E lá vem ela de novo

por Brenda Wander

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Mais uma vez chega dona Carmen* na unidade de saúde. Da última vez, há uma semana, já tinha levado a enfermeira quase à loucura com tantas solicitações, e saiu ainda proferindo xingamentos. Era uma paciente muito frequente e muito demandante. 

Havia indícios de demência na idosa de 75 anos, ainda em investigação – vinha tornando-se repetitiva, esquecia as prescrições que eram explicadas inúmeras vezes, perdia consultas, e o teste do mini mental, usado no rastreamento de déficit cognitivo, estava alterado. 

Carmen morava com um dos filhos, que tinha depressão, segundo ela, e não procurava tratamento. Isto era referido em todas as consultas e causava grande sofrimento em Carmen. Devido ao próprio adoecimento, o filho não era capaz de ajudar nos cuidados da mãe. O outro filho havia falecido em um acidente de moto. 

Neste dia, como sempre, Carmen começou referindo suas dores e falando de seu filho doente. A hipertensão controlada era o de menos. 

– Doutora, mas esse meu filho não quer vir de jeito nenhum… aquele outro doutor que trabalhava aqui já tentou até ir lá em casa, mas ele não quis ouvir o doutor. Não tem jeito, e isso me deixa tão mal…

– Mas dona Carmen, tu já tentou de tudo, não precisa se sentir culpada pelo problema dele.

– Eu não consigo, doutora. Aliás, isso me deixa tão nervosa que esses dias me desentendi com a enfermeira lá na frente… 

Neste momento, sua feição abrandou-se, e passou a falar com a segurança que uma experiência de vida dá. 

– Sabe, às vezes vocês até olham pra gente e dizem: “ah, fica quieta que tu não sabe de nada”. Mas vocês não sabem o que a gente passou na vida. Vou te contar o que nunca contei pra ninguém.

Neste momento dona Carmen inicia o relato de um sofrimento antigo e não por isso cicatrizado, que escondeu dos profissionais e até da família. 

– Meu falecido marido não era uma boa pessoa. Eu sofri muito com ele. Eu dependia dele para tudo, não me deixava ter dinheiro ou trabalhar… então ele ia no mercado e não comprava comida suficiente pra gente, só jogava a sacola na mesa e dizia: “é isso”. Me forçava a ter relação quando eu não queria, até um dia me forçou a fazer por trás. Imagina doutora, que vergonha. Ele também não me deixava evitar de engravidar né, então eu engravidei várias vezes.

– Mas, a senhora me contou que teve dois filhos. O que aconteceu?

– Eu tive o primeiro, e nem queria mais filho daquele homem, mas acabei tendo o segundo, não tinha como evitar. Mas aí eu engravidei mais nove vezes, e ele me levava numa mulher que fazia aborto, me obrigou a abortar. Só me largava lá e me buscava depois… era uma dor horrível que ele me fazia passar, nove vezes! A mulher chegou a dizer que se ele me levasse lá de novo eu ia perder a minha vida também. 

Fiquei sem palavras. Ela continuou. Por algum motivo confiou contar aquilo tudo para mim.

– Quando ele morreu, ele estava no hospital sentindo muita dor, e eu disse pra ele: “agora tu tá passando por toda a dor que me fez passar e eu não tenho pena de ti”. Ele morreu muito mal, mas pagou pelo que fez comigo.

Ela ficou com ele até o final. Dependência financeira? Valores morais? Enfim, talvez não venha ao caso.

– Teve também o meu filho mais velho, ele era muito trabalhador, me cuidava como uma rainha, dava muita atenção, até me defendia sabe… um dia ele resolveu que ia comprar uma moto, eu falei que não queria, que era perigoso. Dito e feito, uma noite ficamos sabendo do acidente, ele morreu na hora… Agora este outro filho mora comigo mas parece que não gosta, sabe, e ainda está doente desse jeito. Não tenho ninguém por mim. Acho que com tudo isso que eu passei, eu estar aqui conversando contigo, acho que eu tenho algum valor, né, doutora?

– Claro, dona Carmen, e a senhora é muito, muito forte, não consigo imaginar as dores que tu sofreu. 

– Então, doutora, por isso que digo, quando vocês nos vêem ali na sala de espera, parece que pra uns a gente está ali só pra incomodar, mas vocês não sabem tudo o que cada um passou na vida, o peso que a gente carrega.

Ninguém da nossa equipe poderia imaginar que, por trás de tantas demandas, estava uma vida de violências, e nove abortos forçados.

A idosa supostamente demente nunca me pareceu tão lúcida. Destes encontros, tantas vezes cansativos, saem grandes aprendizados – basta ter ouvidos, e saber ouvir com o coração. Dona Carmen me lembrou que ninguém é o que é por acaso, e não cabe a nós julgar, apenas acolher o sofrimento e respeitar cada história de vida. 

*Nome fictício.

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