O caso social

por Gabriela Beites

Crack - efeitos, produção, dependência - Drogas - InfoEscola

O dia já começou cheio, uma retaguarda do pronto-socorro lotada. Muitas pessoas com doenças respiratórias, situações graves. “Paciente indo pro tubo” (ou seja, pessoa em condições respiratórias ruins, precisando de uma intubação orotraqueal). Quase final do dia, residentes e chefes manejando os casos mais graves que chegavam, internos tentando ajudar como dava. Chega paciente na emergência. “Interna, vai lá colher a historinha e fazer a admissão”. “Ih, é caso social, pesado”. “Usuário de droga”. 

“Oi, médica. Eu to bom, eu to bom, cadê a tia Angela*”, “tira a mão de mim”, “médica, eu sei escrever meu nome”. 

“Dona Angela, o que houve com o Alan*?”

“Apareceu no CAPS, tinha usado 40 pedras, tá com pneumonia, o médico de lá achou melhor transferir”. 

“Médica, não vou ser internado não. Se me internar, eu saio de lá pior, o tio Tadeu que falou. Eu to bom, eu to bom. Não precisa. Cadê minha vó?”

“Calma, Alan…”

“Médica, eu vou tomar remédio na veia? Cadê minha vó? Vou embora daqui. Não me segura.”

“Alan, calma… preciso saber se só usou pedra”.

“Não, uso pedra, maconha e tinner… não gosto dessas coisas de injetar, isso não faço não”

Aglomeração na sala, “chama assistente social”, “deixa fugir”, “não vou correr atrás de paciente não”. 

“Olha aí, minha vó chegou. Oi, vó! Eu to bom!”

Avó cansada, mais três pra cuidar, “manda chamar o traste do pai dele”. Corre a assistente social resolver. Interna pra tratar a pneumonia. Será que é tuberculose?

“Médica, eu usei 40 pedras na segunda, eu to com abstinência, tem que me dar remédio”, “Médica, vou ficar aqui? Posso tomar um banho? Quero tomar banho! Tem mamadeira? Quero leite com chocolate”

Internação, passar o caso, pedir pra medicar, pedir pra nutrição avaliar, pedir leito de isolamento, ir embora.

Dia seguinte, hora da visita com residente e chefe. “Manda embora, não da pra segurar aqui não”, “Cadê o pai?”, “Assistente social já viu?”. Chega assistente social. “Manda embora”, “não tem condições de segurar”, “é risco pra outros pacientes”. Interna desesperada “mas gente, espera! E a pneumonia? Ele tá doente! Tem que tratar! Depois vai embora!”… conclusão: vamos transferir, mas cadê o pai pra acompanhar?

Chega o pai. Tudo calmo. Ele pede a vó. A vó está na recepção. Corre pelo corredor, quer a avó. Segurança leva ele de volta pro quarto. O pai fecha a porta e dá tapas na cara dele, fortes. Todos olham, ninguém, NINGUÉM (nem o segurança), intervém. 

Interna chega, presencia a cena, entra. Já chega. “Senhor, com licença”, Alan aos gritos, o pai foge. 

“Médica, não me abandona. Meu pai é um monstro. Ele e minha madrasta. Ele me bate. Quando sair daqui vou me afundar nas drogas de novo”. Abraço forte, choro desesperado, tenta achar a calma no aperto e na mamadeira. 

Chocante. Triste. E eu nem cheguei na pior parte. 

Alan, negro, 12 anos, usuário de crack há 3 anos, viciado em tinner desde os 7 anos, ninguém sabe quando começou a usar maconha. 

*Nomes modificados para preservar os envolvidos na situação 

2 comentários sobre “O caso social

  1. Bom termos esse relato, obrigada.
    Não há saude possivel sem que nos envolvamos numa revolucao do povo para o povo. Temos que entender que somos parte desse povo, sabemos nossa historia?

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