Beatriz, Joana ou Acácio

por Marina Galhardi

‘Você vai só renovar a receita ou vai consultar?’ – perguntou Beatriz, mas bem podia ter sido Joana ou Acácio.

Desde quando nos tornamos renovadores de receitas?

Veja bem, renovar a receita aqui na sua frente e não perguntar minimamente o porquê do uso dessa medicação ou como você está, seria total perda de tempo de ambos. Porque não renovo então na sua ausência, se é só para renovar? 

Acontece que eu não conhecia a pessoa e o medicamento em questão, psicotrópico, não vinha sendo usado há mais de um ano. Não temos mesmo outra opção, se não ‘consultar’, minha querida. 

O fato é que queria a medicação porque teve uma crise recente, no último fim de semana, em que fiquei muito muito ansiosa – eu sempre fui muito ansiosa – até vomitei, não conseguia dormir por nada. Tomei dois comprimidos desse  remédio aí, da mãe, e não adiantou. Ah, porque o Dr. Fulano já conhecia a nossa história, deu o mesmo remédio para nós duas. Tomei também uns pedacinhos dessa outra medicação aqui, um amigo me deu – outro psicotrópico – por uns dias, para conseguir dormir. E agora quero voltar a tomar esse remédio, não consigo ficar sem ele.

Entendendo. Mas o que aconteceu para desencadear essa crise?

Parece um pouco preguiçosa: tenho mesmo que falar, o Dr. Fulano só me dava a receita, ah, me desentendi com a minha mãe.

Sigo escarafunchando aqui e ali. Porque é que as pessoas não querem falar do que incomoda, não querem contar sua história e querem medicações que as ajudem a lidar com ela. Curioso. Essa foi a sociedade que a gente construiu?

Encurtando a história: a mãe há 5 anos, desde a partida do pai, estava um pouco amarga demais, agressiva vez ou outra, passava horas na internet vendo sobre coisas políticas e se queixando aqui e ali o tempo todo – eu entendendo, não está fácil – a filha que era a única que morava com ela, a mais próxima, não aguentava mais, ficava irritada e ansiosa demais nessa convivência com a mãe. O médico então tinha dado um remedinho para elas duas, assim se davam melhor, se incomodavam menos. Já pararam aí para pensar como temos medicado nossas relações?

Para eu não me incomodar com o outro eu tomo uma pílula. Uma solução boa essa ne, quem foi que inventou?

Bem, sigamos, perguntas me ocorreram várias, mas me concentrei em dizer: parece que você teve um bom motivo para ter uma crise de ansiedade, não é mesmo? e ficou um ano sem medicação e vinha vindo bem, o que você fez esse ano?

Ah, passei mais tempo com a minha mãe, as vezes via uns filmes com ela para ela sair um pouco da internet.

Eu sei que essa crise foi muito intensa e você tem medo de ter outras, mas percebe que a medicação não ajudou nela, você mesma disse, e você sobreviveu mesmo assim, está aqui agora dias depois conversando comigo tranquilamente.

É mas acho que não vou conseguir, preciso dessa medicação.

Foram muitos minutos de conversa e de tentativa de re-conhecimento ou re-conexão. Usei metáforas clichês como a sujeira debaixo do tapete, ou a muleta, ou qualquer coisa que o valha. Ridículo, eu sei. Acabei dando o tal remédio junto a uma lista de dicas sobre ansiedade e clínicas de psicoterapia populares. Duvido que tenha adiantado alguma coisa, juro. Me frustrei.

Se esse fosse um atendimento isolado na vida eu nem ligaria. Mas não foi. Tem sido isso todos os dias.

Porque você toma essa medicação? A maioria das pessoas se choca com a pergunta. Como assim? Outras respondem um genérico “sou muito ansioso”, e quando eu pergunto, e como é sua ansiedade? se chocam novamente e não conseguem uma resposta que faça sentido. Desculpe, mas não faz. Tem ainda um terceiro grupo de pessoas, mais seleto, que me explica para que serve a medicação com palavras bonitas e científicas até. Veja bem, eu sei para que serve (na maioria das vezes, se não pesquiso), o que quero saber é se realmente serve para você.


Uma outra paciente outro dia veio nas mesmas condições: renovar uma medicação. Precisava muito dela, mas ela não estava fazendo mais efeito para dormir. Propus mudarmos a perspectiva. E porque é que você não dorme? Outro choque, nem ela sabia. No fundo sabia sim, estavam engavetados todos os motivos que ela não queria olhar, mas queria sim uma medicação que nem funcionava mais. Tentei inclusive propor outra medicação. Mas não. Me digam, porque alguém quer uma medicação que nem funciona mais?


A verdade é que viver dói, imensamente. E não estamos podendo doer. Precisamos estar sempre alegres, sorridentes e não temos espaço para dizer do que dói. Você já deve ter tido aí essa experiência de tentar conversar com alguém, com um amigo, qualquer pessoa sobre algo que não tem te feito bem, quantas dessas pessoas conseguem fazer uma escuta empática? quantos conseguem não dar conselhos, não contar de si, e não se esquivar te mandando para uma terapia? Raríssimas, mesmo. E no futuro distópico elas nem vão mais existir.


Nesse contexto, talvez eu não traga esperança nenhuma. Sigo o caminho de formiguinha de tentar perguntar, ei, o que é exatamente que vai mal na sua vida? As pessoas vão mal em trabalhos de que não gostam mas pagam suas contas. Vão mal em relações que não suportam, mas melhor do que ficar sozinho. Vão mal porque comem mal, dormem mal, não sabem nem do que gostam ou o que desejam. Quererem apenas não sentir. 


A crise é boa, é potente, ela traz transformações. Sigo acreditando, ainda que só.

Relato de um ACS

por Anderson Pimentel

HIBISCO (Vinagreira) -

Conheci dona Maria no grupo terapêutico do Centro de Saúde. Estávamos construindo uma horta e ela era exímia no trato com as plantas. Olhar triste, voz calma e carregada de sotaque nordestino, passo lento e firme. Além das duas filhas, criara três netos: Marcos, o mais velho, estava cumprindo pena na prisão por tráfico de drogas; o do meio, Alex, tinha grave problema com álcool e o terceiro, Mateus, uma criança muito inteligente, era agressivo com os coleguinhas na escola e amiúde levava uma advertência para casa.

O vínculo com dona Maria aconteceu por causa do neto Alex. Desde que perdera a namorada num acidente de carro o rapaz se entregou ao álcool e a avó não sabia o que fazer com ele.  Como Agente Comunitário de Saúde, fiz visitas domiciliares com frequência à família, pois o rapaz volta e meia estava internado por decorrência do uso abusivo de álcool.

Percebemos a fragilidade emocional daquela mulher que levava um mundo nas costas e a convidamos para o grupo terapêutico. Nossos laços afetivos se estreitaram ainda mais quando, ao falarmos de plantas comestíveis mencionamos a vinagreira, planta que é o ingrediente principal para um prato típico do Maranhão: o arroz de cuxá. Dona Maria, assim como eu, era maranhense. Nossos olhos nordestinos brilharam com a descoberta. Eu que deixara o estado havia dez anos encontrei naquela paciente de sotaque arrastado um pouco de minha avó, um pouco da minha terra. Finquei raiz no vínculo. A paciente me procurava sempre que surgia alguma demanda, ora uma convocação da escola por causa do comportamento do Mateus, ora mais uma internação do Alex.

Não raro, pessoas que cuidam de outras pessoas não têm disposição para o auto-cuidado. Dona Maria cuidava dos netos – e de um monte de cachorrinhos – mas tinha pouca vontade de cuidar de si. Percebíamos que a horta fazia bem a ela, uma vez que conversava com os profissionais e com outros pacientes e cuidadosamente, todos os dias, ia regar as plantas e preveni-las das pragas. Nos ensinou nome de algumas, seus usos medicinais, como lidar com as formigas e outras criaturas indesejadas na plantação.

Dois acontecimentos marcantes mudaram totalmente o destino de dona Maria e o nosso. O primeiro foi o fato de o neto Alex, depois de outra internação, ter falecido. Uma tristeza enorme caiu sobre nós todos. Alex era um rapaz calmo, apesar do uso do álcool, não dava os vexames comum aos que vivem aos porres. Bebia em casa e por lá ficava. Parceiro do irmão, Mateus ficou desolado; tinha apenas onze anos e refletia no olhar uma tristeza tão profunda que era difícil encarar aqueles olhos negros por muito tempo sem encher os nossos de água. Dona Maria também estava triste, mas de tão acostumada com os sopapos da vida não mudara a fisionomia: era impossível um semblante demonstrar mais tristeza.

O outro acontecimento significativo foi a saída do neto Marcos da prisão. Em liberdade o rapaz procurava a avó com frequência para pedir dinheiro. Os vizinhos contam que numa dessas visitas dona Maria disse ao neto que não tinha dinheiro e o rapaz insistiu até que perdeu a razão e matou a avó na frente do irmão. Ir à horta se tornou uma tortura para mim.

Passado algum tempo, aquele grupo tomou outra feição: a estratégia terapêutica mudou de horta para artesanato. Outros profissionais tomaram a frente do espaço. O Centro de Saúde recebeu doação e foram construídos canteiros novos, bem estruturados, de blocos de concreto. Nada sobrara da antiga horta. Ou quase nada: há dois meses plantei sementes de vinagreira que dona Maria cultivou nos antigos canteiros do Postinho. Todo dia olho as plantinhas, todo dia me recordo daquela mulher que  me enchia de ternura com sua voz calma, com seu olhar triste.

Dia de médico é todo dia

por Monge Yakusan

19 de maio dia mundial do Médico de Família e Comunidade

Hoje, mais um ano, mais um dia de uma das profissões mais ricas e intensas que vi muitos escolherem e que escolhi para mim – o porquê não sei, só sei que “é assim como é” – não foi por status, não foi por influências de parentes, foi por um espectro de sentimentos que me causou encantamentos desde o início da minha vida e da minha imersão na Medicina.
A Medicina tem esse encantamento e esse glamour sem glamour algum. A Medicina tem tesouros escondidos que só ela pode te mostrar, mas também ela pode te lançar na masmorra do cansaço, da desesperança e de venenos ilusórios (arrogância, impulsividade dentre outros “tóxicos”). É necessário sabedoria para lidar com ela, e não falo de inteligência lógico-matemática. Medicina pede algo maior, além da própria vida e morte; a Medicina feita em sua essência magna pede Sabedoria de achar que Medicina é demais mas ela não faz nada demais para quem a exerce. Medicina não é para si, é para o mundo, é um ofício que não pode ser engaiolado nem pelo ego nem por nada.

Deixo uma pequena homenagem digamos mais realista, na forma de música e na forma de “mal traçadas linhas”, escritos de peito aberto como uma toracotomia, para os mais diversos e especiais colegas com quem convivi e convivo – ex-colegas de perto e de longe, do trabalho e de lutas ideológicas, dos que acreditam que as pessoas são maiores e não cabem nos códigos de doenças nem nos livros, que o diálogo tem nuances que não cabem em artigos científicos, e também para os médicos no casulo vulgo estudantes de Medicina. Sou grato pelo aprendizado ao longo desses anos que passaram e os por vir.

“Entre o amor e a revolta
entre o a alegria e o tédio
entre o reconhecimento e o grito por reconhecimento
entre a gratidão e o silêncio
em meio a vida que resta
entre a ciência e a arte
entre dias de sol e dias sem cor
entre a sensação de desistência e a gana e persistência
entre a rebeldia e as diretrizes
entre convívio com pessoas e a solidão consigo mesmo vida afora
entre o barulho dos aparelhos e a música da vida…

Entre o café que desperta para seguir adiante dias e noites afora e a água que regenera e limpa – as mãos, o corpo, o cansaço
Entre a presença junto aos que têm esperança (vulgo pacientes) e a ausência de familiares que também esperam
Entre a alegria do nascimento e ter o milagre da vida nas suas mãos e a sensação de queda livre diante da morte e não saber o que fazer com ela quando a tem nas mãos

Existem pessoas em meio a tudo isso, carregando um peso olímpico de responsabilidade  e mesmo sem querer
São capazes de espalhar a leveza de folhas ao vento

Nem anjos, nem heróis, nem deuses – médicos apenas, humanos apenas, nem mais nem menos. É isso já é muito.
A cura é apenas o pretexto para provocar tantas outras sensações nas pessoas em consultas e procedimentos
Nome mais estranho para explicar sobre essas artes
Artes que não podem ser ouvidas nem vistas, no máximo sentidas, grandiosas como uma montanha e muitas vezes
Invisíveis como o ar
Em resumo, ser médico em si já é a dádiva.”

Monge Yakusan, do japonês (aprendiz de) montanha de cura

Narrativas

por Ana Paredes

Fachin pede apuração sobre operação na favela do Jacarezinho

Atender no Complexo do Alemão é:


Queixa principal: furúnculo.
Paciente do sexo masculino, 26 anos, negro.Meu nome é Ana, sou aluna do último semestre de medicina. Como posso te ajudar?
Coleto os dados da evolução clínica do furúnculo na região abdominal. Durante a consulta, o garoto comenta sobre a violência do Alemão. Abro espaço para escuta. Ele percebe que ouço atentamente, e essa conexão o permite sentir à vontade para relatar vivências um tanto pesadas do território. Vivências que sequer tenho coragem de escrever aqui, porque se o fizesse, seria como consumar de novo tamanha desumanidade.

Eu queria muito que vocês, do asfalto, vivessem por um dia o que a gente vive no morro.

“Devia ser por um dia o que eu sou há vinte anos”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Ver poça de sangue na porta de casa.

“Já vi a morte perto, um cano engatilhado”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Polícia mexer com a gente no caminho. Gritar com a gente do nada, ameaçar bater sem motivo. A vida do pobre que mora no morro não vale nada. Eu e cachorro é a mesma coisa.


Ao fim do desabafo, o furúnculo permanecia ali. Saio para pegar o carimbo do médico para a receita do antibiótico.
Retorno à sala e ele parecia ansioso para continuar falando de si. Prosseguiu contando um pouco mais de sua história de vida. Filho não planejado, frente à impossibilidade de a mãe o sustentar, em certos momentos da infância havia sido entregue a uma tia para que ela o criasse.

“E mesmo assim, tive que penar pra aprender
Que minha mãe não ia poder ‘tá lá pra me ver crescer
Tinha que trabalhar pra ter o que comer”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Eu nem sei se eu posso chamar ela de tia, de tão ruim que ela era pra mim. Eu sei que não é bom guardar mágoa das pessoas, mas ela me maltratava muito. Ela me dava lavagem pra comer. Só me deixava comer comida que já tinha estragado. Já me fez comer comida com lacraia, bicho. – disse, com cara de nojo. Um dia o marido dela me deu uma comida sem ser estragada pra eu comer escondido. Ela descobriu e me bateu muito.

“Eu já passei fome, já apanhei calado”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Sua raiva rica era mais eloquente que seu vocabulário pobre. Suas palavras tentavam externar tudo que sentia, mas falhavam. Havia ali um limite de vocábulos, mas não de sentimentos. Eu não ousava interrompê-lo. O pai, alcoólatra, não o amava.


“Não sei se dá tristeza ou ódio, não conseguir lembrar de você sóbrio”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Passava por ele e fingia não o conhecer, apesar de viverem sob o mesmo teto. Eram constantes as brigas entre os dois, que chegavam à violência física.

Posso te falar uma coisa? Promete que vai ser assunto nosso?

Claro que pode falar.

Eu tô cansado dessa vida miserável. Não aguento mais não conseguir emprego, ser humilhado pelo meu pai.
Quando eu fico com raiva assim me passa muito pela cabeça de fazer merda.

Tipo o que? – Perguntei, mas já sabia a resposta. A intenção era que ele prosseguisse na fala, para chegarmos
juntos na conclusão que eu queria.

Ah. Me envolver. E depois que me envolver, mandar darem um jeito nele, pra minha vida deixar de ser esse
inferno.


“E eu ia pro crime, irmão
Se não fosse a confiança, do Pedro e do Felipão
Sem dinheiro, já dava pra vê o fim
Mas um me levou pra Liga e o outro fez as base pra mim”


O trecho ecoou na minha mente, e dessa vez eu não me contive.
A medicina que não está em protocolos batia à porta há alguns minutos, e, por fim, a deixei entrar.

Você conhece Emicida?

Não.


Posso te mostrar uma música?


Seu silêncio e seu olhar atento foram o sim. Coloco o vídeo de Ooorra no meu celular.
https://www.youtube.com/watch?v=p9JHGj_AhVE

“Direto vejo pai brincando com filho no parque, sinto inveja

Fico me perguntando tio o que que a vida fez comigo?
Sorrio pelos pivetes, acho da hora, olho pra baixo
tenho mó vontade de chorar, mas não consigo
Em segundos me vem vinte e poucos dia dos pais
‘Guarda presente fi, ele já não volta mais
Arrasta a cartolina com papel crepom
Amassa joga no lixo, porra, pior que esse aqui tava bom
Hoje, fico olhando na espreita
Vendo os moleque ai com pai mãe do lado e nem respeita
Devia ser por um dia o que eu sou há vinte anos
Pra vê se ‘cêis ia ‘tá na de trocar coroa pelos mano
Não sei se dá tristeza ou ódio, não conseguir lembrar de você sóbrio
Não vi as vadia nem seus aliado com o doutor no corredor
Implorando pelo o que há de mais sagrado!
Eu já passei fome, já apanhei calado
Já me senti sozinho, já perdi uns aliado
Eu já dormi na rua, fui desacreditado
Já vi a morte perto, um cano engatilhado
Eu já corri dos homem, bati nos arrombado
Quase morri de frio, eu já roubei mercado
Já invejei quem tem pai, já perdi um bocado
Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado!
E mesmo assim, tive que penar pra aprender
Que minha mãe não ia poder ‘tá lá pra me ver crescer
Tinha que trabalhar pra ter o que comer
Não ver seu filho aprender a falar, essa porra deve doer
Guentar madame mandar e ter que acatar
Aê ouvir teu bairro sussurrar (‘cê sabe, mãe solteira é o que?)
Ver seu tempo acabar, sua chance morrer
E no fim do mês ganhar, o que não da nem pra sobreviver
Me ensinou a não desistir rapaz
Miséria é foda, só que eu ainda sou bem mais
Maderite furado, cigarro, cheiro de pinga
Olha onde eu cresci
Onde nem erva-daninha vinga
Como cê vai sonhar com pódio?
Se amor é luxo e com a grana que nois tem só dá pra ter ódio
Coisas da vida, história repetida, algo assim
Com quatro anos eu já via o mundo inteiro contra mim
Eu já passei fome, já apanhei calado
Já me senti sozinho, já perdi uns aliado
Eu já dormi na rua, fui desacreditado
Já vi a morte perto, um cano engatilhado
Eu já corri dos homem, bati nos arrombado
Quase morri de frio, eu já roubei mercado
Já invejei quem tem pai, já perdi um bocado
Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado!
E o que eu sempre tive foi minha rima
O resto se foi, tipo trampo, amigo, mina
Eu nunca quis viver disso, nunca nem sonhei com isso
Eu tava acostumado: Rimar por hobby, trampar por uns trocado
E eu ia pro crime, irmão
Se não fosse a confiança, do Pedro e do Felipão
Sem dinheiro, já dava pra vê o fim
Mas um me levou pra Liga e o outro fez as base pra mim
Na fé, me pois no lugar onde vários quer nome
Foda-se todos, eu não quero mais passar fome
Amo isso, vou ser contribuinte
Assim ó escrever como quem vai morrer no dia seguinte
Vagabundo pirou nos flow a cada verso ouvia hoow!
Quando vi, o radinho tocou, gente querendo show
E agora, eu vou fazer virar com os meus
É real, o menino do morro virou Deus
Eu quase me perdi nas ilusão
Fui salvo, por ter sabedoria e pé no chão
Chamei uns de irmão, quando nóis era sócio
Pensei ter feito amigos, e tava fazendo negócios
Odeio vender algo que é tão meu
Mas se alguém vai ganhar grana com essa porra, então que seja eu!
E os que não quer dinheiro, mano é porque nunca viu
A barriga roncar mais alto do que eu te amo
Eu vi minha mãe, me jogar dentro do guarda-roupa trancado
Era o lugar mais seguro, quando a chuva levou os telhado
E dizia não se preocupa, chuva é normal
Já vi o pior disso aqui, ver o bom hoje é natural
E o justo, então antes de criticar quem ‘cê vê trampar
Cala boca e pensa em quantas história ‘cê tem pra contar
Falar que ao dizer a rua é nóiz pago de dono da rua
Desculpa, eu vivo isso e a incerteza é sua
Se você não se sente dono dela, xiu não fode!
E antes de escrever um Rap, me liga e pergunta se pode”

Quanta tensão pode caber dentro de um consultório?
Fingi estar conferindo se a receita estava certa, quando na verdade me congelava para não sentir tanto. Eu segurava o
choro, ele se entregava às lágrimas.
Conforme a música ia sendo dita, eu falava junto os trechos que lembravam as experiências que ele havia me
relatado alguns minutos antes. Repeti em voz alta quase a música toda, tamanho era o encaixe em suas vivências.
Ooorra é, para mim, um soco no estômago. Para ele, um grito de liberdade, é se fazer ser ouvido.

Desculpa, é que eu me emociono muito fácil. – disse, ao fim do vídeo.

Não tem motivo pra se desculpar. “Olha onde eu cresci, onde nem erva-daninha vinga”. Você reparou no que ele
disse? Você reparou na mensagem que ele mandou por essa música?

É. Não compensa muito ir pro crime, né.

Eu sei que dói a fome. Eu sei que dói a raiva que você passa com seu pai. Mas vai doer mais ainda ir por um
caminho que só tem duas saídas: a morte ou a prisão. Você acha que vai resolver a sua vida matar seu pai? Ter as mãos
sujas de sangue, carregar essa culpa pra sempre contigo.

Você tá certa – disse ele, reflexivo. Incrível, esse cara aí, em trinta minutos resumiu a minha vida.
Ele não tinha noção de quanto tempo durava um minuto. Os 4 minutos e 47 segundos do vídeo para ele foram trinta
minutos. Talvez tenha sido isso mesmo, aquele tempo tenha sido gigante por ter acolhido tantas reflexões e eu que não percebi.

Muito obrigada por me ouvir.
Talvez o único erro daquele garoto foi ter pensado que era ele quem mais tinha que agradecer por aquilo. Eu desfrutava de infinita gratidão pelos ensinamentos daquela consulta.

Eu que agradeço por você ter se permitido contar tanto do que sente. Não adianta eu curar o furúnculo se por
dentro tá doendo.

Tô até me sentindo mais leve. Muito obrigada mesmo.
Fazia muito tempo que eu tava guardando isso pra mim, mas não tinha pra quem contar. Eu sou muito… Como que
se diz? Solitário!
Prescrevo antibiótico: Cefalexina, 1 comprimido de 6 em 6 horas por 7 dias. Recomendo retorno em caso de piora. Digo que a porta do consultório está sempre aberta, mesmo que seja para desabafar.

A arte cura. A escuta cura. Talvez mais que Cefalexina.
Por que me dou ao trabalho de parir esta narrativa? Para lembrar que vale a pena a mania de ter fé na vida. Não
consigo enxergar num futuro breve o fim do genocídio no Complexo do Alemão. Não posso acabar com a guerra, mas
posso me valer da arte para entregar um soldado a menos para ela. A busca obstinada por um mundo melhor vale a
pena.


“É real, o menino do morro virou Deus”

Aguardo ansiosamente o momento em que esse verso vai se encaixar na vida dele.

O tempo é sua morada

por Arthur Fernandes

O Tempo é sua Morada [Vídeo] | Francisco el hombre, Frases inspiracionais,  Frases

Uma conversa sobre um tempo passado que não volta mais, um tempo futuro curtinho adiante e um tempo infinito entre esses dois. De tão maravilhoso, dizem que é chamado “presente”. Uma conversa entre uma professora de vida, que usou a própria morte como instrumento para ensinar ao jovem doutor como cuidar de gente. Aliás, “meu doutor não, porque tem idade de ser neto. Você é o meu amor!”.


“Trago no peito costuradas

Contas de memória fresca

Pão quentinho sobre a mesa

O cheiro sobe a escada

Acordo e não vejo nada

O tempo é sua morada”


– Já pensou como seria esse momento? Como você queria estar ou como queria que seu corpo estivesse?

– Ah, sim, né. A pessoa tem que morrer limpinha, bonitinha e cheirosinha. É o que que quero. Nada de grude e sujeira. A pessoa já vai morrer, e ainda ir fedendo, é demais, né não?!

“Trago na aba da minha saia

Costurada em zigue-zague

Café preto e um cigarro

Seu canto e gargalhada

Ecoando pela casa

O tempo é sua morada”

– E sobre sua família? Tem sido difícil para eles também, não é?

– Não deve ser fácil não…

– E você acha que eles têm condições de aceitar a sua morte?

– Oxe, mas se eu, que sou a vítima, tô aceitando, eles têm mais é que aceitar também! Nada disso de revolta. Anote aí: tem que mandar chamar tudinho e botar pra ficar aqui, segurando minha mão, me chamando de bonita e contando piada!

“Se o vento te levou, o tempo é sua morada

Se o vento te levou, o tempo é sua morada”

– Eu sei que hoje ainda não dá para ir para casa. Você gostaria de morrer lá?

– Essa Casinha aqui é boa, mas não tem nada melhor que a casinha da gente. Você entende, né? Ah, e quero morrer com meus bichinhos. Quando eu chegava em casa, meu periquito se animava, só faltava soltar um sorriso, de tanta alegria que tinha! Não o sei o que ele via… se era só eu mesma ou algo mais… mas bem, ele se alegrava e eu também!

“Não levo dor e nem tristeza

Ponho as cartas sobre a mesa

E a ferida cicatriza

Toda pena um dia passa

E o amor vira certeza

O tempo é sua morada”

– Está faltando alguém chegar para te ver?

– Tá sim! Minha norinha. Minhas filhas já estão por aqui, mas ainda falta ela, num sabe? A bichinha… é meu amor também.

– Entendi… e como você fica quando todas elas estão junto?

– Empanzinada de chamego!

“Se o vento te levou, o tempo é sua morada

Se o vento te levou, o tempo é sua morada”


– Ficou alguma coisa por dizer?

– Não… Eu já entendi tudinho que você tá querendo me mostrar com essa prosa. E é isso: eu nunca quis ficar pra semente mesmo! Todo mundo tem que fazer a passagem.

– E se pudesse imaginar sua passagem do seu jeito mais bonito, como seria?

– Você sabe que eu num sou boa com as palavras. Isso daí eu deixo pra você pensar! Mas ia ser feliz, né?

Para mim, seria assim:

O corpo, puído pelas agruras da vida, recuperando um pouquinho de energia e se renovando, das pontas dos pés aos últimos fios de cabelos brancos.

Os pulmões, combalidos pela fumaça dos anos, sacudindo a poeira e se enchendo de ar puro. 

O riso leve, fluindo solto, enchendo a casa e se misturando com os risos frouxos dos seus muito amados. Sua família. Seus amigos. Seus bichinhos. Até a sua passagem acontecer.

Sua celebração.

“Não vou esquecer

Não vou esquecer

Vou te celebrar

Não vou esquecer

Vou te celebrar

Não vou esquecer

Vou te celebrar”

Um xero!

Só uma dor de cabeça

por Rosiane Pinho

Ócio mais que perfeito: Cabeça cheia e coração vazio.

Ambulatório da saúde corporativa. Segunda-feira. 5 pacientes aguardando na recepção: 3 agendados e 2 encaixes.  

“Dra, você pode chamar a Paloma primeiro, o dela é um encaixe rápido. Está com dor de cabeça e não tomou nada, só queria um remédio”. 

– Pois não, Paloma. No que posso te ajudar hoje?

– Então, dra… Estou com dor de cabeça desde a manhã…

– Me conta mais dessa dor… Como ela é? E você já sentiu ela antes?

– Sinto minha cabeça toda pesada, aqui na parte da frente… Já tive algumas dores assim antes, mas fazia muito tempo que não sentia…

– E você acha que aconteceu algo de diferente que possa ter feito ela voltar hoje?

– Na verdade aconteceu, dra  (os olhos marejaram e veio um choro descontrolado). 

– Aqui tem alguns lenços se quiser, Paloma. Você gostaria de falar sobre isso?

– Sabe o que é… Perdi a virgindade há poucos meses com meu namorado e não estava me cuidando direito. Nesse mês minha menstruação atrasou – hoje faz cinco dias que está atrasada – aí fiz um teste de gravidez pela manhã e veio positivo. Estou muito nervosa, não sei o que fazer, nem por onde começar. Só sei que desde então minha cabeça está doendo assim. Fiquei com medo de tomar algo sem passar aqui porque pode fazer mal pro bebê, né? Eu quero cuidar dele, mas não sei nem quem procurar, que exames fazer. Tem tanta coisa na minha cabeça.

– E provavelmente esse monte de coisas na sua cabeça pode estar relacionado com essa dor, não acha? Em relação ao que fazer pra cuidar do bebê, pode ficar tranquila que estou aqui pra te ajudar. Se quiser pode acompanhar a gravidez aqui conosco e hoje mesmo já te dou a guia dos primeiros exames! Mas acho que não é um remédio que vai tirar essa dor daí – ele pode até ajudar, mas você precisa de um tempo pra respirar, processar a informação e conversar com seu namorado, né?!

– Pois é, dra… Não estou conseguindo nem me concentrar no trabalho desde que descobri.

– Então olha, depois da nossa consulta vou te acompanhar até a sala de medicação pra tomar um remédio e te dar o resto do dia de atestado, tá? Temos uma psicóloga aqui no ambulatório, e acho que seria importante você acompanhar com ela durante esse período também, caso você queira. 

– Nossa, dra… Não sabia que tinha tudo isso aqui dentro do meu trabalho. Se soubesse acho que a dor teria vindo até mais fraca (risos).

E assim um encaixe rápido para uma dor de cabeça virou a primeira consulta de um pré natal.

Ponta de faca

Por Aarão Carajás

Da vida não levo nada

Do jeito que a vida vem

Depois de fechar os olhos

Ninguém é ninguém

(Ponta de Faca)

Harmonia e Serenidade: O AMOR CURA

Durante a Residência de Medicina de Família e Comunidade rodiziávamos nos cuidados paliativos, foi lá que conheci dona Judite e seu amigo Zezo.

Judite estava em momentos finais de vida por conta de um câncer de pâncreas de evolução rápida que acabara por deixar seus familiares em estado de choque-paralisação-negação.

Ela possuía 2 filhos e 2 filhas, além de 1 neto e uma neta chamada Marcela (que era a pessoa que já havia saído desse momento de paralisação e que mais se comunicava comigo). Aos poucos fomos conhecendo os outros familiares através do genograma que Marcela ajudou a montar e para o qual recorríamos todos os dias como ferramenta para minimizar o estranhamento do primeiro contato e para favorecer uma possível criação de vínculo, o que não foi fácil de acontecer por conta do momento familiar para um “estranho” como eu querer fazer parte.

Com o genograma descobrimos que dona Judite foi uma batalhadora na vida. Criou os 4 filhos sozinha, era caminhoneira, depois motorista de empresa de refrigerante, e finalmente dona de pousada pequena, dessas sem muito luxo. Por também ter criado em algum momento os netos, esses tinham por ela um amor como que materno.

Dos filhos descobrimos que um havia morrido há 10 anos (o que provocou uma mudança importante no humor de dona Judite desde então) um havia ido embora para o Rio de Janeiro ainda novo, outra havia se mudado pra São Paulo ainda nova, e outra possuía o diagnóstico de esquizofrenia (Elisa, a única que morava com dona Judite). Nos chamou atenção o fato dessa primeira geração ter seguido caminhos tão distintos e resolvemos investir mais nisso, entendendo esse como mais um fator que dificultaria minha inserção nesse grupo.

A única filha presente no início de minhas abordagens era a de São Paulo. Dona Paula (que era mãe de Marcela), havia voltado temporariamente por conta da doença da mãe. Em nossa conversa inicial a senti bem fechada e respeitei isso, porém nesse primeiro momento ela me pediu uma coisa: que Elisa por conta da esquizofrenia não soubesse que a mãe estava morrendo. Me pediu justamente algo que em meu íntimo discordava por acreditar na possibilidade de pelo menos avaliar a chance de tentar. Se pelo entendimento de que o DSM (manual diagnóstico dos transtorno mentais) não define quem somos, quem seria eu para proibir tal direito?

Foi o que colocamos para a dona Paula na tentativa de mudar a perspectiva da situação. Nos responsabilizamos em dar a notícia para Elisa junto com a psicóloga do serviço e que haveria a necessidade do apoio familiar para que Elisa pudesse superar, independente do histórico de saúde mental. Pactuamos isso e senti meio como se estivesse em uma prova para ganhar a confiança dela.

Chamamos Elisa no outro dia e conversamos com ela, que reagiu com a tristeza natural, porém imbricada em uma serenidade que acalmou nossos corações. Após isso, Elisa se tornou presente e voluntária em participar dos cuidados terminais da mãe. Acalma sabermos que nunca será fácil dar essa notícia, e que não somos os culpados pela notícia que estamos dando.

O rio da vida seguiu seu curso até que dona Judite entrou em seus momentos finais de vida, que normalmente duram em torno de 48 horas. Nesse período a família oscilou muito nos pensamentos de negação, raiva, e pequenos flertes com aceitação. Parecia que uma âncora havia sido posta naquele leito, tal o peso daquilo que os familiares precisavam carregar.

No entanto, Judite não descansava. Oligoanúrica, sem se alimentar mais, creatinina elevada, de olhos fechados. 24,48,72,94 horas, e quando se vê (tal como Quintana), já havia se passado uma semana. Recorremos ao genograma revendo o possível imbróglio da primeira geração que a filha sempre se esquivava em conversar.

Sentamos para uma outra conversa em uma lanchonete, dessa vez só Paula e eu, abrimos o genograma na frente dela e colocamos nossas interrogações onde achávamos que só ela poderia ajudar, dizendo que aquele papel era um parco resumo da vida deles e o que ela achava da idéia de carregarmos dúvidas em nossa história. Ela então resolveu falar.

Disse que o irmão que foi para o Rio saiu de casa com 14 anos porque apanhava muito de Dona Judite, foi embora mal dizendo a mãe. Após 15 anos fez uma visita rápida a ela para depois desaparecer para sempre. Paula disse ainda que saiu de casa com 16 anos após ter apanhado muito também. Seguiu dizendo que a mãe a levou na consulta quando desconfiou da gravidez que gerou Marcela, e que quando o médico confirmou o fato, Judite se levantou e foi embora arrancando com o caminhão deixando Paula sozinha no consultório. O médico deu dinheiro para ela voltar para casa nesse dia. Após isso ela foi embora pra São Paulo tentar a vida. Conclui falando que a irmã tinha esquizofrenia por ter sofrido muito e nunca ter ido embora. Era um claro exemplo do duplo poder da morte que parece regar a estrada com terminalidade, mas também com reunião.

Indagamos por que Marcela gostava daquela senhora aparentemente tão dura e que tinha feito isso com os filhos, e ela me respondeu que com Marcela a criação foi outra, regada no amor e sem violência. Pedimos a opinião dela do por quê de tal mudança e ela concluiu que era pelo fato de Judite ter envelhecido. Devolvemos indagando se com o passar dos anos ficamos bons porque é um processo natural (não existem velhinhos maus) ou se é pelo fato de ressignificarmos nossas vidas tentando não cometer os mesmos erros do passado. Ela começou a chorar.

Sinto que o tempo que se seguiu após isso reestruturou aquela história, Paula contou sobre o medo de perder a mãe, que já a havia perdoado há muitos anos e que se estava ali era porque se importava muito com ela. Perguntei se Dona Judite sabia desse perdão, ela teve dúvidas. Pactuamos então de que nosso plano seria esse. Paula faria uma reflexão ao pé do ouvido de Judite, e que essa seria uma fala da família, de perdão do filho desaparecido, de assumir responsabilidade com Elisa e de perdão dela, Paula. Tudo pactuado, mas veio a dúvida: ela ainda teria a capacidade auditiva preservada naquele momento?

Nos dirigimos ao leito dela e perguntamos para os familiares que música Judite gostava de ouvir. A família disse: Ponta de Faca, do Zezo. Colocamos ela no ouvido da senhora e de seu olho escorreu uma lágrima. Filetes do rio que por ali margeava o momento.  Canal aberto para a chance.

O quanto de intensidade as expressões sopradas ao ouvido de Judite tiveram nunca saberemos, mas se a palavra tem o poder de libertar, aquelas trouxeram a alforria do espírito. Judite partiu poucos minutos depois de ter ouvido as declarações.

 Quando nos demos conta, vimos que a âncora não estava mais ali. Havia levantado voo, sendo carregada por balões.

Ponta de Faca – Música de Zezo

Eu queria saber o que faço pra agradar o mundo,
se é preciso da murro em ponta de faca ou não,
se não devo parar os meus passos na beira do abismo,
para ver uma estátua na praça ele era tão bom,
não queria saber dessa dor que eu sinto por ela,
porque sei que ela vive enganada nos braços de alguém,
quem me ver e nem pensa que um dia pulei a janela,
e andei apressado pensando que logo ele vem.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Se me vejo parado pensando nas coisas do mundo,
eu as vezes duvido que o povo tem a voz de Deus,
é que o homem se sente mais realizado,
ao invés de dizer parabéns ele fala cuidado.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Hoje vacinamos

por Eberhart Portocarrero Gross

Notícias de coronavac – Revide

Hoje vacinamos

O tio de um amigo de escola
Um senhor tatuado que não falava português
Alguém que me perguntou se eu era parente de uma atriz
A mãe de uma moça que, já saindo, se virou e gritou a plenos pulmões “VIVA O SUS, VIVA O SUS!!”
Casais juntos em tudo, até no dia de tomar a vacina
A primeira vacina da vida (de mais de uma pessoa!)
No braço esquerdo por causa do câncer no seio direito
Pode beber hoje?
Pode malhar hoje?
Gente que filmou para mostrar pros filhos
Gente que trouxe os filhos para filmar
Gente que chorou de nervoso
Gente que chorou de emoção
Cadeirantes
Confiantes
Desconfiados
Calados
Falantes
Demenciados
Sisudos
Sorridentes
Um pedreiro
Um procurador da República
Alguém que pediu pra levar o frasco e guardar para a posteridade (mas não podia)
Muita gente agradecida

Foi bem legal.

“VIVA O SUS, VIVA O SUS!!”

VAI FICAR TUDO BEM?

Por Arthur Fernandes

Brasil registra 90.504 novos casos de Covid em 24 horas, no dia em que  supera marca de 300 mil mortos | Coronavírus | G1

A porta de um consultório é aberta com força. Uma enfermeira só coloca a cabeça e grita “chegou um paciente saturando 36%, corre!!!”.
Poderia ter acontecido em qualquer pronto-socorro, em qualquer lugar, por qualquer doença. Mas aconteceu numa Unidade Básica de Saúde, no pior momento da segunda onda da pandemia de Covid-19 em Brasília, numa tarde de quinta-feira qualquer.

O relógio marcava pouco após as 13h, eu estava aguardando a triagem para atendimento de dois bebês com síndromes, cujas consultas foram marcadas previamente, além de uma mulher jovem para inserir DIU. Como eu disse, era uma quinta-feira qualquer.
Até essa porta abrir.
Entre a última frase da enfermeira e o fechar da porta, eu já estava do outro lado, correndo em direção à sala de sintomáticos respiratórios. O paciente estava na casa dos 30 anos, obeso, sem outras doenças. Havia apresentado febre há uma semana e, por orientação de um farmacêutico, estava usando o “Kit Covid” há cinco dias: ivermectina, azitromicina, hidroxicloroquina, zinco, vitamina D, vitamina C e dexametasona. Não procurou atendimento por equipes de saúde.
Nos últimos dias, apresentou piora cansaço e, naquele dia, piorou mais ainda. Chegou de carro, consciente, com fala entrecortada, acompanhado da família.
“Era só uma falta de ar… mas ficou ruim demais”, dizia.

Nessa hora, apertei o botão de emergência:

  • Evacuar a UBS: a redução de danos possível, considerando o alto risco de contaminação pelo paciente em relação aos demais que apenas aguardavam suas consultas;
  • Paramentação;
  • Destacar enfermeira e técnica em enfermagem devidamente paramentadas para auxiliar;
  • Acomodar familiares: desesperados, irmão e esposa entenderam que a situação era grave e começaram a acionar outras pessoas, como a mãe do paciente, uma senhora com doença cardíaca, que também se desesperou ao telefone;
  • Examinar o paciente e lhe explicar a situação: choroso, entendendo o risco que corria, pediu para se despedir da esposa, antes de ser levado ao hospital. Não entendia bem o que significava intubação orotraqueal, mas sabia que poderia dormir e não mais acordar;
  • Obter mais informações da família: não havia muito mais a acrescentar pois, infelizmente, foi uma evolução catastrófica de um caso que não só passou antes pelo sistema de saúde, como recebeu medicamentos sem indicação;
  • Instalar oxigenoterapia: a saturação não melhorava com cateter nasal e, com máscara, chegou a um máximo de 85%, ainda baixa demais;
  • Acionar o hospital de referência e o SAMU: por sorte, havia uma ambulância disponível nas proximidades, que chegou rápido;
  • Preencher burocracias para o transporte;
  • Notificar o caso e coletar exame do paciente: pelo mínimo direito ao diagnóstico, diante do caos;

Enfim, dentro da ambulância, partimos.
No caminho, tive um tempinho para lhe explicar quais seriam os próximos passos: admissão, novos exames, transferência para UTI e provável intubação. Ele respirava discretamente melhor e, ao mexer a cabeça, indicando entendimento do que ouvia, por vezes piscava os olhos, deixando escapar algumas lágrimas.
Chegando ao destino, após passar seu caso para a equipe, despeço-me.
“Você mora no meu território. É uma pena não termos nos conhecido antes mas, se Deus quiser, você vai sair dessa e ainda teremos uma consulta “normal”, combinado?”
“Combinado. Ô, doutor, muito obrigado, mas… o senhor acha mesmo que vai ficar tudo bem?”, ele pergunta, apertando minha mão, dentro da área vermelha, com os pacientes em estado mais grave por Covid-19.
“A gente vai acreditar nisso juntos”, foi o possível a dizer.
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Do lado de fora do pronto-socorro, enquanto aguardava alguém da equipe me buscar de volta para a unidade, puxei conversar com o vigilante.
“A coisa tá feia, hein?”, disse.
“Moço, o senhor num tem noção. Esse pronto-socorro só falta explodir de gente. E o povo ainda tá aí no meio da rua, quando devia tá em casa”, ele responde.
“Pois é… e quando adoecem, infelizmente ainda encontram quem passa tratamentos sem comprovação científica”.
“O senhor tá falando do kit do corona, né? Conheço médicos aqui que nem o senhor, que também entende que não serve. Mas passa na televisão, né? O povo escuta”.
“Passa, e o pior, saindo da boca do presidente”.
“Fala não, doutor… eu votei nele, achava que não tinha outra opção, mas tô vendo que fiz besteira. Em 2022 não vou repetir isso”.
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Ah e, obviamente, retornei à UBS: havia um paciente com diabetes e uma gestante de alto risco para atender. Com Covid, sem Covid, apesar do Covid, a vida continua.