Depois do medo

Somos Todos Um | Somos Todos UM

por Deborah Silva

Depois do medo, a COVID-19.

Ela chegou sorrateiramente, driblando todos os artifícios que adotamos: lavar as mãos com água e sabonete, após o álcool gel; sair, só para ir ao mercado e farmácia, usando máscara, ficando o menor tempo possível em locais que comumente geram aglomeração de pessoas e mantendo as orientações de distanciamento social.

Dia seguinte à sua invasão, foi aniversário de meu irmão. O abraço foi através da porta de vidro; não teve bolo de aniversário. Ele passou esse precioso dia de cama, com febre, nauseado; nada além do chá com
mel ele ingeriu naquele dia. Meu medo se tornou preocupação, com ele, comigo, com nossa mãe idosa. Com todas as precauções que pude, fiz o que faço de melhor: cuidar. Cuidei de suas refeições, de sua hidratação, conversando por aplicativo a cada meia hora, mandando mensagens de “tudo vai ficar bem”.

Dia seguinte, acordei meio estranha, uma dor no corpo, dor de cabeça. “Mãe, acho que peguei também”. Vai descansar, disse ela, que eu cuido de vocês dois. E eu fui, me isolei ao máximo no meu quarto. Travei a luta contra o medo. De onde veio, não sei, mas sobreveio uma coragem suficiente para enfrentar aquela dispneia, acompanhada de taquiarritmia e uma estranha diaforese. Fui à UBS, a duas quadras de casa, e não queriam fazer o teste, pois não tinha tido febre aferida. Insisti. Agendaram o teste rápido para a outra semana. Eu agradeci e voltei pra casa, levemente desapontada. Não fosse o entorpecimento da fase aguda da COVID-19, eu teria discutido baseada em evidências com a pessoa que me atendeu para realizar naquele mesmo dia o PCR. Meu irmão fez o PCR assim que adoeceu; o resultado demorou uma semana para sair. Positivou. Meu teste rápido deu negativo. Três dias depois perdi o olfato e o paladar.


Gradativamente nós dois fomos melhorando e pela graça de Deus nossa mãe não adoeceu. Após um mês de quarentena total, pudemos novamente começar a circular (com os mesmos cuidados iniciais) como antes. Comemorei meu aniversário mesmo estando só eu e a mãe em casa. Sentindo-me bem, naquela semana, aproveitei minha ida a Joinville e fiz o teste IgG e IgM para COVID-19; IgG positivo. A gente acha que o pesadelo tinha acabado, mas esquece que a COVID-19 tem suas fases.

Na quinta semana da doença, uma semana após meu aniversário, numa sexta feira, próximo das 22 horas, tive forte dor na cabeça, acompanhada de tontura e náusea. Pensei: pronto, só faltava essa, tive um AVC. Se eu piorar na próxima hora, chamo minha mãe para irmos a Joinville fazer exames. Tomei um analgésico e a dor aliviou; dormi. No dia seguinte, percebi melhora na cefaleia, porém com uma certa dificuldade para andar, bem diferente da dificuldade da crise de ataxia. Achei estranha a minha mão direita, parecia que não me pertencia e ficou ainda pior subir e descer as escadas. Dia subsequente, franca crise de ataxia. Braço e perna direitos com fraqueza desproporcional; a descoordenação motora foi intensa. O medo voltou em forma de assombração de uma possível sequela neurológica. Chorei muito. Alguns copos escaparam da minha mão e se quebraram; não consegui escrever por alguns dias.

Reiniciou-se então a rotina de consultas, exames, terapias e repouso. A crise durou uns 20 dias. A assombração da sequela trouxe junto uma outra assombração: a da incapacidade laborativa. A cada 15 dias, novos sintomas de ataxia; nunca houve uma frequência de crises em tão curto espaço de tempo. A palavra sequela pousou na minha lista de comorbidades e dali não quis mais sair. Minha mente entrou em um estado confuso, assombrado pelo medo da incapacidade laborativa. Logo agora que terminei a Residência, pensei… logo agora… logo agora! As terapias foram me fortalecendo e, afinal, a COVID-19 chegou lá em casa apesar das medidas de precaução.

Até que… meu irmão contou que, em seu plantão, seu colega de turno foi trabalhar sintomático e aguardando o resultado do exame (pois, afinal, estava se sentindo bem e a COVID-19 é só uma gripinha). Não bastando, compartilharam o mesmo alojamento. O vírus não chegou lá em casa por acaso, mas por irresponsabilidade de um médico. Nesse momento fui tomada de raiva e mágoa, como aquelas experimentadas decorrentes das mais graves traições. Agora, no quarto mês de reabilitação, já me sinto quase como antes da COVID-19. Ainda tenho medo de não poder mais trabalhar, medo de precisar terminar minha carreira com apenas 15 anos de prática. Mas ainda luto contra os sentimentos de raiva e mágoa por você, caro colega, que também adoeceu de COVID-19, que também teve suas sequelas, mas que foi irresponsável o suficiente para ir trabalhar sintomático.

Assim, termino meu texto com o exercício mais árduo de toda minha reabilitação: que você, caro colega, seja feliz; que você, caro colega, não sofra; que você, caro colega, encontre as verdadeiras causas da felicidade; que você, caro colega, supere todas as causas do sofrimento; que você, caro colega, supere toda a ignorância, carma negativo e negatividades; que você, caro colega, tenha lucidez; que você, caro colega, tenha capacidade de trazer benefício aos outros seres e que você, caro colega, encontre nisso a verdadeira felicidade.

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