Maria Padilha

por Rafaella Brugalli

Oração de Maria Padilha | Peça a Pomba Gira Trazer o Amor de Volta

Por fora avistamos uma casa de madeira com uma placa indicando o local “Cartas, bruxaria, etc”. Ana Beatriz nos recebeu vestida com uma saia exuberante, toda de roxo e bem maquiada. Sentou-nos na sala e nos ofereceu água, e foi, sem muita explicação, preparar outro ambiente da casa para receber a santa. Aguardamos ansiosas por alguma explicação de como seria o encontro enquanto observávamos o ambiente decorado com fotos da família e imagens exotéricas. Em seguida, Ana Beatriz sentou conosco na sala e conversamos com ela sobre seus sentimentos em relação ao tratamento do HIV. Ela contou que descobriu o HIV durante uma internação por pneumonia em 2005 e que a médica contou-lhe o diagnóstico de forma brusca, o que lhe causou sentimentos de medo e incerteza. Acreditou que não viveria por muito tempo e que não poderia ter outros relacionamentos afetivos se desejasse. Teve medo da reação de seu companheiro, mas este se demonstrou compreensivo e, após descobrir que também era portador do vírus, eles fizeram um pacto de que um cuidaria do outro até morrer. Todo esse sentimento se imprime no corpo de Ana Beatriz como enjoo e mal estar diariamente no momento que precisa tomar a medicação. Nós já havíamos trocado os antirretrovirais para alguns que não tem como efeito colateral o enjoo há 1 mês e meio e, de fato, ela conta que no início sentiu bem menos enjoo, mas que, nas últimas semanas, aquela sensação havia voltado. Ela admite que aquilo era “psicológico” e que ela tinha uma “negação” em relação à doença e aos remédios, palavras dela. Refere que ela quer se tratar pois tem motivos para viver: os 3 netos, principalmente o menor de 1 ano, os filhos, seus “filhos” de santo e sua religião. Perguntamos como ela acha que a Maria Padilha poderia lhe ajudar e ela responde que a Maria Padilha poderia tirar essa sensação ruim que ela tem ao tomar os remédios, pois ela tem poder para manipular isso. Inclusive cita que algumas vezes pede em pensamento esse auxílio e nessas vezes sente-se melhor para tomar a medicação. Ela explica que recebe 3 santas: a rainha, a cigana e a Maria Padilha e que escolheu a Maria Padilha por ser uma entidade determinada, que faz acontecer o que promete.

Terminada essa conversa inicial, Ana Beatriz foi para o outro cômodo e chamou seu marido e sua irmã para que eles chamassem a santa. Escutamos lá de fora um sino tocar enquanto entoavam uma música com um embalo bonito:

“Abre essa cova / Quero ver tremer / Abre essa cova quero ver balancear / Maria Padilha das almas / O cemitério é o seu lugar / É na Calunga que a Padilha mora / É na Calunga que a Padilha vai girar“

Maria Padilha chegou rindo e disse que acabava de vir de um enterro. Logo fomos convidadas a entrar no cômodo cheio de adornos religiosos, velas, panos e percebi que havia pipoca em uma vasilha no chão também. Padilha nos convidou a sentar, a irmã de Ana Beatriz se retirou dizendo que depois gostaria de falar com ela e o esposo de Ana Beatriz permaneceu no ambiente.

Então disse: “Porque me chamaram aqui, alguém morreu? Vocês sabem que eu gosto de vir de noite, só venho quando tem sol quando tem algum enterro”.

Eu – residente de Medicina de Família e Comunidade – disse: “Muito obrigada, Maria Padilha, por ter vindo no sol nessa ocasião especial”.

Retrucou com intensidade mirando nos meus olhos: “Muito especial! Pois se trata de uma vida! A senhora é médica do corpo e firmou um compromisso com a vida, de salvar as pessoas, não é?. Eu tenho um compromisso com a morte. Mas não se assuste, pois agora estamos falando da vida da pessoa que é meu cavalo*. Ela é um bom cavalo, gosto de trabalhar com ela, cumpre as coisas direitinho. Por isso, eu ajudo ela, tanto que ela está viva até hoje. Eu já disse que ela deve tomar os remédios, mas a minha nega é fresca, que tanto que ela sente que não pode tomar eles?”

Eu: “Que bom, Maria Padilha, eu acredito que podemos trabalhar em conjunto a parte espiritual e a parte física”

Ela concordou e discorreu alguns minutos de forma um pouco confusa sobre outros casos em que ela ajuda as pessoas que pedem seu auxílio e outros que ela decide não ajudar por serem pedidos que fariam mal a alguém ou que ela já sabe que o desfecho da situação seria imutável. Disse que ela não é nem boa nem má, que ela sabia viver a vida. Falou que tem sete homens no plano espiritual e que não acredita no amor pois morreu esfaqueada (talvez relacionado a um relacionamento afetivo) e que não sabia o que era ter filhos, pois não havia sido mãe. Falou também algo sobre evolução e reencarnação.

Retomando o propósito da reunião, eu disse: “Nós viemos aqui hoje com o propósito de ajudar a Ana Beatriz, pois nós acreditamos que tem outras possibilidades aqui na terra, como as medicações, as consultas e exames, que ela poderia aproveitar melhor”

Karen (aluna de Medicina) complementou: “A Ana Beatriz escolheu a senhora pois confia em ti, que a senhora pode ajudar ela. Ela conta que tem uma sensação muito desagradável na hora em que precisa tomar as medicações e que talvez a senhora pudesse tirar isso dela.”

Maria Padilha, olhando novamente para mim com emoção, diz: “A Ana Beatriz se sentiu envergonhada quando a senhora disse que viria aqui conversar comigo. Mas a senhora fez uma coisa que poucas pessoas fazem: a senhora se importou, disse que vinha e veio mesmo. Tu e as meninas vieram (se referindo à Melissa- Terapeuta Ocupacional-  e à Karen). Isso tem um valor muito grande, não aqui na terra, pois não espere reconhecimento na terra. Isso tem um valor muito grande para nós no plano espiritual. Você criou um vínculo, uma aproximação muito importante. Por isso eu vou fazer um acordo contigo: eu vou tirar da Ana Beatriz a sensação ruim que ela tem ao tomar as medicações e também vou te proteger, abrir teus caminhos na vida, tu tens muito para crescer; e vou proteger também vocês (Melissa e Karen).”

Esse momento foi emocionante para todas nós que estávamos ali. Maria Padilha, de quem eu tinha receio o que iria falar, se mostrou alguém muito sensível.

Agradeci e disse que a minha maior felicidade seria ver dona Ana Beatriz bem. Maria Padilha disse novamente que iria trabalhar para essa causa, pois ela sabe que Ana Beatriz quer viver sim e por isso vale a pena. Essa mudança não aconteceria de uma hora para a outra, mas ela iria trabalhar para que acontecesse. Relembrou que a Ana Beatriz tem sua vontade própria e que deve fazer sua parte.

Eu: “Que bom, Maria Padilha, fico feliz que podemos reunir nossas forças para isso”

Maria Padilha e o marido de Rosângela disseram que Ana Beatriz faz tudo pelos outros, ajuda muita gente e que Ana Beatriz agora seria ajudada pela Maria Padilha e por nós, “burros da terra” (médicos). Se explicando, disse que de burros nada temos, mas que é assim que eles se referem a nós. Ambos contaram sobre outros casos de pessoas que ela havia ajudado, inclusive o próprio marido de Ana Beatriz quando este estava “desenganado” e Maria Padilha também falou que a pessoa ao receber ajuda deve ser grata. Inesperadamente, ela disse: “E tu, homem, tu não toma os remédios direitos que eu sei! To mentindo ou não? Eu vou fazer um acordo contigo: tu vai tomar os teus remédios e tu vai dar para a Ana Beatriz os dela!”

Marido de Ana Beatriz responde: “É… depois eu falo com ela.”

Maria Padilha retrucou apontando o dedo na face dele: “Com ela não! Teu compromisso é comigo! Tu vai tomar teus remédios junto com ela, vai ajudar ela!”

Ele aceitou e assim foi-se encerrando este momento único na vida desta residente de Medicina de Família e Comunidade, da Terapeuta Ocupacional e da Estudante de Medicina. Antes de sairmos, não poderia faltar o comentário de Maria Padilha sobre como as fêmeas devem aprender a serem femininas, se embelezarem, saber agradar o macho e curtir a vida (e que ela também fazia os machos ficarem brocha se merecessem). Nos perguntou: “E para a vida de vocês, meninas, eu posso fazer alguma coisa? Como andam os machos?”. Agradecemos mas dissemos que estava tudo bem conosco. Ah, toda essa conversa ocorreu enquanto Maria Padilha bebia cachaça e fumando um cigarro atrás do outro. Ela até se explicou, dizendo que estava fumando tanto pois não vinha tanto para a terra e tinha que aproveitar.

*A terminologia “cavalo” é uma denominação cultural que faz referência a Ana Beatriz, que serve de instrumento para Maria Padilha se manifestar

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