Visitas

por Lucas Gaspar Ribeiro

– Doutor Lucas, fiquei sabendo que o senhor faz consulta em casa?
– Faço sim, para os pacientes que não conseguem vir na unidade por alguma causa, como derrame, cadeira de rodas, entre outras coisas
– Ahh, mas eu também quero ser atendida em casa…
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Sobre não querer ser artista

por Ana Paula Marcolino

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Um rapaz franzino, um tanto careca. Aparentava uns 25 anos. Carregava uma papelada, que o deixava encurvado. “Parecem um saco de cimento!” – pensei.

– Dra, não sei por onde começar – as pausas na fala eram grandes, parece um idoso tentando lembrar frases e datas! – a senhora me explica esses exames aqui?

Joga a papelada na mesa, desconsertado, sorriso amarelo. Parece palhaço de circo antigo, tentando ser muito, muito atrapalhado!

– Calma, calma… conta tua história pra eu poder olhar melhor teus exames?

– Então.. ehr… eu fiz o teste de HIV, sabe? Ia doar sangue na universidade… Deu positivo. Há um ano isso. Mas nunca liguei muito. Esses testes são tão loucos, sei lá.. achei que era engano. Nem liguei pra isso. Mas há dois meses, dra… silêncio de novo.

Minha cabeça a mil. Espere! Ele fez o teste de HIV, repetiu, como tem de ser, e ainda assim não acreditou…. com minha bela e boa dose de idiotice, eu julguei a pessoa que eu estava atendendo… “parece talk show”.

Interrompendo minha canalhice, vem o choro ele incontrolável: Dra, eu vou morrer! O médico lá do hospital falou que eu vou morrer rápido! Por favor, me explica o que é CD4, me explica carga viral… eu não entendi nada nada! – Nada parecido com drama. Vida real… realidade na minha cara, esbofeteando.

Estava na minha frente um moço de 18 anos, que tinha acabado de entrar na faculdade de artes cênicas. Ele tinha uma carga viral muito grande e um CD4 de 200. Seu cabelo havia caído muito. Tinha diarreia há quase três meses. Sentia vergonha de seu corpo, pois era muito bonito e atraente antes. Andava encurvado porque as dores no corpo eram surreais. Queria morrer. Tinha vergonha de sair na rua. Expliquei sobre os parâmetros do exame sobre os quais ele havia questionado. Desenhei, conversei sobre os sintomas, ofereci apoio. Minha idiotice foi esvaecendo (ainda bem!). Falei sobre o tratamento da AIDS. Sobre o que estaria por vir.

Ele demonstrava então mais tranquilidade. Parecia final de cena. Mas eis que veio:

– Dra, a senhora não tem idéia de como é ter uma doença crônica e avassaladora.

– Eu sei sim, querido…

Escapuliu! Eu não quero ser artista.

 

Vida, de acordo com a epidemiologia

por André L. Silva

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Estudo prospectivo contemporâneo repleto de limitações,

onde os viéses também são variáveis preditoras.

E assim vivemos em meio à razão de chances,

atravessando a curva de sobrevida de Kaplan-Meier,

Analisando a própria sobrevida.

Nem falso positivo, nem falso negativo. Hipótese nula, ou com significância estatística.

Depende de nós, sujeitos-pesquisadores triplo cegos.

O intervalo de confiança é infinito.

 

Saída pela tangente

por Lucas Gaspar

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Ontem atendi uma paciente de eventual (encaixe) que veio porque estava com muita dor de cabeça desde a noite anterior.

Conversa vai, conversa vem e ela me conta que a causa dessa dor de cabeça é porque ela brigou muito com a filha ontem, uma garota de 18 anos.

Refere que não aceita o namorado de sua filha, estão juntos há aproximadamente 2 meses.

Ela diz que o namorado é traficante, que agora está até “subindo de escalão” dentro da “comunidade”. Isso a deixa muito irritada, muito nervosa. Fala com sua filha que está errado, que não é um “moço bom, um moço de Deus” (já já entro nesse detalhe), e isso pode atrapalhar toda a vida dela, que ela pode ser presa, enfim tudo que poderia falar.

Mas como todo bom adolescente, não ouve a mãe e pede que a mãe respeite suas escolhas, pois já é adulta – isso leva a uma guerra dentro de casa.

O pai também é contra isso, gostaria de ligar para a polícia e denunciar o rapaz por tráfico.

A família é extremamente religiosa, falei que voltaria. Faço um parêntese, não tenho nada contra religião alguma, muito pelo contrário, apoio todas e acho que é terapêutico muitas vezes. Voltando, a família é muito religiosa, são evangélicos, e o discurso da mãe, em todas as consultas, é voltado a Deus, a Igreja, ao sacrifício. E eles têm uma preocupação muito grande de como a família pode ser vista dentro da comunidade evangélica devido a isso.

Eu estava em uma sinuca de bico nessa consulta, foi uma consulta onde a mãe falou o tempo todo da relação dos pais com a filha e o namorado. Como isso estava afetando sua casa (e eu conheço apenas a paciente, não conheço nenhum familiar a mais). Frente a isso uma ferramenta que gosto muito é a abordagem familiar, tentar conversar com todos ao mesmo tempo, ouvir, ponderar, achar caminhos comuns, mas como ali, sem conhecer ninguém. Pensei, uai, se a menina não ouve a mãe, será que vai ouvir um estranho completo (eu)???

Foi aí que me veio uma iluminação divina, o pastor, claro!!!

Combinei com a paciente que a melhor pessoa para intervir no caso não seriam os pais, porque o adolescente muitas vezes é dono do próprio nariz, tem superpoderes e o tudo que os pais falam não são verdades e/ou coisas boas. Mas como a família toda tem uma ótima relação dentro da comunidade, da igreja que frequenta, a melhor pessoa para intervir nessa casa seria a pessoa que eles mais confiam, o pastor!

Com isso, combinei com a paciente que ela leve a filha, o marido e ela mesma para uma abordagem “pastoral”, e quem sabe, como eles confiam muito nessa pessoa, os olhos da criança não se abrem para a realidade e ela ouve um pouco os outros, que não os pais… Agora é esperar para ver se o golpe divino deu certo, e se minha saída foi adequada… logo teremos notícias

São Salvador

por Antônio Augusto Dall’Agnol Modesto

 

peanuts ser quando crescer

 

Minha praça favorita fora transformada. Já haviam trocado a iluminação amarela por holofotes brancos, como se houvesse uma cirurgia a fazer ali; mas ontem foi cabal. Não havia ambulantes. As pessoas bebiam como sempre, mas não havia os rapazes e as senhoras com seus isopores, oferecendo cerveja a cinco ou seis reais. Enquanto contornava estupefato meu antigo refúgio, percebi o dobro de viaturas da Guarda Municipal, uma delas de canil – o que diabo um pastor alemão teria vindo cheirar ou morder àquela hora não estava claro pra mim. Camburões davam a volta na praça com frequência.

Sentei-me a esperar o amigo que viria me salvar daquela tristeza, porque o samba que tocavam no coreto não vinha ajudando. Sentado no chafariz seco sob a luz branca, ouvi um rapaz de olhos vermelhos apontar aos amigos uma câmera 360o do outro lado da rua.

Meu amigo chegou.

* * *

Sentados novamente no chafariz, vejo uma criança pedindo dinheiro ao grupinho ao lado. Cabelos enroladinhos, pintados por cima de loiro, corpo de seis anos e olhar de doze, trazendo um edredom por cima dos ombros como se fosse um capote.

Tomava coragem para negar-lhe dinheiro, mas não lhe negaria um olhar e um sorriso. Evito dar esmola a crianças, pelo medo de serem exploradas.

– Tio, me dá um trocado?

Pediu mais a meu amigo que a mim, e teve mais sorte. Enquanto ele palpava as moedas do bolso como se fossem um chocalho mágico, perguntou:

– O que você quer ser quando crescer?

O olhar voltou a ser de uma criança de seis anos.

– Não sei.

Pegou as moedas e continuou pensando.

– Quando eu crescer… – e olhava pra cima, e tocava o queixo com o dedo, e a resposta não vinha, e eu me desesperava pensando que isso que eu sabia responder desde os cinco anos (“cientista!”), pra ele parecia jamais ter sido perguntado. A certa altura, já torcia para que ele dissesse qualquer coisa: mesmo algo ilícito me daria algum alívio. Queria ouvir qualquer coisa que me desenganasse de que aquela criança não sabia se ia crescer.

– Gostou da pergunta, hein? – eu disse.

– Eu quero trabalhar no conselho tutelar.

Voltou a ter o olhar de doze anos, mas seu rosto era todo orgulho. Mais do que isso: gratidão. Fora salvo alguma vez, a escolha e os olhos diziam. E não interessavam agora as histórias ruins e que ouvira, só as boas.

– Bonito – eu disse, e o menino concordou discretamente. – Difícil, mas bonito.

Ajeitou seu capote e despediu-se com um sorriso.

* * *

– Ando chorando mais – disse depois meu amigo, como para me consolar.

Carta ao estudante de medicina

Cópia de Tags talheres

por Mayara Floss 

Texto-desabafo de uma discussão sobre a visão do especialista sobre o profissional na APS (atenção primária à saúde, os postos de saúde) e a influência desta visão na escolha do jovem médico (que por pressão dos colegas, professores e outros profissionais fica em dúvida em relação a escolha), acabei escrevendo a seguinte resposta (transformada em carta). 

Para Marcela
Caro estudante de medicina/jovem médico,

Acho que dividir histórias ajuda a nos entendermos e entender o próximo. Passei por um processo de aceitação quando no terceiro ano da faculdade desconstrui muitas das visões romantizadas da medicina e bati o pé que queria fazer medicina de família e comunidade, e hoje além de fazer medicina de família e comunidade ainda bato o pé que quero ir trabalhar na zona rural. Desde então foram desde professores que se negaram a dar uma explicação porque eu escolhi ser médica de família, até escolherem os pacientes humildes para eu tratar porque é “medicina de pobre”. Penso que consegui aprender muito e fazer grandes trocas tentando trabalhar a competência cultural e minha própria bagagem nas consultas.

Hoje e a cada dia o que eu mais tenho certeza é que não quero fazer uma outra especialização. Fragmentar, dissecar e clinicar sem ver os determinantes de saúde e sociais, medicar sem entender contexto, usar meias e minhas verdades como generalizações e aprendo a enxergar essas diferenças com a medicina de família diariamente, mesmo ainda sendo estudante (sim, entendo a importância do especialista, mas não entendo porque ao escolher medicina de família e comunidade tenho que ouvir sermões sobre maus encaminhamentos, sobre médicos ruins no PSF, sobre minha escolha ser equivocada e que vou “ganhar pouco dinheiro”). Eu me questiono muito como muitas vezes o médico que tanto crítica  a especialidade (currículo oculto ou preconceito velado) não consegue despir-se das roupas velhas (sim, precisamos todos rejuvenescer, já dizia Belchior).

Nunca a medicina foi tão capaz de resolver coisas e tão incapaz de alcançar as pessoas. Nunca fomos tão criticados. E nunca fomos tão incapazes de ouvir (em tempos de comentários e jocozidades sobre “febre interna”, “espinhela caida” e “peleumonia”). Esse pragmatismo e contrastes encontram uma forma de aproximar as distâncias na medicina de família, no método centrado na pessoa, na chance de empoderar um sujeito e coordenar o cuidado.

Em nosso mundo que cada vez fica maior, mas mais interdependente o paradigma, hoje, de saúde-doença mudou, as doenças crônicas superam as doenças infecciosas e a causas dessas doenças estão fora do “setor saúde” e são profundamente moldadas pelos produtos e práticas das indústrias de alimentos, bebidas, tabaco, álcool e marketing.

E na prática do médico generalista é possível encontrar uma forma de resistência e não é uma resistência sozinha (médico para médico, profissional para profissional) mas no sujeito que está a sua frente.

E não só na perspectiva brasileira, mas quando paramos para pensar que a diferença de expectativa de vida dos países “desenvolvidos” e em “desenvolvimento” é de 40 anos, precisamos refletir sobre o papel da atenção primária nesses contextos, nessa revolução – mesmo que muitas vezes discreta. E voltar-se para essa atenção primária é também voltar-se para a direção de um cuidado mais integrado, compreensivo e centrado na pessoa/comunidade.

O trabalho é árduo e demanda muito, em uma mesma sala de espera você pode encontrar um pouco de tudo das mais “difíceis” e raras doenças que um médico deve “estar preparado para lidar” com o bônus de conhecer as pessoas, a comunidade, e no seu diagnóstico poder incluir as causas e determinantes destes problemas de saúde. Do contrário do ambiente hospitalar, a negociação e a conversa terão que ser muito mais aprofundadas, muito mais desafiadoras porque o paciente entrará pelo teu consultório “dono de si” e perguntará, opinará e muitas vezes não irá “seguir o que dizes” isso vem de encontro com novas habilidades e caminhos que temos que desenvolver constantemente. Além disso, você “nunca verá”,  quando der certo o papel de evitar que um infarto aconteça, que uma diabetes se desenvolva, o paciente que não chegará a emergência, de poder segurar até o fim na mão do paciente são muito mais marcantes e intensos.
O especialista tem que existir e tem o seu papel (isto não é uma batalha/luta, é cuidado coordenado e temos que trabalhar juntos!), mas sempre devem ter os médicos que conhecem os seus pacientes bem o suficiente para gerenciar realmente a totalidade da saúde em todas as suas múltiplas dimensões, incluindo as necessidades mentais e espirituais.

Acho que esses são alguns dos sonhos, utopias e realidades. Espero que possamos ser colegas de residência.