Dos buracos

por Mariana Duque Figueira

(Aviso: níveis de glicose elevadíssimos)

– Como vocês querem que eu olhe prum buraco?! Não dá pra olhar. Não dá!

É o que Antônio Carlos, “pode me chamar de Tonho”, dizia todas as manhãs. Sempre que perguntado se gostaria de ver como estava ficando o curativo. Do pé recém-amputado após anos de diabetes não controlado.

Numa reunião de equipe, ele voltou a ser assunto. A enfermeira e a agente de saúde compartilhavam a mesma preocupação: a ferida estava clinicamente cada vez melhor, mas após diversas tentativas de intervenção de ambas, ele continuava muito triste e reativo, – inconformado com sua nova situação. Fiquei então de visitá-lo durante a semana.

História de longa data, seu Tonho e eu. Passamos por diversas fases: você-tem-cara-de-criança-como-pode-ser-médica, pode-repetir-esse-exame-que-não-tenho-doença-alguma, a-doutorinha-anda-feliz-isso-tem-cara-de-amor, se-eu-já-tenho-esse-tal-de-problema-de-nervo-de-que-adianta-tomar-remédio-pro-diabetes, ando-me-sentindo-melhor-com-o-remédio-até-que-a-doutora-sabe-das-coisas.

No dia da visita, como esperado, a frase que tantos já ouviram antes de mim:

– Como você quer que eu olhe prum buraco?! Não dá pra olhar, doutorinha.  Não dá!

Deixei que soltasse tudo o que estava ali, engasgado. Trinta minutos e um café de engasgos.

(Foi ficando na minha cabeça aquela imagem toda sobre buracos. Queria conseguir conversar com ele sobre buracos. Todos temos buracos, seu Tonho. Marcas de partes que algum dia pareciam essenciais. Se olhar com atenção, dá para enxergar os de cada um desta sala.  E bem, de alguma forma estamos todos em pé por aqui.)

– É um pedaço meu que eu sei que tá faltando. Manco. Não dá pra aceitar uma coisa dessas. Dói andar.

(Resta esperar o tempo dele. De perceber que no começo manca, mas depois sai pisando ainda mais firme. A gente vai criando casca, meu velho. Talvez um dia eu até lhe conte que algumas viram dor fantasma, e voltam para assombrar de vez em quando.)

Conversamos então sobre a insulina e a avaliação da terapia ocupacional, acordamos um reencontro, e nos despedimos.

– Como está, Tonho? – pergunto no retorno.

– Chega de falar de mim. Por que a doutora anda tão triste?

Totalmente inesperada essa leitura do subtexto, sabedoria iletrada. Seguro o engasgo, e acabo me abrindo:

– Também tenho uma ferida que tô cuidando. Ainda não consigo olhar muito pro buraco.

Abre um sorriso solidário e me responde:

– Doutorinha, amor é sempre bonito. Mesmo quando vira buraco. Vou trazer uma compota da patroa. Vai ajudar a ficar melhor.

(Tem dias que sou eu quem cuido deles, em outros são eles que cuidam de mim.)

Flores e besouros

por Mariana Duque Figueira

A medida que entra na casa de alguém, você vai sendo bombardeado por uma série de informações valiosas sobre aquela pessoa. História e condições de vida, organização, auto-cuidado, relação com os outros moradores da casa. Tudo ali em segundos, desde o portão de entrada até a sala ou o quarto onde a conversa normalmente ocorre.

Visita domiciliar é de uma intimidade e potência enormes, – sempre que bem indicada, e não como um indicador numérico vazio a ser batido todo mês. Às vezes, vem de brinde um café de coador com um bolo acabando de sair do forno. Outras vezes, o tempo está escasso e só cabe um copo de água bem rapidinho, para hidratar depois de subir tanta ladeira no solzão.

E numa certa manhã, eu fui entrando no apartamento absorvendo tudo o que via daquele mundo: parede com alguns bordados pendurados, muitas flores (reais, de plástico, na toalha de mesa, na saia de Suzana), nenhuma foto numa sala muito bem arrumada e com um enorme tapete.

O que me disseram de Suzana é que era recém-chegada na área, morava sozinha, e tinha um sotaque um pouco diferente (que a agente de saúde achou bem engraçado, inclusive). O que eu via em Suzana era uma senhorinha plácida, com uma prótese auditiva, e que me olhava de um jeito que eu ainda não tinha entendido se era convidativo.

Conversa indo, eu descobri que veio há décadas da antiga Iugoslávia, que morava com o marido em outro bairro da capital, até que ele faleceu e ela se mudou para cá. Conversa vindo, eu entendi que era bastante culta, que tinha um diabetes hipermedicado, e que seu nome significava lírio em hebraico.

Descobri o porquê das flores, pensei. Não descobri o porquê dos olhares, mas parecia que estavam direcionados às minhas mãos. Concluí que era meu esmalte preto, talvez fosse chocante demais para uma vovozinha.

Combinamos que diminuiríamos os remédios em excesso, e senti que foi um momento em que comecei a ganhar sua confiança. Decidi então arriscar e comentar sobre a minha impressão:

– Notei que a senhora tem reparado bastante nas minhas mãos. É o meu esmalte?
– Desculpe. Estava aqui pensando se quem pinta a unha de preto hoje em dia ainda é porque gosta de rock.
– Gosto bastante. A senhora gosta de rock?
– Adoro Beatles, conhece?

Acabou que atrasei uns dez minutos para a próxima visita, pois não conseguimos decidir sobre Sgt. Pepper ou The White Album ser o nosso disco favorito.

Para eu me lembrar todos os dias: envelhecer é injusto em inúmeros aspectos, esquecer que o corpo de agora pode não fazer jus à alma de sempre é mais injusto ainda.

Subtexto

por Mariana Duque Figueira

– Então é isso, seu Bernardo. Nos vemos mês que vem após o senhor colher novos exames.

Abro a porta do consultório e nos despedimos: trocamos um aperto de mão, e então eu coloquei minha outra mão sobre o seu ombro por alguns instantes, como que um abraço tímido.

“Certo” foi o que me respondeu, – sempre monossilábico e desviando o olhar – enquanto se encaminhava ao posto de enfermagem para receber sua injeção de aumentar os glóbulos vermelhos no sangue.

Não me lembro de exatamente quando comecei a me despedir do seu Bernardo desta maneira. Eu me lembro de exatamente quando nos conhecemos.

Eu, residente do primeiro ano buscando na medicina de família e comunidade um caminho para cuidar de pessoas e não só de doenças. Ele, recém-aposentado buscando na bebida e no cigarro companhia para sua nova rotina.

Eu, preocupada com a responsabilidade enorme e pensando se as pessoas me levariam a sério como médica recém-formada. Ele, preocupado com a inexperiência e me perguntando se eu já tinha idade para atender gente sozinha.

Eu, pensando se havia alguma maneira menos desagradável de contar que o rim e o fígado já estavam bastante comprometidos, após anos de diabetes descompensada e de muitas doses de cachaça. Ele, dizendo que não aguentava mais cobranças de familiares e de profissionais de saúde para que parasse de beber e tomasse seus remédios todos os dias.

Ambos, apaixonados por futebol e torcedores do Santos.

Nunca gostou de ir ao médico. Nunca me respondeu com mais do que poucas palavras. Nunca me olhou nos olhos por muito tempo.

Sempre me senti fazendo monólogos nas consultas. Sempre tive dúvidas se nossos encontros faziam algum sentido para ele. Sempre me perguntei por que ele nunca faltava.

Desde então, testemunhei: a insuficiência cardíaca que apareceu com inchaço nas pernas e muita falta de ar; a ureia que começou a aumentar no sangue e o fazia vomitar; a vista ruim que precisa de tratamento com laser; o formigamento nos pés que piora à noite e às vezes não o deixa dormir.

Pensando bem, acho que comecei a me despedir do seu Bernardo daquela maneira quando ele contou sobre a dificuldade de ereção. Eu me senti um tanto culpada por ter saído feliz da consulta. Feliz porque me contar sobre um assunto tão íntimo e difícil demonstrava confiança.

Guardei silenciosamente esse dia como um pequeno troféu, símbolo do vínculo se fortalecendo. Guardei junto cada meio sorriso que ele soltava quando eu comentava sobre os jogos do nosso time.

Dia desses, encontrei Bernardo com sua esposa no corredor do posto de saúde. Fez um aceno discreto e foi tomar sua injeção para os glóbulos vermelhos. A esposa veio em minha direção com uma cara de apreensão:

– Fiquei sabendo que estão demitindo vários funcionários daqui do posto. A doutora vai embora?

– A princípio não, Dona Joana. Até agora não fui informada que serei demitida.

– Se a senhora for embora, me dê o endereço de onde for atender. É um Deus nos acuda fazer esse homem ir no médico do rim, no médico do olho. Com a senhora ele sempre vem. Ele vem até sozinho. A senhora sabe que lá na rua ele até chora quando fala da senhora. Que a senhora se importa, que se despede dele com carinho. Ele diz que é a filha que ele nunca teve.

Pegou totalmente de surpresa, esse relato de carinho explícito, escancarado. Abri um sorriso, assim meio tímido. Deu uma vontade súbita de ir até o posto de enfermagem e lhe dar um abraço forte, abraço inteiro, “de filha”.

Mas daí eu lembrei que há que se respeitar o modo como cada um demonstra sentimentos. E a nossa relação, seu Bernardo, sempre foi baseada em não ditos e quase abraços.