Questão de Ética

Artur Mendes

Os pacientes sempre perguntam se conheço algum médico dentre os que já as atenderam. Contudo, trabalhando em uma cidade maior, é quase impossível conhecer todo mundo. Eu me considero uma pessoa “corrida” (ou “rodada”, segundo as más línguas), mas mesmo assim raramente sei de quem os pacientes estão falando.
Apesar dessa dificuldade, fui aprendendo que as pessoas ficam felizes quando dizemos que conhecemos alguém.
Por esta razão, seguindo noções de bom político mineiro, me acostumei a sempre dizer que sei de quem falam. Não importa a especialidade ou o tempo de formado. Eu sempre digo que conheço. As pessoas ficam satisfeitas, fazem aquela cara de quem está gostando da consulta e que terão garantida a longitudinalidade de seu cuidado.
O problema é que fui me costumando demais com esse hábito. O excesso de confiança e os sorrisos dos pacientes me fizeram ultrapassar a perigosa linha da prudência. Porque agora, além de dizer que conheço, dei de tecer elogios ao desconhecido.
“Dr. Roque? Excelente pessoa!”
“Dra. Silvia? Não é menos que uma referência para as novas gerações””
“Se eu soube que o Dr. Antônio foi morar no exterior? Ele me ligou para pedir opinião sobre seus planos!”
E eu ia por aí… Até que, no dizer dos antigos, a porca torceu o rabo…
Era um dia qualquer e, depois da menção do nome de antigo ortopedista que o teria operado, paciente me pergunta se sei quem é. Não tive dúvidas e iniciei:
_ Ótimo profissional! Conheço demais!
_ Nossa, Dr., que bom que o senhor conhece… eu gosto muito dele…
Aí eu me animei…
_ Todo mundo gosta! É gente finíssima
_ Sim, muito divertido!
_ Com certeza! A alegria dos encontros médicos!
_ O fato de eu estar andando eu devo a ele…
_ Com certeza o senhor esteve em excelentes mãos!
_ … só não entendi porque ele teve o diploma cassado…
_ …
Pôxa, mas o cara tinha de ter o diploma cassado?!?
_ O senhor soube o que aconteceu?
E eu, quase pego na mentira, pensando em como me sair dessa:
_ Bom… o senhor sabe… foi algo bobo… mas não posso comentar à respeito… questão de ética…
E o paciente, tomado pela seriedade do termo, concordou:
_ Verdade, Dr.! Desculpa, eu não estava querendo que o senhor revelasse nenhum segredo profissional não…
Dei de ombros e fiz com as mãos abanando um gesto como quem diz “não tem problema, não tem problema”.
Terminamos a consulta, demos as mãos e ele foi embora. No seu caminhar eu tive a certeza de ter passado uma imagem sóbria e discreta. Tivesse virado de costas, contudo, teria notado minha face vermelha de vergonha.
Da próxima vez, vou tentar “conhecer” menos gente.

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