Ponta de faca

Por Aarão Carajás

Da vida não levo nada

Do jeito que a vida vem

Depois de fechar os olhos

Ninguém é ninguém

(Ponta de Faca)

Harmonia e Serenidade: O AMOR CURA

Durante a Residência de Medicina de Família e Comunidade rodiziávamos nos cuidados paliativos, foi lá que conheci dona Judite e seu amigo Zezo.

Judite estava em momentos finais de vida por conta de um câncer de pâncreas de evolução rápida que acabara por deixar seus familiares em estado de choque-paralisação-negação.

Ela possuía 2 filhos e 2 filhas, além de 1 neto e uma neta chamada Marcela (que era a pessoa que já havia saído desse momento de paralisação e que mais se comunicava comigo). Aos poucos fomos conhecendo os outros familiares através do genograma que Marcela ajudou a montar e para o qual recorríamos todos os dias como ferramenta para minimizar o estranhamento do primeiro contato e para favorecer uma possível criação de vínculo, o que não foi fácil de acontecer por conta do momento familiar para um “estranho” como eu querer fazer parte.

Com o genograma descobrimos que dona Judite foi uma batalhadora na vida. Criou os 4 filhos sozinha, era caminhoneira, depois motorista de empresa de refrigerante, e finalmente dona de pousada pequena, dessas sem muito luxo. Por também ter criado em algum momento os netos, esses tinham por ela um amor como que materno.

Dos filhos descobrimos que um havia morrido há 10 anos (o que provocou uma mudança importante no humor de dona Judite desde então) um havia ido embora para o Rio de Janeiro ainda novo, outra havia se mudado pra São Paulo ainda nova, e outra possuía o diagnóstico de esquizofrenia (Elisa, a única que morava com dona Judite). Nos chamou atenção o fato dessa primeira geração ter seguido caminhos tão distintos e resolvemos investir mais nisso, entendendo esse como mais um fator que dificultaria minha inserção nesse grupo.

A única filha presente no início de minhas abordagens era a de São Paulo. Dona Paula (que era mãe de Marcela), havia voltado temporariamente por conta da doença da mãe. Em nossa conversa inicial a senti bem fechada e respeitei isso, porém nesse primeiro momento ela me pediu uma coisa: que Elisa por conta da esquizofrenia não soubesse que a mãe estava morrendo. Me pediu justamente algo que em meu íntimo discordava por acreditar na possibilidade de pelo menos avaliar a chance de tentar. Se pelo entendimento de que o DSM (manual diagnóstico dos transtorno mentais) não define quem somos, quem seria eu para proibir tal direito?

Foi o que colocamos para a dona Paula na tentativa de mudar a perspectiva da situação. Nos responsabilizamos em dar a notícia para Elisa junto com a psicóloga do serviço e que haveria a necessidade do apoio familiar para que Elisa pudesse superar, independente do histórico de saúde mental. Pactuamos isso e senti meio como se estivesse em uma prova para ganhar a confiança dela.

Chamamos Elisa no outro dia e conversamos com ela, que reagiu com a tristeza natural, porém imbricada em uma serenidade que acalmou nossos corações. Após isso, Elisa se tornou presente e voluntária em participar dos cuidados terminais da mãe. Acalma sabermos que nunca será fácil dar essa notícia, e que não somos os culpados pela notícia que estamos dando.

O rio da vida seguiu seu curso até que dona Judite entrou em seus momentos finais de vida, que normalmente duram em torno de 48 horas. Nesse período a família oscilou muito nos pensamentos de negação, raiva, e pequenos flertes com aceitação. Parecia que uma âncora havia sido posta naquele leito, tal o peso daquilo que os familiares precisavam carregar.

No entanto, Judite não descansava. Oligoanúrica, sem se alimentar mais, creatinina elevada, de olhos fechados. 24,48,72,94 horas, e quando se vê (tal como Quintana), já havia se passado uma semana. Recorremos ao genograma revendo o possível imbróglio da primeira geração que a filha sempre se esquivava em conversar.

Sentamos para uma outra conversa em uma lanchonete, dessa vez só Paula e eu, abrimos o genograma na frente dela e colocamos nossas interrogações onde achávamos que só ela poderia ajudar, dizendo que aquele papel era um parco resumo da vida deles e o que ela achava da idéia de carregarmos dúvidas em nossa história. Ela então resolveu falar.

Disse que o irmão que foi para o Rio saiu de casa com 14 anos porque apanhava muito de Dona Judite, foi embora mal dizendo a mãe. Após 15 anos fez uma visita rápida a ela para depois desaparecer para sempre. Paula disse ainda que saiu de casa com 16 anos após ter apanhado muito também. Seguiu dizendo que a mãe a levou na consulta quando desconfiou da gravidez que gerou Marcela, e que quando o médico confirmou o fato, Judite se levantou e foi embora arrancando com o caminhão deixando Paula sozinha no consultório. O médico deu dinheiro para ela voltar para casa nesse dia. Após isso ela foi embora pra São Paulo tentar a vida. Conclui falando que a irmã tinha esquizofrenia por ter sofrido muito e nunca ter ido embora. Era um claro exemplo do duplo poder da morte que parece regar a estrada com terminalidade, mas também com reunião.

Indagamos por que Marcela gostava daquela senhora aparentemente tão dura e que tinha feito isso com os filhos, e ela me respondeu que com Marcela a criação foi outra, regada no amor e sem violência. Pedimos a opinião dela do por quê de tal mudança e ela concluiu que era pelo fato de Judite ter envelhecido. Devolvemos indagando se com o passar dos anos ficamos bons porque é um processo natural (não existem velhinhos maus) ou se é pelo fato de ressignificarmos nossas vidas tentando não cometer os mesmos erros do passado. Ela começou a chorar.

Sinto que o tempo que se seguiu após isso reestruturou aquela história, Paula contou sobre o medo de perder a mãe, que já a havia perdoado há muitos anos e que se estava ali era porque se importava muito com ela. Perguntei se Dona Judite sabia desse perdão, ela teve dúvidas. Pactuamos então de que nosso plano seria esse. Paula faria uma reflexão ao pé do ouvido de Judite, e que essa seria uma fala da família, de perdão do filho desaparecido, de assumir responsabilidade com Elisa e de perdão dela, Paula. Tudo pactuado, mas veio a dúvida: ela ainda teria a capacidade auditiva preservada naquele momento?

Nos dirigimos ao leito dela e perguntamos para os familiares que música Judite gostava de ouvir. A família disse: Ponta de Faca, do Zezo. Colocamos ela no ouvido da senhora e de seu olho escorreu uma lágrima. Filetes do rio que por ali margeava o momento.  Canal aberto para a chance.

O quanto de intensidade as expressões sopradas ao ouvido de Judite tiveram nunca saberemos, mas se a palavra tem o poder de libertar, aquelas trouxeram a alforria do espírito. Judite partiu poucos minutos depois de ter ouvido as declarações.

 Quando nos demos conta, vimos que a âncora não estava mais ali. Havia levantado voo, sendo carregada por balões.

Ponta de Faca – Música de Zezo

Eu queria saber o que faço pra agradar o mundo,
se é preciso da murro em ponta de faca ou não,
se não devo parar os meus passos na beira do abismo,
para ver uma estátua na praça ele era tão bom,
não queria saber dessa dor que eu sinto por ela,
porque sei que ela vive enganada nos braços de alguém,
quem me ver e nem pensa que um dia pulei a janela,
e andei apressado pensando que logo ele vem.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Se me vejo parado pensando nas coisas do mundo,
eu as vezes duvido que o povo tem a voz de Deus,
é que o homem se sente mais realizado,
ao invés de dizer parabéns ele fala cuidado.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Hoje vacinamos

por Eberhart Portocarrero Gross

Notícias de coronavac – Revide

Hoje vacinamos

O tio de um amigo de escola
Um senhor tatuado que não falava português
Alguém que me perguntou se eu era parente de uma atriz
A mãe de uma moça que, já saindo, se virou e gritou a plenos pulmões “VIVA O SUS, VIVA O SUS!!”
Casais juntos em tudo, até no dia de tomar a vacina
A primeira vacina da vida (de mais de uma pessoa!)
No braço esquerdo por causa do câncer no seio direito
Pode beber hoje?
Pode malhar hoje?
Gente que filmou para mostrar pros filhos
Gente que trouxe os filhos para filmar
Gente que chorou de nervoso
Gente que chorou de emoção
Cadeirantes
Confiantes
Desconfiados
Calados
Falantes
Demenciados
Sisudos
Sorridentes
Um pedreiro
Um procurador da República
Alguém que pediu pra levar o frasco e guardar para a posteridade (mas não podia)
Muita gente agradecida

Foi bem legal.

“VIVA O SUS, VIVA O SUS!!”

VAI FICAR TUDO BEM?

Por Arthur Fernandes

Brasil registra 90.504 novos casos de Covid em 24 horas, no dia em que  supera marca de 300 mil mortos | Coronavírus | G1

A porta de um consultório é aberta com força. Uma enfermeira só coloca a cabeça e grita “chegou um paciente saturando 36%, corre!!!”.
Poderia ter acontecido em qualquer pronto-socorro, em qualquer lugar, por qualquer doença. Mas aconteceu numa Unidade Básica de Saúde, no pior momento da segunda onda da pandemia de Covid-19 em Brasília, numa tarde de quinta-feira qualquer.

O relógio marcava pouco após as 13h, eu estava aguardando a triagem para atendimento de dois bebês com síndromes, cujas consultas foram marcadas previamente, além de uma mulher jovem para inserir DIU. Como eu disse, era uma quinta-feira qualquer.
Até essa porta abrir.
Entre a última frase da enfermeira e o fechar da porta, eu já estava do outro lado, correndo em direção à sala de sintomáticos respiratórios. O paciente estava na casa dos 30 anos, obeso, sem outras doenças. Havia apresentado febre há uma semana e, por orientação de um farmacêutico, estava usando o “Kit Covid” há cinco dias: ivermectina, azitromicina, hidroxicloroquina, zinco, vitamina D, vitamina C e dexametasona. Não procurou atendimento por equipes de saúde.
Nos últimos dias, apresentou piora cansaço e, naquele dia, piorou mais ainda. Chegou de carro, consciente, com fala entrecortada, acompanhado da família.
“Era só uma falta de ar… mas ficou ruim demais”, dizia.

Nessa hora, apertei o botão de emergência:

  • Evacuar a UBS: a redução de danos possível, considerando o alto risco de contaminação pelo paciente em relação aos demais que apenas aguardavam suas consultas;
  • Paramentação;
  • Destacar enfermeira e técnica em enfermagem devidamente paramentadas para auxiliar;
  • Acomodar familiares: desesperados, irmão e esposa entenderam que a situação era grave e começaram a acionar outras pessoas, como a mãe do paciente, uma senhora com doença cardíaca, que também se desesperou ao telefone;
  • Examinar o paciente e lhe explicar a situação: choroso, entendendo o risco que corria, pediu para se despedir da esposa, antes de ser levado ao hospital. Não entendia bem o que significava intubação orotraqueal, mas sabia que poderia dormir e não mais acordar;
  • Obter mais informações da família: não havia muito mais a acrescentar pois, infelizmente, foi uma evolução catastrófica de um caso que não só passou antes pelo sistema de saúde, como recebeu medicamentos sem indicação;
  • Instalar oxigenoterapia: a saturação não melhorava com cateter nasal e, com máscara, chegou a um máximo de 85%, ainda baixa demais;
  • Acionar o hospital de referência e o SAMU: por sorte, havia uma ambulância disponível nas proximidades, que chegou rápido;
  • Preencher burocracias para o transporte;
  • Notificar o caso e coletar exame do paciente: pelo mínimo direito ao diagnóstico, diante do caos;

Enfim, dentro da ambulância, partimos.
No caminho, tive um tempinho para lhe explicar quais seriam os próximos passos: admissão, novos exames, transferência para UTI e provável intubação. Ele respirava discretamente melhor e, ao mexer a cabeça, indicando entendimento do que ouvia, por vezes piscava os olhos, deixando escapar algumas lágrimas.
Chegando ao destino, após passar seu caso para a equipe, despeço-me.
“Você mora no meu território. É uma pena não termos nos conhecido antes mas, se Deus quiser, você vai sair dessa e ainda teremos uma consulta “normal”, combinado?”
“Combinado. Ô, doutor, muito obrigado, mas… o senhor acha mesmo que vai ficar tudo bem?”, ele pergunta, apertando minha mão, dentro da área vermelha, com os pacientes em estado mais grave por Covid-19.
“A gente vai acreditar nisso juntos”, foi o possível a dizer.
.
Do lado de fora do pronto-socorro, enquanto aguardava alguém da equipe me buscar de volta para a unidade, puxei conversar com o vigilante.
“A coisa tá feia, hein?”, disse.
“Moço, o senhor num tem noção. Esse pronto-socorro só falta explodir de gente. E o povo ainda tá aí no meio da rua, quando devia tá em casa”, ele responde.
“Pois é… e quando adoecem, infelizmente ainda encontram quem passa tratamentos sem comprovação científica”.
“O senhor tá falando do kit do corona, né? Conheço médicos aqui que nem o senhor, que também entende que não serve. Mas passa na televisão, né? O povo escuta”.
“Passa, e o pior, saindo da boca do presidente”.
“Fala não, doutor… eu votei nele, achava que não tinha outra opção, mas tô vendo que fiz besteira. Em 2022 não vou repetir isso”.
.
Ah e, obviamente, retornei à UBS: havia um paciente com diabetes e uma gestante de alto risco para atender. Com Covid, sem Covid, apesar do Covid, a vida continua.

Festa do corpo de Deus

por Isabelle Ramos

Adélia Prado, de corpo e alma – Literatura na Internet

Foto: Adélia Prado

Havia lido sobre o amor no poema que inaugurava a prova de português da quinta série, mas ainda não entendia muito bem aquela história de namorar um porquinho-da-índia. Aos 14 anos, Rafaela sentia-se diferente de suas amigas – gostava de jogar futebol e não via tanta graça em falar sobre os meninos bonitos da sala. Quando conheceu Marcelo, foi um grande alvoroço; ficava desconcertada ao ter que repetir que eram apenas colegas que jogavam ping pong no intervalo da escola.

Levou mais de um ano para que percebesse como era bonito quando ele sorria – os olhos semicerrados revelavam cílios longos que pareciam desenhados à mão. Subitamente o modo como seu cabelo rabiscava o vento depois de longas partidas tornava o dia mais agradável; e então já era sexta-feira, dois longos dias até a segunda, e mais duas intermináveis aulas sobre a história do Brasil até o início do próximo jogo.

O primeiro beijo foi inesperado; sentiu uma coisa na barriga que deslizava entre medo e euforia. Ao deitar-se naquela noite, tentava recapitular cada segundo da cena, mas era como contar os detalhes de um filme que assistira há muitos anos – só lembrava do sentimento, o gosto bom ao fim.  Rafaela manteve tudo em segredo até o dia em que foram ao cinema. A sala estava vazia e a tela era apenas plano de fundo para a paixão dos dois. Por um momento, assustou-se quando as mãos de Marcelo desciam por seu corpo, não sabia como reagir. A pele vibrava com o toque; era a primeira vez que vivia o prazer daquela maneira, acompanhada por outra pessoa.

Chegou em casa e correu para o quarto confusa sobre o que deveria sentir. Estava feliz, mas impregnada de culpa e vergonha. Como teve coragem de se desvalorizar daquela forma? Sua mãe dizia que Deus não permitia esse tipo de comportamento. Tinha certeza que havia pecado, mas não entendia porque pareceu tão certo. E agora? Como contaria a ela? Será que poderia engravidar? De repente, toda beleza da experiência transformou-se em pânico.

No dia seguinte, foram à Clínica da Família logo de manhã. Sua mãe reagiu com muita preocupação, queria que fosse examinada para saber se “já era moça” ou se precisava de algum remédio. Rafaela sentia-se doente, impura. Queria estar debaixo do fogão, onde não pudesse ser vista, como o porquinho-da-índia na quinta série. Só conseguia encarar os próprios pés quando sentou-se no consultório. Não imaginava, porém, que sairia dali com maior entendimento sobre seu corpo inteiro.

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

é próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.E

u te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta árvore de execração

o que dizes é amor,

amor do corpo, amor.


Poema Festa do corpo de Deus, de Adélia Prado

O gosto amargo

por Karen Borges

INAPETÊNCIA - Definição e sinônimos de inapetência no dicionário português

Dona Divina*, 73 anos.
Fez uma cirurgia bariátrica há 10 anos e, desde então, não conseguia comer direito devido a um gosto amargo na boca. Ao entrar no consultório, percebi que estava magra excessivamente, algo que chamamos de Síndrome Consumptiva.Boa tarde, dona Divina! Como a senhora passou da consulta passada até agora?


-Ah doutora! Tenho passado muito mal. Fiquei internada, operei de uma úlcera perfurada e continuo com uma fraqueza que me impede de fazer qualquer coisa.

E como está a sua alimentação? Vi aqui no prontuário que a senhora não consegue comer direito há muito tempo…

Não mesmo. Tudo tem um gosto ruim, desde que passei pela bariátrica. Então eu não como!

Mas a senhora sente dor, desconforto ou é só o gosto mesmo?

É só o gosto.

Poxa, mas não tem na-di-nha que tenha um gosto melhor pra senhora?

Ah, doutora! Eu como muito bem quando faço canja.

Olha só como tem, então! E porque a senhora não faz canja mais vezes pra comer?

É verdade, né?

E o que mais? Feijão? Batata? Precisamos colocar mais calorias no seu prato.

Ah, feijão não me desce! Mas a-do-ro grão-de- bico.

Olha ai! Já temos mais um prato montado. A senhora gosta de couve?

Gosto! Também gosto de brócolis, salada, fruta …

Está vendo só! Em 1 minuto já montamos 2 refeições que a senhora consegue comer. Estou preocupada com o seu peso. Quero investigar se não tem mais algum motivo para a senhora emagrecer tanto, mas tudo indica que seja a sua alimentação mesmo. De qualquer forma, vamos combinar uma coisa? Eu faço a minha parte investigando por aqui e a senhora faz a sua se
esforçando pra comer direito em todas as refeições, sem pular nenhuma.

Combinado!

Além disso, tem mais alguma coisa te perturbando?

Tem sim… Meu marido vai ter que amputar o pé e não está aceitando. Ele está muito triste. Aí eu me preocupo cuidando dele e esqueço de cuidar de mim.

E assim a senhora também fica muito triste?

Ah, eu fico…

Eu entendo e me solidarizo muito pelo que está passando, mas a senhora precisa se cuidar pra conseguir cuidar dele. Nenhum remédio no mundo vai fazer efeito direito se o seu corpo não estiver bem nutrido.

Combinado! Vou cuidar de mim e dele.

Além disso, vou dar uma cartinha pra senhora levar ao posto porque preciso de ajuda para verem bem de perto como a senhora está tomando os remédios. A senhora consegue fazer isso?

Ah, isso tudo eu consigo!


E com um abraço bem apertado, um sorriso orgulhoso de vó, a dona
Divina se despediu.


No meio do caos que ocorre nos bastidores da nossa saúde, surgem esses encontros singelos relembrando o motivo de repetir, diariamente, a cada percalço: “você pode até me perturbar, mas mais forte ainda eu vou ficar”.
Acho que ela não sabe, mas hoje foi a dona Divina quem cuidou de mim.
*Nome fictício

Mãe

por Maria Carolina Mendes

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A barriga de menos de 20 semanas ainda não aparecia aos olhos curiosos. Respondeu acanhada ao meu bom dia, transparecendo um leve desconforto à minha presença. Sentou-se para a consulta pré-natal, respondendo diretamente aos questionamentos médicos levantados; não se deixou envolver de forma mais intensa, nem ao menos mantinha seus olhos nos meus. Contou que a gravidez não havia sido planejada mas que, apesar do inesperado, era muito bem-vinda – Eloá era aguardada com afeto.

Deitou-se na maca como pedi e mostrou o ventre em construção, pequeno como as primeiras raízes que aparecem em brotos de feijões algodoados na infância. Ainda evitava olhares, analisando o teto com o mesmo interesse que admiramos telas em branco espalhadas em um museu de arte moderna, procurando sentido no vazio. Eu tateava o pequeno feto aquecido em seu domo lacônico e pousava minha mão esquerda na convexidade fúndica, enquanto a mulher continuava a explorar interpretações para o concreto exposto na altura de seus olhos.

Foi após a tentativa falha de escuta dos batimentos cardíacos de seu bebê que ela me olhou pela primeira vez. Perguntei se estava tudo bem. “Na última consulta também não conseguiram ouvir”, disse em voz preocupada. Seu desconforto me fez assumir como obrigação o encontro dos galopes dados pela sua cria, e procurei ajuda – mais um par de mãos palpava a pré-existência de Eloá, que mais uma vez se recusou a nos mostrar seu coração através das incansáveis camadas de gel frio espalhadas por toda a topografia uterina. A mulher voltou a encarar o teto, dessa vez para esconder as lágrimas que se intencionavam a cair. O terceiro par de mãos apareceu para tocá-la, e me peguei dentro de uma grande sala museística rodeada de imagens confusas, me doando inteiramente àquela lasca de argamassa pendurada em caimento de renda, e somente em meio a uma antropofagia dadaísta fui capaz de ver a lágrima de Mãe ali representada, a lágrima que caía em frente a mim no mais puro realismo.

A enfermeira da equipe ainda delimitava o dorso de Eloá. E os braços. Os pés. Procurou a cabeça. Voltou a dedilhar o ventre que agora me pareceu enorme ao conter a incerteza que amor e morte trazem, andarilhos, em companhia um do outro; ao conter o amor incondicional que desconheço em vida, justamente o amor que presenteia a morte com tamanha relevância. Amor de mãe. Mãe é o artista do modernismo complexo que vemos nas telas em branco de museus renomados – a complexidade pode tentar ser compreendida por qualquer um disposto a se arriscar, mas apenas o artista conhece, de fato, o valor de sua obra.

Minutos depois, o cavalo finalmente galopou pelo sonar, cavalgando pelo caminho d’O Semeador em direção ao grandioso nascer do sol centralizado em pinceladas impressionistas. A lasca grosseira poderia ter caído em nossas cabeças como as lágrimas de Mãe que agora se esvaíam em forma de riacho pelas pedras de bochechas. “Como você está?”, a enfermeira perguntou. “Agora estou bem”, ela riu, “as outras têm a mão muito levinha”. Ela se levantou até a cadeira com os olhos marejados e os lábios curvados em um meio sorriso, e voltou a manter o olhar longe do meu. Depois de encerrarmos o prontuário, ela se foi com o registro dos 135 batimentos por minuto do coração de sua filha.

Sozinha, chorei. Chorei pelo medo que senti da possibilidade da morte. Chorei pela sensação de impotência trazida pelo sonar mudo em minhas mãos. Chorei pela dificuldade de me aproximar desta mulher, que mantinha distante até mesmo o olhar e as palavras. Chorei por perceber que é preciso aceitar nossa incapacidade frente a situações imutáveis. Chorei ao tentar imaginar a perda de uma mãe. Continuei a chorar quando o tum-tá tão cobiçado chegou à minha memória. E lá ele se manteve: Tum-tá. Tum-tá.

Fechei os olhos e sorri. Sorri ao me lembrar da mais bela das artes que pude encontrar em meu sonhar acordado com o teto do consultório: a harmonia entre amar e morrer.

Referência:
O Semeador, Vincent Van Gogh.
Arles, França, 1888.

E lá vem ela de novo

por Brenda Wander

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Mais uma vez chega dona Carmen* na unidade de saúde. Da última vez, há uma semana, já tinha levado a enfermeira quase à loucura com tantas solicitações, e saiu ainda proferindo xingamentos. Era uma paciente muito frequente e muito demandante. 

Havia indícios de demência na idosa de 75 anos, ainda em investigação – vinha tornando-se repetitiva, esquecia as prescrições que eram explicadas inúmeras vezes, perdia consultas, e o teste do mini mental, usado no rastreamento de déficit cognitivo, estava alterado. 

Carmen morava com um dos filhos, que tinha depressão, segundo ela, e não procurava tratamento. Isto era referido em todas as consultas e causava grande sofrimento em Carmen. Devido ao próprio adoecimento, o filho não era capaz de ajudar nos cuidados da mãe. O outro filho havia falecido em um acidente de moto. 

Neste dia, como sempre, Carmen começou referindo suas dores e falando de seu filho doente. A hipertensão controlada era o de menos. 

– Doutora, mas esse meu filho não quer vir de jeito nenhum… aquele outro doutor que trabalhava aqui já tentou até ir lá em casa, mas ele não quis ouvir o doutor. Não tem jeito, e isso me deixa tão mal…

– Mas dona Carmen, tu já tentou de tudo, não precisa se sentir culpada pelo problema dele.

– Eu não consigo, doutora. Aliás, isso me deixa tão nervosa que esses dias me desentendi com a enfermeira lá na frente… 

Neste momento, sua feição abrandou-se, e passou a falar com a segurança que uma experiência de vida dá. 

– Sabe, às vezes vocês até olham pra gente e dizem: “ah, fica quieta que tu não sabe de nada”. Mas vocês não sabem o que a gente passou na vida. Vou te contar o que nunca contei pra ninguém.

Neste momento dona Carmen inicia o relato de um sofrimento antigo e não por isso cicatrizado, que escondeu dos profissionais e até da família. 

– Meu falecido marido não era uma boa pessoa. Eu sofri muito com ele. Eu dependia dele para tudo, não me deixava ter dinheiro ou trabalhar… então ele ia no mercado e não comprava comida suficiente pra gente, só jogava a sacola na mesa e dizia: “é isso”. Me forçava a ter relação quando eu não queria, até um dia me forçou a fazer por trás. Imagina doutora, que vergonha. Ele também não me deixava evitar de engravidar né, então eu engravidei várias vezes.

– Mas, a senhora me contou que teve dois filhos. O que aconteceu?

– Eu tive o primeiro, e nem queria mais filho daquele homem, mas acabei tendo o segundo, não tinha como evitar. Mas aí eu engravidei mais nove vezes, e ele me levava numa mulher que fazia aborto, me obrigou a abortar. Só me largava lá e me buscava depois… era uma dor horrível que ele me fazia passar, nove vezes! A mulher chegou a dizer que se ele me levasse lá de novo eu ia perder a minha vida também. 

Fiquei sem palavras. Ela continuou. Por algum motivo confiou contar aquilo tudo para mim.

– Quando ele morreu, ele estava no hospital sentindo muita dor, e eu disse pra ele: “agora tu tá passando por toda a dor que me fez passar e eu não tenho pena de ti”. Ele morreu muito mal, mas pagou pelo que fez comigo.

Ela ficou com ele até o final. Dependência financeira? Valores morais? Enfim, talvez não venha ao caso.

– Teve também o meu filho mais velho, ele era muito trabalhador, me cuidava como uma rainha, dava muita atenção, até me defendia sabe… um dia ele resolveu que ia comprar uma moto, eu falei que não queria, que era perigoso. Dito e feito, uma noite ficamos sabendo do acidente, ele morreu na hora… Agora este outro filho mora comigo mas parece que não gosta, sabe, e ainda está doente desse jeito. Não tenho ninguém por mim. Acho que com tudo isso que eu passei, eu estar aqui conversando contigo, acho que eu tenho algum valor, né, doutora?

– Claro, dona Carmen, e a senhora é muito, muito forte, não consigo imaginar as dores que tu sofreu. 

– Então, doutora, por isso que digo, quando vocês nos vêem ali na sala de espera, parece que pra uns a gente está ali só pra incomodar, mas vocês não sabem tudo o que cada um passou na vida, o peso que a gente carrega.

Ninguém da nossa equipe poderia imaginar que, por trás de tantas demandas, estava uma vida de violências, e nove abortos forçados.

A idosa supostamente demente nunca me pareceu tão lúcida. Destes encontros, tantas vezes cansativos, saem grandes aprendizados – basta ter ouvidos, e saber ouvir com o coração. Dona Carmen me lembrou que ninguém é o que é por acaso, e não cabe a nós julgar, apenas acolher o sofrimento e respeitar cada história de vida. 

*Nome fictício.

A ROSA, O FUXICO E A ALMOFADA

por Vivian Mara Barbosa

Que o universo coloque em nosso caminho pessoas que possam usufruir daquilo temos para doar. Mas, que, também estejamos abertos a receber, pois bons encontros acontecem para quem está disposto a acolher.

Maria Rosa era uma paciente de 81 anos de idade que compareceu à unidade básica de saúde acompanhada da nora. Postura encurvada, olhar desviado para baixo e face tristonha. Trazia queixas difusas como insônia, ansiedade e dificuldade para engolir. Conforme a nora, aproximadamente, há 2 meses Maria Rosa vinha perdendo interesse nas atividades diárias.

– Há 10 anos a dona Maria teve uma depressão de não querer levantar do sofá. Nessa época também perdeu o apetite.

– Dona Maria, a senhora acha que essa dificuldade de engolir pode está relacionada a essa tristeza que anda sentindo, igual aconteceu há 10 anos?

Com os olhos marejados balança a cabeça de forma afirmativa.

– Eu acho que pode sim.

A nora complementa:

– Agora ela tá ficando do mesmo jeito de antes dotôra, fica sentada olhando “pro nada”, perdeu a vontade de fazer as coisas. Nem costurar, costura mais! Ela fazia colcha, pantufas, bolsas… Cê tinha que ver!

– Dona Maria, o que a senhora acha que pode estar causando essa tristeza?

– Os aborrecimentos da vida.

 Maria Rosa era casada há mais de 60 anos, tinha 6 filhos, residia aos fundos da casa dessa nora que a acompanhava. Cozinhava, lavava e ia ao banco, era independente. Contudo, trazia consigo uma grande mágoa do companheiro devido aos acontecimentos do passado, como proibições e traições. Hoje, o jeito carrancudo e seco do marido era o que mais a incomodava. Embora morassem na mesma casa, cada um tinha seu quarto e quase nunca conversavam.

– Eu tava numa tosse, levantando toda hora da cama e ele não teve nem coragem de passar lá no quarto para ver como eu estava. Às vezes passa o dia sem trocar uma palavra comigo!

Conversamos mais um pouco, acerca da história de vida, das angústias e das expectativas da Dona Maria. Revi as medicações de uso habitual e propus que iniciássemos a retirada, gradual, de clonazepam para daqui duas semanas, uma vez que fazia uso mais de 15 anos e ainda se queixava de insônia. Ademais entreguei, também, um folheto com dicas de higiene do sono.

– Dona Maria gostaria de encontrá-la na próxima semana, além disso, queria fazer uma proposta. A senhora topa de costurarmos uma almofada de fuxicos juntas?

Nesse instante, ergue o olhar, meio que incrédula, mas com discreto sorriso no rosto, parece simpatizar com a proposta.

-Topo, uai.

-Então, combinado. Vou trazer retalhos, linha e agulha. A senhora tem linha e agulha em casa?

– Tenho sim

– Traz para gente na próxima consulta.

Após duas semanas, lá estava a Maria Rosa e sua nora me esperando no corredor da UBS. Passaríamos a nos encontrar todas as semanas para acompanhar a descontinuação do benzodiazepínico. Uma medicação mais indicada para tratamento da insônia foi prescrita, acrescido a isso, o uso de chás como capim cidreira, camomila, maracujá foram encorajados. Ela compartilhou dessa ideia, do uso de chás como método relaxante, a tal ponto que me presenteava com pacotinhos  de capim cidreira, colhidos no próprio quintal. Após conversarmos como havia passado a semana indaguei:

-Trouxe linha e agulha?

Embora afirmasse positivamente com a cabeça, sorrisinhos brotaram tanto na face da paciente quanto da nora. Pareciam, ainda, não acreditar naquela proposta de costurarmos durante a consulta. Enquanto isso, retirei da minha bolsa retalhos, linha, agulha e uma almofada, como combinado. E ali, naquele instante, começamos a dar formato de flores aos retalhos trazidos.

– Vamos encher a almofada com fuxicos de flores dona Maria!

– Ahhh… desse fuxico eu não conhecia!

Exclamou Maria Rosa diante da descoberta de um novo jeito de “fuxicar”.

– Eu só conhecia aquele fuxico rendodinho.

– Esse eu não lembro como faz

– Quer que eu faça para você vê?

Agora era eu quem não sabia costurar nesse formato “redondinho”. Então, foi a vez da Dona Maria me ensinar a coser. Aproveitamos esses fuxicos redondos para compor os miolos das nossas flores.

Nas consultas subsequentes, sempre, conversávamos como tinha sido a semana. Além do mais, investigava possíveis sintomas de abstinência, referente a descontinuação da medicação. Estes só apareceram no desmame da segunda metade da dose. E como de costume, ao final das nossas consultas, fazíamos ao menos um fuxico. Após um mês, ela já relatava melhora do apetite, do sono e do humor. Maria Rosa desabrochava a olhos vistos: assumia postura ereta, o olhar fixado no horizonte e a face rosada

 – Voltou a costurar e a frequentar a igreja, dotôra. Tá outra pessoa!

Contou a nora cheia de felicidade durante nossas consultas.

Ficamos juntas  por 2 meses, tempo que durou meu estágio naquela UBS. Na nossa penúltima consulta, como habitual, após o exame clínico, indaguei a respeito da confecção da almofada. Prontamente a nora respondeu:

-Você vai ter uma surpresa, dotôra.

Nesse instante, Dona Maria Rosa, com suas mãozinhas habilidosas, retira de uma sacola a almofada. Pronta! Levanta-se da cadeira e vem em minha direção.

– Se você não se importar eu queria te presentear com a almofada.

Meu coração se encheu de gratidão, deve ser por isso que meus olhos se encheram de lágrimas.

Costurar. Conforme o dicionário de língua portuguesa, significa unir duas partes, geralmente de pano, por meio de linha e agulha. Todavia, após essa experiência, esse significado transcende a junção de tecidos. Por um lado, de retalhos se fez  flores e das flores, almofadas. Por outro, da postura, inicialmente, cabisbaixa, se fez ereta, da falta de interesse se fez a vontade de aprender, da tristeza se fez a alegria. Ao término da almofada, Maria Rosa já florescia.

(os nomes são fictícios e as estórias têm adaptações para preservar o sigilo das pessoas)

A mulher na terceira vida

por Adriana Strappazzon

Salete Maria - Cordelirando...: A Mulher de Sete Vidas

Eu não quero mais esses remédios, a gente pode se curar sozinha. Veja só, eu já morri duas vezes. A última vez, foi no hospital. Um enfermeiro me deu uma injeção e na mesma hora eu comecei a sentir um calor que subiu o meu corpo. As minhas pernas, não sentia nada. Nada. Era o fim. Já comecei a me despedir da vida. A rezar e a preparar a minha subida. Eu tive uma parada cardíaca e então chegou a enfermeira chefe e eles começaram a fazer aquelas coisas todas.

Eu sou muito próxima de Deus, vocês não sabem o que é isso porque vocês não são. Nós dois somos íntimos e eu comecei a conversar com ele. Olha só Deus, se for para ficar paralítica eu quero morrer. Mas se desse, eu gostaria de voltar para fazer com que esses dois que me mataram sejam mandados embora.

O enfermeiro começou a colocar leite na minha boca para neutralizar o veneno que ele tinha me dado. Ele dizia para eu piscar o olho para indicar que estava bem. Mas eu encarava ele com o olho esbugalhado e pensava: deixa eu sair daqui que você vai ver! A enfermeira ficava me apalpando. Eu já estava começando a sentir um formigamento nas minhas pernas mas eu dizia que não estava sentindo nada.

Então eu pensei, se eu conseguir caminhar, vou até a sala do diretor do hospital. É pela escada, porque se fosse de elevador seria mais fácil e eles não querem ninguém lá. Eu estava saindo quando a enfermeira me perguntou onde eu estava indo. Eu respondi: Você quer mesmo saber onde estou indo? Eu estou indo denunciar vocês que me mataram. Ela pulou em cima de mim, dizendo para não ir e que esperasse a minha médica. Eu esperei e contei tudinho para ela. A minha médica então falou para eles irem para a sala do diretor. E eles foram mandados embora.

E foi assim que eu morri.

– A senhora teve uma parada cardíaca –

Pois é, morri.