Das dores

por Antônio Rialtoam*

Maria, 50 anos, diarista. Me chega ao ambulatório, na primeira consulta, referindo forte dor lombar. Faço todas aquelas perguntas e exames que a semiologia orienta. Sinal de Giordano positivo na lombar esquerda. Ela afirma que é uma dor muito parecida com a que sentia quando teve cálculo no rim direito. Através do método clínico centrado na pessoa, vou conhecendo Maria e como essa dor afeta sua rotina. Os possíveis diagnósticos foram se desenhando à nossa frente enquanto eu a convidava a manejar seus próprios problemas a fim de buscar a melhor terapêutica. Não referiu mais nada, estava tudo bem em casa. Foram prescritos anti-inflamatório e analgésico, solicitados exame de imagem, e o seu retorno para acompanhamento.

Na segunda consulta, Maria tratou de outra dor. Criou seus quatro filhos com muito suor e lágrima. Proporcionou a cada um, alternadamente, estudar por dois anos em escola particular: era o único meio. Em meio à tristeza aparente, abriu um sorriso orgulhoso quando disse que todos os filhos tiveram lápis da Faber Castell. “Lápis de rico, doutor!” – salientou Maria. Há dois anos, perdeu seu único filho homem. Estava envolvido com drogas, ela sabia. Esteve preso por um ano. Nesse período, ela pagava setecentos reais mensais ao crime organizado para protegerem seu filho. Teve que vender a casa em que morava para custear tanta despesa. Maria emagreceu, trabalhava feito doida. Admite que muito dela morreu com a partida do filho.

Hoje, trabalha diuturnamente para esquecer um pouco essa dor que a sufoca quando a encontra parada e sozinha. Nessa hora, me lembrei de Cora Coralina e pensei que não há outro remédio senão o colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta, o silêncio que respeita, a lágrima que corre, o olhar que acaricia e o amor que promove. Ajudá-la a buscar novos motivos que reacendam a chama de vida quase apagada em seu peito talvez seja a melhor forma de promover o cuidado que ela precisa.

– Posso continuar com seu zap, doutor?

– Mas é claro, Maria! Me chame quando precisar.

– Eba! Ganhei um amigo.

 

* Antônio é estudante do terceiro ano de medicina, membro-fundador da Liga Acadêmica de Medicina de Família e Comunidade da Paraíba, e se diz futuro MFC. 

De 8 a 80

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por Luís Vilela

Dia de plantão noturno em pronto socorro, já esperamos aquele inferno de sempre que a gente se habitua. Para minha surpresa estava tranquilo, apenas uma hora e meia de espera para o baixo risco (ficha verde). Tinha muitos pacientes internados, mas com aquela equipe, estava tudo dominado.

Primeiro paciente: senhor João 58 anos, com queixa de lombalgia (dor nas costas) mecânica. Conversa vai e vem, e ele me pergunta:

– O Sr. me parece familiar. Por acaso não estava aqui há 3 anos?
– Sim. Eu não lembro, é muito paciente que a gente atende…
– Como é seu nome?
– Luís.
– Então é o Sr. mesmo que salvou minha vida e eu nunca agradeci. Era de madrugada, eu estava com dor no peito, fui direto para Emergência você chegou, olhou o eletro, e falou “tá com um infarto dos brutos”. Aí veio a ambulância e me levou para o hospital. Depois do cateterismo e ponte de safena, estou melhor. O cirurgião que me operou disse que só estou vivo porque fiz tudo o que precisava muito rapidamente.
– Fico feliz Sr. João. Muito mesmo. Com esse seu histórico, é importante saber que alguns medicamentos aumentam o risco cardiovascular, entre eles o Ibuprofeno e o diclofenaco. Vou prescrever outras opções.
(https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2017/03/28/ibuprofeno-e-diclofenaco-aumentam-chances-de-infarto-diz-pesquisa.htm)

Tudo seguia bem, e por volta das 22:00 fui jantar. Quando estava passando pela hidratação, fui abordado por uma mãe desesperada em prantos. “Moço salva a minha filha!” e apontou para sala de Emergência, enquanto rezava.

Quando cheguei, vi uma menina de 20 e poucos anos no que a gente chama de pré- parada: inconsciente, pele fria, já monitorada, presenciamos a linha reta no monitor, e iniciamos a massagem cardíaca prontamente.

O colega que atendia o caso desde o inicio conduziu o protocolo da parada. Realizo a intubação orotraqueal. Em pouco tempo, todos os plantonistas estavam ali para ajudar. Uma amiga cardiologista foi conversar com a família para saber o histórico e tentar nos ajudar a saber a causa da parada cardiovascular. Ela estava midriática (com pupilas dilatadas) e teve incontinência urinária e fecal. Será uma causa central (AVE/derrame).

Me ofereci para substituir o enfermeiro na massagem cardíaca. E no final do meu ciclo, ela voltou: pulso presente, forte. Ritmo no monitor flutter atrial e bloqueio de ramo direito (BRD), chega a 100 de frequência cardíaca, pressão inaudível. Nega uso de drogas, exceto anticoncepcional oral, tinha queixa de dores nas pernas e ansiedade.

Linha reta novamente. Reinicia-se a massagem. Todos pensamos em tromboembolismo pulmonar (TEP). As panturrilhas não estavam empastadas. A suposição era que um trombo nas pernas tinha se deslocado até o pulmão, o que levou a hipoxemia (oxigênio baixo no sangue), dor no peito e a parada, o que seria compatível com uma sobrecarga atrial pelo TEP e com o ritmo de flutter atrial/BRD. Ela voltou novamente. Pulso presente.

O telefone toca: novas urgências chegando, e o povo já reclamava da demora no atendimento. Fui atender os casos. Quatro fichas amarelas (prioridade moderada). Atendi todas rapidamente. A gente fica adrenalizado.

Depois de um tempo, atendo a demanda da porta, aparecem meus colegas de trabalho. Todos cabisbaixos. Sentimento de tristeza. Escuto no consultório ao lado o choro da mãe que há pouco rezava, e de seus familiares.
Nessa altura já perdera a fome, mas tinha que comer alguma coisa porque a noite ia ser longa.

Lembrança: sendo criança outra vez

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por Lucas Gaspar Ribeiro

Tenho um paciente que é carpinteiro, e em todas as consultas, a gente conversa sobre o que ele estava fazendo com a madeira que ele tinha.

Uma vez era uma mesa, outras vezes cadeiras, armários, dentre outras coisas.

Na última consulta em janeiro, ele me falou que estava fazendo carrinhos para as crianças, ele vendia por um preço baixo, para as crianças brincarem. Fiquei pensando que gesto mais interessante que ele está fazendo, oferecendo seu tempo para que as crianças continuem crianças.

Ontem ele voltou em uma consulta, conversamos mais sobre isso, e ele me contou que também está fazendo aviões da esquadrilha da fumaça, que estava até vendendo em uma feira de artesanato suas coisas. E o quanto isso era importante para que ele fosse uma pessoa feliz.

Ontem após a consulta ele fez mais uma criança feliz, eu.

Satisfação

por Monica Correia Lima

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Se existem momentos de grande prazer em nossa profissão é quando recebemos o feedback dos nossos pacientes, mas não um qualquer do tipo: gosto muito da senhora, ou: a senhora é um anjo, ou: a senhora não vai embora não né!! Mas daquele retorno do paciente que nos diz que estamos fazendo a coisa certa, no lugar certo e na hora certa e que se traduz em confiança.

Entra o senhor Valdemar louco de faceiro, sorriso nos lábios, cheio de história pra contar e de amor pra dar. Conta que se separou da esposa, e não estava triste não, ele estava era feliz, me livrei de uma traidora doutora, levou quase todo o meu dinheiro, até de um seguro que eu tinha e lá vem conversa. Detalhes aqui, detalhes ali, e eu encafifada para entender onde ia dar aquela alegria toda.

Mas então senhor Valdemar em que posso ajuda-lo?

Pois bem doutora – falou o saltitante ancião de 72 anos – é que eu sempre fui um homem de natureza muito forte, nunca neguei fogo né, sempre muito ativo. Atualmente tenho me sentido um pouco prejudicado mas queria aquela potência de novo, sabe como é doutora, se tem alguém com quem posso contar é com a senhora, posso contar tudo né, confio muito na doutora. Eu queria aquele remedinho.

Pois bem seu Valdemar, o senhor é hipertenso né, temos que ir com cuidado, seus exames estavam bons mas precisamos repetir o eletrocardiograma que está na hora, sente alguma coisa? E vai a parte clínica, examina, pergunta…

Enfim seu Valdemar, vamos fazer o seguinte, assim que os exames estiverem prontos vamos conversar, assim eu prescrevo para o senhor com segurança de saber que o senhor não vai capotar em cima da namorada. Está bem?

Com certeza doutora, com certeza, confio na senhora, e repete que sabe que pode contar comigo.

E lá se vai o saltitante idoso, tem coisa melhor?

Vó Tia Monica – ajudando os idosos saltitantes de natureza forte a cada dia.

Coroadinho

comunidade
Hoje foi meu último dia em São Luis, e trabalhando no Coroadinho, segundo o IBGE, a quarta maior favela do Brasil, com 54mil pessoas.
Quando a gente quer um motivo para ficar angustiado e sentir pressa, sempre encontra. Há quem viva assim. Eu vivi esse ano no Maranhão e até sou tranquilona. Mas esses dias eram a véspera do término de contrato, de vencimentos, de achar um mecânico confiável, uma transportadora, e não perder a chegada daquelas castanhas de caju torradas e sem sal pra levar à São Paulo. Eu tava impaciente, querendo sentir urgência.
Ela deve ter percebido. Na dita favela do Coroadinho. Comunidade. Ela, minha paciente, tem 57 anos, é mulher, 3 partos vaginais espontâneos, trabalhos informais, diabetes gestacional, Maranhão na era Sarney, sobe e desce ladeira do morro São Sebastião, netos, ex-maridos, já jogou tarrafa. Bumba boi demais, Arremaria! Foi buscar a caixa de som que o vizinho furtou e trocou por pedra. Subiu na biqueira com os moleque, voltou com a caixa.
Água de berinjela, arroz de cuxá, cozidão com osso, vinagreira. O que essa mulher não sabe?!
É de gêmeos também, eu reparo mas não digo.
Carimbei a receita da Farmácia Popular, ela fez que ia mas não foi, na cadeira ficou, e lançou:
-Tu é bem assim do tipo que deixa saudade, Dra Giulia.
– Vixi!
-É.
-Ta com saudade? Eu disse que vou embora?
– Não. Você vai, Dra? É o seu jeito. Dá saudade.
*
Deixar saudade é um privilégio.
Eu tenho saudade do cheiro do pescoço do meu irmão, das mãos gordas da Vó Niria. Do Nono Maximino. De conversar com o Lucas, contar minhas histórias para a Tia Rita e a Tia Ana. Ser abraçada pela Laura, dividir um paiêro e segredos com a Bruna, um pandeiro com o Rubinho, uma casa com a Vi, e uma cerveja de cúmplices com a Amanda.
Eu não tenho nenhuma saudade da escola, das angústias que se tem aos 14, reverberam até os 24, e agora desapareceram. Eu tenho saudade do que me traz prazer, conforto, das coisas bonitas que são boa parte da mulher que lutei para ser.
Deixar saudade chega a ser um fardo, como o é possuir alguns privilégios.
Eu não disse à paciente que a recíproca é verdadeira, pois toda vez que isso é dito soa a mim como ouvir “eu também” após dizer “eu te amo”.
Parece que amar também não funciona. Amar, sim. É coisa minha.
Na Comunidade do Coroadinho e na Cidade Operária deu para amar, sim.
E conhecer a dureza e a privação que a Academia discute, e a Sociologia explica, e que a grande maioria das pessoas com quem convivo e convivi fora do trabalho, e desses teóricos todos, não conhecerá. Deu para duvidar da existência de Deus, e ter uma certeza revoltada de que a vida das pessoas pode ser miseravelmente desesperadora e superexplorada.
Tem tanto Amor na vizinha que pega as criança pra criá. Hiperglicemia e diabetes depois do abandono e da traição. Hipertensão no desemprego.
Doença de cachorro em crianças que tem que chamar de casa um barraco insalubre onde um cachorro, podendo fugir, não ficaria.
Depressão no filho que a PM matou.
Medo nos que ainda matará.
Toque de recolher, briga de facção.
Aborto, diagnóstico de HIV, sífilis, hepatite, metástase, diabetes, demência.
Gestantes de 14 anos. Um dia na agenda da semana dedicado apenas aos muitos pacientes com Hanseníase e Tuberculose em tratamento ou recém diagnosticados. Leishmaniose de livro? Teve também. Nas pessoas.
A letra bonita foi tão pouco entendida quanto a feia. A maioria dos maiores de 50 anos não sabe ler. Caprichar na prescrição sempre foi falar.
Deu para ser mais feliz.
Mais angustiada, acessível.
Muito menos burocrática e formal que a médica que eu já pensei ser.  Tentei ser resiliente e paciente.
Fui “Dra Bonitona”, haha.
“A paulista”.
“Guiulia”, “Goêlia”, “GIRÚLIA”.
“Estrangeira”.
“Feminista”.
“A médica que dá bom dia”.
“A novinha”.
*
Cuidar foi natural, urgente e instintivo. Simples, básico.
Outras tantas vezes foi complexo e me vi cheia de dúvidas e envergonhada.
Ser médica, branca, paulista e usar jaleco oprime. Deu para tentar ser o menos opressora possível, ainda em treinamento.
Eu quis ser mãe com bebê no colo de segunda-feira. Eu nunca mais quis ser mãe no aborto por negligência do Hospital de referência.
Quis cuidar de grávida menina e ser ginecologista. Acordei psiquiatra, assinei o ponto, e fui embora infectologista. Dormi pediatra, ou deixei de dormir de plantão na emergência.
Deve ser hora de estudar e aprender a ser Médica de Família e Comunidade, pois.
Maranhão, São Luis, Coroadinho, grandes amigos que reconheci aqui, e minhas centenas de pacientes já são, de várias formas, e por tanta vivência e intensidade, “bem assim do tipo que deixa saudade”.

O dia em que a caixa foi aberta

por Lucas Gaspar

Caja de Pandora

(Pandora, John William Waterhouse - 1896.)

Dia de reunião da unidade, único dia do mês que todos que trabalham ali conseguem se sentar para discutir coisas comuns da unidade (duas equipes ampliadas, farmácia, vacina,recepção, deve ser umas 30 pessoas). Nesse dia nosso gerente não estava pois tirara férias.

Pensei em uma proposta nova para a reunião, sem pauta pré-determinada, com uma dinâmica de localização e resolução de problemas, dinâmico, avaliativo, abrir voz a todos para falar e ajudar a resolver. Sabe, nós estamos em um momento muito crítico, em que muitos estão insatisfeitos com a organização local, quem sabe não dá certo? Vamos tentar, vamos motivar, vamos mudar…

E começa a situação, de repente, aproveitando a ausência do gerente ali, começam a descer a lenha nele. Tudo que ruim que acontece ali é culpa dele. Uma ou outra vez aparecem outras críticas, inclusive da relação funcionários-usuários (inclusive eu fui citado negativamente, tudo bem.. estou ali só ouvindo agora), do espaço físico, dentre outros. A carga dessa reunião começa a ficar pesada, negativa, como está em toda a unidade, na verdade.

Meu estômago dói, minha ATM dói. Minha cabeça não para – mas que ideia de jerico foi essa, Lucas? Puta merda, como sair desse mato sem cachorro agora??? Saco viu.. Mas que dor de estômago!!

E os problemas se acumulam, se aumentam, a cada 3 reclamações, criticas, uma é do gerente, uma é da organização da unidade, ou desorganização(?), e outra da falha de comunicação de todos. De vez em quando vem uma ou outra coisa diferente (raramente…).

Começo a olhar nos olhos de todos, ver o que todos estão sentindo, se passando, tentando ler suas mentes. Raiva, decepção, desejo de ir embora, angústias com todo o processo. E a esperança, ninguém ali com esperança de mudança!! Tristeza que aperta ali no fundo, será que só eu tenho esperança de melhora aqui?

Depois de muita coisa ruim, muita chateação, começam a surgir ideias, propostas, formas novas de organizar algumas coisas que ficaram para trás (os prontuários – acho que já falei dele alguma vez anteriormente..). Pronto, ali, um gancho para falar de gestão compartilhada, de assumir responsabilidades, de ser um dos agentes da mudança, de comunicação da equipe! Durou pouco, resolvido o problema de organização dos prontuários, logo volta ao tema principal, o “chefe”.

Ai a frustração, a raiva, a tristeza, só pioram, a dor volta (somatização do caceta!!). Nem todos os dias são flores, nem todos os pacientes são bons, nem tudo dá certo, mas ainda tem uma coisa dentro da Caixa de Pandora, esta que está sempre presa ali, o único mal que ficou – a esperança.

Novembro multicores

por Alfredo de Oliveira Neto

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Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”.

Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:

# HomensMorrem+QueMulheres

#FiqueLongeDasArmas

#FaçaMaisAmor #EncapeOZé

#SaibaBeber #NãoVacile

#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece

#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração

No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.

Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde…” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.

Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, rapaz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção…

Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.

Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.

Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.

A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.

Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.

E a vida? Como vai?

por Vinicius Siqueira 

(aluno do 12º período de Medicina (UFRJ) e interno na CF Victor Valla, Manguinhos, Rio de Janeiro )

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Quando estamos no chamado “ciclo clínico” do curso, que se estende, mais ou menos, do quarto ao nono período da graduação, temos a oportunidade de conhecer um número incontável de sintomas, síndromes e doenças, todos detalhadamente explicados, desde as suas bases moleculares mais complexas até as últimas terapias lançadas ou ainda em teste. É uma carga de informações novas capaz de excitar os nossos neurônios e o nosso ego, de tal maneira, que a ideia de ser médico e saber aplicar todo aquele conhecimento nos encanta e fascina.

Eu me recordo bem da minha primeira crise durante o curso, quando, ao final do ciclo básico, quando os genes, moléculas e células povoavam nosso dia-a-dia com uma frequência estressante. Questionava se eu desejaria, de fato, ser médico, dada minha grande dificuldade em me adaptar àquele estudo. Confesso que era um desgaste imenso sair de casa todos os dias para assistir àquelas aulas, numa sala à meia luz, sentado numa cadeira desconfortável. Mas me agarrava ao relato consolador dos meus veteranos de que depois melhoraria, quando chegasse o “ciclo clínico”.

O esperado “ciclo clínico” chegou e, de fato, as coisas melhoraram. Fiquei feliz de abandonar um catatau de moléculas e receptores e dar uma folga à proteína G, a fera que conduzia meus pesadelos em noites mal dormidas. A transição foi para melhor, mas acabei me acostumando ao modo como estudávamos as doenças e, com o tempo, também me cansei e voltou a ser um suplício ter que memorizar listas de sinais e sintomas para aprender a encaixá-los em cada enfermidade.

Um momento feliz desse período era o contato com os pacientes internados. Uma oportunidade de conversar, de examiná-los diariamente, acompanhar sua evolução clínica, escutar suas dúvidas, lamentos ou lampejos de alegria que surgiam naquele mar de sofrimento e tristezas que muitos enfrentavam diante de doenças graves ou muito debilitantes. Era bom sentir como as coisas aconteciam na vida real e uma máxima se tornou muitíssimo comum naquela época: “o paciente não lê o livro”. Isso me suscitava um questionamento: “então porque perdemos mais tempo com os livros do que com os pacientes”?

Nós estudamos numa universidade com profissionais muito competentes. Essa afirmação é incontestável no âmbito do conhecimento clínico e teórico de nossos professores e uma meia verdade quando os analisamos do ponto de vista humano, uma vez que nem todos tem sua sensibilidade apurada para enxergar outros aspectos além do clínico. Mas é importante pontuar que, ainda assim, aprendemos com grandes mestres de Medicina e humanismo.

A minha mais grave crise durante a faculdade aconteceu quando perdemos completamente o contato com pacientes, no oitavo período, e passamos a ter uma grade horária cem por cento teórica durante um ano inteiro, o ano que precede o internato. Nessa época, minha vontade de sair da cama para ir para a aula era nula.

Foi quando iniciei um estágio em Atenção Primária na Rocinha. Eu fiquei mal colocado no concurso da Prefeitura e, no dia da escolha do local de estágio, o único local que restava e que eu era capaz de localizar mentalmente no mapa do Rio era a Rocinha. Saí de lá um pouco desapontado com a clínica que me tocou, por ser longe de casa e incrustada numa favela que eu não conhecia. Fui fazer minha matrícula na CAP e contei à médica que me atendeu e ela me disse que eu seria muito feliz com essa experiência, porque as coisas não acontecem por acaso.

O presságio dessa pessoa, que se chama Adriana e eu só vi mais uma vez na vida, não poderia ser mais certeiro. Conhecer a Rocinha e me inserir no dia-a-dia daquela clínica fez cessar os questionamentos que eu trazia sobre insistir em ser médico ou não. Eu havia me encontrado e era muito feliz o dia que eu acordava e saía de casa para uma jornada de quase uma hora dentro de um ônibus e mais alguns minutos morro acima rumo à clínica.

(me estendi longamente nessa história que eu contei com uma única finalidade)

Na Rocinha, eu apliquei muitos dos conhecimentos adquiridos na universidade. Tive a oportunidade de ver doenças variadas, apresentações atípicas, traçar raciocínios diagnósticos complexos, solicitar exames laboratoriais e aguardar ansiosamente pelos seus resultados, abordar pacientes saudáveis ou pacientes extremamente graves, que viriam a falecer menos de 24 horas após a consulta. Eu me lembro da sensação de me sentir médico, talvez pela primeira vez. Valorizei o tempo que eu passei estudando doenças.

Mas na Rocinha eu aprendi que o paciente não é apenas um conjunto de células que adoecem. Aprendi que Medicina não é estudar doenças e deve ser muito pouco eficaz o médico que assim pensa. Na Rocinha, eu aprendi que faz parte da consulta perguntar como o paciente se sente, o que ele acha que tem, o que ele espera de mim, qual o melhor tratamento para seu sofrimento. Lá eu aprendi a conversar sobre a vida com o meu paciente e descobri o quanto isso é um “santo remédio”.

Toda essa história me voltou à cabeça quando, na terça-feira, atendemos uma paciente com a língua e o resto do corpo formigando, isso associado a algumas aferições de pressão acima de 160 nos últimos dias. Uma hora antes, ela havia sido atendida na UPA e saiu com uma prescrição de fluconazol e dexclorfeniramina, além de uma injeção de prometazina a ser aplicada na hora, mas a paciente resolveu buscar uma segunda opinião na clínica da família antes de tomar as medicações.

Durante a consulta, apliquei o melhor raciocínio clínico que eu poderia para tentar entender aqueles sintomas. Busquei compreender a sua história em detalhes. Mas também me lembrei de perguntar o que aprendi na Rocinha. “E a vida? Como vai?” Estava tudo bem. Insisti mais um pouco, mas não consegui que ela falasse muita coisa. Eu notava no fundo dos seus olhos que queria falar. Naquela consulta eu não consegui, mas deixei a porta aberta para que voltasse quando quisesse.

Eu fui muito feliz por ter conhecido a Rocinha, Adriana estava certa. Lá conheci os primeiros médicos de pessoas da minha vida e sou muito feliz por isso.

WAZE

por Antônio Modesto

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“Não conheço esse caminho”, pensei ao olhar o mapa no celular. “Mais curto… Rua reta, compridona… Não deve ser favela”. E saio da avenida pela esquerda, a caminho da supervisão do Mais Médicos.

Dirijo por quatro quadras. “Onde é que vira à direita, aqui ou na próxima?”. Na esquina seguinte, dois garotos sem camisa se agitam, me olham muito, tem alguma coisa na mão de um deles, será guarda do morro? Paro o carro. É guarda do morro e tá olhando pra mim. É uma pistola na mão dele. Tá segurando esquisito, junto à cintura, mas tá apontada pro meu peito. Dá pra ver o buraquinho do cano. Tá apontada pro meu peito.

“Se eu tivesse essa ocupação, em quem eu atiraria? Em quem parecesse uma ameaça. Tenho cara de trouxa, meu carro tem placa de São Paulo, celular pendurado no para-brisa com um mapa. Que mais? Mostrar que eu tô desarmado”. Ponho uma mão do lado de fora e a outra fica aberta, apoiando o volante com o punho.

– Bla bla bla bla!

Não entendi. Tô desarmado, não é possível que me alvejem. O buraquinho do cano continua a dez metros apontado pro meu peito. Ia ser um tiro esquisito, mas ia me colar no banco. Sinto um comichão no esterno.

– Abaixa a mão! Pode abaixar a mão! – diz o que está desarmado.

– Vem pra cá! – diz o que está armado. Ele também segura um saco de objetos brancos que não devem ser hóstias. Hesito. Já viram que eu tô desarmado e me chamam. Vou?

– Pode vir, vem pra cá! – repete. Impossível não ir. Primeira marcha, pouca pressão no acelerador, o comichão no esterno piora.

– Oi, pessoal, foi mal, tô indo num posto de saúde em tal lugar, desculpa aí…

– Tá perdido? – a pistola sumira, e agora ele me aponta uma gentileza mais desconcertante que a arma. Um ruído indica que ele traz um walkie-talkie na cintura.

– Não, tô aqui seguindo o Waze, normalmente eu vou por tal rua, mas dessa vez ele me mandou pra essa aqui…

– Ih, isso é longe pra cacete! – diz, enquanto o amigo olha o celular no parabrisas.

Já ia dizendo “ótimo, deixa eu voltar pra avenida, tchau” quando chega um sujeito perto da janela. A marcha, o olhar e os dentes sugerem etilismo crônico e trabalho precário.

– Onde é que cê vai?

– Vou num posto de saúde na rua tal, em frente a tal coisa.

– Ah! Segue aqui direto, direto; quando chegar em tal lugar, vira à esquerda e depois segue adiante.

– Eu também posso voltar e pegar a rua tal, não tem problema…

– Não! – diz o rapaz armado. Vai por aqui! É tranquilo!

“Tô vendo”, penso.

– Pega essa aqui até tal lugar, vira em tal lugar e segue adiante – o rapaz repete.

– Beleza. Mas não vai atrapalhar o rolê de vocês, aí, não?

– Nada! Vai lá, vai lá!

Se o gatekeeper disse que pode, vamos nessa. Primeira marcha, segunda, vidros abaixados, cara de “com licença”, sigo pela rua comprida. Não vejo mais ninguém armado. Adiante, a via fica estreita, entre uma ribanceira pra cima e outra para baixo. Um carro parado me impede de seguir, e uma mulher arrasta um pedaço de tronco para fechar a passagem atrás dele.

“Eu tô num lugar que tem um bloqueio na rua. Puta que pariu”.

– Oi! Eu tô tô indo num posto de saúde em tal lugar, pode passar?

A mulher se atrapalha em dar atenção a mim e ao seu motorista, que grita alguma coisa de dentro do carro. “Fecha aqui depois, tá?”, ela diz apressada, logo antes de entrar no carro e partir.

“Fecho ou não fecho?”, me pergunto qual risco queria correr. Desligo o carro, abro a porta e arrasto o pedaço do meio dos três troncos que impedem a passagem, com a certeza de que, em algum lugar dali, tem alguém me olhando.

A rua alarga novamente. Chego no posto em dez minutos. A médica está atendendo uma gestante.

– Antônio, que bom que você chegou! Essa é fulana, ela teve diagnóstico de sífilis em agosto,tava um pra sessenta e quatro, repetiu os exames agora, mas ainda tá um pra oito…

– Oi! – digo pra gestante. – Eu sou Antônio, sou médico de família, trabalho no Mais Médicos e vim visitar a Doutora Fulana. Tudo bem?