por Gabriela dos Santos Marques
Um amigo me perguntou como eu definiria as atribuições de um médico da atenção primária:
Pensei muito sobre a resposta pra essa pergunta. Sei que ele pensou em mim, não porque eu personalize essas funções — oxalá que eu o faça depois de alguns bons anos de trabalho. Mas acho que já as vislumbro todos os dias.
Vou começar com uma metáfora fantástica: uma pessoa querida me disse que eu gostaria de ser um canivete suíço da medicina: porque tenho interesse em aprender sobre tudo.
Bem, de fato, exceto pelo componente perfurocortante, acho que o propósito que eu vejo no médico de família e comunidade é comparável a um canivete de bolso: ser múltiplo e, principalmente, útil.
Para nós, não existe nicho e não existe alta.
Felizmente, há também outros utensílios, mais especializados — e, muitas vezes, é essencial para nossa sociedade acessá-los. O aprofundamento é mérito do admirável avanço das ciências em saúde.
Ainda assim, nos orgulhamos de dizer que nossas cartas de encaminhamentos tem — devem ter — devolução ao remetente.
Entendo a atenção primária como a base. E não sei em que momento o termo básico se tornou diminutivo. Raízes são primordiais.
No trabalho, eu sinto todos os dias a potência de ferramentas leves: a pouco difundida demora permitida, as ressonâncias de perguntas bem escolhidas, a grandeza das pactuações e a transformação que uma boa orientação desencadeia.
Tem mais: o espanto que a decisão compartilhada e a comunicação cuidadosa ainda provocam.
Nós temos o privilégio de acompanhar famílias em seus ciclos de vida: sabemos nomes, sobrenomes, heranças e lembranças. Se dermos sorte, ganharemos lembranças de pré-natal, artesanatos, queijos. Ou só palavras.
Além: percebemos todos os dias como as dinâmicas familiares e comunitárias impactam sobre as experiências de adoecimento e recuperação. O livro clássico de medicina não descreveu esse fenômeno.
Conhecemos nossa população, as ruas, os colégios, líderes religiosos e as casas. Nos dispomos a mapear suas idades, perfil socioeconômico e diagnósticos para nos especializar.
Aliás, conheci médicos da atenção primária cuja formação foi produto de sua comunidade. Aceitamos aprender, com poucas fronteiras e limitações. Com ganas. Com a finalidade de aplicar o máximo que for possível, até onde podemos ir. Nesse caminho, descobrimos algo que talvez tenha sido insuficientemente contado na faculdade: informação é poder. Não nos pertence: informação também trata.
Não foram poucas as vezes em que vi doses cavalares de insulinoterapia, mantidas por anos a fio, falharem. E, em paralelo, uma única consulta farmacêutica de orientações sobre armazenamento e aplicação adequados proporcionar mudanças notáveis em meses. É justo que essas estratégias terapêuticas sejam combinadas. É simples.
Recebemos boa formação biomédica básica. Corremos atrás de expandi-la constantemente. Somos, em nossa maioria, estudiosos e admiradores dos domínios da clínica médica, geriatria, saúde mental, pediatria e gineco-obstetrícia. Precisamos de recursos científicos, compreensão e acesso a drogas, exames e procedimentos. De todos: porque o corpo não sabe se repartir.
Felizmente, não estamos sós — somos parte de redes multidisciplinares: aprendemos diariamente com agentes comunitários de saúde, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, odontologistas, fonoaudiólogos e psicólogos e mais. Compartilhamos casos e atividades com educadores físicos. Recebemos imenso suporte e orientação de recepcionistas, equipes de limpeza, manutenção e gerência. Se formos bons médicos de família e comunidade, saberemos o quão imprescindíveis são
essas trocas.
Esse sistema existe, não por afinidade pessoal, nem por viés ideológico. Existe por causa daquele nosso propósito: ser úteis. Existe porque cuida. Porque resulta. No caminhar, vamos testemunhando que a medicina, estudiosa do adoecimento, é grão de areia no universo da saúde. A saúde existe na equipe multidisciplinar, complementar. Existe nos espaços de convivência. Nos grupos terapêuticos. Na educação. A saúde brota na assistência social e nos direitos. Acontece em casa, frutifica na rua. A saúde é conceito pessoal. É do indivíduo. E nosso papel, penso, é entender como a infinidade desses poderes reunidos pode auxiliar.
O propósito de um médico da atenção primária é dar boas vindas, compreender particularidades no coletivo e oferecer cuidado integral. Recomendar, negociar, se aprimorar. Nosso propósito é identificar, guiar e empoderar. Ser ferramenta versátil na saúde, que sabemos, pertence a outro alguém.