​O segundo da última batida

Por Marina Galhardi

Não, não achei que seria fácil. Mas fiquei ali, ao seu lado, esperando que parasse de respirar, que seu coração parasse de bater, pensando ainda cientificamente no que estaria acontecendo. Não houve despedidas. Sua face de minutos antes, de angústia, de medo, pálido, mantinha-se agora quieta, esforçando-se para ter um pouco de ar ainda. Pouco. Pouco.


E então parou. Acabou-se. Senti seu pulso escapando das minhas mãos. E fiquei ali, ao lado, sentindo o que não era pena, ou compaixão, era pesar. Pesar pela morte chegar de repente e tomar de um fôlego tudo aquilo que se era. É preciso ter muita fé.


A enfermeira chefe e as auxiliares ficaram me olhando. Talvez não entendessem porque eu estava ali. Afinal, quando o médico desengana ele se ausenta. Perdeu a batalha. Não tem papel nenhum perante ela. Eu tinha ficado esperando a morte chegar, nem sei bem o porquê.


“Está sem pulso” – e fiz sinal para que elas o preparassem.


Dadas por encerradas as terapias, me preparei para a burocracia da morte, não pude deixar de me despedir em silêncio, brevemente e com algumas lágrimas escapando os olhos, como se até pedisse um pouco de perdão por talvez ter deixado de fazer o que lhe pouparia. Mas como não somos permitidos a sentir essas coisas, me esforcei para me concentrar na declaração de óbito. Por que mesmo que tinha sido? Nenhum motivo parecia ser justo.


Cumprida as obrigações, fui para casa naquele dia com a sensação de energia roubada, de tudo o que me ainda restava de bom levado junto, como se não tivesse mais apenas vinte e poucos e de repente tivesse envelhecido muitos anos num segundo. O segundo da última batida.

O médico de família é um conhecedor de gentes, um contador de histórias

por Marina Galhardi

Ajeito a xícara de café numa manhã fria dessas de outono e releio alguns textos antigos. Textos de quando eu ainda não era estudante de medicina, nem médica, nem médica de família e comunidade. Busco porquês.

Escrevi sempre, foi meu jeito de expressar sentimentos desde que aprendi. Quando já estudava medicina, no entanto, esses escritos foram virando outra coisa. Histórias de pessoas que fui conhecendo por detrás de suas doenças.

Num desses textos, de cinco anos atrás, escrevi sobre imperturbabilidade. Um professor me disse, certa vez, que o médico deveria ser imperturbável, mesmo no caos, no excesso de pacientes e falta de recursos, mesmo nos contextos sociais complexos, mesmo diante da morte e de nossos próprios sentimentos. Deveríamos, imperturbáveis, manter a calma, seguir nosso raciocínio clínico e ser eficientes. Guardei na memória a lição com a qual concordei discordando. No texto em questão me desculpava, professor, por ter falhado na imperturbabilidade. Completamente.

Escrever foi e ainda é transgredir e permitir me perturbar. É minha resistência de ser gente antes de ser médica. Hoje, como médica de família e comunidade, sou conhecedora de gentes – que às vezes possuem doenças – e contadora de histórias. Conto suas histórias com a expectativa de afetar tanto quanto elas me afetam. E que o afeto seja revolucionário, pois “aquele que sofre não é curado por alguém que se mantém a distância” (McWhinney).