Crack e o chocolate

Por Mayara Floss

cioccolato fuso

 

      Em um desses dias de plantão uma paciente, entre tantas outras, em trabalho de parto de uma criança prematura e “usuária de crack”. Sem pré-natal, sem documentos, sem familiar, sem acompanhante, quase sem roupa. Tudo acontece muito rápido não deram nem dez minutos. Ela após o parto ajoelha-se no chão para rezar pela filha que nasceu. Fica na sala de recuperação do parto chorando desconsolada. Eu indo e vindo com uns papéis decido entrar no quarto, colocando de lado meu turno de sono para conversar com ela. Toco no ombro e peço se ela quer conversar, ela vira-se, chora e diz: “é tudo culpa minha”. Eu só escuto, a história, o filho perdido, o ex-marido, a vida que se costurava entre as lágrimas. História doída. Começamos a conversar e de repente a barriga dela  “fala mais alto”. Ela coloca a mão na barriga e confessa: “Não como há três dias, fui vender crack para conseguir comida e acabei usando” – respira fundo e diz – “é sempre assim”. A copa já está fechada, estamos adentrando a madrugada e insisto para conseguirmos algo para ela comer, pergunto se posso dar um chocolate que eu tenho, a enfermeira dá de ombros com um “sim”. Levo meu chocolate para ela, ela dá um pulo da cama, “Eu adoro chocolate, faz tanto tempo que não como um”. Eu sorrio ela lê a embalagem: “Sem açúcar, sem leite, sem glúten” e ela diz para mim “essa coisa é porque quer emagrecer?” eu digo que “não” e rimos juntas com uma certa cumplicidade entre nós. Os olhos castanhos com um brilho verde ao comer o chocolate. Nós duas, tão mulheres, tão humanas, tão chocolate.

Rio Grande, 04/05/2016

Anúncios

Pontos turísticos

https://i1.wp.com/imagens.n3po.com/cache/Panoramicas/Cemiterio-favela-Sudamerica_540.jpg

por Mayara Floss

– Mataram um aqui, outro ali – ele aponta com o dedo indicador, e segue naturalmente – mataram outro aqui. –  ele mostra com a mão uma porta de garagem, seguimos andando – mataram um mesmo aqui – aponta o ponto do cachorro quente – aqui o pai viu o filho morrer, na verdade ele achou que eram uns amigos e chamou o filho pra morte – aponta a porta de uma casa – agora o pai decidiu se mudar – caminhamos mais um pouco – mataram também aqui, mas já faz um tempo. Pergunto: – quanto tempo? – ele diz – Ah, alguns meses só.

(Caruaru, fevereiro/2017)

Sabedoria de avó

https://causosclinicos.files.wordpress.com/2017/02/9b4a7-vov25c325b32.jpg?w=700

por Mayara Floss

Bom, segundo a lei municipal não pode-se ter galinhas na cidade, é arriscado para a saúde pública. Minha avó tem um terreno na zona urbana, com cara de rural, comprou com o dinheiro contado da aposentadoria, bem na periferia, estrada de chão. Lá no alto dos seus 90 anos cria galinhas e mantém suas parreiras. Galinhas proibidas pela ordem municipal. Galinhas que ela conhece o nome, são todas batizadas e ela ainda sabe quem está cantando. Ela cria para ter um ou outro ovo de vez em quando, ninguém tem coragem de comer essas galinhas. Na frente da casa (que fica no meio do terreno) não raro você encontra milho plantado ou alguma plantação da época.
Ela vai estar de vestido florido (ou de uma cor só) e chinelo de dedo. As agentes da dengue foram visitar a casa da vó, procurando larvas de mosquito, vasos, etc. Não encontraram nada, nadinha, tudo certo. A agente perguntou:
– O que a senhora faz para não ter nenhuma larva de mosquito na sua casa?
Minha avó respondeu:
– As galinhas cuidam disso.
A agente disse:
– Mas você não pode ter galinhas, galinhas são proibidas.
Minha avó respondeu:
– E mosquito? Mosquito pode?
A mulher despediu-se educadamente e foi embora e deixou minha avó em pé ao lado do fogão a lenha olhando para ela.

Primeiras palavras

por Mayara Floss

gauchinho

Durante uma consulta de puericultura eu pergunto para a mãe sobre as primeiras palavras, se a criança está balbuciando.

A mãe diz:

– Sim, claro! Ele diz “mama”, “papa”… ah… e ele diz “Bah”.

Eu olho para ela e sorrio (é o bah que eu estou pensando?):

– Bah?

Ela responde:

– É Bahhhh sabe? De baaaaarbaridade?

A criança no colo da mãe me dá uma risada e diz:

– Baaaahhhhhhh.

Um “Bah” desses de fundamento.

O Paciente Ideal

por Mayara Floss

O paciente ideal
Fala pouco
Não chora, não geme, não grita
Aceita e concorda com tudo
Segue as prescrições
Não usa celular
Não tem história social
Tem uma queixa exata
E apresenta só uma queixa de cada vez
Tem uma dor de descrição precisa
Não fuma, não bebe, não cheira
Não come demais
Não come gordura
Não come nada com açúcar (nem carboidrato)
Não faz muito sexo e sempre usa preservativo,
anticoncepcional, e todos os outros métodos possíveis
Tem três refeições por dia
Tem casa para morar
Sabe ler e seguir ordens
Toma a medicação na hora certa
Não faz cara feia
Tem no máximo um acompanhante
Sabe comunicar-se e expressar-se bem
Faz os exames no tempo certo
Não tem vícios
Tem dúvidas pontuais e de fácil resposta
O paciente ideal, senhores,
Não tem graça, nem troca.

Anamnese saudável

por Mayara Floss

'Even I didn't realize it was a disease.'
‘Even I didn’t realize it was a disease.’

Médico: Bom dia!
Sujeito: Bom dia doutor!
Médico: Como o senhor está?
Sujeito: Muito bem doutor!
Médico: Alguma dor?
Sujeito: não.
Médico: alguma alteração?
Sujeito: não.
Médico: Fezes… Urina…
Sujeito: não…
Médico: como está a sua casa?
Sujeito: tudo maravilhoso, ótimo mesmo doutor.
Médico: tem alguma queixa?
Sujeito: não..
Médico: fez algum tratamento?
Sujeito: não…
Médico: vamos examinar…
(percorre-se o exame físico e revisão de sistemas sem nenhuma alteração, nenhuminha).
Médico: bom, está tudo ótimo!
Sujeito: que bom!
Médico: vou solicitar esses exames para ver seu colesterol, glicemia..
Sujeito: mas não está tudo ótimo?
Médico: só um check-up.
Sujeito: mas eu já fiz, faz pouco tempo.
Médico: quanto tempo?
Sujeito: menos de um ano…
Médico: Mas então porque você veio? Queria saber se estava tudo certo?
Sujeito: Não doutor, eu sei que está tudo certo!
Médico: Mas eu não tenho nada para fazer, então!
Sujeito: Mas o senhor não cuida da saúde?

Abraços que pousam,
Mayara Floss