Essa fofurice da MFC me oprime

por Carolina Reigada

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O Rato então pulou subitamente da água, e tremeu-se todo, com medo. “Me perdoe!”, Alice apressou-se a pedir, com medo de ferir os sentimentos do pobre animal. “Esqueci-me que você não gosta de gatos”.

“Não gosto de gatos!”, o Rato gritou, com uma voz emocionada, “Você gostaria de gatos se fosse eu?”

Tradução livre de Alice’s Adventures in Wonderland, de Lewis Carrol.

 

Inicio com um trecho que me faz pensar sobre a diferença entre simpatia (ou pena) e empatia. Alice teve pena do Rato, enquanto o Rato exigia empatia no tato com ele. Durante as consultas médicas, e nas interações com pessoas em geral, tento sempre me lembrar que as pessoas não precisam de pena (mesmo quando é pena que elas querem que eu sinta). Elas precisam de empatia.

Tcharan!

Eu sei disso e você, leitor do Causos, também sabe. Aliás, a grande maioria dos causos que publicamos fala disso. De empatia.

“Empatia”, nesse caso, sendo o termo profissionalizador dessa postura de escuta e aproximação com o paciente. Ser empático (um componente do aclamado Método Clínico Centrado na Pessoa, ou MCCP, que todo “MFC que se preze” tenta praticar), desse jeito conceitual, com evidências científicas de que melhora o desfecho de saúde dos pacientes, nos dá segurança que “ser legal” e mais próximo de quem queremos cuidar é, também, ciência e está balizado pela Academia.

Mas, aí que está. Ser empático não é ser fofo, ou legal, ou boa gente. É ser profissional. É?

Eu sou médica, mulher. Então houve dezenas de ocasiões em que o/a paciente me pediu para chamar o doutor quando entrou no consultório; ou pediu para ver meu diploma; ou se direcionou ao interno de medicina que estava aprendendo comigo, e de nada adiantou dizer que a médica era eu, os olhos sempre voltavam para o interno na hora de tomar uma decisão.

Também tenho 1,52m de altura (às vezes 1,53m, se meço de manhã). Tenho um rosto fofo e acabo sorrindo muito nas consultas. E tento ser empática. E sabe o que acaba acontecendo, eventualmente? Sinto que os pacientes acabam não me vendo mais como a médica. E a relação degringola. E chega um momento em que toda essa fofurice de ser MFC me oprime.

É isso. Como o título brilhantemente descreve, estou oprimida pela fofurice de ser MFC. Porque, por mais que eu tente ser empática, tem vezes que…não sou. Eu sou até uma pessoa legal, mas não estou assim inspirada TODO DIA, e o lado impaciente está mais aflorado. Tem outras vezes que a relação médico-paciente está chata, mesmo. Que eu tento passar aquela pessoa pra outro profissional da equipe, ou do NASF, porque “desse mato aqui” não está saindo nada produtivo. E me sinto culpada, duplamente: porque não estou sendo fofa como uma MFC deve ser (“junto com você, do útero ao túmulo”, e outros odes à longitudinalidade que existem por aí), nem estou sendo a doutora que resolve o problema do paciente.

Tem dias que não estou bem para superar essas relações mais conflituosas internamente, e quando comento com um amigo MFC, acaba que escuto uma citação de Roger Neighbour, ou de Boff, ou outra lembrança de Moira. Amiga, não tem nada pra limpar aqui dentro antes de consulta nenhuma. É que o santo não bateu, mesmo. É que às vezes eu empatizo, mas a pessoa está passando por um momento “mala”, ou estou com a impressão que só quer tirar vantagem de mim, e não acredita nem confia em nada do que eu falo.

Não pensem que escrevo essas linhas impunemente! Essas últimas frases, então…só de imaginar alguns dos meus professores (só uma, na verdade) lendo-as, fico com a tentação de adotar um pseudônimo. Seja porque vão pensar mal de mim (sempre fui nerd), seja porque vão querer me escutar, indicar um Balint, uma psicoterapia. Mas essas três últimas sugestões causam bastante angústia. Porque…é isso? Eu tenho que ter esse nível de iluminação espiritual que permite-me absorver e resolver e ressignificar TUDO? Será que não tem um calcanhar de Aquiles aceitável (e compartilhável?)

E fico pensando também se é ético escrever isso. Não é que eu me recuse a atender paciente X ou Z. Atendo a todos, da forma mais profissional possível (e ser profissional, já definimos, inclui ter empatia). Mas tem alguns que eu não queria atender. Ponto. É ético, isso? Tudo bem, dessa vez eu aceito sugestões de livros de Boff; ou Cortella, vá lá.

Veja bem, longe de mim fazer aqui um ENORME desserviço e deixar transparecer que empatia, MCCP, Neighbour, Balint, ou qualquer das coisas citadas sejam um problema. Muito pelo contrário. São autores e ferramentas inestimáveis, que me ajudam com 50% dos problemas de relacionamento médico-paciente e angústias cotidianos. A terapia me ajuda com outros percentuais. A rede de amigos, de outros MFC, os grupos de whatsapp da residência médica e da galera do Causos Clínicos, com mais um tanto.

Acho que a pergunta é: é perdoável não querer lidar com 100% das angústias do cotidiano? Ou, mesmo lidando, é perdoável – mesmo sendo MFC – não querer ser empática (“fofa”) o tempo todo? Nessa relação cuidador/cuidado, o que fazer quando temos uma relação aturador/paternalizado? Ou procrastinador/procrastinador? Ou qualquer outra relação negativa?

Não sei a resposta, mesmo. Acho que escrevi para desabafar a angústia da auto-cobrança. Mas aceito o convite ao debate. E, se a sentença final for que eu não sou fofa o suficiente para ser MFC, pelo menos não me excluam dos grupos de whatsapp, eu curto muito papear com vocês.

 

Ps1: Não se enganem, eu sempre aceito uma nova sugestão de leitura, se enviar eu coloco na minha lista!

Ps2: Professores e ex-residentes meus, se algum dia lerem isso, julguem-me também pelo meu melhor =P

Ps3: MFC é a sigla às vezes para Médico de Família e Comunidade e às vezes para Medicina de Família e Comunidade.

Ps4: Um beijo especial pra galera dos grupos de whatsapp “Hora do Prefácio” e “Causos Clínicos”

 

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V.,78 anos, abusador, sofre de dores lombares.

por Vanessa Carranza

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E no final da consulta…esperou sua filha sair da sala, olhou pra trás, voltou e pôs sua mão grossa em cima da minha com uma cara de sorriso mole. Levei um susto – disse agora pode ir – fiquei puta que não disse umas coisas pra ele. Mas hoje ele voltou, mais saudável do que nunca; disse que estava com as mesmíssimas dores que a semana anterior e que desejava, de novo, umas injeções na bunda. Deixei ele esperando já que não era urgência. Quando finalmente o chamei, ele levantou ajeitando a calça o cinto e me olhando de lado. Pedi pra técnica de enfermagem acompanhar a consulta. Vi ele brochar. Pedi que falasse o que quisesse. Tudo que saía de sua boca eu não conseguia ouvir. Me recostei na cadeira e com outra mulher ao meu lado pude assistir sem medo o quão bizarra era aquela situação. Então cortei-lhe o assunto e disse que não ia precisar de injeção, ele podia continuar com os comprimidos em casa. Ele disse que entendia, sorrindo…
Quando abri a porta ele ainda se demorou na passagem e eu inventei uma vontade de fazer xixi. Não tinha papel no banheiro e como eu nem tinha vontade voltei imediatamente. Ele me viu e me abordou novamente perguntando, sensual: “ se não melhorar eu volto né?”, sem resposta.

Morreu seu Pascoal.

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The Doctor – Luke Fildes (1891)
Quero escrever alguma coisa, apesar de não saber bem o quê.
   Muitas ideias principiaram desde que a filha me ligou avisando até agora, quase três horas depois, quando cheguei de volta em casa após declarar o óbito. Nenhuma deslanchou. Pensei durante a ida na minha pouca presença nos dias finais de alguns pacientes cuja morte já era esperada e, inclusive, já havia sido discutida com os próprios e suas famílias. Em como gostaria de saber fazer como a Julia Duringer (médica de família e comunidade com quem estudei) e organizar rodas de memória e perdão nesses dias finais. Em como é um privilégio atestar um óbito na noite fechada, visitar o bairro, as vielas e a casa em plena escuridão, com a sensação de pertencimento e intimidade que se fortalecem a cada dia. Em como me surpreendo sempre com a quantidade de parentes e amigos, oportunidade preciosa da morte em casa. Em como são detalhadas e ricas as lembranças dos últimos dias, e mais ainda das últimas horas, dos últimos minutos, oferecidas como um presente para quem quiser ouvir. Em como nos tornamos familiarizados com a morte, que potência tão valiosa da profissão!
   No ritual simbólico de confirmar o que todos já sabem. Em como é pictórico conversar com as filhas enquanto se acaricia a mão do cadáver do pai. Em como a mente divaga e volta. Em como a viúva preferia não descer ao quarto onde estava o corpo, e ao mesmo tempo estava conformada e estranhando a situação toda, em como se mostrava tranquila mas não recusou a valeriana que as filhas lhe deram. Em como posso eu, um garoto, dar colo para uma senhora de 93 anos. Em como cada abraço tem um significado diferente, pois cada parente tem sua história consigo e com o falecido, algumas das quais já vislumbrei. Em como também me despeço do morto, já que eu também tenho minhas histórias comigo mesmo, e com ele. Em como um problema com uma declaração de óbito mais de cinco anos atrás ainda marca todas as subsequentes, e esta, na revisão infinita do documento, para proteger do medo de que esta família também tenha que voltar do cartório até mim por um erro que, ao final, nem existia. Em como a casa é um bom lugar para morrer, se podemos morrer bem nela. Em como a casa agora já ressoa com conversas de tipos e tons variados, que o tempo cuida para que também os presentes se familiarizem com a morte. Em como quem mais chora é a filha que está longe. Em como quero reforçar, sem exageros mas com clareza, que cuidaram bem dos últimos momentos, e buscar adubar o bom luto, e tocar a naturalidade do fim. Em como, durante meu caminho de volta, me orgulho de declarar o óbito dos meus pacientes em casa, e no quê pode significar este orgulho, em suas várias faces.
Em como é possível ser tão privilegiado.
Em por que faço o que faço.

Mandando a real

por Carolina Reigada

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A força está com vocês!

Eu dei aulas em uma faculdade de medicina, por um tempo. Um tempo definido entre a empolgação de estar de novo na sala de aula e a conclusão de que não gosto de dar aulas.

Uma das minhas aulas falava sobre a tal da “Medicina Baseada em Evidências”. Porque a medicina dessas de atender pessoas nos consultórios todos os dias, por mais incrível que pareça, tem bem menos ciência do que pode parecer. A maioria das decisões que os médicos tomam são baseadas mais no blend bom senso + experiência pessoal + conhecimento de fisiologia básica do que em evidências científicas de alta qualidade.

O que eu chamo de “evidência científica de alta qualidade”? Estudos científicos bem pensados e bem executados, em que as pessoas que medem o efeito dos remédios não sabem quem realmente está tomando o remédio em investigação, e que a divisão de pessoas com a doença que se quer tratar entre os dois grupos (o grupo que toma o remédio em investigação e o grupo que toma o placebo) é feita mais ao acaso possível. Muitos remédios que tomamos e prescrevemos não tem essa investigação.

Por quê?

Porque, quando é feita, os remédios têm pouco impacto de verdade na doença; porque são estudos caros, às vezes com problemas éticos, e demorados e a indústria tem pressa em vender aquelas pílulas que produziu o mais rápido possível; porque a fiscalização está bem aquém do mínimo necessário para garantir a segurança da população. Nós.

Eu comecei falando das minhas aulas porque essa impressão que a maioria das pessoas têm, que “remédios sempre funcionam e fazem bem”, também era a dos alunos. Claro, alunos são pessoas incluídas nessa sociedade aqui, a nossa, que foi levada a acreditar que:

– se fizer exames o suficiente, vai prevenir ou descobrir bem cedo qualquer doença e nunca vai precisar ter uma doença “grave”;

– remédios são necessários para melhorar, de qualquer coisa. E remédio quer dizer uma pílula.

Aí, voltando naquela aula que eu mencionei, eu explicava a eles o conceito de “NNT”, ou “número necessário para tratar”. Quando se estuda o remédio bem estudado, é possível dizer qual o NNT desse remédio, ou seja, o número de pessoas que precisam tomar esse remédio todo dia, por um período de tempo, para que UMA DELAS tenha um benefício do uso do remédio (ou seja, prevenir um evento indesejado)*.

Entendeu? Vou exemplificar, porque isso é confuso.

Sabe o AAS infantil, que muitas pessoas gostam de tomar de vez em quando para “afinar o sangue”? Então. Considera uma população que nunca teve infarto nem derrame. Se esse pessoal tomar um AAS por dia por um ano, sabe quantas mortes serão evitadas por causa desse AAS? Sabe quantas? Nenhuma. Nessa mesma população, 1 pessoa a cada 2000 vai deixar de ter um infarto por causa desse AAS (um infarto que não a mataria, mas também ninguém quer enfartar, né?). Por outro lado, 1 pessoa a cada 3333 vai ter uma hemorragia grave por causa desse mesmo uso de AAS**. E hemorragia grave, cara, ninguém quer também, né?

Sacou? Não dá pra saber, de antemão, quem vai ter o infarto evitado e quem vai sangrar gravemente por causa desse AAS. Por isso, é importante que o remédio só seja prescrito quando os benefícios dele são maiores que os danos. Por exemplo, quando a pessoa candidata a usar AAS já infartou ou teve um derrame ou tem alguma outra evidência de placas de gordura nas artérias. Nesse caso, iremos prevenir problemas cardiovasculares em 1 a cada 50 pessoas; uma morte a cada 333 pessoas; um infarto a cada 77 pessoas e um derrame a cada 200 pessoas. E uma a cada 400 terá um sangramento grave**.

Mas, nesse segundo caso, como estamos falando de uma população de alto risco, vale a pena mais intervenção.

Legal, mas voltando ao assunto em questão, alguns alunos (geralmente aqueles que realmente estavam prestando atenção ao que eu falava, e você, que leu até aqui) ficavam inconformados com essa nova informação, com esse choque de realidade. Eles descobriam, de uma só vez, que:

– os remédios não funcionam sempre, e alguns não funcionam nunca, ou seja;

– eles não vão ser os curadores e salvadores do mundo, e;

– às vezes vão fazer mal aos que estavam tentando fazer bem e;

– eles próprios não estão a salvo da vida.

Porque, no fim das contas, o que a gente quer é segurança e controle. Sobre nossa saúde, nossa vida, da nossa família, tal. E a medicina não pode dar isso a vocês. Infelizmente. A gente ajuda? Nossa, muito. As doenças infecciosas, os traumas, dores agudas, algumas cirurgias (morremos muito menos de “dor do lado”*** desde que aprendemos a operar apendicite, não é?), para isso tudo temos intervenções e tratamentos eficazes.

Mas, não temos a pílula mágica da segurança que nada irá acontecer. Não temos o scanner para prevenir todas as doenças que existem (nem temos o scanner para prevenir só os cânceres), não importa quantas tomografias se faça.

E, acho que isso é o mais pesado de admitir, sabe essas doenças que exigem uma carga tão grande de nós atualmente? A hipertensão, diabetes, reumatismos, artroses, alergias, ansiedades, tristezas, essas todas…essas, a gente não sabe explicar bem porque começam e, talvez por isso, não sabe direito como tratar, não – pelo menos, não temos uma forma só, certeira, de tratar. Os remédios delas são muitos e muitos porque nenhum deles funciona super bem e é superior aos outros; e porque fazer remédio para essas coisas dá dinheiro. E é muito mais comum as pessoas ficarem doentes dos remédios que tomam para tratar essas coisas do que se pensa.

Eu acredito (e aí vou admitir que não tenho evidência científica bem embasada para dizer isso, não) que essas “doenças crônicas” estão sendo mal abordadas porque insistimos em ver o corpo como máquina. E enquanto não admitirmos que a maioria dessas doenças nasce do contexto familiar, social, comunitário, além das escolhas e possibilidades de estilos de vida de cada um, vamos continuar sendo incompetentes para trata-las. Precisamos assumir que o tratamento desses “males modernos” passa por auto-responsabilização, por comer menos sal e coisas industrializadas, fazer atividade física, separar tempo para lazer e cuidar do nosso desenvolvimento emocional e espiritual – afinal, nós somos os responsáveis por nossas próprias emoções. E isso, não tem comprimido que faça por nós.

*http://www.scielo.br/pdf/rbp/v27n2/a15v27n2.pdf

**Quer saber mais? Visite o site www.thennt.com, foi de onde tirei esses dados, os artigos de base estão lá; mas não para de tomar remédio sem conversar com seu médico! Existem casos específicos, o melhor é saber o que é melhor para VOCÊ.

*** Tem referência em “O Físico”, de Noah Gordon. É livro e tem filme, é interessante.

Metades

Por Mayara Floss

Inspirado no poema “Metades” de Oswaldo Montenegro

Que a força de tudo que eu acredito

Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é médica de família e comunidade, mas a outra metade é pessoa

Que o meu toque seja tenro,

Que quem que eu cuido seja visto como um todo,

Porque metade de mim é o que falo, mas a outra metade é silêncio

Que o dia seja respiração,

E que quando não conseguir uma inspiração, eu ainda consiga encontrar paz

Porque metade de mim é cansaço,

a outra metade é alegria

Que as pressões das gerências sejam suportáveis,

Que eu consiga equilibrar conhecimento e humanidade

Porque metade de mim é fortaleza,

a outra metade é líquida

Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece, nem prescritas com fervor

Apenas escutadas com cuidado

Como deve ser quando consigo ver uma pessoa por inteiro.

Porque metade de mim é integralidade, a outra metade é acesso

Que eu possa ter ciência e humanidade, evidência e sabedoria

Mesmo que as pressões externas não queiram saúde para todos,

Porque metade de mim é o que ouço,

a outra metade é o que calo

E que essa vontade de ir embora, se transforme na calma e na paz que eu mereço,

E que essa tensão que me corrói por dentro, seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso,

a outra metade é um vulcão.

Que o medo de não conseguir ser o suficiente,

Ensine-me as minhas limitações e me permita cuidar em rede

Porque metade é a equipe de saúde da família,

a outra metade é o sistema

Que todos os dias, todas as pessoas do mundo tenham acesso à saúde,

Porque metade de mim é individuo

a outra metade é mundo

Que o sorriso no meu rosto

Reflita um doce sorriso que eu lembro ter dado na faculdade

Porque metade de mim é a lembrança do que fui,

a outra metade é construção

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria,

para me aquietar o espírito

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais

Porque metade de mim é evidência,

a outra metade é humana

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente explicar

Porque é preciso simplicidade

Para fazê-la acontecer

Porque metade de mim é o que escrevo,

a outra metade é cuidado

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade,

também.

Parabéns a todos os MFCs nesse dia especial!

#mandanudes

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Por Ana Paula Lemes Martins

Abriu a porta de supetão. Adulto jovem, 28 anos. Não esperou “o bom dia”, nem me deixou apresentar. Foi rapidamente dizendo que só estava com uma dúvida.

– Dotora, é o seguinte: fica ardendo pra mijar. Tens uns 15 dias isso. É estranho meu caso, mas ó… já vou dizendo que não vou mostrar meu pau.

– …

Até ali, a consulta não durara 3 minutos sequer!

Eu fiz cara de paisagem, meu raciocínio tentando acompanhar o ritmo dele.

– Você teve febre? Ferida no corpo ou na cabeça do pau?

– Nada.

Nesse curto espaço ele já havia tirado o celular do bolso e vasculhava o aparelho.

– Teve secreção do canal da urina, tipo molhando a cueca?

– Então… era isso que eu ia mostrar. Olha a secreção.

Mostrou-me uma foto do pênis dele, com secreção tipo purulenta, de livro mesmo.

Eu fiz a prescrição. Expliquei como usava o medicamento. Pedi pra parceira dele vir à consulta.

Ele ele já estava de pé, com celular de volta ao bolso!

Saiu voando do consultório.

Enquanto eu evoluía no prontuário, ri um tempo sozinha: “Eu vi o pau dele, uai, mas foi virtual!”