Questões sobre o não dito

por Mateus Queiroz


Tarde de clínica cheia e o consultório – com um residente e dois internos – parecendo
cada vez menor, chega uma mulher jovem, com roupa de academia, bonita, mas
visivelmente abatida. Na planilha aparece que estava em uso de PEP e tendo problemas
com isso. Na hora já imaginei o pior e tomei a consulta para mim. Visivelmente abatida,
começa a falar. Está no dia 17 de PEP desde o evento, mas vem passando muito mal. Já
fez uso de PEP uma vez 3 anos atrás, mas não tinha sentido tanto os sintomas quanto
agora. Seu olhar fundo dá uma pista de momentos trágicos que havia passado.
O residente digita a consulta em silêncio enquanto que a outra interna começa a
perguntar mais sobre o evento em si. A paciente evade uma, duas vezes. Na 3ª tentativa
tento fazer um sinal para ela parar com as perguntas sobre esse momento, mas ela não
percebe. Nem que eu estava tentando avisar e nem que a paciente provavelmente tinha
sofrido alguma forma de violência sexual.
Não dá outra. Suspiro fundo seguido do desabafo. A paciente diz ser acompanhante e
que a exposição aconteceu em um momento de trabalho. Fala que tentou perguntar para
o homem, mas que ele hesitou e não passou nenhum tipo de segurança para ela. E que
desde então morre de preocupação. De medo. Tem vomitado quase todos os dias e está
prestes a desistir do tratamento, não aguenta mais passar por isso.
Numa tentativa de mostrar os degraus que podemos alcançar no momento, pergunto se
ela acha que as coisas melhorariam caso parasse o remédio. As lágrimas vêm seguidas
de um silêncio quase ensurdecedor. Explico como o nosso corpo e a nossa mente são
altamente ligados e que momentos de muito estresse, preocupação trazem respostas no
corpo todo. O que não quer dizer que seja coisa da cabeça dela, mas que o já pesado
efeito da medicação acaba se multiplicando. Não expliquei mais a fundo pois ela me
pareceu entender. Na verdade, já parecia saber, mas a minha confirmação fez com que
esse fato não pudesse ser ignorado.
Conforme vamos conversando ela começa a se mostrar um pouco mais confortável na
consulta. Totalmente ciente da sua situação, mostro para ela a diferença entre os pontos
positivos de continuar por mais uns 12 dias com o tratamento contra os pontos
negativos e ela mostra mais disposição e confiança para terminar o tratamento.
Mas o tom não era de otimismo. Nem meu e nem dela. Senti que nesse momento o não
falado disse mais do que qualquer frase motivacional genérica que as vezes escuto do
residente para pacientes que fazem tratamentos longos. A verdade é que ela não tinha
motivo para estar otimista. As nossas ferramentas para ajudá-la paravam na PEP e
convenhamos que – apesar de ser sempre louvável a quantidade de suporte médico que o
SUS oferta a população – isso era no máximo um sintomático. Ela ia continuar na
prostituição. Continuar exposta a sabe-se lá quanta violência. Não achei dados da
situação brasileira, mas vi que as prostitutas francesas têm expectativa de vida 40%
menor que as demais mulheres enquanto que 85% dessas prefeririam ter outra profissão
(https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2013/04/prostitutaprofissional-ou-vitima-brasil-e-franca-assumem-opinioes-opostas.html). Muito
provavelmente os números brasileiros são piores.
Como trazer uma perspectiva para uma pessoa tão marginalizada? A faculdade me
ensinou que a PEP é composta por Zidovudina e Lamivudina por 28 dias e que pode
causar uma série de efeitos adversos, muitos dos quais ela estava apresentando. Mas
assim como durante a consulta, o não falado pode dizer mais do que qualquer outra
coisa. O problema não é a PEP, o problema não é o estresse. O problema é a miséria.
Em 5 anos a faculdade não quis me explicar, ensinar respostas ou opções que eu
pudesse trazer praquela mulher e suas olheiras. Não tentou em nenhum momento me
estimular para pensar nesse tipo de pessoa. Talvez porque a própria faculdade não
pensa, pelo menos não quanto deveria.
Isso sem nem entrar no mérito de como eu, coadjuvante dessa história, também não
estava preparado para lidar com essa situação. Lidar com as mazelas de uma população
que parece só existir para sofrer. Sofrer e ser explorada. Acho triste como chego nessa
reflexão, mas sei que o aluno genérico da faculdade de medicina da UFRJ não vai. Não
vai e provavelmente acha que Medicina da Família e Comunidade é o Ó. Mesmo sendo
um dos maiores investimentos que o poder público e a população (principalmente a
mais pobre por conta da injusta cobrança proporcional de impostos no país) realiza em
formação de mão de obra. Serve a quem? Faz questionar sobre o projeto de país que
vivemos.
Como dizia o grande vascaíno Aldir Blanc, uma das mais de 500 mil vítimas da
COVID-19:
O Brazil não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazil.

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