Qual o nome da medicação?

Listening
Por Thais Façanha
   Era um desses inícios de tarde nublada e logo os companheiros de jornada na Central de Regulação começaram a se articular para sair para o almoço em bando. Neste dia fomos só três. O destino escolhido, com certa dúvida ou questionamento “fitness”, foi aquele restaurante-boteco que conhecemos pelo nome do garçom mais famoso: Caubi.
   O “Coração de Maria” fica numa rua ao lado do Hospital Souza Aguiar e serve os melhores PFs e refeições a la carte da sua modalidade pé-sujo. Desta vez nem foi difícil sentar… O que nos atendeu conseguiu captar a bagunça que a gente queria do cardápio: sobrecoxas desossadas para duas, um bife para o senhor, purê de batatas e saladas para o trio.
    Enquanto esperávamos a comida, chegou a limonada e notei que tinha escolhido me sentar ao lado de uma porta de vidro que normalmente é fechada, mas estava aberta para a calçada. Pensei comigo em não dar mole com celular e carteira, porque naqueles arredores, apesar dos militares e do prédio de Direito, acontecem muitos furtos perto do Campo de Santana e da Central do Brasil.
   Não demorou muito para alguém se aproximar e começar a interagir. E eu, com essa mania de dar ouvidos às pessoas na rua e fazer contato visual, entendi que o senhor de pele mais morena que a minha, cabelo e barba brancas falava meio arrastado, me parecendo um déficit cognitivo, a princípio.
   Começou uma daquelas histórias tristes, de que perdeu alguma coisa (ou tudo) numa cidade distante (Petrópolis, no caso) e que precisava de precisamente R$4,50 pra comprar remédio pro filho. Não sabendo ele que tenho o espírito de médica de família, o dom de ouvir (e cavucar) histórias e procurar ajudar e, às vezes, desconfiar e desarmar argumentos, devolvi a pergunta para saber qual era o nome da tal da medicação tão necessária. Acho que ele não esperava, né?
   Nesta altura da conversa, geralmente as pessoas ou dão o dinheiro pra botar o pedinte pra correr ou dão uma negativa sem muita explicação. Mas daí ele meio que se enrolou pra inventar algum nome de remédio… Ou será que não lembrava mesmo? Nunca vou saber. Então, olhando nos olhos dele, eu disse, que se era pra comprar remédio, que não precisava, que tinha um posto de saúde ali perto, que procurasse e contasse o problema que seria ajudado, sem precisar pagar pela medicação, que tinha direito pelo SUS.
   – “A senhora é enfermeira? Posso te procurar lá?”.
   Respondi que trabalho com Saúde, mas não no posto… Incentivei mais uma vez a procurar por atendimento… Ele estendeu a mão, eu apertei firme. Duas vezes. Se eu conseguisse transmitir aqui a mudança do semblante dele, o sorriso que ele tentou esconder ressaltando que é “banguela”… Eu lhe disse que sorrisse porque era bonito e que ele só tinha que mandar fazer uma “perereca”. Aí ele riu mais.
   Tava na cara que era uma daquelas histórias mentirosas de rua… Mas percebi o encanto e a perplexidade dele ao ter alguém simplesmente lhe dando atenção, fazendo perguntas, devolvendo algumas possíveis soluções, olhando no olho e apertando sua mão.
    E daí, pra finalizar, com o seu dedo indicador, ele apontou seu antebraço como que mostrando a cor da pele e disse: “A senhora não tem racismo não, é?”. Eu disse que não! “Olha aqui o meu cabelo, rapaz!”, apalpando meu crespo black mais pra cima do que nunca.
E lhe desejei boa sorte e que fosse com Deus…
Thais Façanha
 5/12/2016
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Anonimato

por Bruno Pessoa

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Como médico de uma comunidade, sempre gosto de privilegiar a economia local: compro o almoço numa vizinha da rua do posto de saúde, um cosmético na tia da revistinha, uma sobremesa na menina que faz dudu em casa para complementar a renda. Talvez você não conheça “dudu”, é porque dependendo da cidade ele pode se chamar de dindin, dadá, sacolé, flau, chup-chup, geladinho – essa é a palavra que tem a maior variação regional que eu conheço. Onde eu estava mesmo? Na economia local.
Pois bem, há um ano e meio estou trabalhando em um novo bairro. Há um ano e meio um comunitário, que mora na casa vizinha ao prédio da unidade de saúde lava meu carro. O meu e de outros funcionários do posto. Praticamente todos os dias o avisto no posto. Nos dias em que chega água da distribuidora, ele aparece na extremidade do corredor e faz sinal positivo: a esse código entrego a chave. Dia desses ele estava na unidade, mas não tinha água na rua, achei estranho mas pensei: deve ter vindo conversar com o pessoal na recepção. Saio apressado do consultório, estava uns 30 minutos atrasados, ele se levanta e diz:
– Doutor, hoje eu vou falar com você.
– Espere um pouco que eu estou atendendo.
– Mas eu tenho hora marcada.
– Então eu já-já te chamo, antes preciso chamar uma pessoa. E grito: MANUEL!
Ele responde:
– Opa, sou eu mesmo.
Poxa, pensei comigo mesmo. O nome dele é Manuel, como eu não sabia? Ele lava meu carro  toda semana e eu não sabia o nome dele. O nosso carro pode dizer muito sobre nós; provavelmente ele conhecia muita coisa sobre mim: as “gordices” que como enquanto estou dirigindo; as roupas e brinquedos das crianças espalhadas dentro do carro; pelo número de cadeirinhas, sabia que tenho dois filhos; sabe qual a estação de rádio que eu gosto de ouvir; enfim, quantas intimidades nosso carro não pode revelar. E eu não sabia seu nome.
Começamos a conversar. A consulta era preventiva, nada de doenças. Pede exames de próstata e insisto em dizer que cuidar da saúde é muito mais que exames. Tento introduzir uma investigação sobre alcoolismo: as pessoas da unidade diziam que com o dinheiro da lavagem do carro ele “enchia a cara”. Ao que ele diz:
– Sabe o que é saúde doutor? Saúde é ter um emprego, é ter uma família, é poder se sustentar. Faz quinze anos que eu vivo de bico. Até carteira de motorista eu tenho, mas não aparece nada, se não fosse pelos carros que eu lavo, eu não teria dinheiro nem pro de vestir.
– A situação está mesmo difícil. Tomara que a gente saia dessa  crise (mas pensava: com esse governo eleito, está difícil!). E o senhor mora com quem, divide as contas com alguém?
– Eu moro com minha irmã. Na verdade cada um tem sua casa, mas é no mesmo terreno. Na verdade era uma casa só, que a gente passou um muro no meio e dividiu. Antes eu dividia minha parte com um irmão que foi embora: ele deixou uma cômoda e uma televisão, e tenho minha cama.
– Mas o senhor tem filhos?
– Tenho 2. Fui casado, faz 15 anos que me separei. Desde então eles não querem nem saber de mim. Desde esse dia que minha vida está assim.
Entreguei os exames solicitados, dei um abraço e nos despedimos. Engoli seco. Fiquei pensando na solidão daquele homem que tem a idade de meu pai. Fiquei pensando que eu sequer sabia  seu nome, que eu não conhecia nem a superfície da sua história…

Luto Menstrual

por Renato Guimarães

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– Pelo amor de Deus. Que calor é esse!

– Oi?

– Não tem um remédio para esse negócio de menopausa?

– Como assim?

– Não aguento mais esse calorão! Esse negócio é muito injusto! Como que ela vai embora do nada?

– Você passa quase 50 anos com ela. Custa a se acostumar e de repente ela vai embora sem dizer tchau.

– Como assim?

– A menstruação! Tu se acostuma com ela. Aí ela some do nada. De verdade, eu sinto um vazio. Não estava preparada. Os médicos não conversam dessas coisas com a gente. Não nos preparam para isso.

– De fato, é comum mulheres terem uma sensação de perda da feminilidade com o fim da menstruação.

– Exato! Até para mim, que sou gay, parece que falta alguma coisa.

– E ela costuma ir embora e deixar a prima no lugar, que nem sempre é tão legal!

(Risadas)

– Vocês precisam conversar sobre isso com as mulheres. Estou vivendo um luto menstrual.

Uma conversa no corredor que foi mais ou menos assim.

Dona Rita

violencia-contra-mulher

 

Por Jéssia Maia*

“Se não fosse a Vó Maria meu cruzeiro se queimava, ai ai meu cruzeiro se queimava.”

 

Toda vez que eu via Dona Rita Maria meu estomago doía. Quando era na agenda de visitas eu já levantava com o pescoço cheio de nó. Quando era na fila da escuta já sabia que a manhã ia ser longa. Com Dona Rita eu me sentia pequenininha. Ela entrava e todas as minhas certezas caiam por terra.  Eu entrava na casa dela e sentia a minha maleta vazia. Toda a medicina do mundo era minúscula perto de Dona Rita.

Rita era uma menina bonita, irmã de muitas outras meninas bonitas. O pai de Rita um dia depois de muito beber decidiu que ela já era mulher o suficiente para se casar com um de seus amigos de bebedeira. Um dia o pai saiu de casa e deixou a porta aberta para que o velho amigo entrasse na vida de Rita.  Ela me conta que ficou grávida dezoito vezes, treze vingaram. Teve todos em casa, algumas hemorragias, infecções pós-parto. Não tinha tempo de desmamar um e já carregava outro no colo. Nunca teve escolha. Rita arou a terra, plantou quando tinha de plantar, colheu quando dava pra colher e criou os treze filhos. Hoje, não convivia com nenhum. Tinha uma filha no interior, morou um tempo com ela. Saiu de lá quando reconheceu nos olhos do genro o mesmo olhar de seu falecido.  O destino era substantivo masculino e batia.

Dona Rita tinha 66 anos no RG amassado, tinha muitos outros no rosto queimado de Sol. No prontuário vi que Dona Rita tinha uma ferida na perna que nunca sarava. Quantas feridas Dona Rita tinha na vida? Tinha uma dor no estômago que nunca melhorava. Na casa de Dona Rita só não faltava biscoito de sal e diclofenaco.

Rita tinha um neto que trabalhava, estudava e era noivo. Tinham planos de construir uma casinha nos fundos para ela. Deixei recado, pedi que viesse para consulta, prometi atestado pro trabalho, carta pra escola, o que fosse preciso. Ele veio. Procurei. Procurei no fundo dos olhos esverdeados. Ufa, nem vestígio daquele olhar. A árvore da menina Rita com seus treze galhos gerou um Homem que era só amor e cuidado.  Mas a vida também bate: boleto vencendo, aluguel pra pagar, feira pra fazer, trabalho em uma cidade e estudo em outra. Mesmo o amor tem suas ausências.

Dona Rita chorava. Me pedia que aliviasse as dores. A cada visita sua ferida aumentava. A cada encontro a minha pequenez crescia. Fizemos planos: curativo cedido pela universidade, enfermeira especialista, procedimento com preceptor. A medicina me sorria.

Dona Rita não voltou. Hoje recebi a noticia de que Dona Rita não chora mais de dor.

Na Aruanda, menina Rita e Dona Rita Maria sorriem.

 

*Jéssia Maia é Residente do 2 ano da UFPB e enviou seu causo para nós. Envie você também para causosclinicos@gmail.com

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Mas, tem certeza?

por Ana Paula Lemes Martins

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Uma simpática senhorinha de unhas rosas, bem feitinhas, com glitter. Vem em cadeira de rodas, mas porque vem sentindo dor no pé: não suporto pisar no chão, doutora.
Escuta e interrogatório feitos. Exame físico realizado.
Resumindo: ela foi acometida de dois AVC (Acidente Vascular Cerebral) isquêmico há 8 meses e, desde então, tem crises de perda de consciência e vômitos associados. A família achava normal, até porque “ela é exagerada, doutora”.
Eu também queria achar que era um exagero. Mas o fato é que a senhora de unhas rosas ficou com sequela do AVC e tem agora epilepsia. Teve ao início, crises leves, porém apresentou há dois dias da consulta, uma crise generalizada. Tanto que quebrou o tornozelo, quando passou mal no pronto socorro (como foi isso, Deus do céu? – pensei).
Ela e a filha fitaram meu olhos por um tempo.
A filha: tem certeza que é epilepsia?
Eu: certeza, certeza absoluta eu não posso afirmar, mas quando juntarmos tudo que me contaram e as respostas ao que perguntei… sim.. a chance é grande de ser epilepsia. Vamos fazer um combinado? Eu prescrevo o remédio e a gente vê se melhoram esses problemas. O que acham?
A senhorinha de unhas rosas respondeu: Mas, tem certeza?
Então veio peso da certeza que jamais teremos: na medicina, como no amor, nem sempre, nem nunca.

Pílulas (das difíceis de engolir)

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Por Mariana Duque Figueira

 

– Cê é nova aqui, né?

– Sou, cheguei tem três meses.

– Voltei porque disseram que tinha gente nova. Passei uma vez num médico que não gostava disso, e nunca mais voltei.

– Disso o quê?

– Atender preto.

***

Entra no consultório e já começa a falar, assim apressada, antes mesmo de sentar:

-Não sei nem por onde começar, doutora, tô com um monte de coisa. Mas preciso resolver tudo de hoje a duas semanas. Minha patroa tá viajando e só me deixa passar em consulta quando ela sai de férias.

***

São Paulo, ano de 2018. Às vezes parece 1808.

Janelas

por Mayara Floss

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Ela vivia em um quarto no interior rural com uma só janela. Com o tempo foi perdendo os movimentos e a cada dia ficou mais difícil caminhar e sair da cama. Para a família ela dizia que estava cansada de ver as mesmas coisas pela mesma janela. Queria ver algo diferente.

Eu visitava semanalmente, conversava, ajeitava as medicações. Momentos de gratidão, revolta e choro poderiam estar presentes na mesma visita domiciliar.

Um dia eu cheguei e a família estava radiante e me confessaram:

– Fizemos mudanças importantes no quarto.

Eu fui entrando devagar, quando cheguei eles tinham construído outra janela para a paciente. Na outra parede.

Pensei comigo: que curiosa forma de resiliência.

Cheguei sorrindo para comentar sobre a janela e ela olhou para mim e disse:

– Eu não quero outra janela, quero sair daqui.