Duas consultas

por Guilherme Vale Alves

Segunda-feira com clima de segunda, chegar cedo na clínica, abrir o consultório, ligar a luz, apertar o interruptor mal-funcionante, arrumar a bagunça, ligar o computador e respirar para começar a semana. Segunda com cheiro de café – como todas as manhãs do dia de um médico de família e comunidade. Um dia normal. Talvez.

Os atendimentos vão acontecendo. Oito e vinte, Maria da Glória, primeira paciente, com dores no corpo. Depois, Dona Vera, um retorno de agulhamento. Já são nove horas e estou com a segunda Maria do dia, a terceira paciente, quando, atravessando as paredes de metal – da estrutura de ferro de uma Clínica da Família carioca – ouço gritos. Deve ser paciente do CAPS.

“Sim, Dona Maria, mas me conta um pouco melhor sobre essa dor no peito”. Agora ouço choro. Choro do tipo desespero. Daquele que corta paredes e corações de ferro.

Despretensiosamente, abro a porta. Vejo um corredor cheio de pacientes sentados esperando suas consultas, mas, dessa vez, com olhares diferentes daqueles impacientes de quem espera. Acho que de desconforto, não sei. Percebo que a sala em frente está fechada. De lá vem mais ruídos sofridos.

“Está tudo bem?”, pergunto à nossa agente comunitária de saúde no corredor. Ela se aproxima da minha porta:

“Uma paciente nossa faleceu na UPA”

“Caramba. Quem faleceu?”

“Paciente jovem. Não sei o nome. Mas já estão conversando com a família no consultório”.

Bom, parece estar tudo sob controle. Volto a tocar a agenda. Afinal, ainda tem 11 pacientes para atender.

Um mês antes, 15 de abril de 2019, conheci Maria.

Maria tem trinta e dois anos, vem sozinha em consulta, queixando-se de aumento do tempo da menstruação. Antes durava cinco dias, mas agora está há 12 dias sangrando. Tem DIU de cobre desde maio de 2017, inserido na clínica, mas estava bem adaptada. Não entende o que pode estar acontecendo.

Lembro-me de perguntar se estava acontecendo alguma coisa em relação a sua vida, trabalho, relacionamento. Aquela pergunta que abre portas em que jamais imaginamos o que há por trás. Pergunta que tira um peso de falsos sorrisos, escorrendo em lágrimas de verdade.

Não me recordo agora se seus olhos eram castanhos claros ou azuis – talvez verdes. Mas um oceano se abriu. Abro a gaveta e pego dois lenços.

Maria terminou um relacionamento há 4 meses, “Não que ele não fosse bom comigo, mas eu queria sentir mais carinho, sabe?”. Conheceu um novo rapaz, agora do trabalho. Um amigo com quem começou a ficar, mas que já está apaixonada, mesmo que em poucos meses. Ele também terminou um relacionamento recentemente, mas não quer compromissos sérios. Quer ter calma.

Diz que ela sempre foi assim, de se entregar muito, incondicionalmente. Mesmo com o seu primeiro marido, com quem teve uma filha, hoje com 6 anos. Pergunto como foi o primeiro relacionamento. Mais um lenço. Ele era violento e a agredia. Mesmo assim, ficou com ele por alguns anos, mais pela sua filha. Até que não deu mais.

Conversamos um pouco sobre como as emoções podem afetar a menstruação, tento tranquilizá-la, prescrevo um antiinflamatório e agendo uma interconsulta com a psicóloga do NASF para abordarmos mais a questão dos relacionamentos passados e presentes de Maria.

29 de Abril de 2019, chamo Maria, junto com a psicóloga e mais alguns lenços.

Maria conta que, na infância, não recebeu muita atenção do pai. Sua mãe sempre foi dona de casa e sempre “serviu” ao seu pai, que nunca a deixava trabalhar. Só ele podia trabalhar. Sua mãe tinha que cuidar da casa e dos filhos, e só. Por ter crescido vendo esse relacionamento, ela acreditava que sempre tentava agradar os seus companheiros, mesmo que não houvesse uma retribuição. Com medo de perdê-los se não os agradasse.

Seu primeiro marido era muito estressado, violento, a agredia, não a tratava bem. Tiveram uma filha juntos. Hoje, já separados, ele mal ajuda a criá-la, paga apenas uma pensão de 150 reais. 

Depois, namorou um rapaz que, apesar de não ser violento, dava pouca atenção a ela, enquanto ela “fazia tudo por ele”. Porém, acabou terminando o relacionamento, por mais sofrido que isso tenha sido.

Agora, está com esse colega do trabalho que, apesar de estar apaixonada, ele não quer firmar um compromisso sério. Não por enquanto. “Não entendo… Eu gosto tanto dele que queria sentir isso dele também, mas acho que sou desse jeito, por causa do modo como a minha mãe era com o meu pai”.

Hoje, ela mora com a mãe e sua filha – que é muito apegada à avó – mas tem tido discussões com sua mãe. Após Maria conversar muito e insistir, sua mãe conseguiu se separar do seu pai para conseguir viver um pouco a própria vida. Apesar dessa conquista, sente que sua mãe ficou dependente dela. Maria queria mesmo era conseguir viver só com a filha, em um apartamento apenas das duas. “Você vai morar sozinha, ficar com algum rapaz, se separar de novo e vai acabar voltando para debaixo do meu teto, viu? Sem contar que, sem a minha neta, eu não vivo. Não vou deixar você me afastar dela”, dizia sua mãe. Mais um lenço. 

Maria queria muito morar só com a filha, ter um lugar só para elas, mas tinha medo. Medo de deixar a mãe sozinha, que sofreu tanto a vida inteira. Medo de sair e dar tudo errado como das outras vezes e voltar a morar com a mãe. Medo de não encontrar alguém para amá-la. Porque Maria ama muito.

Depois de muitos lenços, combinamos com Maria de refletir sobre o que ela queria e o que faltava para colocar em prática, fortalecer sua autoconfiança, empoderar-se. Pensar em conversar com sua mãe sobre se mudar.

Agendamos um retorno em 15 dias, 13 de maio, às 9:20. Anoto em um post-it e colo no computador.

13 de Maio de 2019.

Terminei de atender os 11 pacientes, apesar dos choros, gritos e da tristeza que contagiou todos da sala de espera. Hora do almoço no restaurante de sempre.

Na volta à clínica, turno de planejamento. Percebo que ainda há muitos familiares da paciente falecida no corredor. A porta do consultório da frente está aberta com familiares dentro. Nosso corredor se tornou um velório. O corpo da paciente ainda estava na UPA.

Uma mulher, de cinquenta e poucos anos, está sentada, alternando o choro com a calma inquietante. Deve ser a mãe. Tem mais pessoas. Reconheço uma delas. Paciente jovem, vinte e poucos anos, há duas semanas veio em consulta para inserção de DIU. Pessoa muito bacana. Ela me nota. Fico triste por vê-la chorando, mas prefiro deixar para falar com ela outra hora.

Encontro meu preceptor. Ele conta que ela era uma paciente que ele conhecia, faleceu de uma pneumonia grave na UPA. Internou há 4 dias, evoluiu muito rápido. Diz que ele está conversando com todos da família, inclusive, a menina jovem que eu reconheci no corredor, é irmã dela. “Se precisar de ajuda, me avisa”, eu falo. Volto para a preceptoria e começo meu planejamento.

Algumas horas depois, a enfermeira da nossa equipe chega e diz ter ficado bem triste com a situação. Tinha dado uma olhada no prontuário dela. Era uma paciente que não veio anteriormente por nenhuma queixa pulmonar. Na verdade, tinha vindo há 15 dias por outro motivo. Em uma consulta comigo.

“Comigo?”

“Sim, uma inter com a psicóloga”

“Qual o nome dela?”

“Maria…” Checo no prontuário com o nome completo.

Conheço Maria.

Trinta e dois anos.

Tivemos duas consultas juntos.

Cheia de angústias, tristezas, medos e incertezas. Mas cheia de amor, planos e desejos. Maria mãe, filha, irmã. Maria como tantas Marias que atendemos.

Lendo o meu relato no prontuário eletrônico, recordo-me do seu rosto, do seu choro, do seu sorriso ao agradecer os tantos lenços que dei e do seu abraço na nossa última consulta. Nem sempre me lembro das várias consultas que faço, mas costumo me lembrar dos abraços no final. O dela, em especial, tinha jeito de alívio por se abrir e contar tudo, de se fazer ouvir. As decepções amorosas, a culpa de querer se separar da mãe, de abandoná-la, a tristeza por sua mãe ter sofrido tanto e ela agora também. Mas também foi um abraço com jeito de esperança, de colocar planos em prática, de aprender a se amar antes de qualquer outra coisa. De se descobrir.

Olhando agora o corredor, tarde de segunda-feira, e a família e amigos de Maria ainda estão lá. Ela era muito amada.

Talvez, em algum outro universo, Maria tenha vindo na consulta do dia 13 de maio, às 9:20, após um resfriado. Tenha me contado que tinha conversado com sua mãe e que, mesmo com o medo de deixá-la, tenha conseguido um apartamento para morar com a filha. Que iria se amar, antes de qualquer coisa. Que iria se conhecer, se curtir. Que iria viver sua vida, cuidar de sua filha.

No meu computador, ainda está o post-it amarelo: “Maria, 13/05/19, 9:20”.

É estranho. Às vezes, parece que somos os únicos a guardar as histórias de nossos pacientes, que procuramos saber mais, entender melhor, saber o que sentem, quem eles são e deixar esse registro na história, como biógrafos de livros nunca publicáveis. Histórias como a da Maria que, em duas consultas, abriu seu coração para se descobrir e seguir vivendo. E, de alguma forma, vive.

A filha de Maria mora hoje com sua avó e sua tia. Seu pai entrou na justiça para ficar com a guarda da menina. Nós contamos para ela sobre o falecimento de sua mãe, junto com sua tia, o pai e um primo, à pedido deles. Uma das consultas mais difíceis que presenciei na vida. Ela é um amor de criança. É a cara de Maria e tem os mesmos olhos da mãe. Agora eu me lembro, eram verdes.

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