Confidencial

Pensei que fosse doença da Idade Média': o novo avanço da sífilis no mundo  e no Brasil - BBC News Brasil

por Ricardo Mannato

“Boa noite, como posso ajudar o senhor?”, ele me perguntou do outro lado do balcão da pizzaria. Meus olhos, vidrados nas mil opções de sabores do cardápio, se voltaram para o caixa e puderam captar o exato momento do reconhecimento – um milésimo de segundo. Ele, subitamente acuado, como uma presa no instante que precede o abate, arregalou os olhos, manteve-se estático, me encarou profundamente e consentiu com a inevitabilidade de seu destino entregue às minhas mãos. Eu, transvestido na pele do algoz, segurando um poder que me foi imposto, vi o desalento perpassar pelas suas retinas mais uma vez e perdi a voz. 

Não tinha dúvidas de que eu reconheceria aquele olhar em uma multidão, mesmo que tanto tempo depois – um ano. Abri a porta do consultório da Clínica da Família, chamei seu nome e o jovem rapaz, da mesma idade que eu, um pouco mais alto e loiro, de camisa vermelha e boné azul, sentou à minha frente.

“Bom dia, como posso ajudar o senhor?”

Uma alergia de pele que não passava por nada, já estava o irritando há um mês e só piorava. Trabalhava como pizzaiolo e o chefe tinha trocado ele de posição; não poderia deixar um funcionário com lesões tão aparentes na pele trabalhar com a produção de alimentos. Agora, estava montando caixas de entrega, aceitando os pedidos pelo aplicativo e fazendo as tarefas administrativas, mas gostava mesmo era de botar a mão na massa, literalmente. Precisava de ajuda.

Manchas vermelhas pouco maiores que uma moeda de um real pintavam todo seu corpo, com pouco espaço entre uma e outra. Nada de alergia: sífilis. De volta à mesa e, quando indagado, respondeu que sim tinha prática sexual, poucas vezes sem camisinha, mas estava numa secura pior que o sertão de onde veio, risos. Topou fazer os exames, descontraído, só pra afastar a hipótese. 

Tão logo, com os resultado em mãos, eu segurava más notícias: sífilis e HIV. Lembro de chamar a preceptora e, juntos, acolhê-lo no consultório. Lembro dos seus olhos no chão, do seu rosto instantaneamente vermelho, dentes rangendo, mãos na cabeça e do riso agônico, gutural, incrédulo. Do silêncio. O mundo parou e só existíamos nós, o resultado e as quatro paredes. Negação, frustração, raiva, medo, dúvidas, coragem, aceitação, tudo em segundos, minutos. Ergueu a cabeça e nos olhou com seus olhos marejados, conformado. Bola para frente, eu vim do interior do Ceará para poder ser quem eu sou por inteiro aqui no Rio. Se é isso que a Vida colocou no meu caminho, vai ser só mais uma barreira que vou quebrar.

Nos abraçou, agradeceu, iniciou os remédios. Seguiu sua vida e eu a minha. E ali, nos encontrávamos. Eu, ele, a informação, o cardápio. O fio que conduzia nossa narrativa estava solto no ar e não cabia a mim amarrá-lo. Sabia de um segredo, talvez o maior de sua vida, e estava do outro lado do balcão, aflito com o poder e a responsabilidade do reconhecimento. Ele olhava para os lados, buscando alguma saída, como se temeroso com algum escape meu. Ou talvez também tenha revivido nesse segundo todas as cenas do nosso último encontro. Respirei, sorri brevemente um sorriso de “claro-que-me-lembro-e-só-espero-que-você-esteja-bem” para tentar alcançá-lo sem palavras. 

“Pode ser marguerita. No débito, por favor. Obrigado.”

Ele assentiu, esboçou um sorriso tímido – aliviado. Nossa interação acabou ali: dois minutos. Sem presas ou predadores, apenas dois personagens de um encontro íntimo e que agora compartilhavam de um acordo invisível, tácito. Confidencial. 

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