Metades

Por Mayara Floss

Inspirado no poema “Metades” de Oswaldo Montenegro

Que a força de tudo que eu acredito

Não me tape os ouvidos e a boca

Porque metade de mim é médica de família e comunidade, mas a outra metade é pessoa

Que o meu toque seja tenro,

Que quem que eu cuido seja visto como um todo,

Porque metade de mim é o que falo, mas a outra metade é silêncio

Que o dia seja respiração,

E que quando não conseguir uma inspiração, eu ainda consiga encontrar paz

Porque metade de mim é cansaço,

a outra metade é alegria

Que as pressões das gerências sejam suportáveis,

Que eu consiga equilibrar conhecimento e humanidade

Porque metade de mim é fortaleza,

a outra metade é líquida

Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece, nem prescritas com fervor

Apenas escutadas com cuidado

Como deve ser quando consigo ver uma pessoa por inteiro.

Porque metade de mim é integralidade, a outra metade é acesso

Que eu possa ter ciência e humanidade, evidência e sabedoria

Mesmo que as pressões externas não queiram saúde para todos,

Porque metade de mim é o que ouço,

a outra metade é o que calo

E que essa vontade de ir embora, se transforme na calma e na paz que eu mereço,

E que essa tensão que me corrói por dentro, seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que penso,

a outra metade é um vulcão.

Que o medo de não conseguir ser o suficiente,

Ensine-me as minhas limitações e me permita cuidar em rede

Porque metade é a equipe de saúde da família,

a outra metade é o sistema

Que todos os dias, todas as pessoas do mundo tenham acesso à saúde,

Porque metade de mim é individuo

a outra metade é mundo

Que o sorriso no meu rosto

Reflita um doce sorriso que eu lembro ter dado na faculdade

Porque metade de mim é a lembrança do que fui,

a outra metade é construção

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria,

para me aquietar o espírito

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais

Porque metade de mim é evidência,

a outra metade é humana

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente explicar

Porque é preciso simplicidade

Para fazê-la acontecer

Porque metade de mim é o que escrevo,

a outra metade é cuidado

E que a minha loucura seja perdoada

Porque metade de mim é amor

E a outra metade,

também.

Parabéns a todos os MFCs nesse dia especial!

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Médico responsável

por Eberhart Portocarrero Gross

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Um paciente meu foi à emergência com suspeita de fratura de tornozelo.
Passou pelo ortopedista, que pediu o raio-x correspondente.
Feito o exame, a técnica de radiologia entregou o filme e disse pra ele levar ao médico responsável.
Ele veio mancando da emergência pra me mostrar.

#mandanudes

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Por Ana Paula Lemes Martins

Abriu a porta de supetão. Adulto jovem, 28 anos. Não esperou “o bom dia”, nem me deixou apresentar. Foi rapidamente dizendo que só estava com uma dúvida.

– Dotora, é o seguinte: fica ardendo pra mijar. Tens uns 15 dias isso. É estranho meu caso, mas ó… já vou dizendo que não vou mostrar meu pau.

– …

Até ali, a consulta não durara 3 minutos sequer!

Eu fiz cara de paisagem, meu raciocínio tentando acompanhar o ritmo dele.

– Você teve febre? Ferida no corpo ou na cabeça do pau?

– Nada.

Nesse curto espaço ele já havia tirado o celular do bolso e vasculhava o aparelho.

– Teve secreção do canal da urina, tipo molhando a cueca?

– Então… era isso que eu ia mostrar. Olha a secreção.

Mostrou-me uma foto do pênis dele, com secreção tipo purulenta, de livro mesmo.

Eu fiz a prescrição. Expliquei como usava o medicamento. Pedi pra parceira dele vir à consulta.

Ele ele já estava de pé, com celular de volta ao bolso!

Saiu voando do consultório.

Enquanto eu evoluía no prontuário, ri um tempo sozinha: “Eu vi o pau dele, uai, mas foi virtual!”

Histórias da Biquinha

por Maria Alzira Gonçalves

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Na minha unidade recebíamos os estudantes da Faculdade de Medicina no internato.

Desta forma, eu estava com os alunos em uma consulta quando fui chamada pela enfermeira da unidade para ajuda-la em uma demanda. De antemão ela já foi me avisando, a queixa é constipação, mas observa a barriga da paciente. Avisada com antecedência chego para aborda-la, a adolescente estava acompanhada por sua mãe. Devia ter por volta de 16 anos, não me recordo mais a idade precisa. Pergunto o que houve e a mãe prontamente me responde que a adolescente está com muita dor abdominal, em decorrência de encontrar-se quase 30 dias sem evacuar. Com um misto de espanto e incredulidade pergunto a paciente se era isso mesmo, em concordância com a mãe ela acena a cabeça. Resolvi perguntar sobre seus ciclos menstruais e possíveis relacionamentos, embasada pelo aumento do volume abdominal. Ela mais do que depressa me fala que a menstruação é regular e que nunca teve relações sexuais. Para aumento do meu espanto a mãe refere que foram ao pronto atendimento local no dia anterior, e que nada foi resolvido, somente havia feito um Rx e foi prescrito uma medicação a qual não observou nenhum efeito. De espanto e incredulidade rapidamente encontrei-me pasma. – Rx!? Radiografaram a barriga dela?? Ela me afirmou que sim, que não haviam visto nada demais e o mesmo encontrava-se em sua casa. Pedi gentilmente que trouxesse para mim. 

Enquanto a mãe da minha paciente ia buscao Rx, aproveitei que a adolescente estava sozinha e a convidei para minha sala, aonde poderia examiná-la melhor. Palpando o abdômen constatei o que eu e minha enfermeira temíamos, tratava-se de um útero gravídico.  Mais uma vez tentamos explica-la que o melhor seria falar a verdade com sua mãe, e naquele momento eu estaria ali para apoia-la. A mesma permanecia afirmando que não se tratava de uma gravidez. Com o intuito de prová-la a veracidade da minha tese resolvemos auscultar o batimento fetal, perfeito e ritmado. Convicta que estava convencendo-a, mais uma negativa. Enfim sua mãe chegou com o Rx em punho e ficou aguardando pela minha analise. Eu, nesse momento, me defrontei com a gestante, minha enfermeira, uns três acadêmicos e a mãe do paciente, em minha sala esperando por uma solução para o casoFiquei paralisada com o dilema daquele momento.

 Foi quando, fatidicamente, um acadêmico verbaliza em alto e bom som.

Radiografaram ela grávida!

Pronto, o estrago já estava feito. Como contornar essa situação. Tento explicar a então outorgada avó,  que se tratava na radiografia da cabecinha, das perninhas e bracinhos do bebê (cientificamente falando: crânio, úmero e fêmur). A avó da criança ficou dois longos minutos observando o seu neto no negatoscópio, em sequência num rompante saiu em fúria corredor afora. A gestante saiu correndo atrás da mãe, meus alunos saíram correndo atrás da gestante e eu saí correndo atrás dos meus alunos. Meu sentimento agora era de muito medo!!

Do outro lado da rua, me deparei com uma avó raivosa descontando toda sua ira na gestante constipada. Meus internos tentando apartar a situação, alegando que ela não poderia sofrer nenhum dano, pois carregava um bebê. A essa altura prometeram ajudar no pré-natal, no enxoval e na criação da criança; tudo no intuito de preservarem a família. Passados alguns intermináveis minutos, novamente, conseguiram retornar com a família para a unidade e convence-las a iniciar o pré-natal. 

*Biquinha é um bairro de Valença/RJ, esse lugar da foto.

Xingamento reverso

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Por André Luiz Silva

Seu Otávio, 82 anos, bancário aposentado, com “saúde de ferro”, veio somente mostrar exames laboratoriais. Tudo ótimo e normal. Uma consulta de retorno aparentemente sem muitas surpresas em um dia de agenda cheia e nariz congestionado de gripe.
Começamos a conversar sobre política e, ao comentar sobre um político gay recém-eleito, e os problemas com preconceito que esse pode sofrer, ele diz:
  • Pois é, ele pode ser competente como for, mas o infelizmente a nossa cultura é muito atrasada e machista – não disfarcei a surpresa em ver aquele esbelto senhor branco, de grandes olhos azuis, mostrar-se tão antenado nos problemas sociais atuais. Eu não queria dizer que é anacrônico, mas…
  • Sabe como eu faço para induzir culpa diante de uma grosseria machista?
  • Não, seu Otávio, fiquei curioso.
  • Pois bem, ontem mesmo, ao dobrar uma esquina, um carro me deu uma fechada. O cara parou e já veio com aquele xingamento clássico: “p€rra, seu filho da £#*€£¥”
  • E aí?
  • Daí eu abri a janela e falei bem tranquilo: “Cidadão, o senhor me desculpe, mas acabei de sair da missa de sétimo dia da minha mãe, a $&@€ que o senhor acabou de chamar…”. “Me perdoe, senhor, me perdoe”, e ele foi embora bem culpado.
  • Ah, mas que espertinho o senhor!
  • Acho que criei a técnica do xingamento reverso, doutor!! Já posso virar coach, né?
Rimos muito. Fim de consulta sem mais surpresas, depois do “xingamento reverso”. Orientações e a receita do remédio para sua diabetes bem controlada. Uma consulta bem estável eu diria. E assim eu descobri mais uma maneira inusitada de sobreviver em um mundo cada vez mais instável.

Metacauso

 

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Por: Ana Paula Lemes Martins

A data: 05/12/2018

    É o dia Nacional do MFC e o Chefe escolheu pra o grande dia, o Lançamento do Livro Causos Clínicos no DF. De Goiânia até o Objeto Encontrado foram 3 horas de viagem incríveis com meu pai.
Na ida ele me explica que o amigo companheiro de pescaria fez uma cirurgia no joelho. “É gordo,  filha, não se cuida. Não teve jeito”.
Converso um pouco sobre os casos de pessoas cujos joelhos eu cuidei. Ele pergunta se não dá pra infiltrar corticoide na coluna de minha avó que está com hérnia de disco. “Vish, não sei não, pai”.
Ele ainda não acostumou com minha mania de ser médica e admitir que não sou onisciente. Eu rio internamente  da cara que ele sempre faz…
Como todo pai coruja,  fala do meu irmãozinho de 4 anos. “É inteligente igual você,  filha. Ele sabe música,  tudo”. Nessa hora, vêm à minha mente que talvez ele não esquece o episódio da harpa da minha tia que eu afinei sozinha e toquei Parabéns pra Você. Eu tinha uns 7 anos.
Depois conta que tem viajado com o Tadeu, um amigo dele há mais de 35 anos. O Tadeu é o Tadeu. Meu pai o fiscal da obra, o “Doutor” que almoça, janta e hospeda com todo o pessoal da obra. É um engenheiro “sem cara de engenheiro”. Eu amo isso nele.
Ele fala novamente da coluna da minha avó. Ele tá realmente preocupado. Mas acha que ela não tem agido pra melhorar de fato: muito obesa, minha filha… ela reclama, mas não muda de vida.
Então ele conta daquela “ponte ali, ela começou a obra assim que eu enfartei…” Segue adiante conectando engenharia e medicina de uma forma tão bela,  impossível descrever em palavras escritas.

A gente dá uma perdida em Brasília. Só pra variar (todo mundo se perde lá). Ele agradece a Deus pelo GPS. E dentro dele, eu sei, tem um “Deus me livre, atrasar”.

Encontro o Rodrigo e a Thais (sem acento,  viu?). Meu pai fica no carro, depois vai investigar a quadra, caminha pra caramba… afinal “ele não é obeso” por isso! Caminha muito esse jovem idoso de 1955. O Lugar Encontrado é todo aberto, ele chega e sai toda hora de lá. 

A volta foi a mais interessante ainda. Ele revela que durante as 4 formações que fez,  recebeu ajuda dos amigos e dos professores. Ajuda financeira, com deveres de casa, arredondando notas… descreveu muita atitude bacana de pessoas das quais eu me tornei agradecida sem conhecer ou lembrar. Cursos Técnico em Agrimensura e em Estradas, Bacharelado em Matemática e Engenharia Civil. Esses dois últimos foram um seguido do outro. Ele formou eu tinha 15 anos. Nossa foto dançando valsa parece festa de debutante. Diz ele que não é inteligente e só conseguiu porque recebeu muita ajuda. Sei…

Foi então que entendi. Ele esteve o tempo todo ao derredor. Ele me ouviu no microfone ler o causo no Evento! O causo falava dele. Dos banhos de chuva que me fizeram (e fazem) ser mais feliz. 

Ele estava dizendo, sem precisar falar: vai passar, filha, vai ficar tudo bem, você vai superar tudo isso. Eu estou aqui.

Do lado de cá

por Monica Correia Lima

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De repente, sem que esperássemos, a família estava às voltas com um quadro dos mais severos que já vimos, um abscesso e empiema no Sistema Nervoso Central, evolução de uma sinusite em um adolescente de 15 anos. Seus sintomas foram insidiosos, cefaleia forte, confusão mental, estrabismo divergente de um dos olhos, apatia e olhar vago (ausência?), parestesia em perna direita.  Alguns olhando com olhar descrente: Nunca vi isso – Disse o plantonista. Também não tínhamos visto, mas eram sintomas de algo que estava pressionando o lobo frontal, e eram preocupantes.

Atendimento no melhor e mais equipado hospital da Região, mas sucateado por interesses escusos de uma política pública irresponsável e inconsequente, que privilegia o processo privado ao invés do público (cujo financiamento, embora deficiente, deveria ser suficiente para dar qualidade à atenção à saúde nesse nível de complexidade).  A tomografia mostrou então a compressão, realizada a craniotomia (adiada o suficiente para a chegada o neurocirurgião que operava, o que estava de plantão não fazia o procedimento), retirada a secreção, o caso é grave.

A família fragilizada, os médicos assistentes, cada dia um, se limitavam a falar que o caso era grave, sem explicações, sem diagnóstico, sem prognóstico.  Após a segunda tomografia, nada de conversa, nem para consolo, nem para alegria, simplesmente o silêncio.  Ou outras vezes, pior que o silêncio, uma pergunta que não somente contraria nosso código de ética mas que contraria tudo o que assimilei nesses quase 20 anos de SUS, quando o familiar solicita informações e o profissional médico pergunta se o inquisidor é médico.

Então foi minha vez de ficar com o menino, adotada como tia, sentia-me na responsabilidade de estar junto da família nesse momento difícil. Cheguei próximo ao profissional neurocirurgião que estava sentado no computador, olhando vagamente para a tela, perguntei da evolução do menino, informei que era tia, ele ficou nessa mesma posição, de costas para mim, falando em voz baixa e murmurando que o caso era grave, sem diagnóstico, sem prognóstico, sem orientação sobre o tratamento. Pedi a ele para ver os exames, foi quando ele empurrou a cadeira, olhou pra mim de baixo ao alto e perguntou: Você é médica?  Disse que sim, e ele então disse que eu podia ver.

Ainda me pergunto se eu não fosse médica, qual seria a atitude dele, pois para a filha do senhor que estava vizinha ao menino ele simplesmente se recusou a dar explicações, a família de um senhor que caiu de 5 metros e provavelmente fez um coágulo perguntou sobre as medicações que ele estava tomando enquanto internado e ele simplesmente afirmou: Não interessa, você não é médica.

Fico pensando se somente familiares médicos podem receber o presente da informação do médico assistente. Desta forma teríamos que ter um médico em cada família. Então concluindo essa conversa temos um desafio, ou aumentamos o número de médicos nesse país ou cumprimos o nosso código de ética médica.