Todos os monstros

por Fabrício Mattei

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Era daqueles pacientes que escancaram nossas limitações. Infecção de ouvido que ia e vinha. Ia e vinha. Exame. Especialista. Ia e vinha. Ia e vinha. Eu tinha dificuldade em segurar o suspiro quando via seu rosto na sala de espera. Que audácia dessa otite de não ler o livro. Está escrito lá: antibiótico resolve. Tinha que resolver.

– O otorrino passou vários remedinhos doutor. Gastei até o que não tinha. Mas não adianta.

Foi demitido. É essa a palavra, mesmo pra quem não tem nem papel assinado? Não sei. Foi pra rua. Isso, foi pra rua, melhor. Melhor pro meu texto. Pior pra ele, claro. Gente doente não serve pra erguer casa. Deve ser difícil carregar tijolo com dor de ouvido. Com o algodão tampando pra não purgar, não se ouve o supervisor.

E eu lá, sofrendo a cada retorno dele. Quer dizer, sofrendo não, que na verdade eu só ficava um pouco inquieto durante aqueles minutos. Depois já estava bem. Meu salário caia na conta até antes do dia primeiro, às vezes.

Claro que ele bebia. Cachaça, não cerveja como eu. Não lembro se perguntei ou se senti o cheiro. De manhã estava sóbrio, pra sofrer. E fumava bastante. Oitenta por cento de imposto, na cachaça e no cigarro. Calçamento e esgoto, o bairro não tinha .

Eu não sabia se ele tinha família. Devia saber. Meu título diz: médico de FAMÍLIA. Mas não estava escrito em lugar nenhum. Algumas vezes eu esquecia de perguntar. Outras não dava tempo. Acho que nem tinha lugar específico pra anotar no prontuário. Faz falta perguntar. Talvez tenha falado de mulher e de filhos alguma vez, mas passou batido, no meio das várias dores. Ah, é, ele tinha dor no ombro também. Ele trabalhava com construção; como não ia ter? Vez por outra aquela dor na barriga que aparece hoje e desaparece amanhã.

É compaixão que diz né? Eu tinha. Talvez eu tivesse menos compaixão se eu pudesse ajudar ele mais. Mas eu não podia, porque eu tinha só o antibiótico. E os meus ouvidos, sem infecção. Aí sobrava o sentimento piedoso de simpatia para com a tragédia pessoal de outrem. É assim que está no dicionário. E era só o que eu tinha.

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Ela entrou no consultório chorando. Levamos alguns minutos até começar uma conversa real. Antes, repetia feito mantra:

– O próprio pai. O próprio pai. O próprio pai.

O que me contou, infelizmente, não era incomum. Em uma conversa com a filha de três anos, ouviu palavras que jamais ia esquecer. Como quem conta sobre as últimas brincadeiras na escola, a menina tinha contado como o pai a tinha tocado “naquelas partes”. Depois disso, a mãe não conseguia descrever mais nada. Tudo era uma nuvem. Setenta por cento dos casos de abuso são perpetrados por pessoas da família. Isso eu sei faz tempo, mas é duro demais quando os números viram gente.

Pra mim, mais uma vez, restava oferecer o ouvido. Algumas informações sobre a parte burocrática – sobre a jornada de entraves que ela teria que enfrentar justamente no pior momento da vida. Não tinha psicólogo no posto. Com sorte, algum ponto do sistema poderia oferecer algo melhor. Na minha experiência, em geral iam ser só entraves.

Ao fim do atendimento, num suspiro de resignação, sentenciou:

– Mas os guris vão pegar ele. Pode deixar.

Eu sabia quem eram os “guris”. Todo mundo sabia quem eram os “guris”. O poder de fato da comunidade. Juiz, júri e polícia, onde o estado pouco dá as caras. Os “guris” em si mudavam toda semana. A vida realmente é curta por esses lados. Mas o código de conduta, a lei informal da vingança, incrivelmente, se mantém intacta.

Finalizada a consulta, entrou o técnico de enfermagem.

– Tu sabe quem é o cara que fez isso?

Não sei bem como, ou por que, mas deduzi na hora. Um choque. Aquele homem tão sofrido, que tanto buscou minha ajuda… Não era possível! Alguém capaz de coisas tão cruéis tem que ser uma criatura horrenda, fria, arrogante e debochada. Não?! No cinema geralmente é assim. Fica mais fácil pra cabeça aceitar.

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O choque perdurou por algumas semanas. Como esperado, nunca mais o vi. Não sei se exílio forçado ou algo bem pior. Tento não pensar muito nisso, hoje. Meses depois, porém, assistindo um desses seriados estadunidenses que estão na moda, ouvi uma frase que me fez lembrar intensamente da situação. O contexto talvez fosse outro, mas encaixou perfeitamente. “Todos os monstros são humanos”.

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Teste de Sensibilidade

por Carla Teixeira

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Era uma quarta-feira com cara de segunda pelo volume de pacientes na consulta dia. Carol*, a técnica em enfermagem que está no acolhimento chega no consultório e diz:

– Carlinha, dona Araci* disse que quer falar com outra médica, pois tu deu um remédio pra ela que ela não pode tomar.
Olhei com estranheza e peguei o prontuário, procurando relembrar o caso.
Dona Araci, aos 83 anos, não era uma paciente fácil, na primeira consulta agendada comigo no dia anterior, já veio com o diagnóstico e com uma reclamação:
– Vim mostrar uns exames que estão normais, mas estou com infecção urinária. Eu queria consultar com a Dra. Sandra*, que é minha médica, mas disseram que ela estava de férias, e por causa do meu endereço teria que consultar contigo.
– Sim, é verdade, ela está de férias e eu e a Dra. Nicole* somos as médicas da área vermelha onde a senhora mora. Deixe-me ver seus exames!
De fato, seu exame mostrava sinais de infecção. Chequei se ela apresentava sintomas e quando questionei sobre alergias, Dona Araci discorre com segurança:
– Sim, várias, eu tenho uma lista de antibióticos que não posso tomar, vou pegar aqui pra te mostrar. – Revira a bolsa, e após alguns segundos exclama: – Não acredito que deixei em casa, vou ligar para o meu filho.
Rapidamente saca um celular moderno, e faz a ligação:
– Filho, vai ali na segunda gaveta da cômoda ao lado da minha cama, e pega uns papéis que tem ali. Ali tem o nome de uns remédios que não posso tomar.
Ela pega a caneta da minha mão e começa a anotar em um papel alguns nomes, e a lista me deixa um tanto angustiada. Era possível ver que pelo que o filho lhe ditava, Dona Araci não poderia tomar sulfas, amoxicilina e nitrofurantoína. Ofereci então a fosfomicina, em dose única, mas que que ela teria que comprar.
– Só uma dose? Isso aí não funciona, não tem outro?
Pensei por alguns instantes, não iniciaria uma quinolona para aquela senhora, então lembrei da cefalexina. Comentei de minha escolha com Dona Araci:
– Mas tem certeza que esse eu posso tomar? Eu sou sensível a muito remédios.
– Fica tranquila Dona Araci, esse não está na sua lista.
Dona Araci sai da consulta como se pensasse “é o que a casa oferece né”.
Relembrando nosso encontro do dia anterior, já me dirijo até o acolhimento um tanto contrariada e pensando “o que eu vou dar pra essa mulher?”
– Bom dia Dona Araci, tudo bem?
– Tu me deu um remédio que não posso tomar, tá aqui a lista oh! – e me entrega, com aquela olhar de “essa menina novinha não sabe de nada”, um papel amarelado pelo tempo, mas muito bem conservado.
Olho atentamente o papel com o título “TESTE DE SENSIBILIDADE”, e fico um tanto paralisada ao ver que ali constam uns 8 antibióticos diferentes, incluindo todas as possibilidades que eu conhecia para tratamento ambulatorial de ITU. Reflito por alguns segundos, e me dou conta que o tal teste de sensibilidade, na verdade é um antiobiograma, de uma urocultura que Dona Araci havia realizado há mais de 10 anos.
– Dona Araci, quando a senhora fez esse exame aqui? Como foi? Fizeram algumas marquinhas na sua pele? – só para garantir que eu estava certa da minha descoberta.
– Não, não, fiz uns exames de urina e de sangue nessa época.
– Dona Araci, é o seguinte, este exame aqui, esse teste de sensibilidade, na verdade testa a sensibilidade da bactéria aos antibióticos, e não sua. Isso aqui não é um teste de alergia, é o que a gente chama de antibiograma. Eles colocam o xixi numa plaquinha, e colocam um pouco de cada um desses antibióticos, e depois avaliam com quais a bactéria morreu. Por isso aqui, mostra que existe sensibilidade para todos esses antibióticos, por que a bactéria que a senhora tinha na urina, morria com qualquer um desses. A senhora consegue me entender?
– Então quer dizer que esse teste de sensibilidade não é uma exame de alergias?
– Não, não, o exame de alergias é bem diferente.
– Tem certeza?
– Sim Dona Araci, tenho certeza.
– Nossa, e eu achando que não podia tomar nenhum dessa lista… Então quer dizer que posso tomar aquele que tu me deu sem problemas.
– Pode sim, a senhora não tem alergia a ele, fica tranquila.
– Então tá bem, muito obrigada. – Dona Araci pega suas coisas, e pela primeira vez desde que a conheci, esboça um sorriso e me passa a sensação de que ficou satisfeita com o atendimento.
– Tenha um bom dia Dona Araci, espero ter ajudado.
Após a saída de Dona Araci, eu e Carol acabamos rindo da situação, e do tal teste de sensibilidade.
*Nomes fictícios para preservar a identidade das envolvidas.
Carla da Cruz Teixeira, R2 em MFC do GHC/POA

As duas Ângelas

por Gabriela Silva

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Hoje foi mais um dia muito quente neste verão de 2019 na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Inclusive, esta é a primeira quarta feira depois do aniversário do santo mencionado. Pelos olhos dos católicos um soldado protetor dos prisioneiros cristãos que dentre as tentativas de assassinato, numa delas foi flechado. Nas religiões africanas ele se chama Oxóssi o caçador, entidade das florestas e representado comumente com arco e flecha.

Na comunidade de Manguinhos desde o início da estação se multiplicam as piscinas de plástico pelas ruas. Há uma em quase todas as encruzilhadas. Quando sigo para as visitas domiciliares sinto quase um desejo de também estar ali com as crianças dentro da água. Hoje vou visitar a Ângela. Levo comigo uma pasta com uma entrevista que preciso fazer a pedido do comitê de óbito infantil. A caminhada embaixo de um sol impiedoso é árdua por que no entorno há muito asfalto, um rio que praticamente só tem esgoto e nenhuma árvore.

Sigo pelas vielas e passo na frente da casa de outra Ângela, ela faleceu há pouco mais de 2 meses, acredito que por uma complicação cardíaca, mas é difícil ter certeza, por que ela odiava hospitais e exames quaisquer que fossem. Dona de seu destino, só  fazia o que acreditava. Chegou a achar que sua doença era “falta de Deus”, mas não gostava de ir à igreja também. Ia lá só pra “gritar seus demônios” e pra ser orada. Tinha uma dificuldade de fala, mas comunicava o que queria. Tinha uma pele preta macia e limpa, o olhar profundo inquisidor e expressão arredia. Não tinha um dente na boca, mas rimos muito juntas. Eu quis escrever isso no percurso da rua 1, onde ela morava, por que ela me marcou e eu acho importante que ela continue existindo aqui neste registro, assim como permanece viva em mim.

Estou ,então, na rua 1 do Mandela. Passei da segunda piscina, aonde brincavam algumas crianças e vi a Ângela com uma mangueira lavando a calçada em frente a sua casa. Estou acompanhada pelo Saulo, o agente comunitário de saúde da minha equipe. A segunda Ângela é uma mulher negra, gorda, baixa, com dentes muito brancos, sorriso fácil, olhos verdes atentos e doces. Algumas crianças brincam ao seu redor. Quando eu chego ela desliga a água, mas não me convida para entrar. A gente se abraça um pouco de longe, devido ao calor tão grande que inibe este tipo de toque formal.  Eu falo sobre a Luísa, sua filha que morreu por uma complicação respiratória aos 9 meses, mais ou menos na mesma época que a outra Ângela falecia de complicações de uma insuficiência cardíaca. Ela não chora. Ela ri o riso mais triste que eu vi. Ela não fala da Luísa, chama de neném. Jogou o cartão da criança fora e o da gestante também. Ficamos ali, as duas, por aproximadamente 20 minutos. Suando em bicas enquanto perguntava algumas coisas que eu pensava não fazerem o menor sentido. Ela também, mas respondia pacientemente, quase sempre chorando dentro daquele riso. Ofereço uma escuta na clínica quando ela quiser, se quiser, mas acho que ela não vai. Não foi mesmo oficialmente para ser escutada, mas voltou algumas vezes dentro dos meses seguintes para queixas físicas. A Ângela tem mais 4 filhos e uma renda de menos de meio salário, coisa que descobri depois de uma das perguntas que fui obrigada a fazer. Mas conta que usa a garagem inutilizada como vendinha. A Ângela morta sempre chorava um choro contido que explodia quando falava da ausência de seu filho. Nem ajudou a comprar a barraquinha de doces para que ela pudesse ter seu próprio ganha pão.

Na volta compro umas ameixas no feirante que fica debaixo do viaduto do trem e que divide a mesma tenda com a boca de fumo. Estou totalmente suada e só penso em chegar no ar condicionado. Ainda levo uma hora para terminar de preencher a papelada da neném. Antes de virar a chave na ignição olho pro céu menos por seguir as palavras do Cartola e mais por um hábito automático. Paro por um instante por que sinto um frio na barriga e um aperto na garganta. Mas rapidamente volto, viro a chave e é mais um dia ficando pra trás pelo retrovisor.

Essa fofurice da MFC me oprime

por Carolina Reigada

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O Rato então pulou subitamente da água, e tremeu-se todo, com medo. “Me perdoe!”, Alice apressou-se a pedir, com medo de ferir os sentimentos do pobre animal. “Esqueci-me que você não gosta de gatos”.

“Não gosto de gatos!”, o Rato gritou, com uma voz emocionada, “Você gostaria de gatos se fosse eu?”

Tradução livre de Alice’s Adventures in Wonderland, de Lewis Carrol.

 

Inicio com um trecho que me faz pensar sobre a diferença entre simpatia (ou pena) e empatia. Alice teve pena do Rato, enquanto o Rato exigia empatia no tato com ele. Durante as consultas médicas, e nas interações com pessoas em geral, tento sempre me lembrar que as pessoas não precisam de pena (mesmo quando é pena que elas querem que eu sinta). Elas precisam de empatia.

Tcharan!

Eu sei disso e você, leitor do Causos, também sabe. Aliás, a grande maioria dos causos que publicamos fala disso. De empatia.

“Empatia”, nesse caso, sendo o termo profissionalizador dessa postura de escuta e aproximação com o paciente. Ser empático (um componente do aclamado Método Clínico Centrado na Pessoa, ou MCCP, que todo “MFC que se preze” tenta praticar), desse jeito conceitual, com evidências científicas de que melhora o desfecho de saúde dos pacientes, nos dá segurança que “ser legal” e mais próximo de quem queremos cuidar é, também, ciência e está balizado pela Academia.

Mas, aí que está. Ser empático não é ser fofo, ou legal, ou boa gente. É ser profissional. É?

Eu sou médica, mulher. Então houve dezenas de ocasiões em que o/a paciente me pediu para chamar o doutor quando entrou no consultório; ou pediu para ver meu diploma; ou se direcionou ao interno de medicina que estava aprendendo comigo, e de nada adiantou dizer que a médica era eu, os olhos sempre voltavam para o interno na hora de tomar uma decisão.

Também tenho 1,52m de altura (às vezes 1,53m, se meço de manhã). Tenho um rosto fofo e acabo sorrindo muito nas consultas. E tento ser empática. E sabe o que acaba acontecendo, eventualmente? Sinto que os pacientes acabam não me vendo mais como a médica. E a relação degringola. E chega um momento em que toda essa fofurice de ser MFC me oprime.

É isso. Como o título brilhantemente descreve, estou oprimida pela fofurice de ser MFC. Porque, por mais que eu tente ser empática, tem vezes que…não sou. Eu sou até uma pessoa legal, mas não estou assim inspirada TODO DIA, e o lado impaciente está mais aflorado. Tem outras vezes que a relação médico-paciente está chata, mesmo. Que eu tento passar aquela pessoa pra outro profissional da equipe, ou do NASF, porque “desse mato aqui” não está saindo nada produtivo. E me sinto culpada, duplamente: porque não estou sendo fofa como uma MFC deve ser (“junto com você, do útero ao túmulo”, e outros odes à longitudinalidade que existem por aí), nem estou sendo a doutora que resolve o problema do paciente.

Tem dias que não estou bem para superar essas relações mais conflituosas internamente, e quando comento com um amigo MFC, acaba que escuto uma citação de Roger Neighbour, ou de Boff, ou outra lembrança de Moira. Amiga, não tem nada pra limpar aqui dentro antes de consulta nenhuma. É que o santo não bateu, mesmo. É que às vezes eu empatizo, mas a pessoa está passando por um momento “mala”, ou estou com a impressão que só quer tirar vantagem de mim, e não acredita nem confia em nada do que eu falo.

Não pensem que escrevo essas linhas impunemente! Essas últimas frases, então…só de imaginar alguns dos meus professores (só uma, na verdade) lendo-as, fico com a tentação de adotar um pseudônimo. Seja porque vão pensar mal de mim (sempre fui nerd), seja porque vão querer me escutar, indicar um Balint, uma psicoterapia. Mas essas três últimas sugestões causam bastante angústia. Porque…é isso? Eu tenho que ter esse nível de iluminação espiritual que permite-me absorver e resolver e ressignificar TUDO? Será que não tem um calcanhar de Aquiles aceitável (e compartilhável?)

E fico pensando também se é ético escrever isso. Não é que eu me recuse a atender paciente X ou Z. Atendo a todos, da forma mais profissional possível (e ser profissional, já definimos, inclui ter empatia). Mas tem alguns que eu não queria atender. Ponto. É ético, isso? Tudo bem, dessa vez eu aceito sugestões de livros de Boff; ou Cortella, vá lá.

Veja bem, longe de mim fazer aqui um ENORME desserviço e deixar transparecer que empatia, MCCP, Neighbour, Balint, ou qualquer das coisas citadas sejam um problema. Muito pelo contrário. São autores e ferramentas inestimáveis, que me ajudam com 50% dos problemas de relacionamento médico-paciente e angústias cotidianos. A terapia me ajuda com outros percentuais. A rede de amigos, de outros MFC, os grupos de whatsapp da residência médica e da galera do Causos Clínicos, com mais um tanto.

Acho que a pergunta é: é perdoável não querer lidar com 100% das angústias do cotidiano? Ou, mesmo lidando, é perdoável – mesmo sendo MFC – não querer ser empática (“fofa”) o tempo todo? Nessa relação cuidador/cuidado, o que fazer quando temos uma relação aturador/paternalizado? Ou procrastinador/procrastinador? Ou qualquer outra relação negativa?

Não sei a resposta, mesmo. Acho que escrevi para desabafar a angústia da auto-cobrança. Mas aceito o convite ao debate. E, se a sentença final for que eu não sou fofa o suficiente para ser MFC, pelo menos não me excluam dos grupos de whatsapp, eu curto muito papear com vocês.

 

Ps1: Não se enganem, eu sempre aceito uma nova sugestão de leitura, se enviar eu coloco na minha lista!

Ps2: Professores e ex-residentes meus, se algum dia lerem isso, julguem-me também pelo meu melhor =P

Ps3: MFC é a sigla às vezes para Médico de Família e Comunidade e às vezes para Medicina de Família e Comunidade.

Ps4: Um beijo especial pra galera dos grupos de whatsapp “Hora do Prefácio” e “Causos Clínicos”

 

V.,78 anos, abusador, sofre de dores lombares.

por Vanessa Carranza

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E no final da consulta…esperou sua filha sair da sala, olhou pra trás, voltou e pôs sua mão grossa em cima da minha com uma cara de sorriso mole. Levei um susto – disse agora pode ir – fiquei puta que não disse umas coisas pra ele. Mas hoje ele voltou, mais saudável do que nunca; disse que estava com as mesmíssimas dores que a semana anterior e que desejava, de novo, umas injeções na bunda. Deixei ele esperando já que não era urgência. Quando finalmente o chamei, ele levantou ajeitando a calça o cinto e me olhando de lado. Pedi pra técnica de enfermagem acompanhar a consulta. Vi ele brochar. Pedi que falasse o que quisesse. Tudo que saía de sua boca eu não conseguia ouvir. Me recostei na cadeira e com outra mulher ao meu lado pude assistir sem medo o quão bizarra era aquela situação. Então cortei-lhe o assunto e disse que não ia precisar de injeção, ele podia continuar com os comprimidos em casa. Ele disse que entendia, sorrindo…
Quando abri a porta ele ainda se demorou na passagem e eu inventei uma vontade de fazer xixi. Não tinha papel no banheiro e como eu nem tinha vontade voltei imediatamente. Ele me viu e me abordou novamente perguntando, sensual: “ se não melhorar eu volto né?”, sem resposta.

Morreu seu Pascoal.

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The Doctor – Luke Fildes (1891)
Quero escrever alguma coisa, apesar de não saber bem o quê.
   Muitas ideias principiaram desde que a filha me ligou avisando até agora, quase três horas depois, quando cheguei de volta em casa após declarar o óbito. Nenhuma deslanchou. Pensei durante a ida na minha pouca presença nos dias finais de alguns pacientes cuja morte já era esperada e, inclusive, já havia sido discutida com os próprios e suas famílias. Em como gostaria de saber fazer como a Julia Duringer (médica de família e comunidade com quem estudei) e organizar rodas de memória e perdão nesses dias finais. Em como é um privilégio atestar um óbito na noite fechada, visitar o bairro, as vielas e a casa em plena escuridão, com a sensação de pertencimento e intimidade que se fortalecem a cada dia. Em como me surpreendo sempre com a quantidade de parentes e amigos, oportunidade preciosa da morte em casa. Em como são detalhadas e ricas as lembranças dos últimos dias, e mais ainda das últimas horas, dos últimos minutos, oferecidas como um presente para quem quiser ouvir. Em como nos tornamos familiarizados com a morte, que potência tão valiosa da profissão!
   No ritual simbólico de confirmar o que todos já sabem. Em como é pictórico conversar com as filhas enquanto se acaricia a mão do cadáver do pai. Em como a mente divaga e volta. Em como a viúva preferia não descer ao quarto onde estava o corpo, e ao mesmo tempo estava conformada e estranhando a situação toda, em como se mostrava tranquila mas não recusou a valeriana que as filhas lhe deram. Em como posso eu, um garoto, dar colo para uma senhora de 93 anos. Em como cada abraço tem um significado diferente, pois cada parente tem sua história consigo e com o falecido, algumas das quais já vislumbrei. Em como também me despeço do morto, já que eu também tenho minhas histórias comigo mesmo, e com ele. Em como um problema com uma declaração de óbito mais de cinco anos atrás ainda marca todas as subsequentes, e esta, na revisão infinita do documento, para proteger do medo de que esta família também tenha que voltar do cartório até mim por um erro que, ao final, nem existia. Em como a casa é um bom lugar para morrer, se podemos morrer bem nela. Em como a casa agora já ressoa com conversas de tipos e tons variados, que o tempo cuida para que também os presentes se familiarizem com a morte. Em como quem mais chora é a filha que está longe. Em como quero reforçar, sem exageros mas com clareza, que cuidaram bem dos últimos momentos, e buscar adubar o bom luto, e tocar a naturalidade do fim. Em como, durante meu caminho de volta, me orgulho de declarar o óbito dos meus pacientes em casa, e no quê pode significar este orgulho, em suas várias faces.
Em como é possível ser tão privilegiado.
Em por que faço o que faço.

Mandando a real

por Carolina Reigada

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A força está com vocês!

Eu dei aulas em uma faculdade de medicina, por um tempo. Um tempo definido entre a empolgação de estar de novo na sala de aula e a conclusão de que não gosto de dar aulas.

Uma das minhas aulas falava sobre a tal da “Medicina Baseada em Evidências”. Porque a medicina dessas de atender pessoas nos consultórios todos os dias, por mais incrível que pareça, tem bem menos ciência do que pode parecer. A maioria das decisões que os médicos tomam são baseadas mais no blend bom senso + experiência pessoal + conhecimento de fisiologia básica do que em evidências científicas de alta qualidade.

O que eu chamo de “evidência científica de alta qualidade”? Estudos científicos bem pensados e bem executados, em que as pessoas que medem o efeito dos remédios não sabem quem realmente está tomando o remédio em investigação, e que a divisão de pessoas com a doença que se quer tratar entre os dois grupos (o grupo que toma o remédio em investigação e o grupo que toma o placebo) é feita mais ao acaso possível. Muitos remédios que tomamos e prescrevemos não tem essa investigação.

Por quê?

Porque, quando é feita, os remédios têm pouco impacto de verdade na doença; porque são estudos caros, às vezes com problemas éticos, e demorados e a indústria tem pressa em vender aquelas pílulas que produziu o mais rápido possível; porque a fiscalização está bem aquém do mínimo necessário para garantir a segurança da população. Nós.

Eu comecei falando das minhas aulas porque essa impressão que a maioria das pessoas têm, que “remédios sempre funcionam e fazem bem”, também era a dos alunos. Claro, alunos são pessoas incluídas nessa sociedade aqui, a nossa, que foi levada a acreditar que:

– se fizer exames o suficiente, vai prevenir ou descobrir bem cedo qualquer doença e nunca vai precisar ter uma doença “grave”;

– remédios são necessários para melhorar, de qualquer coisa. E remédio quer dizer uma pílula.

Aí, voltando naquela aula que eu mencionei, eu explicava a eles o conceito de “NNT”, ou “número necessário para tratar”. Quando se estuda o remédio bem estudado, é possível dizer qual o NNT desse remédio, ou seja, o número de pessoas que precisam tomar esse remédio todo dia, por um período de tempo, para que UMA DELAS tenha um benefício do uso do remédio (ou seja, prevenir um evento indesejado)*.

Entendeu? Vou exemplificar, porque isso é confuso.

Sabe o AAS infantil, que muitas pessoas gostam de tomar de vez em quando para “afinar o sangue”? Então. Considera uma população que nunca teve infarto nem derrame. Se esse pessoal tomar um AAS por dia por um ano, sabe quantas mortes serão evitadas por causa desse AAS? Sabe quantas? Nenhuma. Nessa mesma população, 1 pessoa a cada 2000 vai deixar de ter um infarto por causa desse AAS (um infarto que não a mataria, mas também ninguém quer enfartar, né?). Por outro lado, 1 pessoa a cada 3333 vai ter uma hemorragia grave por causa desse mesmo uso de AAS**. E hemorragia grave, cara, ninguém quer também, né?

Sacou? Não dá pra saber, de antemão, quem vai ter o infarto evitado e quem vai sangrar gravemente por causa desse AAS. Por isso, é importante que o remédio só seja prescrito quando os benefícios dele são maiores que os danos. Por exemplo, quando a pessoa candidata a usar AAS já infartou ou teve um derrame ou tem alguma outra evidência de placas de gordura nas artérias. Nesse caso, iremos prevenir problemas cardiovasculares em 1 a cada 50 pessoas; uma morte a cada 333 pessoas; um infarto a cada 77 pessoas e um derrame a cada 200 pessoas. E uma a cada 400 terá um sangramento grave**.

Mas, nesse segundo caso, como estamos falando de uma população de alto risco, vale a pena mais intervenção.

Legal, mas voltando ao assunto em questão, alguns alunos (geralmente aqueles que realmente estavam prestando atenção ao que eu falava, e você, que leu até aqui) ficavam inconformados com essa nova informação, com esse choque de realidade. Eles descobriam, de uma só vez, que:

– os remédios não funcionam sempre, e alguns não funcionam nunca, ou seja;

– eles não vão ser os curadores e salvadores do mundo, e;

– às vezes vão fazer mal aos que estavam tentando fazer bem e;

– eles próprios não estão a salvo da vida.

Porque, no fim das contas, o que a gente quer é segurança e controle. Sobre nossa saúde, nossa vida, da nossa família, tal. E a medicina não pode dar isso a vocês. Infelizmente. A gente ajuda? Nossa, muito. As doenças infecciosas, os traumas, dores agudas, algumas cirurgias (morremos muito menos de “dor do lado”*** desde que aprendemos a operar apendicite, não é?), para isso tudo temos intervenções e tratamentos eficazes.

Mas, não temos a pílula mágica da segurança que nada irá acontecer. Não temos o scanner para prevenir todas as doenças que existem (nem temos o scanner para prevenir só os cânceres), não importa quantas tomografias se faça.

E, acho que isso é o mais pesado de admitir, sabe essas doenças que exigem uma carga tão grande de nós atualmente? A hipertensão, diabetes, reumatismos, artroses, alergias, ansiedades, tristezas, essas todas…essas, a gente não sabe explicar bem porque começam e, talvez por isso, não sabe direito como tratar, não – pelo menos, não temos uma forma só, certeira, de tratar. Os remédios delas são muitos e muitos porque nenhum deles funciona super bem e é superior aos outros; e porque fazer remédio para essas coisas dá dinheiro. E é muito mais comum as pessoas ficarem doentes dos remédios que tomam para tratar essas coisas do que se pensa.

Eu acredito (e aí vou admitir que não tenho evidência científica bem embasada para dizer isso, não) que essas “doenças crônicas” estão sendo mal abordadas porque insistimos em ver o corpo como máquina. E enquanto não admitirmos que a maioria dessas doenças nasce do contexto familiar, social, comunitário, além das escolhas e possibilidades de estilos de vida de cada um, vamos continuar sendo incompetentes para trata-las. Precisamos assumir que o tratamento desses “males modernos” passa por auto-responsabilização, por comer menos sal e coisas industrializadas, fazer atividade física, separar tempo para lazer e cuidar do nosso desenvolvimento emocional e espiritual – afinal, nós somos os responsáveis por nossas próprias emoções. E isso, não tem comprimido que faça por nós.

*http://www.scielo.br/pdf/rbp/v27n2/a15v27n2.pdf

**Quer saber mais? Visite o site www.thennt.com, foi de onde tirei esses dados, os artigos de base estão lá; mas não para de tomar remédio sem conversar com seu médico! Existem casos específicos, o melhor é saber o que é melhor para VOCÊ.

*** Tem referência em “O Físico”, de Noah Gordon. É livro e tem filme, é interessante.