Extração dentária

por Pedro Mendonça de Oliveira

Imagem relacionada

Ontem, em meio às consultas, comentei com uma paciente que dali a poucas horas faria uma extração dentária. 
– Ixi, doutor, tá com medo?
– Tô ansioso, sim. Não vou negar. 
– Ah, eu também já arranquei tanto dente.
– E foi muito sofrido?
A paciente enche os olhos d’água. Pego um lenço de papel, entrego, e espero ela retomar:
– Na verdade foi meu ex-marido, doutor. Mas tudo bem, já foi. Bola pra frente…

Anúncios

Suicídio

suicidio

 

Por Carol Reigada

Setembro foi escolhido para ser pintado de amarelo e dedicado a aumentar a conscientização sobre o suicídio. Tenho pensamentos contraditórios sobre essa onda de colorir os meses com doenças. Por um lado, legal aumentar a discussão sobre o assunto, por outro, é tanta iatrogenia e tanto ganho comercial em cima disso! Por exemplo, Suécia já suspendeu as mamografias de rastreamento de câncer de mama, pois viu que mais atrapalhou que ajudou – mas a bola do último jogo da seleção brasileira (contra o Chile), era rosa, só por causa do “Outubro Rosa”. Meio ridículo, mas não é o ponto.

O ponto é o suicídio.

Médicos não lidam bem com a  “Morte”. O que é meio irracional, já que ela chega para todos nós. Mas, para os brios dos doutores, é como uma derrota. Porém, perder um paciente, um familiar, um amigo, um conhecido que se mata…Não é exatamente derrota, é um pesar que pesa desde a consciência até o coração e parece que chumba a própria alma. “Como não percebi que era tão grave? Como devia ser, sentir esse desespero e só ver a morte como saída? Eu devia ter feito alguma coisa.”

Trabalhando como médica de família e comunidade, são raras as vezes em que realmente sinto que “salvei alguém”. Afinal, não estou no serviço de emergência reanimando corações que pararam de bater, nem atendendo a acidentes pela rua, dentro de uma ambulância. Digamos que nosso “salvar” é físico e psíquico, mais a longo prazo, mais compartilhado e menos heróico, na definição “super-herói” da palavra.

Certa vez, atendemos a um senhor de 56 anos. Estava, ironicamente, com uma blusa de botão amarela, clarinha. Não era setembro, devia ser novembro. Ele veio com uma dessas queixas que te fazem respirar fundo, como “dor na ponta do dedão quando eu como alho”, ou algo assim. Mas tinha algo de profundo na forma de falar sobre sua queixa estranha, tão profundo que mereceu um olhar mais atencioso, um toque de leve na mão e a pergunta: “tem mais alguma coisa acontecendo?”.

Ah, mas tinha. Seguinte: ele ia se matar aquela noite. Comprou chumbinho e umas giletes, resolveu que se não fosse por um jeito, seria por outro. Tinha vindo uma última vez, tentar conversar. Senti o peso da responsabilidade daquela consulta. A dor na ponta do dedão, blablabla, se tornou uma tonelada na minha cabeça.

Rede social? Uma ex-mulher que ele não conseguia se livrar, um irmão que trabalha muito. Ligamos para o irmão, ele veio, conversamos. Combinamos o seguinte: o irmão foi com ele até a casa dele, e tirou tudo aquilo da casa: chumbinho, gilete, faca, corda…. Voltou com tudo para o carro dele e jogou na lixeira. Naquela noite, e em algumas seguintes, meu paciente de blusa amarela dormiu na casa do irmão.

Começamos o tratamento e as coisas foram seguindo. Ele entrou no grupo de atividade física da unidade e passava lá para “tirar a pressão” algumas vezes por semana. A vida ia correndo.

Dois meses depois, ele veio reclamar que estava rouco há uns dias, por causa de uma gripe. Duas semanas depois, e nada da rouquidão melhorar. Conseguimos uma laringoscopia que o levou direto ao INCA: câncer de laringe. A equipe ficou pra baixo, mas veja só, ele não! Consultou, tratou, operou e retornou ao grupo de atividade física. Voltou a medir a pressão de vez em quando, só pra dar um oi. Resolveu o problema com a ex-mulher. Fez novos amigos.

Esse setembro me fez pensar sobre o suicídio, e lembrei desse paciente. Foi um dos poucos que senti: “salvei”. E me fez sentir ainda mais responsável: aquele homem estava desesperado e achava que não tinha saída. Ele ia se matar. Naquele dia, não foi preciso internar, ou de uma grande tecnologia para salvá-lo. Bastou o telefone celular e a disposição do irmão. Com alguns dias, o paciente percebeu que a vida tinha mais coisas a oferecer, tinha mais saídas daquele labirinto. Nosso único trabalho foi ajuda-lo a passar por aqueles poucos dias. Para metaforizar, foi só dar a mão enquanto ele passava pelo túnel.

Pensei como teria sido se ninguém tivesse tido a sensibilidade de perguntar melhor sobre o que ele estava passando. Se ninguém tivesse ouvido. Se o irmão não tivesse intervido tão prontamente. Se ele não tivesse ido na clínica da família naquele dia.

Nós, médicos de família e comunidade, não salvamos pessoas cotidianamente. Mas não podemos nos dar ao luxo de não ter os ouvidos a postos. Nunca sabemos quando eles podem ser os heróis do dia.

O dia em que lidei com a morte pacificamente

andressaPor Andressa Paz*

“When the rain falls down / What brings it back? / Opens the resurrected cloud / From white to black / It’s a second birth / For dying skin / In my coffin…”  (My coffin – Jon Foreman)

       Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ”  Então, lá vou eu me aventurar na história do dia em que lidei com a morte pacificamente.

     Esse causo começa com uma jovem estudante do 4º ano de Medicina no Rio Grande do Sul indo fazer Visita Domiciliar em um pequeno município horas e horas e horas Rio Amazonas adentro. Porém, essa história não é sobre a garota (eu, prazer), mas, sobre a ocasião em que ela compreendeu o real sentido da expressão “Descanse em Paz”.

     Tudo começou com um “Olá! Bom dia, dona Chica! A gente soube lá na base que a senhora pediu para virmos até aqui ver o Seu Antônio…”, e assim começou a entrevista médica:

  • Ô, ele não tá bem. Ele nem fala mais e também não tá conseguindo andar direito. Também ele tá com fastio e não come desde o dia que ele teve aquela diarréia braba!
  • Huummm… E como foi essa diarréia, dona Chica? A senhora percebeu se ele está sofrendo ou com alguma dor? Conta um pouquinho pra gente.
  • Foi semana passada… Faz uns 5 dias desde essa vez. Ah, e era um cocô tão fedido que a gente nunca tinha visto! Só que uns dois dias atrás ele não fez mais… tá bem trancado. Olhe, mas nós tentamos alimentar esse homem… Até colocamos uma comidinha batida no canto da boca dele, usamos algodão também, mas a única coisa que ele quer é água e dormir. Estamos tentando dar os remédios que o doutor passou e umas vitaminas também. Agora ele não aparenta estar com dor, mas tamo preocupados com esse fastio.

     O Sr. Antônio, um homem idoso nos seus setenta anos, já em cuidados paliativos, estava visivelmente desidratado e desnutrido severamente… Durante o exame físico, verificamos uma hipotensão e o médico mais experiente que acompanhava a consulta constatou um Glasgow 10 ao exame neurológico. No entanto, o exame que mais chamou a atenção foi o abdominal. Quando o abdome do seu Antônio foi palpado, o rosto mostrava profunda dor. Hipótese? Provavelmente passando por um quadro de hemorragia digestiva alta. Essa hipótese se confirmava ainda mais quando olhávamos para a lista de remédios de uso contínuo dele.

     Infelizmente (ou felizmente, você decide!), a conduta médica pensada não foi totalmente aceita pela família. Primeiro, foi sugerido encaminhar seu Antônio para a próxima cidade com hospital e endoscopia disponível, onde ele poderia realizar exames confirmatórios e tratar especificamente o sangramento. Só que toda a logística de transporte e a manutenção da família junto a ele na cidade grande eram muito difíceis.

     Na verdade, mesmo se não existissem grandes problemas quanto a isso, havia um fator importante que não estávamos considerando: competência cultural. A família do senhor já havia decidido que ele teria uma morte domiciliar: “Doutores, a gente não pode mandar ele pra lá… Um tempo atrás quando ele tava melhor ele falou que se a gente ao menos tentasse mandar ele pra outro lugar que não fosse aqui ele ía vir puxar nosso pé de noite depois que ele morresse! ”

     No fim das contas, seu Antônio foi medicado com Sais de Reidratação e encaminhado, por meio de uma cartinha, ao médico da Unidade de Saúde local, nossas bem pensadas opções diante daquele cenário. Essa experiência foi bem diferente e significativa para mim. O empoderamento daquela família me chamou a atenção e comecei a pensar em como eu mesma poderia empoderar meus pais e familiares para compreender de forma tão pacífica a finitude da vida e para abraçar de vez os Cuidados Paliativos e o Home Care também. Por que, não?

     O senhor Antônio melhorou bastante no dia seguinte, após hidratação, mas depois de dois dias, durante o amanhecer, ele faleceu.

        Estive pensando bastante sobre essa história. Talvez, para algumas pessoas, ela não seja pra lá de pacífica porque no final há uma morte. Bom, de qualquer forma, permaneço me apoiando no que o sábio falou um dia desses: “Na vida, o importante mesmo é a jornada. ” Acho que a jornada do seu Antônio para a morte foi pacífica e acho também que ele não vai voltar para puxar os pés da família de noite!

Em paz,

————————————————

*Andressa Paz,

Acadêmica do 4º ano de Medicina em Lajeado – Rio Grande do Sul, co-criadora do Auscultando Estórias, um blog para compartilhar experiências em saúde, amante de Saúde Rural e futura MFC.

Um conto curtinho

por César Monte Serrat Titton

Resultado de imagem para o remedio certo

“- Doutor, vim só para pedir uma nova receita do fenobarbital.”

Primeira consulta comigo na Unidade de Saúde. Em uso de fenobarbital há uns trinta anos.

Vinte e cinco minutos depois, bem mais animada, ela mesma concluiu:

“- Obrigada, doutor! Sempre quis parar de usar o fenobarbital – e saiu sem aquela receita, mas sim com a receita para o seu outro problema de saúde, do qual tivera vergonha de falar a princípio, quando eu ainda era para ela um desconhecido.”

O dia em que a Lei Áurea foi parar na gaveta

por Bernardo Lago Alves

Resultado de imagem para trabalho escravo

O ano era 1a.G. (antes do Golpe, ou 2015, pra quem não lembra das panelas).
 
Luís (identificação fictícia), 30 e poucos anos, apareceu no consultório reclamando de uma dor nas costas, bem ali na lombar, há uns 6 meses. “Só na lombar mesmo?”. “Só na lombar mesmo, doutor.”
 
Além da dor só na lombar mesmo, Luís disse que não estava dormindo direito, todo dia sentia uma batedeira no peito que vinha do nada e depois passava, andava meio irritado e percebeu que estava bebendo mais para conseguir relaxar.
Além da dor só na lombar mesmo, da insônia, da taquicardia, da irritação e do álcool, Luís também contou que foi “criado na casa de dona Sônia, onde meu pai morava e trabalhava de copeiro. Eu cresci junto com o Pedro, filho dela, a gente era da mesma idade e se dava super bem.”
“Só que aí, doutor, a gente foi crescendo, meu pai aposentou, eu fui pegando as funções dele e o Pedro entrou na faculdade. Foi aí que ele começou a ficar ruim comigo, a me esculachar, a me tratar pior que empregado. Ele queria me levar pra trabalhar na casa nova dele, só que dona Sônia não deixava”
“Como assim não deixava? E ninguém perguntou pra você?”
“Doutor, no dia que tirei minha carteira de trabalho, dona Sônia pegou ela de mim e guardou na gaveta do escritório dela. Faz uns 6 meses, o Pedro entrou lá, roubou minha carteira de trabalho e guardou na gaveta da casa nova dele… e agora eu tô trabalhando pra ele. Eles nunca assinaram nem nada, eu recebo meio salário e em troca faço as refeições e durmo lá. E seu Pedro continua me tratando mal, me xinga, não me dá descanso, não deixa eu visitar minha mãe. Vai ver é por isso que eu tô assim.”
Que fazer numa hora dessas? Sem um segundo de dúvida, olhei bem fundo nos olhos de Luís e decretei:
“Luís, você tem que aproveitar as oportunidades que a vida te dá. Já que sua carteira de trabalho foi parar na gaveta, esta é a sua deixa para virar em-pre-en-de-dor!”
Claro que não falei isso, né, pô. Combinei uma consulta com a assistente social e orientei como procurar a Defensoria Pública. Mas se fosse agora, quem sabe? Ração pra ser humano, por exemplo, já pode dar…