Das dores

por Antônio Rialtoam*

Maria, 50 anos, diarista. Me chega ao ambulatório, na primeira consulta, referindo forte dor lombar. Faço todas aquelas perguntas e exames que a semiologia orienta. Sinal de Giordano positivo na lombar esquerda. Ela afirma que é uma dor muito parecida com a que sentia quando teve cálculo no rim direito. Através do método clínico centrado na pessoa, vou conhecendo Maria e como essa dor afeta sua rotina. Os possíveis diagnósticos foram se desenhando à nossa frente enquanto eu a convidava a manejar seus próprios problemas a fim de buscar a melhor terapêutica. Não referiu mais nada, estava tudo bem em casa. Foram prescritos anti-inflamatório e analgésico, solicitados exame de imagem, e o seu retorno para acompanhamento.

Na segunda consulta, Maria tratou de outra dor. Criou seus quatro filhos com muito suor e lágrima. Proporcionou a cada um, alternadamente, estudar por dois anos em escola particular: era o único meio. Em meio à tristeza aparente, abriu um sorriso orgulhoso quando disse que todos os filhos tiveram lápis da Faber Castell. “Lápis de rico, doutor!” – salientou Maria. Há dois anos, perdeu seu único filho homem. Estava envolvido com drogas, ela sabia. Esteve preso por um ano. Nesse período, ela pagava setecentos reais mensais ao crime organizado para protegerem seu filho. Teve que vender a casa em que morava para custear tanta despesa. Maria emagreceu, trabalhava feito doida. Admite que muito dela morreu com a partida do filho.

Hoje, trabalha diuturnamente para esquecer um pouco essa dor que a sufoca quando a encontra parada e sozinha. Nessa hora, me lembrei de Cora Coralina e pensei que não há outro remédio senão o colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta, o silêncio que respeita, a lágrima que corre, o olhar que acaricia e o amor que promove. Ajudá-la a buscar novos motivos que reacendam a chama de vida quase apagada em seu peito talvez seja a melhor forma de promover o cuidado que ela precisa.

– Posso continuar com seu zap, doutor?

– Mas é claro, Maria! Me chame quando precisar.

– Eba! Ganhei um amigo.

 

* Antônio é estudante do terceiro ano de medicina, membro-fundador da Liga Acadêmica de Medicina de Família e Comunidade da Paraíba, e se diz futuro MFC. 

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Médica de burocras

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por Márcia Santos

E ontem tivemos mais um causo.

Dona Célia* já era minha velha conhecida na unidade. Vou relembrá-los:

Em 2013, chamei o nome dela que já aguardava a consulta por algumas horas. Quando perguntei qual motivo a levou até a clinica, ela respondeu que ia receber um benefício por conta da saúde debilitada mas, para isso, precisava abrir uma conta no Itaú.

Sim. Era essa a demanda dela.

Aqueles milésimos de segundos em que utilizei o raciocínio tipo 1 buscando respostas rápidas na mente para esse “problema médico” ao mesmo tempo que me surge na cabeça o pensamento “tá de sacanagem”.

Nada.
Vazio. Mente vazia.
Zero scripts mentais.
Silencio.
Meu rosto refletindo nos olhos da dona Célia que aguardava minha resposta.

Acionei o raciocínio tipo 2: busca na literatura. Entrei no google e busquei o endereço da agência mais próxima e as linhas de ônibus que a levariam até lá.

“Mais alguma coisa?”
“Não doutora, só isso mesmo, obrigada.”

Pois ontem, dona Célia voltou.
Fez 65 anos semana passada.
Tinha agora direito ao RioCard Senior, cartão de gratuidade para o transporte público municipal.
Um irmão informou a ela que precisaria tirar a foto pro cartão. E ela foi lá, na clínica, para eu tirar a foto dela. ❤️❤️❤️❤️❤️

É mto amô, minha gente ❣️❣️❣️

Como já conhecia a paciente, (longitudinalidade linda) entrei no site do RioCard e agendei dia e horário no posto de atendimento que dona Célia escolheu. Ganhou abraço de parabéns. Ficou de voltar semana que vem pra dar outro abraço, pelos “meus” parabéns.

Fui dormir pensando que era uma médica de burocracias, mas acordei com a certeza de que acolho as demandas dos pacientes.

Me arrependi de não ter tirado uma selfie, mas depois ia ser complicado pra dona Célia entender que aquela foto não bastava.

*Nome da paciente foi trocado pra eu não levar bronca.

E tem CID pra isso?

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por Lia Shimamura

Sexta feira é dia de VD. Fomos eu, a residente e a ACS. Bom, só de andar por tantas vielas e escadarias, casas empilhadas, portas escondidas, fiação exposta, crianças correndo, esgoto a céu aberto, a reflexão é inevitável. Que realidade é essa do nosso lado e tão diferente de nós? Eu só conhecia a Rocinha olhando, pela estrada da Gávea, sua muitas luzes e casas sobrepostas. Aquele mundão que faz a gente dobrar o pescoço para conseguir enxergar tudo. Só conhecia, por trás do vidro do carro, no ar condicionado, com as janelas fechadas e som ligado. Na minha visão, ela era iluminada, grande e imóvel. Hoje, quando eu subia, sentia que ali escorre vida. E muita. De todos os tipos. E de um lado uma porta. De outro um mercado. De outro o menino do tráfico que olha. De outro os idosos que pararam para descansar de tantos degraus. E em meio a tantas vidas, fomos atrás de uma. Dona Maria. Ela mora do lado do mercadinho, numa casa verde. Uma porta que dá para sala. Um sofá, uma mesa e uma tv. Ao lado do sofá, um corredor que se estende até o ultimo cômodo. Talvez sejam 3 ou 4 cômodos e um banheiro cheio de baldes com água amarelada. Talvez seja a reserva dela desde que a agua acabou. Bom, mas não foi a casa que fomos ver. Foi a senhorinha de idade, de cabelos brancos e meio ralos, soltos, com 1,60 de altura, cega dos dois olhos, diabética, mora sozinha, não tem filhos. Fomos entregar seus exames de sangue e ver se estava tudo bem. Não está. Ela senta e começa a contar sobre o sobrinho que cuidava dela, mas teve AVC e se mudou para Queimados, sobre seus olhos que já não prestam mais e só enxergam a claridade, sobre como ela se escora nas paredes para andar e já caiu muitas vezes. E chora ao lembrar de sua solidão. Dona Maria chora quando perguntamos como ela toma os remédios, como vive sozinha e como está. Ela se confunde com os remédios, não termina uma frase sem demonstrar falta de ar e apresenta uma glicemia capilar no céu. Enquanto a via chorar, segurei em sua mão e falei que tudo ficaria bem, afinal, estávamos lá pra cuidar dela. Mas a verdade, é que eu não sei bem se tudo vai ficar bem, porque enquanto pensava que eu podia ausculta-la, calcular sua frequência, fazer minha melhor semiologia, nada adiantaria. Podia ser uma insuficiência cardíaca, uma pneumonia, uma cetoacidose. Podia ser só tristeza. Mas o que eu achava mesmo era que o problema dela não tinha CID. E a solução, não estava nos remédios. Ela precisava regularizar a glicemia, melhorar a dispneia, descobrir sua causa e iniciar algum tratamento. Ela precisava de alguém que mostrasse os remédios, ajudasse a andar, a cuidar da casa, do dinheiro e das compras. Ela precisava morar num lugar mais baixo, sem escadas, sem aglomerações e com água. Ela precisava de carinho. E eu, me senti impotente e me perguntava, “gente, qual o CID dela! Como a gente vai encaixar ela num problema só? Como que a gente resolve isso só chamando o SAMU? A assistente social pode levá-la para uma casa de idoso? O que será que ela pode fazer? O que será que nós podemos fazer? O que será que eu posso fazer?” E em meio a um bilhão de pensamentos, a ACS apareceu com o irmão de dona Maria. Ele morava com a esposa em cima da casa da velha senhorinha. Era ele quem cuidava das compras e do dinheiro, mas disse que o resto todo ela fazia sozinha. Perguntamos se dava para levá-la a clínica. Pediu nos uma hora para estar lá. Saímos e ela levantou, segurando as paredes, procurando seu quarto para trocar de roupa.

Descemos para começar a arrumar a papelada para uma vaga zero. Ficou decidido chamar uma ambulância, para leva-la a uma Emergência para investigar e arredondar os problemas médicos de dona Maria. Ela precisa de exames com resultados imediatos e a CSF não dispõe desse recurso. A assistente social será acionada num segundo momento. Eu percebi que, apesar de me sentir impotente, o que tava acontecido ali era fruto de uma sistema público de saúde funcionando a pleno vapor! De uma VD a uma emergência para resolver as prioridades do momento, sem ignorar que, num segundo momento, ela vai precisar de uma outra profissional para suas questões sociais. Que mesmo que não sejam solucionadas, mas que sejam pelo menos, consideradas.

Bom, tudo foi encaminhado e no meio dessa história toda, vou te contar o que eu guardo pra mim com carinho: eu passei pela sala de espera e lá estava Dona Maria. Com cabelo arrumado e vestido até o joelho, de pano grosso, branco e todo bordado champagne. Desses mesmo, que as senhorinhas usam para ir em casamentos. Ela, com 54 incursões respiratórias por minuto, colocou seu melhor vestido para ir ao médico. E além de dizer para todo mundo o quanto eu achei ela fofíssima, eu senti gratidão (e um pouco menos de impotência). Por estar vivendo e vendo isso, a medicina sendo essencialmente medicina. Sendo cuidado. Sendo humana.

Superando medos e adversidades

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por Lucas Felipe Gomes*

Olá, meu nome é Lucas, e como todo jovem eu tinha sonhos e projetos.

Mas por divergências da vida, alguns desses sonhos e projetos foram interrompidos, e então com o passar do tempo por achar que nunca mais eu iria retornar e alcança-los, eu me desesperei e não enxergava uma saída. Desde então comecei a apresentar quadro clínico de ansiedade.

Eu já não conseguia dormir, não me achava capaz de nada, achava que iria acabar tudo pra mim a qualquer momento, frequentava o pronto atendimento (P.S.) toda noite. Me dopavam de Diazepam e outros medicamentos. Eu tinha dificuldade em externar meus problemas, pois tinha o tempo todo que me fazer de forte, e quando raramente eu deixava aparecer meus medos eu ouvia quer era frescura, que era normal. Quando eu cometia alguns pequenos deslizes logo eu ouvia: “Mano, você?! Quem diria!”

Eu não consegui manter essa situação, comecei a ter falta de ar, coração acelerado, e não achava um meio de resolver e nem quem pudesse me ouvir sem fazer julgamentos ou dizer que não esperava isso de mim. Então procurei ajuda no posto de saúde, mesmo achando que não ia funcionar mais uma vez, e então passei por uma consulta com o Dr. Pedro.

Ele ao avaliar meu quadro clínico fez com que eu me sentisse a vontade, me estimulando a externar algumas questões que me afligiam. E iniciamos um tratamento que chamamos de Resolução de Problemas. Ele me ajudou a enxergar que tenho que dividir por etapas e tentar resolver uma coisa de cada vez, e entender que eu não posso controlar o que as pessoas pensam de mim, e que não posso me cobrar em relação a isso, porque as vezes o meu melhor não é o bastante, e os outros se decepcionarem mesmo assim.

Ele me ajudou a ver que nunca é tarde pra correr atrás do que sonhamos. Planejamos e consegui resolver várias questões que achava que não tinha mais jeito e retomei todos os sonhos e projetos que tinha. Um deles era cursar enfermagem e finalmente consegui realizar esse feito. Agradeço muito a ajuda prestada pelo Dr. Pedro. As vezes tudo que uma pessoa precisa é alguém que possa ouvi-la e tentar entendê-la.

 

*Lucas é paciente do Dr. Pedro Oliveira, médico de família e comunidade em São Carlos-SP, que após uma experiência bem-sucedida ao usar a Terapia de Resolução de Problemas encorajou seu paciente a escrever sobre o processo. Ele encarou o desafio e autorizou a publicação do texto no blog.

Sobre vínculo, confiança, respeito e verdade

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por Bianca Niemezewski Silveira

Plantão na sutura do HPS:

Estava esperando chegarem pacientes. Ouço a técnica de enfermagem chamar um paciente. Vejo ela fechando as cortinas do leito e fico curiosa, vou lá e vejo uma paciente deitada com a barriga para baixo, a saia levantada e um corte a ser suturado na nádega.

Volto à tela dos pacientes para verificar quem ela era e qual era a história e encontro dois pacientes:

Marlene* de 89 anos e Wellington* de 28 anos.

Tenho um estranhamento inicial e nesse meio tempo chega minha colega e pergunta: “como assim? Tem alguma coisa errada!” Em seguida, eu já raciocino e lhe digo: pode ser uma pessoa trans 🙂

Minha colega se dirige ao leito e já inicia a higienização, já que eu tinha feito a sutura do paciente anterior e fazemos revezamento.

Abro o prontuário do paciente chamado Wellington e a história refere ferimento em nádega. Ao mesmo tempo, escuto a técnica contando para outra: “ah, ele disse que as crianças estavam descascando uma fruta, deixaram uma faca em cima do sofá e ele não viu e sentou em cima.”

Resolvo me dirigir ao leito. Minha colega está anestesiando a paciente de saia.

Me aproximo. Vejo sua saia, sua blusa, seu sutiã, sua bolsa e seu cabelo pintado. Cumprimento-lhe, me apresento e lhe pergunto: “como tu gosta de ser chamada?” “De Gabi!!!” Responde ela com um sorriso de orelha a orelha.

Fico feliz com o sorriso e a receptividade dela comigo e me sinto à vontade para puxar assunto.

“Poxa, que coisa, ali no sistema está o outro nome! Sabia que tu pode oficializar teu nome social?”

“Sabia e eu fiz! Mas eu perdi a minha carteira com o nome social e daí eles não aceitam colocar ele e têm que colocar o outro…”

“Puuutz, que ruim, sinto muito por ti! E já pensou em pegar uma segunda via?”

“Sim, mas é complicado…”

“Eu imagino… Mas e onde tu mora?”

“Ah, moro na Restinga, mas vivo mais pelo centro…”

“Ah, lá na Restinga tem posto de saúde, né?”

“Sim, tem sim…”

“Mas quando tu diz que vive mais pelo centro, tu quer dizer que está em situação de rua?”

“Sim!”

“Hmmm… mas se tu fica mais pelo centro, tu por acaso é atendida pelo consultório na rua?”

“Sim!!! Lá do Santa Marta!”

“Aaah, legal!!! Eles são uma equipe bem boa, né?”

“Aham!!!”

“Acompanha com eles?”

“Sim, sim”

“Legal! Mas então… ééé… o que que tu te considera?”

“Como assim?”

“Ai, desculpa se eu estou sendo indelicada, mas é que eu gosto muito do assunto LGBT! Não precisa falar nada!”

“Não, não, falar é melhor! Eu me considero trans!”

“Aaaah, legal!!! E tu tá bem com a tua imagem corporal?”

“Como assim?”

“Tu te sente bem com tua genitália?”

“Sim!”

“Já operou?”

“Não!”

“Gostaria?”

“Não…”

“Ah bom, que bom! E hormônios? Já teve vontade de tomar?”

“Já tomei!!! Tomei por conta uma época… mas minha médica… pq lá no Santa Marta eu acompanho para cuidar de outra doença, aquela sabe?”

“Aquela que trata com ‘três em um’?”

“Essa mesma… Ela me pediu para eu nunca mais fazer isso! Pq agora estou seguindo o tratamento! Faz três meses que estou tomando os remédios direitinho!”

“Poxa, que legal, parabéns!!! Maaas, tu comentou que tá em situação de rua, né? Como que faz para tomar o medicamento certinho?”

“Ah, eu pego no posto, deixo na minha bolsa e levo sempre comigo!”

“Entendi! Que legal, parabéns mesmo!”

“É, é que ano passado eu perdi minha irmã por causa dessa mesma doença… daí eu decidi que queria tratar dessa vez. Faz dois anos que eu descobri que tinha!”

“Puxa, sinto muito pela tua perda. Mas fico feliz que tu tenha decidido seguir o tratamento agora. Mas eu imagino que seja muito difícil!”

“É sim… para mim, a ficha só caiu quando peguei os remédios na mão e tive que tomar… muito ruim, ainda tem muito preconceito na sociedade, sabe?”

“Sei sim…”

“Pois é, mas daí agora tá tudo certo!”

“Com certeza… mas e tu costuma usar preservativos nas tuas relações? Tu e a tua ou o teu parceiro no caso, né?”

“Ah sim, eu sei que a gente pode pegar outras doenças tbm, já tive sífilis e tratei, mas daí peguei de novo…”

“Sim, sim, mas sífilis a gente pode tratar. Se tu pegou de novo, pode tratar de novo. O problema são outras doenças, como hepatites por exemplo.”

“Sim, por isso sempre uso!”

“Que ótimo, parabéns mesmo! Mas e como que é a aceitação pelos teus pais? Eles te apoiam?”

“Siiiim! Claro, no início não né, mas hoje a minha mãe vive pedindo para eu voltar para casa…”

“Sério?! Que demais!!! Isso é incrível!!! E por que tu não volta?”

“Ah, pq é difícil… ainda tem muito preconceito né… não consigo emprego e me sinto muito mal de ficar morando com ela sem poder ajudar. Não gosto de ver ela trabalhando e eu lá sem poder ajudar…”

“Hmm.. entendo, complicado né? Eu imagino que seja muito difícil, mas pensa com carinho nesse pedido dela… Na rua tu acaba ficando tão exposta ao ódio de tantas pessoas… Imagino que tu já deve ter passado por situações tão delicadas e deve ter mil histórias para contar.”

“Ah, com certeza, é muito difícil ficar por aí… eu sou o combo completo: mulher, preta e pobre! Não é fácil!”

“Pois é, eu imagino… Mas enfim, pensa nisso, cuida de ti, te protege como for possível se assim tu achar melhor. Por que por mais que tu não possa trabalhar fora, pensa assim: tua mãe tá tendo que trabalhar duas vezes: fora para ganhar dinheiro e dentro de casa para manter tudo em dia, não é?”

“Sim…”

“Então se tu for para casa, mesmo que não traga dinheiro para casa, se ajudar com as tarefas do dia a dia já vai estar ajudando e muito ela!”

“Sim, é bem isso que ela me diz!!!”

“Então! Pensa com carinho… Quem sabe, né? Hehehe…”

Vejo que minha colega está terminando a sutura e resolvo finalmente fazer a pergunta que eu geralmente faria no início da ‘anamnese’ do HPS:

“Mas então, o que que aconteceu contigo para ficar com esse corte aí mesmo?”

“Ah, um ex-namorado… ele não aceita que eu não quero mais… daí eu tava lá na minha e do nada quando eu vi já tava com minha bunda sangrando…”

“Puuutz, que ruim!!! Sinto muito! Mas agora minha colega já está terminando e vai ficar bem!”

“Ai, sim, muito obrigada vocês duas! Muito queridas! Porque eu agora tô desse jeito: com dois furos na bunda! Hahahaha…”

Juventude

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por Marcos Mendonça
Conversando comigo do outro lado da varanda, Dona Terezinha me confessou o sonho que possui de voltar a ser jovem.
Enquanto a ouvia, sentia a transcendentalidade de seus pensamentos brilhar em suas pupilas enquanto lamentava seus arrependimentos. Tal qual o Farol da Solidão: emitindo uma bela e clara luz solitária, mas de portões trancados, arraigada em um balneário velho e abandonado. Entre um devaneio e outro, dizia que se tivesse mais uma chance não teria casado; dançaria mais, viajaria para outros mundos, conheceria pessoas diferentes e teria mais apetite pelos livros. Faminta por uma nova vida, a cada projeção emitia um suspiro, imaginando um dia no passado onde receberia a visita de uma Terezinha do futuro, que lhe mostraria todas as suas cicatrizes adquiridas pelas suas escolhas e que lhe desse conselhos de mudança, encorajando uma personalidade outrora pueril, covarde e coagida, a ter coragem para buscar, de uma vez por todas, a tão sonhada felicidade.

De volta aos pés no chão, retorno para casa. Ao sentar na mesa, me deparando com as folhas em branco, tento rabiscar algumas letras. Mas me envergonho dos olhares destas paredes brancas que me encaram questionando os motivos pelos quais, mesmo em pleno auge da minha juventude e de minha sanidade, novamente sinto vontade em trancar minhas portas e, entre lágrimas e decepções, desejo a passagem do tempo.

Penso então na conversa que tive. Sexagenária, tendo passado apenas poucos anos de sua viuvez, nem mais no dia de finados Terezinha visita o túmulo do falecido marido. Embora seu semblante não demonstre qualquer reação contra as chagas causadas pelo sofrimento dos anos, interrompia minhas retribuições de esperança para ensinar que nem os mortos merecem a memória da nossa tristeza.
E termina dizendo que nós, os sobreviventes deste mundo, somos os verdadeiros maestros da nossa própria vida. Nossos instintos mais profundos devem incentivar as nossas escolhas, construídas a partir do nosso caráter, com muita coragem e com muita alegria de viver – quebrando assim as correntes que prendem a abertura de nossos portões, movendo assim nossos solitários faróis aos oceanos. O medo não é sair da beira do mar: é iluminar aquilo que ainda não conhecemos.
Hoje Terezinha é a personificação do meu futuro batendo em minhas grades, me aconselhando a bradar por liberdade, por uma vida nova. No fim de mais um ciclo, não vou fraquejar. Vivo para ela e para a minha paz. Assim, ergo a cabeça em direção ao ponto mais distante deste oceano; esqueço as mágoas, remodelo as recordações e saio a buscar o desconhecido. A força das ondas na arrebentação já não são mais obstáculos.
Dá adeus à terra firme; sai em busca de ti.

E a vida? Como vai?

por Vinicius Siqueira 

(aluno do 12º período de Medicina (UFRJ) e interno na CF Victor Valla, Manguinhos, Rio de Janeiro )

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Quando estamos no chamado “ciclo clínico” do curso, que se estende, mais ou menos, do quarto ao nono período da graduação, temos a oportunidade de conhecer um número incontável de sintomas, síndromes e doenças, todos detalhadamente explicados, desde as suas bases moleculares mais complexas até as últimas terapias lançadas ou ainda em teste. É uma carga de informações novas capaz de excitar os nossos neurônios e o nosso ego, de tal maneira, que a ideia de ser médico e saber aplicar todo aquele conhecimento nos encanta e fascina.

Eu me recordo bem da minha primeira crise durante o curso, quando, ao final do ciclo básico, quando os genes, moléculas e células povoavam nosso dia-a-dia com uma frequência estressante. Questionava se eu desejaria, de fato, ser médico, dada minha grande dificuldade em me adaptar àquele estudo. Confesso que era um desgaste imenso sair de casa todos os dias para assistir àquelas aulas, numa sala à meia luz, sentado numa cadeira desconfortável. Mas me agarrava ao relato consolador dos meus veteranos de que depois melhoraria, quando chegasse o “ciclo clínico”.

O esperado “ciclo clínico” chegou e, de fato, as coisas melhoraram. Fiquei feliz de abandonar um catatau de moléculas e receptores e dar uma folga à proteína G, a fera que conduzia meus pesadelos em noites mal dormidas. A transição foi para melhor, mas acabei me acostumando ao modo como estudávamos as doenças e, com o tempo, também me cansei e voltou a ser um suplício ter que memorizar listas de sinais e sintomas para aprender a encaixá-los em cada enfermidade.

Um momento feliz desse período era o contato com os pacientes internados. Uma oportunidade de conversar, de examiná-los diariamente, acompanhar sua evolução clínica, escutar suas dúvidas, lamentos ou lampejos de alegria que surgiam naquele mar de sofrimento e tristezas que muitos enfrentavam diante de doenças graves ou muito debilitantes. Era bom sentir como as coisas aconteciam na vida real e uma máxima se tornou muitíssimo comum naquela época: “o paciente não lê o livro”. Isso me suscitava um questionamento: “então porque perdemos mais tempo com os livros do que com os pacientes”?

Nós estudamos numa universidade com profissionais muito competentes. Essa afirmação é incontestável no âmbito do conhecimento clínico e teórico de nossos professores e uma meia verdade quando os analisamos do ponto de vista humano, uma vez que nem todos tem sua sensibilidade apurada para enxergar outros aspectos além do clínico. Mas é importante pontuar que, ainda assim, aprendemos com grandes mestres de Medicina e humanismo.

A minha mais grave crise durante a faculdade aconteceu quando perdemos completamente o contato com pacientes, no oitavo período, e passamos a ter uma grade horária cem por cento teórica durante um ano inteiro, o ano que precede o internato. Nessa época, minha vontade de sair da cama para ir para a aula era nula.

Foi quando iniciei um estágio em Atenção Primária na Rocinha. Eu fiquei mal colocado no concurso da Prefeitura e, no dia da escolha do local de estágio, o único local que restava e que eu era capaz de localizar mentalmente no mapa do Rio era a Rocinha. Saí de lá um pouco desapontado com a clínica que me tocou, por ser longe de casa e incrustada numa favela que eu não conhecia. Fui fazer minha matrícula na CAP e contei à médica que me atendeu e ela me disse que eu seria muito feliz com essa experiência, porque as coisas não acontecem por acaso.

O presságio dessa pessoa, que se chama Adriana e eu só vi mais uma vez na vida, não poderia ser mais certeiro. Conhecer a Rocinha e me inserir no dia-a-dia daquela clínica fez cessar os questionamentos que eu trazia sobre insistir em ser médico ou não. Eu havia me encontrado e era muito feliz o dia que eu acordava e saía de casa para uma jornada de quase uma hora dentro de um ônibus e mais alguns minutos morro acima rumo à clínica.

(me estendi longamente nessa história que eu contei com uma única finalidade)

Na Rocinha, eu apliquei muitos dos conhecimentos adquiridos na universidade. Tive a oportunidade de ver doenças variadas, apresentações atípicas, traçar raciocínios diagnósticos complexos, solicitar exames laboratoriais e aguardar ansiosamente pelos seus resultados, abordar pacientes saudáveis ou pacientes extremamente graves, que viriam a falecer menos de 24 horas após a consulta. Eu me lembro da sensação de me sentir médico, talvez pela primeira vez. Valorizei o tempo que eu passei estudando doenças.

Mas na Rocinha eu aprendi que o paciente não é apenas um conjunto de células que adoecem. Aprendi que Medicina não é estudar doenças e deve ser muito pouco eficaz o médico que assim pensa. Na Rocinha, eu aprendi que faz parte da consulta perguntar como o paciente se sente, o que ele acha que tem, o que ele espera de mim, qual o melhor tratamento para seu sofrimento. Lá eu aprendi a conversar sobre a vida com o meu paciente e descobri o quanto isso é um “santo remédio”.

Toda essa história me voltou à cabeça quando, na terça-feira, atendemos uma paciente com a língua e o resto do corpo formigando, isso associado a algumas aferições de pressão acima de 160 nos últimos dias. Uma hora antes, ela havia sido atendida na UPA e saiu com uma prescrição de fluconazol e dexclorfeniramina, além de uma injeção de prometazina a ser aplicada na hora, mas a paciente resolveu buscar uma segunda opinião na clínica da família antes de tomar as medicações.

Durante a consulta, apliquei o melhor raciocínio clínico que eu poderia para tentar entender aqueles sintomas. Busquei compreender a sua história em detalhes. Mas também me lembrei de perguntar o que aprendi na Rocinha. “E a vida? Como vai?” Estava tudo bem. Insisti mais um pouco, mas não consegui que ela falasse muita coisa. Eu notava no fundo dos seus olhos que queria falar. Naquela consulta eu não consegui, mas deixei a porta aberta para que voltasse quando quisesse.

Eu fui muito feliz por ter conhecido a Rocinha, Adriana estava certa. Lá conheci os primeiros médicos de pessoas da minha vida e sou muito feliz por isso.