamente todas as questões sociais, e a vacinação é uma delas, é um sintoma bastante claro de como a classe médica como um todo – e nisso tenho clara ciência de como a Medicina de Família e Comunidade representa e é um contraponto essencial, não só do ponto de vista clínico, mas também político – é dominada por uma ideologia que vai a todo momento culpabilizar o indivíduo em seu processo de doença de forma muitas vezes desonesta. Não é difícil achar informações sobre a gigantesca prevalência de doenças cardíacas e diabetes em nossa população e os impactos disso na vida. A realidade é que desde sempre, mas especialmente desde os governos de esquerda o núcleo da classe médica tem mostrado todo o seu pavor com a possibilidade de se tornar médico de família e ter que atender gente pobre. Desde a recepção assustadora aos médicos cubanos por ocasião do programa Mais Médicos até as atuações mengelianas de médicos paulistas no Amazonas durante a pandemia.

Sônia

por João Rana


Aos 30 anos anos, Sônia morreu.

Sim, Sônia morreu, faleceu. Partiu, teve um fim, foi-se embora, realizou a passagem ou “foi para os braços do Pai”, como dizem os mais religiosos.

Seu funeral não sairá nos jornais, tampouco serão ofertadas homenagens públicas à sua pessoa. O mundo não irá parar e a bandeira não ficará a meio mastro Brasil afora.

As cidades seguirão suas rotinas como sempre: trabalho, sirenes, gritaria, buzinas… trivialidades… barulho de obra no escritório ao lado, uma criança pedindo esmola na sinaleira, dois passarinhos desconfiados repousando na sacada do prédio, o eco de “Bora Bahêa Minha Porra!” ao gol do tricolor, o vizinho que exibe orgulhoso a potência do seu home theater com a live do Luan Santana… silêncio.

Ocorreu algo que (infelizmente) era esperado por muitos de nós, veteranos de guerra da Atenção Básica, mas que nem por isso perdeu seu teor trágico e pessimista.Em vida, Sônia mantinha sempre que possível, com uma naturalidade inabalável, um sorriso e um respeito por todos que a atendiam e a conheciam. Até mesmo a icterícia não conseguia afastar a profundidade e o brilho do seu olhar.”Sim, senhor.” “Não, senhor.” “Valeu, Andréa!” “Muito obrigado, doutor Rana. Deus te abençoe.” “Eu dou muito trabalho a vocês, né?”.

Em nossa relação, sua revolta residia apenas numa iminente medicação injetável: “Ah, não, doutor! Vou tomar não! Injeção não, Deus é mais! Oxe!”. Um medo para aqueles que restavam ter medo de pouca coisa, tamanha coragem ou diminuta perspectiva diante do sofrimento: antes dos quarenta, Sônia tinha cirrose hepática Child-Pugh B pelo uso de álcool. Sua mãe, antes dos 60 anos (aparentando 80), padeceu da mesma condição. Uma irmã mais nova, aos 14 anos, faleceu por uma intoxicação alcoólica aguda, um tempo após dormir embriagada sobre um recém-nascido, morto por asfixia. Quase todos os seus familiares fazem uso nocivo ou são dependentes de álcool, constituindo uma ferida social e intergeracional absurda, cujas raízes entremeiam-se com a pobreza, a desestruturação familiar, a educação básica precária e (sim) com a historicidade da escravidão. Sônia não ia à unidade básica de saúde frequentemente (embora devesse fazê-lo). Quando comparecia, prometia retornar em breve, como solicitado, mas sempre esbarrava em alguma situação que a impedia ou a desestimulava em estar presente. Grande parte dos seus atendimentos foram em visita domiciliar. Eu percebia uma certa vergonha e desconforto em ser vista daquela forma, diante da sua vaidade e pouca idade, mesmo que objetivamente precisasse. Em muitos atendimentos ela encontrava-se com algum grau de alcoolemia, o que embora lhe desse um ar irônico e anedótico na própria fala, com risco inclusive de amnésia posterior e outros constrangimentos, a fazia sentir-se mais relaxada para discorrer sobre si mesma. Da última vez que a vi, estava com as pernas bem inchadas, provavelmente por conta da sua hipoalbuminemia, não conseguindo calçar a própria sandália. Ela adentrou a unidade com os pés descalços neste dia. Éramos velhos conhecidos, sem meias palavras. O brilho já era bem ofuscado pelo amarelo, mas ainda estava lá. Mediquei, orientei, falei com um familiar e pedi que não demorasse pra voltar, mas não surtiu efeito. O mesmo aconteceu quando foi encaminhada ao CAPS, para manejo conjunto do seu alcoolismo pelo psiquiatra e psicólogo, ou quando foi referenciada a um gastroenterologista, devido à sua cirrose hepática. Neste último, nem mesmo chegou a ir.

Sua agente comunitária de saúde (ACS) é um dos seres humanos mais especiais que tive a honra de conhecer. Não há duvidas de que Sônia teria vivido muito menos se não fosse a existência dela. Mas nem sua dedicação e atenção foram suficientes para que ela fosse salva, pois Sônia vivia em um ambiente totalmente desfavorável à sua saúde, sem conseguir desvencilhar-se. As paredes de sua casa ruíam, tal qual seu fígado, e é bem provável que a bebida lhe oferecesse alguma companhia para afastar o vazio, anestesiando a constatação de tamanha iniquidade. Os móveis, bem surrados e avariados, pareciam ter sido doados ou adquiridos em algum terreno baldio. Entre a sala e a cozinha, uma mesa improvisada com cadeiras e uma tábua de madeira servia de repouso para peças de dominó dispersas: um jogo caótico e improvisado encenado em aridez de vida. Frequentemente se achava a casa de portas abertas, empoeirada e com fluxo livre de pessoas. Muita exposição e pouca delimitação para o exercício da própria individualidade, segurança e privacidade. Vizinhos próximos de costumes alcoolistas costumavam se reunir naquelas redondezas, num vai-e-vem, sendo que muitas vezes a casa servia de ponto de encontro. A maior parte da renda da casa era proveniente da aposentadoria do pai de Sônia, com o restante vindo da ajuda financeira de um irmão, alguns trabalhos domésticos que fazia com uma irmã e o auxílio de benefícios sociais. O namorado de Sônia, vulgo “Ninho”, também tinha problemas com o álcool. Possuía cerca de 1,60m, aparência franzina e sinais de que sofreu desnutrição na infância. Demonstrava preocupação com a companheira. Pegava remédios para a mesma, perguntava sobre seus exames, a visitava no hospital quando internada, mas por vezes não tinha as mínimas condições cognitivas, psíquicas e sociais de ajudá-la.Ajuda financeira com medicamentos não disponíveis no SUS, jogo aberto, cuidado e interdisciplinaridade não deram conta do que ela precisava.Penso o que poderia ser feito de melhor e diferente. Outrora imagino se ela mesma (ou eu, inconscientemente) não desejava seu descanso finalmente, após tantos percalços. Logo depois, reflito sobre o que pode ser uma negação pessoal da realidade manifesta. Pois se não podemos desistir das pessoas, também precisamos reconhecer os nossos limites para extrair potências luminosas da escuridão das nossas impotências. Antes de mais nada, não podemos desistir de nós mesmos.De um jeito ou de outro, sua morte não poderia acontecer em vão, de modo que amplifico quantas “Sônias” existem por aí, nos bastidores da nossa alçada de “país em desenvolvimento”, totalmente às margens da sociedade. Quantas ainda morrerão ou, pior, experimentarão a morte em vida? Desesperança, desamparo, desagregação, compulsão… e ao mesmo tempo ternura, respeito e humildade.

Desculpe por qualquer coisa, Sônia, e obrigado. E se este mundo não permitiu que você fosse devidamente valorizada no palco da vida, que sejas ao menos protegida e lembrada no descortinar dos véus do teu drama.

Quando penso em desistir da Medicina, algo de inexplicável (que acesso após a tempestade) me faz procurar feixes de luz em meio ao caos absoluto. Eu chamo isso de “alma” e ela se expressa muito na escrita. São lutas desiguais que precisamos travar todos os dias, mas mesmo quando perdemos, nossa alma pode aprender e ganhar algo com isso. Não sei se é necessariamente bom, mas sinto ser algo que não morre e que não tem preço: atemporal, imaterial e universal, manifestada de um jeito ou de outro, singularmente, em toda vida humana. Dar voz, vez e vida aos esquecidos, marginalizados e renegados. Iluminar as nossas sombras e refletir sobre elas nos permitem integrar aquilo que também negamos ou ignoramos em nós mesmos, enquanto indivíduos e sociedade, em busca de uma existência mais inteira, solidária e consciente. A procura da essência do outro que reverbera em mim, apesar de tudo e de todos, que se não consegue impedir a morte em vida, ao menos busca renovar a vida na morte.

Eu nunca vou me esquecer de você, Sônia. Que os espíritos de luz (se existirem) estejam em sua companhia.


PS: nomes fictícios inspirados em uma história real.

Diga 33

por Marianne Guimarães Villela

I
Gostaria de te conhecer. Ver você entrar pela porta do consultório, se sentar na cadeira,
talvez um pouco irritada com a insistência de ter de estar ali. Você não gostava de ir a
médicos.
Naquele dia de nosso primeiro contato voltava das visitas domiciliares. Calos pra resolver
na primeira, uma despedida antecipada de pés descalços em outra. Com meu suco em
mãos e a bolsa pesando nos ombros avistei a reunião familiar.
Em roda, no gramado do caminho cotidianamente apressado estavam lá. Não os conhecia
também. Em um olhar cúmplice com minha companheira de equipe, pedi alguns minutos
para voltar. Fim do começo de uma noite sem fim.
Na sala, suco à mesa, me livrei do peso da bolsa e olhei para o relógio. Seu tempo estava
parando, o meu continuava a correr. Ou seria o contrário?
Voltei àquela reunião. O outro médico gesticulava, explicando o inexplicável que se
antecedia, a esperança em uma transferência pro hospital, em uma medicação. A
esperança como a raiz daquela grama verde que também crescia ali, da qual ninguém
ousaria arrancar uma só folha.
Grama na qual nos sentamos, eu e sua mãe. Então a chuva chegou, chuva de perguntas:


“-Doutora, minha filha vai viver? Mas me diga, tem jeito?

– Marianne, por favor me diga, minha filha vai viver, não vai?”

II
Ainda sem te conhecer, chamei sua mãe para o consultório. Ela entrou, sentou na mesma
cadeira. No punho trazia amarrada uma fita: salmo 91. Ano do meu nascimento. Me fitava
com olhos assustados. As mesmas perguntas somaram-se às promessas do futuro. E às
cobranças do passado.
Então te vi pela primeira vez. Na foto já existia a máscara. Sua mãe me contou dos sonhos,
de sua vontade de fazer faculdade. Me contou do medo de sair de casa e se contaminar, da
vez que saiu para fazer ENEM. Me contou da culpa por ela, sua mãe, ter que sair para
trabalhar todos os dias.
A segunda vez que te vi estava de olhos fechados. O quarto do isolamento deixa ver pelo
vidro. Na conversa com o médico da sala amarela mira-se a esperança e o não dito do real,
em ondas profundas como seu respirar. Na despedida com sua mãe coube um abraço
despedaçado, a fé dela e minha resposta de amanhã.

III
Oito e trinta e três.
Uma vida se passou antes desse momento chegar. Da janela do quarto a vi partir. Da porta da
espera segurei sua mãe, bússola de ímã forte. O ponteiro suspenso respondeu mais uma última vez.
Oito e trinta e três.

No infinito espaço entre os oitos chorei, revendo sua cadeira vazia.

Maria Padilha

por Rafaella Brugalli

Oração de Maria Padilha | Peça a Pomba Gira Trazer o Amor de Volta

Por fora avistamos uma casa de madeira com uma placa indicando o local “Cartas, bruxaria, etc”. Ana Beatriz nos recebeu vestida com uma saia exuberante, toda de roxo e bem maquiada. Sentou-nos na sala e nos ofereceu água, e foi, sem muita explicação, preparar outro ambiente da casa para receber a santa. Aguardamos ansiosas por alguma explicação de como seria o encontro enquanto observávamos o ambiente decorado com fotos da família e imagens exotéricas. Em seguida, Ana Beatriz sentou conosco na sala e conversamos com ela sobre seus sentimentos em relação ao tratamento do HIV. Ela contou que descobriu o HIV durante uma internação por pneumonia em 2005 e que a médica contou-lhe o diagnóstico de forma brusca, o que lhe causou sentimentos de medo e incerteza. Acreditou que não viveria por muito tempo e que não poderia ter outros relacionamentos afetivos se desejasse. Teve medo da reação de seu companheiro, mas este se demonstrou compreensivo e, após descobrir que também era portador do vírus, eles fizeram um pacto de que um cuidaria do outro até morrer. Todo esse sentimento se imprime no corpo de Ana Beatriz como enjoo e mal estar diariamente no momento que precisa tomar a medicação. Nós já havíamos trocado os antirretrovirais para alguns que não tem como efeito colateral o enjoo há 1 mês e meio e, de fato, ela conta que no início sentiu bem menos enjoo, mas que, nas últimas semanas, aquela sensação havia voltado. Ela admite que aquilo era “psicológico” e que ela tinha uma “negação” em relação à doença e aos remédios, palavras dela. Refere que ela quer se tratar pois tem motivos para viver: os 3 netos, principalmente o menor de 1 ano, os filhos, seus “filhos” de santo e sua religião. Perguntamos como ela acha que a Maria Padilha poderia lhe ajudar e ela responde que a Maria Padilha poderia tirar essa sensação ruim que ela tem ao tomar os remédios, pois ela tem poder para manipular isso. Inclusive cita que algumas vezes pede em pensamento esse auxílio e nessas vezes sente-se melhor para tomar a medicação. Ela explica que recebe 3 santas: a rainha, a cigana e a Maria Padilha e que escolheu a Maria Padilha por ser uma entidade determinada, que faz acontecer o que promete.

Terminada essa conversa inicial, Ana Beatriz foi para o outro cômodo e chamou seu marido e sua irmã para que eles chamassem a santa. Escutamos lá de fora um sino tocar enquanto entoavam uma música com um embalo bonito:

“Abre essa cova / Quero ver tremer / Abre essa cova quero ver balancear / Maria Padilha das almas / O cemitério é o seu lugar / É na Calunga que a Padilha mora / É na Calunga que a Padilha vai girar“

Maria Padilha chegou rindo e disse que acabava de vir de um enterro. Logo fomos convidadas a entrar no cômodo cheio de adornos religiosos, velas, panos e percebi que havia pipoca em uma vasilha no chão também. Padilha nos convidou a sentar, a irmã de Ana Beatriz se retirou dizendo que depois gostaria de falar com ela e o esposo de Ana Beatriz permaneceu no ambiente.

Então disse: “Porque me chamaram aqui, alguém morreu? Vocês sabem que eu gosto de vir de noite, só venho quando tem sol quando tem algum enterro”.

Eu – residente de Medicina de Família e Comunidade – disse: “Muito obrigada, Maria Padilha, por ter vindo no sol nessa ocasião especial”.

Retrucou com intensidade mirando nos meus olhos: “Muito especial! Pois se trata de uma vida! A senhora é médica do corpo e firmou um compromisso com a vida, de salvar as pessoas, não é?. Eu tenho um compromisso com a morte. Mas não se assuste, pois agora estamos falando da vida da pessoa que é meu cavalo*. Ela é um bom cavalo, gosto de trabalhar com ela, cumpre as coisas direitinho. Por isso, eu ajudo ela, tanto que ela está viva até hoje. Eu já disse que ela deve tomar os remédios, mas a minha nega é fresca, que tanto que ela sente que não pode tomar eles?”

Eu: “Que bom, Maria Padilha, eu acredito que podemos trabalhar em conjunto a parte espiritual e a parte física”

Ela concordou e discorreu alguns minutos de forma um pouco confusa sobre outros casos em que ela ajuda as pessoas que pedem seu auxílio e outros que ela decide não ajudar por serem pedidos que fariam mal a alguém ou que ela já sabe que o desfecho da situação seria imutável. Disse que ela não é nem boa nem má, que ela sabia viver a vida. Falou que tem sete homens no plano espiritual e que não acredita no amor pois morreu esfaqueada (talvez relacionado a um relacionamento afetivo) e que não sabia o que era ter filhos, pois não havia sido mãe. Falou também algo sobre evolução e reencarnação.

Retomando o propósito da reunião, eu disse: “Nós viemos aqui hoje com o propósito de ajudar a Ana Beatriz, pois nós acreditamos que tem outras possibilidades aqui na terra, como as medicações, as consultas e exames, que ela poderia aproveitar melhor”

Karen (aluna de Medicina) complementou: “A Ana Beatriz escolheu a senhora pois confia em ti, que a senhora pode ajudar ela. Ela conta que tem uma sensação muito desagradável na hora em que precisa tomar as medicações e que talvez a senhora pudesse tirar isso dela.”

Maria Padilha, olhando novamente para mim com emoção, diz: “A Ana Beatriz se sentiu envergonhada quando a senhora disse que viria aqui conversar comigo. Mas a senhora fez uma coisa que poucas pessoas fazem: a senhora se importou, disse que vinha e veio mesmo. Tu e as meninas vieram (se referindo à Melissa- Terapeuta Ocupacional-  e à Karen). Isso tem um valor muito grande, não aqui na terra, pois não espere reconhecimento na terra. Isso tem um valor muito grande para nós no plano espiritual. Você criou um vínculo, uma aproximação muito importante. Por isso eu vou fazer um acordo contigo: eu vou tirar da Ana Beatriz a sensação ruim que ela tem ao tomar as medicações e também vou te proteger, abrir teus caminhos na vida, tu tens muito para crescer; e vou proteger também vocês (Melissa e Karen).”

Esse momento foi emocionante para todas nós que estávamos ali. Maria Padilha, de quem eu tinha receio o que iria falar, se mostrou alguém muito sensível.

Agradeci e disse que a minha maior felicidade seria ver dona Ana Beatriz bem. Maria Padilha disse novamente que iria trabalhar para essa causa, pois ela sabe que Ana Beatriz quer viver sim e por isso vale a pena. Essa mudança não aconteceria de uma hora para a outra, mas ela iria trabalhar para que acontecesse. Relembrou que a Ana Beatriz tem sua vontade própria e que deve fazer sua parte.

Eu: “Que bom, Maria Padilha, fico feliz que podemos reunir nossas forças para isso”

Maria Padilha e o marido de Rosângela disseram que Ana Beatriz faz tudo pelos outros, ajuda muita gente e que Ana Beatriz agora seria ajudada pela Maria Padilha e por nós, “burros da terra” (médicos). Se explicando, disse que de burros nada temos, mas que é assim que eles se referem a nós. Ambos contaram sobre outros casos de pessoas que ela havia ajudado, inclusive o próprio marido de Ana Beatriz quando este estava “desenganado” e Maria Padilha também falou que a pessoa ao receber ajuda deve ser grata. Inesperadamente, ela disse: “E tu, homem, tu não toma os remédios direitos que eu sei! To mentindo ou não? Eu vou fazer um acordo contigo: tu vai tomar os teus remédios e tu vai dar para a Ana Beatriz os dela!”

Marido de Ana Beatriz responde: “É… depois eu falo com ela.”

Maria Padilha retrucou apontando o dedo na face dele: “Com ela não! Teu compromisso é comigo! Tu vai tomar teus remédios junto com ela, vai ajudar ela!”

Ele aceitou e assim foi-se encerrando este momento único na vida desta residente de Medicina de Família e Comunidade, da Terapeuta Ocupacional e da Estudante de Medicina. Antes de sairmos, não poderia faltar o comentário de Maria Padilha sobre como as fêmeas devem aprender a serem femininas, se embelezarem, saber agradar o macho e curtir a vida (e que ela também fazia os machos ficarem brocha se merecessem). Nos perguntou: “E para a vida de vocês, meninas, eu posso fazer alguma coisa? Como andam os machos?”. Agradecemos mas dissemos que estava tudo bem conosco. Ah, toda essa conversa ocorreu enquanto Maria Padilha bebia cachaça e fumando um cigarro atrás do outro. Ela até se explicou, dizendo que estava fumando tanto pois não vinha tanto para a terra e tinha que aproveitar.

*A terminologia “cavalo” é uma denominação cultural que faz referência a Ana Beatriz, que serve de instrumento para Maria Padilha se manifestar

Sementinhas de mostarda

Raízes: tipos de raízes, estrutura, características e funções

por Arthur Fernandes

Era terça-feira, qualquer coisa entre três e quatro horas da tarde. Segundo a escala, dia de atender a demanda geral, isto é, pessoas com outros problemas além dos sintomas respiratórios (tosse, falta de ar, dor de garganta) considerados suspeitos em tempos de coronavírus.
Em meio à pandemia, “outros problemas” são, bem, todas as outras coisas pelas questões as pessoas já adoeciam antes, adoecem hoje e continuarão adoecendo mesmo depois que tudo isso passar. Incluem: pressão alta, diabetes, “artrose”, problemas de tireoide, os mais diversos transtornos mentais e por aí vai.
Ah, e o câncer.
Chamei dona Rosa no corredor e aguardei. Alguém havia marcado a consulta para renovar receitas de medicamentos para dor. Aguardei mais um pouco. Quando retornei ao corredor para conferir, Rosa vinha caminhando lentamente, com ajuda de uma bengala, mancando pela perna esquerda.
– Desculpe, doutor. É que a perna não tá ajudando hoje.
– Não por isso. Me conte: como posso ajudar?
– Trouxe esses exames pro senhor entender meu caso. Eu sou paliativa.
Essa não é uma frase comum de se ouvir em uma primeira consulta. Conferindo os exames, vejo que a tomografia mostra metástases ósseas, isto é, lesões cancerosas espalhadas. Rosa explicou um pouco do processo que começou com dores há mais de um ano, culminando naquela consulta.
– Depois de uns meses, enquanto ainda aguardava marcarem exames, senti um caroço no peito. Ele foi crescendo e acabou virando isso aqui em pouco tempo.
Abre a blusa devagar e, apontando o seio esquerdo com cuidado, mostra uma lesão muito sugestiva de câncer de mama em estágio avançado. Fazia sentido já ter metástases em ossos (e, provavelmente, em outras partes do corpo).
– Quando vi isso, tive certeza do que era, mesmo sem mais exames. E também tive certeza do que não quero: tratamentos inúteis. Eu sei que a medicina de vocês não pode me prometer dois anos de inferno, com quimio, cirurgia e radio, por mais dez anos de vida boa. Então não tem sentido em procurar tratamento. Por isso, eu sou paliativa.
– E o que você entende dessa situação que conversamos, considerando o diagnóstico e sua expectativa?
– Eu tenho dois entendimentos. Um físico e um espiritual. Qual o senhor quer saber?
– O que você preferir.
– Bem, da parte do espírito, eu sei que tudo que estou passando é uma depuração. Vai servir pra me ajudar a chegar melhor na vida de verdade, do outro lado, sabe? E pela vida que eu vivi nessa terra, fazendo coisas boas, sei que vou pra um lugar melhor depois que desencarnar.
– E da parte física?
– É aí que eu tenho medo. Morro de medo. Parece até engraçado dizer isso agora, assim, na frente do senhor. Tô morrendo de câncer e de medo. Mas tô mesmo.
– Do que você tem medo?
– Da falta de dignidade. Eu não consigo fazer cocô no vaso há dias porque dói demais ficar na posição sentada. Preciso da ajuda de amigos pra fazer quase tudo pra mim. Até vir a consulta é difícil. Eu sei que depois da morte vou encontrar uma situação melhor. Mas até lá, eu tô viva, e vou viver um inferno nesse corpo doente. É disso que tenho medo.
Conversamos mais um bocado sobre como era sua vida até então e suas preferências adiante.
– Eu era vegana, sabia? Veganinha. Comia certinho. Nunca fumei, nem bebi. Fazia ioga e pilates. E tinha um cachorro e um gato, que resgatei das ruas. Minha avó me ensinou a ser raizeira. Minha outra avó me ensinou a ser benzedeira. Nunca precisei tomar remédio pra nada. Agora preciso. E é ruim. E eu sei que o senhor, com a medicina, só tem remédio mesmo.
– É verdade que a medicina usa muitos remédios… Mas me conte, que outros tratamentos você fazia?
– Usava muitos chás, emplastros, infusões… E a auriculoterapia. Ah, como era bom o efeito das sementinhas na orelha.
– É mesmo?
– É. Ajudavam a organizar a energia dos chacras. Mas faz tempo que não faço mais, e por causa da doença. Já não consigo ir ao centro onde aplicavam.
– Que tal fazer uma sessão de auriculoterapia hoje?
– Mas como?
– Fazendo. Bem aqui. Comigo.
– E o senhor, médico, também trabalha com as medicinas antigas?
– Já pratico tem um tempinho. A senhora pode até escolher: sementes de mostarda ou pontos de ouro?
– Sempre gostei do natural. Mostarda mesmo!
Em cuidados paliativos, sempre é sobre isso: dignidade. Para dona Rosa, o câncer continua e a dor, ainda que paliada, também. O mais importante para ela é sua dignidade em uma vida que faz sentido. E com sementinhas de mostarda.

Insones

por Julia Lima Bezerra

Polícia suspeita que marmita envenenada tenha matado moradores de rua e  cachorro | Hypeness – Inovação e criatividade para todos.

Pedro* veio pedindo um remédio para dormir. Nas últimas semanas tem tido dificuldade.

Eu tenho sono fácil, estou sempre cansada. Se encosto, durmo.

Pedro passou por internação hospitalar recente, precisou amputar um dedo da mão. Foi aí que a insônia começou.

Tive insônia uma noite na semana passada. Estava preocupada com o emprego novo, ainda não assinaram minha carteira de trabalho e nem tinha recebido o salário do mês anterior.

Pedro amputou o dedo pois teve uma infecção grave, que por sua vez foi causada por uma profunda infestação de larvas de moscas. Miíase.

O residente me chamou para acompanhar a consulta pois às vezes Pedro tinha a fala um tanto confusa, a comunicação ficava difícil.

“Tiraram assim umas 200 larvas. Era muita larva. Espera, deixa eu te falar. Foi assim, muita, muita larva.”

Pedro vestia roupas descasadas, a barba farta escapando pelos cantos da máscara. Ora respondia de forma mais ou menos coerente nossas perguntas, ora desviava rapidamente para outros assuntos, como um trem de pensamento desgovernado.

Eu moro perto do meu trabalho novo.

Pedro mora na rua.

“Eu preciso dormir, quero um remédio pra dormir urgente.”

“Julia, te chamei porque tenho medo de passar um remédio para dormir e se aproveitarem para fazer alguma maldade com ele na rua.”

A primeira linha para tratamento da insônia é o que chamamos de higiene do sono. Envolve cuidados do dia a dia, como rotina de horários para acordar e dormir, evitar cafeína, álcool e drogas estimulantes, deitar na cama apenas para dormir, evitar televisão e celular pela noite, diminuir estímulos perto da hora de deitar, tornar o quarto um ambiente tranquilo, reduzindo luzes e barulhos.

E Pedro, como já foi dito, mora na rua.

Mora na rua há muitos anos, desde que a mãe morreu. Não tem família, diz não ter amigos. Mora na rua e mora sozinho. Sempre esteve sozinho.

Eu moro na minha casa há alguns anos, com meu marido e dois gatos. Minha mãe se mudou para perto há pouco tempo.

Pedro gostaria de um remédio para dormir e também de voltar para cuidar do curativo na mão enfaixada.

Combinamos um plano terapêutico com Pedro e um retorno para troca do curativo. Ele parece satisfeito com o proposto.

“Pedro, para o plano dar certo eu preciso que você fique acompanhando aqui na clínica por um tempo. Você costuma ficar por aqui ou anda muito pela cidade?”

“Não, eu tô sempre no mesmo lugar. Moro no posto de gasolina ali antes do Maracanã. O do prédio azul.”

Pauso antes de responder.
“…aquele prédio azul, com um canteiro na frente?”

“Esse mesmo! Cê conhece?”

“Conheço sim. Conheço bem.”

Pedro e eu somos vizinhos.

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*Pedro é um nome fictício para uma pessoa real.

Depois do medo

Somos Todos Um | Somos Todos UM

por Deborah Silva

Depois do medo, a COVID-19.

Ela chegou sorrateiramente, driblando todos os artifícios que adotamos: lavar as mãos com água e sabonete, após o álcool gel; sair, só para ir ao mercado e farmácia, usando máscara, ficando o menor tempo possível em locais que comumente geram aglomeração de pessoas e mantendo as orientações de distanciamento social.

Dia seguinte à sua invasão, foi aniversário de meu irmão. O abraço foi através da porta de vidro; não teve bolo de aniversário. Ele passou esse precioso dia de cama, com febre, nauseado; nada além do chá com
mel ele ingeriu naquele dia. Meu medo se tornou preocupação, com ele, comigo, com nossa mãe idosa. Com todas as precauções que pude, fiz o que faço de melhor: cuidar. Cuidei de suas refeições, de sua hidratação, conversando por aplicativo a cada meia hora, mandando mensagens de “tudo vai ficar bem”.

Dia seguinte, acordei meio estranha, uma dor no corpo, dor de cabeça. “Mãe, acho que peguei também”. Vai descansar, disse ela, que eu cuido de vocês dois. E eu fui, me isolei ao máximo no meu quarto. Travei a luta contra o medo. De onde veio, não sei, mas sobreveio uma coragem suficiente para enfrentar aquela dispneia, acompanhada de taquiarritmia e uma estranha diaforese. Fui à UBS, a duas quadras de casa, e não queriam fazer o teste, pois não tinha tido febre aferida. Insisti. Agendaram o teste rápido para a outra semana. Eu agradeci e voltei pra casa, levemente desapontada. Não fosse o entorpecimento da fase aguda da COVID-19, eu teria discutido baseada em evidências com a pessoa que me atendeu para realizar naquele mesmo dia o PCR. Meu irmão fez o PCR assim que adoeceu; o resultado demorou uma semana para sair. Positivou. Meu teste rápido deu negativo. Três dias depois perdi o olfato e o paladar.


Gradativamente nós dois fomos melhorando e pela graça de Deus nossa mãe não adoeceu. Após um mês de quarentena total, pudemos novamente começar a circular (com os mesmos cuidados iniciais) como antes. Comemorei meu aniversário mesmo estando só eu e a mãe em casa. Sentindo-me bem, naquela semana, aproveitei minha ida a Joinville e fiz o teste IgG e IgM para COVID-19; IgG positivo. A gente acha que o pesadelo tinha acabado, mas esquece que a COVID-19 tem suas fases.

Na quinta semana da doença, uma semana após meu aniversário, numa sexta feira, próximo das 22 horas, tive forte dor na cabeça, acompanhada de tontura e náusea. Pensei: pronto, só faltava essa, tive um AVC. Se eu piorar na próxima hora, chamo minha mãe para irmos a Joinville fazer exames. Tomei um analgésico e a dor aliviou; dormi. No dia seguinte, percebi melhora na cefaleia, porém com uma certa dificuldade para andar, bem diferente da dificuldade da crise de ataxia. Achei estranha a minha mão direita, parecia que não me pertencia e ficou ainda pior subir e descer as escadas. Dia subsequente, franca crise de ataxia. Braço e perna direitos com fraqueza desproporcional; a descoordenação motora foi intensa. O medo voltou em forma de assombração de uma possível sequela neurológica. Chorei muito. Alguns copos escaparam da minha mão e se quebraram; não consegui escrever por alguns dias.

Reiniciou-se então a rotina de consultas, exames, terapias e repouso. A crise durou uns 20 dias. A assombração da sequela trouxe junto uma outra assombração: a da incapacidade laborativa. A cada 15 dias, novos sintomas de ataxia; nunca houve uma frequência de crises em tão curto espaço de tempo. A palavra sequela pousou na minha lista de comorbidades e dali não quis mais sair. Minha mente entrou em um estado confuso, assombrado pelo medo da incapacidade laborativa. Logo agora que terminei a Residência, pensei… logo agora… logo agora! As terapias foram me fortalecendo e, afinal, a COVID-19 chegou lá em casa apesar das medidas de precaução.

Até que… meu irmão contou que, em seu plantão, seu colega de turno foi trabalhar sintomático e aguardando o resultado do exame (pois, afinal, estava se sentindo bem e a COVID-19 é só uma gripinha). Não bastando, compartilharam o mesmo alojamento. O vírus não chegou lá em casa por acaso, mas por irresponsabilidade de um médico. Nesse momento fui tomada de raiva e mágoa, como aquelas experimentadas decorrentes das mais graves traições. Agora, no quarto mês de reabilitação, já me sinto quase como antes da COVID-19. Ainda tenho medo de não poder mais trabalhar, medo de precisar terminar minha carreira com apenas 15 anos de prática. Mas ainda luto contra os sentimentos de raiva e mágoa por você, caro colega, que também adoeceu de COVID-19, que também teve suas sequelas, mas que foi irresponsável o suficiente para ir trabalhar sintomático.

Assim, termino meu texto com o exercício mais árduo de toda minha reabilitação: que você, caro colega, seja feliz; que você, caro colega, não sofra; que você, caro colega, encontre as verdadeiras causas da felicidade; que você, caro colega, supere todas as causas do sofrimento; que você, caro colega, supere toda a ignorância, carma negativo e negatividades; que você, caro colega, tenha lucidez; que você, caro colega, tenha capacidade de trazer benefício aos outros seres e que você, caro colega, encontre nisso a verdadeira felicidade.

Eu quero gozar!

por Arthur Fernandes

O Que É Erupção Vulcânica? | Mundo Ecologia

Terça, 15h é um bom horário para conversar sobre climatério com uma mulher de 48 anos na UBS. A consulta teria que ser algo breve porque, apesar de agendada com antecedência, aquele dia estava sendo corrido. Gestão do tempo, que fala? Ouvi boatos que sim, o tempo da consulta/turno/agenda está sempre sendo reavaliado.
Voltemos ao climatério.
– E aí, dona Berta, o que manda?
– Então, primeira vez aqui com o senhor, né. Eu vim pedir uns exames, um check-up completo, porque faz muito tempo que não faço nada.
– Aham, tudo bem. E a senhora tem algum problema de saúde, usa algum remédio?
– Não, nada.
– Bebe? Fuma?
– Bebo só nos fins de semana. Mas fumo que nem uma condenada. E num ria não! 😂
– Oxe! Que nem uma condenada? 😂
– É, fumo umas 2 carteiras e meia, desde meus 14 anos. – Berta tinha 48 anos. – Já disse pro senhor não rir! 😂
– Mas meu Deus, e por que isso? 😂
– Porque eu vou ficar toda xixada rindo também! 😂
É óbvio que eu estava rindo. E muito. Não dela, claro, mas com ela. Voltando.
– E era disso mesmo que eu queria falar. Eu tô ficando toda xixada. Não posso, rir, chorar, tossir, nem nada, que a urina sai. Até de noite, algumas vezes. Acordo toda molhada e fico puta da vida.
– E desde quando isso?
– Tem uns 5 meses.
Conversamos mais um pouco sobre essa queixa e combinamos alguns exercícios de fisioterapia para a pelve, a princípio.
– Algo mais para hoje?
– Eu queria saber só mais uma coisa. Por que eu não gozo?
– Não goza? Como assim?
– Meu marido tava viajando a trabalho há 4 meses, voltou semana passada. Transamos todos os dias. Ele goza. E eu não.
– Sei… e isso já era assim antes?
– Não, antes era ótimo, doutor. ÓTIMO. Pense. Eu gozava normal. Aliás, eu gozava era muito. E agora: nada!
– Hum. E ele? Como está nisso?
– Eu acho que ele tem algum problema.
– Por quê?
– Porque antes era normal. Agora ele goza rápido e depois dorme. Parece que morreu.
– Mas às vezes era saudade acumulada desses meses, não? 😂
– É, mas eu já tô matando a saudade faz uma semana e nada! Ele esfrega aquele negócio em mim e goza. Assim não dá!