Merecedores de vacina

por Mateus Queiroz

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Duas pacientes vieram por motivos parecidos para consultas separadas, porém com abordagens opostas de um problema central. Vacina. Ou melhor, a falta dela. A primeira, possui asma não grave, porém não incapaz de trazer problemas ao longo da sua vida até hoje. Relata que tem asma desde sempre, chegando a ser internada quando criança e fazendo uso de bombinha até hoje, especialmente nas mudanças de tempo que tivemos nessas últimas semanas. Veio para receber um laudo para vacinação contra a COVID-19. Apesar de ter sido incisiva, e obviamente sofrer com a sua condição, não possuía indicação de acordo com as recomendações da prefeitura. Acompanhava a residente da minha equipe, e tomei para mim a missão de conversar e tentar explicar para aquela mulher as questões que nos levaram a não fornecer o laudo. A paciente com seus 30 e poucos anos entrou na sala de atendimento portando em mãos seu álcool-gel e sua máscara PFF2, algo bastante raro nos atendimentos que acompanho. Expliquei a situação de que no momento, a indicação era apenas para pacientes com casos considerados mais graves de asma, o que a gente conseguia identificar pela medicação usada e, para minha surpresa, o questionamento dela não veio disso inicialmente. “Tem até autista e síndrome de Down tomando que não sobra vacina pra quem precisa” Decidi tentar ser mais incisivo, porém didático. Expliquei que, na minha visão, antes de qualquer discussão sobre vacina, é necessário lembrar que o governo federal se recusou e continua se recusando a realizar um planejamento funcional sobre a vacinação contra a COVID. Expliquei que a fala dela era errada por uma questão de direito e de saúde pública que garante o direito desses grupos serem priorizados na vacinação, e que na verdade, o certo era todas as pessoas serem vacinadas, que a vacinação não é um movimento individual, mas sim coletivo. Me pareceu mais receptiva com os conceitos que expliquei. Depois tive que explicar como a gente considerava a gravidade dos casos de asma e como a gente sabia do incômodo que isso trazia na vida dela, porém não era considerado suficiente para vacinação prioritária, não de acordo com a gente, mas de acordo com o que preconiza a secretaria de saúde. A paciente ficou visivelmente irritada com a recusa. Todos sabemos os fatores estressantes que a pandemia nos impõe, mas a ideia inicial dessa paciente claramente contribuía para aumentar esse estresse e, sinceramente, conseguia entender o ponto de vista dela. Ora, qual é o motivo deu, que tenho doença e sigo à risca as recomendações, não poder ser vacinada, mas alguém que tem uma doença que talvez a paciente nem compreendesse muito bem poder? O segundo paciente era obeso, IMC por volta de 39, disse que tinha tomado coragem para vir saber se podia receber laudo para vacinação. Fiquei curioso, “como assim tomado coragem? De sair de casa com o vírus por aí?”. Paciente ri e diz que não, tinha tomado coragem pois havia refletido muito na última semana sobre se merecia ou não se vacinar e se estaria furando a fila da vacinação de alguma forma, com medo dos tais “fiscais de comorbidade”.

Nas reflexões que tive após esses momentos fiquei feliz em perceber como a Medicina de Família e Comunidade se coloca sim como agente político, no sentido de promover alterações materiais na vida dessas pessoas. Como o ser humano é mais do que os seus sofrimentos. “Ser é mente; o corpo, mero porta-voz. Não existe doença básica. O indivíduo é um complexo biopsicossocial. Institucionalizar simples organicismo ao ato do atendimento médico é confundir sintoma com doença, é negar a importância da escuta qualificada, da competência em reconhecer o que escapa ao óbvio da história clínica. Uma consulta serve a vários propósitos. Uma queixa pode ser uma pergunta ou uma resposta.” Seja ao realizar visitas domiciliares, seja ao realizar pré-natal de gente que nem tem casa para morar.

Nesse momento devo ter esboçado um sorriso por baixo da máscara, de alívio por eu estar ali na consulta, e não alguns colegas de faculdade que tem mostrado posturas no mínimo questionáveis para não dizer outras coisas. Comecei explicando que qualquer discussão sobre vacinação precisa partir do princípio que o processo de compra de vacinas tem sido ativamente sabotado pelo governo federal. Falei sobre os processos de vacinação não serem medidas individuais, mas sim coletivas, então para se analisar é preciso pelo menos considerar uma perspectiva coletiva. Como as comorbidades são elementos que muitas vezes as pessoas carregam e nem sequer se dão conta de como pode ser prejudicial ao longo da vida. Não era uma questão sobre se o IMC dele era próximo o suficiente de 40, mas sim que era direito dele pelo menos saber sobre isso, e não ser coagido a nem procurar, por pena de um julgamento moral. Após conversarmos mais um pouco descobrimos que o paciente era também era hipertenso, o que tornaria a exigência de IMC para vacinação bem mais baixa do que o IMC 40. Laudo na mão, continuei a explicação pois senti que o paciente havia tirado um grande peso das costas e estava extremamente receptivo para aquele momento de troca. Meu último ponto foi que até então, nenhuma secretaria de saúde do país havia relatado falta de vacinas devido a algum suposto excesso de pessoas com comorbidade se vacinando. Na verdade, não só não houve falta, mas a cidade do Rio de Janeiro só vacinou 65% das pessoas com comorbidade e está tendo que fazer repescagem de vacina (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/05/30/rio-meta-vacinacao-comorbidade.html). Como se fosse algum tipo de culpa das pessoas elas terem condições que estatisticamente vão diminuir a expectativa delas. Aproveitei para incentivá-lo a postar fotos e vídeos do momento sim, que ninguém tinha o direito de constrange-lo, e que, acima de tudo, aquele seria um momento extremamente marcante em sua vida, e que ele tinha todo o direito de curtir o momento. Assim como foi para mim no meu dia de tomar vacina. Gostaria de dizer que é uma postura inacreditável de parte relevante da comunidade médica e dos estudantes, mas a realidade é que não é. Nem um pouco. A individualização de absolutamente todas as questões sociais, e a vacinação é uma delas, é um sintoma bastante claro de como a classe médica como um todo – e nisso tenho clara ciência de como a Medicina de Família e Comunidade representa e é um contraponto essencial, não só do ponto de vista clínico, mas também político – é dominada por uma ideologia que vai a todo momento culpabilizar o indivíduo em seu processo de doença de forma muitas vezes desonesta. Não é difícil achar informações sobre a gigantesca prevalência de doenças cardíacas e diabetes em nossa população e os impactos disso na vida. A realidade é que desde sempre, mas especialmente desde os governos de esquerda o núcleo da classe médica tem mostrado todo o seu pavor com a possibilidade de se tornar médico de família e ter que atender gente pobre. Desde a recepção assustadora aos médicos cubanos por ocasião do programa Mais Médicos até as atuações mengelianas de médicos paulistas no Amazonas durante a pandemia.

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