Sobre criança, teimosia emuito mais além

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Por Mônica Lima  

 Uma das coisas interessantes na Estratégia de Saúde da Família é que, a medida que a gente se aprofunda na comunidade, os casos se tornam ainda mais profundos porque nossa visão sobre ele é muito maior do que meramente clínica, de um encontro fútil de consultório, ele rasga a pele e adentra as entranhas até do relacionamento familiar e comunitário.

   E quando a mãe leva a criança para atendimento dizendo que a professora não aguenta mais pois ela é desafiadora e não leva desaforo para a casa, é você confronta a mãe e pergunta se ela esperava que fosse diferente do jeito dela mesmo de levar a vida. Sabendo que a mãe, mesmo é aquela que provoca a vizinhança, que ameaça os professores, que chama para a briga física quem olha de maneira “torta” para ela. E nessa constatação você pode, com propriedade e conhecimento, direcionar a atenção para a forma como ambas enfrentam suas dificuldades, fazer propostas de mudança de comportamento.

   Ou outra criança que na mesma semana vem com a mesma queixa porém, de uma mãe que é contida demais, porém, em seu trabalho que as pessoas têm a capacidade de achar ainda que é uma “vida fácil” traz confusão e insegurança para o filho fazendo com que ele fique agitado, agressivo e que diz que quando se sente “humilhado”, partir para cima. Me conta um exemplo de o que é ser humilhado (eu pergunto), ele responde: por exemplo quando uma amiguinha pediu para ele sair de um determinado lugar. Ele foi com chutes e pontapés sobre ela. O olhar da mãe é perplexo diante de tanta irritabilidade do menino, mas também desconhece que todo o processo da vida dela possa pesar sobre o filho de alguma forma. O menino tem pesadelos, range os dentes, é sonambulo e a mãe e a professora não entendem porque ele dorme na sala de aula. No consultório,  o momento é de trazer a luz à base desses sintomas, pegar a raiz do problema, entender os sentimentos que são a fonte desses sofrimentos, porque fatos não nos faz sofrer, o que nos faz sofrer e adoecer são os sentimentos gerados por ele.

   Penso se isto seria possível em uma consulta de 5 minutos, ou se é possível ser feito por um sistema que entende que precisa ficar mudando o profissional de lugar e impede qualquer possibilidade de vínculo e de longitudinalidade. Vê a arte da profissão em saúde como automatizada e técnica apenas. Mas, ser profissional de saúde da família vai além desses limites, além das 4 paredes, além do exame físico, ele trespassa o paciente em seu passado e presente, em seus pensamentos e sentimentos, no que o tira de uma situação de equilíbrio transitório que a gente chama de saúde para uma perturbação que a gente chama de doença.

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Era apenas para ver o nascer do sol

Foto de Rodrigo Lima

por Romulo Alves*

Sábado se acabando. Junto com ele a festa do congresso sul-brasileiro de medicina de família e comunidade em Floripa. Subversiva, festa muito boa com músicas legais e pessoas divertidas. Vamos comer alguma coisa no posto de gasolina e depois ir pra praia do Campeche ver o nascer do sol?! Eu mais sete pessoas animamos. No caminho ao posto e durante o tempo que ficamos lá trocamos muitas ideias, nos apresentamos uns(umas) aos(às) outros(as). E dali começou a fortalecer um sentimento de amizade e afeto gratuitos. A MFC como sempre firmando vínculos e estabelecendo conexões.

“Vamos, gente, pra praia? Já são 5h30!”, falo pra nos apressarmos e irmos logo à praia. Estava ansioso pra ver a paisagem. E assim fomos munidos de muito carinho uns(as) pelos(as) outros(as). Chegando lá continuamos conversando, ouvindo música, nos amando, abraçando, contemplando o céu e o mar. Éramos a gente somente. Nós e o mar…

O dia foi nascendo e junto com ele a praia começou a ser ocupada por outras pessoas. Um olhar estranho ali, outro acolá, mas não ligamos e continuamos deitados (as) na areia e conversando, rindo, nos conhecendo. Foi passando o tempo e alguém teve uma ideia genial. “Vamos tomar um banho no mar!?”, uma das gurias fala bem animada. “Vamos todos (as)!”. “Mas não estamos com roupas de banho!”. “Ué? Não tem problema! Vamos de calcinha, sutiã e cueca mesmo, não tem problema algum, gente!”. Assim fomos, água gelada, mar um pouco revolto, sol tímido ainda brincando de esconde-esconde com as nuvens. Brincamos, jogamos água um(a) no(a) outro(a), contemplamos aquela imensidão…

Ao voltarmos à praia, corpos molhados, friozinho na pele, Vinícius me pede um abraço. “Está frio, Romulo, me abraça”. E assim o fiz. Rapidamente percebemos uns caras que estavam de longe apontando para nós. Vinícius fala que estão comentando sobre a gente. Fico indignado e digo a ele que não vamos nos largar, vamos continuar no abraço aquecedor e também tomo mais uma atitude: dou um beijo nele.

De repente esses caras descem para o nosso rumo e começam a nos agredir verbalmente. Falando que a praia é deles, que não tinha problema se a gente gostava de dar o cu. Mas que a gente tinha que se vestir naquele instante, porque a mulher dele estava descendo pra praia e não queria que ela visse essa pouca vergonha. Na hora as demais pessoas que estavam conosco começaram a defender a gente dizendo que ninguém ia se vestir, que eles não eram donos da praia e que estavam sendo, mesmo eles negando veementemente, bastante preconceituosos.

Mistura de indignação, perplexidade e constrangimento, vi que estavam descendo mais dois caras. E os que já estavam nos insultando começaram a aumentar mais ainda o tom de voz e a feição de ódio. Nesse instante percebi que nossos argumentos estavam em desvantagem e seriam em vão com aquelas pessoas.

Continuaram as ameaças e agressões verbais. Eu já tinha colocado a camisa e estava pegando a calça na areia, quando de repente eu ouço “já falei pra ir embora, viado!”. Ainda com o corpo inclinado para o chão, olho para a frente e num piscar de olhos só consigo ver o olhar de ódio de um dos caras vindo ligeiro para o meu rumo e me acertando em cheio um soco em gancho que atinge todo o lado direito do meu rosto.

Pronto. Estava liberada a licença social para eles começarem a agredir mais uma colega e um colega. No mesmo momento outras pessoas que estavam próximas encorajaram-se para também vir nos agredir. Atordoado ainda com o golpe, perco meus óculos na areia e a visão direita embaçada. Começo a me desesperar, “e se tiverem alguma arma com eles?”. E o medo cada vez mais se apoderando de mim. Chamo todo mundo para nos distanciarmos. Alguém liga pra polícia. Chegam em 10 minutos. Perguntam o que houve. “Estávamos nos abraçando quando tudo começou!”, disse Vinícius. Um policial retruca: “mas então vocês se abraçaram para provocar eles?”. Não acreditei no que ouvi. Agora a culpa de termos sido agredidos por uns escrotos foi nossa?!?

“Queremos ir lá para mostrar os agressores!”, porém os policiais recusaram, usando a desculpa de que seria perigoso para a gente. Eles estavam com duas viaturas. Inacreditável. Mas não podíamos obrigar eles. Fomos para a delegacia mais próxima. Prestamos depoimento e registramos os boletins de ocorrência. “Queremos fazer exame de corpo de delito”. “Somente em horário comercial e de segunda a sexta”. “Não é possível isso!”. “Sinto muito, mas são as normas. Para se fazer exame de corpo de delito via plantão policial, os PM deviam ter levado vocês ao local e terem pegado os responsáveis pelo ato violento”. “Mas os PM não deixaram a gente mostrar os agressores para serem pegos como flagrante!”. “Eles agiram de forma errada”.

E assim a indignação continuou a crescer, junto com a sensação de impotência perante esse órgão repressor e pouco efetivo quanto ao combate às opressões na sociedade. “PM para quem? O que ou quem ela protege?”. Fico refletindo sobre tudo isso, mas sem nenhuma resposta. Vou embora da delegacia com lágrimas nos olhos, pensando sobre o ocorrido…

Um abraço e um beijo, símbolos que demonstram afeto e carinho. Um abraço e um beijo que fizeram meu rosto ser maculado. Será que não posso mais demonstrar carinho e afeto e ser realmente quem eu sou na sociedade? “A placa de censura no meu rosto diz: NÃO RECOMENDADO À SOCIEDADE”. Mas não deixarei isso me reprimir ou deixar de me fazer lutar todos os dias contra a homofobia.

Terão muitos abraços e beijos SIM!

E ainda quero ver o nascer do sol.

 

* Romulo Alves é MFC em Brasília.

Eu não durmo no hospital

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Por Maira Beatriz Carrozza*

Eu não trabalho no hospital 24 horas por dia, na verdade, minha carga horária dentro de um pronto socorro não ultrapassa 12 horas por semana.

Embora eu tenha sim passado algumas noites no hospital, na maioria dos dias eu durmo no conforto da minha cama.

Não quero desmerecer meus colegas que passam longas horas exaustivas no turbulento ambiente de uma emergência, na verdade tudo isso faz parte do cuidado da uma rede de saúde.

E por falar em rede de saúde, vou pedir licença a esses colegas para focar no nível de atenção primária. Para os leigos ou os não tão leigos assim, quando se fala em níveis de saúde, tem-se a divisão: atenção primária, atenção secundária, atenção terciária. De uma forma bem sucinta e prática, a atenção primária é responsável por toda parte de prevenção e cuidado integral do indivíduo, sendo ela representada pelas estratégias de saúde da família.

É numa dessas aí que eu trabalho. Aprendendo sempre que cada um que eu atendo é único. Tem seus sintomas, seus próprios entendimentos e sentimentos sobre aquele sintoma. Está inserido numa família única que faz parte de uma comunidade única, com características territoriais e epidemiológicas particulares.

E, apesar de eu não trabalhar integralmente em um hospital, muitas vezes eu vou no hospital visitar meus pacientes que precisaram ser internados. Divido com eles a angústia de sair do conforto do cantinho deles que é tão deles mesmo.

Eu não tenho uma rotina exaustiva dentro de um pronto socorro, mas em todas as minhas consultas eu falo com meus pacientes sobre a exaustão e a angústia que eles têm de se sentirem doentes.

Eu não durmo no hospitalEu, na maioria das vezes, tenho o conforto da minha cama pra dormir. E todos os dias quando deito, penso nas peculiaridades de cada um que atendi, com seus sentimentos, suas limitações, suas vontades e dificuldades… e sei, que pelo menos um pouquinho, fiz a diferença no dia de alguém. Mas eles… ah, eles fazem toda diferença pra mim!

E com todos esses pensamentos, pego no sono.

 

  • Maria Beatriz é residente do 1 ano de MFC em Puso Alegre e compartilhou com  o blog seu Causo. Caso queira também compartilhar o seu causo, envie para causosclinicos@gmail.com
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Livro Causos

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É com grande satisfação que o Causos Clínicos lançou seu livro em outubro de 2018.

Ele está com 50 Causos selecionados pelo grupo, que representam a complexidade e a beleza da Medicina de Família e Comunidade e seus percalços como graduando, residente, médico e equipe.

O cuidar da pessoa também é cuidar da equipe, cuidar dos profissioanis, cuidar de quem cuida e o livro permite que avançemos nesse caminho.

Também é uma forma de compartilhar e alcançar a nossa especialidade outros espaços e campos, levando a mesma para o conhecimento dos mais diversos públicos.

Caso queira adquirir um livro, pode encomendar pelo e-mail, ou fazer o depóstio e enviar o comprovante para causosclinicos@sbmfc.org.br

Grupo Causos Clíncios

Desejo de um papel…

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Hoje vou contar sobre dona Hermelinda, uma mulher de 62 anos, maranhense do interior, firme na voz e nos passos. Já veio para Ribeirão Preto e voltou para sua terra natal diversas vezes, não consegue ficar muito tempo longe de sua “terrinha”, devido a isso, sua diabetes e pressão nunca tiveram um controle e um cuidado ao longo do tempo, porque todo médico muda sua receita. Voltou para cá dessa vez porque tinha um machucadinho no nariz que não sarava e também porque para conseguir consulta lá é muito difícil, precisa pegar um ônibus para João Pessoa toda vez que tinha algo mais complicado, dizia ela.
Infelizmente a lesão era certeira, um câncer de pele que devia estar crescendo já a um tempinho…
Converso com ela sobre o machucadinho, sobre a necessidade de ir para uma biópsia e provável cirurgia, e isso poderia demorar alguns meses até que tudo se completasse..
Sua resposta, com voz firme, mas olhos marejados, trêmulos..
 – Doutor, eu odeio viver aqui, eu sou feliz lá na minha terra, na minha cidade, onde tenho minha casa, tenho meu trabalho, eu trabalho como catadora lá sabe, consigo andar pelas ruas, conheço cada cantinho da cidade, aqui não consigo sair de casa com medo de me perder.
Mas se o senhor  falar que eu tenho que ficar aqui para operar o nariz, porque eu sei que vai ser muito difícil por lá, eu fico. Crio raízes aqui, fico firme aqui. Me tranco em casa, porque confio em você, conto nos médicos daqui.
Mas se o senhor falar pra eu ir que eu não vou morrer disso, eu vou hoje mesmo para não mais voltar.. Porque aqui não é o meu lugar.
Tudo que eu lhe peço é um papel escrito o que eu tenho, que eu não vou morrer e que eu posso ir embora…
Eu deixo isso nas suas mãos doutor, o que você decidir eu faço…
Minha cabeça deu um nó, um daqueles bem apertados. Qual o meu poder, quem sou eu, o que sou eu para definir sobre a vida de outro? Para definir entre a felicidade e a biologia? Para falar olha fique que vamos cuidar desse câncer e de todo o resto (menos de sua felicidade…) ou vá e seja feliz, volte a viver o que sempre viveu…
Prefiro não fazer essa escolha.. vamos conversar com seus filhos e decidimos todos juntos, pode ser?

Eu fiz totô!

barreiras

 

Por: Rômulo Rocha*

Ele só tinha dois anos de idade e confesso que foi difícil imaginar como eu poderia ajudar aquele pequeno garotinho a superar a primeira dificuldade de sua vida: constipação intestinal.

No início, fiquei bastante resistente, pois achei que o profissional mais indicado para tratar do assunto não seria um Psicólogo. Acontece que depois de passar por alguns especialistas, nosso pequeno, que defecava a cada duas semanas e ainda com ajuda de supositório, havia agora desenvolvido um medo a mais: pessoas com jaleco branco.

Aceitei o desafio.

No primeiro encontro, já com uma vestimenta adequada para nosso rapaz, tornei-me o Pofessô Rômu. Aprendi a construir casinhas de LEGO, fui jogador de futebol, desenhista, super-herói, palhaço, caminhoneiro, policial e até piloto de avião. Cada encontro era uma aventura.

Até que numa manhã, enquanto sobrevoávamos juntos a salinha com nossos super-jatos de papel, ele apertou forte a minha mão, olhou-me com um olhar de medo e disse:
– Eu quero o papai!
Eu quis chamar o seu pai, mas antes que eu levantasse, ele apertou novamente a minha mão, e, de repente, com uma carinha de alívio, começou a gritar:
– Pofessô Rômu, eu fiz totô!!! Eu fiz totô sozinho, pofessô Rômu!!!

Ele repetiu isso por mais algumas vezes até levantar-se, abrir a porta da salinha e mais rápido que nossos super-jatos, sair correndo para contar a notícia ao pai e toda clínica.

Foi difícil não conter o riso vendo aquela cena, mas alegria maior foi poder contribuir para, talvez, a primeira conquista da vida daquele rapazinho.

Não importa quão grande ou pequena, simples ou complexa, seja uma limitação, quando temos uma relação de confiança e cuidado, quebramos barreiras. Um garotinho de dois anos me ensinou isso.”

 

*Rômulo é psicólogo e auscultador de estórias.

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Agora o Causos também tem um livro impresso!!

Hoje eu não consegui escrever

por André L. Silva

Hoje eu não consegui escrever
Quando escrevo, encaro o texto como um processo artesanal. Entendo letras, frases e parágrafos como pontos de uma grande costura ou bordado, como de um manto de monge. Pode levar minutos ou semanas. O processo é a grande magia.
Muita coisa aconteceu comigo em menos de um ano. Novo trabalho em uma clínica de Atenção Primária, nova universidade onde ensinar, o começo de uma caminhada como monge zen… tanta coisa aconteceu, tantas possibilidades e quantas histórias surgiram!
Era sábado, e eu estava a decidir qual história escrever. Estava em dúvida entre Ângela, aquela moça de um coletivo feminista em crise de ansiedade pela onda de violência nesses tempos hostis de eleição… ou quem sabe Amanda, aquela adolescente que tentou suicídio e estávamos a conversar sobre conflitos familiares e internos… ou sobre aquele casal, Pedro e Laura, que desejava muito engravidar e está em luto após mais uma perda gestacional…
Enquanto as ideias pulavam serelepes na minha cabeça raspada e no meu bloco de notas, lembrei que precisava ir no mercado comprar umas coisas para um aniversário à noite, além do presente para o aniversariante, claro.
Fui eu com a minha careca e meu samuê (roupa de prática zen, geralmente preta)… feitas as pequenas compras sem maiores surpresas – só a pressa em pagar os sacos de gelo e levar logo para casa para não derreterem.
Fui para a fila no mercado de boas, com minha careca, meu samuê preto e meus fones de ouvido tocando Gal Costa.
Na minha frente, dois homens concluíam suas compras, com seus músculos, tatuagens e suas camisetas de jiu jitsu. Depois vi que um deles, o mais baixo, tinha um adesivo de um determinado candidato à presidência. Até aí, nada demais. Porém, do nada, esse homem mais baixo começou a me encarar – e pelo olhar óbvio que não era de cantada haha – , e também começou fazer sinal com a cabeça do tipo – vai encarar?
Fiz cara de samambaia (uso esse termo com frequência – que cara que tem uma samambaia?), e esperei minha vez, estático. O outro homem saiu, e esse cara parou em frente ao caixa e começou a fazer sinal do tipo – vou quebrar sua cara (falando baixinho e socando a mão).
Eu discretamente avisei à moça do caixa que também percebeu e de pronto chegaram seguranças do shopping onde fica o mercado e convidaram o cara a sair. Ele ficou tipo fingindo que não estava fazendo nada, aí começou a fazer escândalo até ser retirado. No meio da sua ira e de seus gritos, ele solta um “esses degenerados vão sumir do mapa!”
Tive que ser acompanhado por seguranças até o carro. Escoltado, como se tivesse cometido algum crime. Entrei no carro com as compras como em transe, talvez como uma samambaia.
Foi às 13:30 de um sábado de um mercado lotado.
Cheguei em casa e não consegui esboçar reação nenhuma. Guardei as compras ainda em transe, como uma samambaia.
Ao parar sobre meu caderno de notas, a cena começou a reverberar na minha cabeça. “Degenerado”. Minha cabeça raspada é degenerada? Meu samuê preto é degenerado? Minha religião de não violência e harmonia com todos os seres é degenerada? As pessoas que atendo são degeneradas? A forma de amar das pessoas que atendo é degenerada? A cor da minha família é degenerada? Quem ou o que é degenerado ao ponto de sumir do mapa?
As músicas e as poesias todas sumiram da minha cabeça raspada. Só consegui lembrar e finalmente escrever dois artigos do Código de Ética Médica:
“É vedado ao médico:
Art. 23. Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto.
Art. 25. Deixar de denunciar prática de tortura ou de procedimentos degradantes, desumanos ou cruéis, praticá-las, bem como ser conivente com quem as realize ou fornecer meios, instrumentos, substâncias ou conhecimentos que as facilitem.”
Sobre o bloco de notas, chorei muito. Desculpe, Ângela. Desculpe Amanda. Desculpem, Pedro e Laura. E me desculpem, amigos do Causos Clínicos, de quem eu recebi tanto amor e apoio. Desculpe, irmão do Henfil. Desculpem Marias e Clarices.
Hoje eu não consegui escrever. Prometo tentar até o fim. Por mim, por nós, por todos os seres.
XXX
Músicas que inspiraram essa história mais real do que nunca, que impedirão que as minorias se curvem:
  • Felicidade – Marcelo Jeneci
  • A paz (Leila IV) – Zizi Possi
  • Aos nossos filhos – Elis Regina
  • Tempo de Pipa – Cícero
  • Vagalumes Cegos – Cícero
  • Cordão – Chico Buarque
  • Quase sem querer – Roberta Campos
  • De toda cor – Renato

Playlist atualizada: https://open.spotify.com/user/12149067289/playlist/19A1B37g1lkTQFD9UDJjfQ?si=EZavZV0BQJG7raaa-_qYmQ