O que respira a alma? Sobre amor, serviço e propósito.

por Janaine Camargo

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“Sabíamos que esse momento iria chegar, mas nunca estamos realmente preparados”, nos diz Teresa, cuidadora de Cláudio, com os olhos marejados pelas lágrimas que ansiosamente tentam não cair. Derramar suas lágrimas poderia demonstrar que ela achava que era o fim… Que Cláudio não acordaria mais. Ele era portador de demência e, há anos, voltara a morar com a ex-esposa. Separados pelo etilismo, mas reunidos pelo amor, Teresa contava com o apoio da equipe da estratégia saúde da família para manejar os sintomas de Cláudio, a fim de não precisar interná-lo. Ele estava acamado há dois meses; entretanto, nesse dia, a respiração agonizante, o livedo reticular e o rebaixamento de consciência não deixaram dúvidas para a equipe de que Cláudio estava partindo.  Percebemos que havia muito a ser feito! A conversa honesta com Teresa a preparou para enfrentar esse momento. O pranto veio abundante: “Se eu tivesse feito mais?”. Com o olhar, a compaixão e o respeito que adquirimos por aquela mulher, propusemos reflexões sobre os últimos meses de Cláudio. Mudando o sabor das lágrimas, Teresa nos diz: “Fizemos tudo que podíamos… Conseguimos levá-lo para a Igreja no domingo… Parece que ele só estava esperando isso para poder partir em paz”. De sua fé vinha sua resiliência. Ela se abaixou, acariciou a face de Cláudio, falou sobre seus sentimentos, suas culpas e trouxe, então, seu pedido de perdão por ter se distanciado dele, deixando de honrar os preceitos sacros do casamento. Cláudio parecia ter o semblante mais tranqüilo… Foi a morfina?  Foi o perdão? Ambos? O que importa? A prece da esposa ao final demonstrou que, enquanto Cláudio partia em paz, o significado que Teresa deu a sua fé e ao perdão permitiram que ela vivesse em paz.

 

Texto produzido em homenagem à despedida de um paciente querido e ao (re)nascimento de uma mulher que é força e exemplo. São Paulo, maio de 2017.

 

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Claudete

Como-emagrecer-sem-tomar-remedio

Por Marina Galhardo

    Falava sem parar, ansiosa de si e do outro. As dores no corpo todo lhe afligem mais por não ter explicação, nem perspectiva.
   Alguém disse que um tipo tal do seu colesterol estava alto demais e que aquilo era grave e ela podia ter outra parada cardíaca se não tomasse o tal remédio, que ela não podia comprar. Agarrou na esperança de uma nova opinião.
   A verdade é que não tinha dinheiro, nenhum ou muito pouco. Pôs-se a falar dos porquês de sua recente miséria. O marido tinha câncer. É, a vida era cheia de atropelamentos e emaranhamentos que mal sabia contar.
   Os olhos arregalavam sozinhos com frequência de um tique-taque, eu fingia não notar. Era um tique que se exacerbava na ânsia de ser ouvida, como nunca antes.
   Falei suave e baixo, bem devagar, para diminuir a ansiedade dela e não tomá-la para mim. É um controle imenso isso. Não Dona Claudete, a senhora não vai precisar tomar esse remédio, não.
   O tique diminuiu um pouco, ela se justificou novamente, como se pedisse perdão por não ter dinheiro. E a gente fica nesses momentos pensando o que é que faz com essa pobreza tão pobrezinha, que nem sabe que a culpa não é dela exatamente.
   Insisti, não precisa não, não vai adiantar de nada, vou só te explicar algumas coisas da alimentação para que isso melhore, e a senhora vai fazendo como der, aos pouquinhos.
Ela sorriu, aliviada. Saiu curada – e sem remédio.

Café preto

por Eberhart Portocarrero Gross

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Conversa ouvida no carro cheio, saindo da clínica, iniciada por duas enfermeiras:
– Você já atendeu o Marquinhos?
– Já!!
– Muito fofo, né?
– É! Dá uma dó…
– Dó? Por quê? – Pergunto, enxerido.
– Você vai fazer uma avaliação da rotina alimentar da criança, um ano e oito meses, lindo:
        – O que ele come?
        – Café.
        – Café? Como??
        – Preto.
        – Mas… e outras coisas… arroz?
        – Arroz, sim! Mas quando tem, né?
Com essa resposta já deu pra perceber que o problema era mais complicado que orientar sobre alimentação saudável. Cardápio habitual do tipo “o que tem, quando tem”. Na semana passada só tinha um pouco de batata, ela deu pro filho e ficou sem nada. E leite do peito, que isso tem. A história: os pais vieram para o Rio de Janeiro tentar uma vida melhor. Ela ainda não conseguiu emprego, ele é ajudante de obra, recebe de acordo com o serviço que tiver naquela semana. O que tiver. Quando tem. Média de 800 reais por mës, pagando aluguel na favela de 500 por mês, para sustentar os três com o resto.
Silêncio no carro.
– Olha, tirei uma foto com ele, que sorriso!
– E ela vem na semana que vem para conversar com a assistente social, fazer currículo…
– Foda, né?
Silêncio no carro.

Ventos de aquecer corações

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Por  Janaína Camargo*

    Era uma noite fria em minha querida selva de pedras… Os termômetros de São Paulo
marcavam até 2ºC e cinco seres humanos, feitos de carne, sangue e sonhos, como
eu, já haviam falecido nas ruas no inverno de 2016.
Foi na ponte à sombra do MASP, no Coração da Cidade, que nossos olhos se
encontraram. Eu lhe ofereci o melhor de mim: meu sorriso! … Ele aceitou.
Abaixei-me junto a ele na sarjeta recoberta de papelão. Luciano era seu nome.
Luciano Aparecido dos Santos. Deixara sua casa por ocasião de nascimento do filho:
“Por filho no mundo é responsabilidade demais, moça. Foi responsabilidade demais
pra mim!”.
Conforme ele me contava sua história, as palavras organizavam a experiência: a dele
e a minha! Aos poucos, o esforço que me demandava para compreende-lo foi sendo
substituído pela luz que fui desvendando em seus olhos. Sua luz irradiou em meu
peito, expandindo em compreensão e respeito por aquele homem.
“Muito obrigada por ter me ouvido”, disse ao final. “Sua história me tocou muito,
Luciano. Obrigada!”… “Não! É mais que isso… É que eu sei que você me ouviu!” –
Respondeu de pronto. “Sabe como sei que você me ouviu?” – Emendou. Sem
compreender, sorri levantando as sobrancelhas, buscando entendimento. “Você não
está tentando me dar a sua opinião! Quando a pessoa logo fala, é porque não estava
ouvindo… Estava pensando no que responder!”.

Texto utilizado como disparador na Roda de Conversa: Quando cuidar do corpo e da
mente já não é suficiente: o papel do Amor no Trabalho em Saúde, realizada no 14º
Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, em 04/11/2017.

 

  • A Janaína enviou ao grupo seu causo, se quiser também compartilhar, só enviar ele para causosclincios@gmail.com

Acesso avançado

por Lucas Gaspar Ribeiro

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Parte off: na unidade, fazemos acesso avançado*, e todos os pacientes passam por uma escuta pra definir conduta inicial.

Parte on:
Dr. Lucas eu queria vir aqui no final do ano pra te desejar feliz natal, mas é tão difícil te ver.
Por que dona Maria?
Porque sempre me perguntam porque eu vim na unidade, e eu estou bem, então eu falaria o que?
Uai, fala que você veio me falar feliz natal, elas vão passar pra mim e eu garanto uma vaga pra você só para conversarmos…
E os olhos dela brilharam…

Acesso avançado para carinhos e abraços….

 

*Acesso avançado: forma de agendamento de consultas em que o paciente é atendido no mesmo dia em que procura a unidade de saúde, evitando aquelas agendas lotadas por meses e a resposta ao paciente: “Só temos vaga para abril”. Seu lema é: “fazer o trabalho de hoje, hoje”. Para saber mais:

O monstro embaixo da cama

 

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Por Carol Reigada

 

Consulta por hérnia inguinal, nada mais. Havia consultado no início do ano, e estava por dentro das orientações sobre qualidade de vida, repensou o cigarro, agora quer parar de fumar. Consulta encerrando, me pergunta se pode tirar uma dúvida comigo.

“Sim?”

“Todo mundo fala que câncer a gente tem que ver cedo, né? Que não pode marcar bobeira, que se pega antes, é mais fácil de tratar, né?”

“É…geralmente, é”

“Mas também falam que câncer não dá sintoma, que é silencioso”

“Sim, no início costuma não dar sintoma mesmo”

“E tem algum exame que pega seu sangue e te diz que você não tem nenhum câncer? Ou sei lá, alguma máquina que você entra e ela te libera de qualquer tipo de câncer? Porque você vê, só o cigarro pode dar um monte de câncer”

“Não…tem alguns exames que é recomendado fazer pra procurar câncer, mas nenhum no seu caso…e nenhum que te libere de todos os tipos de câncer que existe”

“Pois é! Então bem que podiam parar de azucrinar a nossa cabeça com esse monstro de câncer, né? Só dá perturbação, não ajuda em nada!”

“Concordo plenamente com o senhor…”

Plantão de histórias

por Arthur Fernandes

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Seu D. tem 82 anos e por muito tempo da vida foi um cabra macho do Nordeste, gerindo do trabalho simples à vida dos familiares.
Hoje eu conheci seu D. pelas palavras da esposa e de um filho, que o trouxeram ao plantão por ter engasgado em casa várias vezes, ficando com dificuldade para respirar.
Restrito à cama, precisava de ajuda para toda e qualquer atividade há mais de 5 anos, devido ao “alemão” (demência de Alzheimer) e ao Parkinson.
Depois de algumas medidas, ele já conseguia respirar melhor, e daria para terminar de se tratar em casa. Depois do alvoroço:
– Dona I. (esposa), como que era a vida dele antes dessa doença?
– Ah, dotô, o senhor sabe, né, eu tô com ele só há 20 e tantos anos, mas quando a gente se juntou ele já fumava tanto… Depois que o Parkinson pegou ele, e teve a queda, nunca mais foi o mesmo. Agora eu sei que ele tá se entregando, tá indo…
– Entendo… Ele era bem ativo, né?
– Era, dotô, muito. Ficar em cima de uma cama pra ele é ruim demais… Tem gente que diz que ele não entende mais as coisas, mas comigo ele faz tudo.
– Sei… Ele entende a senhora?
– Eu que entendo ele, sabe, dotô? Eu presto atenção em tudo pra poder saber o que ele tá sentindo (e me conta da troca de fraldas e ao preparo das comidinhas dele). Por isso eu não queria que ele sofresse mais, dotô. Com aquelas mangueiras na boca, aquela operação no pescoço… Isso é maltratar demais… (chora baixinho, contido…). Eu só queria levar ele pra casa.
– Entendo, dona I. Também acho que ele não precisa sofrer assim, com esses procedimentos desnecessários. Vai trazer mais mal do que bem, né?
– É, o dotô já me explicou. Agora eu quero levar ele pro cantinho dele, só…
– Tá certo… Que bom que deu pra entender tudo. Hoje ele vai pra casa com essas receitas pra ajudar ele a se sentir melhor, e qualquer dúvida, a equipe do posto pode ajudar, tá bom?
– Tá bom, dotô. Eu sei que ele não vai melhorar, mas a gente vai cuidar dele em casa até onde der!
.
Sei que vão sim. <3″