Água Santa

perdão
   Último atendimento da tarde, entra para consulta pai e filho. Trazem os capacetes no braço, proteção para a descida de moto, ladeira abaixo. O pai, aponta para o filho bem moço com a sacolinha de exames:
– Veio meu responsável comigo hoje de novo… É duro, senhora, os outros num tem vindo mais… Esse aí é o único que me toma conta.
    Ele me chama de senhora todos os dias que me vê, mesmo tendo idade para sermos avô e neta. Coisas de gente antiga, ele me diz. Todos os dias também fala com tristeza da falta de união familiar, da saudade, da respiração. Tem que ficar no batente da porta pra se sentir melhor, ver as pessoas na rua e botar ar pra dentro.
    O filho responsável mostra os exames de avaliação cardíaca: insuficiência de válvula, aumento das câmaras, hipertrofia… Queixava desde o início do ano de abafamento no nariz e entupimento no cérebro. Urina solta, uma falta de vontade de comer e inchação nas pernas. Eletrocardiograma alterado, iniciamos medicação no mês passado. O cansaço do dia-a-dia permanece, mas tem conseguido capinar a frente da casa. Ainda bem, ufa! Digo que precisamos ajustar alguns remédios que vão ajudar o coração funcionar melhor.
     Hoje acha que está mais esquecido que o normal e o bendito entupimento no cérebro etá pior, desceu pro peito! Pergunto em que rua mora e em que cidade estamos. Me conta que tem saudades de Água Santa, desde que veio morar em Vila Isabel. Peço pra me dizer em que mês e dia estamos e me conta que amanhã vai fazer aniversário e, finalmente, o resto da filharada vai se encontrar. O ar tem faltado, mas amanhã vai valer o esforço…
Já que ele tem estado esquecido, falo 3 palavras e peço para ele guardar na cabeça:
– Senhora, tem coisas que a gente não esquece não…
   Deixo a triagem de demência de lado:
– E o quê que tá na cabeça do senhor?
    O olho mareja… A ex esposa que ficou lá em Água Santa.
– Nunca pedi perdão pra ela.
    Conta o que nunca tinha contado pra ninguém. Fala que o perdão é mais pra quem pede do que pra quem dá e que agora, com 85 anos, tem medo de não ter tempo mais pra nada. Tem medo do coração falhar na hora, tem medo do ar faltar, tem medo de não saber. Me pergunta se o remédio que eu mudei vai fazer ele sentir mais amor.
Eu pergunto o que ele acha de visitar Água Santa no domingo.
O filho sorri:
– O entupimento deve até melhorar…
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Seu Sérgio e Dona Dora

por Ana Beatriz Cavallari Monteiro

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Era por volta de 3 horas da tarde de uma quinta-feira. Quando chamei pelo nome, Seu Sérgio entrou no consultório acompanhado de sua esposa, Dona Dora. Perguntei como poderia ajuda-los naquela tarde e ele disse que tinha vindo para uma consulta de rotina que foi marcada pela ACS. Me contou que tomava remédio pra pressão e pra enxaqueca, mas que estava há vários anos sem crises. Perguntei então se ele estava sentindo alguma coisa diferente nos últimos tempos e ele disse que não, se sentia bem. Logo depois, porém, lembrou de falar que estava percebendo que as pernas estavam mais inchadas e que as vezes se sentia um pouco cansado. Comecei a fazer algumas perguntas sobre outros sintomas tentando encaixar o Seu Sérgio em alguma doença (Insuficiência cardíaca? Insuficiência renal? Cirrose hepática?…).

Quando questionei se ele bebia ou fumava, prontamente respondeu que não. “Só me divirto com a minha esposa, doutora. Sabia que somos casados há 48 anos?” Respondeu dando um sorriso carinhoso para Dona Dora, que então retribuiu com outro sorriso. Depois daquela conversa inicial, comecei a examinar o Seu Sérgio. Os pés realmente estavam inchados. Edema 3+/4+ (com cacifo bem importante)…Ausculta cardíaca…Opa! Tem um sopro aqui! Observando melhor a pele do paciente parecia levemente amarelada (seria icterícia?). Só depois percebi que na verdade ele estava (bem) pálido. Palpei pulsos, fiz ausculta respiratória, pedi que deitasse na maca para examinar o abdome e…caramba! Tinha um baço enorme. Provavelmente o maior que eu já tinha palpado, chegando até perto da cicatriz umbilical. Palpei mais uma vez pra ver se era isso mesmo. E era. Coloquei a mão do Seu Sérgio na barriga dele e perguntei se ele já tinha percebido algo diferente ali. Ele disse que não. Expliquei aos dois que tinha percebido algumas coisas de diferente no exame físico dele e que precisava discutir o caso com os meus preceptores. Quando eu ia saindo do consultório Dona Dora comentou: “Doutora, ninguém nunca tinha examinado o meu marido assim. A senhora é muito boa!”

No caminho até a salinha dos preceptores muitos pensamentos passavam em minha cabeça. Comecei a discutir então com dois preceptores e disse que uma das minhas hipóteses era Calazar e que estava pensando em pedir um hemograma na UPA…“Calazar? Não é muito comum aqui no Rio né?” – disse um deles. “Será que não é uma doença hematológica?” – sugeriu a outra preceptora.
Voltei no consultório e expliquei que precisaria pedir o exame pra ele fazer naquela hora e perguntei se tudo bem eles esperarem pelo resultado que demoraria entre 1-2h. Eles tranquilamente disseram que sim. Continuei atendendo os pacientes naquele turno e algumas vezes, ao sair do consultório, pude ver Seu Sérgio e Dona Dora papeando na porta da clínica.

Algum tempo depois, durante a consulta de outro paciente, uma pessoa bateu na porta do consultório. Era o técnico do laboratório pedindo que eu o acompanhasse. “É meio urgente”- ele disse. Quando chegamos ao laboratório ele pediu que eu olhasse no microscópio e perguntou se eu sabia identificar o que via ali. Óbvio que eu não sabia. Ele respondeu dizendo que a medula do paciente estava “explodida” – 58.000 leucócitos, muitos blastos, Hemoglobina de 5,7 e 60.000 plaquetas. Voltei imediatamente para a salinha dos preceptores pra mostrar o exame. É, realmente estávamos diante de uma doença hematológica, provavelmente uma leucemia, e agora eu precisava dar a notícia pra eles.

Chamei Seu Sérgio e Dona Dora de volta pro consultório e comecei a, calmamente, gastar todas as técnicas de consultas e comunicação de más notícias que eu tinha aprendido até ali. Expliquei que o exame do Seu Sérgio mostrava tinha algo errado com a medula dele. Expliquei que a medula é o órgão que produz as nossas células do sangue e que como a dele não estava funcionando bem, ele tinha uma anemia bem importante. Expliquei também que o cansaço, o inchaço nas pernas, o sopro no coração e o aumento do baço era tudo consequência desse problema na medula. Disse ainda que a nossa principal hipótese era leucemia. “Vocês já ouviram falar sobre isso?” – perguntei. Durante todo esse tempo Seu Sérgio e Dona Dora me olhavam em silêncio com um olhar de dúvida. Pela primeira vez naquela tarde ele não sorria. Disseram que já tinham ouvido falar sobre a doença, mas que não sabiam bem do que se tratava. Eu fiquei por alguns milésimos segundos me perguntando se eu devia ou não falar naquele momento que leucemia era um tipo de câncer. Mas sim, achei justo que soubessem.

“Câncer???” – disse Seu Sérgio elevando o tom de voz. “Doutora, eu não posso ter câncer!! Eu não sinto nada! Eu vim só pra uma consulta de rotina. Quem tem câncer está em cima de uma cama, sofrendo com dores. Eu não sinto nada!” – dizia ele batendo no peito. Dona Dora então começou a dizer que não acreditava no resultado daquele exame, que o laboratório devia ter trocado o sangue dele com o de outra pessoa e que preferia que ele repetisse o hemograma em um laboratório particular pois não confiava no laboratório da clínica. Novamente tentei explicar para eles que apesar de não se sentir doente, ele apresentava todas aquelas alterações no exame físico e o exame de laboratório só confirmava o que nós já suspeitávamos. Quando falei que precisaríamos interna-lo (Sim! Na minha cabeça ele precisaria de uma biópsia de medula urgente pra fechar o diagnóstico e começar logo o tratamento) Seu Sérgio e Dona Dora não concordaram nem um pouco com a ideia. Uma de suas netas estava com o parto agendado pra dali a 3 dias, eles precisavam dar suporte a ela. Se Seu Sérgio ficasse internado tudo seria mais complicado.

Eu mandei então uma mensagem desesperada pro meu preceptor (que já estava sabendo do resultado do exame que eu havia mandado por mensagem) dizendo: “Socorro! Ele não quer internar! Me ajuda!”, ao mesmo tempo que fui na salinha pedir ajuda pra outra preceptora que estava lá. Nós três juntos voltamos então ao consultório. Nesse momento Seu Sérgio parecia com tanta raiva de mim que nem me olhava no rosto. Nós conversamos com eles por um longo tempo, explicando calmamente a importância daquela internação e todos os riscos envolvidos, porém os dois continuavam irredutíveis com a ideia de não internar e de repetir o exame no laboratório particular. Em um determinado momento percebemos que não conseguiríamos convencê-los e respeitamos a decisão do casal. Dei o pedido do exame de sangue e disse que eles poderiam nos procurar quando quisessem.

Naquela hora surgia dentro de mim uma mistura de frustração e raiva e eu só pensava: “Caramba! Eu não acredito nisso! Eu fiquei a tarde inteira tentando ajudar, examinei ele com tanto cuidado, gastei mais de 1h explicando o que estava acontecendo e eles não confiam na nossa avaliação?”. Seu Sérgio mal se despediu de mim, parecia realmente chateado, como se eu tivesse colocado a doença nele. Dona Dora me abraçou pedindo desculpas pela grosseria, pediu que eu entendesse e disse novamente: “Ninguém nunca examinou meu marido assim”. Assim que eles saíram eu desabei a chorar. Chorei de soluçar, enquanto os meus preceptores me abraçavam e consolavam. Apesar da decisão ter sido deles, eu me senti totalmente impotente. Fiquei a noite e o dia seguinte inteiro pensando neles, ainda desconfortável com aquela situação.

Dois dias depois era sábado. Eu estava escalada pros atendimentos na clínica e já no final da manhã Seu Sérgio e Dona Dora chegaram afobados com um resultado de exame em mãos. “Doutora, nós repetimos o exame do Sérgio no laboratório particular. Eles acabaram de ligar de lá dizendo que o exame estava muito alterado e que a gente precisava procurar um médico urgente! Por favor, interna ele!” – dizia Dona Dora. Eu respirei aliviada por eles terem voltado logo. Então perguntei: “O bisneto de vocês nasceu?”. Eles disseram que não, a cirurgia seria no dia seguinte, mas não tinha problema, podia internar ele assim mesmo porque agora eles entendiam que a situação dele era grave. Eu pensei por uns minutinhos e disse: “Vamos fazer o seguinte…vão pra casa, vejam o bisneto de vocês nascer, curtam esse momento. Segunda feira bem cedo vocês voltam e a gente pede a ambulância”. Acho que eles ficaram bem chocados com essa fala, afinal dois dias atrás eu tinha tentado usar vários argumentos pra interná-lo naquele momento.

Na segunda-feira cedinho eles estavam lá. Já com um ar mais tranquilo e conformado (e até com um sorriso no rosto), foram de ambulância até o hospital pra que de lá tentassem uma vaga em algum serviço de Hematologia. Ficaram por lá durante 5 dias (literalmente tomando só soro na veia) e nada. Nem uma transfusão de sangue. Receberam alta com orientação de conseguir encaminhamento pela Clínica da Família. Começou então a nossa saga de tentar conseguir uma vaga de internação eletiva. Essa angustia durou mais ou menos uma semana, até que por meios não convencionais eles conseguiram uma consulta no Hemorio, onde Seu Sérgio passou a ser acompanhado.

A biópsia de medula demorou algumas semanas pra sair. E não, o diagnóstico não era Leucemia. Era Mielofibrose, uma doença que eu nunca tinha ouvido falar. Comecei a estudar sobre o assunto pra poder ficar mais por dentro do cuidado do Seu Sérgio. Soube que o tratamento era caríssimo, cerca de 15.000 reais por mês, e certamente eles não teriam como pagar. A cada 15 dias eles compareciam no Hemorio para uma nova transfusão de sangue, mas não sabíamos ao certo quanto tempo de vida ele ainda teria sem a medicação adequada. Começou a usar então uma outra medicação que conseguiu estabilizar o quadro (o baço começou a diminuir, as transfusões começaram a ser mais espaçadas..). E a vida foi seguindo, alguns dias melhores, outros piores. Seu Sérgio e Dona Dora passavam com frequência na clínica pra me dar notícias sobre seu tratamento. E ele estava sempre com o sorriso no rosto.

Há umas duas semanas recebi a notícia que seu Sérgio estava internado. Parecia que as coisas não iam muito bem, estava no CTI, intubado, com os exames bem ruins. No fundo, apesar de saber da gravidade do caso, eu sentia que ele ia sair dessa. Achava que só ia receber a noticia da sua morte alguns anos depois que terminasse a minha residência. Mas essa semana Seu Sérgio nos deixou, deixando também partido o meu coração. Imediatamente lembrei de Dona Dora. Lembrei de todo o cuidado que ela tinha por ele e sofri ao pensar nessa separação depois de tantos anos juntos (sim, foram 11 de namoro e 49 de casamento, sendo o último aniversário quando ele já estava no CTI, ainda lúcido). De alguma forma, não sei bem explicar o porquê, Seu Sérgio e Dona Dora ganharam um espaço muito especial no meu coração. Eles me fizeram crescer como médica e como ser-humano e me ensinaram sobre amor, cuidado e valorização da família.

Hoje, desejo que Seu Sérgio esteja com Deus, num lugar muito especial. E que um dia eu e Dona Dora possamos encontrá-lo por lá também, sempre com seu sorriso no rosto.

A fórmula secreta

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Por Carol Reigada

Rio de Janeiro, Clínica da Família.

Uma jovem de 16 anos adentra o consultório com o nariz vermelho e fungando.

Médica de família e comunidade a aguarda para a última consulta da manhã, sala de espera quase vazia.

– Olá, como posso te ajudar?

– Doutora, peguei o resfriado que tá pegando todo mundo.

– Tadinha, esse resfriado tá derrubando mesmo. Que você está sentindo?

– Ah, o que todo mundo tá sentindo: corpo arriado, nariz entupido, escorrendo, dor de cabeça.

– Febre, falta de ar?

– Nada disso.

– Então temos que esperar passar e repousar. Podemos usar uns remédios pros sintomas, mas o repouso melhora isso rapidinho.

– Doutora, é que eu tô em semana de provas e acabei de começar no Jovem Aprendiz, não queria faltar, sabe?

– Entendo, mas a gente não escolhe doença, né? Eu te dou atestado pra mostrar, junto com o remédio.

– Doutora, a senhora não pode me dar… ( e aí ela se aproxima e fala num sussuro) o remédio dos médicos?

– Que remédio dos médicos?

– Você sabe, o que vocês tomam para não ficar doentes.

 

Essa me pegou. Fiquei um tempo parada, pensando. Resolvi arriscar:

 

– Seria um remédio que médico toma para não pegar as doenças de quem atende?

– Isso. Eu sei que não sou médica, mas eu estou mesmo precisando.

– Entendi. É que não existe esse remédio do médico

– Não?

– Não, a gente fica doente também. Às vezes mais que pessoas de outras profissões, porque a gente fica em contato com várias dessas doenças, tipo o resfriado.

– Eu tinha certeza que existia um remédio de médico

– Não, prometo que não. Nossos remédios são os mesmos que os seus.

Até hoje tenho dúvidas se ela acreditou em mim.

Sobre criança, teimosia emuito mais além

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Por Mônica Lima  

 Uma das coisas interessantes na Estratégia de Saúde da Família é que, a medida que a gente se aprofunda na comunidade, os casos se tornam ainda mais profundos porque nossa visão sobre ele é muito maior do que meramente clínica, de um encontro fútil de consultório, ele rasga a pele e adentra as entranhas até do relacionamento familiar e comunitário.

   E quando a mãe leva a criança para atendimento dizendo que a professora não aguenta mais pois ela é desafiadora e não leva desaforo para a casa, é você confronta a mãe e pergunta se ela esperava que fosse diferente do jeito dela mesmo de levar a vida. Sabendo que a mãe, mesmo é aquela que provoca a vizinhança, que ameaça os professores, que chama para a briga física quem olha de maneira “torta” para ela. E nessa constatação você pode, com propriedade e conhecimento, direcionar a atenção para a forma como ambas enfrentam suas dificuldades, fazer propostas de mudança de comportamento.

   Ou outra criança que na mesma semana vem com a mesma queixa porém, de uma mãe que é contida demais, porém, em seu trabalho que as pessoas têm a capacidade de achar ainda que é uma “vida fácil” traz confusão e insegurança para o filho fazendo com que ele fique agitado, agressivo e que diz que quando se sente “humilhado”, partir para cima. Me conta um exemplo de o que é ser humilhado (eu pergunto), ele responde: por exemplo quando uma amiguinha pediu para ele sair de um determinado lugar. Ele foi com chutes e pontapés sobre ela. O olhar da mãe é perplexo diante de tanta irritabilidade do menino, mas também desconhece que todo o processo da vida dela possa pesar sobre o filho de alguma forma. O menino tem pesadelos, range os dentes, é sonambulo e a mãe e a professora não entendem porque ele dorme na sala de aula. No consultório,  o momento é de trazer a luz à base desses sintomas, pegar a raiz do problema, entender os sentimentos que são a fonte desses sofrimentos, porque fatos não nos faz sofrer, o que nos faz sofrer e adoecer são os sentimentos gerados por ele.

   Penso se isto seria possível em uma consulta de 5 minutos, ou se é possível ser feito por um sistema que entende que precisa ficar mudando o profissional de lugar e impede qualquer possibilidade de vínculo e de longitudinalidade. Vê a arte da profissão em saúde como automatizada e técnica apenas. Mas, ser profissional de saúde da família vai além desses limites, além das 4 paredes, além do exame físico, ele trespassa o paciente em seu passado e presente, em seus pensamentos e sentimentos, no que o tira de uma situação de equilíbrio transitório que a gente chama de saúde para uma perturbação que a gente chama de doença.

Era apenas para ver o nascer do sol

Foto de Rodrigo Lima

por Romulo Alves*

Sábado se acabando. Junto com ele a festa do congresso sul-brasileiro de medicina de família e comunidade em Floripa. Subversiva, festa muito boa com músicas legais e pessoas divertidas. Vamos comer alguma coisa no posto de gasolina e depois ir pra praia do Campeche ver o nascer do sol?! Eu mais sete pessoas animamos. No caminho ao posto e durante o tempo que ficamos lá trocamos muitas ideias, nos apresentamos uns(umas) aos(às) outros(as). E dali começou a fortalecer um sentimento de amizade e afeto gratuitos. A MFC como sempre firmando vínculos e estabelecendo conexões.

“Vamos, gente, pra praia? Já são 5h30!”, falo pra nos apressarmos e irmos logo à praia. Estava ansioso pra ver a paisagem. E assim fomos munidos de muito carinho uns(as) pelos(as) outros(as). Chegando lá continuamos conversando, ouvindo música, nos amando, abraçando, contemplando o céu e o mar. Éramos a gente somente. Nós e o mar…

O dia foi nascendo e junto com ele a praia começou a ser ocupada por outras pessoas. Um olhar estranho ali, outro acolá, mas não ligamos e continuamos deitados (as) na areia e conversando, rindo, nos conhecendo. Foi passando o tempo e alguém teve uma ideia genial. “Vamos tomar um banho no mar!?”, uma das gurias fala bem animada. “Vamos todos (as)!”. “Mas não estamos com roupas de banho!”. “Ué? Não tem problema! Vamos de calcinha, sutiã e cueca mesmo, não tem problema algum, gente!”. Assim fomos, água gelada, mar um pouco revolto, sol tímido ainda brincando de esconde-esconde com as nuvens. Brincamos, jogamos água um(a) no(a) outro(a), contemplamos aquela imensidão…

Ao voltarmos à praia, corpos molhados, friozinho na pele, Vinícius me pede um abraço. “Está frio, Romulo, me abraça”. E assim o fiz. Rapidamente percebemos uns caras que estavam de longe apontando para nós. Vinícius fala que estão comentando sobre a gente. Fico indignado e digo a ele que não vamos nos largar, vamos continuar no abraço aquecedor e também tomo mais uma atitude: dou um beijo nele.

De repente esses caras descem para o nosso rumo e começam a nos agredir verbalmente. Falando que a praia é deles, que não tinha problema se a gente gostava de dar o cu. Mas que a gente tinha que se vestir naquele instante, porque a mulher dele estava descendo pra praia e não queria que ela visse essa pouca vergonha. Na hora as demais pessoas que estavam conosco começaram a defender a gente dizendo que ninguém ia se vestir, que eles não eram donos da praia e que estavam sendo, mesmo eles negando veementemente, bastante preconceituosos.

Mistura de indignação, perplexidade e constrangimento, vi que estavam descendo mais dois caras. E os que já estavam nos insultando começaram a aumentar mais ainda o tom de voz e a feição de ódio. Nesse instante percebi que nossos argumentos estavam em desvantagem e seriam em vão com aquelas pessoas.

Continuaram as ameaças e agressões verbais. Eu já tinha colocado a camisa e estava pegando a calça na areia, quando de repente eu ouço “já falei pra ir embora, viado!”. Ainda com o corpo inclinado para o chão, olho para a frente e num piscar de olhos só consigo ver o olhar de ódio de um dos caras vindo ligeiro para o meu rumo e me acertando em cheio um soco em gancho que atinge todo o lado direito do meu rosto.

Pronto. Estava liberada a licença social para eles começarem a agredir mais uma colega e um colega. No mesmo momento outras pessoas que estavam próximas encorajaram-se para também vir nos agredir. Atordoado ainda com o golpe, perco meus óculos na areia e a visão direita embaçada. Começo a me desesperar, “e se tiverem alguma arma com eles?”. E o medo cada vez mais se apoderando de mim. Chamo todo mundo para nos distanciarmos. Alguém liga pra polícia. Chegam em 10 minutos. Perguntam o que houve. “Estávamos nos abraçando quando tudo começou!”, disse Vinícius. Um policial retruca: “mas então vocês se abraçaram para provocar eles?”. Não acreditei no que ouvi. Agora a culpa de termos sido agredidos por uns escrotos foi nossa?!?

“Queremos ir lá para mostrar os agressores!”, porém os policiais recusaram, usando a desculpa de que seria perigoso para a gente. Eles estavam com duas viaturas. Inacreditável. Mas não podíamos obrigar eles. Fomos para a delegacia mais próxima. Prestamos depoimento e registramos os boletins de ocorrência. “Queremos fazer exame de corpo de delito”. “Somente em horário comercial e de segunda a sexta”. “Não é possível isso!”. “Sinto muito, mas são as normas. Para se fazer exame de corpo de delito via plantão policial, os PM deviam ter levado vocês ao local e terem pegado os responsáveis pelo ato violento”. “Mas os PM não deixaram a gente mostrar os agressores para serem pegos como flagrante!”. “Eles agiram de forma errada”.

E assim a indignação continuou a crescer, junto com a sensação de impotência perante esse órgão repressor e pouco efetivo quanto ao combate às opressões na sociedade. “PM para quem? O que ou quem ela protege?”. Fico refletindo sobre tudo isso, mas sem nenhuma resposta. Vou embora da delegacia com lágrimas nos olhos, pensando sobre o ocorrido…

Um abraço e um beijo, símbolos que demonstram afeto e carinho. Um abraço e um beijo que fizeram meu rosto ser maculado. Será que não posso mais demonstrar carinho e afeto e ser realmente quem eu sou na sociedade? “A placa de censura no meu rosto diz: NÃO RECOMENDADO À SOCIEDADE”. Mas não deixarei isso me reprimir ou deixar de me fazer lutar todos os dias contra a homofobia.

Terão muitos abraços e beijos SIM!

E ainda quero ver o nascer do sol.

 

* Romulo Alves é MFC em Brasília.

Eu não durmo no hospital

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Por Maira Beatriz Carrozza*

Eu não trabalho no hospital 24 horas por dia, na verdade, minha carga horária dentro de um pronto socorro não ultrapassa 12 horas por semana.

Embora eu tenha sim passado algumas noites no hospital, na maioria dos dias eu durmo no conforto da minha cama.

Não quero desmerecer meus colegas que passam longas horas exaustivas no turbulento ambiente de uma emergência, na verdade tudo isso faz parte do cuidado da uma rede de saúde.

E por falar em rede de saúde, vou pedir licença a esses colegas para focar no nível de atenção primária. Para os leigos ou os não tão leigos assim, quando se fala em níveis de saúde, tem-se a divisão: atenção primária, atenção secundária, atenção terciária. De uma forma bem sucinta e prática, a atenção primária é responsável por toda parte de prevenção e cuidado integral do indivíduo, sendo ela representada pelas estratégias de saúde da família.

É numa dessas aí que eu trabalho. Aprendendo sempre que cada um que eu atendo é único. Tem seus sintomas, seus próprios entendimentos e sentimentos sobre aquele sintoma. Está inserido numa família única que faz parte de uma comunidade única, com características territoriais e epidemiológicas particulares.

E, apesar de eu não trabalhar integralmente em um hospital, muitas vezes eu vou no hospital visitar meus pacientes que precisaram ser internados. Divido com eles a angústia de sair do conforto do cantinho deles que é tão deles mesmo.

Eu não tenho uma rotina exaustiva dentro de um pronto socorro, mas em todas as minhas consultas eu falo com meus pacientes sobre a exaustão e a angústia que eles têm de se sentirem doentes.

Eu não durmo no hospitalEu, na maioria das vezes, tenho o conforto da minha cama pra dormir. E todos os dias quando deito, penso nas peculiaridades de cada um que atendi, com seus sentimentos, suas limitações, suas vontades e dificuldades… e sei, que pelo menos um pouquinho, fiz a diferença no dia de alguém. Mas eles… ah, eles fazem toda diferença pra mim!

E com todos esses pensamentos, pego no sono.

 

  • Maria Beatriz é residente do 1 ano de MFC em Puso Alegre e compartilhou com  o blog seu Causo. Caso queira também compartilhar o seu causo, envie para causosclinicos@gmail.com
  • Também estamos no Fb e no Insta!

Livro Causos

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É com grande satisfação que o Causos Clínicos lançou seu livro em outubro de 2018.

Ele está com 50 Causos selecionados pelo grupo, que representam a complexidade e a beleza da Medicina de Família e Comunidade e seus percalços como graduando, residente, médico e equipe.

O cuidar da pessoa também é cuidar da equipe, cuidar dos profissioanis, cuidar de quem cuida e o livro permite que avançemos nesse caminho.

Também é uma forma de compartilhar e alcançar a nossa especialidade outros espaços e campos, levando a mesma para o conhecimento dos mais diversos públicos.

Caso queira adquirir um livro, pode encomendar pelo e-mail, ou fazer o depóstio e enviar o comprovante para causosclinicos@sbmfc.org.br

Grupo Causos Clíncios