Uma consulta de cor(ação)

por Michelle Venâncio

Sexta-feira, Maio de 2019. Ambulatório de Saúde Mental.

Atendo uma mulher negra, sorriso tímido, passos modestos. Aqui, vou chamá-la de Francisca. Já havíamos nos conhecido há 15 dias, quando veio ao posto para acompanhar seu marido. Naquele momento, notei que também precisava ser cuidada, ao que me respondeu: “Vou marcar consulta pra mim, bem”. E assim o fez. Pedi para que se sentasse e ficasse à vontade para conversarmos, mas ela utilizou só a beiradinha da cadeira. Totalmente inclinada para frente, era como se seu corpo clamasse por ajuda. Queixa principal: “renovar as receitas dos remédios da cabeça”. Um histórico de irritabilidade, ansiedade, depressão, exaustão, que pioraram depois do adoecimento do marido, de quem é a única cuidadora. Continuamos conversando, até que em determinado momento ela fala: “Porque a gente que é preto assim, bem, sabe como é…” Perguntei o por quê. E, com muitas lágrimas, me conta todos os episódios de racismo que sofreu com a família do esposo, de descendência italiana. Eu, emocionada também, pergunto se isso traz sofrimento a ela, que afirma que a adoece “tanto quanto os problemas da cabeça”. Questiono se já havia dividido isso com algum médico ou algum outro profissional de saúde. “Ah, não, bem. Falei pra você só, porque você é de cor que nem eu, de certo ia entender.” ‘Bem’ é a forma carinhosa com que se referiu a mim durante todo o atendimento. Pela fala de Francisca fica evidente que representatividade e empatia importam muito para um cuidado integral, daqueles que aprendemos lá nos bancos da Universidade. “Até voltei a estudar, bem, quero ser alguém.” Afirmo que, pra quando chegasse à frente do espelho, no auge dos seus 56 anos, olhasse bem profundamente pra ela e reparasse que seu cabelo não é duro; que seus traços não são rudes; que é uma mulher forte, linda e inteligente. Renovo suas receitas, com a esperança de que um dia não sejam mais necessárias. E digo que estaremos juntas, sempre, seja na unidade ou não, uma torcendo pela outra, porque ainda que a sociedade diga que não, somos muito capazes. Nos despedimos com um longo abraço e com muitas lágrimas.

(…)

Sábado passado, eu participava do I Seminário Nacional de Saúde da População Negra na Atenção Primária à Saúde. Já havia experimentado (e ainda experimento, infelizmente) os efeitos do racismo na minha vida, mas ficou escancarado pra mim como o racismo adoece também as pessoas que atendemos. 80% das pessoas que utilizam o SUS são negras. É preciso estar com os olhos e ouvidos atentos, porque muitas vezes não exploramos essas queixas, uma vez que racismo não tem CID (código internacional de doenças). Em diversos momentos penso em desistir, mas dias como ontem me fazem perceber que é preciso cuidar dessas pessoas. Que bom que eu estava lá, melhor ainda que ela estava lá. Seguimos.

Coisas do coração – parte 2

por Carolina Reigada

Pão de queijo é amor

“Eu vim pra senhora renovar minha receita e falar dessa dor nas costas”

“Então me fala a senhora, como é essa dor nas costas?”

Ela descreveu a dor mecânica, conversamos sobre dores no corpo, uma certa hora eu falei:

“Músculo é tão doído que às vezes dói longe. Tem músculo nas costas que faz doer o peito”

“Ah, eu tenho dor no peito, também. Mas essa a senhora não consegue curar, nem eu quero que cure”

“Por que? Que dor é essa?”

“Essa é do meu menino, eu acordei, fiz café, fiz pão de queijo, arrumei no prato pra ele, quando cheguei no quarto dele, ele tava morto na cama.”

“…”

“Ele tinha 24 anos. Um menino de ouro. Nunca me deu trabalho. Desde que ele morreu, tem essa dor aqui. Não vai embora, não. Sempre que ela vem, eu lembro dos pãezinhos de queijo quentinhos, arrumados no pratinho.”

Há 20 dias comecei a trabalhar aqui, nessa pequena cidade.

por Ana Samantha
Como Destruir seu Coração em 5 Hábitos

” Boa tarde, dona Maria. meu nome é Ana. O que houve com a senhora?”

” Ah, eu sei que seu nome é Ana! Vi você dando entrevista na TV, avisaram que você tinha chegado na cidade…”

” Eu não dei entrevista na TV, não, dona Maria.”

” Não?? Ah mas mostraram você no jornal sim, o facebook e tudo…”

Guri. 7 anos.

” Ah, já acabou a consulta, tia?”

” Sim, a gente tá há 40 min aqui! haha”

Entrego a receita nas mãozinhas dele e não pra mãe, pra ele se sentir importante. Ele olha pro papel:

” Aaah, agora sei pq tu é médica… olha esse garranchos!”

Fomos eu e a equipe visitar uma senhora em casa, lá pelas 15h da tarde. Ela abriu a porta da casa:

” Que sorte de vcs! tô fazendo pão, tá quase prontinho!”

Menino, 13 anos, tava triste por ser o segundo mais baixo da turma.

” Dotora, me ajuda a crescer?”

Guria. 16. Me olhou de cima a baixo enquanto eu escutava o coração dela:

” Eu quero ser médica, sabia? mas não assim que nem tu. eu quero abrir crânios.

Senhor, 85 anos. Abrigo e boné de esportista.

” Dotora, tão dizendo ela até chorou quando voltou pra cuba, sabia? A gente gostava dela! E isso que a gente nem entendia o que ela falava… e agora veio você, pra gente aprender a gostar também.”

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Eu quero sentar na porta de casa e escutar o último álbum do Cícero inteirinho, sem me sentir na obrigação de parar pra acompanhar as notificações da palestra e do grupo da turma. eu preciso terminar de ler aquele livro de 700 páginas que me deixou de cabelo e neurônios em pé, quero investigar o caso clínico que assisti na aula e que ainda não tem resposta, em casa, tomando chá, me sentindo num seriado investigativo. Quero plantar boldo, desenhar, aprender a tocar a flauta que me espera em cima da prateleira desde o dia que ganhei, em alguma parte de 2015. Quero arriscar Sartre, viajar pra Floripa, estudar astronomia, vegetarianismo, banheiros secos e a história de todos os ruivos.

 

Pro bem e para o mal, nesse mundo que me diz pra especializar meu cérebro e atenção, eu fundi um coração generalista
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Esculhambose

Eram já 11 h da manhã e o professor que acompanhava os internos na UBS rural já se preparava para encerrar as atividades após terem atendido todos os pacientes agendados.

Prestes a sair, os 3 alunos que se encontravam na mesma sala de atendimento foram surpreendidos com uma última ficha recém-adicionada à pilha de prontuários. “Temos mais uma antes de irmos ao quilombo”, acrescenta o professor. “É uma funcionária aqui da unidade que pediu para passar em consulta. Vocês podem chamá-la?”

Prontamente, um dos internos dirige-se à recepção para procurar pela funcionária Adriana [nome fictício]: “Dona Adriana, vamos lá?”.

Adriana entrou na sala com tranquilidade, já acostumada com o ambiente acolhedor da unidade e com os médicos e alunos que ali frequentavam.

“Sou eu mesma. Precisava que vocês dessem uma olhadinha em mim porque eu não estou mais aguentando essa dor no meu braço.”, diz Adriana indicando com as mãos o local onde a dor mais lhe incomodava.

 “Bom dia Adriana. Sou a Maria Fernanda e eu vou fazer o seu atendimento hoje, tudo bem? Como posso te ajudar?”

“Então, eu estou com essa dor no meu ombro direito já faz umas 2 semanas. Semana passada tomei uma injeção de Profenid com Dipirona. Até melhorou, mas essa semana já voltou a doer de novo. Estou até estressada a semana toda por causa dessa dor. Já faz muito tempo que tenho isso porque na verdade eu tenho bursite, tendinite nos dois braços e no outro eu também tenho tendão rompido e estou aguardando um exame ainda para fazer. Eu falo que eu tenho “esculhambose” sabe? Tudo meio torto mesmo”, completa a paciente em meio a risos, apesar da queixa que a incomodava.

Será que essa “esculhambose” é do trabalho?, indagou o professor, que observava o atendimento do canto da sala.

“Ah eu já fiz de tudo! Eu já trabalhei correndo atrás de caminhão de lixo, já fui gari, já fiz faxina por muitos anos, já fui servente de obra, já cozinhei, varria rua pela prefeitura. Agora já faz uns 6 anos que eu trabalho aqui no posto. Comecei na parte da limpeza e agora fico encarregada da recepção. Trabalhei muito pesado nessa vida. Por isso tenho tantos problemas nos braços hoje em dia. Além disso, tive que criar meus 3 filhos sozinha porque meu ex-marido não me ajudava em nada…”

Com o decorrer da consulta, durante o exame físico, tornou-se nítida a transformação da percepção que os estudantes tinham sobre aquela mulher que tão voluntariamente se expunha, como se não houvesse nada de especial em sua trajetória. Ela passou gradativamente de uma figura atrás do balcão que distribuía “Bom dias” e que se ocupava de suas tarefas administrativas para um ser humano, uma mulher guerreira, uma pessoa que buscava ajuda, munida de uma história de vida digna de comoção e admiração por parte daqueles que a atendiam. A metamorfose era incontestável: aquela mulher adquiriu um novo significado, uma nova fascinação aos que estavam presentes.

 “Nossa, parabéns Adriana. Você é realmente muito guerreira!”, concluiu Maria Fernanda, que prosseguiu: “E aconteceu alguma coisa durante esses dias que possa ter aumentado essa dor?”

Adriana refletiu por um instante e confessou em tom de lamento: “Ah, na verdade sim. O meu ex-marido faleceu faz umas 2 semanas.”

“Meus sentimentos… tem sido difícil para a senhora?”, “Na verdade tem sido sim, eu senti muito. Ele foi meu primeiro namorado, né? Tivemos 3 filhos e ficamos juntos por 18 anos. Então a gente acaba sentindo, né? Não tem como não sentir. Eu fui no enterro dele, sabe? Depois de mim, ele teve mais 2 mulheres e falava pra elas que na verdade ainda me amava. Eu falava pra ele não dizer isso mas ele insistia e as outras sempre me odiaram por isso. Mas ele foi muito ruim no final da relação sabe? Ele me batia, me agredia. Não só fisicamente, sabe? Com palavras também. Aí chegou uma hora que eu não aguentei mais e terminei. Eu acho que o limite da relação é quando acaba o respeito com o outro, entende? Quando o homem chega nesse ponto e perde completamente o respeito pela mulher, aí já não tem mais jeito mesmo.”

O relato de Adriana não parecia abalá-la de forma alguma. Ela seguiu contando sua história sem hesitar: “Minha ex-cunhada me ligou no dia anterior da morte dele e falou que ele estava muito mal no hospital, pedindo pra que eu fosse vê- lo. E sabe, parecia que ele só estava me esperando chegar para partir. Ele estava em coma, né? Mas eu falei com ele, falei que perdoava ele de tudo. Que da minha parte estava tudo certo. Que eu não guardava rancor de forma alguma. Poucas horas depois que eu fui embora, ele faleceu.”

“E como você se sentiu com tudo isso?

 “Ah eu fiquei muito triste!”, respondeu, cabisbaixa.

“E você chegou a comentar com alguém sobre seus sentimentos?

“Não! Eu não podia contar para ninguém por causa de tudo aquilo que ele me fez. Eu sofri muito. Todos sabem tudo da minha vida e sabem o quanto eu sofri com ele. Como seria possível eu gostar de alguém que me fez tão mal assim? De ter esse sentimento por alguém que não me tratou como eu merecia? Eu só estou contando isso para vocês aqui. Ninguém mais sabe lá fora.”

Um misto de vergonha e dúvida se esboçou no rosto de Adriana. Aquele sentimento ambíguo de luto claramente lhe causava estranheza e um certo desconforto.

 “Mas você tem medo do julgamento das outras pessoas?”

“Sim, de certa forma tenho. Eu não queria contar isso pra minha família.”

 “Sabe, mas você não deve se culpar por ainda ter sentimentos por ele. Vocês tiveram uma história juntos, tiveram filhos. Apesar de tudo o que você passou de ruim com ele, também tiveram muitos momentos bons. Então você não precisa ter medo desse sentimento”.

“É verdade, gostaria de poder falar mais sobre meus sentimentos”

 “Então será que, de certa forma, toda essa dor não teria piorado depois desses dias tão conturbados, com tanto estresse?”

Eu acredito que sim! Eu estou fazendo várias coisas pra ajudar a melhorar a dor. Faço pilates, natação, yoga. E até ajuda bastante. Mas eu precisava voltar a fazer com mais frequência. Eu tenho muita energia, sabe? Preciso estar sempre em movimento. Sempre fazendo alguma coisa.”,

Dona Adriana, seus sentimentos são legítimos, você não precisa se mostrar tão forte assim o tempo todo. As vezes lidar com os próprios sentimentos, tirar um tempo para si e buscar ajuda quando necessário podem ser os melhores remédios. Conte conosco aqui sempre, estaremos a disposição para ouvi-la!”

O encontro com Dona Adriana se encerra com uma simplicidade. Podia ser sentida a sensação de que todos aprenderam e cresceram com aquela experiência. Um atendimento humano, centrado na percepção e nas repercussões sobre a própria pessoa, desviando o foco da tradicional busca pela explicação anatômica e fisiológica.

Dona Adriana toma aqui a receita do analgésico para caso a dor fique pior.

Adriana já saindo da sala sorridente diz:

Muito obrigada, pessoal estou bem melhor e aliviada!

Autores:

Fernando Eugênio de Araújo Aguiar (Estudante do 6 ano de medicina da FCMS da PUC-SP)

Katia Scanagatta (Estudante do 6 ano de medicina da FCMS da PUC-SP)

Maria Fernanda Rodrigues Mundo (Estudante do 6 ano de medicina da FCMS da PUC-SP)

Fábio Miranda Junqueira (MFC e professor do internato rural da FCMS da PUC-SP)

Maria Carolina Pereira da Rocha (MFC e professora do internato rural da FCMS da PUC-SP)

 

 

Maria Sanfoneira

por Amanda Freitas

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Sua filha me procura no consultório, primeiro encontro. Com carinho, diz que a mãe é a pessoa com quem ela mais se importa. Gostaria de dar os melhores últimos dias de vida a ela. Acho bonito o que ouço. É a primeira vez que alguém me procura de maneira tão formal para “cuidados de fim de vida” ao trazer consigo um encaminhamento do oncologista: ” Solicito cuidados paliativos em clínica da família”.

O caminho que vem por aí é longo: descrição de consultas diversas, foi pra esse hospital, pulou pro ambulatório, fez ligadura elástica, teve medo, se sentiu mal, emagreceu, “tudo por causa da bendita transfusão de sangue”. Agora com um câncer hepático avançado.

– E como ela tá em casa?

– Ah, sente umas dorzinhas na barriga, mas nem parece que está tão grave assim. Por isso mesmo tenho medo de contar, não quero que ela saiba que vai morrer, queria que ela morresse de uma vez, sem tem que saber de nada.

Conversa vai e vem sobre sabermos os desejos da senhora M.L., a importância de conhecer as prioridades dela como rotina agora e nos momentos finais. Do que ela não abriria mão?

– Sabe o quê que é? Acho que ela quer morrer em casa, isso me assusta muito. Um cunhado meu morreu em casa dia desses e foi uma via crucis pra tirar o corpo, ninguém dá atestado de óbito não, tivemos que comprar na funerária.

– Entendi que você dá o atestado de óbito já que estaremos em acompanhamento contigo, muito obrigada. Mas e se ela morrer no fim de semana, e se for no Natal? E se você tiver viajando… a gente fica na mão, né?

Muitas perguntas surgem, muita insegurança. Penso, divido o caso, dou meu número de celular.

– Pra garantir que não vai ter confusão com atestado.

– Gostaria de visitar sua mãe, que dia posso?

Marcamos.

Durante a sequência de dúvidas que se seguiu, não consegui barrar o meu pensamento em reviver alguns momentos.

De início, me lembrei da faculdade: o primeiro ser humano que vi morrer. Foi em uma enfermaria hospitalar, também vítima de câncer, 43 anos, houve um período de gemência longo, fiquei ao lado dele com a esposa. Um tio religioso ligou, colocaram o celular no viva voz, havia orações, canto de músicas e choro. Inspirou pela última vez quando seu irmão chegou. Depois me contaram que eles eram brigados, há anos não se falavam, sugeriram que ele o esperou chegar para poder ir. Era quem tava faltando pra despedir a fim de completar seu tempo por aqui. Coincidência ou não, me marcou e me intrigou. Será que essas coisas acontecem mesmo? Foi um dos momentos mais marcantes da graduação pra mim.

Em seguida, durante um estágio da faculdade, visitei uma cidade mexicana chamada Metepec, na qual me mostraram orgulhosos uma escadaria a perder de vistas onde se montam: “Los coloridos altares por Día de Muertos”. Tratam-se, basicamente, de mesas com as comidas preferidas dos entes queridos falecidos, a fim de que eles saiam de onde estiverem e se deliciem entre festa e sorrisos com o dia que foi dedicado a eles. Informação guardada na caixinha de conhecimentos estranhos.

Dois anos depois veio o livro da Ana Claudia Quintana, que fez com que o tema morte fosse como um cabelo pós-camping sem banho se desembaraçando na água quente do chuveiro de casa. Engoli o livro todo num dia. Assunto difícil que ao longo das páginas vai sendo tratado como natural. Faz a gente acreditar na possibilidade de vida e beleza na terminalidade.

Depois, me lembrei da oficina que fui durante um congresso. Imagine que você tem uma doença grave e 1 ano de vida. O que, dentre essas proposições, é essencial para você? Pode selecionar 20 opções. Valendo! Inicia uma “taquicardia nos meus dedos”, como dizia uma paciente, para fazer essa escolha. Agora, 6 meses, 1 mês, 1 dia, 1 segundo… a fantasia da vida escorrendo pelas mãos, e no final apenas 1 item que seria o mais importante pra mim. Difícil escolher, complicado saber o que é imprescindível, quando um cardápio de opções parece ser.

Agora o mesmo tema que já me encontrou como acadêmica, turista, leitora e pessoa ciente da própria finitude, agora me desafia como médica.

Hoje fui visitar dona M.L. Uma rua bem larga, culminou em uma médio larga, depois um beco estreito, do qual se erguia uma escadaria íngreme que dava numa portinha.

– Vim ver sua mãe, como a gente combinou.

– Oi, dona M.L., tua filha falou tão bem de você que não pude deixar de vir te ver.

Trata-se de uma senhora de feição alegre sentada em uma cama, conversamos um bocado. Pergunto-lhe de sua rotina.

– Minha casa, na verdade, é no andar de baixo. Mas eu tenho ficado aqui nesse quarto, porque aqui o sol me alcança.

Me viro, pela janela tenho um vista lindíssima da Rocinha, mosaico infinito de construções e o mar lá no horizonte.

– Mas, além de curtir esse visual aqui, o que mais a senhora gosta de fazer?

– Vou te contar um segredo: quando eu era bem criança, tinham festejos desses bem caipiras la no Ceará, via as pessoas tocando sanfona e achava bonito demais. Agora, depois de velha, pensei que ia gostar muito de ter uma dessas. Juntei um dinheirinho e consegui comprar uma mês passado, é bonita que só. Não consigo fazer acorde nenhum não, só uns barulhinhos mesmo, mas já fico feliz demais. Vamos fazer assim… da próxima vez que você vier, eu toco pra você, pode ser?

Confirmei sem hesitar.

O pensamento se manteve borbulhante acerca da beleza e ambiguidade desse momento: fim de vida junto à presença intensa dela.

 

A cura pela escuta

por Bianca Forreque

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“O que te trouxe aqui hoje, Pedro?”

“Então, doutora…”

Ele começa o discurso com a voz muito calma e uma postura ereta, dedos de uma mão juntos aos dedos da outra. Quase numa posição de meditação. Uma voz tão plácida que seria difícil acreditar que anunciaria alguma queixa.

“Eu vim porque o outro doutor – com quem eu me consultei porque a sua agenda estava muito cheia há alguns dias – pediu exames. Queria ver os resultados. Eu também ‘tô com uma mancha nas costas, já tem três meses, que coça bastante – principalmente quando eu suo. Eu já tive pano, mas tratei!”
Pela primeira vez ele se mexe na cadeira. Inquieta-se. Parece introduzir a próxima queixa já com a linguagem corporal. “E também tem essa dor na nuca, que eu sinto há alguns dias.”
Mira o olhar ao chão, enquanto passa a mão sobre o músculo que dói.

“Todos os dias ela dói um pouco, mas principalmente ao acordar. Eu queria uns remédios para essa dor.”

“Entendi. Mais alguma coisa que você queira me contar?”

À negativa dele, reviso suas queixas, uma por uma.

“Vamos ali pra eu te examinar?”

Agora sobre a maca, perscruto sua pele sob a nesga de luz solar que invade o pequeno consultório da unidade de saúde. Pedro mantém uma postura rígida, especialmente ao expor o corpo sob a camisa. Mas nenhuma exposição seria como a que viria depois.

Primeiro diagnóstico feito, volto a atenção à nuca. À palpação da porção superior do trapézio, Pedro refere dor. O músculo está retesado, como se há muito tempo ele não respirasse fundo e relaxasse os ombros. Ao mover a cabeça, mais dor. Sem irradiar a nenhum lugar. Toda concentrada nesse espaço, logo ali: no pescoço – um tronco de sustentação ao peso imensurável dos nossos pensamentos.

“Dói aqui, né? Sua musculatura ‘tá dura… vem cá, ‘tá rolando algum estresse?” Inclino a cabeça, num sinal de genuíno interesse, enquanto me coloco à sua frente, de pé. Ele sentado sobre a maca, olhos mirando o chão. O rosto ganha uma iluminação especial: a pífia luz de fora do consultório clareia sua testa. Nesse momento ele levanta seu olhar para mim – e então eu percebo que o verdadeiro motivo da consulta estava por vir.

“Olha, doutora. Então… eu vou falar.”

Os minutos que se seguiram a essa fala foram de uma nudez mais severa que o revelar da pele.

“Eu sou casado há 35 anos. Nas versidades e adversidades. Sabe como é? E há alguns anos eu mudei, entrei para a Igreja. Parei de fumar. Parei de beber. E a minha mulher apareceu com um problema no joelho, sabe como é, doutora? E eu gosto dela, eu cuido dela, faço tudo por ela – especialmente agora que ela não consegue andar com facilidade. Mas a gente não tem mais tanta intimidade… e eu sou humano, sabe? Sou feito de carne e osso. Tenho minhas necessidades.” Pedro, agora, tem uma postura mais relaxada. Acho até que as fibras musculares no pescoço estão se soltando. E nos minutos seguintes, sua voz – agora já não tão plácida – narra um conflito interno como se ele se colocasse entre a cruz e a espada. Um relato carregado de simbolismos que me mostram a angústia de um ser dividido entre o querer e o poder: seu instinto e a moral.

Mas eu não tenho a presunção de querer dar respostas. Muito menos seria meu papel, como médica. “Entendo, Pedro. E o que você acha que pode fazer quanto a isso?” Do contrário, sirvo de espelho para que aquela pessoa à minha frente possa refletir seus pensamentos e, talvez pela primeira vez, verbalizar na primeira pessoa o que por semanas era apenas eco dentro da própria mente.

“Pois é, doutora. Não sei. Mas, com certeza, só de falar isso tudo pra você – posso te chamar de você? – eu já estou pensando em várias coisas que eu não teria pensado, se não tivesse falado isso com alguém.”

Já estamos novamente sentados em nossas respectivas cadeiras. Elas, que nunca são interceptadas pela frieza de uma mesa de consultório. Meus pacientes têm um canal de comunicação literalmente aberto, comigo. Eu estou tão próxima dele que poderia tocar sua mão, se sentisse a necessidade de um conforto.

“E olha que do jeito que eu estou falando com você aqui, agora, eu nunca falei com médico nenhum. Na verdade, eu nunca falei sobre isso com ninguém. Só com Deus.”

Seguimos a conversa, que fluiu com naturalidade dentro do consultório. A unidade de saúde, que tantas vezes é reconhecida como recinto hostil, ganhava ares de refúgio, tão sagrado quanto um templo.

Ao final da consulta, pactuamos algumas decisões em relação às demais queixas: os exames laboratoriais e a mancha no dorso, avaliadas com cuidado. Quanto à dor na nuca, prescrevo alguns sintomáticos e oriento calor local – mas Pedro logo me interpela: “acho que nem vou precisar de remédio, doutora. Parece que já ‘tá até melhorando”

Enquanto uma nova farmácia abre em cada esquina da cidade, comercializando medicamentos que prometem a cura de doenças reais e inventadas, cá dentro do meu consultório eu não consigo deixar de pensar que, às vezes, escutar continua sendo o melhor remédio.

O homem das galinhas

por Frederico Cavalcante

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Dar uma má notícia nunca é algo fácil. Recebê-la é como sentir uma lâmina fria e invisível que lacera a alma de cima a baixo. Como médico de família, tento dar às pessoas um pouco de esperança nesse momento que, congelado no tempo, pode ser um divisor de águas na vida daqueles que acompanho. Certo dia tudo o que aprendi sobre dar uma má notícia seria posto à prova, mas de uma forma diferente.

Seu Manoel era, segundo o próprio, um homem robusto. Trabalhava em casa, no incomum oficio de abater galinhas para vender na feira da Manaus Moderna, lá perto da Igreja dos Remédios e às margens do Rio Negro. Diabético, estava sempre com a filha na Unidade Básica de Saúde, distribuindo sorrisos e fazendo piadas com a agente de saúde de sua área.

Em cada encontro nosso, sempre tentava negociar com ele o uso da insulina e a redução do hábito de consumir a famosa porronca, que nada mais é que o cigarro de palha bem comum do caboclo amazônico.

– Doutor, essa agulhada aí paralisou o rim do meu irmão! E o senhor sabe né, sou homem de Codajás e comedor de jaraqui com farinha, e tem que ser da ovinha. Nem me diga pra não comer minha farinha e nem quero deixar minha porronca de lado.

Nunca pensei em contrariar. Trabalhador como é, mesmo com 70 e poucos anos, apenas tentava explicar o mais simples que vinha à mente.

– Mas seu Manoel, a diabetes é um cupim comendo seu corpo por dentro e a insulina é como se fosse um inseticida. Quer tentar usá-la uma semaninha e contar como foi?

A resposta positiva foi uma pequena vitória para o meu ego. Se decidimos juntos ou se sugestionei, não sabia dizer. A preocupação do seu Manoel naquele dia era somente uma:

– Doutor, eu só quero poder acordar cedo para abater as minhas galinhas e vender na feira.

Não se entregar à nada que o impedisse de fazer o que fez a vida toda. Acordar 4h da manhã e cuidar dos assuntos da pequena granja em sua casa era o que importava a ele. Combinamos de nos reencontrar em uma semana, mas algo me incomodava: ele estava emagrecendo. A robustez comparável à de uma imponente samaúma, árvore de nossa região, já não estava ali.

Sete dias passaram-se. Olhei na tela do meu computador e nada do Seu Manoel. Nem da filha ou de ninguém de sua família. “Deve ter ficado na feira até mais tarde”, imaginei. Pelo resto da semana não teria mais nenhuma notícia. Até que, na sexta feira, estava quase entrando no carro para ir para casa quando fui interpelado por duas pessoas.

– Oi doutor, somos genros do seu Manoel. Ele sentiu uma dor muito grande no peito um dia desses e cuspiu sangue. Levamos no pronto socorro e depois encaminharam para o hospital para bater uma tomografia. O laudo tá aqui, me explicaram um monte de coisa lá mas eu não entendi direito e vim trazer para o senhor ver e me dizer algo. Nós estamos preocupados, pois falaram a palavra tumor.

– Entendi, vocês querem que eu veja, é isso? E os médicos do hospital?

– Doutor, eu pedi para não contarem nada para ele. Vai que é coisa séria e ele não resiste à notícia.

– Ele sabe que vocês vieram aqui com esse exame?

– Doutor, o Seu Manoel disse que médico só confia no senhor.

Eu me via diante de uma questão ética, mas também estava diante de familiares aflitos. Peguei o envelope e lá dizia: nódulo no pulmão, mais ou menos 7 centímetros de diâmetro, características de malignidade. O significado daquilo era claro.

– Vocês entendem o que isso pode significar? Não acham que ele deva saber?

– Doutor, se o Manoelzinho souber ele morre. Eu estou assustado. E se o senhor não fosse lá em casa falar com ele? Ele vai receber alta amanhã porque disseram que não tinha mais o que fazer, só esperar o fim.

Senti que segurava nas mãos o cabo do punhal com aquela lâmina fria. Confiavam em mim, que poderia ser capaz de dizer, com alguma ternura, que o fim se aproximava .

Fui visitá-lo junto da agente comunitária de saúde e uma das minhas técnicas de enfermagem.  Sua casa ficava em um terreno alto, no qual havia um grande galpão central rodeado pelas casas dos filhos. No fundo do terreno ficava a pequena granja, onde o seu Manoel tinha seu local de trabalho. Aquele era seu santuário, sua razão e motivação. Era o que o fazia sentir-se vivo.

O galpão ficava em um terreno alto e de lá eu conseguia ver as águas escuras do Rio Negro, já um pouco baixas devido à vazante comum daquela época do ano. Talvez a natureza me inspirasse em escolher bem as palavras que estava a dizer para o Manoel.

O calor naquela visita domiciliar era insuportável. Era quase 11 da manhã e, se você já esteve em baixas latitudes como na Amazônia no mês de outubro sabe que a sensação é haver um sol para cada um. Mesmo com o calor do verão amazônico, eu me sentia gelado por dentro.

Chegando lá ele estava sentado em uma cadeira de balanço, rindo baixo, ainda que hesitante e sem o mesmo vigor de outrora. Suas palavras e seu raciocínio pareciam claudicar, como ocorre com algumas pessoas que, ao percebem que se atingiu um ponto sem volta no curso de uma doença, começam a se retrair.

Vários filhos e filhas dele estavam lá. Sabiam da verdade mas não queriam ser os arautos do fim da vida do Manoel. Respirei fundo e comecei.

– Bom dia, Seu Manoel! Como vai? Vim aqui te ver.

– Err…ehhh…humm…oi meu doutor…me desculpe estar assim…no hospital tem muita gente boa mas eu tava com saudade daqui. Era o que me doía mais, não matar minhas galinhas nem ir para a feira ver os amigos.

– Eu te entendo. Não precisamos falar do hospital se você não quiser. Eu vim aqui somente saber de você.

– Doutor, me disseram que to com problema de pulmão. Se tirar o pulmão não resolve? Tenho outro pulmão! Tirasse hoje, na semana que vem estava pronto para voltar pro trabalho.

Era a hora. Precisava dizer que seu problema era um câncer de pulmão, mas as coisas seguiriam um outro caminho.

–  Manoel, eu sei que você sabe que deu um problema no seu pulmão. E você sabe que você sempre fumou bastante não é? Você tem notado que você tem emagrecido…isso não te preocupa não?

– Doutor, só o que me preocupa é não poder ir acordar quatro da manhã e ir matar minhas galinhas. Se não abater pelo menos cem não vale nem a pena. E uma coisa mais: sei que o senhor viu meu exame, mas eu não quero saber o que deu, não quero que o senhor me conte nada…o senhor sabe a verdade e veio pra me falar…mas não quero saber. A minha hora só quem sabe é Deus, e até lá se tiver algo que me impeça de matar minhas galinhas é melhor que eu nem saiba.

Senti-me desconcertado. A família esperava que eu comunicasse a verdade ao seu patriarca, mas ele não queria saber. Algo que impedisse de exercer seu ofício era pior que a morte.

– Se eu não puder ser útil e der trabalho pros vivos é melhor morrer logo. Por isso meu doutor eu não quero saber o que eu tenho. Nem me conte. Se o senhor falar melhor o senhor ir embora com essas meninas.

Havia treinado, praticado, lido os protocolos mas nenhum deles me preparara para a resposta do Manoel. Todos querem saber a verdade, mas ele não!

– Entendi, seu Manoel. De repente talvez nem seja bom saber de algo que possa mudar sua vida, pois ficamos com medo, não é?

– É meu doutorzinho, e só o que me da medo é ser um homem sem valor, sem poder trabalhar.

Ele tinha fechado a porta definitivamente para aquele assunto. Então tentei pela última vez.

– O senhor tem muito valor e sempre vai ter. Olha seus filhos aqui né? Tem alguém que está faltando? Quem sabe esse não é o momento de ver algum parente, algum amigo, resolver as pendências que existirem…afinal temos que deixar tudo preparado, não é?

– É meu doutor, todos que eu amo estão aqui. Estou em dias com tudo, não tenho pendência com ninguém, só quem pode me cobrar é Deus e sei que isso está para acontecer.

A filha mais velha ao meu lado chorava em silêncio. Todos ali tiveram ciência de que o Manoel sabia o que estava acontecendo. Minha agente de saúde estava com as mãos na boca e olhos marejados. Dei um abraço no Manoel, carinhoso, e ele me retribuiu me dando um quilo de pirarucu seco “para suas meninas da UBS fazerem um pirarucu de casaca”, prato típico do Amazonas. Coloquei-me à disposição dele e de sua família para o que precisasse.

Passaram-se alguns dias, até que a agente de saúde disse que o Manoel havia, enfim, partido ao encontro do Pai. Não contive as lágrimas ao dirigir de volta para casa. Na manhã seguinte uma de suas filhas apareceu, agradecendo todo o carinho a atenção durante todo esse tempo.

– Doutor,ele sabia que tinha problema sério de saúde, mas não queria saber o que era. Se fosse câncer, derrame, infarto…no mesmo dia tentamos nos encher de coragem para dizer depois que o senhor saiu de lá mas ele foi direto: “EU NÃO QUERO SABER O QUE EU TENHO!”.

E continuou:

– Aí ele dormiu e acordou 4 da manhã, dei fé ele estava indo ver as galinhas. Não abateu nenhuma não. Fui ficar lá com ele e só o que ele fez foi agradecer, pois as penosas das galinhas lhe permitiram sustentar todos nós desde pequenos. Rezou um pai nosso e voltou para dentro de casa, e naquele dia ele estava tranquilo. Senti que ele estava pronto para fazer a passagem, tanto que morreu dormindo, em paz.

Paz que também eu sentia. Às vezes, como médicos, sentimos uma necessidade imperiosa em falar para alguém que sua expectativa de vida não pode mais ser contada em anos, no intuito de, imaginem, ajudá-lo a tentar se preparar.

Quanta pretensão. O Manoel me ensinou naquele tempo que, mais do que nunca, é necessário estar sem pendências e sem assuntos para serem resolvidos em vida. Uma vez que o corpo se vai, o remorso fica, doloroso e arrastado, ocupando seu lugar como parceiro inseparável da culpa.

Seu Manoel não tinha remorso, nem culpa. Definitivamente partiu deste plano em paz com a família, com sua consciência e com Deus. Saudosos ficaram todos, esposa, filhos, filhas, netos e claro, as suas galinhas.

Frederico Cavalcante é médico de família e comunidade e supervisor do PRMMFC SEMSA/UEA

Vida Morte Vida

por Natália Pedó

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Sexta-feira de tarde. Dia tranquilo na unidade de saúde hoje. Consultas agendadas. A enfermeira não está. A recepcionista me passa a familiar de uma senhora de 101 anos que pede atestado. Conheci a dona Julieta em uma consulta quando veio trazida pela filha, Lourdes, e por uma amiga da família, ambas solicitando fórmula nutricional para ela. 101 anos: nenhuma comorbidade, apenas mobilidade reduzida fazendo por isso uso de cadeira de rodas. A família: buscando alguma forma de intervir nos desfechos da vida para evitar a tão temida morte.

Penso: vai ser rápido, vou conversar com ela entre uma consulta e outra, já faço o atestado, e logo me libero para dar continuidade às consultas do dia. Doce ilusão. A medicina de família insiste em surpreender a cada dia com suas histórias de vida, suas histórias de morte, suas vivências tão únicas e singulares.

Chamo dona Lourdes no consultório para que me explique exatamente que tipo de atestado necessita. Deixo a porta aberta porque, sim, seria algo rápido, só um atestado. Enquanto faço o atestado dona Lourdes vai se sentindo à vontade em falar sobre a mãe. E o discurso de que a mãe está ótima sem nenhuma queixa em algum momento abre espaço para as suas dificuldades, compreensíveis para uma senhora de tantos anos já vividos. Neste momento, percebo no semblante da filha a negação. Penso comigo: não pergunta agora, é só uma consulta rápida, deixa no plano para algum outro momento, agora vai demorar e não há tempo. Mas, não consigo me segurar. Nem poderia. Sei que aquele momento é precioso. Que é o momento certo de adentrar esse espaço de vida e morte. Da dona Lourdes. Da dona Julieta. Pergunto, então, decidida: “Dona Lourdes, como é para a senhora lidar com a morte da sua mãe?”. Olho nos seus olhos marejados. E nesse momento o silêncio toma conta do consultório. Um silêncio de profunda introspecção e abertura. Fecho a porta. E a revelação, que já estava ali para ser expressada, e que bastava ser acessada, deságua: “Ah doutora, está sendo muito difícil para mim. Não consigo imaginar a minha vida sem a mãe. São 25 anos cuidando dela desde que meu pai faleceu. E 3 anos desde que coloquei a cama dela ao lado da minha no meu quarto (NOSSA! Não consigo, naquele instante, imaginar essa situação e como ela conseguia viver assim)”. Abro mais espaço para sua fala emocionada. Mais algumas perguntas e olhares. Quando, então, ela diz: “Sabe doutora, não sei como vai ser quando a mãe se for. Às vezes eu acordo à noite e ela está fazendo carinho em mim.”

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Naquele momento eu compreendo. Compreendo a dor, compreendo a negação, compreendo a cama ao lado da sua há 3 anos: o Amor. Só o amor é capaz de suportar tudo isso. E, enquanto escrevo, choro aquilo que não consegui na presença da dona Lourdes. Choro já a saudades desse carinho e cuidado, o amor por essa mãe que com 101 anos expressa seu afeto dessa forma tão sincera, pura e doce. Sim, Dona Lourdes, eu também não sei como vai ser viver sem essa mãe.

Nestes momentos não sei se a medicina de família é melhor para os pacientes ou para mim, que me vejo neles, nas suas histórias, nas suas angustias e também felicidades. Obrigada Dona Lourdes e Dona Julieta. Hoje vou olhar para a minha mãe e também dizer o quanto a amo.

Natália é MFC em Passo Fundo / Rio Grande do Sul.

Noite de UTI

por Karen Borges

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Eu sempre tive medo da UTI. Como parente de paciente, pra mim parecia que na porta dela sempre estava a dona Morte esperando com sua túnica preta e cajado, pronta pra levar aqueles que amamos, mesmo que externamente eu repetisse, freneticamente, pra me consolar: “Nem todo paciente morrendo está lá”. Diariamente, a espera interminável pela enfermeira que vem, família por família, liberando cada paciente na hora da visita. Nos olhos de cada um, o medo silencioso dela chegar e falar que não podemos entrar por algum motivo…

Finalmente chegou a hora de entrar como profissional de saúde em formação, ignorando a conhecida dona Morte que me acenava da entrada. Mesmo não tendo nenhum conhecido ali, aquele corredor silencioso e pessoas lutando pra sobreviver me faziam sentir a menor pessoa do mundo. À primeira vista, os aparelhos e tubos de respiração me soaram como a mais complexa equação, sem saber nem por onde começar. Sem exageros…

Como aluna, minha função era só acompanhar e auxiliar nas coisas mais simples. Então, nos momentos em que ninguém precisava de mim, só me restava andar de leito em leito, olhando o monitor, onde já conseguia entender onde mostravam os sinais vitais, e torcer para que se mantivessem estáveis. Um dos pacientes não estava se recuperando após uma grande cirurgia, precisando de um procedimento invasivo que faria seu coração bater do jeito correto. Com olhos curiosos, fiquei acompanhando, de braços cruzados, a uma certa distância, pelo medo de esquecer deles e esbarrar em algum fio essencial pra vida de alguém. Já pensou? “Aluna de medicina quase mata paciente ao tropeçar no respirador artificial da UTI.” Não, obrigada. Prefiro continuar no anonimato.

Depois de um bom tempo, e repetindo mentalmente um “não morre, não morre, não morre”, o procedimento acabou e não pude conter um “iiiisso” quando vi aqueles batimentos subindo pra oitenta e a pressão normalizando. Depois de um tempo, parei ao lado do senhor e disse baixinho: “Seja firme, meu amigo! Tem gente em casa te esperando.”

Nesse meio tempo, chegou a hora da visita, e me vi naquelas pessoas entrando com olhinhos aflitos e apressadas. Do meu lado, uma senhora muito educada: “poxa, hoje ele não quis abrir os olhos!”. Ouvindo aquilo, não dava pra não me intrometer: “Ah, mas 1 hora atrás ele estava com os olhos bem abertos”! Um sorriso apareceu, seguido de um suspiro profundo. Algumas horas depois, esse mesmo paciente abriu os olhos de novo e só consegui dizer: “Meu amigo! Sua família teria ficado bem feliz de te ver assim”. Se ele escutou ou não, não sei… Porém, há tantos mistérios entre o céu e a terra que prefiro pensar que todos ali nos escutavam de alguma forma, e um mínimo de esperança poderia fazer diferença.

No final do plantão, olhei bem pra dona morte que permanecia ali na porta, dei um sorrisinho maroto e pensei comigo: “Hoje não, colega”! Assim, voltei pra casa sem virar manchete de jornal no meu primeiro dia.

Autora: Karen C de Carvalho Borges, 2019.
karenccarvalho@yahoo.com.br