Pés

por Lucas Gaspar Ribeiro

 

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Eu estava examinando os pés de uma paciente, abaixado enquanto ela ficava sentada.
Logo ouço, doutor Lucas você é engraçado…
Porque?
Não examina os pés com luva!
Mas todos nós temos pés, porque usar luvas?
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O dia em que lidei com a morte pacificamente

andressaPor Andressa Paz*

“When the rain falls down / What brings it back? / Opens the resurrected cloud / From white to black / It’s a second birth / For dying skin / In my coffin…”  (My coffin – Jon Foreman)

       Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ”  Então, lá vou eu me aventurar na história do dia em que lidei com a morte pacificamente.

     Esse causo começa com uma jovem estudante do 4º ano de Medicina no Rio Grande do Sul indo fazer Visita Domiciliar em um pequeno município horas e horas e horas Rio Amazonas adentro. Porém, essa história não é sobre a garota (eu, prazer), mas, sobre a ocasião em que ela compreendeu o real sentido da expressão “Descanse em Paz”.

     Tudo começou com um “Olá! Bom dia, dona Chica! A gente soube lá na base que a senhora pediu para virmos até aqui ver o Seu Antônio…”, e assim começou a entrevista médica:

  • Ô, ele não tá bem. Ele nem fala mais e também não tá conseguindo andar direito. Também ele tá com fastio e não come desde o dia que ele teve aquela diarréia braba!
  • Huummm… E como foi essa diarréia, dona Chica? A senhora percebeu se ele está sofrendo ou com alguma dor? Conta um pouquinho pra gente.
  • Foi semana passada… Faz uns 5 dias desde essa vez. Ah, e era um cocô tão fedido que a gente nunca tinha visto! Só que uns dois dias atrás ele não fez mais… tá bem trancado. Olhe, mas nós tentamos alimentar esse homem… Até colocamos uma comidinha batida no canto da boca dele, usamos algodão também, mas a única coisa que ele quer é água e dormir. Estamos tentando dar os remédios que o doutor passou e umas vitaminas também. Agora ele não aparenta estar com dor, mas tamo preocupados com esse fastio.

     O Sr. Antônio, um homem idoso nos seus setenta anos, já em cuidados paliativos, estava visivelmente desidratado e desnutrido severamente… Durante o exame físico, verificamos uma hipotensão e o médico mais experiente que acompanhava a consulta constatou um Glasgow 10 ao exame neurológico. No entanto, o exame que mais chamou a atenção foi o abdominal. Quando o abdome do seu Antônio foi palpado, o rosto mostrava profunda dor. Hipótese? Provavelmente passando por um quadro de hemorragia digestiva alta. Essa hipótese se confirmava ainda mais quando olhávamos para a lista de remédios de uso contínuo dele.

     Infelizmente (ou felizmente, você decide!), a conduta médica pensada não foi totalmente aceita pela família. Primeiro, foi sugerido encaminhar seu Antônio para a próxima cidade com hospital e endoscopia disponível, onde ele poderia realizar exames confirmatórios e tratar especificamente o sangramento. Só que toda a logística de transporte e a manutenção da família junto a ele na cidade grande eram muito difíceis.

     Na verdade, mesmo se não existissem grandes problemas quanto a isso, havia um fator importante que não estávamos considerando: competência cultural. A família do senhor já havia decidido que ele teria uma morte domiciliar: “Doutores, a gente não pode mandar ele pra lá… Um tempo atrás quando ele tava melhor ele falou que se a gente ao menos tentasse mandar ele pra outro lugar que não fosse aqui ele ía vir puxar nosso pé de noite depois que ele morresse! ”

     No fim das contas, seu Antônio foi medicado com Sais de Reidratação e encaminhado, por meio de uma cartinha, ao médico da Unidade de Saúde local, nossas bem pensadas opções diante daquele cenário. Essa experiência foi bem diferente e significativa para mim. O empoderamento daquela família me chamou a atenção e comecei a pensar em como eu mesma poderia empoderar meus pais e familiares para compreender de forma tão pacífica a finitude da vida e para abraçar de vez os Cuidados Paliativos e o Home Care também. Por que, não?

     O senhor Antônio melhorou bastante no dia seguinte, após hidratação, mas depois de dois dias, durante o amanhecer, ele faleceu.

        Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ” Acho que a jornada do seu Antônio para a morte foi pacífica e acho também que ele não vai voltar para puxar os pés da família de noite!

Em paz,

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*Andressa Paz,

Acadêmica do 4º ano de Medicina em Lajeado – Rio Grande do Sul, co-criadora do Auscultando Estórias, um blog para compartilhar experiências em saúde, amante de Saúde Rural e futura MFC.

Um conto curtinho

por César Monte Serrat Titton

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“- Doutor, vim só para pedir uma nova receita do fenobarbital.”

Primeira consulta comigo na Unidade de Saúde. Em uso de fenobarbital há uns trinta anos.

Vinte e cinco minutos depois, bem mais animada, ela mesma concluiu:

“- Obrigada, doutor! Sempre quis parar de usar o fenobarbital – e saiu sem aquela receita, mas sim com a receita para o seu outro problema de saúde, do qual tivera vergonha de falar a princípio, quando eu ainda era para ela um desconhecido.”

O dia em que a Lei Áurea foi parar na gaveta

por Bernardo Lago Alves

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O ano era 1a.G. (antes do Golpe, ou 2015, pra quem não lembra das panelas).
 
Luís (identificação fictícia), 30 e poucos anos, apareceu no consultório reclamando de uma dor nas costas, bem ali na lombar, há uns 6 meses. “Só na lombar mesmo?”. “Só na lombar mesmo, doutor.”
 
Além da dor só na lombar mesmo, Luís disse que não estava dormindo direito, todo dia sentia uma batedeira no peito que vinha do nada e depois passava, andava meio irritado e percebeu que estava bebendo mais para conseguir relaxar.
Além da dor só na lombar mesmo, da insônia, da taquicardia, da irritação e do álcool, Luís também contou que foi “criado na casa de dona Sônia, onde meu pai morava e trabalhava de copeiro. Eu cresci junto com o Pedro, filho dela, a gente era da mesma idade e se dava super bem.”
“Só que aí, doutor, a gente foi crescendo, meu pai aposentou, eu fui pegando as funções dele e o Pedro entrou na faculdade. Foi aí que ele começou a ficar ruim comigo, a me esculachar, a me tratar pior que empregado. Ele queria me levar pra trabalhar na casa nova dele, só que dona Sônia não deixava”
“Como assim não deixava? E ninguém perguntou pra você?”
“Doutor, no dia que tirei minha carteira de trabalho, dona Sônia pegou ela de mim e guardou na gaveta do escritório dela. Faz uns 6 meses, o Pedro entrou lá, roubou minha carteira de trabalho e guardou na gaveta da casa nova dele… e agora eu tô trabalhando pra ele. Eles nunca assinaram nem nada, eu recebo meio salário e em troca faço as refeições e durmo lá. E seu Pedro continua me tratando mal, me xinga, não me dá descanso, não deixa eu visitar minha mãe. Vai ver é por isso que eu tô assim.”
Que fazer numa hora dessas? Sem um segundo de dúvida, olhei bem fundo nos olhos de Luís e decretei:
“Luís, você tem que aproveitar as oportunidades que a vida te dá. Já que sua carteira de trabalho foi parar na gaveta, esta é a sua deixa para virar em-pre-en-de-dor!”
Claro que não falei isso, né, pô. Combinei uma consulta com a assistente social e orientei como procurar a Defensoria Pública. Mas se fosse agora, quem sabe? Ração pra ser humano, por exemplo, já pode dar…

Pedido

exames-diagnostico

Por Rodrigo Lima

Ela tinha uns 70 e poucos anos. Chegou ao consultório pra dizer que tomava remédios para controlar a pressão, que precisava da receita deles pra poder pegar na Farmácia Popular, essas coisas. Se queixava também de dor de cabeça, sem queixas associadas, sem desencadeantes, sem fatores de alívio, aquelas dores que são apontadas na cabeça, mas parece que são na alma. Perguntei se dormia bem, se tinha uma rotina que considerava normal, se a dor atrapalhava, essas coisas. Nada de anormal.

Nessas horas eu sei que vem coisa. Sempre vem. Pedi licença pra fazer a receita dos remédios para a pressão, pra dar um tempo a ela e a mim também. Em poucos segundos ela disse:

– Doutor, tem outra coisa que eu queria lhe pedir, mas não sei se o senhor pode fazer. Se não puder, sem problemas.

É o tipo do prenúncio de um pedido de remédio pra dormir pra irmã, ou coisa do tipo. Eu sempre nego, mas me toma um tempo, e se a negativa não for cuidadosa compromete o vínculo. Não é meu momento predileto, mas tento ser atencioso ao mesmo tempo que desencorajo pedidos mais abusivos. A gente cria nossas maneiras de se defender…

– Dona Maria, se eu puder fazer considere feito. Mas tem muita coisa que eu não posso…do que a senhora tá precisando?
– É o seguinte, doutor. Meu marido faleceu há 5 meses. Completou semana passada. Ele era muito doente, sabe? Sempre bebeu muito, comia de tudo, vivia como queria. Há uns anos teve um derrame e ficou acamado. Eu que cuidava dele. Não faltava nada pra aquele homem, doutor. Só que um dia ele passou muito mal e morreu. Eu não sei direito o que aconteceu, ele desmaiou e teve uma convulsão, a gente chamou o SAMU, levamos ele pra UPA, já era noite. No outro dia de manhã ele morreu. Me deram o atestado de óbito, tinha lá “pancicitopia” e “hiperpotassia”, mas eu não sei o que é isso, e eu nunca soube de que ele morreu.
– Certo. A senhora quer então que eu olhe o prontuário dele pra lhe dizer algo?
– Se o senhor puder…porque eu fui perguntar lá na UPA mas disseram que não podiam me dar a ficha dele, que eu teria que falar com o diretor mas que ele só ia me dar se fosse pedido de um juiz.
– Bem, eu não posso te dar a ficha dele, dona Maria. Mas eu posso tentar olhar aqui no sistema e dizer alguma coisa à senhora, pode ser?
– Ah doutor, se puder eu agradeço.

Peguei os dados do marido e fui ver o prontuário dele. Bendito prontuário eletrônico integrado. Deu pra ver que ele tinha dado entrada na UPA com a glicose muito baixa, em torno de 30, o que provavelmente provocou as convulsões. Teve paradas cardíacas, foi reanimado, e ficou em estado grave aguardando resultados de exames e vaga em UTI. Os exames mostravam as alterações que foram colocadas na declaração de óbito: pancitopenia grave e hiperpotassemia. Se ele saísse daquele quadro grave provavelmente iriam investigar doenças da medula óssea, até uma leucemia era possível naquele quadro. Só que com pouco mais de 18 horas de internação teve a quarta parada cardíaca, e essa não foi revertida. Faleceu ali.

Olhei de volta pra dona Maria. Não sei que cara fiz, tentava ser solidário, mas ela sorriu tímida, acho que mais pra ser simpática. Deve ter percebido que eu tinha algo pra falar que interessava a ela.

– Dona Maria…então: acabei de olhar aqui. Enquanto lia, tava pensando no motivo da senhora estar tão angustiada com isso tudo. Claro que perder o marido é difícil, e ainda mais quando ele era tão dependente da senhora, a gente acaba ficando mais ligado ainda, né? Fiquei imaginando aqui se a senhora, além da saudade dele, não estaria achando que poderia ter feito algo a mais por ele…me chamou a atenção quando a senhora enfatizou que “não faltava nada pra ele”. Então deixa eu dizer uma coisa: a senhora fez tudo o que podia. Ele chegou na UPA num quadro grave, mas não foi por falta de cuidado não. Os exames dele mostravam uma doença grave do sangue, que provavelmente se instalou de forma muito rápida. Ele já vinha muito debilitado, a senhora mesmo falou. E uma doença grave assim quando encontra um corpo mais fraquinho acaba vindo de um jeito que a gente não consegue curar. Então deixa eu falar de forma bem clara: a senhora não teve culpa nenhuma não. Não tinha nada que a senhora pudesse ter feito além do tanto que já fez. Cuidou dele quando ele tinha saúde mas bebia muito, cuidou quando adoeceu, e cuidou por vários anos dele em cima da cama. A senhora fez muito. Se ele não tivesse alguém assim cuidando dele, ele tinha morrido era antes.

Nessa hora eu já me arrepiava de olhar pra ela. O olho dela, que estava com uma lágrima se equilibrando pra não cair, de repente deixou de olhar pra mim e voltou-se pra cima, numa fração de segundo, e depois me encarou novamente. Só que agora a feição era de paz, de alívio.

– Doutor, muito obrigado. Me desculpe lhe dar esse trabalho, mas valeu a pena, o senhor ajudou demais. Eu tava com isso na cabeça, sabe? Eu cuidava dele tão bem.
– Eu imagino. Mas agora tá na hora de deixar ele ir, e de colocar essas idéias pra fora. A senhora entendeu direitinho o que eu falei?
– Entendi sim.

Mas ainda faltava alguma coisa. Ela permanecia imóvel na cadeira, como que esperando alguma coisa.

– A senhora quer levar os exames de sangue dele? Que mostravam o que ele tinha, a doença do sangue? Eu posso imprimir aqui pra senhora.
– Posso, doutor?
– Pode.

Imprimi os exames. Numa avaliação precipitada, pra ela, olhar aquele papel não fazia qualquer sentido, dados técnicos, abreviações, números. Mas eu sabia que aquilo ali tinha outro sentido.

– Tá aqui, dona Maria. Os últimos exames do seu marido. São seus agora. A senhora guarda como quiser.

Aquela lágrima finalmente caiu. Pequena. Mas parece ter lavado a alma, e devolveu um sorriso àquele rosto. Ela levantou, agradeceu, e foi embora. Parece que esqueceu da dor de cabeça. E nem levou a receita dos remédios da pressão.

 

Massas e massinhas

por Carolina Reigada

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Era um menino de 5 anos, simpático e comunicativo.

A mãe o trouxe à consulta porque ele estava com bolinhas no corpo. Era molusco contagioso. Diagnóstico fácil, tratamento mais complicado…afinal, tem que espremer as lesões e tirar as massinhas que ficam dentro, e a maioria das crianças é um pouco resistente a esse tratamento…

“Cara, vamos ter que tirar essas massinhas daí”

“Tirar como?”

“A gente coloca uma poção mágica, que não deixa doer muito, e espreme”

“AH NÃO! DEIXA A MASSINHA”

Entra a mãe:

“Vambora, menino, que tem muita gente pra eles verem ainda”.

Conversa vai, conversa vem. O menino deita, passamos a tal “poção” nas bolinhas inconvenientes, disfarço a agulha que ajuda no processo de espremer a massinha e….

“AAAAAAAAI!! PARAAAAAAAAAAAA!!”

“Mas já saiu a massinha, ó.”

“Então acabou?”

“Não, tem que tirar todas…tem bichinho na massinha, se não tirar, ele vai aumentando”

“NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!! QUERO IR EMBORAAAAA”

E voltamos às negociações, eu ofereço continuar em outro dia, a mãe oferece sorvete, o menino está irredutível: sem mais espremação. Depois de muita lábia, finalmente faltavam só cinco lesões. Cinco! E foi exatamente quando a paciência do menino acabou.

Mãe segura de um lado, residente segura de outro, lá vou eu tirar as três que faltam, sob os gritos do menino que era simpático e cuja comunicação agora sai aos gritos incessantes de “PAARA”, “VOU EMBORA”, “ME TIRA DAQUI”.

Terrível.

A mãe, tentando remediar o irremediável, não para de falar: “a gente sai daqui e você ganha pipoca. Ganha hamburger. Ganha refrigerante.”

E nada adiantava.

Até que a mãe muda a estratégia: “Eu compro lápis de cor pra você”.

E o menino: “AAAAAH!! PARAAAA!!!…. (de repente, silêncio). “Não, mãe, eu quero massinha…”, ele falou calmamente.

E assim, na troca de massinha por massinha, tirei a última massinha. Quem diria que o veneno seria o melhor remédio?