Médico responsável

por Eberhart Portocarrero Gross

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Um paciente meu foi à emergência com suspeita de fratura de tornozelo.
Passou pelo ortopedista, que pediu o raio-x correspondente.
Feito o exame, a técnica de radiologia entregou o filme e disse pra ele levar ao médico responsável.
Ele veio mancando da emergência pra me mostrar.
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Histórias da Biquinha

por Maria Alzira Gonçalves

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Na minha unidade recebíamos os estudantes da Faculdade de Medicina no internato.

Desta forma, eu estava com os alunos em uma consulta quando fui chamada pela enfermeira da unidade para ajuda-la em uma demanda. De antemão ela já foi me avisando, a queixa é constipação, mas observa a barriga da paciente. Avisada com antecedência chego para aborda-la, a adolescente estava acompanhada por sua mãe. Devia ter por volta de 16 anos, não me recordo mais a idade precisa. Pergunto o que houve e a mãe prontamente me responde que a adolescente está com muita dor abdominal, em decorrência de encontrar-se quase 30 dias sem evacuar. Com um misto de espanto e incredulidade pergunto a paciente se era isso mesmo, em concordância com a mãe ela acena a cabeça. Resolvi perguntar sobre seus ciclos menstruais e possíveis relacionamentos, embasada pelo aumento do volume abdominal. Ela mais do que depressa me fala que a menstruação é regular e que nunca teve relações sexuais. Para aumento do meu espanto a mãe refere que foram ao pronto atendimento local no dia anterior, e que nada foi resolvido, somente havia feito um Rx e foi prescrito uma medicação a qual não observou nenhum efeito. De espanto e incredulidade rapidamente encontrei-me pasma. – Rx!? Radiografaram a barriga dela?? Ela me afirmou que sim, que não haviam visto nada demais e o mesmo encontrava-se em sua casa. Pedi gentilmente que trouxesse para mim. 

Enquanto a mãe da minha paciente ia buscao Rx, aproveitei que a adolescente estava sozinha e a convidei para minha sala, aonde poderia examiná-la melhor. Palpando o abdômen constatei o que eu e minha enfermeira temíamos, tratava-se de um útero gravídico.  Mais uma vez tentamos explica-la que o melhor seria falar a verdade com sua mãe, e naquele momento eu estaria ali para apoia-la. A mesma permanecia afirmando que não se tratava de uma gravidez. Com o intuito de prová-la a veracidade da minha tese resolvemos auscultar o batimento fetal, perfeito e ritmado. Convicta que estava convencendo-a, mais uma negativa. Enfim sua mãe chegou com o Rx em punho e ficou aguardando pela minha analise. Eu, nesse momento, me defrontei com a gestante, minha enfermeira, uns três acadêmicos e a mãe do paciente, em minha sala esperando por uma solução para o casoFiquei paralisada com o dilema daquele momento.

 Foi quando, fatidicamente, um acadêmico verbaliza em alto e bom som.

Radiografaram ela grávida!

Pronto, o estrago já estava feito. Como contornar essa situação. Tento explicar a então outorgada avó,  que se tratava na radiografia da cabecinha, das perninhas e bracinhos do bebê (cientificamente falando: crânio, úmero e fêmur). A avó da criança ficou dois longos minutos observando o seu neto no negatoscópio, em sequência num rompante saiu em fúria corredor afora. A gestante saiu correndo atrás da mãe, meus alunos saíram correndo atrás da gestante e eu saí correndo atrás dos meus alunos. Meu sentimento agora era de muito medo!!

Do outro lado da rua, me deparei com uma avó raivosa descontando toda sua ira na gestante constipada. Meus internos tentando apartar a situação, alegando que ela não poderia sofrer nenhum dano, pois carregava um bebê. A essa altura prometeram ajudar no pré-natal, no enxoval e na criação da criança; tudo no intuito de preservarem a família. Passados alguns intermináveis minutos, novamente, conseguiram retornar com a família para a unidade e convence-las a iniciar o pré-natal. 

*Biquinha é um bairro de Valença/RJ, esse lugar da foto.

Do lado de cá

por Monica Correia Lima

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De repente, sem que esperássemos, a família estava às voltas com um quadro dos mais severos que já vimos, um abscesso e empiema no Sistema Nervoso Central, evolução de uma sinusite em um adolescente de 15 anos. Seus sintomas foram insidiosos, cefaleia forte, confusão mental, estrabismo divergente de um dos olhos, apatia e olhar vago (ausência?), parestesia em perna direita.  Alguns olhando com olhar descrente: Nunca vi isso – Disse o plantonista. Também não tínhamos visto, mas eram sintomas de algo que estava pressionando o lobo frontal, e eram preocupantes.

Atendimento no melhor e mais equipado hospital da Região, mas sucateado por interesses escusos de uma política pública irresponsável e inconsequente, que privilegia o processo privado ao invés do público (cujo financiamento, embora deficiente, deveria ser suficiente para dar qualidade à atenção à saúde nesse nível de complexidade).  A tomografia mostrou então a compressão, realizada a craniotomia (adiada o suficiente para a chegada o neurocirurgião que operava, o que estava de plantão não fazia o procedimento), retirada a secreção, o caso é grave.

A família fragilizada, os médicos assistentes, cada dia um, se limitavam a falar que o caso era grave, sem explicações, sem diagnóstico, sem prognóstico.  Após a segunda tomografia, nada de conversa, nem para consolo, nem para alegria, simplesmente o silêncio.  Ou outras vezes, pior que o silêncio, uma pergunta que não somente contraria nosso código de ética mas que contraria tudo o que assimilei nesses quase 20 anos de SUS, quando o familiar solicita informações e o profissional médico pergunta se o inquisidor é médico.

Então foi minha vez de ficar com o menino, adotada como tia, sentia-me na responsabilidade de estar junto da família nesse momento difícil. Cheguei próximo ao profissional neurocirurgião que estava sentado no computador, olhando vagamente para a tela, perguntei da evolução do menino, informei que era tia, ele ficou nessa mesma posição, de costas para mim, falando em voz baixa e murmurando que o caso era grave, sem diagnóstico, sem prognóstico, sem orientação sobre o tratamento. Pedi a ele para ver os exames, foi quando ele empurrou a cadeira, olhou pra mim de baixo ao alto e perguntou: Você é médica?  Disse que sim, e ele então disse que eu podia ver.

Ainda me pergunto se eu não fosse médica, qual seria a atitude dele, pois para a filha do senhor que estava vizinha ao menino ele simplesmente se recusou a dar explicações, a família de um senhor que caiu de 5 metros e provavelmente fez um coágulo perguntou sobre as medicações que ele estava tomando enquanto internado e ele simplesmente afirmou: Não interessa, você não é médica.

Fico pensando se somente familiares médicos podem receber o presente da informação do médico assistente. Desta forma teríamos que ter um médico em cada família. Então concluindo essa conversa temos um desafio, ou aumentamos o número de médicos nesse país ou cumprimos o nosso código de ética médica.

Anonimato

por Bruno Pessoa

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Como médico de uma comunidade, sempre gosto de privilegiar a economia local: compro o almoço numa vizinha da rua do posto de saúde, um cosmético na tia da revistinha, uma sobremesa na menina que faz dudu em casa para complementar a renda. Talvez você não conheça “dudu”, é porque dependendo da cidade ele pode se chamar de dindin, dadá, sacolé, flau, chup-chup, geladinho – essa é a palavra que tem a maior variação regional que eu conheço. Onde eu estava mesmo? Na economia local.
Pois bem, há um ano e meio estou trabalhando em um novo bairro. Há um ano e meio um comunitário, que mora na casa vizinha ao prédio da unidade de saúde lava meu carro. O meu e de outros funcionários do posto. Praticamente todos os dias o avisto no posto. Nos dias em que chega água da distribuidora, ele aparece na extremidade do corredor e faz sinal positivo: a esse código entrego a chave. Dia desses ele estava na unidade, mas não tinha água na rua, achei estranho mas pensei: deve ter vindo conversar com o pessoal na recepção. Saio apressado do consultório, estava uns 30 minutos atrasados, ele se levanta e diz:
– Doutor, hoje eu vou falar com você.
– Espere um pouco que eu estou atendendo.
– Mas eu tenho hora marcada.
– Então eu já-já te chamo, antes preciso chamar uma pessoa. E grito: MANUEL!
Ele responde:
– Opa, sou eu mesmo.
Poxa, pensei comigo mesmo. O nome dele é Manuel, como eu não sabia? Ele lava meu carro  toda semana e eu não sabia o nome dele. O nosso carro pode dizer muito sobre nós; provavelmente ele conhecia muita coisa sobre mim: as “gordices” que como enquanto estou dirigindo; as roupas e brinquedos das crianças espalhadas dentro do carro; pelo número de cadeirinhas, sabia que tenho dois filhos; sabe qual a estação de rádio que eu gosto de ouvir; enfim, quantas intimidades nosso carro não pode revelar. E eu não sabia seu nome.
Começamos a conversar. A consulta era preventiva, nada de doenças. Pede exames de próstata e insisto em dizer que cuidar da saúde é muito mais que exames. Tento introduzir uma investigação sobre alcoolismo: as pessoas da unidade diziam que com o dinheiro da lavagem do carro ele “enchia a cara”. Ao que ele diz:
– Sabe o que é saúde doutor? Saúde é ter um emprego, é ter uma família, é poder se sustentar. Faz quinze anos que eu vivo de bico. Até carteira de motorista eu tenho, mas não aparece nada, se não fosse pelos carros que eu lavo, eu não teria dinheiro nem pro de vestir.
– A situação está mesmo difícil. Tomara que a gente saia dessa  crise (mas pensava: com esse governo eleito, está difícil!). E o senhor mora com quem, divide as contas com alguém?
– Eu moro com minha irmã. Na verdade cada um tem sua casa, mas é no mesmo terreno. Na verdade era uma casa só, que a gente passou um muro no meio e dividiu. Antes eu dividia minha parte com um irmão que foi embora: ele deixou uma cômoda e uma televisão, e tenho minha cama.
– Mas o senhor tem filhos?
– Tenho 2. Fui casado, faz 15 anos que me separei. Desde então eles não querem nem saber de mim. Desde esse dia que minha vida está assim.
Entreguei os exames solicitados, dei um abraço e nos despedimos. Engoli seco. Fiquei pensando na solidão daquele homem que tem a idade de meu pai. Fiquei pensando que eu sequer sabia  seu nome, que eu não conhecia nem a superfície da sua história…

Luto Menstrual

por Renato Guimarães

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– Pelo amor de Deus. Que calor é esse!

– Oi?

– Não tem um remédio para esse negócio de menopausa?

– Como assim?

– Não aguento mais esse calorão! Esse negócio é muito injusto! Como que ela vai embora do nada?

– Você passa quase 50 anos com ela. Custa a se acostumar e de repente ela vai embora sem dizer tchau.

– Como assim?

– A menstruação! Tu se acostuma com ela. Aí ela some do nada. De verdade, eu sinto um vazio. Não estava preparada. Os médicos não conversam dessas coisas com a gente. Não nos preparam para isso.

– De fato, é comum mulheres terem uma sensação de perda da feminilidade com o fim da menstruação.

– Exato! Até para mim, que sou gay, parece que falta alguma coisa.

– E ela costuma ir embora e deixar a prima no lugar, que nem sempre é tão legal!

(Risadas)

– Vocês precisam conversar sobre isso com as mulheres. Estou vivendo um luto menstrual.

Uma conversa no corredor que foi mais ou menos assim.

Mas, tem certeza?

por Ana Paula Lemes Martins

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Uma simpática senhorinha de unhas rosas, bem feitinhas, com glitter. Vem em cadeira de rodas, mas porque vem sentindo dor no pé: não suporto pisar no chão, doutora.
Escuta e interrogatório feitos. Exame físico realizado.
Resumindo: ela foi acometida de dois AVC (Acidente Vascular Cerebral) isquêmico há 8 meses e, desde então, tem crises de perda de consciência e vômitos associados. A família achava normal, até porque “ela é exagerada, doutora”.
Eu também queria achar que era um exagero. Mas o fato é que a senhora de unhas rosas ficou com sequela do AVC e tem agora epilepsia. Teve ao início, crises leves, porém apresentou há dois dias da consulta, uma crise generalizada. Tanto que quebrou o tornozelo, quando passou mal no pronto socorro (como foi isso, Deus do céu? – pensei).
Ela e a filha fitaram meu olhos por um tempo.
A filha: tem certeza que é epilepsia?
Eu: certeza, certeza absoluta eu não posso afirmar, mas quando juntarmos tudo que me contaram e as respostas ao que perguntei… sim.. a chance é grande de ser epilepsia. Vamos fazer um combinado? Eu prescrevo o remédio e a gente vê se melhoram esses problemas. O que acham?
A senhorinha de unhas rosas respondeu: Mas, tem certeza?
Então veio peso da certeza que jamais teremos: na medicina, como no amor, nem sempre, nem nunca.

Janelas

por Mayara Floss

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Ela vivia em um quarto no interior rural com uma só janela. Com o tempo foi perdendo os movimentos e a cada dia ficou mais difícil caminhar e sair da cama. Para a família ela dizia que estava cansada de ver as mesmas coisas pela mesma janela. Queria ver algo diferente.

Eu visitava semanalmente, conversava, ajeitava as medicações. Momentos de gratidão, revolta e choro poderiam estar presentes na mesma visita domiciliar.

Um dia eu cheguei e a família estava radiante e me confessaram:

– Fizemos mudanças importantes no quarto.

Eu fui entrando devagar, quando cheguei eles tinham construído outra janela para a paciente. Na outra parede.

Pensei comigo: que curiosa forma de resiliência.

Cheguei sorrindo para comentar sobre a janela e ela olhou para mim e disse:

– Eu não quero outra janela, quero sair daqui.