Encaixe

atrasado

por Rodrigo Lima

O senso comum sugere que consultas “de encaixe” são aquelas onde o motivo é simples e a consulta em si bem rápida. Quando isso acontece costumamos ficar bem felizes, porque muitos de nós costumam estar atrasados, sempre com muita gente esperando lá na recepção. Já ouvi que “o atrasado é o ladrão do tempo alheio”, e também que “os médicos de família que se atrasam mais costumam ser os que estão mais disponíveis para as pessoas”. A primeira é radical demais, embora não deixe de ser verdadeira. A segunda parece esquisita, mas minha rotina costuma dar muita razão a ela…ou pelo menos quero crer nisso.

Numa dessas consultas “de encaixe” Ricardo entra no consultório com sua mãe, Lara. Ele tem 6 anos, sua mãe parece estar ao redor dos 30. A queixa: febre que surgiu há 4 dias e que ontem desapareceu, dando lugar a manchas vermelhas por todo o corpo, e nenhuma outra queixa relacionada. “Oba!”, vibro por dentro, vislumbrando que o “encaixe” era um simples caso de roséola, e que eu conseguiria terminar a consulta em poucos minutos, após algumas orientações. Sigo com a entrevista, e pergunto como foram esses 4 dias. Lara me conta que no segundo dia de febre ela foi correndo com Ricardo ao hospital, porque ele costuma ter amigdalite de vez em quando e os médicos da emergência já disseram que ele não podia ficar com febre alta em casa, que era melhor ir logo ao hospital tomar uma injeção de antibiótico. Nessa hora a gente abre a porta pra outras possibilidades…e é aí que as pessoas encaixam outras demandas no nosso “encaixe”…

“E o que você acha dessa recomendação?”, pergunto a Lara, tentando entender como ela tem se sentido com essa “bomba-relógio” nas mãos. Ela diz que fica muito preocupada, porque fica com medo de acontecer algo mais sério com Ricardo. “E por que você tem esse medo? Já aconteceu algo mais sério com ele?”. Lara baixa o olhar. Passa a mão na cabeça do filho. E fala num tom mais baixo que Ricardo nasceu com baixo peso, ficou alguns dias internado. Na primeira semana de vida descobriu que o menino nasceu com “traço falciforme”, e que havia vários casos de anemia falciforme na família do marido, incluindo um adolescente que sofria bastante com dores articulares e já tinha até feito uma cirurgia para retirar o baço. Nessa hora ela conta que Ricardo ocasionalmente tem dores nas pernas, e que ela morre de medo de que ele tenha a doença. Conta também que recentemente Ricardo apresentou um sopro no coração, e que um cardiologista passou vários exames para descobrir a causa do sopro, mesmo sabendo que o menino não tem qualquer queixa: corre, joga bola, faz de tudo. Acabaram de vir de outro estado pra morar aqui e ela está tentando conseguir os exames.  Nesse momento eu resolvo interromper: “Lara, tua cabeça deve estar uma loucura com tanta coisa envolvendo esse menino, né?”

Finalmente o “encaixe” encaixou. Algumas consultas vão seguindo até que num dado momento uma pergunta muda tudo. A consulta era pra Ricardo, mas quem precisava de cuidados mesmo era Lara, que deixa cair uma lágrima, e responde sim à minha pergunta acenando com a cabeça, enquanto pega lenços de papel que eu ofereço (sempre os tenho à mão para as “consultas sagradas”, como me ensinou o mestre Juan). Ela prossegue dizendo que morre de medo de acontecer algo, e parece que quanto mais vai a médicos pior fica, pois cada um a assusta de modo diferente.

Agora chegou a minha vez. Ricardo não vai ter anemia falciforme, o sopro no coração dele provavelmente não significa nada, e não há razão pra procurar a emergência sempre que ele tiver febre. “Traga ele aqui sempre que quiser, a partir de agora cuidaremos de vocês”, digo, numa tentativa de fazer o que a mestra Barbara resumiu: primeiro contato, cuidados ao longo do tempo, abordagem integral, coordenação do cuidado. Lara sorri, um sorriso de alívio. Diz que vai fazer os exames porque só vai ficar tranquila com os resultados. Eu respeito a decisão, e me ofereço para ver os resultados assim que estiverem em mãos. Dirigimos os olhares para Ricardo, que brinca sentado na cadeira entre nós. “Então é isso, grandão…vamos nos ver outras vezes, ok?”. Ele me olha, olha para mãe como que buscando aprovação, e ao vê-la sorrir, sorri também. E de repente tudo se encaixou.

Termina a consulta, olho para o relógio. Eu, o eterno ladrão do tempo alheio, mais atrasado do que já estava. Sorrio. Não vejo problemas no roubo, desde que eu continue me encaixando nessas vidas que me procuram.

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Companheira

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por Rodrigo Lima

Alberto, 50 e poucos anos, usando um antidepressivo há alguns anos para controlar sua irritabilidade. Diz que é muito nervoso, e que com o remédio se sentia mais controlado. Diz que muitas coisas o preocupam, mas que tem muito apoio de sua companheira, que é muito tranquila. Se não fosse por ela, diz ele, perderia o controle quase todo dia. Avisa que ela será a próxima a ser atendida.

Sai Alberto, entra Clara, quase da mesma idade. Começa a consulta trazendo uns exames velhos sem quaisquer alterações, quer saber o que eu acho deles, e começa o rosário de queixas: palpitações, sensação de aperto no peito, fôlego curto às vezes, perturbações do sono, irritabilidade. Enquanto explorávamos sua história ela vai desmoronando emocionalmente, e menciona que talvez precisasse de um psicólogo, e que seu marido também. Diz que o marido era o paciente que atendi antes dela, e que ele é muito nervoso. Comentei que ele me disse o mesmo, e que falou que ficava melhor com ela por causa da tranquilidade que ela tinha. Ela imediatamente se recompõe, dá um sorriso amarelo e disse: “é, sou tranquila mesmo”.

Historinhas azuis

dali
I
Quase 70 anos, aniversariando no dia da consulta. Fez uma dosagem de PSA por conta própria há alguns meses, deu normal. Ainda assim foi atrás de uma ultrassonografia “pra ter certeza que estava tudo bem”. Pagou do próprio bolso, não perguntei quanto. Parecia nervoso. Nesses casos olho o exame rápido, e estando tudo bem, já tranquilizo a pessoa pra acabar o suspense e poder conversar tranquilo. No exame a próstata estava ligeiramente aumentada, mas sem nenhuma outra alteração, então eu disse que estava tudo bem, só um aumento da próstata que era comum na idade dele, que não significava nada demais. Comentei que ele parecia preocupado, e perguntei o porquê. Respondeu que as filhas ficavam insistindo pra ele se cuidar. Então eu disse, em tom de brincadeira que a gente pra se cuidar precisava de um tanto de coisa, mas que com esse blá-blá-blá na TV por esses dias parecia que a gente tinha virado só uma próstata. Ele riu, concordou, bom sinal. Então perguntei se tinha algo mais além da próstata incomodando-o, respondeu que não. Me coloquei à disposição, fiquei de pé e estendi a mão, e ganhei um abraço. Tímido, vocês imaginam como é abraço de homem que não se conhece direito. Mas um abraço de alívio, sincero. Desejei feliz aniversário de novo, perguntei se ia ter festa e disse que aproveitasse bem. Ele sorriu, agradeceu, me desejou tudo de bom e saiu da sala.
II
Quase 20 anos, veio pedir exames de rotina. Eu gosto desse pedido de exames de rotina, porque me dá a deixa para perguntar bastante sobre a rotina antes de pensar o que devo examinar. Pois perguntei, e o máximo que identifiquei foi uma queixa de dor ao ter relações por causa de uma fimose. Expliquei que poderia encaminhá-lo para resolver isso, e que em relação a exames de rotina, os mais importantes na idade dele eram os de rastreio de infecções sexualmente transmissíveis. Ele sorriu, mas aquele sorriso desconfiado, sabe? Perguntei se tinha relações protegidas, se o assunto o preocupava. Me disse que sim, que ocasionalmente tinha relações sem camisinha, raramente, mas tinha, e que ultimamente fazia mais o papel passivo com o parceiro já que a fimose incomodava bastante quando tinha ereções. Expliquei sobre os riscos, mas não parecia necessário fazê-lo, ele já sabia. Ofereci testagem rápida, e comentei: “nada melhor do que a gente saber logo, né? Esperar muito tempo por exame é ruim…”. Ele sorriu, concordou, e foi fazer o teste. Deu negativo.
III
Quase 50 anos, veio saber se o PSA que solicitaram para ele estava normal. Pelo que vi, estava. Olhei o prontuário e vi que havia história de epilepsia. Perguntei há quantos anos usava o medicamento sem ter crises, disse que há uns 3 anos. Toma só um comprimido por dia, e acha que o comprimido o deixa meio…”devagar”, se é que vocês me entendem (aliás, entendem ele). Perguntei se queria tentar uma retirada lenta do medicamento para as crises, e o olho brilhou. “E pode?”. ” Pode”. Dei orientações sobre a redução gradual da dose e agendei retornos semanais para vermos como as coisas andam. Saiu feliz.

Só um mioma…

poder-es-capaz

por Rodrigo Lima

Durante o horário de atendimento sempre somos visitados no consultório por profissionais da equipe de saúde que desejam discutir um caso, ouvir uma opinião, ou passar alguém para nós vermos. Um dia uma das enfermeiras me perguntou se eu poderia ver uma mulher de pouco mais de 50 anos que estava preocupada com os resultados de um exame. Olhei o exame: era uma ultrassonografia dos órgãos pélvicos que mostrava um mioma. Respondi que sim (quase sempre a gente consegue encaixar quem chega preocupado assim).

Quando a paciente entrou tivemos o diálogo a seguir:

– Opa, tudo bom?

– Tudo.

– Então, a enfermeira me disse que a senhora queria falar comigo hoje mesmo por causa do resultado desse exame…

– Foi, doutor.

– Vamos lá. O que é que tá preocupando a senhora?

– É que eu fico com medo de ser uma doença grave.

– Não, mioma não é uma doença gra…

– (choro súbito, intenso) Minha mãe morreu de câncer de útero!

– Ok. Me conta essa história melhor. Faz tempo isso? Quantos anos ela tinha? A senhora sente algo parecido?

– Ela tinha 94, faz pouco tempo. Ela tinha muito sangramento, e eu também tenho!

– Tudo bem. Olha só, você já tem dois exames, ambos mostram apenas o mioma. A gente sabe que mioma não vai virar uma doença grave. Como a senhora tem tido esse sangramento e está preocupada com ele, e tem esse antecedente na família, a gente vai investigar melhor, vou te encaminhar a um ginecologista. Mas essa consulta deve demorar um pouco, e eu queria muito que a senhora ficasse um pouco mais tranquila em relação ao seu problema. Senão a senhora vai esperar semanas pela consulta e nesse tempo não tem quem aguente tanta preocupação. A senhora entende quando eu falo que mioma é uma coisa e câncer é outra?

– (mais calma) Entendi.

– Então pronto. Nesse tempo que aguarda a consulta, é importante que fique tranquila em relação a não ter uma doença grave. Se tiver alguma dúvida é só vir pra cá.

– Meu marido disse que vai torcer pra ser câncer mesmo pra ver se eu morro logo.

– (nó na garganta) Vocês não estão bem, né? Faz tempo?

– Faz. Desde que meus filhos saíram todos de casa que ele fica dizendo que eu devia ter ido embora também.

– E seus filhos, vivem por perto? O que eles pensam?

– Eles não dizem nada não….

– Ok. Depois a gente vai conversar mais sobre isso. Queria que a senhora voltasse outro dia pra gente continuar essa conversa. Sobre o mioma eu espero ter te tranquilizado. Sobre o marido, bem, o que posso te oferecer é a sugestão de pensar um pouco sobre isso tudo e depois voltar aqui.

– Já pensei. (levanta a cabeça) Eu tenho é que me livrar desse traste. Não dependo dele pra nada, ele é que depende de mim. Obrigado, doutor.


p.s. Não sei quem é o/a autor/a da imagem, mas copiei de outro blog recomendadíssimo que você pode ver aqui

Um alento

por Rodrigo Lima

– Boa tarde!

– Boa tarde, doutor.

– Tudo bem?

(Eu sempre me sinto meio idiota perguntando isso, mas é a convenção social)

– Tudo mais ou menos.

(Silêncio)

(Por isso que eu me sinto meio idiota)

– Ok, você tem 37 anos, certo? E veio para começar o pré-natal?

(Era tudo o que havia de informação no prontuário)

– Isso, 37. Descobri há alguns dias que estou grávida.

(Eu fiz cara de feliz, acho. Ela não me deixou prosseguir)

– O problema é que eu tenho câncer de mama. Descobri há pouco.

(Agora o silêncio é meu. Pensa rápido!)

– Poxa. Me conta essa história melhor.

– Eu descobri um caroço no seio há 3 meses. Procurei uma médica, ela pediu exames, fiz mamografia, depois ultrassom, depois biópsia e descobri o câncer. Só que minha menstruação estava atrasada e antes de começar o tratamento a médica achou melhor pedir o teste de gravidez. E aí…positivo.

– Ok…imagino quanta coisa passa na tua cabeça agora…você estava esperando essa gravidez?

– Não. Eu tenho um namorado, a gente se cuidava…mas sabe como é, de vez em quando bobeava…

– E como vocês estão? Digo, entre vocês?

– Ah, tá tudo bem. Foi bom por um lado, né? Uma coisa boa no meio disso tudo. Um alento.

– Vocês vivem juntos?

– Não, mas estamos pensando em resolver isso ai…(risos)

– E o tratamento? Qual a programação?

– Estou aguardando o agendamento da cirurgia. Vão tirar essa mama inteira (aponta para o lado esquerdo do peito). E no finalzinho da gravidez vou começar a fazer quimio, que a médica falou que nesse período já é seguro pro bebê.

– Certo. E a gravidez, como você está? Sente algo que te incomoda, algo em que eu possa te ajudar?

– Não, tá tudo bem. Assim, tudo confuso, estou tentando colocar os pés no chão ainda. Mas me sinto bem. Na verdade, pra algumas mulheres a gravidez é um transtorno, né? Pra mim é um alento. Eu tenho algo em que me agarrar.

– Ok. Olha só, normalmente a gente acompanha com mais cuidado mulheres que engravidam após os 35 anos, e a tua doença acaba reforçando essa necessidade. Vou pedir alguns exames, você vai retornar após alguns dias pra gente ver os resultados, e vou precisar receber o máximo de informações sobre o teu acompanhamento na oncologia. E queria que você olhasse pra esse consultório não apenas como um consultório médico, mas também como um lugar onde você pode vir conversar. Sobre qualquer coisa. Mesmo que pareça não ter muito a ver com a tua saúde. Pode ser?

– (Sorriso largo) Pode. Obrigado, viu? Gostei da consulta. Achei melhor vir logo aqui porque estava com dificuldade pra marcar a consulta pelo plano. Mas vou ficar por aqui mesmo, eu acho. Tem problema?

– (Agora quem sorri sou eu). Não, claro que não. Será sempre bem-vinda…

Manhã de sexta

por Rodrigo Lima

Quinoterapia 07

© Quinoterapia – Quino

 

Clara chegou numa manhã de sexta. Trazia um papel em suas mãos, que aparentava ser o resultado de algum exame. “Putz, não revisei o prontuário antes da paciente entrar!”, pensei comigo, um erro (pelo menos pra mim) comum numa manhã de sexta. Pós-plantão, querendo fechar a semana, enfim. Enquanto ela se acomoda eu olho o prontuário rapidamente e vejo que não havia registro de consulta recente. Menos mal. Quer dizer, não necessariamente. Quem pediu aquele exame? Por que? O ciúme de um médico de família é uma coisa esquisita. Você fica se perguntando porque não vieram falar com você pra qualquer coisa.

“Oi Clara, tudo bom?” – começo a consulta. É manhã de sexta. Tô cansado. Vou tentar agilizar. “Qual o motivo de ter vindo hoje?”, pergunto de forma despretensiosa, e ela imediatamente ergue o papel que trazia nas mãos. “Vim trazer este exame”, disse, laconicamente.

Abro a folha de papel após mais uma vez furar os dedos naqueles malditos grampos. Preciso comprar uma porcaria de um extrator de grampos. Que ódio de grampos. Nas minhas mãos, o resultado de uma ultrassonografia de mamas. Reviso a idade de Clara, 40 e poucos anos. “Clara, por que você fez este exame? Algo te preocupa? Aqui não tem nada, o exame é normal”, adianto, para tranquilizá-la e ao mesmo tempo mostrar interesse. “Não”, ela diz. Conta que fez o exame por rotina. Queria fazer, pediu a uma médica a solicitação, ela deu, pronto. Insisto. “Sente algo nas mamas?”, e ela segue curta. “Não”.

“Ok, é manhã de sexta”, penso comigo, “adoro consulta curta nas manhãs de sexta”. Me permito mais uma pergunta. “Clara, tem mais alguma coisa que você queria discutir hoje? Algo mais te preocupa?”, e desta vez ela nem usa a voz, apenas balança a cabeça indicando que não, como que diz “pare de perguntar, ora”. O problema é que esse é o cenário típico onde um “não” quase nunca quer dizer não. Volto ao prontuário, anoto o resultado do exame. Clara comenta, timidamente: “eu estava muito ansiosa com esse exame”. Bingo. Tem algo aí. “O exame está normal, então em relação a ele podemos ficar tranquilos. Mas normalmente quando a gente fica ansioso as causas são várias, né?”. Ela sorri. E apenas isso. Volto ao prontuário, é manhã de sexta mas preciso esperar.

“Doutor”, ela me chama, “é normal a gente ficar assim, menos interessada nas coisas quando entra na menopausa?”. Opa. “Menos interessada como, Clara? Nas coisas em geral? Ou você se refere a algo específico?”. Ela entendeu que eu entendi. Respira fundo. Silêncio. Mas a porta já foi aberta pra mim. “Algumas mulheres, quando entram na menopausa, perdem um pouco da vontade de ter relações”. Ela olha meio incrédula. Tem hora que eu acho que os pacientes nos vêem como bruxos. E diante de bruxos, não adianta esconder nada. Os bruxos sabem. Então a coragem pra falar vem logo.

E começa a história. Clara mora na favela. Está pra se mudar para outra cidade, no interior, onde terá uma casa espaçosa. E vai se mudar porque odeia morar na favela, porque diz não ter privacidade, os vizinhos ouvem tudo, a casa vive empoeirada, de vez em quando fica violenta. Não digo nada, só ouço. É manhã de sexta, mas o cansaço passou. De repente, o diagnóstico que ela mesmo fez: “Acho que eu tô é ansiosa com essa mudança, essa coisa toda. E sabe porque eu não gosto de ter relações, doutor? Porque acho que todo mundo na favela ouve. Aí eu não posso fazer barulho. E eu gosto do meu marido. Aí a gente faz barulho. Sabe de uma coisa? Será que quando eu me mudar essa ansiedade vai passar?”.

Olho e sorrio. Ela mesmo resolveu tudo. Digo que é possível que sim, e que a gente pode ir conversando nos próximos dias. Pergunto quando ela vai se mudar, e ela diz que em 10 dias viaja. “E como eu vou vir aqui conversar se vou morar em outro lugar?”, ela pergunta. Respondo que se ela quiser vir, pode vir. Mas que pode conversar com alguém por lá se quiser. O principal ela já fez. Ela sorri. De novo, acho que pensa que sou um bruxo. Levanta, se despede, sai da sala. Fiquei sentado. É manhã de sexta. O bruxo tá cansado, mas tem mais gente pra chamar.

Pernas cruzadas, ouvidos abertos

por Rodrigo Lima

I

“Ela voltou!”. Não consegui disfarçar a surpresa em ver o prontuário de Carol na minha mesa ao chegar no consultório na manhã de uma sexta-feira. Eu a havia atendido na tarde do dia anterior com história de menstruação bastante irregular, com último ciclo há mais de 2 meses. Na ocasião eu disse que antes de qualquer coisa, precisava de um teste de gravidez para saber se a principal causa de ausência da menstruação na idade dela estava presente ou não. Na consulta perguntei sobre o desejo dela de engravidar, e ela afirmou que tentava há alguns anos e não conseguia, devido a um suposto problema hormonal diagnosticado por uma médica dois anos atrás. Não falou muito, mas disse que conversaríamos mais em outro momento, quando ela me conhecesse melhor. Fiquei achando que não havia conseguido um bom vínculo, e daí a surpresa com a sua presença.

Carol me trouxe o teste de gravidez negativo, mas parecia mais leve. Era bem extrovertida, e logo disse que hoje conversaríamos mais porque havia perguntado sobre mim para outras pessoas de sua rua e havia ouvido ótimas opiniões. “Hoje eu vou me abrir mais”, disse ela, pra em seguida começar a contar mais de sua história, incluindo o início precoce da vida sexual, o casamento ainda adolescente, a frustração de não engravidar, o ganho de peso que a incomodava. No começo do relato eu cruzei ambas as pernas sobre minha cadeira, gesto que de minha parte significa estar relaxado e disponível para conversar, e que foi imediatamente percebido por ela pois no meu consultório fico exatamente de frente para os pacientes, sem mesa entre nós. Nesse momento ela interrompeu a história, deu um riso gostoso e disse “me disseram que o senhor iria fazer isso!”. “Isso o que, cruzar as pernas?”. “É”, disse Carol, “e falaram que o senhor gostava de sentar na maca às vezes, e que explicava as coisas desenhando naquele quadro ali”, apontando para um quadro branco onde costumo deixar lembretes pra mim mesmo e rabisco desenhos de um estômago, de um útero, de uma pessoa, sempre que as palavras não dão conta de passar a mensagem que preciso passar. Ela falou rindo, achando graça, e eu também achei divertido me ver pelos olhos dos meus pacientes assim.

“Olha, essa é a minha posição relaxada. Pode continuar. Depois eu rabisco algo no quadro pra você”, eu disse, já pensando que sentar na maca iria ficar pra um outro dia. Ela riu, e continuou sua história, e a consulta continuou do jeito que eu gosto, como uma boa prosa onde no final eu tenho que dar um conselho que pode ser acompanhado por alguns papéis com meu carimbo e assinatura.

II

Roberta veio na mesma manhã, queixando-se de um ardor vaginal que temia que estivesse relacionado com o DIU que havíamos inserido há algumas semanas. Já a conheço há alguns meses e temos uma boa relação, de forma que a consulta também flui da maneira que me agrada, numa conversa boa e tranquila. Ela deita-se na maca para que eu possa examiná-la, e enquanto eu preparo o material me lembro de Carol, e dou uma risada. Olho para Patrícia, estudante do quinto ano que está em estágio comigo: “Ainda tô rindo daquela paciente”, comento, e numa tentativa de colocar pra fora a vontade de rir e quebrar o gelo que sempre existe antes de um exame ginecológico, conto a Roberta o que Carol me falou sobre minha postura no consultório. Patrícia ainda traz outra história para a conversa, dizendo que lembrava de mim de uma aula que eu havia dado na faculdade no segundo ano do curso dela, e que o que mais tinha chamado a atenção havia sido o fato de eu ter sentado na mesa, de pernas cruzadas (não foi o que eu falei na aula que chamou mais atenção? Ih…). Roberta ri junto, e eu continuei falando, desta vez tentando refletir um pouco sobre o relato: “Eu preciso tomar cuidado com isso. Muita gente deve gostar de um ambiente mais descontraído, mas algumas pessoas podem se sentir desrespeitadas de alguma maneira, como se eu não respeitasse o ambiente…”. Roberta olha pra mim e diz: “Doutor, fique tranquilo. As pessoas estão gostando. Talvez alguns ainda não estejam acostumados com isso, mas o senhor conversa com a gente. É diferente”.

III

Joana chegou mais tarde, já no final da manhã. Revisei o prontuário antes de chamá-la, e pude ver que a havia atendido umas três semanas antes com uma irritação na pele. Na ocasião prescrevi medicamentos e orientei que retornasse em dois ou três dias se não melhorasse. Três semanas? Será que é o mesmo problema?

Ela entrou, e imediatamente vi a mesma lesão na pele, que parecia até pior. Após cumprimentos breves perguntei o que a trazia novamente, era a pele? O medicamento não havia produzido melhora? Joana disse que sim, que melhorou ao usar o medicamento, e que a lesão estava quase desaparecendo até alguns dias atrás, quando voltou a piorar. Notei que Joana estava com a caixa do medicamento nas mãos, provavelmente um sinal de que gostaria de outra receita. Perguntei: “Será que tem algo provocando essa piora? Você consegue perceber alguma coisa que esteja associada com o surgimento desse problema?”, e ela inicialmente, como é de hábito entre os que recebem essa pergunta, disse que não percebia nada, que não entendia o problema. Nessas horas eu costumo mudar a minha rotina de não escrever no prontuário durante a consulta, pois algumas perguntas precisam ser melhor analisadas, e alguns segundos de silêncio observando o médico escrever podem ser mágicos.

Dirijo o olhar a Joana novamente, ainda em silêncio, e sorrio discretamente, como quem diz “estou aqui”. Ela desvia o olhar mas volta rapidamente, e diz, num volume mais baixo do que o habitual: “O senhor acha que pode ter a ver com estresse?”, pergunta que está na minha lista de mais ouvidas. Respondo que pode ser, mas que o importante mesmo é o que ela acha. Será que é estresse? Tem algo estressando você? Será que posso ajudar?

Joana ri, baixa o olhar, depois me olha novamente. Respira fundo e diz “Acho que sim. Eu ando com uns problemas aí. Acho que é meu corpo avisando, né?”. “Sim, pode ser”, digo. “Quer conversar sobre isso?”.
“Não, doutor, hoje não. Outro dia a gente conversa. O senhor passa aquele mesmo remédio e qualquer coisa eu volto”. Acho a idéia bem razoável. Outro dia ela volta. Quando me conhecer melhor.