Ironia

por Ezequiel Fernandes

Significado de ironia: veja a definição e conceito dessa palavra

Queria uma palavra que pudesse

Descrever toda essa pandemia

Não sei bem o porquê, mas só consigo pensar em ironia

Talvez porque tudo o que hoje acontece

É o contrário do que pra o mundo eu sonhei,

Algo que beirasse a utopia

Jamais imaginei ter que atender na UBS

Sem poder apertar as mãos ou abraçar

E, disfarçado, ter que dar bom dia

E, disfarçando, esconder o sentimento de histeria

Torcer pra que o oxímetro no dedo da pessoa

Traga as boas novas de que ela só precisa ir pra casa,

Ficar com a família e agradecer por mais um dia

– Tenho muita tosse, doutor!

– Sinto muita febre e falta de ar!

– Não sinto o cheiro e o gosto de mais nada!

– O que pode me curar?

Parece mesmo ironia, mas eu também não sei

Qual o melhor remédio pra te medicar

“Só sei que nada sei” nunca fez tanto sentido

E, se algo tem me deixado feliz, é não saber

Porque por não saber tanto quanto você

É que eu posso te consolar

Eu sei o que você sente e, também, não sei o que fazer

Mas minha escuta está além da minha ausculta

E é com isso que eu vou te ajudar

É o que tenho dito, é o que tenho feito

É o remédio que tenho para usar

Saber nada nunca foi saber tanto

Não poder fazer nada nunca foi fazer tanto

É o que tem nos ensinado a pandemia

Que em meio a esse caos

Nada importa tanto

Quanto ao outro se igualar

E praticar a empatia

Uma das experiências mais difíceis que a medicina me proporcionou

por Leonardo Cardoso

Divagar entre PINTURAS e outras ARTES: Um Abraço em Pinturas

-Boa tarde, D. Ester? Meu nome é Leonardo e falo em nome da Secretaria Municipal de Saúde, tudo bem?
-Tudo, meu filho. Na verdade, não.

Ela me fala sobre o internamento do filho, a descoberta que ele estava com coronavírus e sobre o dia em que ele partiu. Conta-me que seu outro filho veio para cá para cuidar dela na última semana e que no dia em que conversamos haviam feito o teste para pesquisa do Covid. O dele negativo. O dela positivo.

-Meu filho, estou com medo. Estou com alguns sintomas. Tenho medo de piorar. Medo de contaminar meu filho. Medo de morrer. Medo de perder ele. Eu acabei de perder um filho.

Esqueço tudo o que está ao meu redor. Essa ligação é diferente de todas as outras que recebi nos últimos meses. Pergunto sobre problemas de saúde, confirmo os sintomas e algumas informações necessárias. Explico como iremos ajudá-la.

-D. Ester quero novamente colocar nosso serviço à disposição da senhora. Pode ficar a vontade para ligar se precisar.

-Muito obrigado, meu filho.

-E D. Ester, eu queria dizer pra senhora que não posso imaginar o que a senhora está sentido, por que eu acredito que apenas uma mãe que perde um filho pode mensurar essa dor…

A senhora do outro lado da linha começa a chorar. Um choro sincero. Um choro doído. Um choro que só me faz pensar em como queria abraça-la neste momento.

-Mas, quero dizer pra senhora que estou aqui se a senhora precisar. Quero que saiba que nesse momento eu peço que Deus esteja confortando e consolando seu coração.

Chorando, ela diz que questiona o porquê de Deus não ter levado ela no lugar dele.

-Eu entendo a senhora. É normal as dúvidas surgirem. Mas, se tem uma coisa que tenho aprendido ao longo dessa caminhada que escolhi é que nada acontece por acaso. E eu acredito que seu filho está num lugar tranquilo agora, em paz, e que um dia vamos todos nos encontrar.

-Meu filho era muito espiritualizado. Muito bom. Ele está sim.

Aos poucos ela vai parando de chorar.

-D. Ester, se a senhora me permitir, posso colocá-la em minhas orações?

-Pode sim, meu querido. Você faria isso?

-Farei, sim. É uma forma de estar perto da senhora neste momento em que não podemos estar tão próximos e nos abraçar.

-Ah, meu querido. Muito obrigado mesmo! Foi tão bom falar com você. Que Deus o abençoe, sua caminhada, seu trabalho.

Nos despedimos e quando desligo o telefone um turbilhão ocorre em minhas emoções. Seguro. Nem sempre podemos dar vazão a nossas emoções no exato momento em que elas vêm. Há vários outros pacientes aguardando por um atendimento do outro lado da linha.

Saio do trabalho e continuo pensando em D. Ester. Existem alguns pacientes que mexem com a gente de forma especial. E quando sento para escrever sobre sua história, já no fim da noite, dou vazão as minhas emoções. Lembro dos meses em que acompanhei D. Júlia e de como chorei enquanto escrevia sobre ela. O mesmo ocorre agora quando escrevo sobre Ester. Choro. Por ela. Por sua perda. Por não poder abraça-la. E peço apenas que Deus a abrace por mim.

Confidencial

Pensei que fosse doença da Idade Média': o novo avanço da sífilis no mundo  e no Brasil - BBC News Brasil

por Ricardo Mannato

“Boa noite, como posso ajudar o senhor?”, ele me perguntou do outro lado do balcão da pizzaria. Meus olhos, vidrados nas mil opções de sabores do cardápio, se voltaram para o caixa e puderam captar o exato momento do reconhecimento – um milésimo de segundo. Ele, subitamente acuado, como uma presa no instante que precede o abate, arregalou os olhos, manteve-se estático, me encarou profundamente e consentiu com a inevitabilidade de seu destino entregue às minhas mãos. Eu, transvestido na pele do algoz, segurando um poder que me foi imposto, vi o desalento perpassar pelas suas retinas mais uma vez e perdi a voz. 

Não tinha dúvidas de que eu reconheceria aquele olhar em uma multidão, mesmo que tanto tempo depois – um ano. Abri a porta do consultório da Clínica da Família, chamei seu nome e o jovem rapaz, da mesma idade que eu, um pouco mais alto e loiro, de camisa vermelha e boné azul, sentou à minha frente.

“Bom dia, como posso ajudar o senhor?”

Uma alergia de pele que não passava por nada, já estava o irritando há um mês e só piorava. Trabalhava como pizzaiolo e o chefe tinha trocado ele de posição; não poderia deixar um funcionário com lesões tão aparentes na pele trabalhar com a produção de alimentos. Agora, estava montando caixas de entrega, aceitando os pedidos pelo aplicativo e fazendo as tarefas administrativas, mas gostava mesmo era de botar a mão na massa, literalmente. Precisava de ajuda.

Manchas vermelhas pouco maiores que uma moeda de um real pintavam todo seu corpo, com pouco espaço entre uma e outra. Nada de alergia: sífilis. De volta à mesa e, quando indagado, respondeu que sim tinha prática sexual, poucas vezes sem camisinha, mas estava numa secura pior que o sertão de onde veio, risos. Topou fazer os exames, descontraído, só pra afastar a hipótese. 

Tão logo, com os resultado em mãos, eu segurava más notícias: sífilis e HIV. Lembro de chamar a preceptora e, juntos, acolhê-lo no consultório. Lembro dos seus olhos no chão, do seu rosto instantaneamente vermelho, dentes rangendo, mãos na cabeça e do riso agônico, gutural, incrédulo. Do silêncio. O mundo parou e só existíamos nós, o resultado e as quatro paredes. Negação, frustração, raiva, medo, dúvidas, coragem, aceitação, tudo em segundos, minutos. Ergueu a cabeça e nos olhou com seus olhos marejados, conformado. Bola para frente, eu vim do interior do Ceará para poder ser quem eu sou por inteiro aqui no Rio. Se é isso que a Vida colocou no meu caminho, vai ser só mais uma barreira que vou quebrar.

Nos abraçou, agradeceu, iniciou os remédios. Seguiu sua vida e eu a minha. E ali, nos encontrávamos. Eu, ele, a informação, o cardápio. O fio que conduzia nossa narrativa estava solto no ar e não cabia a mim amarrá-lo. Sabia de um segredo, talvez o maior de sua vida, e estava do outro lado do balcão, aflito com o poder e a responsabilidade do reconhecimento. Ele olhava para os lados, buscando alguma saída, como se temeroso com algum escape meu. Ou talvez também tenha revivido nesse segundo todas as cenas do nosso último encontro. Respirei, sorri brevemente um sorriso de “claro-que-me-lembro-e-só-espero-que-você-esteja-bem” para tentar alcançá-lo sem palavras. 

“Pode ser marguerita. No débito, por favor. Obrigado.”

Ele assentiu, esboçou um sorriso tímido – aliviado. Nossa interação acabou ali: dois minutos. Sem presas ou predadores, apenas dois personagens de um encontro íntimo e que agora compartilhavam de um acordo invisível, tácito. Confidencial. 

O caso social

por Gabriela Beites

Crack - efeitos, produção, dependência - Drogas - InfoEscola

O dia já começou cheio, uma retaguarda do pronto-socorro lotada. Muitas pessoas com doenças respiratórias, situações graves. “Paciente indo pro tubo” (ou seja, pessoa em condições respiratórias ruins, precisando de uma intubação orotraqueal). Quase final do dia, residentes e chefes manejando os casos mais graves que chegavam, internos tentando ajudar como dava. Chega paciente na emergência. “Interna, vai lá colher a historinha e fazer a admissão”. “Ih, é caso social, pesado”. “Usuário de droga”. 

“Oi, médica. Eu to bom, eu to bom, cadê a tia Angela*”, “tira a mão de mim”, “médica, eu sei escrever meu nome”. 

“Dona Angela, o que houve com o Alan*?”

“Apareceu no CAPS, tinha usado 40 pedras, tá com pneumonia, o médico de lá achou melhor transferir”. 

“Médica, não vou ser internado não. Se me internar, eu saio de lá pior, o tio Tadeu que falou. Eu to bom, eu to bom. Não precisa. Cadê minha vó?”

“Calma, Alan…”

“Médica, eu vou tomar remédio na veia? Cadê minha vó? Vou embora daqui. Não me segura.”

“Alan, calma… preciso saber se só usou pedra”.

“Não, uso pedra, maconha e tinner… não gosto dessas coisas de injetar, isso não faço não”

Aglomeração na sala, “chama assistente social”, “deixa fugir”, “não vou correr atrás de paciente não”. 

“Olha aí, minha vó chegou. Oi, vó! Eu to bom!”

Avó cansada, mais três pra cuidar, “manda chamar o traste do pai dele”. Corre a assistente social resolver. Interna pra tratar a pneumonia. Será que é tuberculose?

“Médica, eu usei 40 pedras na segunda, eu to com abstinência, tem que me dar remédio”, “Médica, vou ficar aqui? Posso tomar um banho? Quero tomar banho! Tem mamadeira? Quero leite com chocolate”

Internação, passar o caso, pedir pra medicar, pedir pra nutrição avaliar, pedir leito de isolamento, ir embora.

Dia seguinte, hora da visita com residente e chefe. “Manda embora, não da pra segurar aqui não”, “Cadê o pai?”, “Assistente social já viu?”. Chega assistente social. “Manda embora”, “não tem condições de segurar”, “é risco pra outros pacientes”. Interna desesperada “mas gente, espera! E a pneumonia? Ele tá doente! Tem que tratar! Depois vai embora!”… conclusão: vamos transferir, mas cadê o pai pra acompanhar?

Chega o pai. Tudo calmo. Ele pede a vó. A vó está na recepção. Corre pelo corredor, quer a avó. Segurança leva ele de volta pro quarto. O pai fecha a porta e dá tapas na cara dele, fortes. Todos olham, ninguém, NINGUÉM (nem o segurança), intervém. 

Interna chega, presencia a cena, entra. Já chega. “Senhor, com licença”, Alan aos gritos, o pai foge. 

“Médica, não me abandona. Meu pai é um monstro. Ele e minha madrasta. Ele me bate. Quando sair daqui vou me afundar nas drogas de novo”. Abraço forte, choro desesperado, tenta achar a calma no aperto e na mamadeira. 

Chocante. Triste. E eu nem cheguei na pior parte. 

Alan, negro, 12 anos, usuário de crack há 3 anos, viciado em tinner desde os 7 anos, ninguém sabe quando começou a usar maconha. 

*Nomes modificados para preservar os envolvidos na situação 

Mas, tem certeza?

porAna Paula Lemes Martins

“Medicina é a ciência da incerteza e a arte da probabilidade”

Uma simpática senhorinha de unhas rosas, bem feitinhas, com glitter. Vem em cadeira de rodas, mas porque vem sentindo dor no pé: não suporto pisar no chão, doutora.


Escuta e interrogatório feitos. Exame físico realizado.


Resumindo: ela foi acometida de dois AVC (Acidente Vascular Cerebral) isquêmico há 8 meses e, desde então, tem crises de perda de consciência e vômitos associados. A família achava normal, até porque “ela é exagerada, doutora”.
Eu também queria achar que era um exagero. Mas o fato é que a senhorinha de unhas rosas ficou com sequela do AVC e tem agora epilepsia. Teve ao início, crises leves, porém apresentou há dois dias da consulta, uma crise generalizada. Tanto que quebrou o tornozelo, quando passou mal no pronto socorro (como foi isso, Deus do céu? – pensei)
Ela e a filha fitaram meu olhos por um tempo.

A filha: tem certeza que é epilepsia?

Eu: certeza, certeza absoluta eu não posso afirmar, mas quando juntarmos tudo que me contaram e as respostas ao que perguntei… sim.. a chance é grande de ser epilepsia. Vamos fazer um combinado? Eu prescrevo o remédio e a gente vê se melhoram esses problemas. O que acham?


A senhorinha de unhas rosas respondeu: Mas, tem certeza?
Então veio peso da certeza que jamais teremos: na medicina, como no amor, nem sempre, nem nunca.

Com todo o respeito

por Maria Carolina Falcão

Comiseração Autofágica, Negra Composição de Esfínge Raivosa = CÂNCER (  Decifra-me, Ou te Devoro ) Pintura por Felippe H. Soares | Artmajeur

Com todo o respeito, dá licença?

“Oi doutora Carol, não sei se você lembra de mim…”

Entrou na sala de observação gemendo de dor. Lembrava sim. Há meses que ele não aparecia na clínica, mas lembrava. Falei o nome da esposa e do filho mais novo. Lembrei do pré-natal que começamos tardiamente lá na clínica. Lembrei que eles tinham se mudado recentemente de uma comunidade vulnerável e violenta de outro canto do Rio de Janeiro. Perguntei sobre os outros filhos mais velhos. Hoje tinha vindo só.

Estava visivelmente mais magro, mas lembrava. Lembrei do diagnóstico de HIV e de como isso afetou a família. Lembrei de todo o processo de início de avaliação, exames, investigação da família, encaminhamento da esposa ainda grávida para suporte especializado… Encaminha pra confirmar diagnóstico, encaminha pra ver carga viral, encaminha pra retirar medicação de tratamento. Encaminha pra assistência social, explica sobre Bolsa Família, orienta vacina dos filhos mais velhos. Não tinha como esquecer.

“Preciso de ajuda.” Pedi pra entrar no consultório.  Relutou um pouco, se contorceu na cadeira. Incentivei que me contasse o que o trazia de volta: “Tô com alguma coisa errada, comtodorespeitodálicença, ali no pinto.”

Assenti, pedi pra olhar. Comtodorespeitodálicença, me mostrou. Lesão por herpes. Continuei o exame físico: candidíase na boca, íngua na cervical, manchas nas mãos. Não me lembrava de nada disso anteriormente. Perguntei sobre o remédio, sobre como estavam as coisas, sobre o último exame que havia ficado pendente no nosso último encontro. Não estava tomando, não estavam bem e não havia feito. Perguntei o que estava acontecendo. Olho marejou:

“Tô morando na rua. Ela me botou pra fora”.

Explicou que não ia mentir pra mim, estava usando mais coisas do que eu imaginava. Enumerei drogas que vinham à minha mente: cigarro, álcool, maconha, crack… Suspirou e comentou que não estava tomando o antirretroviral* há 1 mês, mas que não podia mentir pra mim. Explicou que não estava comendo todos os dias, mas que se virava numa pensão do bairro. Sugeri algumas opções, envolvendo acolhimento em algum local para higiene e alimentação. Nega. Tem medo de que lhe façam mal se descobrirem que usa medicação. Insisti na possibilidade de precisar internar, caso não consiga manejar seu tratamento na rua. Relutou mais uma vez: “Prefiro ficar na rua”.

Pactuamos reiniciar a medicação e outros tratamentos necessários. Intervenção breve e redução de danos sobre as drogas. Ofereci banho na clínica mesmo. Combinamos de fazer uma revisão em duas semanas. Pedi pra que lembrasse de mim e dos nossos pactos durante o carnaval que estava pra chegar. Confirmei, mais uma vez, a data que o queria ver de volta. Abre um meio sorriso: “Doutora Carol, mentir pra você é o mesmo que mentir pra mim”. Comtodorespeitodálicença, me cumprimenta com um aceno de cabeça, levanta e vai embora com seu pacotinho de intervenções.

A mim, resta confiar na confiança dele. E torcer para que a rua lhe seja gentil.

Feliz 2020

por Monica Lima

Desejamos um Próspero e muito Feliz 2020 a todos! | Sistema  Ocergs-Sescoop/RS

E foi mais um ano ou menos, não sei.

O que sei foi que aprendi muita coisa: aprendi que as pessoas precisam mesmo, tipo:  mesmo! Assumir a responsabilidade por suas escolhas e também suas famílias, quando são cúmplices. Aprendi que meu dever é explicar, orientar, educar ,(educar não, porque ninguém educa o outro só educa a si mesmo), mas tentar fazer com que o que falo e faço seja coerente. Aprendi a ser um pouco mais impertinente, aprendi a falar mais porque minha filha me empurra para isso (tenho costume de não falar quando eu estou sendo sacaneada,  é mais fácil ser a voz do outro, muito mais fácil!).

Aprendi que as pessoas esperam sempre a última hora para fazerem suas coisas importantes, mas ainda não aprendi a considerar isso, continuo na minha rigidez. Aprendi que as pessoas podem ter suas falhas éticas,  eu finjo que não estou vendo, o outro finge que eu também não estou vendo e a cena continua meio estranha, não sei até quando,  se alguém tiver a resposta me oriente, por favor.

Aprendi a ser repreendida por meus  erros. Isso é muito ruim, não gosto de errar. Por isso eu sigo com meu TOC,  mas aceito as Críticas, só não sei se vou mudar de ideia.

Então chega 2020 um zilhão de coisas para fazer, pessoas para cuidar,  famílias para lidar,  ano político (merda à vista!). Um título para tirar, que venha, eu tô pepaiadinha!

Beatriz, Joana ou Acácio

por Marina Galhardi

‘Você vai só renovar a receita ou vai consultar?’ – perguntou Beatriz, mas bem podia ter sido Joana ou Acácio.

Desde quando nos tornamos renovadores de receitas?

Veja bem, renovar a receita aqui na sua frente e não perguntar minimamente o porquê do uso dessa medicação ou como você está, seria total perda de tempo de ambos. Porque não renovo então na sua ausência, se é só para renovar? 

Acontece que eu não conhecia a pessoa e o medicamento em questão, psicotrópico, não vinha sendo usado há mais de um ano. Não temos mesmo outra opção, se não ‘consultar’, minha querida. 

O fato é que queria a medicação porque teve uma crise recente, no último fim de semana, em que fiquei muito muito ansiosa – eu sempre fui muito ansiosa – até vomitei, não conseguia dormir por nada. Tomei dois comprimidos desse  remédio aí, da mãe, e não adiantou. Ah, porque o Dr. Fulano já conhecia a nossa história, deu o mesmo remédio para nós duas. Tomei também uns pedacinhos dessa outra medicação aqui, um amigo me deu – outro psicotrópico – por uns dias, para conseguir dormir. E agora quero voltar a tomar esse remédio, não consigo ficar sem ele.

Entendendo. Mas o que aconteceu para desencadear essa crise?

Parece um pouco preguiçosa: tenho mesmo que falar, o Dr. Fulano só me dava a receita, ah, me desentendi com a minha mãe.

Sigo escarafunchando aqui e ali. Porque é que as pessoas não querem falar do que incomoda, não querem contar sua história e querem medicações que as ajudem a lidar com ela. Curioso. Essa foi a sociedade que a gente construiu?

Encurtando a história: a mãe há 5 anos, desde a partida do pai, estava um pouco amarga demais, agressiva vez ou outra, passava horas na internet vendo sobre coisas políticas e se queixando aqui e ali o tempo todo – eu entendendo, não está fácil – a filha que era a única que morava com ela, a mais próxima, não aguentava mais, ficava irritada e ansiosa demais nessa convivência com a mãe. O médico então tinha dado um remedinho para elas duas, assim se davam melhor, se incomodavam menos. Já pararam aí para pensar como temos medicado nossas relações?

Para eu não me incomodar com o outro eu tomo uma pílula. Uma solução boa essa ne, quem foi que inventou?

Bem, sigamos, perguntas me ocorreram várias, mas me concentrei em dizer: parece que você teve um bom motivo para ter uma crise de ansiedade, não é mesmo? e ficou um ano sem medicação e vinha vindo bem, o que você fez esse ano?

Ah, passei mais tempo com a minha mãe, as vezes via uns filmes com ela para ela sair um pouco da internet.

Eu sei que essa crise foi muito intensa e você tem medo de ter outras, mas percebe que a medicação não ajudou nela, você mesma disse, e você sobreviveu mesmo assim, está aqui agora dias depois conversando comigo tranquilamente.

É mas acho que não vou conseguir, preciso dessa medicação.

Foram muitos minutos de conversa e de tentativa de re-conhecimento ou re-conexão. Usei metáforas clichês como a sujeira debaixo do tapete, ou a muleta, ou qualquer coisa que o valha. Ridículo, eu sei. Acabei dando o tal remédio junto a uma lista de dicas sobre ansiedade e clínicas de psicoterapia populares. Duvido que tenha adiantado alguma coisa, juro. Me frustrei.

Se esse fosse um atendimento isolado na vida eu nem ligaria. Mas não foi. Tem sido isso todos os dias.

Porque você toma essa medicação? A maioria das pessoas se choca com a pergunta. Como assim? Outras respondem um genérico “sou muito ansioso”, e quando eu pergunto, e como é sua ansiedade? se chocam novamente e não conseguem uma resposta que faça sentido. Desculpe, mas não faz. Tem ainda um terceiro grupo de pessoas, mais seleto, que me explica para que serve a medicação com palavras bonitas e científicas até. Veja bem, eu sei para que serve (na maioria das vezes, se não pesquiso), o que quero saber é se realmente serve para você.


Uma outra paciente outro dia veio nas mesmas condições: renovar uma medicação. Precisava muito dela, mas ela não estava fazendo mais efeito para dormir. Propus mudarmos a perspectiva. E porque é que você não dorme? Outro choque, nem ela sabia. No fundo sabia sim, estavam engavetados todos os motivos que ela não queria olhar, mas queria sim uma medicação que nem funcionava mais. Tentei inclusive propor outra medicação. Mas não. Me digam, porque alguém quer uma medicação que nem funciona mais?


A verdade é que viver dói, imensamente. E não estamos podendo doer. Precisamos estar sempre alegres, sorridentes e não temos espaço para dizer do que dói. Você já deve ter tido aí essa experiência de tentar conversar com alguém, com um amigo, qualquer pessoa sobre algo que não tem te feito bem, quantas dessas pessoas conseguem fazer uma escuta empática? quantos conseguem não dar conselhos, não contar de si, e não se esquivar te mandando para uma terapia? Raríssimas, mesmo. E no futuro distópico elas nem vão mais existir.


Nesse contexto, talvez eu não traga esperança nenhuma. Sigo o caminho de formiguinha de tentar perguntar, ei, o que é exatamente que vai mal na sua vida? As pessoas vão mal em trabalhos de que não gostam mas pagam suas contas. Vão mal em relações que não suportam, mas melhor do que ficar sozinho. Vão mal porque comem mal, dormem mal, não sabem nem do que gostam ou o que desejam. Quererem apenas não sentir. 


A crise é boa, é potente, ela traz transformações. Sigo acreditando, ainda que só.

Relato de um ACS

por Anderson Pimentel

HIBISCO (Vinagreira) -

Conheci dona Maria no grupo terapêutico do Centro de Saúde. Estávamos construindo uma horta e ela era exímia no trato com as plantas. Olhar triste, voz calma e carregada de sotaque nordestino, passo lento e firme. Além das duas filhas, criara três netos: Marcos, o mais velho, estava cumprindo pena na prisão por tráfico de drogas; o do meio, Alex, tinha grave problema com álcool e o terceiro, Mateus, uma criança muito inteligente, era agressivo com os coleguinhas na escola e amiúde levava uma advertência para casa.

O vínculo com dona Maria aconteceu por causa do neto Alex. Desde que perdera a namorada num acidente de carro o rapaz se entregou ao álcool e a avó não sabia o que fazer com ele.  Como Agente Comunitário de Saúde, fiz visitas domiciliares com frequência à família, pois o rapaz volta e meia estava internado por decorrência do uso abusivo de álcool.

Percebemos a fragilidade emocional daquela mulher que levava um mundo nas costas e a convidamos para o grupo terapêutico. Nossos laços afetivos se estreitaram ainda mais quando, ao falarmos de plantas comestíveis mencionamos a vinagreira, planta que é o ingrediente principal para um prato típico do Maranhão: o arroz de cuxá. Dona Maria, assim como eu, era maranhense. Nossos olhos nordestinos brilharam com a descoberta. Eu que deixara o estado havia dez anos encontrei naquela paciente de sotaque arrastado um pouco de minha avó, um pouco da minha terra. Finquei raiz no vínculo. A paciente me procurava sempre que surgia alguma demanda, ora uma convocação da escola por causa do comportamento do Mateus, ora mais uma internação do Alex.

Não raro, pessoas que cuidam de outras pessoas não têm disposição para o auto-cuidado. Dona Maria cuidava dos netos – e de um monte de cachorrinhos – mas tinha pouca vontade de cuidar de si. Percebíamos que a horta fazia bem a ela, uma vez que conversava com os profissionais e com outros pacientes e cuidadosamente, todos os dias, ia regar as plantas e preveni-las das pragas. Nos ensinou nome de algumas, seus usos medicinais, como lidar com as formigas e outras criaturas indesejadas na plantação.

Dois acontecimentos marcantes mudaram totalmente o destino de dona Maria e o nosso. O primeiro foi o fato de o neto Alex, depois de outra internação, ter falecido. Uma tristeza enorme caiu sobre nós todos. Alex era um rapaz calmo, apesar do uso do álcool, não dava os vexames comum aos que vivem aos porres. Bebia em casa e por lá ficava. Parceiro do irmão, Mateus ficou desolado; tinha apenas onze anos e refletia no olhar uma tristeza tão profunda que era difícil encarar aqueles olhos negros por muito tempo sem encher os nossos de água. Dona Maria também estava triste, mas de tão acostumada com os sopapos da vida não mudara a fisionomia: era impossível um semblante demonstrar mais tristeza.

O outro acontecimento significativo foi a saída do neto Marcos da prisão. Em liberdade o rapaz procurava a avó com frequência para pedir dinheiro. Os vizinhos contam que numa dessas visitas dona Maria disse ao neto que não tinha dinheiro e o rapaz insistiu até que perdeu a razão e matou a avó na frente do irmão. Ir à horta se tornou uma tortura para mim.

Passado algum tempo, aquele grupo tomou outra feição: a estratégia terapêutica mudou de horta para artesanato. Outros profissionais tomaram a frente do espaço. O Centro de Saúde recebeu doação e foram construídos canteiros novos, bem estruturados, de blocos de concreto. Nada sobrara da antiga horta. Ou quase nada: há dois meses plantei sementes de vinagreira que dona Maria cultivou nos antigos canteiros do Postinho. Todo dia olho as plantinhas, todo dia me recordo daquela mulher que  me enchia de ternura com sua voz calma, com seu olhar triste.