Doutor Ernesto

por Antônio Modesto

Para Arthur

Ernesto era o tal “médico de família das antigas”: fez residência em Medicina Preventiva (a Geral Comunitária não existia na época, muito menos a de Família e Comunidade), foi médico de vila de pescadores e de aldeia rural, e hoje clinicava na cidade. “Até quando der”, dizia. “Vinte horas por semana eu dou conta”. Viúvo, filhos formados, netos vacinados e alfabetizados, ele sabia que estava nesse mundo até quando desse.

Atendeu esses dias uma mulher de trinta anos.

“Em que eu posso ajudar hoje?”

“Doutor Ernesto, eu tenho muita dor no pé quando esfria”

“Dor no pé quando esfria?”

“É. Não é qualquer frio, né, normalmente acontece quando está menos de dez graus”

“Nos dias mais frios de inverno, então”

“Ou quando eu viajo para lugar frio, tipo fim-de-semana na serra, sabe?”

“Claro. E quando está menos frio, uns quinze graus…?”

“Aí normal, sinto frio normal, mas meus pés não doem”

“E quando dói, você faz o quê?”

“Aí eu tenho que colocar meia”

“E quando você coloca meia…?”

“Aí a dor passa”

“Hum…”

“Só que meu namorado acha feio mulher dormir de meia, então eu queria ver o que que eu tenho, se tem algum tratamento, não sei…”

“Entendi. Mais alguma coisa te incomoda?”

“Não”

“Posso te examinar?”

“Pode!”

Mediu a pressão arterial e a frequência cardíaca; ouviu coração e pulmões; palpou pulsos centrais e periféricos;1 pediu que ela elevasse e abaixasse os membros inferiores para avaliar sua perfusão periférica – assim como fizeram médicos e médicos e médicos por gerações antes dele.

Fez perguntas enquanto a examinava. Nada mais a incomodava além da dor nos pés quando fazia menos de dez graus.

 

* * *

 

Um mau clínico não suportaria deixar aquela mulher sem algum diagnóstico. Diante de um exame físico praticamente normal – a mulher tinha a circulação um pouco lenta nas pontas dos dedos dos pés, mas as artérias dos seus pés pulsavam normalmente – daria início a uma cascata que começaria com exames reumatológicos, passaria por um ultrassom doppler de membros inferiores e poderia chegar até a uma polissonografia. Se depois de tudo isso não tivesse chegado a um diagnóstico ou encontrado um problema novo que desviasse a atenção, teria então a tranquilidade de escrever

 

HD: DOR EM MM.II. IDIOPÁTICA – ANSIEDADE?2

 

Recomendaria que a mulher procurasse um psicólogo para conversar sobre a vida e chamaria a próxima.

 

* * *

 

Um clínico muito virtuoso não desperdiçaria exames. Ao contrário, examinaria a mulher de cima abaixo, incluindo todos os seus reflexos e alguns testes de sensibilidade térmica e dolorosa. Dispensaria exames reumatológicos, porque “a clínica é soberana” e não havia critérios suficientes para essas doenças, mas talvez solicitasse um doppler de membros inferiores, porque insuficiência arterial periférica era um diagnóstico possível e errare humanum est. Doppler normal, registraria no prontuário

 

HD: DOR RECORRENTE EM MEMBROS INFERIORES IDIOPÁTICA. ANSIEDADE?

 

Recomendaria que a mulher procurasse um psicólogo para conversar sobre a dor e lamentaria secretamente não ter sido uma doença rara que gerasse um relato de caso.

 

* * *

 

Doutor Ernesto era um bom clínico, com a visão e tranquilidade dada pelos anos, pelos filhos formados, pelos netos vacinados e alfabetizados, pela esposa que morreu. Após examinar a mulher, disse:

“Isso que você tem não é doença, é uma característica sua. Tem gente que tem mais frio no pé, tem gente que tem menos. Se piorar, me procure. Enquanto isso, vou te recomendar uma coisa”

E escreveu em um receituário

 

RECOMENDAÇÃO MÉDICA

USAR MEIAS SEMPRE QUE A TEMPERATURA AMBIENTE FOR MENOR OU IGUAL A DEZ GRAUS.

 

Datou, carimbou, assinou, explicou a recomendação e, ao entregar a receita, olhou a mulher por cima dos óculos e disse:

“Ah… E manda seu namorado se catar”

 

* * *

 

1 Por exemplo, carótida (central) e punho (periférico).

2 Traduzindo, “hipótese diagnóstica: dor em membros inferiores sem causa definida, possivelmente relacionada a ansiedade”.

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O dia em que não quis ser internada

por Lucas Gaspar Ribeiro

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Esse causo é algo interessante, como é difícil ser médico (daquele formado numa faculdade de alta relevância aqui e fora, conhecedor da biologia, dos fatores de risco e tudo mais), mas ao mesmo tempo ser de Família e Comunidade (conhecedor de gentes e contador de histórias como diz uma pessoa próxima..).
Contaremos então uma das histórias de uma paciente que vi muitas e muitas vezes, em casa, fora de casa, na unidade..  Uma daquelas pessoas de carinho fraternal, de conversa apenas com os olhos, que a gente não precisa de muito para fazer muito, sabem? Essa é Dona N.
Por esses dias ela veio na unidade contar que passou no hospital para fazer exames pré-operatórios de um câncer de útero (esse causo é outro e ainda virá).. Veio contando a nós que não estava passando muito bem, um pouco de cansaço, dor no peito, mal estar. Também tinha ficado o dia todo anterior no hospital, feito, 1, 2, 3 eletrocardiogramas (todos com ela), e quase a internaram ontem mesmo porque a frequência do coração estava 34 batimentos por minuto (o mínimo aceitável é 50!!). Mas liberaram, não estava sentindo nada..
Conversei com ela, confirmei que estava devagarinho aquele coração sofrido, mas feliz(!), estava 42 batimentos naquele momento.

– Dona N. com esse coração desse jeito, esse mal estar da senhora, não vai ter jeito, vamos ter que te internar hoje.
– Mas Dr. Luca (ela às vezes esquecia o S… Tudo bem, era carinho mesmo…), eu não posso internar hoje, não estou pronta, tenho muita coisa para resolver em casa.
– Mas é perigoso a senhora voltar pra casa, já aconteceu isso antes, conversamos sobre isso.
– Sim Dr, eu sei, eu sei que posso morrer em casa, sei que estou assumindo esse risco. Mas eu estou calma quanto a isso, estou feliz quando a isso. Eu quero assumir esse risco. Você sabe porque, eu tenho o Zé em casa (seu marido acamado), e ele depende de mim. Eu preciso ir para casa, pelo menos para organizar a minha vida, e a vida dele.

Ahh decisão difícil, saber que ela precisa dessa internação, que ela tem muito risco de morrer, de sofrer, mas ao mesmo tempo ver aqueles olhos sofridos, ver aqueles olhos “pedintes igual criança pedindo doce”, saber que o Zé precisa dela e ela dele (apesar de tantas peripécias e dificuldades da vida de ambos..). Biologia versus família, formação versus coração. Qual seria sua escolha? Acho que vocês já sabem da minha (está no título caro leitor…)
 – Ok Dona N, não vamos te internar agora, você sabe as coisas boas e ruins de internar, as facilidades e dificuldades que já passamos um bom tanto de vezes com essa história né?
– Sim Dr Luca, muito obrigado pela escolha (e os olhos brilharam…). Assim que eu resolver tudo eu volto, eu prometo.

3 dias depois ela volta, Dr Luca: eu estou pronta, vamos internar? E ela estava com a frequência 140 hoje…

Seu Sérgio e Dona Dora

por Ana Beatriz Cavallari Monteiro

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Era por volta de 3 horas da tarde de uma quinta-feira. Quando chamei pelo nome, Seu Sérgio entrou no consultório acompanhado de sua esposa, Dona Dora. Perguntei como poderia ajuda-los naquela tarde e ele disse que tinha vindo para uma consulta de rotina que foi marcada pela ACS. Me contou que tomava remédio pra pressão e pra enxaqueca, mas que estava há vários anos sem crises. Perguntei então se ele estava sentindo alguma coisa diferente nos últimos tempos e ele disse que não, se sentia bem. Logo depois, porém, lembrou de falar que estava percebendo que as pernas estavam mais inchadas e que as vezes se sentia um pouco cansado. Comecei a fazer algumas perguntas sobre outros sintomas tentando encaixar o Seu Sérgio em alguma doença (Insuficiência cardíaca? Insuficiência renal? Cirrose hepática?…).

Quando questionei se ele bebia ou fumava, prontamente respondeu que não. “Só me divirto com a minha esposa, doutora. Sabia que somos casados há 48 anos?” Respondeu dando um sorriso carinhoso para Dona Dora, que então retribuiu com outro sorriso. Depois daquela conversa inicial, comecei a examinar o Seu Sérgio. Os pés realmente estavam inchados. Edema 3+/4+ (com cacifo bem importante)…Ausculta cardíaca…Opa! Tem um sopro aqui! Observando melhor a pele do paciente parecia levemente amarelada (seria icterícia?). Só depois percebi que na verdade ele estava (bem) pálido. Palpei pulsos, fiz ausculta respiratória, pedi que deitasse na maca para examinar o abdome e…caramba! Tinha um baço enorme. Provavelmente o maior que eu já tinha palpado, chegando até perto da cicatriz umbilical. Palpei mais uma vez pra ver se era isso mesmo. E era. Coloquei a mão do Seu Sérgio na barriga dele e perguntei se ele já tinha percebido algo diferente ali. Ele disse que não. Expliquei aos dois que tinha percebido algumas coisas de diferente no exame físico dele e que precisava discutir o caso com os meus preceptores. Quando eu ia saindo do consultório Dona Dora comentou: “Doutora, ninguém nunca tinha examinado o meu marido assim. A senhora é muito boa!”

No caminho até a salinha dos preceptores muitos pensamentos passavam em minha cabeça. Comecei a discutir então com dois preceptores e disse que uma das minhas hipóteses era Calazar e que estava pensando em pedir um hemograma na UPA…“Calazar? Não é muito comum aqui no Rio né?” – disse um deles. “Será que não é uma doença hematológica?” – sugeriu a outra preceptora.
Voltei no consultório e expliquei que precisaria pedir o exame pra ele fazer naquela hora e perguntei se tudo bem eles esperarem pelo resultado que demoraria entre 1-2h. Eles tranquilamente disseram que sim. Continuei atendendo os pacientes naquele turno e algumas vezes, ao sair do consultório, pude ver Seu Sérgio e Dona Dora papeando na porta da clínica.

Algum tempo depois, durante a consulta de outro paciente, uma pessoa bateu na porta do consultório. Era o técnico do laboratório pedindo que eu o acompanhasse. “É meio urgente”- ele disse. Quando chegamos ao laboratório ele pediu que eu olhasse no microscópio e perguntou se eu sabia identificar o que via ali. Óbvio que eu não sabia. Ele respondeu dizendo que a medula do paciente estava “explodida” – 58.000 leucócitos, muitos blastos, Hemoglobina de 5,7 e 60.000 plaquetas. Voltei imediatamente para a salinha dos preceptores pra mostrar o exame. É, realmente estávamos diante de uma doença hematológica, provavelmente uma leucemia, e agora eu precisava dar a notícia pra eles.

Chamei Seu Sérgio e Dona Dora de volta pro consultório e comecei a, calmamente, gastar todas as técnicas de consultas e comunicação de más notícias que eu tinha aprendido até ali. Expliquei que o exame do Seu Sérgio mostrava tinha algo errado com a medula dele. Expliquei que a medula é o órgão que produz as nossas células do sangue e que como a dele não estava funcionando bem, ele tinha uma anemia bem importante. Expliquei também que o cansaço, o inchaço nas pernas, o sopro no coração e o aumento do baço era tudo consequência desse problema na medula. Disse ainda que a nossa principal hipótese era leucemia. “Vocês já ouviram falar sobre isso?” – perguntei. Durante todo esse tempo Seu Sérgio e Dona Dora me olhavam em silêncio com um olhar de dúvida. Pela primeira vez naquela tarde ele não sorria. Disseram que já tinham ouvido falar sobre a doença, mas que não sabiam bem do que se tratava. Eu fiquei por alguns milésimos segundos me perguntando se eu devia ou não falar naquele momento que leucemia era um tipo de câncer. Mas sim, achei justo que soubessem.

“Câncer???” – disse Seu Sérgio elevando o tom de voz. “Doutora, eu não posso ter câncer!! Eu não sinto nada! Eu vim só pra uma consulta de rotina. Quem tem câncer está em cima de uma cama, sofrendo com dores. Eu não sinto nada!” – dizia ele batendo no peito. Dona Dora então começou a dizer que não acreditava no resultado daquele exame, que o laboratório devia ter trocado o sangue dele com o de outra pessoa e que preferia que ele repetisse o hemograma em um laboratório particular pois não confiava no laboratório da clínica. Novamente tentei explicar para eles que apesar de não se sentir doente, ele apresentava todas aquelas alterações no exame físico e o exame de laboratório só confirmava o que nós já suspeitávamos. Quando falei que precisaríamos interna-lo (Sim! Na minha cabeça ele precisaria de uma biópsia de medula urgente pra fechar o diagnóstico e começar logo o tratamento) Seu Sérgio e Dona Dora não concordaram nem um pouco com a ideia. Uma de suas netas estava com o parto agendado pra dali a 3 dias, eles precisavam dar suporte a ela. Se Seu Sérgio ficasse internado tudo seria mais complicado.

Eu mandei então uma mensagem desesperada pro meu preceptor (que já estava sabendo do resultado do exame que eu havia mandado por mensagem) dizendo: “Socorro! Ele não quer internar! Me ajuda!”, ao mesmo tempo que fui na salinha pedir ajuda pra outra preceptora que estava lá. Nós três juntos voltamos então ao consultório. Nesse momento Seu Sérgio parecia com tanta raiva de mim que nem me olhava no rosto. Nós conversamos com eles por um longo tempo, explicando calmamente a importância daquela internação e todos os riscos envolvidos, porém os dois continuavam irredutíveis com a ideia de não internar e de repetir o exame no laboratório particular. Em um determinado momento percebemos que não conseguiríamos convencê-los e respeitamos a decisão do casal. Dei o pedido do exame de sangue e disse que eles poderiam nos procurar quando quisessem.

Naquela hora surgia dentro de mim uma mistura de frustração e raiva e eu só pensava: “Caramba! Eu não acredito nisso! Eu fiquei a tarde inteira tentando ajudar, examinei ele com tanto cuidado, gastei mais de 1h explicando o que estava acontecendo e eles não confiam na nossa avaliação?”. Seu Sérgio mal se despediu de mim, parecia realmente chateado, como se eu tivesse colocado a doença nele. Dona Dora me abraçou pedindo desculpas pela grosseria, pediu que eu entendesse e disse novamente: “Ninguém nunca examinou meu marido assim”. Assim que eles saíram eu desabei a chorar. Chorei de soluçar, enquanto os meus preceptores me abraçavam e consolavam. Apesar da decisão ter sido deles, eu me senti totalmente impotente. Fiquei a noite e o dia seguinte inteiro pensando neles, ainda desconfortável com aquela situação.

Dois dias depois era sábado. Eu estava escalada pros atendimentos na clínica e já no final da manhã Seu Sérgio e Dona Dora chegaram afobados com um resultado de exame em mãos. “Doutora, nós repetimos o exame do Sérgio no laboratório particular. Eles acabaram de ligar de lá dizendo que o exame estava muito alterado e que a gente precisava procurar um médico urgente! Por favor, interna ele!” – dizia Dona Dora. Eu respirei aliviada por eles terem voltado logo. Então perguntei: “O bisneto de vocês nasceu?”. Eles disseram que não, a cirurgia seria no dia seguinte, mas não tinha problema, podia internar ele assim mesmo porque agora eles entendiam que a situação dele era grave. Eu pensei por uns minutinhos e disse: “Vamos fazer o seguinte…vão pra casa, vejam o bisneto de vocês nascer, curtam esse momento. Segunda feira bem cedo vocês voltam e a gente pede a ambulância”. Acho que eles ficaram bem chocados com essa fala, afinal dois dias atrás eu tinha tentado usar vários argumentos pra interná-lo naquele momento.

Na segunda-feira cedinho eles estavam lá. Já com um ar mais tranquilo e conformado (e até com um sorriso no rosto), foram de ambulância até o hospital pra que de lá tentassem uma vaga em algum serviço de Hematologia. Ficaram por lá durante 5 dias (literalmente tomando só soro na veia) e nada. Nem uma transfusão de sangue. Receberam alta com orientação de conseguir encaminhamento pela Clínica da Família. Começou então a nossa saga de tentar conseguir uma vaga de internação eletiva. Essa angustia durou mais ou menos uma semana, até que por meios não convencionais eles conseguiram uma consulta no Hemorio, onde Seu Sérgio passou a ser acompanhado.

A biópsia de medula demorou algumas semanas pra sair. E não, o diagnóstico não era Leucemia. Era Mielofibrose, uma doença que eu nunca tinha ouvido falar. Comecei a estudar sobre o assunto pra poder ficar mais por dentro do cuidado do Seu Sérgio. Soube que o tratamento era caríssimo, cerca de 15.000 reais por mês, e certamente eles não teriam como pagar. A cada 15 dias eles compareciam no Hemorio para uma nova transfusão de sangue, mas não sabíamos ao certo quanto tempo de vida ele ainda teria sem a medicação adequada. Começou a usar então uma outra medicação que conseguiu estabilizar o quadro (o baço começou a diminuir, as transfusões começaram a ser mais espaçadas..). E a vida foi seguindo, alguns dias melhores, outros piores. Seu Sérgio e Dona Dora passavam com frequência na clínica pra me dar notícias sobre seu tratamento. E ele estava sempre com o sorriso no rosto.

Há umas duas semanas recebi a notícia que seu Sérgio estava internado. Parecia que as coisas não iam muito bem, estava no CTI, intubado, com os exames bem ruins. No fundo, apesar de saber da gravidade do caso, eu sentia que ele ia sair dessa. Achava que só ia receber a noticia da sua morte alguns anos depois que terminasse a minha residência. Mas essa semana Seu Sérgio nos deixou, deixando também partido o meu coração. Imediatamente lembrei de Dona Dora. Lembrei de todo o cuidado que ela tinha por ele e sofri ao pensar nessa separação depois de tantos anos juntos (sim, foram 11 de namoro e 49 de casamento, sendo o último aniversário quando ele já estava no CTI, ainda lúcido). De alguma forma, não sei bem explicar o porquê, Seu Sérgio e Dona Dora ganharam um espaço muito especial no meu coração. Eles me fizeram crescer como médica e como ser-humano e me ensinaram sobre amor, cuidado e valorização da família.

Hoje, desejo que Seu Sérgio esteja com Deus, num lugar muito especial. E que um dia eu e Dona Dora possamos encontrá-lo por lá também, sempre com seu sorriso no rosto.

Desejo de um papel…

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Hoje vou contar sobre dona Hermelinda, uma mulher de 62 anos, maranhense do interior, firme na voz e nos passos. Já veio para Ribeirão Preto e voltou para sua terra natal diversas vezes, não consegue ficar muito tempo longe de sua “terrinha”, devido a isso, sua diabetes e pressão nunca tiveram um controle e um cuidado ao longo do tempo, porque todo médico muda sua receita. Voltou para cá dessa vez porque tinha um machucadinho no nariz que não sarava e também porque para conseguir consulta lá é muito difícil, precisa pegar um ônibus para João Pessoa toda vez que tinha algo mais complicado, dizia ela.
Infelizmente a lesão era certeira, um câncer de pele que devia estar crescendo já a um tempinho…
Converso com ela sobre o machucadinho, sobre a necessidade de ir para uma biópsia e provável cirurgia, e isso poderia demorar alguns meses até que tudo se completasse..
Sua resposta, com voz firme, mas olhos marejados, trêmulos..
 – Doutor, eu odeio viver aqui, eu sou feliz lá na minha terra, na minha cidade, onde tenho minha casa, tenho meu trabalho, eu trabalho como catadora lá sabe, consigo andar pelas ruas, conheço cada cantinho da cidade, aqui não consigo sair de casa com medo de me perder.
Mas se o senhor  falar que eu tenho que ficar aqui para operar o nariz, porque eu sei que vai ser muito difícil por lá, eu fico. Crio raízes aqui, fico firme aqui. Me tranco em casa, porque confio em você, conto nos médicos daqui.
Mas se o senhor falar pra eu ir que eu não vou morrer disso, eu vou hoje mesmo para não mais voltar.. Porque aqui não é o meu lugar.
Tudo que eu lhe peço é um papel escrito o que eu tenho, que eu não vou morrer e que eu posso ir embora…
Eu deixo isso nas suas mãos doutor, o que você decidir eu faço…
Minha cabeça deu um nó, um daqueles bem apertados. Qual o meu poder, quem sou eu, o que sou eu para definir sobre a vida de outro? Para definir entre a felicidade e a biologia? Para falar olha fique que vamos cuidar desse câncer e de todo o resto (menos de sua felicidade…) ou vá e seja feliz, volte a viver o que sempre viveu…
Prefiro não fazer essa escolha.. vamos conversar com seus filhos e decidimos todos juntos, pode ser?

Hoje eu não consegui escrever

por André L. Silva

Hoje eu não consegui escrever
Quando escrevo, encaro o texto como um processo artesanal. Entendo letras, frases e parágrafos como pontos de uma grande costura ou bordado, como de um manto de monge. Pode levar minutos ou semanas. O processo é a grande magia.
Muita coisa aconteceu comigo em menos de um ano. Novo trabalho em uma clínica de Atenção Primária, nova universidade onde ensinar, o começo de uma caminhada como monge zen… tanta coisa aconteceu, tantas possibilidades e quantas histórias surgiram!
Era sábado, e eu estava a decidir qual história escrever. Estava em dúvida entre Ângela, aquela moça de um coletivo feminista em crise de ansiedade pela onda de violência nesses tempos hostis de eleição… ou quem sabe Amanda, aquela adolescente que tentou suicídio e estávamos a conversar sobre conflitos familiares e internos… ou sobre aquele casal, Pedro e Laura, que desejava muito engravidar e está em luto após mais uma perda gestacional…
Enquanto as ideias pulavam serelepes na minha cabeça raspada e no meu bloco de notas, lembrei que precisava ir no mercado comprar umas coisas para um aniversário à noite, além do presente para o aniversariante, claro.
Fui eu com a minha careca e meu samuê (roupa de prática zen, geralmente preta)… feitas as pequenas compras sem maiores surpresas – só a pressa em pagar os sacos de gelo e levar logo para casa para não derreterem.
Fui para a fila no mercado de boas, com minha careca, meu samuê preto e meus fones de ouvido tocando Gal Costa.
Na minha frente, dois homens concluíam suas compras, com seus músculos, tatuagens e suas camisetas de jiu jitsu. Depois vi que um deles, o mais baixo, tinha um adesivo de um determinado candidato à presidência. Até aí, nada demais. Porém, do nada, esse homem mais baixo começou a me encarar – e pelo olhar óbvio que não era de cantada haha – , e também começou fazer sinal com a cabeça do tipo – vai encarar?
Fiz cara de samambaia (uso esse termo com frequência – que cara que tem uma samambaia?), e esperei minha vez, estático. O outro homem saiu, e esse cara parou em frente ao caixa e começou a fazer sinal do tipo – vou quebrar sua cara (falando baixinho e socando a mão).
Eu discretamente avisei à moça do caixa que também percebeu e de pronto chegaram seguranças do shopping onde fica o mercado e convidaram o cara a sair. Ele ficou tipo fingindo que não estava fazendo nada, aí começou a fazer escândalo até ser retirado. No meio da sua ira e de seus gritos, ele solta um “esses degenerados vão sumir do mapa!”
Tive que ser acompanhado por seguranças até o carro. Escoltado, como se tivesse cometido algum crime. Entrei no carro com as compras como em transe, talvez como uma samambaia.
Foi às 13:30 de um sábado de um mercado lotado.
Cheguei em casa e não consegui esboçar reação nenhuma. Guardei as compras ainda em transe, como uma samambaia.
Ao parar sobre meu caderno de notas, a cena começou a reverberar na minha cabeça. “Degenerado”. Minha cabeça raspada é degenerada? Meu samuê preto é degenerado? Minha religião de não violência e harmonia com todos os seres é degenerada? As pessoas que atendo são degeneradas? A forma de amar das pessoas que atendo é degenerada? A cor da minha família é degenerada? Quem ou o que é degenerado ao ponto de sumir do mapa?
As músicas e as poesias todas sumiram da minha cabeça raspada. Só consegui lembrar e finalmente escrever dois artigos do Código de Ética Médica:
“É vedado ao médico:
Art. 23. Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.
Art. 25. Deixar de denunciar prática de tortura ou de procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis, praticá-las, bem como ser conivente com quem as realize ou fornecer meios, instrumentos, substâncias ou conhecimentos que as facilitem.”
Sobre o bloco de notas, chorei muito. Desculpe, Ângela. Desculpe Amanda. Desculpem, Pedro e Laura. E me desculpem, amigos do Causos Clínicos, de quem eu recebi tanto amor e apoio. Desculpe, irmão do Henfil. Desculpem Marias e Clarices.
Hoje eu não consegui escrever. Prometo tentar até o fim. Por mim, por nós, por todos os seres.
XXX
Músicas que inspiraram essa história mais real do que nunca, que impedirão que as minorias se curvem:
  • Felicidade – Marcelo Jeneci
  • A paz (Leila IV) – Zizi Possi
  • Aos nossos filhos – Elis Regina
  • Tempo de Pipa – Cícero
  • Vagalumes Cegos – Cícero
  • Cordão – Chico Buarque
  • Quase sem querer – Roberta Campos
  • De toda cor – Renato

Playlist atualizada: https://open.spotify.com/user/12149067289/playlist/19A1B37g1lkTQFD9UDJjfQ?si=EZavZV0BQJG7raaa-_qYmQ

Iracema

por Marina Galhardi

Gustavo Simão - Especial para O POVO
Desinquieta. Era assim que ela se dizia.
Falava alto, como se precisasse a vida toda gritar para ser ouvida. Ainda assim não o era.
Iracema arrumava a casa toda, cuidava da comida, das roupas, do conforto da família. Era ela que tinha trabalhado em casa incansavelmente todos os dias, sem que fosse lhe permitido outra forma de vida.
Poucos dentes haviam lhe restado na boca, o cabelo todo branco passava o comprimento dos ombros, era pequena e magra. Havia certa força em Iracema, de resistência, de resiliência. De sobrevivente.
Contou-me certa vez que era ela que ia ao banco todo mês sacar a aposentadoria do marido – que não conseguia ir por uma sucessão de derrames que tinha tido – e trazia o dinheiro contadinho. Tirava só para uma coxinha e um suco, que era o que ele deixava. Não podia usar mais nada daquele dinheiro, nadinha. Ele escondia embaixo do colchão as notinhas e contava todos os dias ao acordar, como se o dinheiro pudesse lhe ser subtraído durante a noite. Ela se sentia humilhada sem saber nomear.
Iracema havia meses lhe pedia um “xis”, era só isso, só queria comer um “xis”. Mas ele não lhe dava.
Um dia ela veio muito preocupada. Gritava muito e eu tinha dificuldade de entender. A casa em que moravam era dele, não estava no nome dela, mas eles eram casados, então seria dela por direito, ela dizia. As irmãs dele, no entanto, viviam rondando e diziam vez ou outra que a casa não era dela não. Ela se desinquietava, tinha medo de que quando o marido falecesse ela ficasse sem teto, porque não sabia ler. E por não saber ler achava que seria enganada com facilidade. Queria ter um dinheiro dela, uma coisa só dela para que pudesse pelo menos comer um “xis”.
Com quase sessenta anos, embora na verdade parecesse mais, ainda tomava uma certa pílula anticoncepcional porque tinha um medo terrível de engravidar. Porque ele não “dava sossego”, nas palavras dela.
Um dia, lhe adverti mais uma vez, de que não podia tomar mais aquela medicação com essa idade e essa pressão alta, podia lhe fazer muito mal. Mas de tanto agitar-se e gritar, ela não me escutou. Provavelmente porque eu não consegui atingir a linguagem que conseguiria de fato se comunicar com ela.
Iracema então infartou. Não foi fatal não, ficou internada uns dias no hospital e se recuperou. Veio dias depois me ver se queixando de uma alergia. Nem tocou no assunto do infarto, não se apercebeu da gravidade da situação. Forte, desinquieta, resiliente feito umbuzeiro.
Iracema é a certeza de que o que podemos fazer é muito pouco. Ter acesso a medicina não significa saúde. É provável que ela morra cedo, vitima de sucessivos desinquietamentos e que nada do que eu faça possa exatamente evitar. É provável que ela morra cedo por ser mulher, analfabeta, e não ter dinheiro nenhum, nem para um xis.

O que respira a alma? Sobre amor, serviço e propósito.

por Janaine Camargo

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“Sabíamos que esse momento iria chegar, mas nunca estamos realmente preparados”, nos diz Teresa, cuidadora de Cláudio, com os olhos marejados pelas lágrimas que ansiosamente tentam não cair. Derramar suas lágrimas poderia demonstrar que ela achava que era o fim… Que Cláudio não acordaria mais. Ele era portador de demência e, há anos, voltara a morar com a ex-esposa. Separados pelo etilismo, mas reunidos pelo amor, Teresa contava com o apoio da equipe da estratégia saúde da família para manejar os sintomas de Cláudio, a fim de não precisar interná-lo. Ele estava acamado há dois meses; entretanto, nesse dia, a respiração agonizante, o livedo reticular e o rebaixamento de consciência não deixaram dúvidas para a equipe de que Cláudio estava partindo.  Percebemos que havia muito a ser feito! A conversa honesta com Teresa a preparou para enfrentar esse momento. O pranto veio abundante: “Se eu tivesse feito mais?”. Com o olhar, a compaixão e o respeito que adquirimos por aquela mulher, propusemos reflexões sobre os últimos meses de Cláudio. Mudando o sabor das lágrimas, Teresa nos diz: “Fizemos tudo que podíamos… Conseguimos levá-lo para a Igreja no domingo… Parece que ele só estava esperando isso para poder partir em paz”. De sua fé vinha sua resiliência. Ela se abaixou, acariciou a face de Cláudio, falou sobre seus sentimentos, suas culpas e trouxe, então, seu pedido de perdão por ter se distanciado dele, deixando de honrar os preceitos sacros do casamento. Cláudio parecia ter o semblante mais tranqüilo… Foi a morfina?  Foi o perdão? Ambos? O que importa? A prece da esposa ao final demonstrou que, enquanto Cláudio partia em paz, o significado que Teresa deu a sua fé e ao perdão permitiram que ela vivesse em paz.

 

Texto produzido em homenagem à despedida de um paciente querido e ao (re)nascimento de uma mulher que é força e exemplo. São Paulo, maio de 2017.