Pernas covardes

por Jhusane Martins

Já por algumas semanas antes de me isolar com o vírus eu vinha andando bem frustrada pela baixa demanda da minha equipe. Como é possível uma das populações mais vulneráveis do território descer tão pouco para buscar a clínica? Em tese, a tendência não seria que os mais necessitados buscassem mais o sistema?

Embora eu ainda acredite que essa ideia não esteja completamente errada, depois da visita domiciliar que fizemos nesta semana passei a ver a coisa um pouco diferente.

Depois de tanto sobe, vira, dá a volta, desce e sobe de novo nos infinitos labirintos da comunidade, chegamos na casa de dona Belmira e seu Miguel no final de um beco sem saída. Fomos atendidos por um príncipe de 3 ou 4 aninhos que de pronto gritou aquele “ô vó!” gostoso de ouvir e logo nos colocou para dentro.

Enquanto se ocupava no fogão com o mingau de aveia e leite ninho do seu Miguel, dona Belmira tratou de derramar uma enxurrada de demandas sobre os visitantes.

                – Ele mija em tudo, eu passo o dia limpando lá em cima. Ô pai! Desce que o doutor quer falar com o senhor! Eu tenho depressão, doutor, tô com a pressão alta. Ele tá com o açúcar alto, meu filho, eu sei que tá. Ele faz no chão, daí a pouco vou limpar e tá tudo tomado de formiga. Desce aí, pai! Eu tomo remédio pra tristeza, tô dando pra ele dormir, porque senão num durmo. Filho deixa aí que a vó tá conversando. Olha, tá muito difícil, quem cuidava dele era minha sobrinha, ela se matou em janeiro. Eu não tô aguentando, tem que ver a pressão dele que tá alta, tô dando esse remédio aqui. Ô pai!!!

Enquanto seu Miguel descia, assistimos a esse monólogo confuso  de uma  idosa cheia de comorbidades, incluindo depressão, que junto ao marido desempregado, cuida do pai de 85 anos vindo de Belém para ficar com a sobrinha falecida recentemente.

Finalmente, com as mãos grudadas no corrimão e muita sorte segurando aquele chinelo quase solto no pé, seu Miguel sobreviveu à descida da escada sem acidentes.

De pequena, a sala de estar parecia ainda menor com a imensa televisão de tela plana de umas 50 polegadas e a escada de ferro íngreme e vazada. Mesmo assim, parecia ser o lugar mais longe que aquele senhorzinho seria capaz de ir com seu esqueleto cansado, a memória curta e a visão pouca.

Foi tentando entender até onde sua funcionalidade estava comprometida que descobrimos outro ingrediente que faltava para uma rotina mais ativa.

– Mas seu Miguel, o senhor fica na cama deitado o dia todo por quê?

– Ah doutor, é que falta coragem nas pernas.

(Foram atribuídos nomes fictícios e feitas adaptações visando o sigilo dos envolvidos.)

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