Motivos

motivos - causos

por Mayara Floss

 

Doutora, é o seguinte, já que você se preocupa mesmo comigo. Vou te contar, eu entrei no crime porque minha mãe era prostituta. Eu tinha catorze anos e não aguentava mais a minha casa nem as piadas dos meus colegas. Larguei a escola e fui traficar e fiz ela prometer que nunca mais iria se prostituir. É por isso que eu trafico, é por isso que eu mato.

Caratinga mar/2017. 

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Auscultando Estória

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Por: Causos Clínicos

Hoje não trarei um “causo”novo a vocês, mas trarei uma idéia e um convite.

Há aproximadamente um mês uma acadêmica do curso de Medicina procurou o Causos Clínicos com uma idéia que um grupo da faculdade teve e queria compartilhar conosco além de nos convidar para uma força e uma “palhinha”.

Essa idéia hoje tem nome e sobrenome: Auscultando Estórias, uma forma de cuidar do cuidador que alguns de nós também utiliza, a escrita. Escrever sobre nossa vivência, nossa dificuldade, nosso dia a dia, colocando no papel um pouco do que é ser aluno, o que é ser médico, o que é ser cuidado e ser cuidador…

O grupo Auscultando Estória começará dia 05 de outubro de 2017, com um Sarau virtual e a presença de bastante gente legal, inclusive nós do Causos!

Sendo assim, fica o convite a todos que nos acompanham, e as desculpas por não ter um causo hoje.

Quinta feira, dia 05 de outubro, a partir das 20h no Youtube Liver…

Mais informações em:

https://www.facebook.com/auscultando/

 

Vejo vocês lá …

 

Acolhimento

por Antônio Augusto Dall’Agnol Modesto

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A enfermeira nos conduziu à sala de acolhimento para mostrar o programa de prontuário eletrônico; atrás iam eu e alguns estudantes do segundo ano de medicina. Ao entrar na sala, me deparei com um casal sentado diante da mesa, que a enfermeira logo ocupou. Deviam ter cerca de 20 anos e pareciam esperar alguém. Ele, cabelos raspados dos lados e curtos em cima, abaixados com gel; ela, longos cabelos negros e olhos grandes; os dois vestidos como se fossem tocar a vida na sequência.

Enquanto a enfermeira nos mostrava como consultar os prontuários no sistema, uma técnica de enfermagem entrou na sala. Trazia quatro ampolas, e eu imaginava o que eram: penicilina benzatina para sífilis. Cada ampola estava destinada a uma nádega do casal.

A enfermeira seguia explicando as potências e limites do sistema e respondendo a perguntas cirúrgicas como se era possível listar os pacientes atendidos por diagnóstico ou como a equipe lidava com a continuidade entre os prontuários físico[i] e virtual[ii] de uma pessoa, enquanto a técnica preparava as doses de antibiótico. Eu ouvia os jatinhos da água destilada batendo no pó dentro das ampolas[iii] e me perguntava como tinham tido o diagnóstico, se os dois tinham sorologias positivas ou foi um tratamento “paciente + parceiro” (ou “paciente + parceira”), como eles tinham conversado sobre isso e quanta atribulação o diagnóstico traria ao casal.

“Vem”, diz a técnica ao rapaz, que se levanta e vai para trás do biombo – uma armação de metal sobre rodinhas na qual se amarram panos como anteparo. O rapaz era mais alto que a peça. Uma sala aberta com sete pessoas estranhas – profissionais e estudantes da saúde, mas estranhos a eles – não me pareceu um lugar confortável para alguém tomar uma benzetacil na bunda. Além do mais, nossa tarefa ali já estava acabando.

“Oi”, eu digo, “já estamos saindo”. Ela não ouve. “Oi!”. Ela não ouve. “OI, MOÇA”. Ela me olha, o rapaz com a mão na cintura, ela brandindo a seringa. “A gente já tá saindo, ele não precisa tirar a calça agora”

“Não, tá aqui o biombo, ó!” e apontou para o biombo. O jovem, resignado, arriou as calças. Meu queixo também arriou. Os estudantes saíam da sala, a enfermeira logo atrás, e eu tinha vontade de pedir desculpas ao casal.

O que estava em questão era a exposição da genitália, não todas as outras exposições envolvidas; era uma questão moral, não de bem-estar. Como se fosse trocar de roupa antes de entrar no carro, depois da praia: alguém segura uma toalha na altura do seu peito, você olha para um lado, olha para o outro, tira a sunga e rapidamente coloca a bermuda.

Fiquei pensando na variedade de coisas que ninguém faria em público, atrás de um biombo.

Ele já tomava a segunda injeção. A vez dela chegaria logo. “Tomei a liberdade de ver o remédio que vocês estão tomando, e essa injeção pode doer um pouco depois”, eu disse a ela, de saída. “Pode tomar uma dipirona, se tiver com dor”.

“Dói na hora ou depois?”

“Às vezes nem tanto na hora, mas depois muita gente fica com dor no local. Pode tomar dipirona ou qualquer analgésico que você esteja acostumada”.

O nome na porta dizia “acolhimento”.

24 de agosto de 2017

 

[i] O prontuário tradicional: um punhado de folhas de papel grampeadas, guardadas em um envelope.

[ii] O prontuário eletrônico, no computador.

[iii] O remédio vem em uma ampola com um pozinho. O profissional mistura algum diluente (como água destilada) para então fazer a injeção.

Conforto

Por  Mayara Floss

 

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Toda a vez que trabalha na fábrica sente dor de cabeça, falta de ar, tontura.

– O que você faz?

– Espuma para colchão caro.

– Usa todos os equipamentos de proteção individual?

– Uso sim, mas às vezes o ritmo faz a gente deixar de usar ou o equipamento não é tão bom.

– E os colchões são bons?

– Nunca usei, é colchão de gente rica.

Caruaru fev/2017

Crack e o chocolate

Por Mayara Floss

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      Em um desses dias de plantão uma paciente, entre tantas outras, em trabalho de parto de uma criança prematura e “usuária de crack”. Sem pré-natal, sem documentos, sem familiar, sem acompanhante, quase sem roupa. Tudo acontece muito rápido não deram nem dez minutos. Ela após o parto ajoelha-se no chão para rezar pela filha que nasceu. Fica na sala de recuperação do parto chorando desconsolada. Eu indo e vindo com uns papéis decido entrar no quarto, colocando de lado meu turno de sono para conversar com ela. Toco no ombro e peço se ela quer conversar, ela vira-se, chora e diz: “é tudo culpa minha”. Eu só escuto, a história, o filho perdido, o ex-marido, a vida que se costurava entre as lágrimas. História doída. Começamos a conversar e de repente a barriga dela  “fala mais alto”. Ela coloca a mão na barriga e confessa: “Não como há três dias, fui vender crack para conseguir comida e acabei usando” – respira fundo e diz – “é sempre assim”. A copa já está fechada, estamos adentrando a madrugada e insisto para conseguirmos algo para ela comer, pergunto se posso dar um chocolate que eu tenho, a enfermeira dá de ombros com um “sim”. Levo meu chocolate para ela, ela dá um pulo da cama, “Eu adoro chocolate, faz tanto tempo que não como um”. Eu sorrio ela lê a embalagem: “Sem açúcar, sem leite, sem glúten” e ela diz para mim “essa coisa é porque quer emagrecer?” eu digo que “não” e rimos juntas com uma certa cumplicidade entre nós. Os olhos castanhos com um brilho verde ao comer o chocolate. Nós duas, tão mulheres, tão humanas, tão chocolate.

Rio Grande, 04/05/2016

Das dores

por Antônio Rialtoam*

Maria, 50 anos, diarista. Me chega ao ambulatório, na primeira consulta, referindo forte dor lombar. Faço todas aquelas perguntas e exames que a semiologia orienta. Sinal de Giordano positivo na lombar esquerda. Ela afirma que é uma dor muito parecida com a que sentia quando teve cálculo no rim direito. Através do método clínico centrado na pessoa, vou conhecendo Maria e como essa dor afeta sua rotina. Os possíveis diagnósticos foram se desenhando à nossa frente enquanto eu a convidava a manejar seus próprios problemas a fim de buscar a melhor terapêutica. Não referiu mais nada, estava tudo bem em casa. Foram prescritos anti-inflamatório e analgésico, solicitados exame de imagem, e o seu retorno para acompanhamento.

Na segunda consulta, Maria tratou de outra dor. Criou seus quatro filhos com muito suor e lágrima. Proporcionou a cada um, alternadamente, estudar por dois anos em escola particular: era o único meio. Em meio à tristeza aparente, abriu um sorriso orgulhoso quando disse que todos os filhos tiveram lápis da Faber Castell. “Lápis de rico, doutor!” – salientou Maria. Há dois anos, perdeu seu único filho homem. Estava envolvido com drogas, ela sabia. Esteve preso por um ano. Nesse período, ela pagava setecentos reais mensais ao crime organizado para protegerem seu filho. Teve que vender a casa em que morava para custear tanta despesa. Maria emagreceu, trabalhava feito doida. Admite que muito dela morreu com a partida do filho.

Hoje, trabalha diuturnamente para esquecer um pouco essa dor que a sufoca quando a encontra parada e sozinha. Nessa hora, me lembrei de Cora Coralina e pensei que não há outro remédio senão o colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta, o silêncio que respeita, a lágrima que corre, o olhar que acaricia e o amor que promove. Ajudá-la a buscar novos motivos que reacendam a chama de vida quase apagada em seu peito talvez seja a melhor forma de promover o cuidado que ela precisa.

– Posso continuar com seu zap, doutor?

– Mas é claro, Maria! Me chame quando precisar.

– Eba! Ganhei um amigo.

 

* Antônio é estudante do terceiro ano de medicina, membro-fundador da Liga Acadêmica de Medicina de Família e Comunidade da Paraíba, e se diz futuro MFC.