Dor e cuidado

por Viviane Xavier

Era dia de consultório cheio. Eu, a residente, sete estudantes e uma colega pediatra fazendo matriciamento em “tenda invertida”. Uma a uma, as crianças vinham com suas famílias. Um pequeno diabético de difícil controle, filho de uma soropositiva, um portador de síndrome nefrótica com recidivas frequentes cuja família não aceita utilizar medicações entre as crises, um lactente desnutrido cuja mãe teve uma importante depressão pós-parto, uma mocinha serelepe se recuperando de um ataque de cães de grande porte.

Tina é a última, com seus dois filhos. Síndrome de Marfan com subluxação do cristalino. Os três. Ela, quase cega, fora de possibilidade terapêutica. Eles, aguardando cirurgia oftalmológica. Até aqui, eles não têm outras manifestações. Orientações sobre a síndrome, cuidados, tira dúvidas. Com a mão na maçaneta, ela diz que vai marcar uma consulta só para ela, pois está “muito aperreada” e até já pensou em se matar.

Um milissegundo de respiração suspensa. Todos os olhos da sala fixados naquela moça magra, de membros compridos e face sofrida. O que a teria impelido a fazer essa revelação? Qual o tamanho da dor dessa moça que a fez superar qualquer possível constrangimento e falar sobre algo tão delicado para dez estranhos ao mesmo tempo? A colega pergunta se ela quer ir para um psiquiatra ou um psicólogo. Ela recusa outros serviços. Digo que estou a disposição dela a qualquer momento. Ela sorri. “Eu venho”. E se despede. Parece que eu entendi o recado.

Peço a estudante que narrou o caso das crianças dela que vá naquela mesma tarde até seu domicílio para fazer um genograma, antecipando o cuidado. Uma dura história familiar igual a muitas outras. Família violenta. Infância turbulenta. Foi morar na rua aos 16 anos. Talvez algum abuso. Foi usuária de várias substâncias ilícitas. Traficou para manter o uso. Até que conheceu um grupo de moradores de rua de um movimento de pessoas sem-teto. Pela primeira vez, no lugar mais improvável – a rua – experimentou afeto, proteção, pertencimento. Hoje, tem uma casa e parte dessa família que a vida lhe presenteou é sua vizinhança. A estudante volta pensando em como o ser humano é capaz de causar tanta dor, ao mesmo tempo sendo capaz de se superar tanto. Mesmo não tendo sido cuidada, conseguir cuidar.

Outro milissegundo de respiração suspensa. E agora, o que fazer? Risco alto de suicídio, sozinha com duas crianças. Mas continua não querendo ir para outro serviço. Faço visita domiciliar? Tento referência para o CAPS? Espero ela vir? Peço a ACS que a visite na manhã seguinte para trazer mais informações do contexto. Vou tentar visitá-la quando terminar o acolhimento. Vou para casa apreensiva.

Nem precisou de visita, ela veio. Chega pedindo um calmante. Não tem profissão, nem trabalho fixo. Conta que está aguardando há mais de um ano, quando recebeu o laudo da oftalmologista, o benefício do INSS, mas uma greve de vários meses fez com que seu processo não andasse. A situação financeira está crítica e, como dizia Betinho, “quem tem fome, tem pressa”, ainda mais com dois filhos para criar sozinha. Na última ida a agência do INSS, teve sua perícia adiada por mais cinco meses porque o sistema estava fora do ar. Tentou em vão argumentar com o gerente. Quebrou uma janela com uma pedra. Foi presa. Corajosamente, disse ao delegado que podia mandá-la para o presídio porque lá pelo menos tinha comida e que, com ela presa, pelo menos os seus filhos teriam “a pensão”. Três advogados de outras pessoas que estavam na delegacia interviram, negociaram sua liberdade e dividiram o pagamento de sua fiança.

Outro milissegundo de respiração suspensa. O que eu teria feito no lugar dela? Que alternativas de sobrevivência a vida está lhe dando? E o que está a meu alcance fazer para cuidar dessa família? Arrisco perguntar se ela acha que posso fazer mais alguma coisa, além de passar remédios. Ela responde dizendo que sabe que não está “doente da cabeça”, quer apenas o equivalente a uma muleta para pernas cansadas da luta. Que eu não preciso fazer mais nada, eu já fiz. Pega as receitas, sorri, me abraça e vai.

Fico dividida entre a felicidade de ter cuidado um pouquinho e a frustração de não ter mudado quase nada. A estudante tinha razão. Hoje, a professora foi Tina.