Duas consultas

por Guilherme Vale Alves

Segunda-feira com clima de segunda, chegar cedo na clínica, abrir o consultório, ligar a luz, apertar o interruptor mal-funcionante, arrumar a bagunça, ligar o computador e respirar para começar a semana. Segunda com cheiro de café – como todas as manhãs do dia de um médico de família e comunidade. Um dia normal. Talvez.

Os atendimentos vão acontecendo. Oito e vinte, Maria da Glória, primeira paciente, com dores no corpo. Depois, Dona Vera, um retorno de agulhamento. Já são nove horas e estou com a segunda Maria do dia, a terceira paciente, quando, atravessando as paredes de metal – da estrutura de ferro de uma Clínica da Família carioca – ouço gritos. Deve ser paciente do CAPS.

“Sim, Dona Maria, mas me conta um pouco melhor sobre essa dor no peito”. Agora ouço choro. Choro do tipo desespero. Daquele que corta paredes e corações de ferro.

Despretensiosamente, abro a porta. Vejo um corredor cheio de pacientes sentados esperando suas consultas, mas, dessa vez, com olhares diferentes daqueles impacientes de quem espera. Acho que de desconforto, não sei. Percebo que a sala em frente está fechada. De lá vem mais ruídos sofridos.

“Está tudo bem?”, pergunto à nossa agente comunitária de saúde no corredor. Ela se aproxima da minha porta:

“Uma paciente nossa faleceu na UPA”

“Caramba. Quem faleceu?”

“Paciente jovem. Não sei o nome. Mas já estão conversando com a família no consultório”.

Bom, parece estar tudo sob controle. Volto a tocar a agenda. Afinal, ainda tem 11 pacientes para atender.

Um mês antes, 15 de abril de 2019, conheci Maria.

Maria tem trinta e dois anos, vem sozinha em consulta, queixando-se de aumento do tempo da menstruação. Antes durava cinco dias, mas agora está há 12 dias sangrando. Tem DIU de cobre desde maio de 2017, inserido na clínica, mas estava bem adaptada. Não entende o que pode estar acontecendo.

Lembro-me de perguntar se estava acontecendo alguma coisa em relação a sua vida, trabalho, relacionamento. Aquela pergunta que abre portas em que jamais imaginamos o que há por trás. Pergunta que tira um peso de falsos sorrisos, escorrendo em lágrimas de verdade.

Não me recordo agora se seus olhos eram castanhos claros ou azuis – talvez verdes. Mas um oceano se abriu. Abro a gaveta e pego dois lenços.

Maria terminou um relacionamento há 4 meses, “Não que ele não fosse bom comigo, mas eu queria sentir mais carinho, sabe?”. Conheceu um novo rapaz, agora do trabalho. Um amigo com quem começou a ficar, mas que já está apaixonada, mesmo que em poucos meses. Ele também terminou um relacionamento recentemente, mas não quer compromissos sérios. Quer ter calma.

Diz que ela sempre foi assim, de se entregar muito, incondicionalmente. Mesmo com o seu primeiro marido, com quem teve uma filha, hoje com 6 anos. Pergunto como foi o primeiro relacionamento. Mais um lenço. Ele era violento e a agredia. Mesmo assim, ficou com ele por alguns anos, mais pela sua filha. Até que não deu mais.

Conversamos um pouco sobre como as emoções podem afetar a menstruação, tento tranquilizá-la, prescrevo um antiinflamatório e agendo uma interconsulta com a psicóloga do NASF para abordarmos mais a questão dos relacionamentos passados e presentes de Maria.

29 de Abril de 2019, chamo Maria, junto com a psicóloga e mais alguns lenços.

Maria conta que, na infância, não recebeu muita atenção do pai. Sua mãe sempre foi dona de casa e sempre “serviu” ao seu pai, que nunca a deixava trabalhar. Só ele podia trabalhar. Sua mãe tinha que cuidar da casa e dos filhos, e só. Por ter crescido vendo esse relacionamento, ela acreditava que sempre tentava agradar os seus companheiros, mesmo que não houvesse uma retribuição. Com medo de perdê-los se não os agradasse.

Seu primeiro marido era muito estressado, violento, a agredia, não a tratava bem. Tiveram uma filha juntos. Hoje, já separados, ele mal ajuda a criá-la, paga apenas uma pensão de 150 reais. 

Depois, namorou um rapaz que, apesar de não ser violento, dava pouca atenção a ela, enquanto ela “fazia tudo por ele”. Porém, acabou terminando o relacionamento, por mais sofrido que isso tenha sido.

Agora, está com esse colega do trabalho que, apesar de estar apaixonada, ele não quer firmar um compromisso sério. Não por enquanto. “Não entendo… Eu gosto tanto dele que queria sentir isso dele também, mas acho que sou desse jeito, por causa do modo como a minha mãe era com o meu pai”.

Hoje, ela mora com a mãe e sua filha – que é muito apegada à avó – mas tem tido discussões com sua mãe. Após Maria conversar muito e insistir, sua mãe conseguiu se separar do seu pai para conseguir viver um pouco a própria vida. Apesar dessa conquista, sente que sua mãe ficou dependente dela. Maria queria mesmo era conseguir viver só com a filha, em um apartamento apenas das duas. “Você vai morar sozinha, ficar com algum rapaz, se separar de novo e vai acabar voltando para debaixo do meu teto, viu? Sem contar que, sem a minha neta, eu não vivo. Não vou deixar você me afastar dela”, dizia sua mãe. Mais um lenço. 

Maria queria muito morar só com a filha, ter um lugar só para elas, mas tinha medo. Medo de deixar a mãe sozinha, que sofreu tanto a vida inteira. Medo de sair e dar tudo errado como das outras vezes e voltar a morar com a mãe. Medo de não encontrar alguém para amá-la. Porque Maria ama muito.

Depois de muitos lenços, combinamos com Maria de refletir sobre o que ela queria e o que faltava para colocar em prática, fortalecer sua autoconfiança, empoderar-se. Pensar em conversar com sua mãe sobre se mudar.

Agendamos um retorno em 15 dias, 13 de maio, às 9:20. Anoto em um post-it e colo no computador.

13 de Maio de 2019.

Terminei de atender os 11 pacientes, apesar dos choros, gritos e da tristeza que contagiou todos da sala de espera. Hora do almoço no restaurante de sempre.

Na volta à clínica, turno de planejamento. Percebo que ainda há muitos familiares da paciente falecida no corredor. A porta do consultório da frente está aberta com familiares dentro. Nosso corredor se tornou um velório. O corpo da paciente ainda estava na UPA.

Uma mulher, de cinquenta e poucos anos, está sentada, alternando o choro com a calma inquietante. Deve ser a mãe. Tem mais pessoas. Reconheço uma delas. Paciente jovem, vinte e poucos anos, há duas semanas veio em consulta para inserção de DIU. Pessoa muito bacana. Ela me nota. Fico triste por vê-la chorando, mas prefiro deixar para falar com ela outra hora.

Encontro meu preceptor. Ele conta que ela era uma paciente que ele conhecia, faleceu de uma pneumonia grave na UPA. Internou há 4 dias, evoluiu muito rápido. Diz que ele está conversando com todos da família, inclusive, a menina jovem que eu reconheci no corredor, é irmã dela. “Se precisar de ajuda, me avisa”, eu falo. Volto para a preceptoria e começo meu planejamento.

Algumas horas depois, a enfermeira da nossa equipe chega e diz ter ficado bem triste com a situação. Tinha dado uma olhada no prontuário dela. Era uma paciente que não veio anteriormente por nenhuma queixa pulmonar. Na verdade, tinha vindo há 15 dias por outro motivo. Em uma consulta comigo.

“Comigo?”

“Sim, uma inter com a psicóloga”

“Qual o nome dela?”

“Maria…” Checo no prontuário com o nome completo.

Conheço Maria.

Trinta e dois anos.

Tivemos duas consultas juntos.

Cheia de angústias, tristezas, medos e incertezas. Mas cheia de amor, planos e desejos. Maria mãe, filha, irmã. Maria como tantas Marias que atendemos.

Lendo o meu relato no prontuário eletrônico, recordo-me do seu rosto, do seu choro, do seu sorriso ao agradecer os tantos lenços que dei e do seu abraço na nossa última consulta. Nem sempre me lembro das várias consultas que faço, mas costumo me lembrar dos abraços no final. O dela, em especial, tinha jeito de alívio por se abrir e contar tudo, de se fazer ouvir. As decepções amorosas, a culpa de querer se separar da mãe, de abandoná-la, a tristeza por sua mãe ter sofrido tanto e ela agora também. Mas também foi um abraço com jeito de esperança, de colocar planos em prática, de aprender a se amar antes de qualquer outra coisa. De se descobrir.

Olhando agora o corredor, tarde de segunda-feira, e a família e amigos de Maria ainda estão lá. Ela era muito amada.

Talvez, em algum outro universo, Maria tenha vindo na consulta do dia 13 de maio, às 9:20, após um resfriado. Tenha me contado que tinha conversado com sua mãe e que, mesmo com o medo de deixá-la, tenha conseguido um apartamento para morar com a filha. Que iria se amar, antes de qualquer coisa. Que iria se conhecer, se curtir. Que iria viver sua vida, cuidar de sua filha.

No meu computador, ainda está o post-it amarelo: “Maria, 13/05/19, 9:20”.

É estranho. Às vezes, parece que somos os únicos a guardar as histórias de nossos pacientes, que procuramos saber mais, entender melhor, saber o que sentem, quem eles são e deixar esse registro na história, como biógrafos de livros nunca publicáveis. Histórias como a da Maria que, em duas consultas, abriu seu coração para se descobrir e seguir vivendo. E, de alguma forma, vive.

A filha de Maria mora hoje com sua avó e sua tia. Seu pai entrou na justiça para ficar com a guarda da menina. Nós contamos para ela sobre o falecimento de sua mãe, junto com sua tia, o pai e um primo, à pedido deles. Uma das consultas mais difíceis que presenciei na vida. Ela é um amor de criança. É a cara de Maria e tem os mesmos olhos da mãe. Agora eu me lembro, eram verdes.

La Femme Fatale

por Humberto Sauro

História da tuberculose

Os gritos podem ser ouvidos no corredor, são de indignação, e se ouve apenas o indignado. Duram dois minutos e 43 segundos para quem os acompanha por detrás das paredes de aço galvanizado. Até que a senhora abre porta e sai da sala, ainda mais leve, dado que é magra entre o frágil e o esbelto, no alto de seus 73 anos. Sai, como se estivesse vomitado quase três minutos de reminiscências indigestas. O colega médico entra. O confidente está atordoado mas consegue maquinalmente reproduzir o desabafo na tentativa inclusive, de buscar compreender. Ermínia lhe cobra o laudo da tomografia de tórax de sua filha Magda, resultado este, que extrapolou em duas semanas ao menos, o prazo estipulado.

O médico assistente não checou, não buscou como prometido. Daí a revolta
justificada. Magda depende do exame para ter a confirmação da suspeita diagnóstica de tuberculose miliar e iniciar o tratamento para aquilo que lhe consome em tosse e febre nos últimos três meses e não minutos.

Há um agravante, Magda que era diligente agente administrativa, autônoma e vaidosa nos registros de 83, abriu quadro de psicose, desmanchando noivado e voltando para colo de Ermínia, desorganizada e pueril.

O médico é jovem, em início de carreira ainda, recém chegado naquela clínica obedece seus fluxos e diretrizes. Na suspeita de tuberculose lhe reforça a responsável técnica da unidade, é preciso isolar o bacilo colhendo duas amostras de escarro do doente, estando a liberação das medicações pela farmácia, sujeitas a essa etapa diagnóstica. Fidelidade irrestrita à algoritmos e protocolos é capaz de solapar máximas da sabedoria prática acadêmica como o entendimento unânime de que a clínica é soberana, ou seja, frente a sinais e sintomas clássicos de certa entidade, os exames complementares são prescindíveis.

Lembrara também dos postulados de Kock (1), que seu catedrático professor de tisiologia a época da faculdade de medicina volta e meia enunciava em francês: — Cherche le bacille car il cherche une femme (2), assim, incorporava as ordens resignado e justificava sua inércia clínica, enquanto Magda definhava a olhos nus, expurgando matinal catarro sanguinolento em sua pequena casa de dois cômodos no alto da escadaria do Morro da Bahiana.

Como a tuberculose miliar é de disseminação hematogênica, corre pelo sangue e não pelos brônquios pulmonares, o escarro mesmo que Magda colaborasse diligentemente em expectorar 20 ml por duas vezes não fornecendo apenas inúteis amostras salivares como o fazem as crianças, mesmo se … nos frascos, não revelariam a fêmea ideal.

Sem saída institucional, impedido de praticar qualquer empirismo, fustigado pela preocupação da mãe, sensível ao sofrimento da paciente, pensou em fazer um exame de imagem de alta definição (3) e com a fêmea fotografada, com silhuetas mais precisas que ao Raio-X, teria indícios incontestáveis dela por trás de tudo. Porém, um pedido, um papel é apenas mais um obstáculo pelo qual uma idosa e uma esquizofrênica hebefrênica devem lograr êxito ao descerem uma escadaria, deslocar-se até o centro da cidade por transporte público, chegar no horário, enfrentar fila e contar com o bom comportamento de Magda em paralisar-se dentro de máquina enclausuradora.

O jovem ainda carrega ímpeto aventureiro e combina-se uma carona no dia do agendamento. Encontra Magda e Ermínia no alto dos 128 degraus. Magda está de bom humor naquela manhã, menos desorganizada em seus pensamentos e afetos, o asseio e as vestimentas são dignas de um dia de passeio, desce apoiada nos braços de seu chofer, enquanto Ermínia segue atrás, com as bolsas e os cuidados. O trânsito está fluido e todos os receios se desmancham com a postura de Magda ao longo da empreitada, em nenhum momento resistente, sob qualquer desconforto ou pedido, não responde agressiva, dócil até o fim da subida ofegante no retorno ao lar.

Em quinze dias estará pronto o ensaio, a fêmea capturada em diferentes ângulos. O doutor compromete-se a buscar as provas e se despede da família até o próximo e decisivo passo.

Chafurda-se porém em outras centenas de casos, em quinze dias envolve-se com outras inúmeras pendências e esquece do tratado. Ermínia não esquece, na verdade é a única coisa que lembra todas as noites: — Estará pronto o resultado da tomografia? — Poderemos iniciar finalmente o tratamento e salvar Magda? Sem resposta, cada tossida de Magda, cada olhar para aquele corpo esquálido, cada confronto para o cumprimento
mínimo das atividades da vida diária com aquela mente descabelada é empurro para descer mais uma vez as escadarias e cobrar a merecida atenção. Daí que se energizou para vociferar contra um garoto de jaleco que ouviu calado e sentado uma senhora lhe desconcertar como jamais seu austero pai o havia feito.

Tal como filho repreendido após advertência escolar, cumpre-se com a retirada dos documentos. Apreciando as fotografias, o médico enxerga: nódulos centrolobulares de distribuição segmentar, cavidades de paredes espessas, espessamento de parede bronquiolar, bronquiectasias e linfonodomegalias e se emociona: — É ela! Aliviado, após exaustiva busca, convoca a paciente e sua acompanhante, o esquema medicamentoso é enfim iniciado.

Toda uma nova luta começa para Ermínia, Magda e uma nova personagem, Elza, agente comunitária de saúde responsável por controlar a administração do TDO, tratamento diretamente observado. Apesar de todo o esforço do time, as coisas não vão bem.

Há dias em que Magda refuga os grandes e nauseantes comprimidos, come porções de passarinho e os surtos enlouquecem Ermínia. Já era difícil mascarar os antipsicóticos na pouca comida ingerida.

O médico esquece novamente, entende como cruzada vencida. As jornadas de atendimento e a insolubilidade diagnóstica e terapêutica de outras magdas e ermínias o ocupam agora.

Quando Elza sinaliza o grave estado para o qual evoluíra sua cadastrada, ele porém não retarda em solicitar sua internação. Dessa vez, não precisam ir no carro particular, sem favores, caronas, informalidades ou medidas heróicas, apenas o adequado funcionamento dos fluxos previstos que se engrenaram harmonicamente naquele fim de tarde, desde a liberação da vaga em leito hospitalar até a chegada da ambulância. Magda fica, Ermínia fica num vai e volta. Elza e o médico voltam. Seu tórax é drenado mais de uma vez, ela é sedada e contida, sabe-se lá como fazem melhor o TDO do que Elza e a mãe, ou se mesmo conseguem fazê-lo.

A fêmea é fatal.

Ermínia passa na clínica uma última vez, avança pelo guichê de recepção sem se identificar ou aguardar ser chamada, entra na sala decidida, sem bater, encontra o médico em sua cadeira em seu computador, por três minutos, ninguém nada ouve no corredor, sai em luto, sai em paz.


[1] Koch publicou 4 postulados em 1882 que são utilizados até hoje na microbiologia: 1. Quando há uma doença, um microrganismo distinto sempre pode estar associado; 2.O microrganismo patógeno deve ser destacado e cultivado em meio de cultura nutritiva, em condições favoráveis para obter o crescimento de sua população para verificação dos sintomas e de sua imagem. Este crescimento dado na cultura, quando inoculado em um animal saudável suscetível, apresentará a doença específica e seus devidos sintomas;4.A recuperação deste microrganismo no animal contaminado neste segundo momento para a verificação comparativa de suas características, que devem permanecer idênticas às observadas anteriormente.

[2] Do francês: Busque o bacilo como busca uma mulher. Academicamente refere-se a mulher da vida, a fêmea ideal.

[3] A tomografia computadorizada de alta resolução do tórax pode sugerir fortemente atividade da doença, sendo particularmente útil nos pacientes com baciloscopias negativas e/ou radiografias indeterminadas, permitindo a instituição de tratamento adequado, antes mesmo do crescimento da micobactéria em meio de cultura (CAMPOS, 2002).

Olhar à deriva

por Aarão Carajás Dias dos Santos

Imagem1
Andava como se navegasse em mar revolto, tateando no vento alguma âncora para se manter firme…no meio de tantas ondas dois olhares faróis o avistaram…mandaram sinal para meu barco que então mudou a direção…é que gente como a minha costuma ter o coração como bússola.
Conheci então seu Antônio, usuário que vinha atrás de uma improvável consulta com o Oftalmologista visto que a fila de agendados estava alta. Portador de glaucoma e sem estar sendo acompanhado há mais de um ano e meio trazia no hálito etílico das 8 horas de uma terça-feira a assinatura de alguém que lutava para não esquecer de si.
– Olá seu Antônio, em que posso ajudar?
– Gostaria de uma consulta com o médico da vista.
– O sr. está agendado?
– Não.
– É acompanhado em algum posto?
– Faz mais de ano que não vou, não consigo…
– E o que fez o sr. vir hoje procurar nossa ajuda?
– Quase não consigo ver, minha vista turva…
– Vamos ver o que podemos fazer…
Seu Antônio tentava assim um raro suspiro de vida em uma história de motoqueiro fadada ao fim com o início do problema de vista. Conseguimos o encaixe e ele foi visto pela equipe de oftalmologia. Quando dei a notícia de que haveria a consulta…senti uma reação incomum….parecia que há tempos não era ouvido e que estava sem entender o que sentir por ter sido ajudado…ele então segurou meu ombro e se permitiu ser guiado até a sala…
Saia da deriva pelo simples fato de confiar…
Antes do último passo em direção da entrada ele se virou, procurou o rumo da minha face e disse…
– Eu sei que minha vista é embaçada, quase não enxergo normalmente, mas tenho certeza de que agora ela está turva não por causa de meu problema, mas por causa de minhas lágrimas….muito obrigado pela ajuda.
Naquele momento senti o mar revolto se transformar em um banzeiro de rio…o reencontro dele com a paz de espírito por estar vivo o retirou da tormenta de seu entorno…
Após a consulta o levei para agendar os exames que ocorrerão na semana que vem e em seguida para consulta com o serviço social…
Se é dito que precisamos agir com todas nossas possibilidades como se estivéssemos com o braço levantado na direção do ombro da pessoa em nossa frente…acredito que nós da MFC* cobrimos com braços de gigantes.

A âncora que o prendia foi amarrada em balões e então flutuou…seu Antônio não mais navega à deriva, agora ele voa com as borboletas…e tem a certeza de que está vivo.

Aarão é médico de família e comunidade de Belém-PA. Atualmente em Recife-PE
*MFC=Medicina de Família e Comunidade
Imagem: poster “Homem à deriva ao olhar para si”, Galeria Susano Correia

Amigo é coisa pra se guardar do lado direito do peito

por Isadora Vianna

Dna Ácido Desoxirribonucléico - Gráfico vetorial grátis no Pixabay

 

Nos encontramos algumas vezes  e tínhamos grandes  poucos minutos de conversas que nos rendiam descobertas, choros, memórias, força e sorrisos. Um dia, ela entrou na sala, usou o comum ” olá, minha amiga!” e disse:

– Preciso muito falar com você. Não tenho consulta marcada hoje mas preciso muito que você me escute.  

Ela esperou o fim das consultas e entrou. Antes mesmo antes da porta fechar o choro iniciava com soluço, olhos vermelhos, dificuldade de falar e tudo que um choro da alma traz.

– Sabe aquele concurso que a minha filha estava fazendo, ela passou. Eu estou feliz por ela, estou feliz por nós. Criei essa menina sozinha, como você sabe, e ela está chegando lá. Eu não poderia estar mais feliz né, minha amiga?

– É uma notícia ótima. Parabéns para vocês! Mas e além da felicidade, o que mais a sra está sentindo?

Ainda chorando muito.

– Estou me sentindo péssima, a pior mãe do mundo, um monstro.

Na verdade, eu não queria que ela fosse, queria que ela tivesse passado mas que ficasse para sempre ao meu lado. Essa menina é minha vida, eu nunca fui alguém até ela nascer. Não me sentia boa filha, mulher, esposa, amiga, mas ela me tornou uma boa mãe. Sem ela eu vou morrer, tenho certeza. Eu tenho aquele problema do coração que você sabe. Não vou resistir! Mas não posso falar isso pra ela.

– Porque?

– Porque aí ela não vai, e aí as coisas podem não ser tão boas para ela aqui, e isso também acabaria comigo.

– Vocês já conversaram sobre isso?

– Não conseguimos.

– A sra acha que deve?

– Eu tenho medo. Mas acho que seria bom para ela saber do meu amor e eu me sentir amada também. Será que estou carente só de saber que ela vai morar em outro lugar?

– O que a sra acha?

– Tenho certeza que sim. Tenho medo de voltar ao que eu era antes dela.

– E isso é possível?

Já sem lágrimas..

– Não, eu cresci muito. Eu era fraca, hoje não me sinto assim.

Abriu um sorriso.

– Nossa! Na verdade sou muito forte, olha esses mulherões que criei, ela e eu!

– Sim, no início da consulta a sra lembrou disso.

– Verdade, me deixei levar pelo medo e esqueci de quem sou. Eu sei que vou resistir, vou ter saudades sim, mas não tem problema né?

De novo perguntei – ” o que a sra acha?”

– Eu acho que a minha saudade é aquele negócio que vi na TV: “ninho vazio”.

– E esse ninho vai ficar só vazio ou pode ser preenchido com algo mais?

Mas ela me devolveu com outra  pergunta olhando bem fundo nos meus olhos:

– Você quer ser minha melhor amiga?

– Já não somos?

– Verdade, para quem eu contaria tantas coisas da minha vida.

Caiu na gargalhada.

E levantou por conta própria para ir embora falando:

– Ninho vazio o quê?! O meu está preenchido pelo meu coração com alegria, por mim, pela minha filha e pela minha nova velha amiga, você!

Nos abraçamos.

 

E foi assim que vi um ser humano conduzindo sua própria saúde diante dos meus olhos pela sua própria força. A minha paciente acima, além de todo medo e mágoas que trouxe à consulta, apresenta um quadro  de dextrocardia, coração do lado direito. E assumo que adorei saber que ocupo um espaço nesse canto do peito dela.

Gratidão, medicina de família  e comunidade, por existir e se permitir ser norteada por forças tão transformadoras como universalidade, integralidade, equidade e também a amizade. 

Uma consulta de cor(ação)

por Michelle Venâncio

Sexta-feira, Maio de 2019. Ambulatório de Saúde Mental.

Atendo uma mulher negra, sorriso tímido, passos modestos. Aqui, vou chamá-la de Francisca. Já havíamos nos conhecido há 15 dias, quando veio ao posto para acompanhar seu marido. Naquele momento, notei que também precisava ser cuidada, ao que me respondeu: “Vou marcar consulta pra mim, bem”. E assim o fez. Pedi para que se sentasse e ficasse à vontade para conversarmos, mas ela utilizou só a beiradinha da cadeira. Totalmente inclinada para frente, era como se seu corpo clamasse por ajuda. Queixa principal: “renovar as receitas dos remédios da cabeça”. Um histórico de irritabilidade, ansiedade, depressão, exaustão, que pioraram depois do adoecimento do marido, de quem é a única cuidadora. Continuamos conversando, até que em determinado momento ela fala: “Porque a gente que é preto assim, bem, sabe como é…” Perguntei o por quê. E, com muitas lágrimas, me conta todos os episódios de racismo que sofreu com a família do esposo, de descendência italiana. Eu, emocionada também, pergunto se isso traz sofrimento a ela, que afirma que a adoece “tanto quanto os problemas da cabeça”. Questiono se já havia dividido isso com algum médico ou algum outro profissional de saúde. “Ah, não, bem. Falei pra você só, porque você é de cor que nem eu, de certo ia entender.” ‘Bem’ é a forma carinhosa com que se referiu a mim durante todo o atendimento. Pela fala de Francisca fica evidente que representatividade e empatia importam muito para um cuidado integral, daqueles que aprendemos lá nos bancos da Universidade. “Até voltei a estudar, bem, quero ser alguém.” Afirmo que, pra quando chegasse à frente do espelho, no auge dos seus 56 anos, olhasse bem profundamente pra ela e reparasse que seu cabelo não é duro; que seus traços não são rudes; que é uma mulher forte, linda e inteligente. Renovo suas receitas, com a esperança de que um dia não sejam mais necessárias. E digo que estaremos juntas, sempre, seja na unidade ou não, uma torcendo pela outra, porque ainda que a sociedade diga que não, somos muito capazes. Nos despedimos com um longo abraço e com muitas lágrimas.

(…)

Sábado passado, eu participava do I Seminário Nacional de Saúde da População Negra na Atenção Primária à Saúde. Já havia experimentado (e ainda experimento, infelizmente) os efeitos do racismo na minha vida, mas ficou escancarado pra mim como o racismo adoece também as pessoas que atendemos. 80% das pessoas que utilizam o SUS são negras. É preciso estar com os olhos e ouvidos atentos, porque muitas vezes não exploramos essas queixas, uma vez que racismo não tem CID (código internacional de doenças). Em diversos momentos penso em desistir, mas dias como ontem me fazem perceber que é preciso cuidar dessas pessoas. Que bom que eu estava lá, melhor ainda que ela estava lá. Seguimos.

Coisas do coração – parte 2

por Carolina Reigada

Pão de queijo é amor

“Eu vim pra senhora renovar minha receita e falar dessa dor nas costas”

“Então me fala a senhora, como é essa dor nas costas?”

Ela descreveu a dor mecânica, conversamos sobre dores no corpo, uma certa hora eu falei:

“Músculo é tão doído que às vezes dói longe. Tem músculo nas costas que faz doer o peito”

“Ah, eu tenho dor no peito, também. Mas essa a senhora não consegue curar, nem eu quero que cure”

“Por que? Que dor é essa?”

“Essa é do meu menino, eu acordei, fiz café, fiz pão de queijo, arrumei no prato pra ele, quando cheguei no quarto dele, ele tava morto na cama.”

“…”

“Ele tinha 24 anos. Um menino de ouro. Nunca me deu trabalho. Desde que ele morreu, tem essa dor aqui. Não vai embora, não. Sempre que ela vem, eu lembro dos pãezinhos de queijo quentinhos, arrumados no pratinho.”

Há 20 dias comecei a trabalhar aqui, nessa pequena cidade.

por Ana Samantha
Como Destruir seu Coração em 5 Hábitos

” Boa tarde, dona Maria. meu nome é Ana. O que houve com a senhora?”

” Ah, eu sei que seu nome é Ana! Vi você dando entrevista na TV, avisaram que você tinha chegado na cidade…”

” Eu não dei entrevista na TV, não, dona Maria.”

” Não?? Ah mas mostraram você no jornal sim, o facebook e tudo…”

Guri. 7 anos.

” Ah, já acabou a consulta, tia?”

” Sim, a gente tá há 40 min aqui! haha”

Entrego a receita nas mãozinhas dele e não pra mãe, pra ele se sentir importante. Ele olha pro papel:

” Aaah, agora sei pq tu é médica… olha esse garranchos!”

Fomos eu e a equipe visitar uma senhora em casa, lá pelas 15h da tarde. Ela abriu a porta da casa:

” Que sorte de vcs! tô fazendo pão, tá quase prontinho!”

Menino, 13 anos, tava triste por ser o segundo mais baixo da turma.

” Dotora, me ajuda a crescer?”

Guria. 16. Me olhou de cima a baixo enquanto eu escutava o coração dela:

” Eu quero ser médica, sabia? mas não assim que nem tu. eu quero abrir crânios.

Senhor, 85 anos. Abrigo e boné de esportista.

” Dotora, tão dizendo ela até chorou quando voltou pra cuba, sabia? A gente gostava dela! E isso que a gente nem entendia o que ela falava… e agora veio você, pra gente aprender a gostar também.”

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Eu quero sentar na porta de casa e escutar o último álbum do Cícero inteirinho, sem me sentir na obrigação de parar pra acompanhar as notificações da palestra e do grupo da turma. eu preciso terminar de ler aquele livro de 700 páginas que me deixou de cabelo e neurônios em pé, quero investigar o caso clínico que assisti na aula e que ainda não tem resposta, em casa, tomando chá, me sentindo num seriado investigativo. Quero plantar boldo, desenhar, aprender a tocar a flauta que me espera em cima da prateleira desde o dia que ganhei, em alguma parte de 2015. Quero arriscar Sartre, viajar pra Floripa, estudar astronomia, vegetarianismo, banheiros secos e a história de todos os ruivos.

 

Pro bem e para o mal, nesse mundo que me diz pra especializar meu cérebro e atenção, eu fundi um coração generalista
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Sofá

Sofá

Por Ricardo Mannato, acadêmico de medicina

Chamava-se Norminha Cachaça, para que não a confundissem com a outra Norma da comunidade, a da igreja. Uma senhora baixinha, atarracada, cabelos loiros oxigenados e que acendia um cigarro no outro, depositando os restos em um cinzeiro com formato de pulmões, que há muitas camadas pretas atrás já não tinha mais sua coloração rosa.

Estava há dez anos sem sair de casa, desde que seu marido faleceu. Tinham um bar juntos e do dia pra noite ele não estava mais lá. Tão dedicados ao estabelecimento, não tiveram filhos. Sozinha no mundo, vendeu o que podia, apressadamente, e se trancou em quatro paredes. Qual graça teria a vida sem as prolongadas e sonoras risadas do companheiro? 

Era brigada com as irmãs e vizinhas, não suportava mais ter que ouvir que tinha que sair do sofá pra viver. Vivia bem ali. Olhava as crianças brincando pela janela, tomava conta do trintão que alugava um quarto dos fundos de sua casa, tinha muitos canais televisivos que a faziam companhia durante o dia e alimentava os cachorros da rua. 

Quando botava o pé fora de casa, o coração acelerava, o ar lhe faltava, as pernas ficavam bambas. Pior do que a morte é o presságio dela. Tentou, falhou, tentou, falhou, desistiu. Sempre que precisava de algo da vendinha ou da farmácia, seu locatário-amigo-filho prontamente ia lá buscar. Ou então era só dar um trocado pros meninos que jogavam bola na sua soleira. Sair pra que?

Na verdade, bem que sentia falta dos finais de semana em Petrópolis. De uma boa praia no verão, daqueles banhos de mar de lavar a alma, dos churrascos de domingo, da cachacinha com os amigos. Sair de casa tinha seu charme. Mas não conseguia nem pensar nisso: o medo rapidamente a dominava e transbordava pelos olhos. 

A longa conversa já a acalmou um pouco e, por fim, aceitou o remédio. Um mês depois, voltamos para uma nova visita e Norminha vibrava em uma onda diferente. Já caminhava em sua rua, fazia suas compras e foi até no aniversário da irmã, que morava a uns quarteirões de distância. Bateu na porta e todos se chocaram ao vê-la fora do sofá. Foi muito bom, mas não se prolongou demais. Pactuamos que a próxima consulta seria em um mês, na clínica. Ela respirou fundo, apagou o cigarro, deu umas tossidas e riu. É, acho que consigo ir até lá. 

O dia chegou e Norminha não apareceu. Antes que fossemos visitá-la, a notícia nos encontrou; elas viajam rápido, dizem por aí. Norminha cachaça faleceu como o marido: um dia estava lá, no outro não mais. Deixou no sofá a marca do corpo, no cinzeiro a marca das mágoas e em mim a marca do agora. 

Saia do sofá, enquanto ainda há tempo.”

Pan demo

Pan demo

Por Alfredo de Oliveira Neto, médico de família e comunidade

Nunca me instalaria no meio do caos

dessaturando a utopia

mas eis que preciso lavar uma pia

e estender a roupa amassada

de toda uma geração enclausurada

o pão não é nosso

e a cada dia

endurece mais o meu encantamento

chega de rimas!

saudade já foi coroada

mas arrebento

e em cima desta pedra cansada

me destroço na cidade vazia

pandemia

amanhece cristalino

de um azul-desgosto

anoitece vidro-fosco

de que vale esta tempestade de citocina?

a quarentena, todas as posturas de Yoga

o relatório do FMI

Estados Unidos e China

as modalidades psicoterápicas do enfrentamento

as lives de Paul McCartney, Rolling Stones

e Ludmilla?

de que valem os tacanhos da cloroquina

e do anti-isolamento?

se hoje

no Morro do Alemão

a aurora se pintou de sangue e tinta preta

e que ninguém se esqueça

da menina do balão amarelo

se rodopia, acaba o brinquedo

ninguém fica mais velho

ela ria

ria

ria

pandemia

(Texto escrito em 16 de maio de 2020)