Feitiçaria

por Artur Mendes
Chega o paciente encabulado, longilíneo, grisalho, calçando botinas e portando uma bolsa escolar a tira-colo.
-Pois então, doutor… Eu vim aqui por conta de um problema… já fui em tudo quanto é lugar e nada de resolver…
-Mas me diga então, Sr. Fulano… O que aconteceu?
-Meu pé deu pra arruinar…. Já passei pomada, tomei remédio e já me disseram até que era psicológico. Ora raios de trem de psicológico! Meu pé queima demais e tem é tempo… Dá umas feridas grandes, umas bolhas… médico nenhum é homem de resolver
-Hum… acho que entendi… O pé está com uma queimação danada, bem lá onde ficam umas bolhas…?
-Justamente! E coça demais!
-E tem quanto tempo?
-Coisa de uns 3 meses
-Pois bem… Eu vou examiná-lo, claro, e já estou até pensando umas coisas aqui… Mas queria saber do senhor, até para eu me organizar: o que o senhor está preocupado que seja? O que o senhor acha que está acontecendo? Estou falando isso porque o senho disse que passou em vários médicos e então eu fico imaginando que tem alguma preocupação nessa história… Não é dizer que seja psicológico, é que parece que o senhor está já desconfiado de alguma coisa…
-Pois é… Não sei se o senhor acredita…
-Não importa se eu acredito. O que importa é se o senhor acredita.
-O senhor é de qual religião?
-Isso também não importa. Importa é qual é a desconfiança do senhor.
-Pois é… Pra mim isso foi uma feitiçaria que uma mulher lá dos nortes me passou. Ela pegou e disse pra mim um dia que “já tinha feito o que precisava” e desde então, no dia seguinte, meu pé danou a coçar…
-E porque ela ia fazer justo isso com o senhor?
-Ah… é que ela era doida comigo! Vivia elogiando meu pé… E agora isso. Eu acho que isso foi um feitiço, porque ela inclusive até já confessou que jogou. O que o senhor acha que foi?
Examino o pé do paciente. Trata-se de um caso de disidrose.
-Hum… pois é…
-E então, o que o senhor está achando, doutor?
-Eu concordo com o senhor.
-Concorda?!?
-É… eu acho que parece coisa de feitiço mesmo.
-Primeira vez que alguém acredita em mim!
-Mas tem um porém…
-Qual?
-Feitiço no popular não é do mesmo jeito que entendemos feitiço na medicina…
-Mas como é?
-É o seguinte: questão de fé cada um tem a sua. Cada um sabe de acreditar no que quer. Se o senhor acredita que foi feitiço, isso é importante pra mim porque isso deixa o senhor preocupado.
-E muito!
-Pois bem… Na medicina, funciona assim: tem coisa que já existe no corpo da gente. Tem coisa que já tá marcada pra acontecer, porque é do funcionamento e das coisas do corpo mesmo. Só que, quando a gente fica preocupado com uma coisa, como o caso do feitiço, qualquer trenzinho que acontece a gente vai lá e bota a culpa no danado, porque a mente fica agitada, preocupada com aquilo.
-E pois é… fico só pensando nisso do feitiço. Até… o senhor vai achar engraçado… até já encomendei um feitiço contra, pra tirar esse negócio
-Muito complicado?
-Não, coisa simples. Com uma feiticeira garantida! E que inclusive é doida em mim também.
-Uai… O senhor gosta de uma feiticeira, heim!
-Elas é que gostam de mim… Que é que eu posso fazer…
-Pois bem… Como ia dizendo: tem coisa que é do corpo. E tem de tratar. Isso que o senhor tem chama disidrose. Vou passar um remédio e umas recomendações.
-E o feitiço?
-Como assim?
-Posso fazer o feitiço pra desmanchar?
-Pode e deve! Porque são duas linhas de tratamento. O remédio e o feitiço. O feitiço vai ajudar a acalmar a mente do senhor e acreditar que vai ficando bom.
-Então pode passar o remédio que vou começar a usar hoje.
Uma semana depois o paciente volta. As lesões já reduziram, quase desapareceram.
-E então, o que o senhor achou?
-Ah, doutor! Foi bom demais!
-Usou os remédios?
-Usei.
-E o contra-feitiço?
-Fiz não.
-Uai! E por que?
-Tive fé no remédio. Entendi que era uma questão de fé, né? Tive fé no remédio. Precisou do feitiço mais não