Tesão

por Carol Reigada

Esse é um desses causos que ainda dou risada quando lembro.

Uma enfermeira amiga veio me pedir ajuda com o caso de uma paciente:

“Carol, me ajuda? Estou com uma paciente lá no consultório que está sentindo uma sensação de queimação na vagina.”

Imaginei um caso de vaginose citolítica, fui lá checar. Cheguei me apresentando:

“Oi, tudo bem? Sou Carolina, médica de família e comunidade. Me fala um pouco mais dessa queimação?”

Ela explicou que não era exatamente uma queimação, nem uma dor, nem uma cólica. Não tinha corrimento. Menstruação normal. E, além disso, a sensação de aumento da temperatura na região genital só aparecia à noite, quando ela deitava na cama.

Me veio uma hipótese diagnóstica. Pensei: será? Não é possível.

Não lembro mais o nome dessa paciente, vamos chamá-la de Bruna.

Bruna tinha entre 18 e 20 anos, um rosto ingênuo e parecia um pouco tímida.

Perguntei: Bruna, esse calor vem todas as noites?

Ela ruborizou, riu, e disse que não.

Perguntei: Bruna, quando esse calor começou a acontecer?

Bruna disse que foi quando começou a namorar. Conheceu seu primeiro namorado há alguns meses.

Perguntei: Bruna, esse calor costuma vir quando você pensa no seu namorado?

Bruna riu um risinho contido e declarou: sim, só quando eu penso nele naquele jeito, antes de dormir.

Entendi.

Hipótese Diagnóstica: Tesão. CIAP a ser descrito.

Cebola

por Emília Pedra

Mais um dia consultando Dona Cebola, uma paciente que tem me intrigado. Vou chamá-la de Cebola, pois ela, tal como o legume, tem muitas camadas que são reveladas, pouco a pouco, a cada encontro. Tenho agendado consultas mensais com Cebola, pois ela está passando por um contexto de vida turbulento e não possui rede de apoio estabilizada.

Cebola é muito evangélica e devota, suas consultas sempre são permeadas por discursos de fé e esperança, pois ela tem certeza que Deus a irá abençoar e performar um milagre na sua existência. Ela sempre reitera que só persevera na luta diária porque a figura divina a tem sustentado.

Quem sou eu para questionar a fé de Cebola?! Sei que a espiritualidade é uma ferramenta importantíssima para lidar com as adversidades que, inclusive, são muitas nesse caso: deficiência física, divórcio de um relacionamento abusivo, dívidas sem fim com bancos e agiotas e rupturas de laços com colegas da sua antiga igreja.

Nessa consulta tentei explorar mais o contexto familiar, visto que Cebola tinha mencionado que era mãe, mas eu não sabia maiores detalhes. Ao falar sobre os filhos, Cebola começou a chorar e falar de maneira desapontada que não acreditava ter cumprido seu papel de mãe.

Cebola fala que seus filhos são adultos responsáveis e tem orgulho deles, mas explicou que seus filhos não possuem religião e que por isso ela tinha absoluta certeza que eles não iriam para o céu. Contou que desde sempre tentou criá-los na sua fé e promover educação religiosa, mas não nota frutos do seu esforço.

Fica frustada porque, mesmo que consiga se divorciar e se livrar das dívidas, os seus filhos não vão para o céu e ela nunca conseguirá uma felicidade plena. Ela me conta que está se esforçando a cada dia para conseguir o reino dos céus, evitando as tentações e seguindo os ensinamentos da igreja, mas que os filhos vão direto para o inferno porque não seguem os mesmo passos.

Sei que Cebola tem se esforçado para complementar sua renda e pagar as dívidas. Questiono ao final da consulta o que ela tem feito atualmente para ganhar dinheiro, ao que ela responde “contrabandeando caneta de emagrecimento”.

E fiquei reflexiva: qual canetinha mais me aproxima do céu?

Sobre canivetes suíços e o que aprendemos a chamar saúde

por Gabriela dos Santos Marques

Um amigo me perguntou como eu definiria as atribuições de um médico da atenção primária:

Pensei muito sobre a resposta pra essa pergunta. Sei que ele pensou em mim, não porque eu personalize essas funções — oxalá que eu o faça depois de alguns bons anos de trabalho. Mas acho que já as vislumbro todos os dias.


Vou começar com uma metáfora fantástica: uma pessoa querida me disse que eu gostaria de ser um canivete suíço da medicina: porque tenho interesse em aprender sobre tudo.

Bem, de fato, exceto pelo componente perfurocortante, acho que o propósito que eu vejo no médico de família e comunidade é comparável a um canivete de bolso: ser múltiplo e, principalmente, útil.

Para nós, não existe nicho e não existe alta.

Felizmente, há também outros utensílios, mais especializados — e, muitas vezes, é essencial para nossa sociedade acessá-los. O aprofundamento é mérito do admirável avanço das ciências em saúde.

Ainda assim, nos orgulhamos de dizer que nossas cartas de encaminhamentos tem — devem ter — devolução ao remetente.

Entendo a atenção primária como a base. E não sei em que momento o termo básico se tornou diminutivo. Raízes são primordiais.

No trabalho, eu sinto todos os dias a potência de ferramentas leves: a pouco difundida demora permitida, as ressonâncias de perguntas bem escolhidas, a grandeza das pactuações e a transformação que uma boa orientação desencadeia.

Tem mais: o espanto que a decisão compartilhada e a comunicação cuidadosa ainda provocam.

Nós temos o privilégio de acompanhar famílias em seus ciclos de vida: sabemos nomes, sobrenomes, heranças e lembranças. Se dermos sorte, ganharemos lembranças de pré-natal, artesanatos, queijos. Ou só palavras.

Além: percebemos todos os dias como as dinâmicas familiares e comunitárias impactam sobre as experiências de adoecimento e recuperação. O livro clássico de medicina não descreveu esse fenômeno.

Conhecemos nossa população, as ruas, os colégios, líderes religiosos e as casas. Nos dispomos a mapear suas idades, perfil socioeconômico e diagnósticos para nos especializar.

Aliás, conheci médicos da atenção primária cuja formação foi produto de sua comunidade. Aceitamos aprender, com poucas fronteiras e limitações. Com ganas. Com a finalidade de aplicar o máximo que for possível, até onde podemos ir. Nesse caminho, descobrimos algo que talvez tenha sido insuficientemente contado na faculdade: informação é poder. Não nos pertence: informação também trata.

Não foram poucas as vezes em que vi doses cavalares de insulinoterapia, mantidas por anos a fio, falharem. E, em paralelo, uma única consulta farmacêutica de orientações sobre armazenamento e aplicação adequados proporcionar mudanças notáveis em meses. É justo que essas estratégias terapêuticas sejam combinadas. É simples.

Recebemos boa formação biomédica básica. Corremos atrás de expandi-la constantemente. Somos, em nossa maioria, estudiosos e admiradores dos domínios da clínica médica, geriatria, saúde mental, pediatria e gineco-obstetrícia. Precisamos de recursos científicos, compreensão e acesso a drogas, exames e procedimentos. De todos: porque o corpo não sabe se repartir.

Felizmente, não estamos sós — somos parte de redes multidisciplinares: aprendemos diariamente com agentes comunitários de saúde, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, odontologistas, fonoaudiólogos e psicólogos e mais. Compartilhamos casos e atividades com educadores físicos. Recebemos imenso suporte e orientação de recepcionistas, equipes de limpeza, manutenção e gerência. Se formos bons médicos de família e comunidade, saberemos o quão imprescindíveis são
essas trocas.

Esse sistema existe, não por afinidade pessoal, nem por viés ideológico. Existe por causa daquele nosso propósito: ser úteis. Existe porque cuida. Porque resulta. No caminhar, vamos testemunhando que a medicina, estudiosa do adoecimento, é grão de areia no universo da saúde. A saúde existe na equipe multidisciplinar, complementar. Existe nos espaços de convivência. Nos grupos terapêuticos. Na educação. A saúde brota na assistência social e nos direitos. Acontece em casa, frutifica na rua. A saúde é conceito pessoal. É do indivíduo. E nosso papel, penso, é entender como a infinidade desses poderes reunidos pode auxiliar.

O propósito de um médico da atenção primária é dar boas vindas, compreender particularidades no coletivo e oferecer cuidado integral. Recomendar, negociar, se aprimorar. Nosso propósito é identificar, guiar e empoderar. Ser ferramenta versátil na saúde, que sabemos, pertence a outro alguém.

Trem Escrito 1

por Artur Mendes

E essa febre que não larga

Do meu corpo desde cedo?

E essa dor toda infindável

Que hoje não me deu sossego?

Adoentados, residentes

E alunos… de mim dependendo

Não vou gastar atestado

Por um prazo tão pequeno

Vou medindo e minha boca, 

Pescoço e testa: tudo quente

E eu fazendo o contrário

Que oriento o paciente

Era eu

por Daniel Sabino

Era eu. Mas, em outro corpo, noutro lugar. Corpo negro, de quase dois metros de altura; os mesmos 32 anos. Era a encarnação do sofrimento, só que de um jeito distinto: dignificado, com coragem, em cada palavra, em cada gesto. Uma lucidez que impactava.

Casaco de moletom, tênis esportivo e jeans surrado.

Sem verter uma lágrima, palavreado simples e contagiante, conduziu-nos pela espiral de sua existência com naturalidade, fazendo-nos partícipes encabulados de sua impressionante resiliência.

Era atleta, jogava basquete e praticava atletismo. Até ficar cego, aos 17 anos, idade em que desenvolvera um tipo grave de glaucoma. Preservava, desde então, apenas uma pequena porcentagem de visão no olho direito. O esquerdo jazia inerte, em posição estrábica, indiferente, com a pupila embranquecida e opaca feito gelo.

Contou-nos de sua solidão, tendo que se virar, e da pouca atenção que recebera da mãe quando pequeno (a quem nunca havia conseguido perdoar, de verdade). Entre consultas, postos e hospitais, relembrava sua odisseia, e o amargo sabor dos maus-tratos que repetidamente recebia. 

“Médico quer nem saber o que a gente sente, se temos ou não dinheiro para comprar os remédios caros que prescrevem.” 

Quando recebeu a notícia de que perderia a visão de vez, de forma irreversível, perguntaram se ele era “sujeito largado no mundo” – por andar sempre só -, palavras com que foi, infelizmente, obrigado a concordar. 

Anos depois, casou, teve um filho, mas insistia sobre importância de não ter outros para não repetir o grave erro de sua mãe: ter tido vários e não conseguir dar amor e atenção por igual a todos. O pai não conhecera. 

Uma vez – para piorar sua delicada situação -, um colega de trabalho, incrédulo de sua condição e do aspecto vítreo de seu globo ocular, tocou com o dedo seu olho estrábico só para testar. O resultado da brincadeira foi uma úlcera na córnea que precisou de vários meses de tratamento para melhorar.

Parecia que tudo coincidia da pior forma possível em sua vida no intuito de gerar revolta, indignação e desviá-lo do Caminho. Entretanto, sua postura decepcionava as expectativas mais deterministas: mantinha-se resignado, acreditando nos propósitos, com a fé de ser o único entre os vivos capaz de suportar tamanha provação. Era o que seu comportamento e suas palavras denotavam.

Despediu-se com um pedido de perdão – por sua atitude impaciente enquanto aguardava na sala de espera -, agradecendo, encarecidamente, o simples feito de ter sido escutado atentamente por mim e minha residente.

Não sem antes lançar o dardo que abalaria e estremeceria nossa existência de forma definitiva: 


“Quando minha mãe morreu, eu presenciei tudo. O médico disse que precisaria fazer uma reanimação. Na hora viu que o desfibrilador estava quebrado. Até me ofereci para consertá-lo, porque sou técnico, e entendo um pouco dessas coisas… mas não dava mais tempo, pressenti, exasperado.

Minha velha. Cheia de tubos…


Aproximei-me da cama, sem fôlego, e, antes do último suspiro, alcancei dizer: “Eu Te Amo”

Cada visita, uma aula

por Bernardo Zucco

Dona Selvarina, 98 anos no registro

formal e – segundo ela – 102 anos na vida real, pois na época esperava-se nascer vários para registrar tudo junto, pois o cartório era longe.

Devido à dificuldade para caminhar, conheci dona Selvarina por meio das visitas domiciliares, durante a residência de Medicina de Família e Comunidade.

Era parteira. Mãe de nascimento de muitos e de criação de outras dezenas. Sempre brincava com ela que, se chegasse alguma grávida ganhando, eu ia mandar chamar ela pra me ajudar ou vice-versa.

Me contava o passo a passo de como fazia o parto e como lidava com cada complicação possível, por mais que as vezes repetia as histórias. Fumava palheiro o dia inteiro, seu companheiro de anos, desde guria.

Visita domiciliar vai, visita vem, e chegamos ao comum acordo de deixar o palheiro. Melhora um
pouco da tosse, pouco dos pés gelados, que tanto incomodavam. Dona Selvarina conclui que por vezes é necessário se afastar de companhias ruins, de amigos não tão amigos.

Nova visita domiciliar, rotina, ver como está, sem queixas, renova receitas, orienta, escuta. Selvarina me olha diferente. O que você tem meu filho? Eu ? Eu estou bem dona Selvarina, eu vim saber da senhora. Comigo tudo certo, diz ela, indagando novamente.

Quando o coração da gente tá apertado dá para ver. E não é que ela sabe das coisas mesmo, eu não estava em um bom momento na vida pessoal mas ela notou. E agora quem pensa, orienta e orienta é ela.

Passado um tempo, dona Selvarina me chamou para uma visita domiciliar na qual me conta uma queixa diferente. Meu filho, parece que a “mãe do corpo” está me afetando, mas não tenho mais idade pra isso. Solto um uhmmm quase como uma vaca, mas por dentro espantado, que diacho é “mãe do corpo”?

Tento transparecer serenidade e pergunto, me conta mais sobre isso dona Selvarina, aí explica que quando uma mulher está no puerpério na fase da involução uterina (diminuição do tamanho do útero), a mãe do corpo fica procurando onde está o bebe que nasceu e a mulher sente o útero diminuindo para seu tamanho normal fora da gestação.

Aaaataa. Pergunta daqui e pergunta de cá, chegamos ao consenso, eu e ela que esse incômodo pudesse estar vindo de comer salame que a vizinha trazia e sempre lhe dava essa sensação poucas horas depois.

Escolher Medicina de Família e Comunidade é escolher aprender com os pacientes, é tratar uma consulta como encontro do especialista em medicina com o especialista em si mesmo, é aprender com cada encontro.

Para além de trabalho, a verdade.

por Maria Eugênia

Começo o dia chorando no carro enquanto esperava o restante da equipe chegar.

Já foram tantas mortes evitáveis. Há tantas ausências de pessoas, profissionais, materiais.

Mal tenho conseguido absorver minhas próprias questões pessoais, realizar todos meus afazeres.

Há um sentimento de sobrecarga. Enxugo as lágrimas, vamos trabalhar.

Numa das consultas Dona T., 84 anos, negra, mãe de 7 filhos, tantos netos e mais quantos bisnetos. Ela me conta que o marido a abandonou e trabalhou a vida toda na olaria fazendo tijolo e assim sustentou e cuidou de toda sua família “para que ninguém precisasse pedir, para que ninguém precisasse roubar, para que ninguém precisasse passar fome”. Me conta com algum pesar que não conheceu seu pai nem sua mãe.

Foi criada por um primo de segundo grau. Me conta de algumas sagas em que teve de viajar para cuidar de problemas de saúde e que ninguém pôde lhe acompanhar, sempre foi ela mesma. Mas que nunca se sentiu só, sempre teve na sua espiritualidade sua companhia, sua fé. “Deus sempre esteve comigo “, ela me diz.

Diz que foi fazendo amizades pelo caminho. Me conta com o olhar tantos outros sofrimentos mais por que passou. Eu compreendo. Fala das dores que sente pelo corpo, no joelho, no ombro, mas sabe que é da idade, sabe que é o desgaste natural do tempo. Na verdade, tem um corpo bem forte.

Me diz que ” viemos do pó e retornaremos ao pó”, tem plena consciência disso, não se preocupa. Me diz que não se preocupa com coisas materiais, não levaremos , “estamos de passagem aqui, minha filha”.

Agradece pela sua saúde e pelo seu corpo. Me mostra com alegria como ainda consegue encostar a ponta dos dedos nos pés. Seu corpo é fantástico, sua cabeça e humor também.

Tento explicar para ela que é uma verdadeira Rainha, e o tanto que me sinto honrada de conhece-la. Uma mulher simples, forte, sábia e amorosa.

Peço alguns exames de rotina, faço algumas orientações sobre as dores. Nos despedimos e ela me abraça. Meu olho enche de lágrima novamente, mas dessa vez era ela me curando. Para além de trabalho, a verdade é que essas trocas, essas pessoas, essas histórias, me curam, me ensinam, me tocam.

Uma escolha

por Paula Starling

O elevador parou, um infeliz manda mensagem no grupo implorando por ajuda.

Por sorte, uma velhinha pede pra máquina descer ao primeiro andar. Destrava.

O infeliz sai aliviado, prometendo nunca mais pisar naquele cubo nada mágico.

No dia seguinte, lá vai ele de novo, a vida já é amarga demais pra ter que subir de escada.

Falta sala, a senha não entra, o sistema é novo. Minha paciência antiga e fugaz. Respira, toma café. Se agita, compra os sete mini pães de queijo, bebo mais café.

A dona Maria chegou aí pra buscar os exames antigos que deixou com a senhora. Onde mesmo eu os coloquei? Tá tudo bem dona Maria, seu diagnóstico é solidão e o antídoto pra isso ainda não chegou na farmácia. Seu nódulo não é na mama, é na alma. Queria eu poder usar meus ingratos poderes xamânicos, mas não os tenho.

Já passou da hora de almoçar. Acumulei trabalho, mais uma vez mudaram minha agenda. Era visita, virou COVID. Mais um afastamento. Tosse, febre, coriza. Dipirona, água e casa!

O senhor João chegou aí com falta de ar, dotôra! Saturação: 88%. Oxigênio e ambulância.

O meu pé ainda está doendo de ontem. Tô com sono, cansada, sem rumo. Triste com o que vejo no espelho. Por que mesmo escolhi isso aqui? Respiro, bebo água, coloco Novos Baianos pra tocar.

“Mistérios do Planeta” mexe comigo em em um lugar especial. Lembro que “vou sendo como posso. Jogando meu corpo no mundo. Andando por todos os cantos. E pela lei natural dos encontros. Eu deixo e recebo um tanto”.

Recebi hoje de dona Maria, das centenas de atendimentos no COVID e até naquele muito obrigada de logo cedo e na reclamação do senhor Alberto pela demora.

Permaneço imóvel como quem clama por sossego, mas também escolho recomeçar amanhã, e de novo, e de novo…Percebo que não é algo definitivo, dado, escolho diariamente por mim, pela dona Maria, pelo Sr. João.

Faço uma visita domiciliar e lembro o porquê opto por estar aqui todos os dias. Converso sobre futebol, literatura, política, sobre o preço da carne e ainda resolvo a dor no joelho. O elevador já nem funciona mais, mas eu sigo de escada, esqueci que os pés doíam.

Sorte pra Escolher

por Vanessa Carranza

No carnaval de 2025 meu gato ficou doente a ponto de ficar internado, e o médico que o atendeu foi excelente em suas condutas e felizmente o retirou da beira da morte. Na consulta de retorno, quando ele falou “o importante é que salvamos ele” me acendeu uma luz na hora. Na minha cabeça passaram os momentos em que quis salvar meu pai, e depois, todo mundo. Que poder era esse? E como conseguiria isso? Seria possível salvar a tudo e a todos da morte?


Tornar-me médica não foi suficiente, eu ainda não salvava todo mundo. Quis me afastar da morte, me especializei e quis trabalhar com prevenção, porque, lidando menos com a morte eu tinha a ligeira impressão de que estava dando conta, estava salvando (quase) todo mundo. Ou seria uma ilusão? Eu não estava salvando todo mundo, de fato, o grupo de pessoas não salvas estavam bem longe do meu consultório. Pelo menos eu fico mais satisfeita, eu pensava.


Mas não fiquei satisfeita por muito tempo. Assim que a ficha caiu de que eu era substituível, e de que na verdade o trabalho da prevenção era o de ensinar ao paciente como cuidar da própria saúde, a aura de salvadora foi se apagando. Eu queria mais drama, intensidade de sentimentos, estresse diário pra entender que a vida vale a pena, e no final sentir que consegui apesar de todas as dificuldades. Veja como sou inteligente, forte, boa profissional, eu salvei alguém da morte.
Depois de quase um ano desencantada com minha profissão, aceitei um trabalho no interior. Quis dar uma chance para algo que nunca tinha feito, atuar numa clínica, numa cidade longe dos grandes centros, onde me prometeram casos fáceis de lidar. Mas foi aí que tive uma das piores experiências da minha vida, eu, que ainda queria crer que poderia salvar todo mundo.


Ela não foi atendida por mim no momento da sua morte. Mas eu lembrava que tinha passado no posto porque não conseguia evacuar há alguns dias. Dada a gravidade da sua condição, entendi que ela não poderia estar ali naquele lugar, ela deveria buscar um atendimento mais especializado, e chamei a ambulância para levá-la ao hospital mais próximo. A família depois me contou que apesar de terem feito o que pedi, ela piorou e não quis mais saber de médico nenhum, ficou em casa como que preferindo morrer em seu quarto. Eu era a única médica presente na cidade neste momento. Me chamaram para atestar sua morte.


Logo eu, que não sabia o que era morte e me recusava a entrar em contato com ela. Eu nunca tinha feito isso, até porque meu plano era salvar todo mundo. Estava bastante nervosa pelo fato de estar indo de encontro à morte sem saber reconhece-la, sem saber dizer se realmente ela estava ali.


Foi naquele momento. Estava apenas eu, a enfermeira, e ela, a morte. A senhora que faleceu já não estava. Meu coração batia pra fora do corpo, dava pra ouvir no quarto pequeno, sujo e muito fedido. Ela vomitou o próprio cocô, disse uma das filhas através do tecido de renda que cobria o espaço da porta do quarto. Eu lembro do cimento queimado, do cheiro insuportável, da respiração ofegante, do tremor das mãos, do barulho de choro e gritaria ao meu redor. E da enfermeira falando amorosamente, “deixe comigo doutora”. Acho que nunca serei grata o suficiente a esta mulher.


A cena fora do quarto era de filme de terror. Familiares se jogavam literalmente no chão, em estado de choque. As outras enfermeiras mediam suas pressões como se isso fosse consola-las. Aplicavam injeção anticonvulsivante na pessoa que se debatia de ódio, de puro ódio por estar em contato com a morte. Será que elas não entendiam que só o que eles queriam fazer era gritar, bater seus corpos no chão a ponto de se machucar de puro desespero por ter perdido sua mãe? Eu também fiquei em estado de pânico. Não conseguia dizer nem fazer nada, apenas ficar estática no centro da casa simples. Queria dar um abraço nos familiares, queria ser abraçada por alguém também.


Quando consegui sair daquele lugar terrível eu só podia derramar lágrimas de desespero, angústia, impotência. Foi nesse instante que entendi que não poderia salvar todo mundo, que a morte estaria presente em minha vida mais do que desejava que ela estivesse.


Quando meu gato se recuperou, pensei, que legal ser médico veterinário, e ter essa sensação de adiar a morte de um bichinho tão fofo. A vontade de ser essa médica veterinária durou milissegundos, junto a toda essa história que contei. O médico lida todo dia com a vida e com a morte e, se agora tenho a sorte pra escolher, prefiro não salvar mais ninguém.