Massas e massinhas

por Carolina Reigada

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Era um menino de 5 anos, simpático e comunicativo.

A mãe o trouxe à consulta porque ele estava com bolinhas no corpo. Era molusco contagioso. Diagnóstico fácil, tratamento mais complicado…afinal, tem que espremer as lesões e tirar as massinhas que ficam dentro, e a maioria das crianças é um pouco resistente a esse tratamento…

“Cara, vamos ter que tirar essas massinhas daí”

“Tirar como?”

“A gente coloca uma poção mágica, que não deixa doer muito, e espreme”

“AH NÃO! DEIXA A MASSINHA”

Entra a mãe:

“Vambora, menino, que tem muita gente pra eles verem ainda”.

Conversa vai, conversa vem. O menino deita, passamos a tal “poção” nas bolinhas inconvenientes, disfarço a agulha que ajuda no processo de espremer a massinha e….

“AAAAAAAAI!! PARAAAAAAAAAAAA!!”

“Mas já saiu a massinha, ó.”

“Então acabou?”

“Não, tem que tirar todas…tem bichinho na massinha, se não tirar, ele vai aumentando”

“NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!! QUERO IR EMBORAAAAA”

E voltamos às negociações, eu ofereço continuar em outro dia, a mãe oferece sorvete, o menino está irredutível: sem mais espremação. Depois de muita lábia, finalmente faltavam só cinco lesões. Cinco! E foi exatamente quando a paciência do menino acabou.

Mãe segura de um lado, residente segura de outro, lá vou eu tirar as três que faltam, sob os gritos do menino que era simpático e cuja comunicação agora sai aos gritos incessantes de “PAARA”, “VOU EMBORA”, “ME TIRA DAQUI”.

Terrível.

A mãe, tentando remediar o irremediável, não para de falar: “a gente sai daqui e você ganha pipoca. Ganha hamburger. Ganha refrigerante.”

E nada adiantava.

Até que a mãe muda a estratégia: “Eu compro lápis de cor pra você”.

E o menino: “AAAAAH!! PARAAAA!!!…. (de repente, silêncio). “Não, mãe, eu quero massinha…”, ele falou calmamente.

E assim, na troca de massinha por massinha, tirei a última massinha. Quem diria que o veneno seria o melhor remédio?

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Apego

por Monica Correia Lima

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É ponto passivo de discussão, que nosso emocional influencia diretamente em nossa saúde física, e vice versa. Não somos apenas emoção ou físico,  mas somos tudo isso, nosso adoecer pode ser relacionado a qualquer um dos dois ou aos dois ao mesmo tempo, por isso, quando dona Ester entrou no consultório com os olhos cheios de lágrimas porque seu irmão,  do qual tinha cuidado por mais de dez anos, falecera havia poucos dias, prostrada, cansada por ter se dedicado totalmente a ele nos últimos anos, sentia-se vazia. Vazia de sentido, de objetivo e de senso de valor.

Antes ela ainda ajudava na pastoral, cuidava de crianças desnutridas, de famílias com necessidades mas, cada vez que algo ruim acontecia a qualquer um deles, até uma adolescente que morreu atropelada na pista, ela adoecia. Não pode perder ninguém, todos são minha responsabilidade, são meus. A enfermeira da equipe é terapeuta de floral e já sabia exatamente como ajudá-la.

Hoje ela chega para retorno, com lágrimas nos olhos novamente, seu irmão foi atropelado na pista há menos de 2 meses, ela olha pra mim e diz, estou melhor, sei que as pessoas não vão ficar para sempre, me apego demais às pessoas, a perda é ruim, mas não adoeci mais, sinto saudade, não me conformo com a morte tão brutal, mas não fiquei doente, estou melhor. Então viro para ela e digo: E agora vamos falar de negócios? Temos uma reunião em setembro para organizarmos o conselho local de saúde. Que tal conversarmos sobre os atropelamentos na pista? Ela abre um sorriso e seu brilho no olhar, de ter valor, de ajudar e cuidar, reacende.

Não é fácil

por Lucas Gaspar Ribeiro

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Veio sozinha na consulta hoje, contando já logo de cara que não pode sair sozinha, porque se perde na rua e depois a polícia tem que levar para casa.
Hoje veio preocupada porque está sem receita, sem remédios.

Olho no sistema que pegou medicações há 10 dias (para 30 dias).

Converso com ela sobre ter a receita, de vir com os filhos.
Conversa vai, conversa vem, conta que lembra desde a data de nascimento, mas quer a receita para pegar remédio (acabei de falar que acabou de pegar).
E termina falando – não é fácil ficar velho né, não é fácil….
E coisinha chata essa doença, não é fácil ficar velho dona Beatriz, não é….

Motivos

motivos - causos

por Mayara Floss

 

Doutora, é o seguinte, já que você se preocupa mesmo comigo. Vou te contar, eu entrei no crime porque minha mãe era prostituta. Eu tinha catorze anos e não aguentava mais a minha casa nem as piadas dos meus colegas. Larguei a escola e fui traficar e fiz ela prometer que nunca mais iria se prostituir. É por isso que eu trafico, é por isso que eu mato.

Caratinga mar/2017. 

Acolhimento

por Antônio Augusto Dall’Agnol Modesto

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A enfermeira nos conduziu à sala de acolhimento para mostrar o programa de prontuário eletrônico; atrás iam eu e alguns estudantes do segundo ano de medicina. Ao entrar na sala, me deparei com um casal sentado diante da mesa, que a enfermeira logo ocupou. Deviam ter cerca de 20 anos e pareciam esperar alguém. Ele, cabelos raspados dos lados e curtos em cima, abaixados com gel; ela, longos cabelos negros e olhos grandes; os dois vestidos como se fossem tocar a vida na sequência.

Enquanto a enfermeira nos mostrava como consultar os prontuários no sistema, uma técnica de enfermagem entrou na sala. Trazia quatro ampolas, e eu imaginava o que eram: penicilina benzatina para sífilis. Cada ampola estava destinada a uma nádega do casal.

A enfermeira seguia explicando as potências e limites do sistema e respondendo a perguntas cirúrgicas como se era possível listar os pacientes atendidos por diagnóstico ou como a equipe lidava com a continuidade entre os prontuários físico[i] e virtual[ii] de uma pessoa, enquanto a técnica preparava as doses de antibiótico. Eu ouvia os jatinhos da água destilada batendo no pó dentro das ampolas[iii] e me perguntava como tinham tido o diagnóstico, se os dois tinham sorologias positivas ou foi um tratamento “paciente + parceiro” (ou “paciente + parceira”), como eles tinham conversado sobre isso e quanta atribulação o diagnóstico traria ao casal.

“Vem”, diz a técnica ao rapaz, que se levanta e vai para trás do biombo – uma armação de metal sobre rodinhas na qual se amarram panos como anteparo. O rapaz era mais alto que a peça. Uma sala aberta com sete pessoas estranhas – profissionais e estudantes da saúde, mas estranhos a eles – não me pareceu um lugar confortável para alguém tomar uma benzetacil na bunda. Além do mais, nossa tarefa ali já estava acabando.

“Oi”, eu digo, “já estamos saindo”. Ela não ouve. “Oi!”. Ela não ouve. “OI, MOÇA”. Ela me olha, o rapaz com a mão na cintura, ela brandindo a seringa. “A gente já tá saindo, ele não precisa tirar a calça agora”

“Não, tá aqui o biombo, ó!” e apontou para o biombo. O jovem, resignado, arriou as calças. Meu queixo também arriou. Os estudantes saíam da sala, a enfermeira logo atrás, e eu tinha vontade de pedir desculpas ao casal.

O que estava em questão era a exposição da genitália, não todas as outras exposições envolvidas; era uma questão moral, não de bem-estar. Como se fosse trocar de roupa antes de entrar no carro, depois da praia: alguém segura uma toalha na altura do seu peito, você olha para um lado, olha para o outro, tira a sunga e rapidamente coloca a bermuda.

Fiquei pensando na variedade de coisas que ninguém faria em público, atrás de um biombo.

Ele já tomava a segunda injeção. A vez dela chegaria logo. “Tomei a liberdade de ver o remédio que vocês estão tomando, e essa injeção pode doer um pouco depois”, eu disse a ela, de saída. “Pode tomar uma dipirona, se tiver com dor”.

“Dói na hora ou depois?”

“Às vezes nem tanto na hora, mas depois muita gente fica com dor no local. Pode tomar dipirona ou qualquer analgésico que você esteja acostumada”.

O nome na porta dizia “acolhimento”.

24 de agosto de 2017

 

[i] O prontuário tradicional: um punhado de folhas de papel grampeadas, guardadas em um envelope.

[ii] O prontuário eletrônico, no computador.

[iii] O remédio vem em uma ampola com um pozinho. O profissional mistura algum diluente (como água destilada) para então fazer a injeção.

Sobre não querer ser artista

por Ana Paula Marcolino

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Um rapaz franzino, um tanto careca. Aparentava uns 25 anos. Carregava uma papelada, que o deixava encurvado. “Parecem um saco de cimento!” – pensei.

– Dra, não sei por onde começar – as pausas na fala eram grandes, parece um idoso tentando lembrar frases e datas! – a senhora me explica esses exames aqui?

Joga a papelada na mesa, desconsertado, sorriso amarelo. Parece palhaço de circo antigo, tentando ser muito, muito atrapalhado!

– Calma, calma… conta tua história pra eu poder olhar melhor teus exames?

– Então.. ehr… eu fiz o teste de HIV, sabe? Ia doar sangue na universidade… Deu positivo. Há um ano isso. Mas nunca liguei muito. Esses testes são tão loucos, sei lá.. achei que era engano. Nem liguei pra isso. Mas há dois meses, dra… silêncio de novo.

Minha cabeça a mil. Espere! Ele fez o teste de HIV, repetiu, como tem de ser, e ainda assim não acreditou…. com minha bela e boa dose de idiotice, eu julguei a pessoa que eu estava atendendo… “parece talk show”.

Interrompendo minha canalhice, vem o choro ele incontrolável: Dra, eu vou morrer! O médico lá do hospital falou que eu vou morrer rápido! Por favor, me explica o que é CD4, me explica carga viral… eu não entendi nada nada! – Nada parecido com drama. Vida real… realidade na minha cara, esbofeteando.

Estava na minha frente um moço de 18 anos, que tinha acabado de entrar na faculdade de artes cênicas. Ele tinha uma carga viral muito grande e um CD4 de 200. Seu cabelo havia caído muito. Tinha diarreia há quase três meses. Sentia vergonha de seu corpo, pois era muito bonito e atraente antes. Andava encurvado porque as dores no corpo eram surreais. Queria morrer. Tinha vergonha de sair na rua. Expliquei sobre os parâmetros do exame sobre os quais ele havia questionado. Desenhei, conversei sobre os sintomas, ofereci apoio. Minha idiotice foi esvaecendo (ainda bem!). Falei sobre o tratamento da AIDS. Sobre o que estaria por vir.

Ele demonstrava então mais tranquilidade. Parecia final de cena. Mas eis que veio:

– Dra, a senhora não tem idéia de como é ter uma doença crônica e avassaladora.

– Eu sei sim, querido…

Escapuliu! Eu não quero ser artista.