Uma especialidade, um conjunto de abordagens, um sentimento…

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Por: Mariana F. Ribeiro de Oliveira*

Chegando no trabalho, pela manhã, na Unidade de saúde em que trabalho há 4
anos…
– Olá! – cumprimento a técnica de enfermagem.
– Oi Dra.!!! Tudo bem? Como estão as crianças? – me pergunta a Sra. responsável
pela cozinha.
– Bom dia Dra.! Ainda bem que te vi agora cedo aqui na sala, senão passa o dia na
correria de consultas e a gente nem se vê, ficamos com ciúme desse jeito!!! – rindo,
me fala a secretária responsável pelas marcações de consultas nos outros níveis de
atenção.
E logo começamos o dia…

Primeiro paciente, Seu João, 72 anos. Vem para uma consulta de rotina, diz que  está muito bem – à todo vapor como a Sra. sabe Dotora!!! Só vim mesmo prosear um pouquinho e tirar a pressão.

Seu João, esposo de Dona Clarita, pai de Pedro, Daniel, Esmeralda, Patrícia e Maria; moram na comunidade há mais de 50 anos, conhecidos de todos. Seu João é carpinteiro, tem o ofício desde os 9 anos, quando aprendeu com o pai, diz que só para de trabalhar a hora que Deus não quiser mais, quando não puder andar, ou mexer com as mãos! De comorbidades, apenas uma hipertensão leve, nada mais; e uma energia e prazer, em viver, de dar gosto!!!
– Tchau Dra.! Daqui um tempo volto pra gente proseá mais e se pudé, passa tomar um chá lá em casa qualqué dia!! – Primeira consulta gostosa essa!!!

A segunda consulta traz uma família: mãe, filho de 3 anos e um pedacinho de gente a se formar no ventre, Leonardo será seu nome.

– Olá Vanessa! Olá meu pequeno guerreiro!! Como vocês estão?
– Não muito bem Dra., alguns problemas acontecendo e o medo de nossa saúde não aguentar! – começa a chorar.
– O que foi Vanessa? Tudo bem com você e a gravidez? E o Davi aqui, não anda bem? É o inverno judiando dessas crianças, não é?

– Não Dra. Na verdade, nós estamos muito bem, graças a Deus; o problema é com o Valdemar, meu marido, a Sra. sabe… lembra das dificuldades que passamos né? Está há 8 meses sem emprego e nossas reservas chegaram quase ao fim… eu estou mantendo a casa com meus serviços de doméstica apenas… no desespero, começou a beber Dra.! E não é pouco não! Bebe de manhã até de noite. E começou a ficar muito brabo… briga com o Davi e bate nele se eu não corro socorrer… às vezes, até eu mesma acabo levando um troco… não sei mais o que fazer…

E mais essa consulta se desenrola… agora, com enfoque na mulher; aquela que está sofrendo agressões; que leva a casa nas costas com seu trabalho e seus cuidados; aquela que passa por uma gestação não planejada e desejada apenas por um lado; aquela que não tem tempo e nem direito de sentir; aquela que segura os efeitos da bebida às vezes no corpo, na maioria das vezes, nas lágrimas!

Após um leve engasgo e até cansaço com a última abordagem, chamo o próximo paciente: esse, veio apenas por sintomas gripais, saiu com orientações de cuidado, repouso, sem muitas intervenções farmacêuticas… mas sem esquecer do chazinho da vovó e de um oferecimento de carinho e dedicação tão logo fosse preciso!

Nesse período sou chamada por Marisa, da equipe de enfermagem, precisava de orientação para um curativo. Dou uma examinada, converso com o paciente, orientações feitas, tudo bem… sem preocupações maiores. Não perdendo tempo, Diego corre – Dra., me dá uma ajuda! Seu Matias está sem receita de novo. Dá pra renovar? – Dá sim Diego, mas apenas pra uma semana e você me promete que agenda ele pra eu dar uma olhada novamente. Vamos ver se está tudo bem mesmo, combinado? – Claro que sim, obrigada Dra.!

A última da manhã era Dona Cida, 61 anos, conhecida antiga de todos da Unidade. Chega com as mesmas queixas que eu já esperava. Dores por todo o corpo, cansaço intenso, tristeza sem fim. Os remédios tinham tido efeito por um tempo, mas agora tudo voltou. Já não dormia mais novamente. Falta de ar, sem vontade de sair de casa e pouca energia para o trabalho.

– O que eu faço Dra.? Não dá pra viver assim…

Refaço minha abordagem de prevenção e promoção em saúde; pergunto se tem tentado fazer exercícios, oriento sobre a importância para melhora da dor e do sono; pergunto da alimentação; abordo a questão de saúde mental;
– Nada Dra., não consigo; eu até penso em fazer algo, mas minhas forças não deixam!

Questiono sobre a família, tudo bem, a princípio, nada que possa ter ocasionado a piora. abordagem integral realizada, observação das suas impressões sobre o problema, prevenção feita, hora de tentar um acordo de abordagem com a paciente; e nisso, se desenrola o Método Clínico Centrado na Pessoa, de nossa prática médica.

– Dona Cida, o que a Sra. acha de tentarmos uma medicação natural para melhorar o sono e aumentar um pouquinho a dose do remédio pra ansiedade? Não queria trocá-lo agora, porque estava indo tão bem, a Sra. se adaptou sem efeitos colaterais… vamos forçar um pouco mais? Mas a Sra. vai me prometer que vai tentar se movimentar mais, sair, conversar com as amigas vizinhas, quem sabe até uma caminhada!? O que acha?
– Acho ótimo Dra.! Também não quero mudar o remédio agora e nem me encher de droga pra viciar, a sra. sabe dos meus medos… Eu topo! Também, agora, depois dessa nossa conversa, até minhas dores já diminuíram um pouco, o ânimo deu uma melhorada!! Esse é o remédio mesmo, eu sempre digo pra todo mundo… vir aqui conversar com a Sra.!!! se pudesse ter isso sempre… (e dá risadas)
– A Sra. sabe que nos tem sempre que precisar, volte à Unidade de Saúde quando for necessário e nossa equipe estará pronta para te ajudar!!! – E terminamos com um abraço apertado! (Na história oculta, já desvelada anteriormente por uma relação médico-paciente muito próxima e um genograma realizado em tempo certo – uma história de abuso dela, da irmã e da mãe, por um tio, há muitos anos atrás, quando seu pai faleceu e se viram dependentes financeira e emocionalmente). Após o almoço, retorno às funções. Iniciamos na sala da enfermeira Jane, com a colocação de um DIU, em uma menina, Clara, adolescente de 18 anos, uma filha de 2 anos; sofreu um aborto provocado, com muita dor, há 1 mês, dor essa causada principalmente pela solidão da não aceitação de uma nova gravidez “solteira” pela família… quer ajuda pra não ter que passar mais por isso! Procedimento realizado sem intercorrências, agendado retorno de reavaliação e entregue preservativos, sob a orientação da necessidade de se proteger das doenças transmissíveis! – Eu sei, eu sei Dra., pode deixar que vou me cuidar agora, prometo!

Mais uma consulta, Joana traz o pai, seu Thiago, 86 anos, preocupada!

– Dra. precisamos de ajuda! O pai está muito mal, estranho… não dorme há 1 semana, fica variando a noite inteira; não reconhece a gente, a mãe, vai no banheiro de meia em meia hora; anda pela casa sem parar e chama o nome dos parentes que morreram. De dia, só quer dormir… não come quase nada… não levanta pra ir no banheiro, estamos desesperados!!! Será que o maldito alemão chegou? Mais uma abordagem realizada; avaliação ampla do idoso feita; questionários necessários ao caso, utilizados; exames laboratoriais para excluir descompensação clínica. Tenho dúvida se já inicio com certa medicação; pausa para uma atualizada com a Medicina baseada em evidências; aplicativo do celular a mão, dou uma conferida nas últimas atualizações, após falar com a filha sobre essa minha atitude de rever a literatura para tomar a melhor conduta! São liberados com tranquilidade e nova consulta remarcada em breve.

Batem a minha porta… – Dra., dá uma ajudinha a mais? Tem uma criança com febre, encaminhada da creche. – Dou sim, pode encaixar.

Terminadas as consultas, passo pela sala da coordenadora; a própria me chama. – Dra., será que tem como nos dar mais um auxílio? A Manoela está aqui, em crise novamente; está chorando muito, gritando, diz ter medo, que usou droga hoje de novo e que se sair daqui vai se matar!!!

Mais 30 minutos de conversa, com a paciente, a mãe, a coordenadora e a enfermeira. Decidimos mandá-la para UPA esta noite, para ficar sob observação, amanhã cedo terá consulta no CAPS e após, decidiremos se há necessidade de um internamento maior, em regime hospitalar. Por enquanto, conseguimos a tranquilização da mãe e da paciente, que aceita os cuidados de bom grado e é levada para UPA pelo SAMU.

Na saída, encontro Dira, uma das ACS’s de minha área. Combinamos as visitas de amanhã, 3 de rotina para reavaliação, um curativo e uma avaliação pela equipe da Odonto; uma delas é imprescindível, Dona Tereza, 92 anos, caiu em casa há 10 dias e está acamada, desde então, precisa de uma olhadinha para verificar sua evolução!

Ao final do dia, sentada no carro, retornado para casa, um sentimento… plenitude. Nos meus pensamentos… universalidade, equidade, integralidade; coordenação de cuidado, acesso, etc. É, acho que na medida do possível, deu pra abordar tudo hoje. Apesar de todas as dificuldades estruturais não citadas: falta de medicação, falta de luva, sala sem luz, computador estragado… Ok, a gente dá o melhor possível, sempre com a esperança de dias melhores… para nós e para essa população sofrida!

E esse é o único caminho da especialidade? Não!

Educação nas universidades, atendimento em saúde suplementar (nos planos de saúde), plantões 24 horas; atendimento em área rural, quilombola, indígena, ambulatório TRANS, consultório de rua; atendimento em consultório particular; tudo é possível dentro desse mundo… a única exigência? Olhos e coração aberto, para aquele que te espera do outro lado da porta, a ser chamado.

– Próximo!!!

 

*Mariana é Médica de Família e Comunidade, professora da Universidade Positivo e enviou seu Causo para nosso blog.

Caso também queria ver seu causo publicado, entre em contato conosco: causosclinicos@gmail.com

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Comunidades

qwe

Por Walter Costa

 

Na realidade

urbano-rural

de encontros

e desencontros

os desapegos

centrados

nas pessoas

(de eus e tus…)

contigenciam

fatos e relatos

em sutis narrativas

de ciclos de vida.

Em milhões de vozes

vorazes,

de sentir

e saber,

a escuta

espontânea

ou não

de uma obnubilada

resiliência

sobrepujam

medos

e anseios,

na acessibilidade

inata

de familiares

rodas de conversas.

Em multicoloridas

portas

de entradas

e saídas,

fácies

empáticas

de plurimultidões

projetam

integrais expectativas,

longitudinalmente

nas matrizes

ímpares

dos cuidados

compartilhados.

Na escuta qualificada

de singulares

olhares,

mapas,

de ruas

e artérias,

delineiam

as necessidades

solitárias

e

coletivas

de sonhos

e perspectivas

no dinamismo

migratório

de indivíduos

e comunidades.

Duca Costa

Pelo Amor de Deus passe um remédio para dormir

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Por Arthur Fernandes
Dona I. vinha há umas consultas tentando controlar a pressão. Depois, suspeitamos de diabetes. Mora sozinha. Vez ou outra reclamava de familiares. Nunca esquecia o “remédio do doutor”. Até que esqueceu o dia de colher sangue pro exame. E os remédios naquela semana. E aí veio a dor de cabeça, além da falta de sono…
– A senhora tava bem, né, dona I.? Vinha controlando a pressão direitinho… Que será que houve?
– Preocupação, doutor.
– Eita. E com o quê?
– Ah, o senhor sabe. As coisas da vida. A cabeça da gente fica cheia de coisa.
(uma filha, atrás dela, começa: é não,
é o neto, doutor!)
– O neto, dona I.? Ele já não tinha ido morar em outro lugar?
– Eu criei esse menino desde sempre, ele sempre viveu comigo e meu velho. No dia que meu velho morreu ele disse: mulher, toma de conta desse menino, dá conselho a ele. E eu dou. Vivo dando conselho. Dou conselho de manhã, depois do almoço e antes de deitar. Mas ele não escuta!
– Tô entendendo… Aí ele não escuta, a senhora se aperreia… É por medo?
– É demais! Passo a noite pensando se no outro dia ele vai viver. Só vive com companhia errada. Já foi preso. Já teve gente querendo matar ele. Essa semana vi o galo cantar todo dia!
– E o remédio vai ajudar, será?
– Oxe, num vai fazer eu dormir?!
– Vai, vai sim. Mas não vai tirar preocupação. E não vai abrir os ouvidos do seu neto.
– Pelo menos eu prego o olho!
– Pode ser. Queria saber é se a senhora vai pregar mesmo o olho, sabendo que no outro dia vai acordar pra se aperrear do mesmo jeito. Será que vai?
– Ai, doutor. É tão difícil. Eu tive 12 filhos e nenhum nunca me deu trabalho. Já esse neto, só Jesus!
– A senhora teve 12, né? Fez tudo por eles, como mãe?
– Fiz. E na roça!
– E por que não deixar a mãe dele cuidar dele também?
– Porque eu fico pensando o tempo todo nele!
– Não tem problema. Mas vamos combinar uma coisa?
– O que é?
– Quando pensar nele, pense na mãe dele também, e como eles precisam se cuidar. E que além da senhora, tem Jesus pra cuidar e carregar eles. A senhora já carregou 12. Jesus pode carregar todos nós, né não?
– É mesmo. Jesus vai dar meus conselhos a ele. E eu vou pregar o olho!
– Coisa boa!

Um lugar cinematográfico

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O consultório do médico de família é um lugar cinematográfico..

O paciente entra com dor de cólica menstrual e sai conversando sobre o último filme do star wars…

Onde mais isso pode ocorrer? Qual outra especialidade ou espaço que o médico é além de cuidador um confidente, amigo e “responsável” por discutir coisas da vida, do dia a dia.. do que a gente quiser, como filmes e livros?

Sim, a medicina de família me encanta a cada encontro e desencontro, porque também tem cinema em consultório..

Pós operatório

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Por: Felipe Monte Cardoso*
– Hoje, doutor, o que mais preciso é um raio x de coluna. É para o pós-operatório.

Desta vez foi direto, embora eu previsse ser um encontro truncado. Domingos tem estilo sinuoso e, naquele dia, percebi a sua semelhança física com José Saramago. Ele me fascina por me incorporar à faceta sobrenatural do seu cuidado. O pós operatório, saberia em seguida, era de uma cirurgia espiritual.

   Ele percebe minha perplexidade e apenas aos poucos revela sua magia. Já me prognosticou como filho do homem da pedreira. Sua preocupação maior hoje, no entanto, coincide com a minha: uma imagem estranha e suspeita no ultrassom. Recua fazendo uma prescrição dos benefícios da terapia extramundana e se coloca à minha disposição para intermediar o contato com o além. Descreve minuciosamente a preparação para a cirurgia, a competência do responsável pelo procedimento e sua fama crescente pelo Rio de Janeiro, que desbanca nomes bastante conhecidos. Como são todos estranhos para mim, ele nota meu enfado. Domingos tenta afastar o medo de câncer com esta longa digressão, e eu tento interrompê-lo para que a consulta volte a seu curso normal.

  Ele não abdica do protagonismo e prossegue dizendo que tenho poderes e que serei um futuro cirurgião espiritual após meu passamento. Fico entre lisonjeado e desconfortável com a ideia da minha morte. Após instantes imaginando minha futura carreira de cirurgião, retomo a consulta, abrindo a porta para outras queixas sem relação aparente com o procedimento recém-realizado. Minha impaciência cresce na medida da exuberância dos seus sintomas. Então ele retoma o pedido de raio x.

   Peso os prós e contras. Por um lado, a missão de não medicalizar. Por outro lado, era inegável que já era um recurso daquele cuidado transcendental. Fantasiei que era parte do meu aprendizado para a futura carreira e decidi solicitar. O que faz a vaidade, pensei com uma ponta de remorso. Mas meditei que minha curiosidade e minha posição de antropólogo improvisado por fim justificavam o exame.

   Começou então o tiroteio, que durou poucos minutos e provocou um princípio de pânico. Neste pedaço da cidade não costumava haver tantos tiroteios, e nossa clínica nunca havia fechado até aquele dia. Domingos se manteve altivo e nos tranquilizou dizendo que estava longe.

  Após me exasperar, percebi que trabalhar me manteria no prumo, e pedi os exames que considerava necessários, além da radiografia. Cortesmente, liberei Domingos e terminava o registro da consulta quando ele retornou ao consultório me pedindo outra radiografia, desta vez para o estômago. Ele disse que sua dor de estômago atual, muito intensa, foi idêntica à úlcera, diagnosticada 40 anos antes com um raio x. Desta vez, tive êxito em despachá-lo com rapidez postergando este pedido para a próxima consulta. Estava ficando atordoado com o barulho do corredor, que fervia com uma carga extra de estudantes, além dos pacientes. Mais tiros, desta vez próximos, e duas granadas, mais distantes, foram o suficientes para provocar certo terror.

   Sentia minha cabeça girar. Dei um gole no mate e busquei me recompor, quando bateu à porta uma jovem de branco que nunca tinha visto. Ela tinha uma voz serena e pedia que a acompanhasse para a sala de observação, onde havia um paciente passando muito mal do estômago. Quando abri a porta, Domingos estava com os olhos fechados, talvez inconsciente, e muitas pessoas de branco me esperavam com grande expectativa. Não vi sinal de sangue no corredor, e ninguém soube me explicar o que acontecia.

*Felipe é médico de familia e preceptor do programa de residência médica na SMS do Rio de Janeiro.

Sabonete para Cachorro

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Por Raquel Barreto Alencar (Médica de Família e Comunidade SES-DF)

Chamo o próximo paciente.
– Que a paz de Deus esteja com você.
Assim, ele me cumprimentou.
– Bom dia! Então, Francisco, o que traz o senhor aqui hoje?
– Estou com uma coceira aqui nesse braço. Já usei uns remédios que um médico passou, mas não resolveu não.
– Você sabe quais foram os remédios que usou?
– Não lembro o nome. Será que posso usar sabonete de cachorro para curar sarna?
Não dei muita atenção para aquela pergunta, pois estava anotando as informações que ele me passava.
Passei a examiná-lo e então constatei uma mancha que sugeria sarna mesmo. E durante o exame ele insistia com a ideia do sabonete de cachorro.
– Francisco, então, parece que você está com sarna mesmo. Mas, a pele do cachorro não é igual a nossa e pode não ser adequado usar esse sabonete.
– Sabe o que é doutora? É que eu estava morando na rua, e na rua a gente é tratado como cachorro e dorme com cachorros também.
Uma sensação de tristeza me invadiu.
Ele então me disse:
– Obrigada por me lembrar que eu não sou um cachorro e fazer me sentir um pouco gente.
Quando um paciente insiste com alguma ideia, é bom a gente escutar com cuidado, pois pode ter muito mais a nos dizer do que podemos imaginar.

Dona Maria

 

dia-das-mulheres

Por: Jéssica Frutuoso

 

   Conheci dona Maria 1 ano e meio após seu estupro. Após o dia que haveria de mudar sua relação consigo mesma e com os outros de uma forma devastadora. Ela não olhava nos olhos e insistia em ter alguma doença que não podia ser identificada por exames médicos. Não conseguia estar sozinha com nenhum homem e o toque masculino lhe causava um pânico desesperador, mesmo que fosse a tentativa de abraço de um irmão querido. Após alguns encontros ela me revelou o terror daquele dia. Ela estava pronta pra contar, até hoje me pergunto se eu estava pronta pra ouvir. A lembrança das suas memórias me fazem querer vomitar até hoje.

   Dona Maria se recusava a compartilhar essa história com qualquer outra pessoa, incluindo outros profissionais de saúde. Por diversas vezes me perguntei como poderia ajudá-la sozinha. Iniciamos acompanhamentos semanais e a cada encontro mais eu tinha certeza que só tinha meus ouvidos e meu abraço para acolhê-la. Em alguns momentos choramos juntas, dividíamos aquela dor que era tamanha e que transbordava, que tinha nascido numa vida cheia de preconceitos e maus tratos por ser mulher, negra e pobre, passado por violência doméstica e “terminado” no estupro por um desconhecido.

  Foram mais de 2 meses de encontros semanais até que ela conseguisse ir a um dos centros de referência em atendimento à mulher que sofre violência. Foi uma conquista que parecia quase impossível. Dona Maria finalmente conseguiu compartilhar suas histórias com outras pessoas e permitiu que o círculo de cuidados se ampliasse. Antes de ir perguntou se eu continuaria cuidando dela. Garanti que continuaríamos nossos encontros semanais até que nos sentíssemos confiantes em distanciar mais nossas conversas.

   Um dia desses conversamos sobre prazer. Ela havia começado a voltar a sentir desejos. O sono que antes era permeado de pesadelos com relação ao estupro, começou a permitir a presença de sonhos eróticos que lhe traziam bem estar. No último encontro foi bonito ver dona Maria, 52 anos, descobrir, mesmo após tanta violência, as possibilidades de prazer que o nosso corpo pode nos dar. Ver sua libertação, sua curiosidade em descobrir regiões suas que ela nunca havia se permitido tocar. Dona Maria disse que se sentia mais mulher. Estava no consultório de cabelos pintados, me olhando nos olhos, me dizendo que estava se valorizando e se sentindo valorizada, me enchendo de orgulho. Dona Maria me mostra mais uma vez o quanto o ser humano é potente. O quanto somos capazes de ressignificar até as mais terríveis violências. O quanto não posso desistir nem de mim, nem do outro nessa tentativa contínua de “ser melhor”.

   O estupro engoliu 2 anos da sua vida, vai permanecer sendo uma violência presente sempre em seu coração, mas dona Maria hoje conseguiu se fortalecer, viver e se permitir tentar ser feliz apesar dele. A violência contra mulher é real, é danosa, mata. Quando não tira a vida, mata em vida. São milhares de donas Marias espalhadas pelo mundo. Que a gente consiga estar sensível a essa causa, dispostos sempre a acolhê-las. É preciso estar atento e forte para continuar na luta contra o machismo e a favor dos direitos e da vida das mulheres.

   Hoje deixo aqui meu viva às donas Marias, às mulheres desse mundão que pra mim são o estereótipo de força e beleza que há nessa vida.