A verdadeira glória, como médico de família e comunidade

por Thiago Dias

Resultado de imagem para no topo do mundo

Dona Izilda, 77 anos, vem a uma consulta de rotina, paciente com histórico de hipertensão arterial sistêmica e diabetes tipo 2. Aquela paciente que a maioria dos colegas gosta de atender, faz tudo direitinho, segue à risca as recomendações dos profissionais da saúde.

“Vou ver como está dona Izilda, checar suas receitas, solicitar os exames complementares necessários, tranquilo… Será uma consulta sem problemas”, pensei antes da senhora adentrar no consultório.
“Bom dia dona Zildinha, vamos ver como estamos indo?”
“Olha doutor, antes do senhor começar, só uma coisinha: muito obrigado pelo trabalho que o senhor e a equipe do postinho vem fazendo comigo e minha família! A gente ouve tanta coisa por aí, que postinho de saúde não presta, demoram as coisas para acontecer, as consultas… Mas isso tudo fica pra trás quando temos AMIGOS que cuidam da gente com carinho, e vocês são considerados mais que meus amigos, são minha FAMÍLIA!”.
Longe de mim deixar a soberba subir a cabeça, e sair me glorificando por aí. É o meu trabalho, é o nosso trabalho, escolhi esta profissão e essa especialidade por puro gosto.
Lembrei-me de um professor, quando ainda era interno do 5 ano: “…se for para se glorificar de algum ato feito, vai pro seu banheiro, sozinho, olhe-se no espelho, bata as mãos na cabeça – como um afago – e diga PARA VOCÊ mesmo, muito bem fulano!”… E basta.
Fiz isso, assim que cheguei em casa. Rolou uma lágrima, aquela que traduz, pelo menos para mim, que apesar das precárias estruturas nas quais contamos, muitas vezes, para trabalhar, como me sinto feliz e realizado na MFC! Uma abraço a todos os colegas guerreiros da MFC!
*MFC=Médicos de Família e Comunidade
Anúncios

Falta de ar

por Bruna Novaes

falta ar

– Dra, eu vim pra renovar minhas receitas da asma, acompanho com o médico do
pulmão, ainda não estou muito bem e to usando muita coisa. Olha aqui.

Me mostra a receita anterior, com TODAS as medicações possíveis para tratar asma
grave.

– Quando Começou essa asma? Foi desde criança?
– Não, acho q faz uns 4 anos.
– Hmm.. e você lembra se aconteceu alguma coisa há 4 anos?
Olhos se enchem de lágrimas
– Foi quando descobri que meu filho usa drogas.
– Me conta mais sobre isso.
Alguns minutos contando sobre toda a situação complexa e de como ele quer se tratar e
ela é a única que está ao lado dele nessa luta.
– Tá muito difícil. Será que isso tem a ver com a asma doutora?
– Acredito que sim. Como está se sentindo com toda essa situação?
– SUFOCADA

Arrastão

por Ricardo Mannato

Resultado de imagem para idosa dançando

No fim da manhã de atendimento, Maria entra na sala. Demanda espontânea.
Mulher branca de 60 anos, aparentando bem menos com seus cabelos pretos lisos
presos em um coque, pele jovem, óculos vermelho saltando os olhos e vestido preto
de lycra.
– Doutor, que bom que você fez esse encaixe para mim. Não estou me
aguentando de dor nas costas. Menino, vou começar um emprego novo de
faxineira, tenho que dar um jeito nessa coluna, pelo amor de Deus. Preciso bater um
raio x pra ver o que é isso!
Destrinchando melhor; ela “sempre” sentiu essa dor lombar, afinal tem uma
perna maior que a outra, mas estava pior ultimamente, depois que inventou de
ajudar a filha com a mudança. Não irradiava, era pior com a movimentação e dava
uma aliviada quando ela tomava dorflex. O exame físico ajudou a corroborar a
hipótese de lombalgia mecânica, muscular e óssea. Raio X não seria necessário,
expliquei, já temos todas as informações que precisamos. Combinadas algumas
medidas para aliviar a dor, pactuamos uma interconsulta com a fisioterapeuta da
clínica e uma visita ao grupo da dor e autocuidado, para participar de uma sessão
de acupuntura.
– Nossa, doutor, preciso disso mesmo. Quero me curar rápido, tô ficando
estressadíssima já. Essa dor tá acabando com minha disposição, faz meses que
não vou no forró!
– É? Tu gosta de dançar um forrozinho?
– Ô se gosto. Vou sempre na Feira de São Cristóvão com minhas colegas,
dançar um forró abraçada com os caras, vê se tem coisa melhor. Vou te falar que eu
sou assim mesmo, tiro esses caras mais novos pra dançar e levo pra casa depois.
Minhas colegas ficam bobas, mas eu não tô de bobeira não, ué. Tamo dançando
pra lá e pra cá, acontece o beijo e eu já mando logo: ‘E aí? Rola de ir pra sua casa?’
É ruim que eu saio sozinha de lá, elas que são muito mais novas ficam só
moscando, eu dou direto o bote.
Caímos no riso com esse depoimento sincero, entendendo melhor o quanto
aquela dor estava influenciando na funcionalidade da Maria. Conversamos sobre a
importância de se proteger em encontros casuais, incentivando que continue dando
seus botes de forma segura.
– Essas meninas novinhas ficam de cara com o sucesso que eu faço. Só saio
de casa se for para ir até o fim. Elas me chamam até de Vovó do Arrastão, porque
por onde eu passo, saio arrastando uns caras para casa.
– Me dá seu telefone, Maria, que vamos agendar com a fisioterapeuta e te
retorno com a data.
– Muito obrigada. Anota aí, vovó do Arrastão, que tu não esquece qual Maria
que é.
Vejo mil lombalgias mecânicas por semana: umas agudas, outras mais fortes
e duradouras, aquelas com paresias e limitação de movimento e outras que só
aparecem nas segundas de trabalho, mas só existe uma que tá impedindo o forró
quebra-estresse da Vó do Arrastão: a da Maria. Doenças se repetem, adoecimentos
são únicos.

 

Ricardo cursa Medicina na UFRJ e nos mandou esse causo que vivenciou durante seu internato em Medicina de Família e Comunidade.

Hora do banho

por Arthur Fernandes

Nessa última semana do ano recebi Norma. Fazia muito tempo que não nos víamos. Ela costumava se dedicar integralmente aos cuidados do marido, um idoso acamado e com demência em estágio avançado. Sua vida girava em torno dele há, pelo menos, 3 anos. Ao abrir a porta do consultório, os olhos marejam e ela diz:
– O senhor soube, né?
– Eu soube…
– Pois é, doutor. Agora o sofrimento dele acabou. Faz 3 meses que ele se foi… E eu entendo, sabe? Que ele descansou… Mas faz muita falta!
– Imagino… Quer me contar mais um pouco sobre isso?
– Ele era minha vida. O senhor deve se lembrar.
– Lembro…
– Eu dormia e acordava pra cuidar dele. E não me cansava, não. Só sabia fazer aquilo. Agora é uma tristeza o dia todo…
– Essa tristeza tem um nome?
– “Falta”. Porque de manhã cedinho, não tem mais pra quem eu organizar o café. Antes do almoço, não tem mais em quem eu dar banho. A noite, não tem mais porque bater a papa no liquidificador e dar na colherzinha, como o senhor ensinou desde aquela visita, quando tirou a sonda dele… E ele comia tão bem…
– Só posso imaginar quanta falta ele fez, dona Norma… Tem conseguido conversar com mais alguém sobre isso?
– Não… Aliás… Com ele!
– É mesmo? E como?
– Ele aparece em sonho pra mim.
– Sério? Me conta como é?
– Já foram umas duas vezes. Primeiro ele apareceu num sonho pra dizer que tava bem e que tava feliz. Foi rápido, deu nem tempo de pensar direito. Passado um mês, mais ou menos, ele apareceu de novo, dizendo “não se aperreie, não, meu amor, que eu tô num lugar muito bom; aqui não tem você, mas é muito bom; não fique triste assim não”.
– E como foi ouvir tudo isso dele?
– Deu uma coisa boa, num sabe, doutor? Assim, como se trouxesse uma calma. Mas a saudade é muito grande.
– Verdade… O que você espera agora?
(silêncio)
– Aguentar, só isso. Aguentar viver esse mundo sem ele. Eu tenho rezado mais, num sabe? Pra conversar com Deus mesmo. Pedir ajuda a ele.
– Conversar com Deus é bom?
– É bom. Ainda doi, mas uma coisinha a menos.
– Tem ajudado a aguentar a viver, pelo menos por enquanto?
– Tem. Tem sim.
.

(os nomes são fictícios e as estórias têm adaptações para preservar o sigilo das pessoas)

Sem Fome

C017DF341D34481BB8D3DBDCE065665E

Por Gabriela Silva

      Tá chovendo e eu me lembro de mim antes. Antes do temporal, do Rio, da faculdade
de medicina, antes das eleitas, de Manguinhos, antes da Flor, da análise, antes de tudo que fez estar nessa rede vermelha. Uma vontade-sonho de comprar uma Kombi e sair por aí e viver a vida . Com 12 anos eu tive meu primeiro insight sobre o ciclo tacanho vazio do consumo. Comentava com uma das populares da sala que ria da minha ingenuidade. Ela que anda sumida. Um casamento desfeito. Não faz falta. Mas eu gostava dela.
Tá tocando Nana Caymmi e eu ouço os comentários sobre o caos da noite anterior. Um
temporal que deu medo. Pedia pra Yansã me poupar. Antes do lamaçal e da cachoeira eu fui na casa do Seu Ferreira. Velho falante, marido da Dona Dalva. Uma testa de capacete, perna fina, tronco quadrado, tinta preta manchando a testa. Tem que ver o medico de vista pro Ferreira! Outro dia ele estava abaixado falando com o saco preto achando que era o gato. Tive que rir. Uma das primeiras casas que visitei no Mandela. O Zacarias na gaiola. Um canário velho e aleijado com o cocuruto adornado por uma franja idêntica ao falecido trapalhão.
Tá deitado, o Ferreira. A bermuda na canela, fralda, talco no bumbum. Respiração
ofegante. Não se move quando eu chego. Desinchou a perna. Mas tá com a pele irritada e essa força pra respirar. Tenho medo de ver seu rosto. Primeira vez que vejo seu corpo assim deitado. Toco suas costas, vejo dois olhos opacos, a boca preta machucada. Rachaduras. Paredes azuis, um buraco mostrando o cimento embaixo. A cachorra com dois filhotes. Rabinho abanando. Dois olhos que já não estão. Meu coração bate rápido, não tanto quanto o dele. Meus olhos assustados encontram o da Diene, agente de saúde. Somos 4 olhos assustados e apressados. Documentos, uma muda de roupa. O vizinho leva o corpo pro carro. Está muito abafado. Dobra o espelho para passar na barricada. Ainda assim raspa o outro lado da lataria. Os vizinhos acenam e o carro grita percorrendo os becos. Cadê a maca? Alguém ajuda. Quem é o médico da sala vermelha?
Tá em pé, dois olhos frios e calmos. Ansiosos os meus. Gaguejo. Conto a história. É um
paciente muito querido. Esse ambiente me deixa de perna bamba e me faz faltar a voz. Ainda hoje. O céu tá preto e vomita 80 tiros. Chego em casa afogada com água nos joelhos. Tá sem luz. Apago. O bolo no forno não dá cheiro. Tomo chá de gengibre e peço pra fome voltar, enquanto Nana fala da menina que a Mãe d´água levou.

Todos os monstros

por Fabrício Mattei

Resultado de imagem para onde vivem os monstros

Era daqueles pacientes que escancaram nossas limitações. Infecção de ouvido que ia e vinha. Ia e vinha. Exame. Especialista. Ia e vinha. Ia e vinha. Eu tinha dificuldade em segurar o suspiro quando via seu rosto na sala de espera. Que audácia dessa otite de não ler o livro. Está escrito lá: antibiótico resolve. Tinha que resolver.

– O otorrino passou vários remedinhos doutor. Gastei até o que não tinha. Mas não adianta.

Foi demitido. É essa a palavra, mesmo pra quem não tem nem papel assinado? Não sei. Foi pra rua. Isso, foi pra rua, melhor. Melhor pro meu texto. Pior pra ele, claro. Gente doente não serve pra erguer casa. Deve ser difícil carregar tijolo com dor de ouvido. Com o algodão tampando pra não purgar, não se ouve o supervisor.

E eu lá, sofrendo a cada retorno dele. Quer dizer, sofrendo não, que na verdade eu só ficava um pouco inquieto durante aqueles minutos. Depois já estava bem. Meu salário caia na conta até antes do dia primeiro, às vezes.

Claro que ele bebia. Cachaça, não cerveja como eu. Não lembro se perguntei ou se senti o cheiro. De manhã estava sóbrio, pra sofrer. E fumava bastante. Oitenta por cento de imposto, na cachaça e no cigarro. Calçamento e esgoto, o bairro não tinha .

Eu não sabia se ele tinha família. Devia saber. Meu título diz: médico de FAMÍLIA. Mas não estava escrito em lugar nenhum. Algumas vezes eu esquecia de perguntar. Outras não dava tempo. Acho que nem tinha lugar específico pra anotar no prontuário. Faz falta perguntar. Talvez tenha falado de mulher e de filhos alguma vez, mas passou batido, no meio das várias dores. Ah, é, ele tinha dor no ombro também. Ele trabalhava com construção; como não ia ter? Vez por outra aquela dor na barriga que aparece hoje e desaparece amanhã.

É compaixão que diz né? Eu tinha. Talvez eu tivesse menos compaixão se eu pudesse ajudar ele mais. Mas eu não podia, porque eu tinha só o antibiótico. E os meus ouvidos, sem infecção. Aí sobrava o sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem. É assim que está no dicionário. E era só o que eu tinha.

*****************************************************************************

Ela entrou no consultório chorando. Levamos alguns minutos até começar uma conversa real. Antes, repetia feito mantra:

– O próprio pai. O próprio pai. O próprio pai.

O que me contou, infelizmente, não era incomum. Em uma conversa com a filha de três anos, ouviu palavras que jamais ia esquecer. Como quem conta sobre as últimas brincadeiras na escola, a menina tinha contado como o pai a tinha tocado “naquelas partes”. Depois disso, a mãe não conseguia descrever mais nada. Tudo era uma nuvem. Setenta por cento dos casos de abuso são perpetrados por pessoas da família. Isso eu sei faz tempo, mas é duro demais quando os números viram gente.

Pra mim, mais uma vez, restava oferecer o ouvido. Algumas informações sobre a parte burocrática – sobre a jornada de entraves que ela teria que enfrentar justamente no pior momento da vida. Não tinha psicólogo no posto. Com sorte, algum ponto do sistema poderia oferecer algo melhor. Na minha experiência, em geral iam ser só entraves.

Ao fim do atendimento, num suspiro de resignação, sentenciou:

– Mas os guris vão pegar ele. Pode deixar.

Eu sabia quem eram os “guris”. Todo mundo sabia quem eram os “guris”. O poder de fato da comunidade. Juiz, júri e polícia, onde o estado pouco dá as caras. Os “guris” em si mudavam toda semana. A vida realmente é curta por esses lados. Mas o código de conduta, a lei informal da vingança, incrivelmente, se mantém intacta.

Finalizada a consulta, entrou o técnico de enfermagem.

– Tu sabe quem é o cara que fez isso?

Não sei bem como, ou por que, mas deduzi na hora. Um choque. Aquele homem tão sofrido, que tanto buscou minha ajuda… Não era possível! Alguém capaz de coisas tão cruéis tem que ser uma criatura horrenda, fria, arrogante e debochada. Não?! No cinema geralmente é assim. Fica mais fácil pra cabeça aceitar.

*****************************************************************************

O choque perdurou por algumas semanas. Como esperado, nunca mais o vi. Não sei se exílio forçado ou algo bem pior. Tento não pensar muito nisso, hoje. Meses depois, porém, assistindo um desses seriados estadunidenses que estão na moda, ouvi uma frase que me fez lembrar intensamente da situação. O contexto talvez fosse outro, mas encaixou perfeitamente. “Todos os monstros são humanos”.