Dos acordos de gentileza

abraço | Arte, Abraço, Imagens

por Jéssica Pessôa Neves

Hoje o dia foi bem tranquilo nos atendimentos, mas minha energia estava bem baixa. Só queria acabar de consultar todos, para poder dar algum cochilo pelo consultório, o final de semana foi trabalhoso e passei um bom tempo preocupada com uma paciente de saúde mental. Assim se passou a manhã, até que o nome de Maria apareceu na lista de espera. Me lembrava dela de consultas passadas. 83 anos, bem emagrecida, aparência de idosa frágil, e portadora de uma DPOC* que tratamos várias exacerbações. Todos os atendimentos que fiz a ela foi sem consulta marcada, e sempre dizia que tínhamos que marcar um horário, mas ela nunca voltava.

Logo que vi, quis chamá-la, primeiro para saber como estava desde o último tratamento que fizemos e ela não voltou, e segundo porque a próxima paciente iria demandar muito mais energia na consulta, era uma forma de descansar.

Esqueci que dona Maria tinha sua própria opinião muito bem formada sobre sua vida. Suas decisões na consulta me fizeram lembrar o que Clovis de Barros citou em um de seus livros, quando falou de David Hume, comparando os afetos à harpa (instrumentos de corda) e não a cornetas (instrumentos de sopro).

“Sim porque os efeitos do mundo sobre nosso corpo duram mais tempo do que o dedilhar que lhes deu causa. Ao passo que a corneta só soa enquanto houver sopro. O mundo nos afeta, e a harpa de nossas sensações seguem vibrando por mais tempo.”

Me senti vibrando após a consulta de dona Maria, não pelo tratamento clínico que fizemos (ou não fizemos), mas pela melodia que me trouxe hoje. Ela veio, sorridente e visivelmente cansada, como sempre. Disse que veio só por dois motivos, uma dor na barriga e uma tontura. “Eu vim pra você me passar uma USG** de abdome, porque não posso morrer sem saber o que eu tenho”, escutei a frase e fiquei curiosa quanto essa ideia de morrer, mas resolvi deixar para uma próxima ocasião. Quando perguntei da tontura ela também fez a mesma observação “preciso de um exame da cabeça, porque não posso morrer sem saber o que eu tenho”. Não aguentei: “dona Maria, a senhora está falando tanto disso, e como é isso da senhora morrer, me conte aí“. Ela gargalhou e respondeu “não doutora, é porque eu tô morrendo né, 83 anos. Todo mundo morre um dia e eu estou mais perto que longe. Aí que eu vou vivendo preparada né, e vou deixando tudo organizado. Mas essa danada dessa dor na barriga que tá me agoniando, porque eu tenho o problema do pulmão que a senhora sabe, mas já sei o que é. Eu fico cansada, mas já é meu normal, já me acostumei, não me acostumo é com a tontura e com a dor, que são coisas novas. Preciso saber o que é pra morrer em paz”.

Interessante como Maria tinha a sabedoria de viver cada dia e de ter uma boa relação com a morte como parte da vida, permitindo sua chegada, quando a vida desejasse ir. Mas ao mesmo tempo tinha a angústia de saber o que é a dor e o medo dela ser “algo de muito ruim”. Para ela o problema não era morrer, e sim morrer com uma angústia. O problema de ser algo grave não era pelo desfecho, mas sim pelo caminho a percorrer. Esses dias acabei lendo algumas coisas sobre a morte e o morrer e sobre nosso papel nesse processo. Um trecho de uma das crônicas que li dizia:

“Pois essa é a vocação da poesia: pôr palavras nos lugares onde a dor é demais. Não para que ela termine, mas para que ela se transforme em coisa eterna: uma estrela no firmamento, brilhando sem cessar na noite escura. É isso que o amor deseja: eternizar a dor, transformando-a em coisa bela.”

 Acho que, quando se fala de morte, de cuidados paliativos e de morrer, o médico deveria aprender a virar poesia, para transformar as dores que os remédios não tratam e, com carinho, eternizar isso em algo belo. Isso deveria servir não só no processo de morte, mas em todas as doenças que demandam algum grau de angústia e sofrimento. Temos o poder de transformar alguém (e ser transformados) durante uma consulta, com palavras e gestos e apenas isso já é ser poesia. Estar ao lado de alguém no seu sofrimento, talvez seja até maior do que isso, é fazer a pessoa descobrir o próprio caminho para, ela mesma, se tornar sua própria poesia e transformar as suas dores em algo eterno e bom. Maria veio querendo transformar a sua dor e acabou transformando a mim.

Segui a consulta normalmente e, no exame físico, notei ela dispneica, com tiragem discreta, e percebemos que a dor não era bem na barriga, mas sim nas regiões das costelas, em base pulmonar. Além disso, não apresentava sinais de desequilíbrio no exame, mas usava benzodiazepínicos de forma crônica. Então, explico a Maria minhas observações, que talvez a dor seja mais pelo problema do pulmão ou algo postural, em vez de ser algo no abdome. E a tontura poderia ser pelo uso do remédio cronicamente. Ela escuta e diz que pode ser, mas que quer a ultrassonografia. Depois de passarmos um bom tempo conversando sobre os exames, acordamos que faríamos então os dois, ela receberia a ultrassonografia que tanto desejava, e eu solicitaria uma radiografia e pediria a avaliação do pneumologista, já que ela não aceitava de jeito nenhum a medicação da unidade pois tinha taquicardia. A intenção era ela levar a espirometria*** (que era bastante alterada) e receber um papel pra pegar uma medicação especial. Maria recebeu cada papel do nosso acordo, sorriu e disse “tá bom doutora, eu escutei a senhora, mas queria dizer à senhora que não vou fazer nada disso não. Eu já sei o que tenho no pulmão e não quero mais fazer nada com isso, deixa quieto”. Expliquei novamente que ela poderia melhorar, que talvez a dor fosse por isso, e enumerei vários benefícios, além de pedir que voltasse no retorno da consulta pois ela nunca voltava ou marcava. Ela novamente disse que sabia, mas que não ia fazer, faria a ultrassonografia e, se desse tudo bem, era por conta do problema do pulmão e ela ia poder morrer em paz. Diante da decisão tomada, eu disse que não poderia fazer mais nada além de estar ao lado dela nessa decisão e de ajudar no que ela precisasse. Terminei a consulta pedindo um abraço a ela “como a senhora nunca volta quando eu peço, deixe eu lhe dar um abraço pra ver se a senhora volta para falar comigo”. Ela gargalhou de novo, se levantou e me abraçou demoradamente. Depois terminou dizendo: “ah doutora, eu vou deixar marcada a consulta da volta agora, mas não vou fazer os exames que a senhora pediu não, viu? Vou voltar só pra lhe mostrar que vim dar o abraço de novo”. E foi assim que elaboramos o melhor plano conjunto do dia e percebi que essa era uma excelente moeda de troca: troco consultas por abraços.

13/02/2019

Jéssica é (ou era?) residente em Medicina de Família e Comunidade, Recife- Pernambuco

DPOC*=Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, doença que causa falta de ar por problemas estruturais no pulmão

USG**=ultrassonografia

espirometria***=também chamado de “exame do sopro”, mede a função e capacidade pulmonares

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