La Femme Fatale

por Humberto Sauro

História da tuberculose

Os gritos podem ser ouvidos no corredor, são de indignação, e se ouve apenas o indignado. Duram dois minutos e 43 segundos para quem os acompanha por detrás das paredes de aço galvanizado. Até que a senhora abre porta e sai da sala, ainda mais leve, dado que é magra entre o frágil e o esbelto, no alto de seus 73 anos. Sai, como se estivesse vomitado quase três minutos de reminiscências indigestas. O colega médico entra. O confidente está atordoado mas consegue maquinalmente reproduzir o desabafo na tentativa inclusive, de buscar compreender. Ermínia lhe cobra o laudo da tomografia de tórax de sua filha Magda, resultado este, que extrapolou em duas semanas ao menos, o prazo estipulado.

O médico assistente não checou, não buscou como prometido. Daí a revolta
justificada. Magda depende do exame para ter a confirmação da suspeita diagnóstica de tuberculose miliar e iniciar o tratamento para aquilo que lhe consome em tosse e febre nos últimos três meses e não minutos.

Há um agravante, Magda que era diligente agente administrativa, autônoma e vaidosa nos registros de 83, abriu quadro de psicose, desmanchando noivado e voltando para colo de Ermínia, desorganizada e pueril.

O médico é jovem, em início de carreira ainda, recém chegado naquela clínica obedece seus fluxos e diretrizes. Na suspeita de tuberculose lhe reforça a responsável técnica da unidade, é preciso isolar o bacilo colhendo duas amostras de escarro do doente, estando a liberação das medicações pela farmácia, sujeitas a essa etapa diagnóstica. Fidelidade irrestrita à algoritmos e protocolos é capaz de solapar máximas da sabedoria prática acadêmica como o entendimento unânime de que a clínica é soberana, ou seja, frente a sinais e sintomas clássicos de certa entidade, os exames complementares são prescindíveis.

Lembrara também dos postulados de Kock (1), que seu catedrático professor de tisiologia a época da faculdade de medicina volta e meia enunciava em francês: — Cherche le bacille car il cherche une femme (2), assim, incorporava as ordens resignado e justificava sua inércia clínica, enquanto Magda definhava a olhos nus, expurgando matinal catarro sanguinolento em sua pequena casa de dois cômodos no alto da escadaria do Morro da Bahiana.

Como a tuberculose miliar é de disseminação hematogênica, corre pelo sangue e não pelos brônquios pulmonares, o escarro mesmo que Magda colaborasse diligentemente em expectorar 20 ml por duas vezes não fornecendo apenas inúteis amostras salivares como o fazem as crianças, mesmo se … nos frascos, não revelariam a fêmea ideal.

Sem saída institucional, impedido de praticar qualquer empirismo, fustigado pela preocupação da mãe, sensível ao sofrimento da paciente, pensou em fazer um exame de imagem de alta definição (3) e com a fêmea fotografada, com silhuetas mais precisas que ao Raio-X, teria indícios incontestáveis dela por trás de tudo. Porém, um pedido, um papel é apenas mais um obstáculo pelo qual uma idosa e uma esquizofrênica hebefrênica devem lograr êxito ao descerem uma escadaria, deslocar-se até o centro da cidade por transporte público, chegar no horário, enfrentar fila e contar com o bom comportamento de Magda em paralisar-se dentro de máquina enclausuradora.

O jovem ainda carrega ímpeto aventureiro e combina-se uma carona no dia do agendamento. Encontra Magda e Ermínia no alto dos 128 degraus. Magda está de bom humor naquela manhã, menos desorganizada em seus pensamentos e afetos, o asseio e as vestimentas são dignas de um dia de passeio, desce apoiada nos braços de seu chofer, enquanto Ermínia segue atrás, com as bolsas e os cuidados. O trânsito está fluido e todos os receios se desmancham com a postura de Magda ao longo da empreitada, em nenhum momento resistente, sob qualquer desconforto ou pedido, não responde agressiva, dócil até o fim da subida ofegante no retorno ao lar.

Em quinze dias estará pronto o ensaio, a fêmea capturada em diferentes ângulos. O doutor compromete-se a buscar as provas e se despede da família até o próximo e decisivo passo.

Chafurda-se porém em outras centenas de casos, em quinze dias envolve-se com outras inúmeras pendências e esquece do tratado. Ermínia não esquece, na verdade é a única coisa que lembra todas as noites: — Estará pronto o resultado da tomografia? — Poderemos iniciar finalmente o tratamento e salvar Magda? Sem resposta, cada tossida de Magda, cada olhar para aquele corpo esquálido, cada confronto para o cumprimento
mínimo das atividades da vida diária com aquela mente descabelada é empurro para descer mais uma vez as escadarias e cobrar a merecida atenção. Daí que se energizou para vociferar contra um garoto de jaleco que ouviu calado e sentado uma senhora lhe desconcertar como jamais seu austero pai o havia feito.

Tal como filho repreendido após advertência escolar, cumpre-se com a retirada dos documentos. Apreciando as fotografias, o médico enxerga: nódulos centrolobulares de distribuição segmentar, cavidades de paredes espessas, espessamento de parede bronquiolar, bronquiectasias e linfonodomegalias e se emociona: — É ela! Aliviado, após exaustiva busca, convoca a paciente e sua acompanhante, o esquema medicamentoso é enfim iniciado.

Toda uma nova luta começa para Ermínia, Magda e uma nova personagem, Elza, agente comunitária de saúde responsável por controlar a administração do TDO, tratamento diretamente observado. Apesar de todo o esforço do time, as coisas não vão bem.

Há dias em que Magda refuga os grandes e nauseantes comprimidos, come porções de passarinho e os surtos enlouquecem Ermínia. Já era difícil mascarar os antipsicóticos na pouca comida ingerida.

O médico esquece novamente, entende como cruzada vencida. As jornadas de atendimento e a insolubilidade diagnóstica e terapêutica de outras magdas e ermínias o ocupam agora.

Quando Elza sinaliza o grave estado para o qual evoluíra sua cadastrada, ele porém não retarda em solicitar sua internação. Dessa vez, não precisam ir no carro particular, sem favores, caronas, informalidades ou medidas heróicas, apenas o adequado funcionamento dos fluxos previstos que se engrenaram harmonicamente naquele fim de tarde, desde a liberação da vaga em leito hospitalar até a chegada da ambulância. Magda fica, Ermínia fica num vai e volta. Elza e o médico voltam. Seu tórax é drenado mais de uma vez, ela é sedada e contida, sabe-se lá como fazem melhor o TDO do que Elza e a mãe, ou se mesmo conseguem fazê-lo.

A fêmea é fatal.

Ermínia passa na clínica uma última vez, avança pelo guichê de recepção sem se identificar ou aguardar ser chamada, entra na sala decidida, sem bater, encontra o médico em sua cadeira em seu computador, por três minutos, ninguém nada ouve no corredor, sai em luto, sai em paz.


[1] Koch publicou 4 postulados em 1882 que são utilizados até hoje na microbiologia: 1. Quando há uma doença, um microrganismo distinto sempre pode estar associado; 2.O microrganismo patógeno deve ser destacado e cultivado em meio de cultura nutritiva, em condições favoráveis para obter o crescimento de sua população para verificação dos sintomas e de sua imagem. Este crescimento dado na cultura, quando inoculado em um animal saudável suscetível, apresentará a doença específica e seus devidos sintomas;4.A recuperação deste microrganismo no animal contaminado neste segundo momento para a verificação comparativa de suas características, que devem permanecer idênticas às observadas anteriormente.

[2] Do francês: Busque o bacilo como busca uma mulher. Academicamente refere-se a mulher da vida, a fêmea ideal.

[3] A tomografia computadorizada de alta resolução do tórax pode sugerir fortemente atividade da doença, sendo particularmente útil nos pacientes com baciloscopias negativas e/ou radiografias indeterminadas, permitindo a instituição de tratamento adequado, antes mesmo do crescimento da micobactéria em meio de cultura (CAMPOS, 2002).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s