A TAL DA VITAMINA

por Rosiane Pinho

Luta Saúde: Saúde é um direito, não é um negócio! – Página 13

    Chamo a primeira paciente da semana: dona Maria, com seus 70 e muitos anos, que vem à Unidade de Saúde acompanhada da filha para checar exames. Na consulta anterior, dona Maria havia se queixado de alguns episódios de confusão mental, e um dos exames solicitados na investigação foi a dosagem de vitamina B12 – uma vitamina que, se deficiente, pode ocasionar alguns sintomas compatíveis com o que ela apresentava. E, no caso dela, essa vitamina realmente estava com níveis muito baixos!

– Dona Maria, pode ser que tenhamos descoberto a causa dessa sua confusão! De todos os exames, o único que veio alterado foi a dosagem de uma vitamina que pode causar isso quando está em falta no nosso corpo…

– Ufa! Que bom, dra. Menos mal ser só essa tal de vitamina então, se todo o resto tiver funcionando (risos)! Isso é fácil de tratar, né?!

– É, sim! O tratamento é bem simples, já eu te explico certinho. O único problema é que não temos de graça no posto… Vocês teriam condições de comprar? (sempre me dói fazer essa pergunta)
    

Nesse momento mãe e filha entreolharam-se, num instante que pareceu uma eternidade. Um misto de preocupação e aflição na feição de ambas, até que a filha suspirou e tomou coragem: 

– Ah, doutora. Pode passar sim, damos um jeito! A gente tira da mistura do almoço ou do jantar em algum dia pra comprar o remédio da mãe…
  

  Foi minha vez de fazer um segundo parecer uma eternidade, com um turbilhão de pensamentos na minha mente, tentando sentir o peso que essa escolha carrega em si: comer ou se tratar? (e, afinal, alimentar-se também não faz parte dos requisitos mínimos de uma vida saudável?). Engoli em seco, imaginando outros pacientes que diariamente devem fazer essa escolha em silêncio – ou que escolhem pela alimentação como remédio, sendo muitas vezes julgados por não terem realizado o tratamento proposto.
No final das contas, prescrevi a “tal da vitamina”, e ao vê-las no dia seguinte aplicando a medicação no posto me peguei pensando no que elas teriam deixado de comer naquele dia para que isso fosse possível…                   

Chegou a vacina!

por Carolina Reigada

Zé Gotinha completa 30 anos – Meio & Mensagem

Hoje, 20/01/2021, eu chorei na volta para casa.

Há quase um ano, na segunda semana de março de 2020, uma reunião “urgente” com todos os profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) onde eu trabalho acontecia. A pandemia – duvidada, temida, subestimada, superestimada – havia chegado.

E tudo mudou radicalmente.

As equipes de saúde da família foram temporariamente desfeitas. As médicas teriam que cobrir pelo menos dois turnos de atendimento a pacientes com suspeita de COVID, manter seguimento clínico de grupos considerados prioritários – como gestantes, contracepção, doenças crônicas sem controle – além do atendimento a urgências. E, como os pacientes ficaram com medo de ir aos hospitais, urgências complexas chegavam com frequência. Além disso, mais de um terço dos profissionais foram afastados para teletrabalho, e o restante ficou na UBS esperando a tal onda que viria.

A porta da UBS, tradicionalmente aberta e de livre trânsito, foi bloqueada por uma mesa, retirada de um dos consultórios. Ali, ficaria sempre alguém fazendo a triagem de sintomáticos respiratórios e organizando os fluxos da unidade. Essa mesa virou causa de sofrimento para todos, todas e todes. O profissional ali escalado tinha pesadelos na noite anterior: lidar com o público às vezes assustado, às vezes desinformado, estando ele mesmo assustado e nadando em incertezas, é muito difícil. Os pacientes reclamavam da mesma mesa: uma barreira de acesso, uma cancela na porta da UBS – mesmo que alguns entendessem o motivo de ela existir.

O auditório, local da unidade dedicado aos grupos em saúde, à promoção de bem-estar, foi transformado no local de atendimento a pessoas com suspeita de COVID. De local mais descontraído da UBS, foi transformado na sala em que ninguém queria estar.

Atender os sintomáticos respiratórios é muito difícil. Os equipamentos de proteção individual são desconfortáveis e quentes, muito quentes. Não se pode ligar ventilador nem ar-condicionado. Éramos afogadas em atualizações de notas técnicas e pesquisas científicas pelo menos duas vezes por semana, com mudanças nos protocolos federais e locais na mesma velocidade. As informações, sempre frescas, sempre novas, se acumulavam e nos deixavam sempre alertas à necessidade de rever, atualizar – e saber como explicar tanta instabilidade àquelas pessoas que chegavam ali, apavoradas com o que viam na TV.

E sim, ainda tínhamos que lidar com todas as fake news e desinformação, a procura irracional por testes diagnósticos e tratamentos milagrosos e uma flagrante desorganização em tantas esferas de gestão.

Quando a primeira onda chegou, realmente foi o que esperávamos. Todo dia, precisávamos acionar os serviços de transporte sanitário para remover pacientes: 1, 2, 3, 4. Às vezes, um seguido do outro; a ambulância ia e vinha sem tempo pra descanso. Até que a ambulância parou de voltar para pegar o segundo paciente que precisava de remoção, porque ainda não tinha encontrado vaga em nenhum hospital para aquele primeiro paciente. O medo era contínuo de que um dia, chegaria ali na UBS alguém que não encontraria vaga, que poderia morrer ali mesmo, por falta de um leito hospitalar, de ventilador mecânico, de oxigênio.

Eu passei por maus bocados*. Terríveis bocados, até. Minha família seguia isolada em casa, mas eu tinha que trabalhar. Todos os dias, eu ia com medo de me contaminar. Todas as tardes, eu voltava com medo de contaminar a eles. Minha filha chorava porque eu não a abraçava. Considerei alugar um apartamento para morar afastada deles, porque os pensamentos recorrentes em que eu era responsável por contamina-los, e eles eram internados, intubados, morriam, estavam além do que eu conseguia suportar. Quando não era isso, ficava imaginando como deve ser ruim morrer sozinha, com frio, entubada, em um CTI. E eu pensava nisso tudo enquanto vestia todos os EPI para atender pessoas com suspeita de COVID, tentando focar que minha família estava segura, em casa. Tentando focar que ali também tinha pessoas que precisavam de ajuda, apesar de eu mesma estar completamente apavorada.

O pavor aumentou quando as pessoas ao redor começaram a se contaminar. Quando as primeiras notícias de mortes chegaram. COVID levou pessoas queridas, tantas e tantas. Quem seria o próximo? Os fatores de risco (claro) serviam de estimativa, não de certeza. E os critérios para suspeita de COVID se alargavam cada vez mais, a ponto de qualquer sintoma (até banal) ser o suficiente para a suspeita. Parecia que não tinha chão seguro para se pisar.

Em abril, no meio da pandemia de COVID, fora de moda que sou, peguei dengue. As dores no corpo e a febre acabaram com o pouco controle emocional que eu ainda tinha. Me isolei no quarto até descobrir se era COVID ou não. Os testes rápidos para dengue foram negativos, o que me apavorou ainda mais. Comecei a ter crises de pânico, uma seguida da outra, várias ao dia. Não dormia, não comia. Só consegui ter alguma calma quando os dias se passaram, ninguém em casa ficou doente, e o exame sorológico de dengue finalmente foi positivo. Mas o episódio mexeu comigo, e desde aí, a ansiedade que estava sorrateira aqui em mim, abafada por uma racionalização extrema, explodiu.

Foram mais de 3 meses de muitos sintomas.

As dores musculares (na nuca, na cabeça, nas costas) eram diárias. Eu não queria ficar tomando remédio, primeiro porque não gosto de remédio; segundo porque tinha medo de o remédio “mascarar” uma febre ou um sinal precoce da doença (e era crucial que eu identificasse qualquer sinal precoce, para que eu logo me isolasse e não contaminasse ninguém). Descobri que atividade física melhora as dores por mais de 12 horas, então passei a fazer todos os dias. Todos os dias. Se não fizesse, as dores voltavam.

Crises de falta de ar e palpitação também eram diárias. Andava com minha “bombinha” de asma para todos os lugares, mais para me acalmar do que para usar. Nessas horas, tinha que parar, focar na respiração e esperar a adrenalina baixar.

Choro, muito choro. Às vezes quando eu não esperava, às vezes programado, para deixar todo o excesso sair. Muito choro também de tantas datas em que não pude viajar para estar perto da minha família. Vivi um natal inédito na minha vida, em que não abracei minha mãe, minha avó, meu irmão.

Agradeço imensamente a todas as pessoas que me ajudaram nesse período. Algumas já eram próximas, outras apareceram de surpresa. Todas foram importantes.

Eu também fui importante, procurei novos caminhos, encontrei novas formas de olhar e fazer a vida. Voltei pra terapia.

E hoje, chorei de novo.

Chorei porque o COVID é uma força da natureza sob a qual nos vimos impotentes e sem controle. Porque encarei alguns dos meus piores medo de frente. Porque, mesmo com medo, continuei trabalhando da melhor forma possível. No SUS.

O SUS, que apesar de tantas tentativas de sabotagem, respondeu à demanda da epidemia. Poderia ter feito muito melhor, sim. Cabe a nós lutar para que as melhorias cheguem.
O SUS, que apesar de tantos interesses políticos e econômicos contrários, produziu e agora distribui uma vacina contra o COVID. Todos os memes que eu vi sobre a vacina eram ambientados em uma UBS, e isso me dava orgulho. O Programa Nacional de Imunizações é um patrimônio brasileiro. O SUS é um patrimônio brasileiro.

Hoje, chorei de alívio. Sim, eu sei de todas as polêmicas e incertezas estatísticas que rondam a Coronavac*. Mas hoje eu me permiti ter alegria e esperança. A vacina me dá a certeza de imunidade? Não. Mas acho que a pandemia nos ensinou a lidar com incertezas. E em meio ao temporal de desastres, essa picada que eu levei no braço, dentro de uma UBS, trabalhando pelo SUS, me deu uma sensação de vitória.

Viva o SUS. Viva a gente, que continua lutando e tendo esperança.

E que venha logo vacina para todas, todos e todes.  

* e sei que não fui a única

** nem vou considerar relatos de virar jacaré, mudar DNA ou implantar chip. Porque, né? Sem paciência.

Lágrimas

por Thiago Morelli

Os 10 encontros de águas mais belos do mundo

Há uma semana eu chorei junto com uma paciente. Não foi a primeira vez que aconteceu. Eu não estava bem, me sentia angustiado desde o começo da manhã.
Ela começou a contar que não sabia mais o que fazer pra controlar a pressão arterial. Que sua pressão dava “saltos”, sem explicação. Já estava usando quatro classes de anti-hipertensivos. Jurava que não colocava nada de sal na comida. Queria ser encaminhada ao cardiologista. E eu, cansado por causa da demanda grande de pacientes do dia e angustiado por questões da vida, já estava preparando o encaminhamento.
Durante a residência costumava deixar um bilhete colado no computador que dizia “o que está por trás daquela queixa?”. Pra não esquecer. Pra nunca esquecer. Não sei bem o motivo, mas lembrei desse bilhete. Juntei o que me restava de forças daquele dia de coração nublado, com o toque sincero das mãos e resolvi perguntar: “Quando a senhora começou a sentir isso?”
– Há seis meses.
– E o que aconteceu nessa época…?
Bastou. O choro começou. O marido tinha morrido. Batia diariamente nela. E ela se sentia culpada por ter ficado feliz dele ter partido. Eu comecei a chorar junto. Conversamos bastante. Com aquelas lágrimas a minha angústia e a dela estavam indo embora.
Essa semana ela voltou. Pressão mais controlada, sem picos. Eu pedi desculpas, estava envergonhado. Sentimento associado aos professores que diziam que era errado ter esse tipo de relação com os pacientes. Ela disse que não precisava me desculpar, que desde a morte dele não conseguia chorar e que conversar sobre isso tinha feito muito bem pra ela. Que aquele meu “choro solidário” tinha sido muito significativo.
Não ensinam na faculdade de medicina, mas cada vez mais, trabalhando na atenção primária, acredito que as lágrimas represadas pesam no corpo. E viram pressão alta, dor no pescoço, na coluna, cabeça…

Antes do causo clínico

por Aysla Rinaldo

Não há declaração de amor maior do que receber uma carta escrita à mão |  Revista Bula

“Olá, dona doença.
Desde que nasci, aprendi que você é real. Que se você aparecesse, a gente podia ir ao médico que ele nos ajudaria a te deixar bem longe de nós. Algumas vezes, você apareceu em minha vida, na de meus pais, meus irmãos, meus avós, meus amigos. Mas eu nunca olhei nos seus olhos. Você sempre foi uma senhora passageira, ou silenciosa, ou fatal. O fato é que você não estava em minha rotina. Todo dia me visitando. Por me encantar com o corpo humano e pela possibilidade de cuidar das pessoas, acabei escolhendo trilhar os caminhos da medicina. Logo no primeiro ano, percebi que a senhora era muito diferenciada. Estava potencialmente em tudo, em todos. Podia chegar a qualquer momento e se instalar de milhares de formas. E os médicos estudavam as milhares de formas de combatê-la ou, pelo menos, fazer sua presença menos perceptível. Lá no começo da trajetória na medicina, uma angustiazinha me acometeu: eu queria poder te ver viva, não nos livros, nos guidelines, nas discussões. Na verdade, eu queria ver o seu palco: as pessoas. Não me leve a mal, não que eu não me importasse com a senhora. Mas é que simplesmente te ver e apenas te ver, deixava minha vida meio preto e branca. Comecei a aceitar, então, que para servir às pessoas que sofriam pela sua presença, eu precisaria te estudar bastante. Foram então 4 anos. Com algumas (tão necessárias para me lembrar o sentido da caminhada) visitas da senhora em ação. E a oportunidade de ver que a senhora não é tudo que dizem. Porque sua presença é extremamente adaptável. Até que chegou o momentum: estar diariamente vendo pessoas. Te ver atuante. Te ver combatida ou contida. Mas hoje preciso te confessar algo, dona doença. Infelizmente, eu sei que a medicina te faz pensar isso. Mas a senhora não é o foco. Eu sei, no meu dia-a-dia, eu tenho visto muitos médicos e médicas te olhando nos olhos, te venerando, te estudando arduamente. E eu também preciso te estudar. Mas sabe de uma coisa? Olhar para a senhora como o foco faz a medicina perder seu brilho. Não me entenda mal. Sei que a senhora é muito respeitada. Mas me cansa ver uma história cheia de altos e baixos, cheia de emoções, cheia de expectativas, cheia de frustrações e a senhora aparecer, mudar tanta coisa, e a única coisa que a medicina foca é na senhora. Ora, eu serei médica e estou te afrontando desta forma? Como assim, se não fosse sua presença, eu não teria emprego…É verdade, dona doença. Eu não estou negando sua existência e sua importância. Mas o que quero dizer é que olhar para a senhora como o objetivo da minha prática não faz sentido na minha caminhada. Olhar nos seus olhos todos os dias me faz ter mais certeza que não devo focar na senhora. Mas naqueles em quem a senhora está. Porque são eles que te fazem ser quem é. E é só entendendo as pessoas, é que vou te entender direito. E, então, poderei agir. Mas ah, na faculdade não me contaram tudo isso. Então não te focar ainda será uma construção. Por isso, não se engrandeça achando que a senhora voltou a ser o foco às vezes. Eu ainda estou aprendendo a olhar além. E olhar de verdade. E cuidar de verdade. E encontrar sentido na medicina.”

Pertencer

por Guilherme Vale

Amizade - a estrutura da sorte dentro da teia de amigos | Arte espiritual,  Xamanismo, Teia

Pertencer,

Saber não estar só,

Mesmo quando sozinho.

Sim, no mundo, tem gente

Que pensa, trabalha, cuida e sente

Assim como você.

Pertencer é

Tecer encontros com pontas soltas

Das durezas do dia.

Transformando-nos em malha,

Grossa, firme, forte, unida.

Pertencer

É estar junto,

É não se deixar vencer – nem vender!

Por homens públicos (de Interesses privados)

Que nos privam de saúde, educação,

Mas não vão nos privar do amor!

Pertencer

É verbo transitivo indireto

Não funciona sozinho,

Precisa de um objeto, um complemento, para ser.

“Fazer-parte-de”.

Pertencer,

No atual contexto,

Transforma-se em sentimento,

Igual cimento,

Cola que não cala – grita!

Contra as injustiças da vida.

Pertencimento

É esse coletivo de Ornitorrincos,

Seres estranhos, inquietos e incompreendidos,

Mas jamais sozinhos,

Porque, quando juntos,

Não importa quem, onde, quando, nem idade,

Cuidaremos e seremos sempre

De Família e Comunidade.

Joelhos de Sucata

por Humberto Sauro

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Severino pelo ranger de suas dobradiças deve ter perto de sessenta. Destes, mais da metade foram dedicados a uma empresa de reciclagem. O cargo de Severino: caçador de tesouros. Há alguns anos a companhia fechou as portas e o dono português cruzou novamente o Atlântico sem pagar os direitos dos empregados. Severino então se viu perdido, mas como caçador inveterado, não viu outra forma de andar a vida, não fosse esmiuçando descartes, à procura de ouro, o que melhor sabia fazer. O grande problema aqui foi o depósito, pois não tendo mais o pátio para armazenar o material, a saída foi estocar em casa. Tendo ainda pouca saída para as mercadorias, com poucos compradores para suas relíquias, vendendo quatro a cinco baldes de plástico na feira de domingo e com um comprador de motor de geladeira aqui e outro que ainda barganha por um cavaco de ferro ali, inviabilizando transações, a pilha de achados se avolumou.

Foi aí que começaram as desavenças com vizinhos e familiares. A montanha de artigos dos mais diversos tomou toda a laje da casa indo do chão até o teto de amianto, de maneira a impedir a utilização de uma semi-nova máquina de lavar-roupas pelo que lamentava sua esposa, o quintal não abrigava mais os cachorros, mas os ratos encontraram um parque de diversões, enquanto na calçada, a entrada da casa foi praticamente atunelada por entulhos, que dificultavam inclusive a passagem de carros em mais uma das estreitas ruas da comunidade Parque Sensação.

O filho de Severino que conseguira preservar seu pequeno quarto sem a tralha do pai, mas que mesmo assim desviava de três degraus de baterias empilhadas junto com garrafas ao sair do seu refúgio para a cozinha, solicita o apoio da equipe de saúde da família, entendendo que o caso se tornara uma questão de saúde. Zedequias, médico de família e comunidade que já estivera com Severino em pelo menos quatro consultas tratando da sua artrose nos joelhos, que produziam as mais altas crepitações que ouvira ao flexionar e estender as articulações, seguiu com seu residente e a agente comunitária para a visita domiciliar na semana seguinte ao recebimento daquela inusitada demanda.

Na véspera, estudou as possibilidades de intervenção e confiante na relação médico-paciente que havia cultivado durante as infiltrações nos esfarelados joelhos e dispensação de analgésicos, e numa lembrança de Severino sempre muito cortês e agradecido, mesmo quando demorava a ser chamado para o atendimento, pensou em possibilidades diagnósticas de transtorno-obsessivo-compulsivo, em indicação de drogas psicotrópicas e apoio psicológico, em até mesmo trazer o insight para o seu paciente com toda a técnica de comunicação clínica que havia aprendido e do alto da sua palavra médica de autoridade sanitária, que aquele amontoado de lixo era um grande risco para todos, que o acúmulo havia se tornado patológico, que em última instância pelo valor da sucata e respeito aos honorários despendidos no ajuntamento, o médico até pediria um orçamento para então comprar o lote e dar início a faxina e nova era de salubridade daquele lar.

A equipe foi muito bem recebida naquela manhã. Teve café e uma reunião familiar na pequena sala. Todos tiveram sua fala. Os filhos se queixaram daquilo que parecia óbvio: o pai era um acumulador de sucata e a situação exigia uma medida drástica e definitiva. Severino tinha que se livrar daquelas bugigangas e ainda assim interromper suas andanças diárias de coleta, pois mesmo depois de uma limpeza geral, seria capaz de restaurar o caos em semanas. Zedequias trouxe então seus diagnósticos e terapêuticas, mais complexos para este mal do que aqueles empregados nas juntas do acusado, que apesar de aparente relutância em consentir com aquilo sobre o qual concordavam todos ao seu redor, aceitou começar com o desapego das pilhas de ferragens e entulhos de obra da calçada. Em dado momento, o médico interpelando Severino sobre o valor de quatro potes de margarina e um tijolo quebrado com restos de argamassa no mercado de sucata, Severino não pestanejou em responder confiante sobre a liquidez dos itens, ao que o médico volta o olhar para o seu residente, transmitindo em tom de ensino a extração na entrevista do atestado de deslocamento do juízo de realidade de seu paciente. Severino também parece não concatenar mais sobre questões de categorização das sucatas ferrosas, não-ferrosas e eletrônicas separando-as e organizando em diferentes setores como fazia à época de carteira assinada. Quando questionado sobre o amorfismo dos conjuntos de coisas que inapelavelmente faziam com que o leigo chamasse de lixo, como aqui fez-se referência algumas vezes, o que pra ele era sucata, o mesmo respondia que estava tudo em ordem.

Café digerido em estômagos contorcidos pela atmosfera da ocasião, conduta traçada, decisão compartilhada, parte a equipe, com planos de retorno em sete dias, para averiguar a acordada nova arquitetura minimalista da calçada.

Em reunião de equipe, dois dias após a visita domiciliar, a agente comunica que Severino foi agressivo com a esposa e filhos após investida dos profissionais de saúde, que não ia se desfazer de tudo aquilo que encontrara de uma hora para outra, que o doutor como ele mesmo assumia, não entendia desse tipo de negócio. Comunicava ainda que os filhos pensavam agora em sair de casa junto da mãe, acionar outros órgãos competentes como a companhia municipal de coleta de lixo ou vigilância sanitária e que os transtornos no perímetro do lixão urbano eram tantos que os vizinhos ameaçavam atear fogo naquele mar de resíduos.

Passados alguns meses, Severino procurava a clínica novamente por dores que insistiam em limitar suas jornadas do trabalho, Zedequias examinava e palpava aqueles joelhos deteriorados, condenados pela ortopedia mas funcionais para um errante catador de artefatos fora de uso, enquanto dava o aceite ao convite para mais uma xícara de café.

Amor de mãe, amor de filha

por Carolina Reigada

Pin en Μάνες

O motivo da consulta na tela do computador era “mostrar exames”.

Reli a última consulta, há quase 2 meses. Hipertensão, não lembra os remédios que toma, mas bem controlada. Por um detalhe na história, lembro da paciente. E lembro também da consulta: veio queixar-se de esquecimento. “Quando esquece, o que esquece?”. Ela conta que é na sala de aula que os “brancos” vêm.

Me interesso pela sala de aula. Ela conta que está aprendendo a ler e escrever. Olhei para o rostinho calejado, para a bengala, para os cabelos brancos…e para a alegria que ela tinha em estar sendo alfabetizada. Me emocionei.

Pedi para contar desses esquecimentos. Acontece em casa, se perde na rua? Não, ela diz. Eu arrisco: às vezes a gente tem a cabeça tão cheia de preocupação que não prestamos atenção no dia a dia, e os detalhes nos fogem.

Ela conta que é a filha mais nova. Mora com ela. Ela a ama, mas a filha parece não querer se aproximar. A distância é o castigo que a filha lhe dá, a pena por achar que a mãe devia lhe dar atenção, por achar que a mãe gosta mais da irmã.

Aquela emoção que senti mais cedo na consulta me deixou ousada. Perguntei: você a ama? Ela disse que sim, e chorou. Eu disse: então fala pra ela. Ela disse que não sabia como. Eu disse: olha no olho dela, e fala.

Ela voltou hoje, na segunda consulta.

Esqueceu-se dos esquecimentos. Pergunto o que ela precisa hoje. Ela me diz que, no dia das mães, pegou na mão da filha e a disse que a ama muito. E se surpreendeu quando a filha disse que também a ama muito, mas tem dificuldade para mostrar.

E me emocionei de novo. Mas eu não deixo transparecer, não. Fico durona.

Ela diz que Deus é muito bom, eu sorrio. Ela diz que Ele coloca pessoas boas no nosso caminho. Eu mudo de assunto: vamos ver esses exames, então. Não quero admitir que fiquei feliz de ter me conectado com ela e ajudado de alguma forma. Porque vou acabar decepcionando-a, em algum momento, ao longo do tempo. Sei que não sou essa pessoa boa a que ela se refere.

No fim da consulta, retomo: mas então vocês se aproximaram. Ela diz que estão achando um caminho. Sorrio novamente. Sinto a mesma conexão de antes, e me pergunto se ela entende o meu sorriso, como eu acho que entendo o dela.

Há tosse

por Thiago Gomes

Pulmões Vermelhos E Alaranjados Com Borrões Brilhantes Da Pintura  Ilustração Stock - Ilustração de sumário, medicina: 138113631

Todo médico atento saberia diagnóstico diferencial de tosse crônica em adultos. Uma questão de script. Asma, sinusite e refluxo. São entidades separadas, cada uma de uma especialidade diferente: pneumo, otorrino e gastro.

Como cuidar delas separadamente? Como coordenar cuidados nesse contexto?

Bem, no aniversário de 50 anos, ela queria comemorar de um jeito diferente.

Após a separação que ocorrera há 6 meses, andava mais cabisbaixa, nada que um inverno nada rigoroso não submetesse. Ela sucumbiu finalmente, veio a crise que forçou o encontro.

Por que não o pronto socorro? Por que não o especialista em tosse?

Dessa vez não era a tosse o problema, era dispneia – a falta de ar.

Sim, ela tinha fome de ar. Estava acima do peso que dessa vez o vazio necessitava de uma compreensão maior. Entre fôlegos, suspiros, sonhos, choros, saturações, inalações e puffs de aerossóis, o sol renasceu, a vida voltou a ter….

A fazer sentido

A terapia imposta é certeira – primeiro descanse, segundo cheire, terceiro come e sem regurgitação. Na verdade, mais que comer, engolir tantos problemas, tantas pressões, tantas gerações…e num simples genograma a visualização de tanto sofrimento, tanta carga, tanto peso…

Não era uma simples tosse, nunca foi a tosse o problema, ela – a tosse e todos os diagnósticos colocados em hipótese, confirmados ou não por meio de testes complementares – eram a resposta que aquele ser humano encontrou para dar sentido à vida, uma pesada vida.

E meio século foi necessário para ela voltar a viver com mais leveza, sentindo um fluxo, uma fluidez no viver. Foram necessárias duas semanas na APS.

Sim, ela passou em apenas em médico e em três encontros – um para asma, outro para o refluxo e o último para a sinusite – foram as mazelas cuidadas, olhadas, exploradas, extirpadas, eliminadas.

E a tosse?

Diga 33…

Dos acordos de gentileza

abraço | Arte, Abraço, Imagens

por Jéssica Pessôa Neves

Hoje o dia foi bem tranquilo nos atendimentos, mas minha energia estava bem baixa. Só queria acabar de consultar todos, para poder dar algum cochilo pelo consultório, o final de semana foi trabalhoso e passei um bom tempo preocupada com uma paciente de saúde mental. Assim se passou a manhã, até que o nome de Maria apareceu na lista de espera. Me lembrava dela de consultas passadas. 83 anos, bem emagrecida, aparência de idosa frágil, e portadora de uma DPOC* que tratamos várias exacerbações. Todos os atendimentos que fiz a ela foi sem consulta marcada, e sempre dizia que tínhamos que marcar um horário, mas ela nunca voltava.

Logo que vi, quis chamá-la, primeiro para saber como estava desde o último tratamento que fizemos e ela não voltou, e segundo porque a próxima paciente iria demandar muito mais energia na consulta, era uma forma de descansar.

Esqueci que dona Maria tinha sua própria opinião muito bem formada sobre sua vida. Suas decisões na consulta me fizeram lembrar o que Clovis de Barros citou em um de seus livros, quando falou de David Hume, comparando os afetos à harpa (instrumentos de corda) e não a cornetas (instrumentos de sopro).

“Sim porque os efeitos do mundo sobre nosso corpo duram mais tempo do que o dedilhar que lhes deu causa. Ao passo que a corneta só soa enquanto houver sopro. O mundo nos afeta, e a harpa de nossas sensações seguem vibrando por mais tempo.”

Me senti vibrando após a consulta de dona Maria, não pelo tratamento clínico que fizemos (ou não fizemos), mas pela melodia que me trouxe hoje. Ela veio, sorridente e visivelmente cansada, como sempre. Disse que veio só por dois motivos, uma dor na barriga e uma tontura. “Eu vim pra você me passar uma USG** de abdome, porque não posso morrer sem saber o que eu tenho”, escutei a frase e fiquei curiosa quanto essa ideia de morrer, mas resolvi deixar para uma próxima ocasião. Quando perguntei da tontura ela também fez a mesma observação “preciso de um exame da cabeça, porque não posso morrer sem saber o que eu tenho”. Não aguentei: “dona Maria, a senhora está falando tanto disso, e como é isso da senhora morrer, me conte aí“. Ela gargalhou e respondeu “não doutora, é porque eu tô morrendo né, 83 anos. Todo mundo morre um dia e eu estou mais perto que longe. Aí que eu vou vivendo preparada né, e vou deixando tudo organizado. Mas essa danada dessa dor na barriga que tá me agoniando, porque eu tenho o problema do pulmão que a senhora sabe, mas já sei o que é. Eu fico cansada, mas já é meu normal, já me acostumei, não me acostumo é com a tontura e com a dor, que são coisas novas. Preciso saber o que é pra morrer em paz”.

Interessante como Maria tinha a sabedoria de viver cada dia e de ter uma boa relação com a morte como parte da vida, permitindo sua chegada, quando a vida desejasse ir. Mas ao mesmo tempo tinha a angústia de saber o que é a dor e o medo dela ser “algo de muito ruim”. Para ela o problema não era morrer, e sim morrer com uma angústia. O problema de ser algo grave não era pelo desfecho, mas sim pelo caminho a percorrer. Esses dias acabei lendo algumas coisas sobre a morte e o morrer e sobre nosso papel nesse processo. Um trecho de uma das crônicas que li dizia:

“Pois essa é a vocação da poesia: pôr palavras nos lugares onde a dor é demais. Não para que ela termine, mas para que ela se transforme em coisa eterna: uma estrela no firmamento, brilhando sem cessar na noite escura. É isso que o amor deseja: eternizar a dor, transformando-a em coisa bela.”

 Acho que, quando se fala de morte, de cuidados paliativos e de morrer, o médico deveria aprender a virar poesia, para transformar as dores que os remédios não tratam e, com carinho, eternizar isso em algo belo. Isso deveria servir não só no processo de morte, mas em todas as doenças que demandam algum grau de angústia e sofrimento. Temos o poder de transformar alguém (e ser transformados) durante uma consulta, com palavras e gestos e apenas isso já é ser poesia. Estar ao lado de alguém no seu sofrimento, talvez seja até maior do que isso, é fazer a pessoa descobrir o próprio caminho para, ela mesma, se tornar sua própria poesia e transformar as suas dores em algo eterno e bom. Maria veio querendo transformar a sua dor e acabou transformando a mim.

Segui a consulta normalmente e, no exame físico, notei ela dispneica, com tiragem discreta, e percebemos que a dor não era bem na barriga, mas sim nas regiões das costelas, em base pulmonar. Além disso, não apresentava sinais de desequilíbrio no exame, mas usava benzodiazepínicos de forma crônica. Então, explico a Maria minhas observações, que talvez a dor seja mais pelo problema do pulmão ou algo postural, em vez de ser algo no abdome. E a tontura poderia ser pelo uso do remédio cronicamente. Ela escuta e diz que pode ser, mas que quer a ultrassonografia. Depois de passarmos um bom tempo conversando sobre os exames, acordamos que faríamos então os dois, ela receberia a ultrassonografia que tanto desejava, e eu solicitaria uma radiografia e pediria a avaliação do pneumologista, já que ela não aceitava de jeito nenhum a medicação da unidade pois tinha taquicardia. A intenção era ela levar a espirometria*** (que era bastante alterada) e receber um papel pra pegar uma medicação especial. Maria recebeu cada papel do nosso acordo, sorriu e disse “tá bom doutora, eu escutei a senhora, mas queria dizer à senhora que não vou fazer nada disso não. Eu já sei o que tenho no pulmão e não quero mais fazer nada com isso, deixa quieto”. Expliquei novamente que ela poderia melhorar, que talvez a dor fosse por isso, e enumerei vários benefícios, além de pedir que voltasse no retorno da consulta pois ela nunca voltava ou marcava. Ela novamente disse que sabia, mas que não ia fazer, faria a ultrassonografia e, se desse tudo bem, era por conta do problema do pulmão e ela ia poder morrer em paz. Diante da decisão tomada, eu disse que não poderia fazer mais nada além de estar ao lado dela nessa decisão e de ajudar no que ela precisasse. Terminei a consulta pedindo um abraço a ela “como a senhora nunca volta quando eu peço, deixe eu lhe dar um abraço pra ver se a senhora volta para falar comigo”. Ela gargalhou de novo, se levantou e me abraçou demoradamente. Depois terminou dizendo: “ah doutora, eu vou deixar marcada a consulta da volta agora, mas não vou fazer os exames que a senhora pediu não, viu? Vou voltar só pra lhe mostrar que vim dar o abraço de novo”. E foi assim que elaboramos o melhor plano conjunto do dia e percebi que essa era uma excelente moeda de troca: troco consultas por abraços.

13/02/2019

Jéssica é (ou era?) residente em Medicina de Família e Comunidade, Recife- Pernambuco

DPOC*=Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, doença que causa falta de ar por problemas estruturais no pulmão

USG**=ultrassonografia

espirometria***=também chamado de “exame do sopro”, mede a função e capacidade pulmonares