Mãe

por Maria Carolina Mendes

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A barriga de menos de 20 semanas ainda não aparecia aos olhos curiosos. Respondeu acanhada ao meu bom dia, transparecendo um leve desconforto à minha presença. Sentou-se para a consulta pré-natal, respondendo diretamente aos questionamentos médicos levantados; não se deixou envolver de forma mais intensa, nem ao menos mantinha seus olhos nos meus. Contou que a gravidez não havia sido planejada mas que, apesar do inesperado, era muito bem-vinda – Eloá era aguardada com afeto.

Deitou-se na maca como pedi e mostrou o ventre em construção, pequeno como as primeiras raízes que aparecem em brotos de feijões algodoados na infância. Ainda evitava olhares, analisando o teto com o mesmo interesse que admiramos telas em branco espalhadas em um museu de arte moderna, procurando sentido no vazio. Eu tateava o pequeno feto aquecido em seu domo lacônico e pousava minha mão esquerda na convexidade fúndica, enquanto a mulher continuava a explorar interpretações para o concreto exposto na altura de seus olhos.

Foi após a tentativa falha de escuta dos batimentos cardíacos de seu bebê que ela me olhou pela primeira vez. Perguntei se estava tudo bem. “Na última consulta também não conseguiram ouvir”, disse em voz preocupada. Seu desconforto me fez assumir como obrigação o encontro dos galopes dados pela sua cria, e procurei ajuda – mais um par de mãos palpava a pré-existência de Eloá, que mais uma vez se recusou a nos mostrar seu coração através das incansáveis camadas de gel frio espalhadas por toda a topografia uterina. A mulher voltou a encarar o teto, dessa vez para esconder as lágrimas que se intencionavam a cair. O terceiro par de mãos apareceu para tocá-la, e me peguei dentro de uma grande sala museística rodeada de imagens confusas, me doando inteiramente àquela lasca de argamassa pendurada em caimento de renda, e somente em meio a uma antropofagia dadaísta fui capaz de ver a lágrima de Mãe ali representada, a lágrima que caía em frente a mim no mais puro realismo.

A enfermeira da equipe ainda delimitava o dorso de Eloá. E os braços. Os pés. Procurou a cabeça. Voltou a dedilhar o ventre que agora me pareceu enorme ao conter a incerteza que amor e morte trazem, andarilhos, em companhia um do outro; ao conter o amor incondicional que desconheço em vida, justamente o amor que presenteia a morte com tamanha relevância. Amor de mãe. Mãe é o artista do modernismo complexo que vemos nas telas em branco de museus renomados – a complexidade pode tentar ser compreendida por qualquer um disposto a se arriscar, mas apenas o artista conhece, de fato, o valor de sua obra.

Minutos depois, o cavalo finalmente galopou pelo sonar, cavalgando pelo caminho d’O Semeador em direção ao grandioso nascer do sol centralizado em pinceladas impressionistas. A lasca grosseira poderia ter caído em nossas cabeças como as lágrimas de Mãe que agora se esvaíam em forma de riacho pelas pedras de bochechas. “Como você está?”, a enfermeira perguntou. “Agora estou bem”, ela riu, “as outras têm a mão muito levinha”. Ela se levantou até a cadeira com os olhos marejados e os lábios curvados em um meio sorriso, e voltou a manter o olhar longe do meu. Depois de encerrarmos o prontuário, ela se foi com o registro dos 135 batimentos por minuto do coração de sua filha.

Sozinha, chorei. Chorei pelo medo que senti da possibilidade da morte. Chorei pela sensação de impotência trazida pelo sonar mudo em minhas mãos. Chorei pela dificuldade de me aproximar desta mulher, que mantinha distante até mesmo o olhar e as palavras. Chorei por perceber que é preciso aceitar nossa incapacidade frente a situações imutáveis. Chorei ao tentar imaginar a perda de uma mãe. Continuei a chorar quando o tum-tá tão cobiçado chegou à minha memória. E lá ele se manteve: Tum-tá. Tum-tá.

Fechei os olhos e sorri. Sorri ao me lembrar da mais bela das artes que pude encontrar em meu sonhar acordado com o teto do consultório: a harmonia entre amar e morrer.

Referência:
O Semeador, Vincent Van Gogh.
Arles, França, 1888.

E lá vem ela de novo

por Brenda Wander

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Mais uma vez chega dona Carmen* na unidade de saúde. Da última vez, há uma semana, já tinha levado a enfermeira quase à loucura com tantas solicitações, e saiu ainda proferindo xingamentos. Era uma paciente muito frequente e muito demandante. 

Havia indícios de demência na idosa de 75 anos, ainda em investigação – vinha tornando-se repetitiva, esquecia as prescrições que eram explicadas inúmeras vezes, perdia consultas, e o teste do mini mental, usado no rastreamento de déficit cognitivo, estava alterado. 

Carmen morava com um dos filhos, que tinha depressão, segundo ela, e não procurava tratamento. Isto era referido em todas as consultas e causava grande sofrimento em Carmen. Devido ao próprio adoecimento, o filho não era capaz de ajudar nos cuidados da mãe. O outro filho havia falecido em um acidente de moto. 

Neste dia, como sempre, Carmen começou referindo suas dores e falando de seu filho doente. A hipertensão controlada era o de menos. 

– Doutora, mas esse meu filho não quer vir de jeito nenhum… aquele outro doutor que trabalhava aqui já tentou até ir lá em casa, mas ele não quis ouvir o doutor. Não tem jeito, e isso me deixa tão mal…

– Mas dona Carmen, tu já tentou de tudo, não precisa se sentir culpada pelo problema dele.

– Eu não consigo, doutora. Aliás, isso me deixa tão nervosa que esses dias me desentendi com a enfermeira lá na frente… 

Neste momento, sua feição abrandou-se, e passou a falar com a segurança que uma experiência de vida dá. 

– Sabe, às vezes vocês até olham pra gente e dizem: “ah, fica quieta que tu não sabe de nada”. Mas vocês não sabem o que a gente passou na vida. Vou te contar o que nunca contei pra ninguém.

Neste momento dona Carmen inicia o relato de um sofrimento antigo e não por isso cicatrizado, que escondeu dos profissionais e até da família. 

– Meu falecido marido não era uma boa pessoa. Eu sofri muito com ele. Eu dependia dele para tudo, não me deixava ter dinheiro ou trabalhar… então ele ia no mercado e não comprava comida suficiente pra gente, só jogava a sacola na mesa e dizia: “é isso”. Me forçava a ter relação quando eu não queria, até um dia me forçou a fazer por trás. Imagina doutora, que vergonha. Ele também não me deixava evitar de engravidar né, então eu engravidei várias vezes.

– Mas, a senhora me contou que teve dois filhos. O que aconteceu?

– Eu tive o primeiro, e nem queria mais filho daquele homem, mas acabei tendo o segundo, não tinha como evitar. Mas aí eu engravidei mais nove vezes, e ele me levava numa mulher que fazia aborto, me obrigou a abortar. Só me largava lá e me buscava depois… era uma dor horrível que ele me fazia passar, nove vezes! A mulher chegou a dizer que se ele me levasse lá de novo eu ia perder a minha vida também. 

Fiquei sem palavras. Ela continuou. Por algum motivo confiou contar aquilo tudo para mim.

– Quando ele morreu, ele estava no hospital sentindo muita dor, e eu disse pra ele: “agora tu tá passando por toda a dor que me fez passar e eu não tenho pena de ti”. Ele morreu muito mal, mas pagou pelo que fez comigo.

Ela ficou com ele até o final. Dependência financeira? Valores morais? Enfim, talvez não venha ao caso.

– Teve também o meu filho mais velho, ele era muito trabalhador, me cuidava como uma rainha, dava muita atenção, até me defendia sabe… um dia ele resolveu que ia comprar uma moto, eu falei que não queria, que era perigoso. Dito e feito, uma noite ficamos sabendo do acidente, ele morreu na hora… Agora este outro filho mora comigo mas parece que não gosta, sabe, e ainda está doente desse jeito. Não tenho ninguém por mim. Acho que com tudo isso que eu passei, eu estar aqui conversando contigo, acho que eu tenho algum valor, né, doutora?

– Claro, dona Carmen, e a senhora é muito, muito forte, não consigo imaginar as dores que tu sofreu. 

– Então, doutora, por isso que digo, quando vocês nos vêem ali na sala de espera, parece que pra uns a gente está ali só pra incomodar, mas vocês não sabem tudo o que cada um passou na vida, o peso que a gente carrega.

Ninguém da nossa equipe poderia imaginar que, por trás de tantas demandas, estava uma vida de violências, e nove abortos forçados.

A idosa supostamente demente nunca me pareceu tão lúcida. Destes encontros, tantas vezes cansativos, saem grandes aprendizados – basta ter ouvidos, e saber ouvir com o coração. Dona Carmen me lembrou que ninguém é o que é por acaso, e não cabe a nós julgar, apenas acolher o sofrimento e respeitar cada história de vida. 

*Nome fictício.

A ROSA, O FUXICO E A ALMOFADA

por Vivian Mara Barbosa

Que o universo coloque em nosso caminho pessoas que possam usufruir daquilo temos para doar. Mas, que, também estejamos abertos a receber, pois bons encontros acontecem para quem está disposto a acolher.

Maria Rosa era uma paciente de 81 anos de idade que compareceu à unidade básica de saúde acompanhada da nora. Postura encurvada, olhar desviado para baixo e face tristonha. Trazia queixas difusas como insônia, ansiedade e dificuldade para engolir. Conforme a nora, aproximadamente, há 2 meses Maria Rosa vinha perdendo interesse nas atividades diárias.

– Há 10 anos a dona Maria teve uma depressão de não querer levantar do sofá. Nessa época também perdeu o apetite.

– Dona Maria, a senhora acha que essa dificuldade de engolir pode está relacionada a essa tristeza que anda sentindo, igual aconteceu há 10 anos?

Com os olhos marejados balança a cabeça de forma afirmativa.

– Eu acho que pode sim.

A nora complementa:

– Agora ela tá ficando do mesmo jeito de antes dotôra, fica sentada olhando “pro nada”, perdeu a vontade de fazer as coisas. Nem costurar, costura mais! Ela fazia colcha, pantufas, bolsas… Cê tinha que ver!

– Dona Maria, o que a senhora acha que pode estar causando essa tristeza?

– Os aborrecimentos da vida.

 Maria Rosa era casada há mais de 60 anos, tinha 6 filhos, residia aos fundos da casa dessa nora que a acompanhava. Cozinhava, lavava e ia ao banco, era independente. Contudo, trazia consigo uma grande mágoa do companheiro devido aos acontecimentos do passado, como proibições e traições. Hoje, o jeito carrancudo e seco do marido era o que mais a incomodava. Embora morassem na mesma casa, cada um tinha seu quarto e quase nunca conversavam.

– Eu tava numa tosse, levantando toda hora da cama e ele não teve nem coragem de passar lá no quarto para ver como eu estava. Às vezes passa o dia sem trocar uma palavra comigo!

Conversamos mais um pouco, acerca da história de vida, das angústias e das expectativas da Dona Maria. Revi as medicações de uso habitual e propus que iniciássemos a retirada, gradual, de clonazepam para daqui duas semanas, uma vez que fazia uso mais de 15 anos e ainda se queixava de insônia. Ademais entreguei, também, um folheto com dicas de higiene do sono.

– Dona Maria gostaria de encontrá-la na próxima semana, além disso, queria fazer uma proposta. A senhora topa de costurarmos uma almofada de fuxicos juntas?

Nesse instante, ergue o olhar, meio que incrédula, mas com discreto sorriso no rosto, parece simpatizar com a proposta.

-Topo, uai.

-Então, combinado. Vou trazer retalhos, linha e agulha. A senhora tem linha e agulha em casa?

– Tenho sim

– Traz para gente na próxima consulta.

Após duas semanas, lá estava a Maria Rosa e sua nora me esperando no corredor da UBS. Passaríamos a nos encontrar todas as semanas para acompanhar a descontinuação do benzodiazepínico. Uma medicação mais indicada para tratamento da insônia foi prescrita, acrescido a isso, o uso de chás como capim cidreira, camomila, maracujá foram encorajados. Ela compartilhou dessa ideia, do uso de chás como método relaxante, a tal ponto que me presenteava com pacotinhos  de capim cidreira, colhidos no próprio quintal. Após conversarmos como havia passado a semana indaguei:

-Trouxe linha e agulha?

Embora afirmasse positivamente com a cabeça, sorrisinhos brotaram tanto na face da paciente quanto da nora. Pareciam, ainda, não acreditar naquela proposta de costurarmos durante a consulta. Enquanto isso, retirei da minha bolsa retalhos, linha, agulha e uma almofada, como combinado. E ali, naquele instante, começamos a dar formato de flores aos retalhos trazidos.

– Vamos encher a almofada com fuxicos de flores dona Maria!

– Ahhh… desse fuxico eu não conhecia!

Exclamou Maria Rosa diante da descoberta de um novo jeito de “fuxicar”.

– Eu só conhecia aquele fuxico rendodinho.

– Esse eu não lembro como faz

– Quer que eu faça para você vê?

Agora era eu quem não sabia costurar nesse formato “redondinho”. Então, foi a vez da Dona Maria me ensinar a coser. Aproveitamos esses fuxicos redondos para compor os miolos das nossas flores.

Nas consultas subsequentes, sempre, conversávamos como tinha sido a semana. Além do mais, investigava possíveis sintomas de abstinência, referente a descontinuação da medicação. Estes só apareceram no desmame da segunda metade da dose. E como de costume, ao final das nossas consultas, fazíamos ao menos um fuxico. Após um mês, ela já relatava melhora do apetite, do sono e do humor. Maria Rosa desabrochava a olhos vistos: assumia postura ereta, o olhar fixado no horizonte e a face rosada

 – Voltou a costurar e a frequentar a igreja, dotôra. Tá outra pessoa!

Contou a nora cheia de felicidade durante nossas consultas.

Ficamos juntas  por 2 meses, tempo que durou meu estágio naquela UBS. Na nossa penúltima consulta, como habitual, após o exame clínico, indaguei a respeito da confecção da almofada. Prontamente a nora respondeu:

-Você vai ter uma surpresa, dotôra.

Nesse instante, Dona Maria Rosa, com suas mãozinhas habilidosas, retira de uma sacola a almofada. Pronta! Levanta-se da cadeira e vem em minha direção.

– Se você não se importar eu queria te presentear com a almofada.

Meu coração se encheu de gratidão, deve ser por isso que meus olhos se encheram de lágrimas.

Costurar. Conforme o dicionário de língua portuguesa, significa unir duas partes, geralmente de pano, por meio de linha e agulha. Todavia, após essa experiência, esse significado transcende a junção de tecidos. Por um lado, de retalhos se fez  flores e das flores, almofadas. Por outro, da postura, inicialmente, cabisbaixa, se fez ereta, da falta de interesse se fez a vontade de aprender, da tristeza se fez a alegria. Ao término da almofada, Maria Rosa já florescia.

(os nomes são fictícios e as estórias têm adaptações para preservar o sigilo das pessoas)

A mulher na terceira vida

por Adriana Strappazzon

Salete Maria - Cordelirando...: A Mulher de Sete Vidas

Eu não quero mais esses remédios, a gente pode se curar sozinha. Veja só, eu já morri duas vezes. A última vez, foi no hospital. Um enfermeiro me deu uma injeção e na mesma hora eu comecei a sentir um calor que subiu o meu corpo. As minhas pernas, não sentia nada. Nada. Era o fim. Já comecei a me despedir da vida. A rezar e a preparar a minha subida. Eu tive uma parada cardíaca e então chegou a enfermeira chefe e eles começaram a fazer aquelas coisas todas.

Eu sou muito próxima de Deus, vocês não sabem o que é isso porque vocês não são. Nós dois somos íntimos e eu comecei a conversar com ele. Olha só Deus, se for para ficar paralítica eu quero morrer. Mas se desse, eu gostaria de voltar para fazer com que esses dois que me mataram sejam mandados embora.

O enfermeiro começou a colocar leite na minha boca para neutralizar o veneno que ele tinha me dado. Ele dizia para eu piscar o olho para indicar que estava bem. Mas eu encarava ele com o olho esbugalhado e pensava: deixa eu sair daqui que você vai ver! A enfermeira ficava me apalpando. Eu já estava começando a sentir um formigamento nas minhas pernas mas eu dizia que não estava sentindo nada.

Então eu pensei, se eu conseguir caminhar, vou até a sala do diretor do hospital. É pela escada, porque se fosse de elevador seria mais fácil e eles não querem ninguém lá. Eu estava saindo quando a enfermeira me perguntou onde eu estava indo. Eu respondi: Você quer mesmo saber onde estou indo? Eu estou indo denunciar vocês que me mataram. Ela pulou em cima de mim, dizendo para não ir e que esperasse a minha médica. Eu esperei e contei tudinho para ela. A minha médica então falou para eles irem para a sala do diretor. E eles foram mandados embora.

E foi assim que eu morri.

– A senhora teve uma parada cardíaca –

Pois é, morri.

A TAL DA VITAMINA

por Rosiane Pinho

Luta Saúde: Saúde é um direito, não é um negócio! – Página 13

    Chamo a primeira paciente da semana: dona Maria, com seus 70 e muitos anos, que vem à Unidade de Saúde acompanhada da filha para checar exames. Na consulta anterior, dona Maria havia se queixado de alguns episódios de confusão mental, e um dos exames solicitados na investigação foi a dosagem de vitamina B12 – uma vitamina que, se deficiente, pode ocasionar alguns sintomas compatíveis com o que ela apresentava. E, no caso dela, essa vitamina realmente estava com níveis muito baixos!

– Dona Maria, pode ser que tenhamos descoberto a causa dessa sua confusão! De todos os exames, o único que veio alterado foi a dosagem de uma vitamina que pode causar isso quando está em falta no nosso corpo…

– Ufa! Que bom, dra. Menos mal ser só essa tal de vitamina então, se todo o resto tiver funcionando (risos)! Isso é fácil de tratar, né?!

– É, sim! O tratamento é bem simples, já eu te explico certinho. O único problema é que não temos de graça no posto… Vocês teriam condições de comprar? (sempre me dói fazer essa pergunta)
    

Nesse momento mãe e filha entreolharam-se, num instante que pareceu uma eternidade. Um misto de preocupação e aflição na feição de ambas, até que a filha suspirou e tomou coragem: 

– Ah, doutora. Pode passar sim, damos um jeito! A gente tira da mistura do almoço ou do jantar em algum dia pra comprar o remédio da mãe…
  

  Foi minha vez de fazer um segundo parecer uma eternidade, com um turbilhão de pensamentos na minha mente, tentando sentir o peso que essa escolha carrega em si: comer ou se tratar? (e, afinal, alimentar-se também não faz parte dos requisitos mínimos de uma vida saudável?). Engoli em seco, imaginando outros pacientes que diariamente devem fazer essa escolha em silêncio – ou que escolhem pela alimentação como remédio, sendo muitas vezes julgados por não terem realizado o tratamento proposto.
No final das contas, prescrevi a “tal da vitamina”, e ao vê-las no dia seguinte aplicando a medicação no posto me peguei pensando no que elas teriam deixado de comer naquele dia para que isso fosse possível…                   

Chegou a vacina!

por Carolina Reigada

Zé Gotinha completa 30 anos – Meio & Mensagem

Hoje, 20/01/2021, eu chorei na volta para casa.

Há quase um ano, na segunda semana de março de 2020, uma reunião “urgente” com todos os profissionais da Unidade Básica de Saúde (UBS) onde eu trabalho acontecia. A pandemia – duvidada, temida, subestimada, superestimada – havia chegado.

E tudo mudou radicalmente.

As equipes de saúde da família foram temporariamente desfeitas. As médicas teriam que cobrir pelo menos dois turnos de atendimento a pacientes com suspeita de COVID, manter seguimento clínico de grupos considerados prioritários – como gestantes, contracepção, doenças crônicas sem controle – além do atendimento a urgências. E, como os pacientes ficaram com medo de ir aos hospitais, urgências complexas chegavam com frequência. Além disso, mais de um terço dos profissionais foram afastados para teletrabalho, e o restante ficou na UBS esperando a tal onda que viria.

A porta da UBS, tradicionalmente aberta e de livre trânsito, foi bloqueada por uma mesa, retirada de um dos consultórios. Ali, ficaria sempre alguém fazendo a triagem de sintomáticos respiratórios e organizando os fluxos da unidade. Essa mesa virou causa de sofrimento para todos, todas e todes. O profissional ali escalado tinha pesadelos na noite anterior: lidar com o público às vezes assustado, às vezes desinformado, estando ele mesmo assustado e nadando em incertezas, é muito difícil. Os pacientes reclamavam da mesma mesa: uma barreira de acesso, uma cancela na porta da UBS – mesmo que alguns entendessem o motivo de ela existir.

O auditório, local da unidade dedicado aos grupos em saúde, à promoção de bem-estar, foi transformado no local de atendimento a pessoas com suspeita de COVID. De local mais descontraído da UBS, foi transformado na sala em que ninguém queria estar.

Atender os sintomáticos respiratórios é muito difícil. Os equipamentos de proteção individual são desconfortáveis e quentes, muito quentes. Não se pode ligar ventilador nem ar-condicionado. Éramos afogadas em atualizações de notas técnicas e pesquisas científicas pelo menos duas vezes por semana, com mudanças nos protocolos federais e locais na mesma velocidade. As informações, sempre frescas, sempre novas, se acumulavam e nos deixavam sempre alertas à necessidade de rever, atualizar – e saber como explicar tanta instabilidade àquelas pessoas que chegavam ali, apavoradas com o que viam na TV.

E sim, ainda tínhamos que lidar com todas as fake news e desinformação, a procura irracional por testes diagnósticos e tratamentos milagrosos e uma flagrante desorganização em tantas esferas de gestão.

Quando a primeira onda chegou, realmente foi o que esperávamos. Todo dia, precisávamos acionar os serviços de transporte sanitário para remover pacientes: 1, 2, 3, 4. Às vezes, um seguido do outro; a ambulância ia e vinha sem tempo pra descanso. Até que a ambulância parou de voltar para pegar o segundo paciente que precisava de remoção, porque ainda não tinha encontrado vaga em nenhum hospital para aquele primeiro paciente. O medo era contínuo de que um dia, chegaria ali na UBS alguém que não encontraria vaga, que poderia morrer ali mesmo, por falta de um leito hospitalar, de ventilador mecânico, de oxigênio.

Eu passei por maus bocados*. Terríveis bocados, até. Minha família seguia isolada em casa, mas eu tinha que trabalhar. Todos os dias, eu ia com medo de me contaminar. Todas as tardes, eu voltava com medo de contaminar a eles. Minha filha chorava porque eu não a abraçava. Considerei alugar um apartamento para morar afastada deles, porque os pensamentos recorrentes em que eu era responsável por contamina-los, e eles eram internados, intubados, morriam, estavam além do que eu conseguia suportar. Quando não era isso, ficava imaginando como deve ser ruim morrer sozinha, com frio, entubada, em um CTI. E eu pensava nisso tudo enquanto vestia todos os EPI para atender pessoas com suspeita de COVID, tentando focar que minha família estava segura, em casa. Tentando focar que ali também tinha pessoas que precisavam de ajuda, apesar de eu mesma estar completamente apavorada.

O pavor aumentou quando as pessoas ao redor começaram a se contaminar. Quando as primeiras notícias de mortes chegaram. COVID levou pessoas queridas, tantas e tantas. Quem seria o próximo? Os fatores de risco (claro) serviam de estimativa, não de certeza. E os critérios para suspeita de COVID se alargavam cada vez mais, a ponto de qualquer sintoma (até banal) ser o suficiente para a suspeita. Parecia que não tinha chão seguro para se pisar.

Em abril, no meio da pandemia de COVID, fora de moda que sou, peguei dengue. As dores no corpo e a febre acabaram com o pouco controle emocional que eu ainda tinha. Me isolei no quarto até descobrir se era COVID ou não. Os testes rápidos para dengue foram negativos, o que me apavorou ainda mais. Comecei a ter crises de pânico, uma seguida da outra, várias ao dia. Não dormia, não comia. Só consegui ter alguma calma quando os dias se passaram, ninguém em casa ficou doente, e o exame sorológico de dengue finalmente foi positivo. Mas o episódio mexeu comigo, e desde aí, a ansiedade que estava sorrateira aqui em mim, abafada por uma racionalização extrema, explodiu.

Foram mais de 3 meses de muitos sintomas.

As dores musculares (na nuca, na cabeça, nas costas) eram diárias. Eu não queria ficar tomando remédio, primeiro porque não gosto de remédio; segundo porque tinha medo de o remédio “mascarar” uma febre ou um sinal precoce da doença (e era crucial que eu identificasse qualquer sinal precoce, para que eu logo me isolasse e não contaminasse ninguém). Descobri que atividade física melhora as dores por mais de 12 horas, então passei a fazer todos os dias. Todos os dias. Se não fizesse, as dores voltavam.

Crises de falta de ar e palpitação também eram diárias. Andava com minha “bombinha” de asma para todos os lugares, mais para me acalmar do que para usar. Nessas horas, tinha que parar, focar na respiração e esperar a adrenalina baixar.

Choro, muito choro. Às vezes quando eu não esperava, às vezes programado, para deixar todo o excesso sair. Muito choro também de tantas datas em que não pude viajar para estar perto da minha família. Vivi um natal inédito na minha vida, em que não abracei minha mãe, minha avó, meu irmão.

Agradeço imensamente a todas as pessoas que me ajudaram nesse período. Algumas já eram próximas, outras apareceram de surpresa. Todas foram importantes.

Eu também fui importante, procurei novos caminhos, encontrei novas formas de olhar e fazer a vida. Voltei pra terapia.

E hoje, chorei de novo.

Chorei porque o COVID é uma força da natureza sob a qual nos vimos impotentes e sem controle. Porque encarei alguns dos meus piores medo de frente. Porque, mesmo com medo, continuei trabalhando da melhor forma possível. No SUS.

O SUS, que apesar de tantas tentativas de sabotagem, respondeu à demanda da epidemia. Poderia ter feito muito melhor, sim. Cabe a nós lutar para que as melhorias cheguem.
O SUS, que apesar de tantos interesses políticos e econômicos contrários, produziu e agora distribui uma vacina contra o COVID. Todos os memes que eu vi sobre a vacina eram ambientados em uma UBS, e isso me dava orgulho. O Programa Nacional de Imunizações é um patrimônio brasileiro. O SUS é um patrimônio brasileiro.

Hoje, chorei de alívio. Sim, eu sei de todas as polêmicas e incertezas estatísticas que rondam a Coronavac*. Mas hoje eu me permiti ter alegria e esperança. A vacina me dá a certeza de imunidade? Não. Mas acho que a pandemia nos ensinou a lidar com incertezas. E em meio ao temporal de desastres, essa picada que eu levei no braço, dentro de uma UBS, trabalhando pelo SUS, me deu uma sensação de vitória.

Viva o SUS. Viva a gente, que continua lutando e tendo esperança.

E que venha logo vacina para todas, todos e todes.  

* e sei que não fui a única

** nem vou considerar relatos de virar jacaré, mudar DNA ou implantar chip. Porque, né? Sem paciência.

Lágrimas

por Thiago Morelli

Os 10 encontros de águas mais belos do mundo

Há uma semana eu chorei junto com uma paciente. Não foi a primeira vez que aconteceu. Eu não estava bem, me sentia angustiado desde o começo da manhã.
Ela começou a contar que não sabia mais o que fazer pra controlar a pressão arterial. Que sua pressão dava “saltos”, sem explicação. Já estava usando quatro classes de anti-hipertensivos. Jurava que não colocava nada de sal na comida. Queria ser encaminhada ao cardiologista. E eu, cansado por causa da demanda grande de pacientes do dia e angustiado por questões da vida, já estava preparando o encaminhamento.
Durante a residência costumava deixar um bilhete colado no computador que dizia “o que está por trás daquela queixa?”. Pra não esquecer. Pra nunca esquecer. Não sei bem o motivo, mas lembrei desse bilhete. Juntei o que me restava de forças daquele dia de coração nublado, com o toque sincero das mãos e resolvi perguntar: “Quando a senhora começou a sentir isso?”
– Há seis meses.
– E o que aconteceu nessa época…?
Bastou. O choro começou. O marido tinha morrido. Batia diariamente nela. E ela se sentia culpada por ter ficado feliz dele ter partido. Eu comecei a chorar junto. Conversamos bastante. Com aquelas lágrimas a minha angústia e a dela estavam indo embora.
Essa semana ela voltou. Pressão mais controlada, sem picos. Eu pedi desculpas, estava envergonhado. Sentimento associado aos professores que diziam que era errado ter esse tipo de relação com os pacientes. Ela disse que não precisava me desculpar, que desde a morte dele não conseguia chorar e que conversar sobre isso tinha feito muito bem pra ela. Que aquele meu “choro solidário” tinha sido muito significativo.
Não ensinam na faculdade de medicina, mas cada vez mais, trabalhando na atenção primária, acredito que as lágrimas represadas pesam no corpo. E viram pressão alta, dor no pescoço, na coluna, cabeça…

Antes do causo clínico

por Aysla Rinaldo

Não há declaração de amor maior do que receber uma carta escrita à mão |  Revista Bula

“Olá, dona doença.
Desde que nasci, aprendi que você é real. Que se você aparecesse, a gente podia ir ao médico que ele nos ajudaria a te deixar bem longe de nós. Algumas vezes, você apareceu em minha vida, na de meus pais, meus irmãos, meus avós, meus amigos. Mas eu nunca olhei nos seus olhos. Você sempre foi uma senhora passageira, ou silenciosa, ou fatal. O fato é que você não estava em minha rotina. Todo dia me visitando. Por me encantar com o corpo humano e pela possibilidade de cuidar das pessoas, acabei escolhendo trilhar os caminhos da medicina. Logo no primeiro ano, percebi que a senhora era muito diferenciada. Estava potencialmente em tudo, em todos. Podia chegar a qualquer momento e se instalar de milhares de formas. E os médicos estudavam as milhares de formas de combatê-la ou, pelo menos, fazer sua presença menos perceptível. Lá no começo da trajetória na medicina, uma angustiazinha me acometeu: eu queria poder te ver viva, não nos livros, nos guidelines, nas discussões. Na verdade, eu queria ver o seu palco: as pessoas. Não me leve a mal, não que eu não me importasse com a senhora. Mas é que simplesmente te ver e apenas te ver, deixava minha vida meio preto e branca. Comecei a aceitar, então, que para servir às pessoas que sofriam pela sua presença, eu precisaria te estudar bastante. Foram então 4 anos. Com algumas (tão necessárias para me lembrar o sentido da caminhada) visitas da senhora em ação. E a oportunidade de ver que a senhora não é tudo que dizem. Porque sua presença é extremamente adaptável. Até que chegou o momentum: estar diariamente vendo pessoas. Te ver atuante. Te ver combatida ou contida. Mas hoje preciso te confessar algo, dona doença. Infelizmente, eu sei que a medicina te faz pensar isso. Mas a senhora não é o foco. Eu sei, no meu dia-a-dia, eu tenho visto muitos médicos e médicas te olhando nos olhos, te venerando, te estudando arduamente. E eu também preciso te estudar. Mas sabe de uma coisa? Olhar para a senhora como o foco faz a medicina perder seu brilho. Não me entenda mal. Sei que a senhora é muito respeitada. Mas me cansa ver uma história cheia de altos e baixos, cheia de emoções, cheia de expectativas, cheia de frustrações e a senhora aparecer, mudar tanta coisa, e a única coisa que a medicina foca é na senhora. Ora, eu serei médica e estou te afrontando desta forma? Como assim, se não fosse sua presença, eu não teria emprego…É verdade, dona doença. Eu não estou negando sua existência e sua importância. Mas o que quero dizer é que olhar para a senhora como o objetivo da minha prática não faz sentido na minha caminhada. Olhar nos seus olhos todos os dias me faz ter mais certeza que não devo focar na senhora. Mas naqueles em quem a senhora está. Porque são eles que te fazem ser quem é. E é só entendendo as pessoas, é que vou te entender direito. E, então, poderei agir. Mas ah, na faculdade não me contaram tudo isso. Então não te focar ainda será uma construção. Por isso, não se engrandeça achando que a senhora voltou a ser o foco às vezes. Eu ainda estou aprendendo a olhar além. E olhar de verdade. E cuidar de verdade. E encontrar sentido na medicina.”

Pertencer

por Guilherme Vale

Amizade - a estrutura da sorte dentro da teia de amigos | Arte espiritual,  Xamanismo, Teia

Pertencer,

Saber não estar só,

Mesmo quando sozinho.

Sim, no mundo, tem gente

Que pensa, trabalha, cuida e sente

Assim como você.

Pertencer é

Tecer encontros com pontas soltas

Das durezas do dia.

Transformando-nos em malha,

Grossa, firme, forte, unida.

Pertencer

É estar junto,

É não se deixar vencer – nem vender!

Por homens públicos (de Interesses privados)

Que nos privam de saúde, educação,

Mas não vão nos privar do amor!

Pertencer

É verbo transitivo indireto

Não funciona sozinho,

Precisa de um objeto, um complemento, para ser.

“Fazer-parte-de”.

Pertencer,

No atual contexto,

Transforma-se em sentimento,

Igual cimento,

Cola que não cala – grita!

Contra as injustiças da vida.

Pertencimento

É esse coletivo de Ornitorrincos,

Seres estranhos, inquietos e incompreendidos,

Mas jamais sozinhos,

Porque, quando juntos,

Não importa quem, onde, quando, nem idade,

Cuidaremos e seremos sempre

De Família e Comunidade.