Antes do causo clínico

por Aysla Rinaldo

Não há declaração de amor maior do que receber uma carta escrita à mão |  Revista Bula

“Olá, dona doença.
Desde que nasci, aprendi que você é real. Que se você aparecesse, a gente podia ir ao médico que ele nos ajudaria a te deixar bem longe de nós. Algumas vezes, você apareceu em minha vida, na de meus pais, meus irmãos, meus avós, meus amigos. Mas eu nunca olhei nos seus olhos. Você sempre foi uma senhora passageira, ou silenciosa, ou fatal. O fato é que você não estava em minha rotina. Todo dia me visitando. Por me encantar com o corpo humano e pela possibilidade de cuidar das pessoas, acabei escolhendo trilhar os caminhos da medicina. Logo no primeiro ano, percebi que a senhora era muito diferenciada. Estava potencialmente em tudo, em todos. Podia chegar a qualquer momento e se instalar de milhares de formas. E os médicos estudavam as milhares de formas de combatê-la ou, pelo menos, fazer sua presença menos perceptível. Lá no começo da trajetória na medicina, uma angustiazinha me acometeu: eu queria poder te ver viva, não nos livros, nos guidelines, nas discussões. Na verdade, eu queria ver o seu palco: as pessoas. Não me leve a mal, não que eu não me importasse com a senhora. Mas é que simplesmente te ver e apenas te ver, deixava minha vida meio preto e branca. Comecei a aceitar, então, que para servir às pessoas que sofriam pela sua presença, eu precisaria te estudar bastante. Foram então 4 anos. Com algumas (tão necessárias para me lembrar o sentido da caminhada) visitas da senhora em ação. E a oportunidade de ver que a senhora não é tudo que dizem. Porque sua presença é extremamente adaptável. Até que chegou o momentum: estar diariamente vendo pessoas. Te ver atuante. Te ver combatida ou contida. Mas hoje preciso te confessar algo, dona doença. Infelizmente, eu sei que a medicina te faz pensar isso. Mas a senhora não é o foco. Eu sei, no meu dia-a-dia, eu tenho visto muitos médicos e médicas te olhando nos olhos, te venerando, te estudando arduamente. E eu também preciso te estudar. Mas sabe de uma coisa? Olhar para a senhora como o foco faz a medicina perder seu brilho. Não me entenda mal. Sei que a senhora é muito respeitada. Mas me cansa ver uma história cheia de altos e baixos, cheia de emoções, cheia de expectativas, cheia de frustrações e a senhora aparecer, mudar tanta coisa, e a única coisa que a medicina foca é na senhora. Ora, eu serei médica e estou te afrontando desta forma? Como assim, se não fosse sua presença, eu não teria emprego…É verdade, dona doença. Eu não estou negando sua existência e sua importância. Mas o que quero dizer é que olhar para a senhora como o objetivo da minha prática não faz sentido na minha caminhada. Olhar nos seus olhos todos os dias me faz ter mais certeza que não devo focar na senhora. Mas naqueles em quem a senhora está. Porque são eles que te fazem ser quem é. E é só entendendo as pessoas, é que vou te entender direito. E, então, poderei agir. Mas ah, na faculdade não me contaram tudo isso. Então não te focar ainda será uma construção. Por isso, não se engrandeça achando que a senhora voltou a ser o foco às vezes. Eu ainda estou aprendendo a olhar além. E olhar de verdade. E cuidar de verdade. E encontrar sentido na medicina.”

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