Raciocínio clínico

por Antônio Modesto

Homem, idoso, pernas cruzadas

– Oi, eu sou Antônio, sou médico de família, supervisor do Dr. Fulano. Hoje ele tá meio enrolado, tudo bem você passar comigo?

– Tudo.

Polo surrada enfiada na bermuda mais surrada. Sinais de tabagismo. O cinto é novo.

# Magro demais?

# Abordar tabagismo

– Que que eu posso te ajudar hoje?

– Doutor, eu tenho 83 anos,

Mais velho que o meu pai

Meu pai morreu

– Sou hipertenso,

# Abordar hipertensão

– Vim aqui fazer uns exames pra ver como eu tô.

# Checar laboratório HAS

# Prevenção quaternária

# Demanda oculta?

– Mais alguma coisa?

– Ultimamente eu tô tendo tontura.

Odeio tontura. Encaminho logo?

# Síncope? Vertigem?

# HAS + idade + tabagista. Isquemia?

– Mais alguma coisa?

– Não.

– Então você tem pressão alta, veio acompanhar, talvez fazer uns exames, e tem tido tontura.

– Isso.

Conversa sobre a tontura

# Não é síncope. Não é vertigem. Não é isquêmico.

Exame físico. Pressão pouco alterada

# Não é neurológico. Parece não ser cardíaco.

– E quando é que te dá essa tontura?

– Normalmente de manhã, quando eu tô indo pro trabalho.

– Você acorda, se arruma, toma café, e vai pro trabalho.

– Não, eu não tomo café.

– Ah, você não toma café?

– Não.

– Então você sai de casa em jejum.

– Saio.

Silêncio

– A não ser que eu teja ficando tonto por que eu tô saindo sem comer…

Óbvio, né

– É, você sai em jejum, algumas pessoas ficam tontas quando saem de casa sem comer nada.

– É…

– Mas por que você não come nada antes de sair de casa?

– Porque doutor… Esses últimos três meses eu tô morando com a minha irmã…

# Privação financeira? Divórcio?

– E eu não quero dar trabalho.

– Mas por que, grana?

– Não, eu tô na casa dela, e não quero dar trabalho, acordar ela…

– Mas você não pode preparar o café?

Peguei pesado?

– Posso, mas vai fazer barulho, a casa é pequena… Mas eu posso comer fora de casa…

Conversa sobre como pretende comer cedo pra não ter tontura de fome

– E por que você tem morado com a sua irmã?

Vai dar merda

– Doutor, eu

Meteu a mão nos olhos e começou a soluçar

Fodeu

# Mantenha a calma.

# Cale-se. Aguarde.

Pego ou não pego nele? Melhor não

O homem para de soluçar e conta que está separado da esposa, com quem viveu dezenas de anos até dois ou três meses atrás. Não entendi, após algumas tentativas, por que se separaram. Parece que ele gosta muito dela, quer voltar, mas ela o recebe na porta de casa quando a visita.

– E você acha que ela tá com outra pessoa?

– Não, ela só não quer que eu entre em casa.

Conversa sobre os remédios da pressão.

Prescrevo, peço exames, programo retorno.

Então o senhor volta com o Dr. Fulano, dia tal, hora tal. Eu devo estar por aqui, se ele precisar de alguma coisa, vai conversar comigo.

Cumprimento perto da porta. Fecho a porta. Me jogo na cadeira.

# Tontura (fome) => vai comer de manhã. Orientações.

# Divórcio => atentar para depressão.

# HAS => Medidas de PA. Colher laboratório. Retornar em um mês. Considerar aumentar amlodipino.

7 comentários sobre “Raciocínio clínico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s