Insones

por Julia Lima Bezerra

Polícia suspeita que marmita envenenada tenha matado moradores de rua e  cachorro | Hypeness – Inovação e criatividade para todos.

Pedro* veio pedindo um remédio para dormir. Nas últimas semanas tem tido dificuldade.

Eu tenho sono fácil, estou sempre cansada. Se encosto, durmo.

Pedro passou por internação hospitalar recente, precisou amputar um dedo da mão. Foi aí que a insônia começou.

Tive insônia uma noite na semana passada. Estava preocupada com o emprego novo, ainda não assinaram minha carteira de trabalho e nem tinha recebido o salário do mês anterior.

Pedro amputou o dedo pois teve uma infecção grave, que por sua vez foi causada por uma profunda infestação de larvas de moscas. Miíase.

O residente me chamou para acompanhar a consulta pois às vezes Pedro tinha a fala um tanto confusa, a comunicação ficava difícil.

“Tiraram assim umas 200 larvas. Era muita larva. Espera, deixa eu te falar. Foi assim, muita, muita larva.”

Pedro vestia roupas descasadas, a barba farta escapando pelos cantos da máscara. Ora respondia de forma mais ou menos coerente nossas perguntas, ora desviava rapidamente para outros assuntos, como um trem de pensamento desgovernado.

Eu moro perto do meu trabalho novo.

Pedro mora na rua.

“Eu preciso dormir, quero um remédio pra dormir urgente.”

“Julia, te chamei porque tenho medo de passar um remédio para dormir e se aproveitarem para fazer alguma maldade com ele na rua.”

A primeira linha para tratamento da insônia é o que chamamos de higiene do sono. Envolve cuidados do dia a dia, como rotina de horários para acordar e dormir, evitar cafeína, álcool e drogas estimulantes, deitar na cama apenas para dormir, evitar televisão e celular pela noite, diminuir estímulos perto da hora de deitar, tornar o quarto um ambiente tranquilo, reduzindo luzes e barulhos.

E Pedro, como já foi dito, mora na rua.

Mora na rua há muitos anos, desde que a mãe morreu. Não tem família, diz não ter amigos. Mora na rua e mora sozinho. Sempre esteve sozinho.

Eu moro na minha casa há alguns anos, com meu marido e dois gatos. Minha mãe se mudou para perto há pouco tempo.

Pedro gostaria de um remédio para dormir e também de voltar para cuidar do curativo na mão enfaixada.

Combinamos um plano terapêutico com Pedro e um retorno para troca do curativo. Ele parece satisfeito com o proposto.

“Pedro, para o plano dar certo eu preciso que você fique acompanhando aqui na clínica por um tempo. Você costuma ficar por aqui ou anda muito pela cidade?”

“Não, eu tô sempre no mesmo lugar. Moro no posto de gasolina ali antes do Maracanã. O do prédio azul.”

Pauso antes de responder.
“…aquele prédio azul, com um canteiro na frente?”

“Esse mesmo! Cê conhece?”

“Conheço sim. Conheço bem.”

Pedro e eu somos vizinhos.

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*Pedro é um nome fictício para uma pessoa real.

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