Qualidade profissional

por Artur Oliveira Mendes

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_ Acidente vascular cerebral?!? Falaram que teve isso?!?

O médico, já idoso, parece não acreditar na história que lhe é contada. Virando-se para o séquito de residentes que o acompanha, completa ainda, em ar debochado:

_ E sem sequelas…

A paciente sem graça, tenta se arrumar na cadeira e começa a enfileirar, na mesa, o rol de medicamentos prescritos. A cada nova caixa, um balançar de cabeça desconsolado do profissional, entre reprovador e divertido com o que lhe é apresentado.

_ Perseverança nos estudos… _e, de volta aos residentes -… eis uma qualidade de um bom médico.

Ainda jovem, a mulher não sabe o que dizer…

_ Este aqui eu estou usando à noite…

_ Este?!? Medicamento desta natureza deve ser usado ao menos duas vezes ao dia… Lembrem-se: ser atento, um importante divisor de águas entre os bons e os maus…

Puxando um óculos, resultado da vista cansada, o preceptor ainda passa por alguns dos blisters mal acomodados.

_ Nenhuma estatina? Como assim? Um acidente vascular cerebral e sem estatina…

Os residentes prendem a respiração. O professor é conhecido pelo rigor e qualquer opinião contrária poderia significar uma punição.

_ Assertividade… é preciso assertividade…

Vitorioso, vira-se para um jovem aprendiz e solicita:

_ Mostre-me a receita. Vejamos quem foi o imbecil que fez este horrendo trabalho…

Encabulado, o estudante apresenta a prescrição:

_ Foi o senhor, professor…

Sem abalar o semblante, após um segundo para considerações, às portas da aposentadoria, o médico completa:

_ Saber reconhecer os próprios erros! Eis uma qualidade presente apenas em espíritos elevados!

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O chefe e o engasgo!

por Luís Antônio Tavares Vilela

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Plantão de domingo, véspera de feriado, cidade vazia, UPA vazia, que maravilha!
Tudo corria bem, as fichas pingavam e a gente atendia. Sem filas, sem stress.
Não sei porque o Chefe dos médicos deu uma passada lá:
– Eae Luisão? Tranquilo! Me manda a sua escala do mês que vem. Seus dias fixos.
– Tudo bem, chefe. Já mando no seu…
De repente chega na triagem da enfermagem uma senhora de cerca de 50 anos, com respiração agônica, amparada pelos familiares.
– O que aconteceu?
– Ela engasgou com um pedaço de carne.
– Vamos direto para emergência.

Como falta de ar evidente e com uma grande dificuldade para falar, ela sussurra:
– Eu vou morrer.
Me posiciono atrás dela e com a mão fechada aplico uma compressão rápida na boca do estômago. Nada. Repito a manobra de Heimlich mais 2 vezes. Nada.

– Me dá o laringo e aquela pinça de corpo estranho. Faz 5mg de midazolam.
Vejo alguma coisa ali passando a corda vocal. Com a pinça consigo puxar mas a carne desfia. Mais uma vez, com calma pinço firmemente a carne que se insinuava na traqueia da paciente.
– Saturação caindo doutor. 80, 70.
Retiro devagar para não desfiar um grande pedaço de bife, do tamanho da minha mão, enrolado a role na traqueia.
– Saturação subindo doutor. 80, 90, 96.
Que alívio! 😅
O chefe estava ali do lado.
– Salvou a vida dela, Luisão! Não esquece da escala!
Paciente estava dormindo tranquila por causa da sedação. Respirava bem e estava fora de perigo. Conversamos com a família e eles me disseram que ela esteve internada e estava louca para comer carne, e quando eles perceberam adentraram a cozinha e encontraram-na naquele estado.
Duas horas depois ela acordou e estava ansiosa.
– Posso ir embora? Detesto hospital.
– A senhora está bem?
– Estou ótima. Foi só um susto.
– Que susto! Como está tudo normal, seu raio x e seu quadro clínico vou liberá-la. Precisando a senhora volta, por favor. Já conversei com sua família.
– Obrigada!

Aborto social

por Maria Carolina Falcão

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A unidade em que trabalho é responsável pelos cuidados de saúde de todos os moradores da área adscrita. Dentre eles, um grupo volante de meninos entre 6 e 17 anos que são abrigados em um lar filantrópico. Volante, pois todos estão em situação de abrigamento por terem sido afastados dos cuidados familiares. Muitos vêm e vão e vêm novamente, seja por fugas arquitetadas por mentes adultas em corpos infantis ou por decisões judiciais. Alguns sabem mais da vida do que jamais saberei. Outros perderam a inocência da infância logo ao nascimento. Um fez a primeira tatuagem aos nove anos. Outro está no segundo tratamento para sífilis.
Semana passada foi a consulta de um deles com a psicóloga lá na clínica. Nos seus doze anos de vida, está em abrigos há 10. Por ter nascido com sequelas pelo abuso de bebida alcoólica durante sua gestação, faz uso de algumas medicações. Por fazer uso de algumas medicações, tem atraso no desenvolvimento escolar. Por todos os motivos anteriores, ainda aguarda na fila da adoção. Acabou se tornando um frequentador assíduo da clínica, tem o temperamento doce e, sempre que pode, distribui abraços para equipe. Nesse dia não foi diferente: “Oi tia! Me dá um abraço?” “Claro, meu amor!” Ele sempre me dá ótimos abraços, daqueles que apertam mais no final, como quem não quer largar. O dia estava corrido, eu andando pra lá e pra cá, mas sempre que eu passava por ele, recebia um aceno ou um beijinho estalado, enviado pelo ar.
Lá pelas tantas, depois de liberar um paciente, deixo a porta entreaberta antes de chamar o próximo. Ele chega e vai entrando pela fresta: “Tia, você tem filhos?” Sinto um aperto no pé da barriga, lá onde fica o útero… penso no meu planejamento reprodutivo, no DIU, no trabalho, no desejo de ser mãe quando achar ser mais oportuno. Lembro como foi uma decisão estudada e penso nas tantas adolescentes que nem sempre compreendem a matemática do uso do anticoncepcional oral pela triste realidade educacional em que vivem. As mulheres que sofrem toda a pressão de pedir pelo uso do preservativo e serem negadas. Ou aquelas ainda cujas mentes estão tão envoltas pela névoa da droga ou do álcool ou da fome, cujos corpos não tem mais significado e o sexo vira moeda de troca… Penso na liberdade negada, no planejamento impossível, nas consequências esquecidas.
“Não, ainda não tenho…”
Ele já está de pé ao lado da mesa, brincando com meu carimbo: “Você bem que podia me adotar, né?”
O chão se abre e só consigo fazer sorrir e abraçá-lo mais uma vez, o mais forte que consegui.
A psicóloga vem chamar para a consulta e ele me dá um beijinho no rosto. O vejo abanar a mão, dando tchau, me deixando afundada na cadeira, com um novo aperto. Dessa vez, do ladinho esquerdo do peito, lá onde fica o coração.
“Obrigado, tia!”
Obrigada você.

O paciente ou a pessoa?

por Lucas Gaspar Ribeiro

Muitas vezes a gente olha mais para nós e o que nós queremos curar, ou o que nós queremos ajudar, ou que acreditamos que incomoda. Essa é a leitura de quem está olhando de fora, olhando o todo, olhando o “problema”. Mas será que sei mesmo qual o problema? 

Será que consigo identificar quem é que precisa ser curado, ser ajudado, ser auxiliado? 

Mais ainda, será que sei mesmo o que e como procurar? 

Não sei, estou na dúvida. 

 

Acho que dei passos maiores que as pernas, acho que avancei o sinal mais de uma vez… 

 

Olhar para o outro é diferente de querer assumir posturas para o outro…  

Infelizmente, o médico, seja ele qual for, tem essa característica, algumas vezes mais intensas, outras mais leves.. Mas assumir o cuidado, assumir a responsabilidade de fazer, de não fazer, de ajudar a opinar em algo ou não… 

 

Mas qual nossa real possibilidade de fazer, de cuidar, de olhar para o outro. Será que acolher, ouvir, respeitar o outro, respeitar o espaço do outro não é suficiente? Porque assumir uma prescrição, assumir um cuidado, assumir uma terapêutica que muitas vezes pode não ser a melhor, pode dar resultados indesejáveis, pode causar dor, sofrimento, danos? 

 

Hoje, pensando, repensando, falando, ouvindo, vivendo e vivenciando como pessoa responsável pelo cuidado penso.. Quantas queixas, quantas dúvidas, quantas angústias chegam de forma ativa a nós e precisamos tomar um “partido”(mesmo que não seja tomar partido nenhum – isso já é tomar um lado…). Ou o contrário, quantas coisas ocultas, ou conversas, ou desabafos, ou apenas conversa jogada fora a gente, com esse olhar sempre questionador, buscando “problemas” e, claro, soluções não fazemos dum espaço protegido uma consulta, uma intervenção, uma escolha… 

 

Agora penso qual o limite de ouvinte, de pessoa próxima, de cuidador, de relação fraternal e de relação médica? Será que temos pontos, limites, mudanças e marcações para isso? Como não ir demais pra frente, ou ficar demais para trás… 

Acho que a resposta é sempre um questionamento que fazemos quando médicos, mas esquecemos de fazer como pessoas: o que eu posso fazer por você? Como eu posso te ajudar.. Será que eu posso te ajudar de alguma outra forma? 

Falta de ar nas pernas

por Luís Antônio Tavares Vilela

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Entra Joaquina, conhecida de longa data, com histórico de cirurgia bariátrica, artrose de quadril já com prótese à esquerda. Tratando também osteoporose, dores crônicas,  hipertensão e anemia. Ufa quanta coisa! Olho para prescrição prévia: uma inevitável polifarmácia.

– Olá, dona Joaquina! O que posso te ajudar hoje?
– Dr! Estou com uma falta de ar nas pernas.
– Mas, como é isso?
– Uma agonia que não para. Sufocamento.
– A senhora tem falta de ar?
– Não! É nas pernas!
– Ahh nas pernas… explica melhor: dói? Formiga? É a noite? Piora e melhora com alguma coisa?
– É difícil explicar. Tudo dói, né Dr, mas agora é diferente. Piora a noite … só por Deus! Não consigo dormir. De dia vou fazendo as coisas e não percebo. É só deitar na cama começa um comichão, uma sufocação nas pernas.
– E fica inquieta? Fica mexendo?
– Eu tenho que mexer aí alivia. Fico saracoteando a perna a noite toda. Só por Deus!
– Hammmm. Acho que entendi. Gostei da sua explicação. A gente chama isso de Síndrome das pernas inquietas. Minha ideia é te prescrever um medicamento para esta síndrome e te ver em algumas semanas. O que você acha?
3 semanas depois:
– Glória a Deus! Meu Dr abençoado. Minha perna disufocou, mas agora tenho que te falar outras coisas.

Resiliência

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por Lucas Gaspar Ribeiro

Resiliência, eita palavra difícil de escrever, difícil de compreender, difícil de perceber (às vezes). Mas vivemos ela no dia a dia, seja conosco, seja com quem cuidamos, seja com quem cuida de nós (afinal também precisamos de cuidado).
Essa história é de uma paciente jovem, 40 e poucos anos, que comecei a atender ano passado, primeira consulta ela vem com uma queixa de um carocinho na mama, carocinho daqueles chatos sabe, que crescem rápido, que faz sair uma secreçãozinha da mama, e tudo mais.
Segunda consulta pá, diagnóstico “confirmado”, câncer de mama. Cara, como eu odeio dar esse tipo de notícia, como é dolorido para mim, mas eu tenho certeza que para o outro é muito pior!
Nessa consulta já encaminhamos ao centro de cuidados de câncer de mama para confirmar o diagnóstico e iniciar tratamento.
Ela volta 2 meses depois já sem a mama, para avaliar a cicatrização. Conversa vai, conversa vem, não é que foi uma amiga muito próxima que a operou e que está cuidando dela… Pessoa que fez faculdade comigo, que tenho total segurança em sua responsabilidade e cuidado (foi leve esse encontro, gratificante, e ela estava feliz, animada…).
Nosso próximo e último encontro (não foi porque ela faleceu, mas porque eu saí.. Fiquem tranquilos) foi há 1 mês atrás. Conversamos, rimos, trocamos carinhos (seja no olhar, seja no toque de mãos, seja num abraço).
Estava radiante! Contando que a melhor coisa que ocorreu em sua vida foi essa doença (acreditam?). Isso mudou sua vida, deu um significado. O significado de ir no hospital, ajudar, apoiar, reforçar, falar para as suas “companheiras” que tudo vai ficar bem, que tem lenços lindos, que tem perucas acessíveis. Doando suas mamas de mentirinha (as tais órteses e próteses) para quem precisava mais que ela.
No final, soltou uma pérola que hoje eu leio como um ótimo meio de definir a palavra lá do começo: Resiliência – a doença que veio é o vento, não é a morte. (Na minha simples interpretação: vem balança, agita, bagunça, mas continuamos ali.. Firmes e fortes…).

As andorinhas da saúde

por Arthur Fernandes

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Fomos visitar dona Mocinha novamente, duas agentes de saúde e eu.
– Eita, eles chegaram! Chega, minha filha, abre a porta que as andorinhas da saúde tão aqui!
– Que coisa boa ver a senhora animada assim, dona Mocinha!
– É, meu filho. Eita, meu filho não, que o senhor é o doutor. Mas é, sua graça, eu tô melhor, visse?
– E aqueles passamentos? Ainda teve?
– Tive um, mas foi fraco. Abortei ele logo. O senhor sabe, eu peço a Deus, através dos remédios, que me ajude a melhorar.
– Bom saber! Mas me conte, como vão as coisas?
– Por aqui está tudo bem. Se sente aqui na sua cadeirinha, chegue.
Sua agente de saúde comenta:
– Eita, e o doutor já tem até cadeira aqui na sua casa, é?
– Iapois, menina. Eu gosto que só de receber vocês! Tava aqui assistindo ao jogo de bola na TV e lembrando do dia que o doutor trouxe aquele baralho. E eu pensando que era jogatina, tu crê? 😂😂😂
– Foi mesmo, né? Agora me diga outra coisa: sua filha estava me contando que a senhora está trelando, fazendo umas extravagâncias…
– Que conversa mais feia! Ela é muito é fofoqueira! O senhor passe um freio nessa menina, vi?
– Mas ela me falou que a senhora tomou muito café e ficou tonta. Deve ter afetado o labirinto, a senhora num sabe?
– Labirinto é o juízo? 😂
– Não, é um negócio que fica dentro do ouvido. Aí temos que evitar café, Coca, chocolate… pra não ofender ele. Tudo bem?
– Tudo bem. Agora falando em brebôte, minha menina comprou um pra tirar minha pressão. O senhor veja ali se presta, por favor.
(conferimos seu novo tensiômetro digital…)
– Está ótimo seu aparelho novo, viu?
– Que bom. Aproveitando que o senhor tá aqui, eu queria tirar umas dúvidas. Ia até perguntar antes a essa menina agente de saúde, mas achei o médico ia ser mais sabido.
– Pois eu acho que as meninas agentes de saúde sabem muito mais que eu! Elas estão aqui faz tempo, conhecem todo mundo. Eu cheguei um dia desses…
– É, mas o senhor é mais sabido das coisas, assim, dentro, né?  Elas têm sabedoria da clara, e o senhor tem sabedoria da gema.
– Ah, tá! 😂
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(os nomes são fictícios e as estórias têm adaptações para preservar o sigilo das pessoas)