A peculiaridade do Amor

por Verônica Cisneiros

Era um dia sem muitas histórias, quando no final da manhã entra uma jovem mãe com seu filho de um ano no braço para uma consulta de rotina. Contava que Gabriel não se alimentava bem e estava resfriado, entre outras queixas vagas. A narrativa era insegura, de quem desconhecia os hábitos da sua cria. O desconhecimento e o carinho soavam dissonantes. Foi quando perguntamos:

– Então, Carla, quem cuida dele durante o dia?

– Ah! Doutora, o pai. A senhora percebeu não é? Ele trabalha “na noite”, enquanto eu passo o dia fora, todos os dias vou buscar Gabriel na casa dele quando volto do trabalho.

– Então porque não marcamos um outro momento em que o pai possa vir?

– Ah doutora! Acho que não vai dar… Ele não gostaria de vir ao posto, até pensou muito, mas preferiu que eu viesse. As pessoas sempre ficam “reparando” nele, e eu não sei se posso convencê-lo a vir.

Concluímos a consulta com um agendamento para que a família viesse à tarde, quando há menos usuários na sala de espera. E eis que entra o pequeno Gabriel com seus pais, ambos com aparência de mãe. Então Roberta fala que é pai do bebê, mas que ela e Carla continuam sendo apenas boas amigas que compartilham o cuidado da criança, ela de dia, e Carla à noite.

Há momentos que são “sagrados”, pousei a caneta sobre a mesa, e os olhos sobre aquela família singular. Ambos passaram a contar sobre a noite em que a bebida e a conversa de amigas íntimas extrapolou para o que diziam ter sido uma relação única estimulada pelo álcool e pela cumplicidade. Discorrem sobre todo o tempo da gravidez em que ambas pensavam que o pai do bebê era o namorado de Carla. Contam sobre a imensa confusão quando o namorado olhou para a criança nos seus primeiros dias de vida e concluiu que o filho de Carla não poderia ser seu, o que veio a ser confirmado mais tarde.

O gelo inicial fora quebrado, e nas próximas consultas Roberta traria Gabriel, pois tinha muito mais tempo, além de intimidade com o dia a dia do pequeno. Fiquei refletindo sobre os diversos arranjos familiares que conhecemos no cotidiano, sobre a delicadeza da amizade, do amor e do desejo.

Era uma outra manhã, em que as consultas se sucediam com as muitas histórias diárias, quando Carla entra no consultório visivelmente angustiada. Entra sem Roberta e sem Gabriel. E diz, bem doutora, eu vim por que acho que a senhora pode me ajudar, eu vim porque eu não sei bem o que eu sou. Não sei se sou lésbica ou se sou mulher. A partir daí sua fala era entrecortada pelo choro da dúvida, de amar Roberta, ou Roberto. Pedia ajuda, pois acreditava não ser nada, nem homem, nem mulher, pois gostava unicamente de Roberta. Uma pessoa que ela descrevia como indefinida e encantadora, que hora lhe parecia homem, ora lhe parecia mulher, com um pouco de cada coisa, o que a deixava totalmente confusa e apaixonada. Tentava colocar seus sentimentos em frases, pensando para falar, e seguia contando… Relatava suas tentativas frustradas de se sentir atraída por outras pessoas, e compreendia que tinha atração por este ser de aparência incomum, Roberto e Roberta. Perguntava se talvez poderia se apaixonar por outro “travesti”, ou se apenas Roberta. Esta reflexão fazia com que se desesperasse, porque esta não seria uma solução razoável para sua vida, seria o mesmo tipo de amor impossível de ser correspondido, pois teria de ser homem.

Chora mais ainda por ter finalmente conseguido falar sobre o que sente com alguém, perguntava se era normal, ou se algum dia poderia voltar a ser “normal”. Agradeceu por não ser criticada ou julgada, ou mesmo aconselhada.

Expliquei que naquele dia tivemos uma grande oportunidade, ela de poder ouvir a si mesma ao falar comigo, e eu por merecer a confiança da partilha.

Era um daqueles momentos em que oferecer os ouvidos e as mãos é mais terapêutico que qualquer outra atitude. As palavras? As palavras são pequenas ante uma alma que se desnuda… Há outros modos de compreender as muitas maneiras de amar e desejar.

A grande dor de Carla era não ser amada por Roberto como gostaria. Para Roberto nada mudou, estava feliz em ser Roberta e amava Carla com a mesma amizade de sempre. Para Carla tudo mudou, perdia a própria identidade.

Naquele dia Carla pediu para vir outras vezes, apenas para com “versar”…. Dizia que entrou pensando que precisava de médicos e remédios para voltar a ser normal. Depois daquele dia entendeu que precisava apenas redescobrir a si mesma.

E eu descobri, num dia que parecia qualquer, que Jung estava certo ao dizer “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana. ”

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Geneci ou Juraci? (Sem falar, dizemos tudo)

por Verônica Cisneiros

 Nos idos de 48, em São José do Egito, estado de Pernambuco,

uma menina nasceu, e por Geneci se criou.

Se passaram mais de dez anos, Geneci já era bem crescida,

nasceu a pequena irmã, batizada Juraci.

Nasceu fraquinha, fraquinha, e logo, logo morreu…

 

Tava tudo indo bem, não fosse tanta filharada.

Deu de trocá de nome, a mesma mãe inconformada…

Em família muito grande, isso é coisa bem comum,

Trocá nome de gente, mermo sem sê bebum.

 

Cresce um e cresce outro, Geneci saiu de casa

Faceira que era a danada, deu-se de querê casá.

Liga da cidade grande, e pede seu batistério

pro mode tudo aviá.

Na pressa de se casá, os nome bem parecido

Chega o tal documento com nome de Juraci!!!

 

Casa então Geneci, com o nome de Juraci!

Não estranhou o nome, nem fez conta da idade

Acostumada a sê trocada, só pensava em se casá

E muitos anos depois, já até enviuvara, vai no posto de saúde

Chegando lá a dotôra, mermo sendo educada, com a cara dizia tudo!

Pois pra tão pouca idade…estava muito acabada!!!

 

Juraci sai da consulta, assim meio cabreira, danou-se a fazê conta

E vê nos documento, pra 49 anos, tá mermo muito enrugada!

Botou a cara no espelho, olhou, olhou e entendeu que espelho não erra nada!

 

Decide ligá prum irmão, que há muito tempo não via,

dizendo “Alô João, quem fala aqui, adivinha, é Juraci…”

É quando o irmão dá risada, e lembra que a danada

Deve de tá esclerosada pois se chama é Geneci!

E do ôto lado da linha diz: “Geneci, Juraci morreu! Lembra não?”

Depois do telefonema, vai procurá a dotôra

Dizendo toda animada, a senhora tava certa

Já vou pra mais de sessenta, vou lhe contar como foi

 

Fica esclarecido o mistério da menina Geneci

Que viveu como Juraci

Casou, pariu, enviuvou!

Já até recebendo pensão

No engano do batistério!

E no posto de saúde, ganhou fama a confusão

Mas da lei se escondeu, por causa da tal pensão!

Através do espelho

por Verônica Cisneiros

Era uma dessas manhãs em que a gente se veste de coragem, calça os sapatos capazes de enfrentar os esgotos a céu aberto das ruas molhadas, e o chapéu para tentar diminuir os efeitos do sol nordestino. Durante o caminho as reflexões são muitas, pois era uma região entregue à população por permuta de uma área ocupada, e na “pressa” as casas não obedeciam quaisquer normas sanitárias para habitações minimamente saudáveis.

Caminhávamos pensando até que ponto aquele desalinho, odores e tantas faltas, até mesmo de cores se refletiam no ânimo e na autoimagem das pessoas que ali viviam. Pensávamos em como seríamos nós, se o acaso fizesse dali nossa morada. A cada passo vinha uma reflexão, e a cada outro um respeito nascido da superação de cada um daqueles moradores.

Assim chegamos a residência da Sra. Marinete, parte do muro fora derrubado e não havia portão. A família, como costumam dizer, trabalhava com reciclagem, eram catadores. Ao adentrar o caminho estreito que chegava à porta da casa dificilmente conseguíamos delimitar onde terminava o material amontoado a ser reciclado e onde começava a casa, afinal casa e terreno exibiam uma só paisagem, de garrafas, papéis, latas, restos alimentares e ratos que transitavam por toda parte.

Entramos. E a um sonoro “boa tarde D. Marinete! Somos da sua equipe de saúde, e sou sua médica, recém chegada no Posto”! Escutamos “que bom doutora, há tempos venho esperando um médico por aqui. Desculpa a casa, é que vivo de reciclagem. Como tive esse derrame, e as crianças fazem pouco, a situação tem estado muito ruim. ” Assim seguiu a conversa, sobre um passado de dor, traição, limitações e a pouca ajuda de alguns poucos vizinhos.

Era uma mulher de 43 anos, sem companheiro, hipertensa desde sua última gestação, e que havia sofrido um AVC há 3 anos. Lamentava-se da dificuldade com seu corpo, com sua fala e havia perdido a esperança de receber qualquer auxílio que lhe mitigasse o sofrimento. Durante nossa conversa, naquele calor insuportável, vez em quando um rato passava como se fosse um animal de estimação.

Pouco a pouco as crianças, filhos e filhas de D. Marinete se aproximavam na tentativa de compreender o que se passava. A aparência das crianças se confundia com tudo que ali havia. A mãe se desculpava pelo descuido com as crianças, e naquela desculpa residia uma esperança. Ser médico de família e comunidade nos coloca em situações, que mesmo imaginadas, nos parecem inusitadas.

Olhávamos à volta, e não havia sequer uma parte da casa ou das pessoas que pudessem ser utilizadas como referência para despertar o desejo de mudar. Foi então que vimos um espelho, tinha cerca de um metro de altura, e estava quebrado de cima abaixo. Certamente descartado por alguma família abastada. Pedimos, que cada criança fosse a frente do espelho e descrevesse o que via. Elas diziam seu nome, sua idade, e induzíamos a que falassem alguns traços característicos, como cor do cabelo, dos olhos… Vez em quando elogiávamos a beleza que se escondia através do espelho…

As crianças passaram a ir uma e outra repetindo a “brincadeira”. Ao final da consulta de D. Marinete, sugerimos as crianças que na próxima consulta usaríamos o espelho para brincarmos sobre o que havia mudado em cada uma a partir de hoje.

Qual não foi a nossa surpresa, quando na próxima consulta não havia mais o espelho. Esta visão foi um choque e um grande aprendizado para nós. Lições sobre a dor de enxergar além do espelho. Lições de como sugerir mudanças, de como ensinar sobre os meios de consegui-la, de como compreender o que existe em torno do espelho, e de como quebrar uma determinação social imposta.

A equipe se empenhou em coordenar instituições e rede social que as envolvia. O benefício social foi conseguido e algumas mudanças aconteceram sob orientação da equipe. Aos poucos era possível delimitar casa, terreno e material de reciclagem. Haviam pentes, escovas de dente e crianças que tomavam banho para ir escola. Foram cerca de 4 anos de trabalho com esta família, com esta comunidade, com estas pessoas.

E o que aos poucos o velho espelho quebrado responde, ao ser silenciosamente indagado, é que não “existe no mundo ninguém mais belo” que alguém que descobre a força de mudança que há em si mesmo.

A medicina de família e comunidade é um caminho! Um caminho que nos ajuda a enxergar através dos espelhos!