Primeiro dia

por Lucas Moreno

Primeiro dia do mês, primeiro dia de estágio de Medicina de Família e Comunidade, e na primeira hora acordado, o estudante de medicina sonha com o futuro, cria expectativas, inseguranças, medos e empolgação com as experiências que estão por vir dentro da área que tanto tem se imaginado fazer parte pro resto da vida. Começo o estágio buscando respostas, confirmações. Há dúvidas sobre o que realmente quero pro futuro, mas existe um desejo de querer essa especialidade, muito alimentado nos dias que precederam o início das atividades.

Mas enfim, já são oito da manhã e estou na UBS na qual vou passar as próximas duas semanas, buscando me encontrar na profissão. Nas apresentações, recebo algumas informações sobre a unidade que me causam certo desconforto. Há alguns problemas, como não haver uma estratégia de saúde da família bem estabelecida e outras questões, que fazem a insegurança surgir sobre como serão essas semanas para mim. Porém, sem muito tempo para alimentar isso, começamos os trabalhos do dia. Apenas um paciente pela manhã, um retorno para uma questão muito pontual, auxiliamos da melhor forma que pudemos. Uma experiência positiva, mas as dúvidas insistiam em querer tomar conta de mim, e seja lá o que for que eu buscava parecia estar distante ainda.

Na parte da tarde, recebo um prontuário do paciente que havia chegado para sua consulta. Vou procurar informações sobre ele para me preparar, mas há apenas uma folha de identificação do paciente. Ou seja, aquela seria sua primeira consulta na unidade, não sabia o que esperar, apenas que era um homem de 50 e poucos anos, chamado Alexandre. Peguei uma sala e fui logo chamá-lo…

– Alexandre?

Ao identificá-lo, avisto um homem simpático de meia idade, acompanhado de duas crianças e algumas grandes sacolas. Ofereço ajuda para carregar as sacolas e então nós 4 nos dirigimos para a consulta. No caminho até a sala, sou apresentado a duas educadas meninas, suas filhas, Manu e Isa de 11 e 9 anos, e ele me conta brevemente sua saga até a unidade, querendo justificar a presença das sacolas, que teve que trazer do trabalho, antes de ter que pegar as crianças na escola e vir direto para a consulta. Por um segundo, sinto o cansaço daquele período de seu dia, imaginando que ainda teria que enfrentar uma tarde de consultas médicas, primeiro ele, depois as crianças.

Chegando no consultório, nos ajeitamos, me apresento novamente, interajo com as crianças, e quando tomava o ar para perguntar o motivo do nosso encontro, Alexandre começa a elencar uma lista de questões que havia organizado em sua mente. Claramente, ele se preparou para aquele encontro, e se eu depositava minhas expectativas sobre o estágio, ele depositava as dele em mim de forma clara e bem estruturada, expectativas sobre problemas acumulados ao longo dos anos sem acompanhamento médico. Aquele momento era um primeiro passo em seu novo objetivo de cuidar mais de sua saúde, e ele parecia motivado após incentivos mais incisivos de sua esposa quanto a isso.

Voltando para a lista, chama atenção a ordem das queixas, começa pela que aparenta ser mais importante, uma dor no peito há alguns anos que disseram que poderia ser angina, depois vem 3 itens menos centrais, mas que ele julga importante avaliar, alguns exames de sangue perdidos no passado, possivelmente alterados, dois episódios de tonturas isolados que preocuparam na época, e uma necessidade de exame de próstata, que acredita poder ser adequado tendo em vista sua idade. Mas por último vem a queixa atual, que mais incomoda aparentemente, e talvez tenha sido o estopim para buscar ajuda com sua saúde. Dito em tom mais baixo, pela presença das filhas, ele fala de uma possível “alergia” nas partes íntimas, que tem atrapalhado as relações sexuais com a mulher, e suscitado desconfianças da parte dela sobre sua fidelidade no relacionamento, da qual se defende prontamente.

Bem, basicamente o que vejo ali é uma pessoa tentando arrumar sua vida, colocar as coisas em ordem, cuidando da sua saúde e de brinde da saúde de seu relacionamento. Aguardo ele terminar sua lista, e então, calmamente, vamos explorando melhor item por item. Entendendo melhor as queixas, tento entender agora quem era Alexandre e em que contexto estava inserido. A consulta fluía bem, num tom bastante amigável, uma boa relação parecia estar sendo estabelecida, o que me deixava muito satisfeito.

Enfim, nos encaminhamos para uma nova fase da consulta, o momento do exame físico, que eu decidi realizar de uma maneira completa, já que fazia muito tempo que ele não era examinado. Achei válido, portanto, iniciar todo o ritual do exame físico. Durante o processo, surge uma voz com um elogio inesperado: “Você é muito bom médico”.

Essa consulta não foi gravada como algumas foram no estágio para uma atividade de PBI, mas 4 olhinhos a filmavam atentamente. A voz era da filha mais velha de Alexandre, e eu não sei que critérios ela utilizou para chegar àquela conclusão, mas no momento que eu tocava seu pai para examiná-lo, foi quando pareceu mais adequado tecer tal elogio, que eu agradeci levemente sem jeito, mas com imensa felicidade. Prosseguindo naquele ritual, eu ia executando etapas do exame físico, entremeados com conversas com meu paciente e suas filhas, que interagiam demonstrando ter simpatizado comigo e mantendo uma observação atenta sobre minhas ações. E quando tentava aferir a pressão, foi a vez da mais nova dar sua impressão sobre mim, dizendo que me achava “muito legal”, e assim, eu constatava aquela pressão aumentada com um sorriso no rosto.

Ao terminar, ofereci o estetoscópio para elas terem pela primeira vez a experiência de ouvir o som de um coração. Aceitaram com empolgação, e boquiabertas e com um brilho nos olhos que há tempos eu não observava, elas auscultavam as bulhas rítmicas e normofonéticas do meu coração aquecido com a pureza daquele momento.

Nesse momento, percebo que o ritual que executamos em um exame físico, naturalmente se tornam rotineiros para quem ocupa o papel de médico em uma consulta. Porém, pela perspectiva das lentes daquelas crianças, aqueles gestos possuíam um conteúdo quase mágico. A capacidade de observar o interior de uma pessoa, através de técnicas simples ou com intermédio de certos instrumentos representa muita coisa, não à toa, foram práticas que revolucionaram a medicina e a forma de interação entre médico e paciente. Raramente nos damos conta do que simboliza aqueles minutos em que tocamos o paciente. Para as filhas de Alexandre, aquela fase da consulta parece ter simbolizado mais do que um ato técnico de investigação médica. Ao examiná-lo atentamente, a impressão é que chegamos no auge da demonstração de cuidado e acolhimento, onde um vínculo começa a se solidificar.

De forma mais discreta, o pai também demonstra se sentir cuidado e acolhido. No encerramento da consulta, agradece a atenção e o tempo dedicado a ele. Respira aliviado com os esclarecimentos, com o plano terapêutico que elaboramos juntos e com a garantia de uma longitudinalidade.

E quanto a mim, eu sinto a neblina formada pelos sentimentos de medo e insegurança daquela manhã do primeiro dia do mês e primeiro dia de estágio, se esvaírem, expondo um caminho, em que o destino ainda é incerto, mas que eu sei que devo trilhar.

No fim do dia, ainda lembro de uma frase sobre sucesso profissional na medicina, que inclui na definição de sucesso “…saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você existiu”.

Refletindo sobre isso, me pergunto: será que aquelas 3 pessoas que cruzaram meu caminho naquela tarde, sabem do sucesso que alcançaram?

Respiro fácil, e começo a me preparar para o próximo dia…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s