Lembrança: sendo criança outra vez

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por Lucas Gaspar Ribeiro

Tenho um paciente que é carpinteiro, e em todas as consultas, a gente conversa sobre o que ele estava fazendo com a madeira que ele tinha.

Uma vez era uma mesa, outras vezes cadeiras, armários, dentre outras coisas.

Na última consulta em janeiro, ele me falou que estava fazendo carrinhos para as crianças, ele vendia por um preço baixo, para as crianças brincarem. Fiquei pensando que gesto mais interessante que ele está fazendo, oferecendo seu tempo para que as crianças continuem crianças.

Ontem ele voltou em uma consulta, conversamos mais sobre isso, e ele me contou que também está fazendo aviões da esquadrilha da fumaça, que estava até vendendo em uma feira de artesanato suas coisas. E o quanto isso era importante para que ele fosse uma pessoa feliz.

Ontem após a consulta ele fez mais uma criança feliz, eu.

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O dia em que a caixa foi aberta

por Lucas Gaspar

Caja de Pandora

(Pandora, John William Waterhouse - 1896.)

Dia de reunião da unidade, único dia do mês que todos que trabalham ali conseguem se sentar para discutir coisas comuns da unidade (duas equipes ampliadas, farmácia, vacina,recepção, deve ser umas 30 pessoas). Nesse dia nosso gerente não estava pois tirara férias.

Pensei em uma proposta nova para a reunião, sem pauta pré-determinada, com uma dinâmica de localização e resolução de problemas, dinâmico, avaliativo, abrir voz a todos para falar e ajudar a resolver. Sabe, nós estamos em um momento muito crítico, em que muitos estão insatisfeitos com a organização local, quem sabe não dá certo? Vamos tentar, vamos motivar, vamos mudar…

E começa a situação, de repente, aproveitando a ausência do gerente ali, começam a descer a lenha nele. Tudo que ruim que acontece ali é culpa dele. Uma ou outra vez aparecem outras críticas, inclusive da relação funcionários-usuários (inclusive eu fui citado negativamente, tudo bem.. estou ali só ouvindo agora), do espaço físico, dentre outros. A carga dessa reunião começa a ficar pesada, negativa, como está em toda a unidade, na verdade.

Meu estômago dói, minha ATM dói. Minha cabeça não para – mas que ideia de jerico foi essa, Lucas? Puta merda, como sair desse mato sem cachorro agora??? Saco viu.. Mas que dor de estômago!!

E os problemas se acumulam, se aumentam, a cada 3 reclamações, criticas, uma é do gerente, uma é da organização da unidade, ou desorganização(?), e outra da falha de comunicação de todos. De vez em quando vem uma ou outra coisa diferente (raramente…).

Começo a olhar nos olhos de todos, ver o que todos estão sentindo, se passando, tentando ler suas mentes. Raiva, decepção, desejo de ir embora, angústias com todo o processo. E a esperança, ninguém ali com esperança de mudança!! Tristeza que aperta ali no fundo, será que só eu tenho esperança de melhora aqui?

Depois de muita coisa ruim, muita chateação, começam a surgir ideias, propostas, formas novas de organizar algumas coisas que ficaram para trás (os prontuários – acho que já falei dele alguma vez anteriormente..). Pronto, ali, um gancho para falar de gestão compartilhada, de assumir responsabilidades, de ser um dos agentes da mudança, de comunicação da equipe! Durou pouco, resolvido o problema de organização dos prontuários, logo volta ao tema principal, o “chefe”.

Ai a frustração, a raiva, a tristeza, só pioram, a dor volta (somatização do caceta!!). Nem todos os dias são flores, nem todos os pacientes são bons, nem tudo dá certo, mas ainda tem uma coisa dentro da Caixa de Pandora, esta que está sempre presa ali, o único mal que ficou – a esperança.

A boa nova

old-lady(Portrait of an old lady, Suzanne Valadon, 1912)

por Lucas Gaspar

Era sexta-feira, e nesse dia teria que sair da unidade às 10h para uma atividade com os alunos da graduação na faculdade, então a agenda foi “pensada nisso”. Eram quase 09h00, iria para a consulta seguinte, uma conhecida minha já – dona Nadir – uma senhora de 70 e tantos anos, tinha se mudado para a casa de sua filha a fim de ter ajuda com seus cuidados – uma falta de ar que estava em investigação na geriatria, hipertensão, artrose de tudo quanto é osso do corpo e uma depressão (ahh essa doença que poucos escapam…). Enfim, a minha última consulta com ela fora há pouco mais de um mês, uma tristeza só, vejam o porquê.

Nessas crises de falta de ar, ela foi ao PA (pronto-atendimento), tendo o diagnóstico de derrame pleural, sendo  internada e recebeu aquele diagnóstico que ninguém ousa falar o nome – câncer (e para piorar, já estava disseminado em todo o abdome), imaginem o que foi essa consulta para nós… trabalhar uma realidade cruel e impossível de fugir, 2 dias após o diagnóstico – eu com aquela contra referência nas mãos, ela com todas as angústias na mente. Mas por que estou falando isso? Porque nessa consulta ela me confidenciou que o maior sonho da vida dela era viajar para o Mato Grosso (moramos no interior de SP) e se despedir de seu irmão – que já estava paliativo há 11 anos e agora já recebera o título de terminal. O que falo para ela? Vá, aproveite, se despeça (esse era meu desejo, e o dela também). Mas ela não tinha condições de saúde para tal. Então falei, acho que tem que esperar ver o que a oncologia vai resolver contigo, vá mantendo contato com ele, continue falando, aproveite ele ao máximo, mesmo estando longe fisicamente.

Hoje ela volta, logo no dia que tenho que sair mais cedo, vamos lá, será que operou? Será que ela está bem? (Veio com uma pessoa que nunca vira antes – depois descobri ser seu genro).

– Doutor, meu irmão faleceu há 3 dias, e eu não consegui ir vê-lo! Além disso, estou aguardando essa cirurgia que não sai… O meu mundo desabou, doutor.

Pronto – 15 segundos de silêncio que valem uma eternidade. O que eu, pobre mortal, posso fazer em frente a esse caos que está a vida dela??

– Eu imagino que deva estar muito difícil, na verdade, eu não imagino, Dona Nadir, mas eu percebo seu sofrimento. Não sei como poderei te ajudar nisso tudo, para ser sincero. Vamos pensar com calma, vamos pensar em partes nos acontecimentos. Me conte de seu irmão…

– Ah doutor, sabe, eram 11 anos como eu comentei com o senhor, eu falei com ele na sexta (há 1 semana), logo antes dos médicos sedarem ele, falei com ele, me despedi dele no final. ( se abre uma porta da esperança).

– Então, dona Nadir, olhe o lado positivo, a senhora se despediu dele, pode não ter sido fisicamente, ao lado dele, como era seu desejo, seu sonho mais profundo, por diversas razões, dentre elas a sua saúde, provavelmente a senhora não aguentaria tal viagem e atividades (e não mesmo, estava branca como sulfite), mas a senhora falou com ele, se despediu. Tenho certeza que muitas outras pessoas não conseguiram fazer isso.

– É verdade, o filho mais novo dele, mesmo, não conseguiu conversar com ele no fim, se despedir, apenas depois. E também né doutor, foi muito sofrimento para ele, e para toda a família que terminou, que acabou. Foram 11 anos lutando, sofrendo, agora ele está em um lugar melhor, descansado. (Ufa… essa luz se acendeu mais um pouquinho…).

– Com certeza, com certeza. Agora é hora de juntar os cacos, as dores, anos de dores, e se preparar porque está chegando outra batalha, a sua batalha. Eu imagino que quando temos um câncer, e muitos pacientes falam isso para mim, que a primeira coisa que vêm à mente é: tirem esse treco de dentro de mim, ele vai me matar, arranquem logo, e com a senhora, não deve ser diferente, estou certo? (Vejo os olhos marejarem, que dor, que sofrimento…)

– Sabe doutor, para mim teria operado no mesmo dia que soube, mesmo, mas não é assim. Aí vai o pedido pra secretaria, logo no feriado de setembro, para atrasar tudo, uma, duas, três semanas (eu fico pensando, que bom que nessa cidade são só 3 semanas entre o diagnóstico e o tratamento, imaginando fora daqui… mas guardo para mim), já fiz a parte da anestesia e tudo. Acho que semana que vem vão me chamar para operar já, começar a resolver isso, ficar melhor, é o que eu preciso. E essa semana virá meu filho com meus netos. Estou tendo muita ajuda, muito apoio em tudo, sabe doutor.

– Fico muito feliz dona Nadir, apoio, gente perto, gente ouvindo e acudindo é o que você mais precisa agora. Vamos esperar, vamos ver essa cirurgia. Vamos aguardar, infelizmente o processo é longo, demorado, mas está indo, está resolvendo. Já sabemos o que é e o que deve ser feito. Acho que a cirurgia vai ser bom também para pensar em outras coisas além do seu irmão. Para trazer todo mundo para pertinho, agora, que é o que você mais precisa. Quero que saiba que não vou deixar nenhum dia agendado para a senhora, quero que venha sempre que se sentir insegura, necessitando de uma conversa, porque no final, essa conversa já colocou bastante coisa para fora né… (E me ajudou também a ver que tem muitas saídas um caso que não está mais em meu “controle”, ajudando a me sustentar no aqui e agora, vamos em frente…).

E ela se vai, após um longo e caloroso abraço, junto com seu genro, para mais uma batalha, que venha a próxima conversa com a Dona Nadir, e de preferência com boas novas…

Bom dia

por Lucas Gaspar

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Todos temos aqueles pacientes que você olha para a lista de agendados daquele dia, e quando vê o nome X, já dá um frio na espinha, já pensamos “Iche, o dia vai ser longo”. Uma dela é dona Joaninha, 35 anos. Uma pessoa que já conseguiu brigar com 100% da equipe, além da gerência e outros temporários. Comigo mesmo, que estou lá há pouquinho tempo, já tive problemas com ela. Será que hoje vai ser diferente? Bem, vamos lá, seja objetivo, não enrole, não pergunte o que mais. A dona Joaninha não é “digna” do método clínico centrado na pessoa (por mais que eu sabia que um filho está preso há 6 meses – injustamente(?).

– Olá Joaninha, em que posso te ajudar hoje?

– Dr. eu vim aqui para checar meus exames, que colhi mês passado (tossindo um monte para falar essa frase…).

Eu sabia que iria me arrepender na minha próxima frase, mas lá vai, “ E o que mais?”(um segundo de medo, horror nos olhos e aquela transpiração fria no canto da testa…).

– Estou com essa bronquite atacada também…

Ufa, pensei que seria pior, me safei, será que… não, não posso, mas não me seguro:

– O que mais posso te ajudar Joaninha? (você está louco?? Não se dá corda a leões…)

– Estou com uma dor na sola do pé há um tempo que está me incomodando demais, não consigo pisar na hora que acordo.

Pronto, agora chega, vamos ao que interessa, 3 sintomas está bom (afinal, isso eu não contei antes, mas era uma consulta de encaixe e tinha mais mil pacientes hoje…).

Consulta, vai, consulta vem… transcorreu numa boa até o final.

Então surge uma oportunidade para ela falar – estava demorando, quase 20 minutos!!

– Doutor, é o seguinte, eu já falei várias vezes que não viria mais aqui, você já deixou de me atender ao menos duas vezes quando cheguei mal aqui (na verdade lembro só de uma vez, que orientei procurar o PA porque iria precisar de Rx, era uma lombalgia com red flag, mas tudo bem, guardo essa informação só pra mim). E sempre quando venho aqui é a mesma coisa, sempre sou mal-tratada aqui. Fui agendar consulta pro besourinho (seu filho), só tinha agenda à tarde (realmente estou com um problema muito sério em agenda lá), e nem eu e nem ele podemos a tarde – porque ele tem aula e eu posso não ter folga na tarde da consulta (daqui 1 mês), e ninguém quer me ajudar nisso? Aqui a única pessoa que parece se importar é o senhor, e digo isso porque nunca nenhum médico daqui (a unidade tem 8 anos e uns 30 médicos em sua lista) me via na unidade e sabia meu nome, o nome do besourinho, eu tenho que te agradecer por isso, mas não dá para ficar nessa unidade desse jeito, já pensei em não vir várias vezes, mas acabo vindo porque sei que tem alguém que se preocupa aqui, mesmo que não sempre (ácida!).

Nesse momento cai uma ficha, que nunca tinha parado para pensar… Como o fato de conhecer o nome, a fisionomia de quem você cuida, e com isso fazer uma das atividades mais cotidianas de nosso dia: a simplicidade de cumprimentar as pessoas face a face, sabendo quem é quem pode fazer uma diferença enorme. Porque conhecer o nome, a família, a estrutura, não apenas lá dentro de quatro paredes, no consultório, ou na VD, mas também numa simples recepção pode mudar a forma como o outro te vê, e ajudar ela a ficar, para ser cuidada e se cuidar…

Era o leite

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por Lucas Gaspar Ribeiro

Primeiro mês na unidade, conhecendo os pacientes, suas histórias, suas vidas e famílias.

De repente entra uma senhora de 68 anos, barriguuuuda, a dona Josefina. “Doutor, tenho um problema que nenhum médico conseguiu resolver ainda. Eu tenho essa barriga grande aqui ó (batendo em seu voluptuoso abdome), sempre desse tamanho, sempre me atrapalhado. Eu tenho uma sensação de que está sempre cheia, lotada. Quase não como nada, mas mesmo assim!! E os gases doutor, e os gases??? Não param nunca… Já está me passaram esses dois, mas não melhoram (olho as caixas, eram omeprazol e domperidona).

Logo começo a juntar os pontos: empachamento + gases + idosa – será Câncer(penso em estômago, cólon – meu deus e agora como conseguir acesso a exames de imagem???).

Pergunto sobre perda de peso – não, não doutor, não consigo perder peso, mesmo comendo menos.

Ufa, provavelmente um alarme falso.

Será que é algo alimentar? Vamos ao recordatório alimentar. Tem algo que a senhora come e percebe piora, melhora, mudança?

– Ahh doutor, eu como de tudo, arroz, feijão, carne, legumes, leite com café de manhã e a noite.

Opa, leite 2 vezes por dia, será que estamos por aí?? – Dona Josefina, me conte mais sobre esse leite…

– Doutor, sempre tomei leite, minha vida toda, gosto muito sabe. Eu tomo leite todos os dias, eu acho que piora, porque quando acaba lá em casa e eu não como, não fico com tantos gases, mas não sei, faz tantos anos que tomo leite….(abriu uma portinha na cabeça).

– Então Dona Josefina, vamos tentar fazer uma coisa, vamos tentar ficar sem tomar leite por um tempo e depois a ente vê como você ficou, o que acha??

– Tudo bem doutor, não custa tentar.

Quase 2 meses após entra a dona Josefina, e, coincidentemente eu estava na porta indo chamar outro paciente.

Vejo um brilho nos olhos que antes não havia – e ela logo ao me ver já fala alto: doutor Lucas, hoje sou outra mulher. Estou nova, batendo na mesma barriga de antes(mas para mim exatamente igual de um mês atrás). Acabou minha barriga, olha só, não tem mais nada, sequinha. Estou muito melhor agora. Somente um médico que quer ouvir e pensar na gente, que busca o que ele tem pra me ajudar!!

Eu olho para aquele rosto sem mais sofrimento, olho para aquele corpo exatamente igual, e respondo: Josefina, fico muito feliz que esteja se sentindo melhor, que bom que te ajudei um pouquinho, dá para ver que está mais magra mesmo..(afinal o nosso papel é também fazer o outro se sentir bem consigo mesmo..)

E ela sai da unidade de volta para casa alegremente e falando: era só o leite, doutô, só o leite…