Iracema

por Marina Galhardi

Gustavo Simão - Especial para O POVO
Desinquieta. Era assim que ela se dizia.
Falava alto, como se precisasse a vida toda gritar para ser ouvida. Ainda assim não o era.
Iracema arrumava a casa toda, cuidava da comida, das roupas, do conforto da família. Era ela que tinha trabalhado em casa incansavelmente todos os dias, sem que fosse lhe permitido outra forma de vida.
Poucos dentes haviam lhe restado na boca, o cabelo todo branco passava o comprimento dos ombros, era pequena e magra. Havia certa força em Iracema, de resistência, de resiliência. De sobrevivente.
Contou-me certa vez que era ela que ia ao banco todo mês sacar a aposentadoria do marido – que não conseguia ir por uma sucessão de derrames que tinha tido – e trazia o dinheiro contadinho. Tirava só para uma coxinha e um suco, que era o que ele deixava. Não podia usar mais nada daquele dinheiro, nadinha. Ele escondia embaixo do colchão as notinhas e contava todos os dias ao acordar, como se o dinheiro pudesse lhe ser subtraído durante a noite. Ela se sentia humilhada sem saber nomear.
Iracema havia meses lhe pedia um “xis”, era só isso, só queria comer um “xis”. Mas ele não lhe dava.
Um dia ela veio muito preocupada. Gritava muito e eu tinha dificuldade de entender. A casa em que moravam era dele, não estava no nome dela, mas eles eram casados, então seria dela por direito, ela dizia. As irmãs dele, no entanto, viviam rondando e diziam vez ou outra que a casa não era dela não. Ela se desinquietava, tinha medo de que quando o marido falecesse ela ficasse sem teto, porque não sabia ler. E por não saber ler achava que seria enganada com facilidade. Queria ter um dinheiro dela, uma coisa só dela para que pudesse pelo menos comer um “xis”.
Com quase sessenta anos, embora na verdade parecesse mais, ainda tomava uma certa pílula anticoncepcional porque tinha um medo terrível de engravidar. Porque ele não “dava sossego”, nas palavras dela.
Um dia, lhe adverti mais uma vez, de que não podia tomar mais aquela medicação com essa idade e essa pressão alta, podia lhe fazer muito mal. Mas de tanto agitar-se e gritar, ela não me escutou. Provavelmente porque eu não consegui atingir a linguagem que conseguiria de fato se comunicar com ela.
Iracema então infartou. Não foi fatal não, ficou internada uns dias no hospital e se recuperou. Veio dias depois me ver se queixando de uma alergia. Nem tocou no assunto do infarto, não se apercebeu da gravidade da situação. Forte, desinquieta, resiliente feito umbuzeiro.
Iracema é a certeza de que o que podemos fazer é muito pouco. Ter acesso a medicina não significa saúde. É provável que ela morra cedo, vitima de sucessivos desinquietamentos e que nada do que eu faça possa exatamente evitar. É provável que ela morra cedo por ser mulher, analfabeta, e não ter dinheiro nenhum, nem para um xis.
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A Morte me ensinando a ser gente

 

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Por  Clayton*

 

  Fui chamado, junto da médica, para atestar o óbito de um paciente na zona rural. Fomos no carro seguindo as estradas de terra batida e poeira fina que lacrimeja os olhos.

   Dona T, a esposa do falecido, nos acompanhava no carro. Nos olhos e na fala de gente simples, a esperança de ele só estar imóvel, dormindo e ainda vivo.

  Chegamos ao local: uma casinha pobre, com um puxadinho acessório de porta de madeira. Adentramos ao local frio e gélido, como o corpo estendido na cama. O corpo meio cá e meio lá na cama, quase caindo, mostrava uma fácies de dor e sofrimento – Provavelmente ele sofrera em sua morte.

  O corpo duro, igual ao chão da casa. Os olhos vidrados abertos e secos, igual à terra batida. Observo atentamente uma mosca pousar nos olhos vítreos e me dá uma sensação ruim. Lembro-me das minhas aulas de Parasitologia Veterinária e o quanto eu gostava do assunto. Lembro imediatamente do nome científico: Musca domestica, e do quanto detesto este bicho. Na minha terra chamam-no “Mosquito”, apesar de ser mosca, praga, necrófaga sugadora de secreções pútridas cadavéricas, praga! Espanto-as do cadáver e examino o mesmo: sim, falecera.

  Dona T acompanha tudo e não fala nada, nem chora. A comadre e a vizinha adentram ao recinto apertado. Apertado encontra-se meu coração: não pela morte em si, mas pela simplicidade daquela gente. Dona T usa chinelos “de dedo” duros e finos, gastos, daqueles com uma tira de cada cor. Olho suas unhas com onicomicose, em seu pé sujo de mulher trabalhadora. Sinto pena da pobreza que agora se junta à solidão. – “Já ligou pra funerária? – O vereador T. já foi informado e vai providenciar tudo”.

  Me dói ouvir que nem condição de dar destino ao paciente esta gente tem. Olho novamente para Dona T que me olha com olhar terno e corta meu silêncio: – “O sinhô está estudando pra ser dotô?” – “Sim, lá em Viçosa” –“Que Deus te abençoe muito. Ele vai abençoar. Você vai ver”. Dona T me viu sentir mais dor que ela própria sentira e resolveu me consolar com este minidiálogo.

   Sinto-me triste não pela morte ou pelo luto, mas por esta gente pobre, que mora longe e não tem nada. A médica pede então os documentos para a burocracia e preencher a papelada. Na bolsa surrada que Dona T colocava contra o peito, surge um cartão do SUS, um CPF e carteira de trabalho. Descubro então que o paciente nem RG tinha. Tão esquecido pela sociedade, legalmente e em matéria de morada, olho pros lados e vejo montanhas e me vem novamente a imagem da solidão. As pessoas ali não sabem como proceder para dar desfecho ao defunto que já estava sendo devorado novamente pelas moscas. As falas começam, e eu com meu coração apertado por não poder fazer nada.

  Imediatamente, então, que eu falo para Dona T entrar no carro conosco pois voltaríamos para a cidade e levaríamo-na à Prefeitura e à Funerária para tomar as providências. Começo a refletir e vejo que não foi uma atividade do meu estágio em Medicina, mas foi uma atividade de estágio de Amor ao próximo, de ajudar, de ser compassivo, algo inerente a qualquer profissão, a qualquer pessoa, a qualquer ser humano.

   No caminho de volta, dentro do carro, olho meus olhos no vidro do banco de trás. Eles estão marejados. Neste curto espaço de 20 minutos até a cidade, percebo que Dona T e outros tantos não têm a quem recorrer na vida, nem na morte. A médica e o motorista discutem sobre túmulos, gastos e burocracias (esta hora Dona T já não estava mais conosco).

   Eu olhando meus olhos no reflexo e pensando em minha família, em Dona T, na mosca pousando nos olhos, na poeira fina, na gente sofrida, na cachorra Baleia de Vidas Secas, no cadáver, no ser humano, acima de tudo, que foi aquele paciente contorcido na cama. O que será da vida de Dona T? Não sei, só sei que me senti impotente por não ajudar mais. Me senti desigual por ter condições às quais outros não possuem. Me senti sujo por ter os pés calçados e não de chinelas de tiras diferentes. Me senti uma mosca que almeja felicidade sendo que ela já está presente. Me senti com o coração vítreo, igual aos olhos do paciente, por não abraçar e falar uma palavra mais de acalento para Dona T. Percebi que, mais do que medicina, um único dia de estágio me ensinou a ser gente!

C.N, Porto Firme-MG, 13/09/2017″

*Clayton mora em Viçosa, Minas Gerais. “Médico Veterinário de formação. Médico e um ser humano cada vez melhor em formação”

Quer mandar seu causo: causosclinicos@gmail.com

Agora também estamos no insta e no fb: @causosclinicos #causosclinicos

Agora estamos em papel!

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Agora também estamos em papel.

O Causos Clínicos em parceria com a nossa matriarca Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) e com a Editora Guayabo lançou no 1 Congresso Sudeste de Medicina de Família e Comunidade o livro impresso, e particularmente, está lindo!

 

Ele estará a venda nos congressos Sul Brasileiro e Nordeste de MFC. Não deixe de adquirir seu exemplar.

 

Um grande abraço e muito obrigado a todos por fazer nosso blog se tornar algo físico e emocionante.

 

Editores do blog Causos Clínicos…

 

MEU MEDO É ELE LARGAR TUDO POR MIM

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Por: Arthur Fernandes
   Uma senhorinha de 60 e poucos com carinha de 50 e tantos anos. “Conservadinha”, diriam. Ela entrou no consultório, sentou na cadeira em frente a minha, acomodou a sacola de remédios e expirou. Eu estava 60 minutos atrasado para o nosso encontro – é que o médico de família em formação foi desafiado a lidar com múltiplas demandas (clínicas e não clínicas) no encontro anterior, e os vinte minutos da consulta do residente do segundo ano não foram suficientes. Paciência. Que bom que a senhorinha teve a paciência e a bondade de esperar também.
   Depois de acomodar sua sacola de remédios e expirar, olhou para mim e aguardou mais um pouquinho. “Como posso lhe ajudar hoje?”, pergunto. “Eu vim renovar minha receita, meu filho. Eu chamo de meu filho, vá me desculpando, mas o senhor tem idade de ser meu filho mesmo”, ela diz, com um sorrisinho. “Não tem problema! Hoje é só a receita mesmo?” – este sou eu, tentando prevenir as famosas “demandas aditivas”. “Eu também queria um check-up. Faz tempo que não faço exames. O senhor sabe, moro só, vivo só. Morro de medo de ter uma coisa ruim à noite e não ter quem acuda. Já deixo o saco de remédio e o cartão do SUS separados do lado da cama. A gente nunca sabe, né?”, ela acrescenta.
   Medo, aquele afeto que pode tanto mobilizar quanto paralisar.
Pergunto se existe um porquê para tanto medo de que algo ruim aconteça. Ela respira fundo e expira pesado, outra vez. “Eu não posso ficar dependendo de ninguém, não, doutor. Só tive um filho, que mora longe. Sou separada faz muitos anos e não tenho família por aqui, só primos, tios, gente mais distante.”, ela explica. “Então a senhora é que nem minha avó, que dizia que família é pai, mãe, filho, irmão; o resto é parente!”. Ela acha graça, alivia um pouco a postura e se encosta na cadeira. “Doutor, eu tenho que me cuidar porque não quero precisar que meu filho cuide de mim. Quero que ele viva a vida dele feliz. Morro de medo de passar mal e ele largar tudo pra vir me encontrar” – agora sim, ela abre a porta da caixinha do “seu medo”.
   Peço licença para entrar: “Entendi… Posso perguntar uma coisa? Se fosse a senhora, sabendo que sua mãe está muito doente, o que a senhora faria?”. “Sinceramente? Eu jogaria tudo pra cima e ia correndo pra ela.”, afirma sem pensar duas vezes. “Mesmo se soubesse que ela não gostaria que você abandonasse algumas coisas da sua vida por isso?”, acrescento. “Mesmo assim! O senhor não faria isso pela sua mãe, não?”, ela pergunta, cravando os olhos em mim. “Faria sim. Sem nem pensar, que nem a senhora.
   Agora me diga uma coisa: se um problema sério acontecesse com sua mãe, a senhora teria opção de escolher largar tudo pra cuidar dela? E largaria, sabendo das consequências?”, devolvo a pergunta. “Eu poderia escolher, sim, doutor. Mas quando a gente ama, é fácil. A gente vai, e pronto.”, diz ela, convicta. “Então o que lhe faz pensar que vai ser diferente com seu filho? Ele não vai ter a mesma opção de escolher?”, pergunto, cravando meus olhos nela dessa vez. “Vai, doutor. Mas quando é a gente que é a mãe, a pior coisa do mundo é pensar que o filho pode deixar de viver a vida dele tranquilo pra se obrigar com a gente. Deus me livre disso pra ele!”, responde ela, emocionada. “Eu também não quero. Sei que minha mãe também não. Mas eu não sei o futuro… Então o que posso fazer é pedir a Deus que nos ajude, independente do que acontecer. Desse jeito, nem meu fardo fica muito pesado, nem o da minha mãe. Se a senhora pensar assim, será que ajuda?”, devolvo mais uma vez, agora fazendo um esforço para sustentar o olhar, que encontra outro, marejado.
   Um tempinho para encher e secar o peito.
   Um tempinho para aceitar o papel toalha e enxugar as lágrimas teimosas que insistiam em cair.
   “No final das contas, a gente vai se cuidando, e cuidando de quem a gente ama. E Deus vai cuidando de nós todos, né, doutor?”, ela resume. “Eu penso assim! Acho que alivia bastante nossa caminhada, né?”. “É, mas o senhor ainda tá muito novo. Espere pra ser pai. Eu acho que Deus sempre ajuda a caminhada da gente, mas ser pai e mãe são outros quinhentos! Se pra mim é, imagina como foi pra Maria, mãe do menino Jesus…”.
Imagina como foi pra Maria…
   Ainda conversamos mais algumas amenidades e combinamos um retorno no mês seguinte “só pra conversar” e ela saiu, com a sacolinha de remédios na mão. Não deu para desprescrever nada dessa vez, mas tudo bem, a ‘demora” é “permitida”. Foi embora com a mesma sacolinha, mas parecia mais leve. Eu “tenho pra mim” que foi Deus.

Gente foi feita para brilhar, não para morrer de fome (ou de bala perdida)

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Por: Nathalia do Monte Lima Grisoli 

 

Quando chego, o dia na clínica já começou. A fila para a coleta de sangue já dá voltas pelos corredores, as senhorinhas que participam da Academia Carioca já estão a postos e a recepção já está fervendo com os pacientes em busca de atendimento. Hoje é dia de VD, então caminhamos em direção ao metrô para saltarmos na estação onde começa nosso território.  A própria estação já conta um pouco sobre uma parcela da população. Houve um recuo importante das moradias mais humildes em direção ao morro devido à construção do metrô. A população foi sendo marginalizada para dar vez ao que se chama “progresso”.

   As casas foram se amontoando umas sobre as outras, o paredão de cimento e tijolos passou a colorir de cinza o que antes resplandecia azul… Apesar de tudo, a população que lá ficou tratou de colorir a tristeza da arquitetura e da segregação social com a cor mais bonita de todas: GENTE e suas histórias.

   O galo canta cedo no morro. Seu João abre a padaria 10 minutos antes para Marcinha comprar o pão do café-da-manhã da família. Ela pega cedo no batente, assim com Joana, que pega 3 conduções para chegar à faculdade. Ela nem liga. É a primeira da família a cursar uma Universidade. É um exemplo para Jonathan, seu vizinho de 10 anos. Quando crescer, também quer ser “dotô” advogado.

   E o fervo do morro continua. E lava, passa, esfrega, martela, sobe e desce as escadarias. E que escadas! São tantas e tão íngremes que Dona Ana não consegue sair mais de casa. Fraturou o quadril há 10 anos e tem artrose importante nos joelhos. Na esquina da casa da Dona Ana, o lixo se amontoa. Nem sempre devidamente ensacado, dá vez às baratas e moscas, importantes vetores de doenças. Além disso, cachorros e gatos esfomeados abrem os sacos com os dentes e espalham o lixo pelas escadas. Embalagens vazias acumulam água e são chamarizes para mosquitos. A poucos metros dali, crianças chegam à creche…

   O dia segue agitado, colorido com pessoas e suas histórias. Porém, em alguns dias, o morro volta a acinzentar… Jaqueline acorda às 5h, prepara as três filhas para a escola e corre pra pegar o ônibus das 6h. Só que, neste dia, a polícia resolveu “baixar” cedo no morro. Logo se ouviram os primeiros tiros. Jaque, que acabara de deixar as filhas na escola, corre para a casa de Seu Nelson para se esconder. Não pode ficar muito, o ônibus não espera. Resolve descer mesmo assim. A patroa implica com atraso e ela era nova no serviço. Tinha que botar comida na mesa…

  A violência é personagem importante no dia-a-dia dessas pessoas. Trabalhadores, crianças, idosos vivem em meio ao fogo cruzado até com certa banalidade. “A gente se acostuma, minha filha”, disse-me uma moradora. Pergunto o que fazem quando começa o tiroteio. Ela se esconde com a irmã, também idosa, no quarto mais distante das janelas e se agarra a sua fé. Quando cessam os tiros, “é vida que segue”. No morro de céu azul, onde antes voavam pássaros, voam balas algozes e impiedosas, que a qualquer momento podem transformar em preto e branco o colorido de alguém…  

  “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Ninguém podia fazer pipi, porque penico não tinha ali. Mas era feita com muito esmero, na Rua dos Bobos, número Zero.” (Vinícius de Moraes)

Dia 31 de Dezembro

   deixar-de-beber-alcool

Por César Monte Serrat Titton

Dia 31 de Dezembro. Unidade Básica de Saúde excepcionalmente aberta só no turno manhã, com metade da equipe usual a postos para os últimos atendimentos do ano.

Entra no consultório um senhor que nunca atendi e que não parece estar bem:

– Doutor, quero parar de beber.

   E vai contando que não tem se sentido nada bem… e que nunca antes tentou parar de beber. Bebe muito, todo dia, há décadas. É caminhoneiro, não tem mais usado outras drogas além do álcool. O hálito ainda etílico de quem parou há poucas horas, mas já com muitos sintomas de abstinência: agitado, ansioso, tremores, sudorese, coceira, náuseas, sem apetite, dor de cabeça, tontura…

   Pra complicar ainda mais: mora sozinho. Ultimamente, não tem rede de apoio na comunidade, não percebe ninguém com quem possa contar para ajudá-lo – e hoje é o último dia útil do ano, a Unidade Básica de Saúde estará fechada hoje à tarde, amanhã que é dia 1° de Janeiro e mais no fim de semana…

    Bem, vamos ver o que dá pra fazer: começo o tratamento dos sintomas da abstinência de álcool com soro e medicação intravenosa, deixo algumas horas em observação… mas chega a hora de fechar a Unidade. Ele melhorou um pouco, mas ainda não está tão bem, embora pelo menos não apresente sinais de alerta para abstinência complicada – só que as vezes os piores sintomas aparecem com 48 ou 72 horas sem beber, e ele não tem quem possa ajudar a identificar…

– Olha, o ideal seria voltares diariamente na Unidade nestes primeiros dias sem bebida, para ver como você fica e ajustar os remédios aos poucos. Só que vamos estar fechados…

– Não tem problema, doutor, me dê os remédios que me trato em casa.

– Se quiseres, podemos tentar procurar vaga de internamento, mas vai ser difícil, mas talvez precises ficar…

Me interrompe:

– Não precisa, doutor! Pode confiar que fico em casa, sem beber.

– Mas… como você vai passar o fim de ano?

(Justo esta época do ano…)

 – Em casa, doutor. Sozinho. Até tem o bar em frente que costumo ir, mas não vou mais lá não, pode acreditar…

(Ah não, mais esta! Acreditar como?)

– Hum… será que não tem alguém que possa passar te ver por estes dias? Ou algum outro lugar que possas ficar?

– Não tem não, doutor… (olha pra baixo)… mas não se preocupe, eu me viro sozinho…

(Olhos ainda injetados, hálito etílico, voz embargada…)

– Certo… bem, vou receitar os remédios para durar só estes dias de feriado, e que tal deixar marcada uma consulta para o primeiro dia útil de janeiro?

– Tudo bem, doutor, venho sim!

   E lá vai aquela receita de múltiplos remédios, explicada de novo e de novo, orientações sobre os cuidados e sinais de alerta – quanto será que ele está entendendo? Confiro. Tento estimar o quanto ele vai precisar de remédios quando os sintomas da abstinência baterem forte. Uma baita vontade de cruzar os dedos…

***

   Ano novo, primeiro dia de trabalho, chega o horário da consulta agendada… ele faltou. Peço para fazerem contato: por telefone não o encontram, a agente comunitária não o encontra em casa…

   Puxa! Suspiro, imagino ele no caminhão, Brasil afora, no estado em que o vi dias antes – ou estaria pior? Bem, recaídas fazem parte do processo, quem sabe numa outra oportunidade…

   Janeiro atribulado como único médico na Unidade, acabo esquecendo do caso. Até Março, quando abro o histórico do próximo paciente agendado – e é ele!
   Respiro fundo, me preparando para o segundo round…
   Chamo o nome na sala de espera… espera aí, acho que confundi, não é o mesmo homem – ou é?

– Doutor, eu vim hoje por causa de uma gripe, nem tá tão forte, mas a tosse incomoda muito, não consigo dormir. E queria pedir desculpas que eu faltei a consulta que o senhor marcou pra Janeiro, mas é que pintou um serviço para levar carga pro nordeste e eu fui… E também, sabe, queria muito agradecer o senhor por ter acreditado em mim naquele dia em Dezembro – naquele dia em que parei de beber pra sempre!

Existirmos ao que será que se destina?

ficaadica

Por Nathalia do Monte Lima Grisoli*

 

   Dia corrido no consultório. Eis que chega Diana, uma jovem senhora de 60 anos, acompanhada do seu carrinho de compras cheio de roupas e bugigangas. Numa mão traz um gengibre. “Dizem que é bom pra garganta, né?”. Na outra, traz a vergonha: cobre a boca para cumprimentar a doutora, pois lhe faltam o incisivos. Vem com os cabelos grisalhos penteados com o máximo de esmero e veste sua melhor roupa: uma saia jeans sem botão, ajustada na cintura com um lenço, e uma camiseta rosa com letras que lhe embaralhavam a cabeça. Não sabia ler direito…

Diana mora por onde passam centenas de pessoas, cabisbaixas e entretidas em seus smatphones, apressadas demais para olhar para o lado e enxergar por sob o amontoado de papelões e cobertores…

   A jovem senhora vem em consulta para fazer um exame para sífilis, pois Jairo, seu companheiro, foi diagnosticado com a doença há 1 mês. Além disso, queixa-se de palpitações esporádicas e dor em baixo ventre. De repente, começa a chorar… Quando perguntada sobre o motivo do choro, diz que tem muito medo de ficar doente e que acha que a dor na barriga pode ser câncer.

Ao exame, nenhuma alteração. Solicitados testes rápidos, todos negativos. Diana agora exalava alegria. Despiu-se da vergonha e sorriu. A médica perguntou-lhe se poderia ajudar em mais alguma coisa e, assim como eu, imaginou que ela fosse contar um pouco sobre as dificuldades e tristezas de um morador de rua. No entanto, Diana estava tão aliviada por ter boa saúde que sua condição social era secundária naquele momento.

Pensei comigo mesma: “Como ela consegue sorrir na situação em que se encontra? Como consegue ter momentos felizes?”. Depois entendi… Não é que ela fosse absolutamente feliz com a vida que tinha. Na falta de perspectiva em longo prazo, vivia um dia de cada vez. Neste dia, Diana teve uma conquista. Para nós pode parecer pequena, quase irrelevante. Para ela, uma motivação para viver o próximo dia…

Diana saiu do consultório contente, mascando seu gengibre e carregando seu carrinho de compras.
Carregava expectativas, medos, sabedorias, e não apenas um corpo lutando contra as adversidades. Não sei
qual será o seu futuro, mas de uma coisa tenho certeza: Diana não sobrevivia. Diana existia…

 

*Nathália é interna do curso de medicina da UFRJ.

Caso queria mandar seu causo, só enviar para causosclinicos@gmail.com