Os sentidos do cuidar e do viver…

 

Unknown

Por Débora Carvalho Ferreira*

Esse causo é em comemoração (atrasados, nos desculpem!!) do início da residência desse ano!

Este causo é antigo, bem antigo. Mas marcou profundamente meus passos profissionais e pessoais. Me fez sentir minha escolha profissional profundamente. Me fez sofrer junto…me fez Ser…

Primeiro ano de residência em Medicina de Família e Comunidade, tudo é muito e intenso. Pela primeira vez eu tinha “meus pacientes”, na verdade, eu tinha era “minhas famílias de pacientes”, as quais cada encontro para mim era riqueza e descoberta do(s) outro(s).

Atendia D. Alba*, pequena senhora portuguesa, de poucas palavras, mas sempre muita atenta e atenciosa. Fazia controle de sua hipertensão regularmente e da osteoporose, nada demais, mas, como eu gostava de atender aquela senhora de sorriso tímido! E numa sexta-feira de manhã, lá estávamos nós em mais um encontro. E após toda rotina de praxe, senti-a um pouco triste, e ao final da consulta a perguntei se teria mais alguma coisa que eu poderia ajudar naquele dia, e então ela fala “Ah, Drª, o Antonio* (marido dela) está mal há alguns dias, estou preocupada com ele, minha filha até já o levou em alguns médicos particulares esta semana, mas não está tendo melhora…” E com esta reticência, ela cala, pedindo em silencio, e então eu abro o espaço “Ué D. Alba, será que dá para ele vir aqui ainda agora de manhã para eu vê-lo? Quem sabe eu consigo ajudar?”. Sorriso abre no rosto “Claro, claro, Drª, já venho com ele”.

Já conhecia Sr. Antonio, não era tão assíduo ao serviço como a esposa. Um português com sotaque, grande e forte, sempre bem-humorado, mas naquele final de manhã chegou pequeno, apoiado pela filha, passo incerto, cabisbaixo. “O que houve Sr Antonio?”, “Estou muito tonto e fraco Drª, parece que é labirintite”, então a filha discorre sobre o périplo durante a semana. Quando surgiu a tonteira correram logo para um otorrino, que prescreveu medicamentos antivertiginosos, porém os sintomas não tinham cessado, estavam até pior!

E então a máquina do raciocínio diagnóstico começa a funcionar: idoso, hipertenso, diagnóstico prévio de gota, com vertigem e fraqueza súbita: sistema nervoso? Sistema cardiovascular? Sistemo endócrino? E tudo se resolve com um puro e simples toque, ou tecnicamente falando, uma contagem de pulso: pulso baixo e irregular. Sintoma explicado. Porém, com tamanha bradicardia uma intervenção imediata era necessária, e como estávamos dentro de um hospital universitário, uma internação na ala de cardiologia foi rapidamente providenciada.

Então não era labirintite? Como explicar para filha e esposa que não, não era. E que, bem, faltou um “pequeno toque” do outro profissional que tinha visto anteriormente. Mas enfim…Sr Antonio internado e diagnóstico com um distúrbio de condução elétrica cardíaca que me falha a memória exatamente qual era (o tempo faz-nos esquecer as questões irrelevantes, como diagnósticos raros, mas nos faz lembrar para sempre as pessoas raras). Mas a questão é que foram dias e dias internados sem resolução do quadro, seguida de uma alta hospitalar cheia de programação de restrições para a vida cotidiana “não pode isto, não pode aquilo”.

E o Sr Antonio retorna para casa, com toda a família apoiando todas as restrições passadas pelos médicos, mas os dias foram passando e ele foi ficando amuado, triste de dar dó. E então fui chamada para uma consulta domiciliar. “Como estão as coisas Sr Antonio”, “Não vão bem Drª, perdi o ritmo foi da vida”. E então com os olhos marejados me conta a tristeza de não poder mais ir cotidianamente para seu comércio, uma loja de material de construção, que era sua rotina, seu afazer. E eu não entendi aquilo, pois o que eu via em minha volta era uma casa confortável, parentes cuidadosos, uma saúde física recuperada, porque era tão sofrido não “ter que ir trabalhar todo dia”? Não sabia como ajuda-lo.

Levei a situação que tanta me incomodava para a discussão de Grupo Ballint (grupo de discussão entre médico de situações de relação médico-pacientes difíceis) e após expor a situação, e o quanto me incomodava não saber como mais ajudar, o facilitador do grupo, perspicaz professor, me fez o convite de exercitar a empatia de me colocar no lugar do paciente: “E se fosse retirado de você uma atividade cotidiana que dá sentido ao seu dia, que dá sentido para você acordar e viver o seu dia? Como você se sentiria?” E neste momento eu me projetei numa realidade que eu não poderia mais cuidar. Que eu acordaria dia após dia e poderia fazer qualquer coisa, menos o que faz sentido para mim. Por uns instantes senti um aperto, um golpe, um vazio! E se eu não pudesse mais cuidar? E se me fosse arrancado esta possibilidade do meu viver? Lágrimas nos olhos, senti verdadeiramente empatia pelo Sr Antonio…agora entendi seu sofrer. Não importa a natureza do que faz sentido para cotidiano de cada um, o que importa é o sentido que faz para cada um em si.  E quando voltei a vê-lo, apesar de ainda não puder fazer nada pela situação, pude olhar nos seus olhos e dizer “Eu entendo o que você está sentido e imagino como deve estar sendo difícil”.

Obrigado Sr Antonio, nunca mais olhei a Vida, o Viver e o Cuidar da mesma forma…

*A Débora é médica de família e comunidade e profa. da Universidade Federal de Viçosa.

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