Narrativas

por Ana Paredes

Fachin pede apuração sobre operação na favela do Jacarezinho

Atender no Complexo do Alemão é:


Queixa principal: furúnculo.
Paciente do sexo masculino, 26 anos, negro.Meu nome é Ana, sou aluna do último semestre de medicina. Como posso te ajudar?
Coleto os dados da evolução clínica do furúnculo na região abdominal. Durante a consulta, o garoto comenta sobre a violência do Alemão. Abro espaço para escuta. Ele percebe que ouço atentamente, e essa conexão o permite sentir à vontade para relatar vivências um tanto pesadas do território. Vivências que sequer tenho coragem de escrever aqui, porque se o fizesse, seria como consumar de novo tamanha desumanidade.

Eu queria muito que vocês, do asfalto, vivessem por um dia o que a gente vive no morro.

“Devia ser por um dia o que eu sou há vinte anos”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Ver poça de sangue na porta de casa.

“Já vi a morte perto, um cano engatilhado”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Polícia mexer com a gente no caminho. Gritar com a gente do nada, ameaçar bater sem motivo. A vida do pobre que mora no morro não vale nada. Eu e cachorro é a mesma coisa.


Ao fim do desabafo, o furúnculo permanecia ali. Saio para pegar o carimbo do médico para a receita do antibiótico.
Retorno à sala e ele parecia ansioso para continuar falando de si. Prosseguiu contando um pouco mais de sua história de vida. Filho não planejado, frente à impossibilidade de a mãe o sustentar, em certos momentos da infância havia sido entregue a uma tia para que ela o criasse.

“E mesmo assim, tive que penar pra aprender
Que minha mãe não ia poder ‘tá lá pra me ver crescer
Tinha que trabalhar pra ter o que comer”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Eu nem sei se eu posso chamar ela de tia, de tão ruim que ela era pra mim. Eu sei que não é bom guardar mágoa das pessoas, mas ela me maltratava muito. Ela me dava lavagem pra comer. Só me deixava comer comida que já tinha estragado. Já me fez comer comida com lacraia, bicho. – disse, com cara de nojo. Um dia o marido dela me deu uma comida sem ser estragada pra eu comer escondido. Ela descobriu e me bateu muito.

“Eu já passei fome, já apanhei calado”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Sua raiva rica era mais eloquente que seu vocabulário pobre. Suas palavras tentavam externar tudo que sentia, mas falhavam. Havia ali um limite de vocábulos, mas não de sentimentos. Eu não ousava interrompê-lo. O pai, alcoólatra, não o amava.


“Não sei se dá tristeza ou ódio, não conseguir lembrar de você sóbrio”

O trecho ecoou na minha mente, mas me contive.

Passava por ele e fingia não o conhecer, apesar de viverem sob o mesmo teto. Eram constantes as brigas entre os dois, que chegavam à violência física.

Posso te falar uma coisa? Promete que vai ser assunto nosso?

Claro que pode falar.

Eu tô cansado dessa vida miserável. Não aguento mais não conseguir emprego, ser humilhado pelo meu pai.
Quando eu fico com raiva assim me passa muito pela cabeça de fazer merda.

Tipo o que? – Perguntei, mas já sabia a resposta. A intenção era que ele prosseguisse na fala, para chegarmos
juntos na conclusão que eu queria.

Ah. Me envolver. E depois que me envolver, mandar darem um jeito nele, pra minha vida deixar de ser esse
inferno.


“E eu ia pro crime, irmão
Se não fosse a confiança, do Pedro e do Felipão
Sem dinheiro, já dava pra vê o fim
Mas um me levou pra Liga e o outro fez as base pra mim”


O trecho ecoou na minha mente, e dessa vez eu não me contive.
A medicina que não está em protocolos batia à porta há alguns minutos, e, por fim, a deixei entrar.

Você conhece Emicida?

Não.


Posso te mostrar uma música?


Seu silêncio e seu olhar atento foram o sim. Coloco o vídeo de Ooorra no meu celular.
https://www.youtube.com/watch?v=p9JHGj_AhVE

“Direto vejo pai brincando com filho no parque, sinto inveja

Fico me perguntando tio o que que a vida fez comigo?
Sorrio pelos pivetes, acho da hora, olho pra baixo
tenho mó vontade de chorar, mas não consigo
Em segundos me vem vinte e poucos dia dos pais
‘Guarda presente fi, ele já não volta mais
Arrasta a cartolina com papel crepom
Amassa joga no lixo, porra, pior que esse aqui tava bom
Hoje, fico olhando na espreita
Vendo os moleque ai com pai mãe do lado e nem respeita
Devia ser por um dia o que eu sou há vinte anos
Pra vê se ‘cêis ia ‘tá na de trocar coroa pelos mano
Não sei se dá tristeza ou ódio, não conseguir lembrar de você sóbrio
Não vi as vadia nem seus aliado com o doutor no corredor
Implorando pelo o que há de mais sagrado!
Eu já passei fome, já apanhei calado
Já me senti sozinho, já perdi uns aliado
Eu já dormi na rua, fui desacreditado
Já vi a morte perto, um cano engatilhado
Eu já corri dos homem, bati nos arrombado
Quase morri de frio, eu já roubei mercado
Já invejei quem tem pai, já perdi um bocado
Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado!
E mesmo assim, tive que penar pra aprender
Que minha mãe não ia poder ‘tá lá pra me ver crescer
Tinha que trabalhar pra ter o que comer
Não ver seu filho aprender a falar, essa porra deve doer
Guentar madame mandar e ter que acatar
Aê ouvir teu bairro sussurrar (‘cê sabe, mãe solteira é o que?)
Ver seu tempo acabar, sua chance morrer
E no fim do mês ganhar, o que não da nem pra sobreviver
Me ensinou a não desistir rapaz
Miséria é foda, só que eu ainda sou bem mais
Maderite furado, cigarro, cheiro de pinga
Olha onde eu cresci
Onde nem erva-daninha vinga
Como cê vai sonhar com pódio?
Se amor é luxo e com a grana que nois tem só dá pra ter ódio
Coisas da vida, história repetida, algo assim
Com quatro anos eu já via o mundo inteiro contra mim
Eu já passei fome, já apanhei calado
Já me senti sozinho, já perdi uns aliado
Eu já dormi na rua, fui desacreditado
Já vi a morte perto, um cano engatilhado
Eu já corri dos homem, bati nos arrombado
Quase morri de frio, eu já roubei mercado
Já invejei quem tem pai, já perdi um bocado
Eu sofri por amor, eu já vi quase tudo chegado!
E o que eu sempre tive foi minha rima
O resto se foi, tipo trampo, amigo, mina
Eu nunca quis viver disso, nunca nem sonhei com isso
Eu tava acostumado: Rimar por hobby, trampar por uns trocado
E eu ia pro crime, irmão
Se não fosse a confiança, do Pedro e do Felipão
Sem dinheiro, já dava pra vê o fim
Mas um me levou pra Liga e o outro fez as base pra mim
Na fé, me pois no lugar onde vários quer nome
Foda-se todos, eu não quero mais passar fome
Amo isso, vou ser contribuinte
Assim ó escrever como quem vai morrer no dia seguinte
Vagabundo pirou nos flow a cada verso ouvia hoow!
Quando vi, o radinho tocou, gente querendo show
E agora, eu vou fazer virar com os meus
É real, o menino do morro virou Deus
Eu quase me perdi nas ilusão
Fui salvo, por ter sabedoria e pé no chão
Chamei uns de irmão, quando nóis era sócio
Pensei ter feito amigos, e tava fazendo negócios
Odeio vender algo que é tão meu
Mas se alguém vai ganhar grana com essa porra, então que seja eu!
E os que não quer dinheiro, mano é porque nunca viu
A barriga roncar mais alto do que eu te amo
Eu vi minha mãe, me jogar dentro do guarda-roupa trancado
Era o lugar mais seguro, quando a chuva levou os telhado
E dizia não se preocupa, chuva é normal
Já vi o pior disso aqui, ver o bom hoje é natural
E o justo, então antes de criticar quem ‘cê vê trampar
Cala boca e pensa em quantas história ‘cê tem pra contar
Falar que ao dizer a rua é nóiz pago de dono da rua
Desculpa, eu vivo isso e a incerteza é sua
Se você não se sente dono dela, xiu não fode!
E antes de escrever um Rap, me liga e pergunta se pode”

Quanta tensão pode caber dentro de um consultório?
Fingi estar conferindo se a receita estava certa, quando na verdade me congelava para não sentir tanto. Eu segurava o
choro, ele se entregava às lágrimas.
Conforme a música ia sendo dita, eu falava junto os trechos que lembravam as experiências que ele havia me
relatado alguns minutos antes. Repeti em voz alta quase a música toda, tamanho era o encaixe em suas vivências.
Ooorra é, para mim, um soco no estômago. Para ele, um grito de liberdade, é se fazer ser ouvido.

Desculpa, é que eu me emociono muito fácil. – disse, ao fim do vídeo.

Não tem motivo pra se desculpar. “Olha onde eu cresci, onde nem erva-daninha vinga”. Você reparou no que ele
disse? Você reparou na mensagem que ele mandou por essa música?

É. Não compensa muito ir pro crime, né.

Eu sei que dói a fome. Eu sei que dói a raiva que você passa com seu pai. Mas vai doer mais ainda ir por um
caminho que só tem duas saídas: a morte ou a prisão. Você acha que vai resolver a sua vida matar seu pai? Ter as mãos
sujas de sangue, carregar essa culpa pra sempre contigo.

Você tá certa – disse ele, reflexivo. Incrível, esse cara aí, em trinta minutos resumiu a minha vida.
Ele não tinha noção de quanto tempo durava um minuto. Os 4 minutos e 47 segundos do vídeo para ele foram trinta
minutos. Talvez tenha sido isso mesmo, aquele tempo tenha sido gigante por ter acolhido tantas reflexões e eu que não percebi.

Muito obrigada por me ouvir.
Talvez o único erro daquele garoto foi ter pensado que era ele quem mais tinha que agradecer por aquilo. Eu desfrutava de infinita gratidão pelos ensinamentos daquela consulta.

Eu que agradeço por você ter se permitido contar tanto do que sente. Não adianta eu curar o furúnculo se por
dentro tá doendo.

Tô até me sentindo mais leve. Muito obrigada mesmo.
Fazia muito tempo que eu tava guardando isso pra mim, mas não tinha pra quem contar. Eu sou muito… Como que
se diz? Solitário!
Prescrevo antibiótico: Cefalexina, 1 comprimido de 6 em 6 horas por 7 dias. Recomendo retorno em caso de piora. Digo que a porta do consultório está sempre aberta, mesmo que seja para desabafar.

A arte cura. A escuta cura. Talvez mais que Cefalexina.
Por que me dou ao trabalho de parir esta narrativa? Para lembrar que vale a pena a mania de ter fé na vida. Não
consigo enxergar num futuro breve o fim do genocídio no Complexo do Alemão. Não posso acabar com a guerra, mas
posso me valer da arte para entregar um soldado a menos para ela. A busca obstinada por um mundo melhor vale a
pena.


“É real, o menino do morro virou Deus”

Aguardo ansiosamente o momento em que esse verso vai se encaixar na vida dele.

O tempo é sua morada

por Arthur Fernandes

O Tempo é sua Morada [Vídeo] | Francisco el hombre, Frases inspiracionais,  Frases

Uma conversa sobre um tempo passado que não volta mais, um tempo futuro curtinho adiante e um tempo infinito entre esses dois. De tão maravilhoso, dizem que é chamado “presente”. Uma conversa entre uma professora de vida, que usou a própria morte como instrumento para ensinar ao jovem doutor como cuidar de gente. Aliás, “meu doutor não, porque tem idade de ser neto. Você é o meu amor!”.


“Trago no peito costuradas

Contas de memória fresca

Pão quentinho sobre a mesa

O cheiro sobe a escada

Acordo e não vejo nada

O tempo é sua morada”


– Já pensou como seria esse momento? Como você queria estar ou como queria que seu corpo estivesse?

– Ah, sim, né. A pessoa tem que morrer limpinha, bonitinha e cheirosinha. É o que que quero. Nada de grude e sujeira. A pessoa já vai morrer, e ainda ir fedendo, é demais, né não?!

“Trago na aba da minha saia

Costurada em zigue-zague

Café preto e um cigarro

Seu canto e gargalhada

Ecoando pela casa

O tempo é sua morada”

– E sobre sua família? Tem sido difícil para eles também, não é?

– Não deve ser fácil não…

– E você acha que eles têm condições de aceitar a sua morte?

– Oxe, mas se eu, que sou a vítima, tô aceitando, eles têm mais é que aceitar também! Nada disso de revolta. Anote aí: tem que mandar chamar tudinho e botar pra ficar aqui, segurando minha mão, me chamando de bonita e contando piada!

“Se o vento te levou, o tempo é sua morada

Se o vento te levou, o tempo é sua morada”

– Eu sei que hoje ainda não dá para ir para casa. Você gostaria de morrer lá?

– Essa Casinha aqui é boa, mas não tem nada melhor que a casinha da gente. Você entende, né? Ah, e quero morrer com meus bichinhos. Quando eu chegava em casa, meu periquito se animava, só faltava soltar um sorriso, de tanta alegria que tinha! Não o sei o que ele via… se era só eu mesma ou algo mais… mas bem, ele se alegrava e eu também!

“Não levo dor e nem tristeza

Ponho as cartas sobre a mesa

E a ferida cicatriza

Toda pena um dia passa

E o amor vira certeza

O tempo é sua morada”

– Está faltando alguém chegar para te ver?

– Tá sim! Minha norinha. Minhas filhas já estão por aqui, mas ainda falta ela, num sabe? A bichinha… é meu amor também.

– Entendi… e como você fica quando todas elas estão junto?

– Empanzinada de chamego!

“Se o vento te levou, o tempo é sua morada

Se o vento te levou, o tempo é sua morada”


– Ficou alguma coisa por dizer?

– Não… Eu já entendi tudinho que você tá querendo me mostrar com essa prosa. E é isso: eu nunca quis ficar pra semente mesmo! Todo mundo tem que fazer a passagem.

– E se pudesse imaginar sua passagem do seu jeito mais bonito, como seria?

– Você sabe que eu num sou boa com as palavras. Isso daí eu deixo pra você pensar! Mas ia ser feliz, né?

Para mim, seria assim:

O corpo, puído pelas agruras da vida, recuperando um pouquinho de energia e se renovando, das pontas dos pés aos últimos fios de cabelos brancos.

Os pulmões, combalidos pela fumaça dos anos, sacudindo a poeira e se enchendo de ar puro. 

O riso leve, fluindo solto, enchendo a casa e se misturando com os risos frouxos dos seus muito amados. Sua família. Seus amigos. Seus bichinhos. Até a sua passagem acontecer.

Sua celebração.

“Não vou esquecer

Não vou esquecer

Vou te celebrar

Não vou esquecer

Vou te celebrar

Não vou esquecer

Vou te celebrar”

Um xero!

Só uma dor de cabeça

por Rosiane Pinho

Ócio mais que perfeito: Cabeça cheia e coração vazio.

Ambulatório da saúde corporativa. Segunda-feira. 5 pacientes aguardando na recepção: 3 agendados e 2 encaixes.  

“Dra, você pode chamar a Paloma primeiro, o dela é um encaixe rápido. Está com dor de cabeça e não tomou nada, só queria um remédio”. 

– Pois não, Paloma. No que posso te ajudar hoje?

– Então, dra… Estou com dor de cabeça desde a manhã…

– Me conta mais dessa dor… Como ela é? E você já sentiu ela antes?

– Sinto minha cabeça toda pesada, aqui na parte da frente… Já tive algumas dores assim antes, mas fazia muito tempo que não sentia…

– E você acha que aconteceu algo de diferente que possa ter feito ela voltar hoje?

– Na verdade aconteceu, dra  (os olhos marejaram e veio um choro descontrolado). 

– Aqui tem alguns lenços se quiser, Paloma. Você gostaria de falar sobre isso?

– Sabe o que é… Perdi a virgindade há poucos meses com meu namorado e não estava me cuidando direito. Nesse mês minha menstruação atrasou – hoje faz cinco dias que está atrasada – aí fiz um teste de gravidez pela manhã e veio positivo. Estou muito nervosa, não sei o que fazer, nem por onde começar. Só sei que desde então minha cabeça está doendo assim. Fiquei com medo de tomar algo sem passar aqui porque pode fazer mal pro bebê, né? Eu quero cuidar dele, mas não sei nem quem procurar, que exames fazer. Tem tanta coisa na minha cabeça.

– E provavelmente esse monte de coisas na sua cabeça pode estar relacionado com essa dor, não acha? Em relação ao que fazer pra cuidar do bebê, pode ficar tranquila que estou aqui pra te ajudar. Se quiser pode acompanhar a gravidez aqui conosco e hoje mesmo já te dou a guia dos primeiros exames! Mas acho que não é um remédio que vai tirar essa dor daí – ele pode até ajudar, mas você precisa de um tempo pra respirar, processar a informação e conversar com seu namorado, né?!

– Pois é, dra… Não estou conseguindo nem me concentrar no trabalho desde que descobri.

– Então olha, depois da nossa consulta vou te acompanhar até a sala de medicação pra tomar um remédio e te dar o resto do dia de atestado, tá? Temos uma psicóloga aqui no ambulatório, e acho que seria importante você acompanhar com ela durante esse período também, caso você queira. 

– Nossa, dra… Não sabia que tinha tudo isso aqui dentro do meu trabalho. Se soubesse acho que a dor teria vindo até mais fraca (risos).

E assim um encaixe rápido para uma dor de cabeça virou a primeira consulta de um pré natal.

Ponta de faca

Por Aarão Carajás

Da vida não levo nada

Do jeito que a vida vem

Depois de fechar os olhos

Ninguém é ninguém

(Ponta de Faca)

Harmonia e Serenidade: O AMOR CURA

Durante a Residência de Medicina de Família e Comunidade rodiziávamos nos cuidados paliativos, foi lá que conheci dona Judite e seu amigo Zezo.

Judite estava em momentos finais de vida por conta de um câncer de pâncreas de evolução rápida que acabara por deixar seus familiares em estado de choque-paralisação-negação.

Ela possuía 2 filhos e 2 filhas, além de 1 neto e uma neta chamada Marcela (que era a pessoa que já havia saído desse momento de paralisação e que mais se comunicava comigo). Aos poucos fomos conhecendo os outros familiares através do genograma que Marcela ajudou a montar e para o qual recorríamos todos os dias como ferramenta para minimizar o estranhamento do primeiro contato e para favorecer uma possível criação de vínculo, o que não foi fácil de acontecer por conta do momento familiar para um “estranho” como eu querer fazer parte.

Com o genograma descobrimos que dona Judite foi uma batalhadora na vida. Criou os 4 filhos sozinha, era caminhoneira, depois motorista de empresa de refrigerante, e finalmente dona de pousada pequena, dessas sem muito luxo. Por também ter criado em algum momento os netos, esses tinham por ela um amor como que materno.

Dos filhos descobrimos que um havia morrido há 10 anos (o que provocou uma mudança importante no humor de dona Judite desde então) um havia ido embora para o Rio de Janeiro ainda novo, outra havia se mudado pra São Paulo ainda nova, e outra possuía o diagnóstico de esquizofrenia (Elisa, a única que morava com dona Judite). Nos chamou atenção o fato dessa primeira geração ter seguido caminhos tão distintos e resolvemos investir mais nisso, entendendo esse como mais um fator que dificultaria minha inserção nesse grupo.

A única filha presente no início de minhas abordagens era a de São Paulo. Dona Paula (que era mãe de Marcela), havia voltado temporariamente por conta da doença da mãe. Em nossa conversa inicial a senti bem fechada e respeitei isso, porém nesse primeiro momento ela me pediu uma coisa: que Elisa por conta da esquizofrenia não soubesse que a mãe estava morrendo. Me pediu justamente algo que em meu íntimo discordava por acreditar na possibilidade de pelo menos avaliar a chance de tentar. Se pelo entendimento de que o DSM (manual diagnóstico dos transtorno mentais) não define quem somos, quem seria eu para proibir tal direito?

Foi o que colocamos para a dona Paula na tentativa de mudar a perspectiva da situação. Nos responsabilizamos em dar a notícia para Elisa junto com a psicóloga do serviço e que haveria a necessidade do apoio familiar para que Elisa pudesse superar, independente do histórico de saúde mental. Pactuamos isso e senti meio como se estivesse em uma prova para ganhar a confiança dela.

Chamamos Elisa no outro dia e conversamos com ela, que reagiu com a tristeza natural, porém imbricada em uma serenidade que acalmou nossos corações. Após isso, Elisa se tornou presente e voluntária em participar dos cuidados terminais da mãe. Acalma sabermos que nunca será fácil dar essa notícia, e que não somos os culpados pela notícia que estamos dando.

O rio da vida seguiu seu curso até que dona Judite entrou em seus momentos finais de vida, que normalmente duram em torno de 48 horas. Nesse período a família oscilou muito nos pensamentos de negação, raiva, e pequenos flertes com aceitação. Parecia que uma âncora havia sido posta naquele leito, tal o peso daquilo que os familiares precisavam carregar.

No entanto, Judite não descansava. Oligoanúrica, sem se alimentar mais, creatinina elevada, de olhos fechados. 24,48,72,94 horas, e quando se vê (tal como Quintana), já havia se passado uma semana. Recorremos ao genograma revendo o possível imbróglio da primeira geração que a filha sempre se esquivava em conversar.

Sentamos para uma outra conversa em uma lanchonete, dessa vez só Paula e eu, abrimos o genograma na frente dela e colocamos nossas interrogações onde achávamos que só ela poderia ajudar, dizendo que aquele papel era um parco resumo da vida deles e o que ela achava da idéia de carregarmos dúvidas em nossa história. Ela então resolveu falar.

Disse que o irmão que foi para o Rio saiu de casa com 14 anos porque apanhava muito de Dona Judite, foi embora mal dizendo a mãe. Após 15 anos fez uma visita rápida a ela para depois desaparecer para sempre. Paula disse ainda que saiu de casa com 16 anos após ter apanhado muito também. Seguiu dizendo que a mãe a levou na consulta quando desconfiou da gravidez que gerou Marcela, e que quando o médico confirmou o fato, Judite se levantou e foi embora arrancando com o caminhão deixando Paula sozinha no consultório. O médico deu dinheiro para ela voltar para casa nesse dia. Após isso ela foi embora pra São Paulo tentar a vida. Conclui falando que a irmã tinha esquizofrenia por ter sofrido muito e nunca ter ido embora. Era um claro exemplo do duplo poder da morte que parece regar a estrada com terminalidade, mas também com reunião.

Indagamos por que Marcela gostava daquela senhora aparentemente tão dura e que tinha feito isso com os filhos, e ela me respondeu que com Marcela a criação foi outra, regada no amor e sem violência. Pedimos a opinião dela do por quê de tal mudança e ela concluiu que era pelo fato de Judite ter envelhecido. Devolvemos indagando se com o passar dos anos ficamos bons porque é um processo natural (não existem velhinhos maus) ou se é pelo fato de ressignificarmos nossas vidas tentando não cometer os mesmos erros do passado. Ela começou a chorar.

Sinto que o tempo que se seguiu após isso reestruturou aquela história, Paula contou sobre o medo de perder a mãe, que já a havia perdoado há muitos anos e que se estava ali era porque se importava muito com ela. Perguntei se Dona Judite sabia desse perdão, ela teve dúvidas. Pactuamos então de que nosso plano seria esse. Paula faria uma reflexão ao pé do ouvido de Judite, e que essa seria uma fala da família, de perdão do filho desaparecido, de assumir responsabilidade com Elisa e de perdão dela, Paula. Tudo pactuado, mas veio a dúvida: ela ainda teria a capacidade auditiva preservada naquele momento?

Nos dirigimos ao leito dela e perguntamos para os familiares que música Judite gostava de ouvir. A família disse: Ponta de Faca, do Zezo. Colocamos ela no ouvido da senhora e de seu olho escorreu uma lágrima. Filetes do rio que por ali margeava o momento.  Canal aberto para a chance.

O quanto de intensidade as expressões sopradas ao ouvido de Judite tiveram nunca saberemos, mas se a palavra tem o poder de libertar, aquelas trouxeram a alforria do espírito. Judite partiu poucos minutos depois de ter ouvido as declarações.

 Quando nos demos conta, vimos que a âncora não estava mais ali. Havia levantado voo, sendo carregada por balões.

Ponta de Faca – Música de Zezo

Eu queria saber o que faço pra agradar o mundo,
se é preciso da murro em ponta de faca ou não,
se não devo parar os meus passos na beira do abismo,
para ver uma estátua na praça ele era tão bom,
não queria saber dessa dor que eu sinto por ela,
porque sei que ela vive enganada nos braços de alguém,
quem me ver e nem pensa que um dia pulei a janela,
e andei apressado pensando que logo ele vem.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Se me vejo parado pensando nas coisas do mundo,
eu as vezes duvido que o povo tem a voz de Deus,
é que o homem se sente mais realizado,
ao invés de dizer parabéns ele fala cuidado.

Da vida não levo nada,
do jeito que a vida vem,
depois de fechar os olhos ninguém era ninguém.

Hoje vacinamos

por Eberhart Portocarrero Gross

Notícias de coronavac – Revide

Hoje vacinamos

O tio de um amigo de escola
Um senhor tatuado que não falava português
Alguém que me perguntou se eu era parente de uma atriz
A mãe de uma moça que, já saindo, se virou e gritou a plenos pulmões “VIVA O SUS, VIVA O SUS!!”
Casais juntos em tudo, até no dia de tomar a vacina
A primeira vacina da vida (de mais de uma pessoa!)
No braço esquerdo por causa do câncer no seio direito
Pode beber hoje?
Pode malhar hoje?
Gente que filmou para mostrar pros filhos
Gente que trouxe os filhos para filmar
Gente que chorou de nervoso
Gente que chorou de emoção
Cadeirantes
Confiantes
Desconfiados
Calados
Falantes
Demenciados
Sisudos
Sorridentes
Um pedreiro
Um procurador da República
Alguém que pediu pra levar o frasco e guardar para a posteridade (mas não podia)
Muita gente agradecida

Foi bem legal.

“VIVA O SUS, VIVA O SUS!!”

VAI FICAR TUDO BEM?

Por Arthur Fernandes

Brasil registra 90.504 novos casos de Covid em 24 horas, no dia em que  supera marca de 300 mil mortos | Coronavírus | G1

A porta de um consultório é aberta com força. Uma enfermeira só coloca a cabeça e grita “chegou um paciente saturando 36%, corre!!!”.
Poderia ter acontecido em qualquer pronto-socorro, em qualquer lugar, por qualquer doença. Mas aconteceu numa Unidade Básica de Saúde, no pior momento da segunda onda da pandemia de Covid-19 em Brasília, numa tarde de quinta-feira qualquer.

O relógio marcava pouco após as 13h, eu estava aguardando a triagem para atendimento de dois bebês com síndromes, cujas consultas foram marcadas previamente, além de uma mulher jovem para inserir DIU. Como eu disse, era uma quinta-feira qualquer.
Até essa porta abrir.
Entre a última frase da enfermeira e o fechar da porta, eu já estava do outro lado, correndo em direção à sala de sintomáticos respiratórios. O paciente estava na casa dos 30 anos, obeso, sem outras doenças. Havia apresentado febre há uma semana e, por orientação de um farmacêutico, estava usando o “Kit Covid” há cinco dias: ivermectina, azitromicina, hidroxicloroquina, zinco, vitamina D, vitamina C e dexametasona. Não procurou atendimento por equipes de saúde.
Nos últimos dias, apresentou piora cansaço e, naquele dia, piorou mais ainda. Chegou de carro, consciente, com fala entrecortada, acompanhado da família.
“Era só uma falta de ar… mas ficou ruim demais”, dizia.

Nessa hora, apertei o botão de emergência:

  • Evacuar a UBS: a redução de danos possível, considerando o alto risco de contaminação pelo paciente em relação aos demais que apenas aguardavam suas consultas;
  • Paramentação;
  • Destacar enfermeira e técnica em enfermagem devidamente paramentadas para auxiliar;
  • Acomodar familiares: desesperados, irmão e esposa entenderam que a situação era grave e começaram a acionar outras pessoas, como a mãe do paciente, uma senhora com doença cardíaca, que também se desesperou ao telefone;
  • Examinar o paciente e lhe explicar a situação: choroso, entendendo o risco que corria, pediu para se despedir da esposa, antes de ser levado ao hospital. Não entendia bem o que significava intubação orotraqueal, mas sabia que poderia dormir e não mais acordar;
  • Obter mais informações da família: não havia muito mais a acrescentar pois, infelizmente, foi uma evolução catastrófica de um caso que não só passou antes pelo sistema de saúde, como recebeu medicamentos sem indicação;
  • Instalar oxigenoterapia: a saturação não melhorava com cateter nasal e, com máscara, chegou a um máximo de 85%, ainda baixa demais;
  • Acionar o hospital de referência e o SAMU: por sorte, havia uma ambulância disponível nas proximidades, que chegou rápido;
  • Preencher burocracias para o transporte;
  • Notificar o caso e coletar exame do paciente: pelo mínimo direito ao diagnóstico, diante do caos;

Enfim, dentro da ambulância, partimos.
No caminho, tive um tempinho para lhe explicar quais seriam os próximos passos: admissão, novos exames, transferência para UTI e provável intubação. Ele respirava discretamente melhor e, ao mexer a cabeça, indicando entendimento do que ouvia, por vezes piscava os olhos, deixando escapar algumas lágrimas.
Chegando ao destino, após passar seu caso para a equipe, despeço-me.
“Você mora no meu território. É uma pena não termos nos conhecido antes mas, se Deus quiser, você vai sair dessa e ainda teremos uma consulta “normal”, combinado?”
“Combinado. Ô, doutor, muito obrigado, mas… o senhor acha mesmo que vai ficar tudo bem?”, ele pergunta, apertando minha mão, dentro da área vermelha, com os pacientes em estado mais grave por Covid-19.
“A gente vai acreditar nisso juntos”, foi o possível a dizer.
.
Do lado de fora do pronto-socorro, enquanto aguardava alguém da equipe me buscar de volta para a unidade, puxei conversar com o vigilante.
“A coisa tá feia, hein?”, disse.
“Moço, o senhor num tem noção. Esse pronto-socorro só falta explodir de gente. E o povo ainda tá aí no meio da rua, quando devia tá em casa”, ele responde.
“Pois é… e quando adoecem, infelizmente ainda encontram quem passa tratamentos sem comprovação científica”.
“O senhor tá falando do kit do corona, né? Conheço médicos aqui que nem o senhor, que também entende que não serve. Mas passa na televisão, né? O povo escuta”.
“Passa, e o pior, saindo da boca do presidente”.
“Fala não, doutor… eu votei nele, achava que não tinha outra opção, mas tô vendo que fiz besteira. Em 2022 não vou repetir isso”.
.
Ah e, obviamente, retornei à UBS: havia um paciente com diabetes e uma gestante de alto risco para atender. Com Covid, sem Covid, apesar do Covid, a vida continua.

Festa do corpo de Deus

por Isabelle Ramos

Adélia Prado, de corpo e alma – Literatura na Internet

Foto: Adélia Prado

Havia lido sobre o amor no poema que inaugurava a prova de português da quinta série, mas ainda não entendia muito bem aquela história de namorar um porquinho-da-índia. Aos 14 anos, Rafaela sentia-se diferente de suas amigas – gostava de jogar futebol e não via tanta graça em falar sobre os meninos bonitos da sala. Quando conheceu Marcelo, foi um grande alvoroço; ficava desconcertada ao ter que repetir que eram apenas colegas que jogavam ping pong no intervalo da escola.

Levou mais de um ano para que percebesse como era bonito quando ele sorria – os olhos semicerrados revelavam cílios longos que pareciam desenhados à mão. Subitamente o modo como seu cabelo rabiscava o vento depois de longas partidas tornava o dia mais agradável; e então já era sexta-feira, dois longos dias até a segunda, e mais duas intermináveis aulas sobre a história do Brasil até o início do próximo jogo.

O primeiro beijo foi inesperado; sentiu uma coisa na barriga que deslizava entre medo e euforia. Ao deitar-se naquela noite, tentava recapitular cada segundo da cena, mas era como contar os detalhes de um filme que assistira há muitos anos – só lembrava do sentimento, o gosto bom ao fim.  Rafaela manteve tudo em segredo até o dia em que foram ao cinema. A sala estava vazia e a tela era apenas plano de fundo para a paixão dos dois. Por um momento, assustou-se quando as mãos de Marcelo desciam por seu corpo, não sabia como reagir. A pele vibrava com o toque; era a primeira vez que vivia o prazer daquela maneira, acompanhada por outra pessoa.

Chegou em casa e correu para o quarto confusa sobre o que deveria sentir. Estava feliz, mas impregnada de culpa e vergonha. Como teve coragem de se desvalorizar daquela forma? Sua mãe dizia que Deus não permitia esse tipo de comportamento. Tinha certeza que havia pecado, mas não entendia porque pareceu tão certo. E agora? Como contaria a ela? Será que poderia engravidar? De repente, toda beleza da experiência transformou-se em pânico.

No dia seguinte, foram à Clínica da Família logo de manhã. Sua mãe reagiu com muita preocupação, queria que fosse examinada para saber se “já era moça” ou se precisava de algum remédio. Rafaela sentia-se doente, impura. Queria estar debaixo do fogão, onde não pudesse ser vista, como o porquinho-da-índia na quinta série. Só conseguia encarar os próprios pés quando sentou-se no consultório. Não imaginava, porém, que sairia dali com maior entendimento sobre seu corpo inteiro.

Como um tumor maduro

a poesia pulsa dolorosa,

anunciando a paixão:

“Ó crux ave, spes única

Ó passiones tempore”

Jesus tem um par de nádegas!

Mais que Javé na montanha

esta revelação me prostra.

Ó mistério, mistério,suspenso no madeiro

o corpo humano de Deus.

é próprio do sexo o ar

que nos faunos velhos surpreendo,

em crianças supostamente pervertidas

e a que chamam dissoluto.

Nisto consiste o crime,

em fotografar uma mulher gozando

e dizer: eis a face do pecado.

Por séculos e séculos os demônios porfiaram

em nos cegar com este embuste.

E teu corpo na cruz, suspenso.

E teu corpo na cruz, sem panos:

olha para mim.E

u te adoro, ó salvador meu

que apaixonadamente me revelas

a inocência da carne.

Expondo-te como um fruto

nesta árvore de execração

o que dizes é amor,

amor do corpo, amor.


Poema Festa do corpo de Deus, de Adélia Prado

O gosto amargo

por Karen Borges

INAPETÊNCIA - Definição e sinônimos de inapetência no dicionário português

Dona Divina*, 73 anos.
Fez uma cirurgia bariátrica há 10 anos e, desde então, não conseguia comer direito devido a um gosto amargo na boca. Ao entrar no consultório, percebi que estava magra excessivamente, algo que chamamos de Síndrome Consumptiva.Boa tarde, dona Divina! Como a senhora passou da consulta passada até agora?


-Ah doutora! Tenho passado muito mal. Fiquei internada, operei de uma úlcera perfurada e continuo com uma fraqueza que me impede de fazer qualquer coisa.

E como está a sua alimentação? Vi aqui no prontuário que a senhora não consegue comer direito há muito tempo…

Não mesmo. Tudo tem um gosto ruim, desde que passei pela bariátrica. Então eu não como!

Mas a senhora sente dor, desconforto ou é só o gosto mesmo?

É só o gosto.

Poxa, mas não tem na-di-nha que tenha um gosto melhor pra senhora?

Ah, doutora! Eu como muito bem quando faço canja.

Olha só como tem, então! E porque a senhora não faz canja mais vezes pra comer?

É verdade, né?

E o que mais? Feijão? Batata? Precisamos colocar mais calorias no seu prato.

Ah, feijão não me desce! Mas a-do-ro grão-de- bico.

Olha ai! Já temos mais um prato montado. A senhora gosta de couve?

Gosto! Também gosto de brócolis, salada, fruta …

Está vendo só! Em 1 minuto já montamos 2 refeições que a senhora consegue comer. Estou preocupada com o seu peso. Quero investigar se não tem mais algum motivo para a senhora emagrecer tanto, mas tudo indica que seja a sua alimentação mesmo. De qualquer forma, vamos combinar uma coisa? Eu faço a minha parte investigando por aqui e a senhora faz a sua se
esforçando pra comer direito em todas as refeições, sem pular nenhuma.

Combinado!

Além disso, tem mais alguma coisa te perturbando?

Tem sim… Meu marido vai ter que amputar o pé e não está aceitando. Ele está muito triste. Aí eu me preocupo cuidando dele e esqueço de cuidar de mim.

E assim a senhora também fica muito triste?

Ah, eu fico…

Eu entendo e me solidarizo muito pelo que está passando, mas a senhora precisa se cuidar pra conseguir cuidar dele. Nenhum remédio no mundo vai fazer efeito direito se o seu corpo não estiver bem nutrido.

Combinado! Vou cuidar de mim e dele.

Além disso, vou dar uma cartinha pra senhora levar ao posto porque preciso de ajuda para verem bem de perto como a senhora está tomando os remédios. A senhora consegue fazer isso?

Ah, isso tudo eu consigo!


E com um abraço bem apertado, um sorriso orgulhoso de vó, a dona
Divina se despediu.


No meio do caos que ocorre nos bastidores da nossa saúde, surgem esses encontros singelos relembrando o motivo de repetir, diariamente, a cada percalço: “você pode até me perturbar, mas mais forte ainda eu vou ficar”.
Acho que ela não sabe, mas hoje foi a dona Divina quem cuidou de mim.
*Nome fictício

Mãe

por Maria Carolina Mendes

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A barriga de menos de 20 semanas ainda não aparecia aos olhos curiosos. Respondeu acanhada ao meu bom dia, transparecendo um leve desconforto à minha presença. Sentou-se para a consulta pré-natal, respondendo diretamente aos questionamentos médicos levantados; não se deixou envolver de forma mais intensa, nem ao menos mantinha seus olhos nos meus. Contou que a gravidez não havia sido planejada mas que, apesar do inesperado, era muito bem-vinda – Eloá era aguardada com afeto.

Deitou-se na maca como pedi e mostrou o ventre em construção, pequeno como as primeiras raízes que aparecem em brotos de feijões algodoados na infância. Ainda evitava olhares, analisando o teto com o mesmo interesse que admiramos telas em branco espalhadas em um museu de arte moderna, procurando sentido no vazio. Eu tateava o pequeno feto aquecido em seu domo lacônico e pousava minha mão esquerda na convexidade fúndica, enquanto a mulher continuava a explorar interpretações para o concreto exposto na altura de seus olhos.

Foi após a tentativa falha de escuta dos batimentos cardíacos de seu bebê que ela me olhou pela primeira vez. Perguntei se estava tudo bem. “Na última consulta também não conseguiram ouvir”, disse em voz preocupada. Seu desconforto me fez assumir como obrigação o encontro dos galopes dados pela sua cria, e procurei ajuda – mais um par de mãos palpava a pré-existência de Eloá, que mais uma vez se recusou a nos mostrar seu coração através das incansáveis camadas de gel frio espalhadas por toda a topografia uterina. A mulher voltou a encarar o teto, dessa vez para esconder as lágrimas que se intencionavam a cair. O terceiro par de mãos apareceu para tocá-la, e me peguei dentro de uma grande sala museística rodeada de imagens confusas, me doando inteiramente àquela lasca de argamassa pendurada em caimento de renda, e somente em meio a uma antropofagia dadaísta fui capaz de ver a lágrima de Mãe ali representada, a lágrima que caía em frente a mim no mais puro realismo.

A enfermeira da equipe ainda delimitava o dorso de Eloá. E os braços. Os pés. Procurou a cabeça. Voltou a dedilhar o ventre que agora me pareceu enorme ao conter a incerteza que amor e morte trazem, andarilhos, em companhia um do outro; ao conter o amor incondicional que desconheço em vida, justamente o amor que presenteia a morte com tamanha relevância. Amor de mãe. Mãe é o artista do modernismo complexo que vemos nas telas em branco de museus renomados – a complexidade pode tentar ser compreendida por qualquer um disposto a se arriscar, mas apenas o artista conhece, de fato, o valor de sua obra.

Minutos depois, o cavalo finalmente galopou pelo sonar, cavalgando pelo caminho d’O Semeador em direção ao grandioso nascer do sol centralizado em pinceladas impressionistas. A lasca grosseira poderia ter caído em nossas cabeças como as lágrimas de Mãe que agora se esvaíam em forma de riacho pelas pedras de bochechas. “Como você está?”, a enfermeira perguntou. “Agora estou bem”, ela riu, “as outras têm a mão muito levinha”. Ela se levantou até a cadeira com os olhos marejados e os lábios curvados em um meio sorriso, e voltou a manter o olhar longe do meu. Depois de encerrarmos o prontuário, ela se foi com o registro dos 135 batimentos por minuto do coração de sua filha.

Sozinha, chorei. Chorei pelo medo que senti da possibilidade da morte. Chorei pela sensação de impotência trazida pelo sonar mudo em minhas mãos. Chorei pela dificuldade de me aproximar desta mulher, que mantinha distante até mesmo o olhar e as palavras. Chorei por perceber que é preciso aceitar nossa incapacidade frente a situações imutáveis. Chorei ao tentar imaginar a perda de uma mãe. Continuei a chorar quando o tum-tá tão cobiçado chegou à minha memória. E lá ele se manteve: Tum-tá. Tum-tá.

Fechei os olhos e sorri. Sorri ao me lembrar da mais bela das artes que pude encontrar em meu sonhar acordado com o teto do consultório: a harmonia entre amar e morrer.

Referência:
O Semeador, Vincent Van Gogh.
Arles, França, 1888.