Fandangos, macumbas e xiitas

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Por Carol Reigada

“Doutora, ainda bem que te encontrei. Luisa está com diarréia e vomitando.”

   Elas me encontraram enquanto eu andava para a unidade básica de saúde, para começar mais um dia de trabalho. Luísa é a filha de 1 ano e 5 meses dela. Vinha no carrinho, empurrada pela mãe, agitando as perninhas morenas e brincando com uns papéis enquanto sorria pra mim com aquela boca cheia de saliva, os cachinhos morenos balançando com o sobe e desce do corpo pequeno.

“Tadinha, mas ela parece estar bem, tem muito tempo?”

“Foi ontem a noite e hoje de manhã. Duas vezes, mas a gente fica preocupada. Vim no mercado comprar um Fandangos, que é de milho. Milho prende, né?”

“Olha…mesmo que milho prenda, quase não tem milho no Fandangos, é uma comida nada saudável. Melhor gastar dinheiro com pão, leite, essas coisas. Mas não precisa ficar preocupada, vai lá na unidade que a gente vê a Luisa direitinho”

“Ah doutora, mas isso vai precisar do pastor. Foi porque ontem um bêbado preto que mexe com macumba encostou na cabeça dela, antes que eu parasse ele”

“Hum…é, entendo como ‘bêbados’ podem trazer confusão, mas qual o problema dele ser ‘preto’ ou ‘mexer com macumba’?

   Não tive resposta. E acho que falei demais, porque a mãe não levou Luísa na unidade – mas, devaneios sobre posturas corretas na relação médico-paciente à parte, tem vezes que o ethos (ética) da relação humana fala mais alto.

Ou foi o milho do Fandangos que melhorou a pequena. Vai saber, né?

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Depressão

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Por Carol Reigada

   O fim da tarde se aproximava, era possível perceber a mudança de luz nas folhas das
árvores do lado de fora do consultório.
Adentra a sala uma das últimas pacientes do dia. Negra, cabelos brancos. Parecia ter 80
anos, mas pelo prontuário, tinha 64. Se vestia de blusa lisa e simples, bermuda de
malha, chinelos. Carregava duas grandes sacolas com roupas. Parou na clínica da
família para falar dos remédios de pressão, antes de continuar o caminho para casa,
morro acima.
“E como a senhora está?”, pergunto para início de consulta.
“A gente leva a vida enquanto ela nos leva”, responde para início de conversa.
Pressão alta, mas os remédios não estão faltando. “É que sobram preocupações”, foi o
que ela me respondeu.
“O que vem preocupando a senhora?”
História de filme de drama. Filho sonhava em sair do morro, casou com uma menina
que sonhava em sair do morro. Ambos trabalhavam dois empregos que sustentavam
mais que a vida, sustentavam um sonho. Conseguiram, saíram. Compraram um
apartamento “sabe, desses que financia pela Caixa pro resto da vida?” e tiveram uma
filha. E a vida se estabelecia enquanto o sonho se concretizava. Até que, saindo do
segundo emprego tarde da noite, voltando para o apartamento financiado, onde mulher e filha o esperavam, o filho foi atropelado. “Um desses ricos bêbados. Não parou pra
ajudar, só foi embora”. O filho morreu, o motorista não foi encontrado.
Agora não têm dinheiro para pagar a Caixa. Não tem mais pai, filho nem marido. Minha
paciente aposentou-se com salário mínimo, mas voltou a trabalhar, a lavar roupa pra
fora pra ajudar a criar a net a e pagar o apartamento, financiado para o resto de uma vida conjunta que não existe mais.
O rosto endureceu, o queixo apontou pra cima, o olhar escureceu.
“E a senhora conversa dessa dor com alguém?”
“Converso com Deus. Com a minha neta. Mas não me abato, não. Pobre não tem tempo
de ficar triste. A vida tem sabedoria.”
Já dizia o poeta, “a vida tem sempre razão”. E que força emana dessa aceitação do que
não pode ser mudado. Ou será conformação com o estado injusto das coisas?
Próxima paciente, entra logo em seguida. Parece ter 50 anos, mas no prontuário, a idade
é 65 anos. Branca, faces rosadas de blush, óculos escuros, blusa de linho.
“Como posso ajudar a senhora?”, pergunto para início de conversa.
“Preciso dos remédios da depressão”, responde para início de consulta.
Trabalhava em “um posto muito importante de uma empresa multinacional”, aceitou a
proposta de aposentadoria da empresa e agora “vive com a desvalorização anual do que
trabalhou a vida toda”.
“A falta do dinheiro vem preocupando?”

“Claro, dinheiro sempre preocupa”. Contou que estava acostumada a ser sócia do Clube
do bairro e a viajar duas vezes por ano pro exterior, e com o salário que tem, só
consegue uma visita rápida à Europa no mês de junho.
“Entendo”, triste por realmente estar entendendo muito mais do que ela contava.
“Estou em luto por ter perdido tanto na minha vida, e agora ainda sou escrava do
remédio da depressão, para tentar aproveitar o que me resta”.
Faço a receita, mas perdi a vontade de continuar o dia. Palavras rodam na minha cabeça.
Luto, perda, escrava, tristeza, depressão.
“Palavras, momento”.
Palavras com significados tão diferentes em duas vidas tão díspares e tão
interconectadas, de duas pessoas que moram a menos de 5 km de distância entre si.

Face ao inominável da Vida

Em homenagem ao mês das mulheres… e em homenagem ao SUS.. o maior sistema de saúde universal..

perdao

Por Janaine Camargo*

Conhece-la foi como ver uma andorinha insegura no ninho… Vinha emagrecida, pele marcada pelo esmorecer e com olhos que ansiavam por entender: “O que se passava com aquela dor no estômago?”. Havia eliminado sangue… Não foi preciso ser sagaz para compreender os sinais do corpo físico. A endoscopia digestiva foi certeira e a biópsia não deixou dúvidas: adenocarcinoma gástrico penetrando paredes e antro do órgão que alimenta a vida.

Recebeu o diagnóstico sozinha, com um pouco de entendimento e um muito de fé. Com uma segurança que não tínhamos, falávamos-lhe sobre os próximos passos. A família se aproximou após o diagnóstico. Vinham do interior de Pernambuco para buscar sobreviver em São Paulo. Viviam em um pequeno cortiço… casa pequena, simples, mas sempre muito bem cuidada. Sofriam por saber que não dispunham de recursos para auxiliar no tratamento. Juntos, aguardaram ansiosos a cirurgia nunca realizada e a quimioterapia da qual esperavam a cura. Não faltaram preces, visitas do pastor evangélico e, claro, a garrafada da vizinha: conhaque, mel e babosa já curaram muitas feridas no estômago.

Seis meses se foram céleres. Nossa equipe, sem receber informações do centro de tratamento, não sabia bem o que esperar. A família agora estava insegura. A andorinha já não tinha mais forças para voar. Emagrecia, passava a ter dores permanentes no epigastro, já não tolerava o alimento. O que mais era possível fazermos? Fomos à primeira visita em seu ninho.

Já estava com sonda nasoentérica, mas não aceitava a dieta. O marido brigava para força-la a comer: queria seu bem e não era por mal que negava a doença. Além disso, a pouca instrução dos anos primários lhe trazia dificuldade de lidar com a infusão do preparado industrial. Mas não… A questão da hiporexia era a falta de fome de sua alma. Foi a primeira vez em que falamos sobre o significado de tantos acontecimentos: “Não quero mais comer, pois, tudo que eu como, serve de alimento primeiro para essa ferida, que só cresce…”. Primeiro mostrou-nos sua ideia sobre o que “alimentava a doença” e, depois, a nova tomografia.

Pudemos perceber o estadiamento tumoral e compreendemos o adiamento da cirurgia. Nenhum médico havia sido claro sobre seu prognóstico. Mas a vida é verdade que não se esconde: ela começava a sentir sua despedida. Sim… Cabia à APS coordenar o cuidado: acompanhar a pessoa em seu diagnóstico e tratamento, curativo ou não. Vimo-nos diante da incerteza sobre nosso papel: sim, ela precisava de cuidados paliativos. Se nós não estivéssemos ali para fazê-lo, ninguém o faria.

Na sala pequenina, uma troca de olhar entre profissionais disse tudo: médicos de família e comunidade se identificam pelo seu compromisso com a pessoa. Cumpriríamos nosso papel: seríamos os contrarregras que fariam o possível para que a andorinha estrelasse seu último verão de modo autônomo e pleno.

Marido, filha e cunhado sabiam que tínhamos algo sério a dizer enquanto o netinho brincava no chão. Conversamos com eles sobre as crenças: qual seria o propósito da doença? Qual o propósito da vida? Ela se mostrava serena, enquanto o marido, com o último balbucio da barganha, perguntava: “Doutora, você já viu pessoas como ela se curarem, não viu?”. A dignidade deles merecia a nossa honestidade.

*Janaíne mandou para nós seu texto, caso queira compartilhar seu causo, envie a nós: causosclinicos@gmail.com.

Saramágicas

poente
Arquivo do autor

É verão nos trópicos. O sol a pino parece ser inclemente, mas o calor paralisante acontece mesmo é nas horas mortas da tarde. Quem recebe a luz poente, sabe a quentura que lhe sobe. Aquele calor úmido, mormaço das horas poedoras, que a tudo esquenta.

Fui chamado para constatar o óbito. O médico pensa ser o concorrente da morte, mas é o seu sócio, a bem da verdade. Negocia com ela a hora derradeira. Às vezes, consegue adiar alguns anos, dias, minutos. Aí é visto como herói. Nada fez, senão barganhar tempo, afinal, a última palavra é sempre dela.

Aquela tarde estava atipicamente quente, até para nós. A temperatura média do lado de fora, marcava no visor do carro: 34 ºC. Dentro daquele quarto, tudo deveria estar a uns 40. O pesados raios de sol batiam na veneziana de vidro, adentrando. E davam um ar ainda mais melancólico àquele quarto, onde defuntava o corpo. Tudo nele lembrava a morte. Aquele olhar vago, numa iris paralisada, que até há pouco abria e fechava com facilidade. Não olhava nada, porque ela não olha pra ninguém, se não para todos. Mas eu me sentia olhado por ela, no fundo daqueles olhos mortos, borrados por uma opacificação nada cristalina. A rigidez anunciava, que voltamos ao inanimado, quando estamos habitados por ela. Mas o calor, o calor conservava aquele corpo inerte quente. E isso fazia parecer chegada a hora das intermitências saramágicas da morte. A hora final daquele corpo parecia estender-se por toda a tarde, suspensa pelo calor inebriante. O calor mantinha a morte em suspense. Meu pensamento, alucinado pelo escaldante sol de março, conversava com a morte suspensa no fundo daqueles olhos. Ou será que era a minha morte quem conversava com a dele? Estávamos em planos diferentes?

“Doutor, podemos ir?”… “Sim, claro. Meus pêsames à família”. Volto a mim, recobro a consciência. Ou será que foi só a minha morte que recolheu-se a um canto escondido em mim, depois daquele encontro, e deu lugar à vida que ainda me habita? E a dele para onde foi? Conservou-se no corpo? Enfim largou-o? Continua comigo? Não me deixou  dormir à noite. Aquele encontro entre dois mundos, suspensos pelo calor das horas derradeiras de um dia, é a metáfora da vida: como o pó que flutuava no quarto, suspenso por “um leve e macio raio de sol”.

Os sentidos do cuidar e do viver…

 

Unknown

Por Débora Carvalho Ferreira*

Esse causo é em comemoração (atrasados, nos desculpem!!) do início da residência desse ano!

Este causo é antigo, bem antigo. Mas marcou profundamente meus passos profissionais e pessoais. Me fez sentir minha escolha profissional profundamente. Me fez sofrer junto…me fez Ser…

Primeiro ano de residência em Medicina de Família e Comunidade, tudo é muito e intenso. Pela primeira vez eu tinha “meus pacientes”, na verdade, eu tinha era “minhas famílias de pacientes”, as quais cada encontro para mim era riqueza e descoberta do(s) outro(s).

Atendia D. Alba*, pequena senhora portuguesa, de poucas palavras, mas sempre muita atenta e atenciosa. Fazia controle de sua hipertensão regularmente e da osteoporose, nada demais, mas, como eu gostava de atender aquela senhora de sorriso tímido! E numa sexta-feira de manhã, lá estávamos nós em mais um encontro. E após toda rotina de praxe, senti-a um pouco triste, e ao final da consulta a perguntei se teria mais alguma coisa que eu poderia ajudar naquele dia, e então ela fala “Ah, Drª, o Antonio* (marido dela) está mal há alguns dias, estou preocupada com ele, minha filha até já o levou em alguns médicos particulares esta semana, mas não está tendo melhora…” E com esta reticência, ela cala, pedindo em silencio, e então eu abro o espaço “Ué D. Alba, será que dá para ele vir aqui ainda agora de manhã para eu vê-lo? Quem sabe eu consigo ajudar?”. Sorriso abre no rosto “Claro, claro, Drª, já venho com ele”.

Já conhecia Sr. Antonio, não era tão assíduo ao serviço como a esposa. Um português com sotaque, grande e forte, sempre bem-humorado, mas naquele final de manhã chegou pequeno, apoiado pela filha, passo incerto, cabisbaixo. “O que houve Sr Antonio?”, “Estou muito tonto e fraco Drª, parece que é labirintite”, então a filha discorre sobre o périplo durante a semana. Quando surgiu a tonteira correram logo para um otorrino, que prescreveu medicamentos antivertiginosos, porém os sintomas não tinham cessado, estavam até pior!

E então a máquina do raciocínio diagnóstico começa a funcionar: idoso, hipertenso, diagnóstico prévio de gota, com vertigem e fraqueza súbita: sistema nervoso? Sistema cardiovascular? Sistemo endócrino? E tudo se resolve com um puro e simples toque, ou tecnicamente falando, uma contagem de pulso: pulso baixo e irregular. Sintoma explicado. Porém, com tamanha bradicardia uma intervenção imediata era necessária, e como estávamos dentro de um hospital universitário, uma internação na ala de cardiologia foi rapidamente providenciada.

Então não era labirintite? Como explicar para filha e esposa que não, não era. E que, bem, faltou um “pequeno toque” do outro profissional que tinha visto anteriormente. Mas enfim…Sr Antonio internado e diagnóstico com um distúrbio de condução elétrica cardíaca que me falha a memória exatamente qual era (o tempo faz-nos esquecer as questões irrelevantes, como diagnósticos raros, mas nos faz lembrar para sempre as pessoas raras). Mas a questão é que foram dias e dias internados sem resolução do quadro, seguida de uma alta hospitalar cheia de programação de restrições para a vida cotidiana “não pode isto, não pode aquilo”.

E o Sr Antonio retorna para casa, com toda a família apoiando todas as restrições passadas pelos médicos, mas os dias foram passando e ele foi ficando amuado, triste de dar dó. E então fui chamada para uma consulta domiciliar. “Como estão as coisas Sr Antonio”, “Não vão bem Drª, perdi o ritmo foi da vida”. E então com os olhos marejados me conta a tristeza de não poder mais ir cotidianamente para seu comércio, uma loja de material de construção, que era sua rotina, seu afazer. E eu não entendi aquilo, pois o que eu via em minha volta era uma casa confortável, parentes cuidadosos, uma saúde física recuperada, porque era tão sofrido não “ter que ir trabalhar todo dia”? Não sabia como ajuda-lo.

Levei a situação que tanta me incomodava para a discussão de Grupo Ballint (grupo de discussão entre médico de situações de relação médico-pacientes difíceis) e após expor a situação, e o quanto me incomodava não saber como mais ajudar, o facilitador do grupo, perspicaz professor, me fez o convite de exercitar a empatia de me colocar no lugar do paciente: “E se fosse retirado de você uma atividade cotidiana que dá sentido ao seu dia, que dá sentido para você acordar e viver o seu dia? Como você se sentiria?” E neste momento eu me projetei numa realidade que eu não poderia mais cuidar. Que eu acordaria dia após dia e poderia fazer qualquer coisa, menos o que faz sentido para mim. Por uns instantes senti um aperto, um golpe, um vazio! E se eu não pudesse mais cuidar? E se me fosse arrancado esta possibilidade do meu viver? Lágrimas nos olhos, senti verdadeiramente empatia pelo Sr Antonio…agora entendi seu sofrer. Não importa a natureza do que faz sentido para cotidiano de cada um, o que importa é o sentido que faz para cada um em si.  E quando voltei a vê-lo, apesar de ainda não puder fazer nada pela situação, pude olhar nos seus olhos e dizer “Eu entendo o que você está sentido e imagino como deve estar sendo difícil”.

Obrigado Sr Antonio, nunca mais olhei a Vida, o Viver e o Cuidar da mesma forma…

*A Débora é médica de família e comunidade e profa. da Universidade Federal de Viçosa.

Vitória do Medo

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Por Eberhart Porocarrero Gross

 

   Fica, daqui a pouco a gente vai cortar o bolo. Mesmo cansados, topamos ficar mais um pouco. Afinal, minha amiga parecia genuinamente feliz com a nossa presença. A sala pequena cheia com poucas pessoas, parece que fomos mesmo escolhidos com cuidado para estar na festa de noivado.

   Até que o bolo estava gostoso mesmo, com uma camada de mousse no meio. Eu já estava no segundo pedaço quando alguém deu um passo desengonçado num canto da sala, uma perna voltou atrás, os braços balançaram ao lado do corpo. A mulher magra pareceu tentar se segurar no ventilador portátil, que caiu junto com ela. Toc, aquele som seco do occipital batendo no chão de tábua corrida. Quando dei por mim, estava com uma mão firme no tórax dela, outra virando o seu queixo para o lado, reflexo condicionado para estabilizá-la e evitar que se engasgasse com um possível vômito que, de fato, logo veio.

   Uma pequena quantidade de líquido transparente e quente tangenciou a minha mão e escorreu pelo chão. Mãe!, grita uma voz infantil. Vira a cabeça dela para o lado!, diz alguém que chega logo depois de mim com um tom de comando que me já desagrada. Não está vendo que já está virada, penso. Não está convulsionando, não se debate, faz movimentos discretos.

   Minha mão direita desliza do tórax para o lado do pescoço, a carótida pulsa firme, forte e ritmada. Em instantes os olhos se abrem, de princípio pouco entorpecidos, e logo arregalam-se na expressão típica de quem não está entendendo o que se passa ao seu redor. Acaricio a cabeça e sorrio, como quem diz que tudo está bem.

   Ela faz como quem quer se virar e eu a ajudo. Vira ela em bloco, o tronco junto com a cabeça, diz aquela voz masculina. Não levanto os olhos, mas já começo a desenhar a imagem do médico que não sabe distinguir um traumatismo craniano grave, desses de acidente de moto, de um mais suave, por um desmaio. Confundir os eventos leves com os graves é marca de nossa medicina ignorante e exagerada.

  Ajudamos a moça a se virar e a sentar. Ela está obviamente desconfortável com o vestido e suas longas fendas, agora pouco elegantes, esparramadas no chão. A casa toda olha para ela, assustada. Ela retribui os olhares e tenta juntar o vestido sobre as coxas. Visando diminuir o desconforto, me levanto e dou um passo atrás, para que se sente melhor no chão e se recomponha. Aí, pensei depois, foi o meu engano. O dono da voz que já havia me desagradado ocupa o vazio que deixei e começa, monocórdico.

  Você tem alguma doença? Hipertensão, diabetes? Vocês têm um aparelho de pressão? Traz sal, para o caso de a pressão dela estar baixa. Não só não lhe deu espaço como a afogou com perguntas. Ele examina o galo sem pedir licença – ela faz uma careta, eu também. Segue-se um pretenso prognóstico. Você caiu e bateu a cabeça, vai ter que ir para um hospital. Foi um hematoma subgaleal, mas ele pode se expandir e você piorar. Essa última parte fez menos sentido que todo o resto, ao exagero se soma um uso inapropriado dos termos técnicos, me pergunto se ouvi certo. Ajudo ou atrapalho corrigindo? Acho que mais atrapalho, prefiro me manter calado. Uma discordância assim frontal, em especial sobre a necessidade de avaliação hospitalar, provavelmente traria mais confusão para todos.

  Pressão aferida, ela tenta se levantar. Alguns se posicionam para ajudá-la. Não, interrompe a voz. Você vai cruzar os braços na frente do tronco, assim, e nós vamos te levantar. Por favor, ela já está melhor, penso. Mas só penso. Ele a levanta na posição instruída e a leva para o quarto. Ainda na sala, confiro a pressão no aparelho digital, 94×68 mmHg. Pouco mais baixa que o habitual dela, costuma ser hipotensa, me explica seu irmão. Penso que o melhor será deixá-la se recuperar. Já foi para o quarto. Minha esposa me instiga a segui-la, e insiste diante da minha expressão de descontentamento com a situação. Ela já está sozinha no quarto com o dono da voz. Aí há perigo, isso sim.

  Entro no quarto, ela já vomitou em maior quantidade, se sente mal. Os pés por baixo da voz tentam passar a poça de vômito com um passo largo, pisam no vômito e escorregam. A bunda por baixo da voz aterriza no chão. Esqueço a compaixão por um instante. Não consigo fazer nada melhor do que observar e ajudar com pequenos movimentos a limpeza do quarto, a passagem dos baldes. Falar só poderia atrapalhar. Não seja por isso, lá vem ele: A que hospitais ela tem direito? Que remédios vocês têm aí? Compra vonau flash na farmácia. Cacete, uso esse remédio para vômitos de quimioterapia. Onde será que esse cara trabalha? Ele sai do quarto, me sinto aliviado.

   Ficamos a mulher, deitada, uma irmã, minha esposa e eu. Você já estava se sentindo mal antes? Já, desde o almoço, responde a irmã. Já tinha vomitado antes. E eu nunca passo mal, completa ela. Devo ter comido algo muito estragado. Concordo. Eu estava tentando ir ao banheiro para vomitar, na hora que caí. Pronto, assim tudo faz sentido. Bastou ouvi-la. Familiares entram e saem do quarto, a fala de hospital se repete. Fazer uma tomografia, alguém diz de novo. Você desmaiou, mãe! Respiro fundo e ensaio uma intervenção. Parece que ela comeu algo estragado, se sentiu mal, desmaiou por causa disso. Só. De novo as pessoas entram e saem, uma adolescente nervosa enxuga as lágrimas. Me sinto bem por ficar ao lado dela, me parece que é este o lugar do médico.

   Nem sinal do rapaz da voz incômoda. Ela respira, descansa, se senta na cama, dá um sorriso amarelo. Vou ao banheiro. Acho que só preciso de um pouco de descanso, já estou me sentindo um melhor. Sorrio de volta. Vou pra casa descansar. Não! – e ele está de volta – Você não pode ir para casa. Você tem que ir para o hospital agora! A voz acostumada a ser autoritária, a mulher com olhar agora mais inseguro parece ter medo de contrariar. Minha amiga entra no quarto, fala que está organizando as coisas para levá-la ao hospital, pergunta o que eu acho. Repito que ela me parece bem, que descansar um pouco deve ser suficiente. Mas mal não faz, né? Só por precaução.

   Como explicar, de repente, que faz mal, sim? Que, além de ser um ambiente gerador de ansiedade, há radiação, medo, remédios com efeitos colaterais, exames com falsos positivos, mais violências? Que há reações alérgicas e perda de autonomia? Que há expropriação da saúde, ainda que esta saúde hoje venha com vômitos e uma breve hipotensão? Que o hospital é um lugar perigoso? Não consigo. Apenas inclino a cabeça para o lado e aperto os lábios.

   Ela é levada ao hospital. Me pergunto o que mais poderia ter feito.

O que respira a alma? Sobre amor, serviço e propósito.

por Janaine Camargo

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“Sabíamos que esse momento iria chegar, mas nunca estamos realmente preparados”, nos diz Teresa, cuidadora de Cláudio, com os olhos marejados pelas lágrimas que ansiosamente tentam não cair. Derramar suas lágrimas poderia demonstrar que ela achava que era o fim… Que Cláudio não acordaria mais. Ele era portador de demência e, há anos, voltara a morar com a ex-esposa. Separados pelo etilismo, mas reunidos pelo amor, Teresa contava com o apoio da equipe da estratégia saúde da família para manejar os sintomas de Cláudio, a fim de não precisar interná-lo. Ele estava acamado há dois meses; entretanto, nesse dia, a respiração agonizante, o livedo reticular e o rebaixamento de consciência não deixaram dúvidas para a equipe de que Cláudio estava partindo.  Percebemos que havia muito a ser feito! A conversa honesta com Teresa a preparou para enfrentar esse momento. O pranto veio abundante: “Se eu tivesse feito mais?”. Com o olhar, a compaixão e o respeito que adquirimos por aquela mulher, propusemos reflexões sobre os últimos meses de Cláudio. Mudando o sabor das lágrimas, Teresa nos diz: “Fizemos tudo que podíamos… Conseguimos levá-lo para a Igreja no domingo… Parece que ele só estava esperando isso para poder partir em paz”. De sua fé vinha sua resiliência. Ela se abaixou, acariciou a face de Cláudio, falou sobre seus sentimentos, suas culpas e trouxe, então, seu pedido de perdão por ter se distanciado dele, deixando de honrar os preceitos sacros do casamento. Cláudio parecia ter o semblante mais tranqüilo… Foi a morfina?  Foi o perdão? Ambos? O que importa? A prece da esposa ao final demonstrou que, enquanto Cláudio partia em paz, o significado que Teresa deu a sua fé e ao perdão permitiram que ela vivesse em paz.

 

Texto produzido em homenagem à despedida de um paciente querido e ao (re)nascimento de uma mulher que é força e exemplo. São Paulo, maio de 2017.