Lembrança: sendo criança outra vez

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por Lucas Gaspar Ribeiro

Tenho um paciente que é carpinteiro, e em todas as consultas, a gente conversa sobre o que ele estava fazendo com a madeira que ele tinha.

Uma vez era uma mesa, outras vezes cadeiras, armários, dentre outras coisas.

Na última consulta em janeiro, ele me falou que estava fazendo carrinhos para as crianças, ele vendia por um preço baixo, para as crianças brincarem. Fiquei pensando que gesto mais interessante que ele está fazendo, oferecendo seu tempo para que as crianças continuem crianças.

Ontem ele voltou em uma consulta, conversamos mais sobre isso, e ele me contou que também está fazendo aviões da esquadrilha da fumaça, que estava até vendendo em uma feira de artesanato suas coisas. E o quanto isso era importante para que ele fosse uma pessoa feliz.

Ontem após a consulta ele fez mais uma criança feliz, eu.

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Fé no Cuidado

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por Carolina Reigada

Eu tenho andado desanimada com a medicina. Já vinha há uns meses, aí quando um paciente (cujo causo ainda escreverei) me falou que “médico e remédio é tudo tapeação”, eu concordei com ele. Muito. Meu coração concordou muito com ele.

Vejam, ser médica ou médico de família e comunidade não é fácil. Você está sempre contra a corrente. Você é aquele que repensa o remédio, diz que o exame não precisa e, muitas vezes, trabalha no posto de saúde do bairro e fica conhecido como o “médico do postinho”.

Com todo o PESO que ser o cara do “postinho” traz, sabe? Médico de família e comunidade é um especialista, sabiam? Ele faz residência que nem o cardiologista, o pneumologista, esses “istas” todos. Mas muitos médicos e pacientes nos acham… assim… inferiores aos “istas“. É. Inferiores. Tipo:

“Leva essa receita lá pro postinho que eles ficam renovando pra você” – gente, eu posso discordar da prescrição, eu sou médica também.

“Leva esse exame lá pro postinho que ele transcreve pra você”. – eu posso discordar da indicação do exame, sabe?

“Você leva seu filho no médico do postinho???? Que mãe ruim!” – é, uma vez uma paciente disse que a professora da creche julgou ela porque ela acompanhava no postinho. A parte feliz foi que a resposta dela foi: eles sempre acertam com meu filho e comigo. Ufa.

Enfim, lá estava eu, desanimada…eu tinha vestido o estereótipo de médica do postinho e estar me achando assim…inútil. Me perguntando se eu sirvo pra alguma coisa além de renovar receita e transcrever exame.

Eis que chega o residente: “Carol, não sei o que essa paciente tem.”

“Hum…que tá acontecendo?”

“Ah, ela tá com dor no corpo todo! Ela apoia o braço, tem dor. Apoia a mão, dor. Anda, dor. Mexe o pescoço, dor. Tudo dói!”

Aí, falamos de várias coisas biomédicas menos interessantes, conversamos sobre diagnósticos diferenciais, até que entramos no consultório para falar com a paciente. Olha ela:

“É que eu vou na pneumologista e ela só olha o pulmão. Eu vou no cardiologista e ele só olha a pressão. Agora, dor no corpo todo…eu não sabia onde ir. Vim pra cá, pra vocês olharem tudo”

Já fiquei mais feliz, ó, alguém me valorizou. Aí eu:

“Me fala mais dessa dor, quando começou?”

“Ah, tem um ano…mas tá muito pior há 3 semanas”

“E o que estava acontecendo na sua vida há um ano?”

“Ah, eu tive enfisema há um ano”

“Teve…ou tem?”

Pausa. Choro.

“Eu não planejei isso. Eu tenho 50 anos e tudo me cansa, forró me cansa, trabalhar me cansa. Eu não consigo seguir o ritmo das outras pessoas. Eu não consigo ir nas festas da minha família, porque todo mundo fuma. Eu vomito se alguém com perfume forte fica do meu lado. Eu nunca imaginei que chegaria aos 50 anos me sentindo com 70. Eu tento não deixar minha doença me definir, mas na minha família, ninguém leva a minha doença a sério”.

“Você acha que as dores têm a ver com o enfisema?”

“Eu acho, eu interno uma vez por ano, e cada vez que eu interno, eu saio pior. Mais fraca. É como se o oxigênio não chegasse nos meus músculos, aí eles ficam fracos e doem”

“Entendi. Realmente deve ser muito desgastante sofrer e não poder ser acolhida por ninguém”

“Você acha que tudo isso pode ser da minha cabeça, pode ser nervoso?”

“Eu acho que nervoso tem a capacidade de deixar tudo pior, inclusive as dores. Tem muita gente que fica nervosa e fica com dor no estômago, dor na cabeça…”

“Olha eu aqui, colocando os podres todos da família para fora, desculpa”

“Nada, estamos aqui pra isso. Quando a boca fala, o corpo sara”

“Nossa! Você tá falando de nervoso, então agora eu vou te dizer o que aconteceu! Já sei! É a minha sobrinha. Sabe quando isso tudo começou? Quando eu vim cuidar dela, depois do acidente dela. Larguei minha vida pra cuidar dela, e foram uns meses infernais. Assim que ela voltou pra casa dela, eu fiquei doente. Fiquei com enfisema. A partir daí, o corpo nunca parou de doer. E faz 3 semanas que ela ligou e disse que tá voltando pra cá.”

Risada

“Muito obrigada. É isso! Olha, a dor tá até melhor. Olha, vocês estão bem na fita aqui, hein? Era muito mais fácil só escrever dois remédios no papel e me mandar embora. Mas olha só…é isso. Muito obrigada. Eu volto daqui a umas duas semanas pra falar com vocês!”

E pronto. Ainda estou com a fé na biomedicina abalada. Mas foi só uma paciente reconhecer o nosso fazer diferente que voltei a ter fé no Cuidado.

Médica de burocras

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por Márcia Santos

E ontem tivemos mais um causo.

Dona Célia* já era minha velha conhecida na unidade. Vou relembrá-los:

Em 2013, chamei o nome dela que já aguardava a consulta por algumas horas. Quando perguntei qual motivo a levou até a clinica, ela respondeu que ia receber um benefício por conta da saúde debilitada mas, para isso, precisava abrir uma conta no Itaú.

Sim. Era essa a demanda dela.

Aqueles milésimos de segundos em que utilizei o raciocínio tipo 1 buscando respostas rápidas na mente para esse “problema médico” ao mesmo tempo que me surge na cabeça o pensamento “tá de sacanagem”.

Nada.
Vazio. Mente vazia.
Zero scripts mentais.
Silencio.
Meu rosto refletindo nos olhos da dona Célia que aguardava minha resposta.

Acionei o raciocínio tipo 2: busca na literatura. Entrei no google e busquei o endereço da agência mais próxima e as linhas de ônibus que a levariam até lá.

“Mais alguma coisa?”
“Não doutora, só isso mesmo, obrigada.”

Pois ontem, dona Célia voltou.
Fez 65 anos semana passada.
Tinha agora direito ao RioCard Senior, cartão de gratuidade para o transporte público municipal.
Um irmão informou a ela que precisaria tirar a foto pro cartão. E ela foi lá, na clínica, para eu tirar a foto dela. ❤️❤️❤️❤️❤️

É mto amô, minha gente ❣️❣️❣️

Como já conhecia a paciente, (longitudinalidade linda) entrei no site do RioCard e agendei dia e horário no posto de atendimento que dona Célia escolheu. Ganhou abraço de parabéns. Ficou de voltar semana que vem pra dar outro abraço, pelos “meus” parabéns.

Fui dormir pensando que era uma médica de burocracias, mas acordei com a certeza de que acolho as demandas dos pacientes.

Me arrependi de não ter tirado uma selfie, mas depois ia ser complicado pra dona Célia entender que aquela foto não bastava.

*Nome da paciente foi trocado pra eu não levar bronca.

E tem CID pra isso?

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por Lia Shimamura

Sexta feira é dia de VD. Fomos eu, a residente e a ACS. Bom, só de andar por tantas vielas e escadarias, casas empilhadas, portas escondidas, fiação exposta, crianças correndo, esgoto a céu aberto, a reflexão é inevitável. Que realidade é essa do nosso lado e tão diferente de nós? Eu só conhecia a Rocinha olhando, pela estrada da Gávea, sua muitas luzes e casas sobrepostas. Aquele mundão que faz a gente dobrar o pescoço para conseguir enxergar tudo. Só conhecia, por trás do vidro do carro, no ar condicionado, com as janelas fechadas e som ligado. Na minha visão, ela era iluminada, grande e imóvel. Hoje, quando eu subia, sentia que ali escorre vida. E muita. De todos os tipos. E de um lado uma porta. De outro um mercado. De outro o menino do tráfico que olha. De outro os idosos que pararam para descansar de tantos degraus. E em meio a tantas vidas, fomos atrás de uma. Dona Maria. Ela mora do lado do mercadinho, numa casa verde. Uma porta que dá para sala. Um sofá, uma mesa e uma tv. Ao lado do sofá, um corredor que se estende até o ultimo cômodo. Talvez sejam 3 ou 4 cômodos e um banheiro cheio de baldes com água amarelada. Talvez seja a reserva dela desde que a agua acabou. Bom, mas não foi a casa que fomos ver. Foi a senhorinha de idade, de cabelos brancos e meio ralos, soltos, com 1,60 de altura, cega dos dois olhos, diabética, mora sozinha, não tem filhos. Fomos entregar seus exames de sangue e ver se estava tudo bem. Não está. Ela senta e começa a contar sobre o sobrinho que cuidava dela, mas teve AVC e se mudou para Queimados, sobre seus olhos que já não prestam mais e só enxergam a claridade, sobre como ela se escora nas paredes para andar e já caiu muitas vezes. E chora ao lembrar de sua solidão. Dona Maria chora quando perguntamos como ela toma os remédios, como vive sozinha e como está. Ela se confunde com os remédios, não termina uma frase sem demonstrar falta de ar e apresenta uma glicemia capilar no céu. Enquanto a via chorar, segurei em sua mão e falei que tudo ficaria bem, afinal, estávamos lá pra cuidar dela. Mas a verdade, é que eu não sei bem se tudo vai ficar bem, porque enquanto pensava que eu podia ausculta-la, calcular sua frequência, fazer minha melhor semiologia, nada adiantaria. Podia ser uma insuficiência cardíaca, uma pneumonia, uma cetoacidose. Podia ser só tristeza. Mas o que eu achava mesmo era que o problema dela não tinha CID. E a solução, não estava nos remédios. Ela precisava regularizar a glicemia, melhorar a dispneia, descobrir sua causa e iniciar algum tratamento. Ela precisava de alguém que mostrasse os remédios, ajudasse a andar, a cuidar da casa, do dinheiro e das compras. Ela precisava morar num lugar mais baixo, sem escadas, sem aglomerações e com água. Ela precisava de carinho. E eu, me senti impotente e me perguntava, “gente, qual o CID dela! Como a gente vai encaixar ela num problema só? Como que a gente resolve isso só chamando o SAMU? A assistente social pode levá-la para uma casa de idoso? O que será que ela pode fazer? O que será que nós podemos fazer? O que será que eu posso fazer?” E em meio a um bilhão de pensamentos, a ACS apareceu com o irmão de dona Maria. Ele morava com a esposa em cima da casa da velha senhorinha. Era ele quem cuidava das compras e do dinheiro, mas disse que o resto todo ela fazia sozinha. Perguntamos se dava para levá-la a clínica. Pediu nos uma hora para estar lá. Saímos e ela levantou, segurando as paredes, procurando seu quarto para trocar de roupa.

Descemos para começar a arrumar a papelada para uma vaga zero. Ficou decidido chamar uma ambulância, para leva-la a uma Emergência para investigar e arredondar os problemas médicos de dona Maria. Ela precisa de exames com resultados imediatos e a CSF não dispõe desse recurso. A assistente social será acionada num segundo momento. Eu percebi que, apesar de me sentir impotente, o que tava acontecido ali era fruto de uma sistema público de saúde funcionando a pleno vapor! De uma VD a uma emergência para resolver as prioridades do momento, sem ignorar que, num segundo momento, ela vai precisar de uma outra profissional para suas questões sociais. Que mesmo que não sejam solucionadas, mas que sejam pelo menos, consideradas.

Bom, tudo foi encaminhado e no meio dessa história toda, vou te contar o que eu guardo pra mim com carinho: eu passei pela sala de espera e lá estava Dona Maria. Com cabelo arrumado e vestido até o joelho, de pano grosso, branco e todo bordado champagne. Desses mesmo, que as senhorinhas usam para ir em casamentos. Ela, com 54 incursões respiratórias por minuto, colocou seu melhor vestido para ir ao médico. E além de dizer para todo mundo o quanto eu achei ela fofíssima, eu senti gratidão (e um pouco menos de impotência). Por estar vivendo e vendo isso, a medicina sendo essencialmente medicina. Sendo cuidado. Sendo humana.

Saída pela tangente

por Lucas Gaspar

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Ontem atendi uma paciente de eventual (encaixe) que veio porque estava com muita dor de cabeça desde a noite anterior.

Conversa vai, conversa vem e ela me conta que a causa dessa dor de cabeça é porque ela brigou muito com a filha ontem, uma garota de 18 anos.

Refere que não aceita o namorado de sua filha, estão juntos há aproximadamente 2 meses.

Ela diz que o namorado é traficante, que agora está até “subindo de escalão” dentro da “comunidade”. Isso a deixa muito irritada, muito nervosa. Fala com sua filha que está errado, que não é um “moço bom, um moço de Deus” (já já entro nesse detalhe), e isso pode atrapalhar toda a vida dela, que ela pode ser presa, enfim tudo que poderia falar.

Mas como todo bom adolescente, não ouve a mãe e pede que a mãe respeite suas escolhas, pois já é adulta – isso leva a uma guerra dentro de casa.

O pai também é contra isso, gostaria de ligar para a polícia e denunciar o rapaz por tráfico.

A família é extremamente religiosa, falei que voltaria. Faço um parêntese, não tenho nada contra religião alguma, muito pelo contrário, apoio todas e acho que é terapêutico muitas vezes. Voltando, a família é muito religiosa, são evangélicos, e o discurso da mãe, em todas as consultas, é voltado a Deus, a Igreja, ao sacrifício. E eles têm uma preocupação muito grande de como a família pode ser vista dentro da comunidade evangélica devido a isso.

Eu estava em uma sinuca de bico nessa consulta, foi uma consulta onde a mãe falou o tempo todo da relação dos pais com a filha e o namorado. Como isso estava afetando sua casa (e eu conheço apenas a paciente, não conheço nenhum familiar a mais). Frente a isso uma ferramenta que gosto muito é a abordagem familiar, tentar conversar com todos ao mesmo tempo, ouvir, ponderar, achar caminhos comuns, mas como ali, sem conhecer ninguém. Pensei, uai, se a menina não ouve a mãe, será que vai ouvir um estranho completo (eu)???

Foi aí que me veio uma iluminação divina, o pastor, claro!!!

Combinei com a paciente que a melhor pessoa para intervir no caso não seriam os pais, porque o adolescente muitas vezes é dono do próprio nariz, tem superpoderes e o tudo que os pais falam não são verdades e/ou coisas boas. Mas como a família toda tem uma ótima relação dentro da comunidade, da igreja que frequenta, a melhor pessoa para intervir nessa casa seria a pessoa que eles mais confiam, o pastor!

Com isso, combinei com a paciente que ela leve a filha, o marido e ela mesma para uma abordagem “pastoral”, e quem sabe, como eles confiam muito nessa pessoa, os olhos da criança não se abrem para a realidade e ela ouve um pouco os outros, que não os pais… Agora é esperar para ver se o golpe divino deu certo, e se minha saída foi adequada… logo teremos notícias

Encaixe

atrasado

por Rodrigo Lima

O senso comum sugere que consultas “de encaixe” são aquelas onde o motivo é simples e a consulta em si bem rápida. Quando isso acontece costumamos ficar bem felizes, porque muitos de nós costumam estar atrasados, sempre com muita gente esperando lá na recepção. Já ouvi que “o atrasado é o ladrão do tempo alheio”, e também que “os médicos de família que se atrasam mais costumam ser os que estão mais disponíveis para as pessoas”. A primeira é radical demais, embora não deixe de ser verdadeira. A segunda parece esquisita, mas minha rotina costuma dar muita razão a ela…ou pelo menos quero crer nisso.

Numa dessas consultas “de encaixe” Ricardo entra no consultório com sua mãe, Lara. Ele tem 6 anos, sua mãe parece estar ao redor dos 30. A queixa: febre que surgiu há 4 dias e que ontem desapareceu, dando lugar a manchas vermelhas por todo o corpo, e nenhuma outra queixa relacionada. “Oba!”, vibro por dentro, vislumbrando que o “encaixe” era um simples caso de roséola, e que eu conseguiria terminar a consulta em poucos minutos, após algumas orientações. Sigo com a entrevista, e pergunto como foram esses 4 dias. Lara me conta que no segundo dia de febre ela foi correndo com Ricardo ao hospital, porque ele costuma ter amigdalite de vez em quando e os médicos da emergência já disseram que ele não podia ficar com febre alta em casa, que era melhor ir logo ao hospital tomar uma injeção de antibiótico. Nessa hora a gente abre a porta pra outras possibilidades…e é aí que as pessoas encaixam outras demandas no nosso “encaixe”…

“E o que você acha dessa recomendação?”, pergunto a Lara, tentando entender como ela tem se sentido com essa “bomba-relógio” nas mãos. Ela diz que fica muito preocupada, porque fica com medo de acontecer algo mais sério com Ricardo. “E por que você tem esse medo? Já aconteceu algo mais sério com ele?”. Lara baixa o olhar. Passa a mão na cabeça do filho. E fala num tom mais baixo que Ricardo nasceu com baixo peso, ficou alguns dias internado. Na primeira semana de vida descobriu que o menino nasceu com “traço falciforme”, e que havia vários casos de anemia falciforme na família do marido, incluindo um adolescente que sofria bastante com dores articulares e já tinha até feito uma cirurgia para retirar o baço. Nessa hora ela conta que Ricardo ocasionalmente tem dores nas pernas, e que ela morre de medo de que ele tenha a doença. Conta também que recentemente Ricardo apresentou um sopro no coração, e que um cardiologista passou vários exames para descobrir a causa do sopro, mesmo sabendo que o menino não tem qualquer queixa: corre, joga bola, faz de tudo. Acabaram de vir de outro estado pra morar aqui e ela está tentando conseguir os exames.  Nesse momento eu resolvo interromper: “Lara, tua cabeça deve estar uma loucura com tanta coisa envolvendo esse menino, né?”

Finalmente o “encaixe” encaixou. Algumas consultas vão seguindo até que num dado momento uma pergunta muda tudo. A consulta era pra Ricardo, mas quem precisava de cuidados mesmo era Lara, que deixa cair uma lágrima, e responde sim à minha pergunta acenando com a cabeça, enquanto pega lenços de papel que eu ofereço (sempre os tenho à mão para as “consultas sagradas”, como me ensinou o mestre Juan). Ela prossegue dizendo que morre de medo de acontecer algo, e parece que quanto mais vai a médicos pior fica, pois cada um a assusta de modo diferente.

Agora chegou a minha vez. Ricardo não vai ter anemia falciforme, o sopro no coração dele provavelmente não significa nada, e não há razão pra procurar a emergência sempre que ele tiver febre. “Traga ele aqui sempre que quiser, a partir de agora cuidaremos de vocês”, digo, numa tentativa de fazer o que a mestra Barbara resumiu: primeiro contato, cuidados ao longo do tempo, abordagem integral, coordenação do cuidado. Lara sorri, um sorriso de alívio. Diz que vai fazer os exames porque só vai ficar tranquila com os resultados. Eu respeito a decisão, e me ofereço para ver os resultados assim que estiverem em mãos. Dirigimos os olhares para Ricardo, que brinca sentado na cadeira entre nós. “Então é isso, grandão…vamos nos ver outras vezes, ok?”. Ele me olha, olha para mãe como que buscando aprovação, e ao vê-la sorrir, sorri também. E de repente tudo se encaixou.

Termina a consulta, olho para o relógio. Eu, o eterno ladrão do tempo alheio, mais atrasado do que já estava. Sorrio. Não vejo problemas no roubo, desde que eu continue me encaixando nessas vidas que me procuram.