O TIG e a Coragem

por Maria Carolina Falcão

“Mas eu não posso engravidar de novo!” suplica, olhando o TIG, o teste de gravidez, positivo. Tinha chegado na unidade com queixa de náusea e atraso menstrual há três semanas. Trinta e dois anos, pele brilhante no calor do Rio de Janeiro, cabelo colado na testa. No chão, entre os pés, uma sacola de supermercado com alguns itens de mercearia e duas latas de leite em pó. No colo um sonolento e sereno bezerrinho de dois anos, a quem abana com a caderneta de vacinas. Seus olhos amedrontados vasculham nos meus uma solução para o turbilhão de mudanças e sentimentos que aquela pequena fitinha com dois traços rosados evocava. Não as tenho, é a primeira vez que nos vemos e espero aqueles segundos estratégicos, para a informação assentar. Brotam as lágrimas, entrego uns lenços de papel, surge a contabilidade: “Com esse agora vão ser cinco…”

Respiro fundo, peço que me conte um pouco da sua família, seus filhos e de como estava sua vida atualmente. Veio da Bahia para estudar, largou mãe e irmãos. Concluiu o ensino médio e estudou pra concurso, enquanto fazia bicos para se manter. Conseguiu um emprego estável, conheceu um rapaz e foi morar com ele. Vou acompanhando a família que vai surgindo enquanto traço numa folha o familiograma: um círculo que a representava, ligado em seus irmãos que saiam dos seus pais. Um quadrado representando o marido, ligado nela, da onde brotam um, dois, três risquinhos: seus filhos. E esse mais novinho aí do seu colo? Deste, ela engravidou quando tinham se separado. O marido já não era aquele com quem tinha casado, falava alto, mal-humorado, não queria que ela estudasse ou trabalhasse. “Mulher minha fica em casa cuidando dos meninos”. Descobriu uma traição, a gota d’água! Planejou sua mudança, mas viu-se grávida e demitida. Grávida, demitida e dependendo financeiramente de um marido que “nunca me bateu”, mas já proibiu, já xingou, já ameaçou, já passou a mão mesmo quando ela não queria.

Nova pausa. Mais longa, mais íntima. Penso no meu próprio relacionamento, pacífico e terno. Penso em quantas outras não estariam na mesma situação, sem saída. Seguro a revolta: e o que você acha dessas coisas que ele faz? Acha que é agressão, já viu na novela que não precisa bater, mas não quer que os filhos cresçam sem pai como ela cresceu. Já chorou, ficou sem fome, sem sono e já pensou em desistir de tudo e morrer. Nunca teve coragem por causa dos filhos. Não tem outros laços de amizade, alguém com quem contar nas horas difíceis. Pergunto se esse é o melhor ambiente pros filhos crescerem, soluça um pouco e diz que não. Diz que já pensou diversas vezes em voltar pra Bahia, mas seria muito difícil. “Vai parecer que fracassei, agora então…” segura a famigerada fitinha do teste de gravidez.

Olho nos olhos, aproximo dela o papel com sua árvore genealógica representada, aponto. Tenho pelo menos cinco motivos que me garantem que você não é um fracasso, vamos contar? Um por um, vamos reforçando os nomes dos filhos e completando com o bebê que ainda não nasceu. Os cinco motivos que não a deixaram desistir de viver. Os cinco motivos pelos quais vale a pena lutar, mudar, renovar. A expressão suaviza e traz mais pra perto parte de sua cria no braço. Marcamos retorno, iniciamos pré-natal, nova consulta também pra conversar com mais gente da equipe, encaminho para a assistente social. Respira fundo, seca as lágrimas, agradece. Pega a sacola, seu menino, levanta a cabeça: “Acho que posso criar coragem, doutora!”.

Ela sai e eu desabo, tendo certeza de que a coragem já é muito maior do que ela imagina.

Passo a Passo

 por Maria Carolina Falcão

Dia de visita domiciliar. Um dia programado com antecedência, caso discutido com a equipe em reunião na semana anterior, prontuário checado antes de sair pra não esquecer nenhum detalhe. É daqueles dias que você se lembra de passar protetor solar, de tomar um café da manhã reforçado, de fazer uma marmita pra levar no caminho. É manhã de sair mais cedo de casa pra abastecer o carro e chegar na unidade já preparando a bolsa de visita: esteto, aparelho de pressão, lanterna, balança, luva, prancheta, receita… Um dia em que a gente pensa num calçado confortável pra caminhar, afinal vai passar um turno inteiro de rua em rua, de casa em casa, de família em família, passo a passo.

Em dia de visita domiciliar, tudo pode acontecer! A gente vai conhecendo e reconhecendo gente na rua. Vai conversando com o agente comunitário sobre o bairro, o morro, as figuras. Vai descobrindo mais da história do que podia imaginar. Vai vendo ponto de droga, ponto de bicho, feira livre, barbearia na calçada, a Kombi do peixe. Vai vendo creche municipal, creche em casa, criança na rua… Vê galinha, gato, cachorro, porco. Fala oi com o dono da birosca e todos os pacientes em acompanhamento de desintoxicação alcoólica bebericando sua pinga matinal. Encomenda a quentinha do almoço com a dona da padaria. Às vezes pega carona com o mototaxi, cujo bebê tá tomando mamadeira com farinha e quer que você marque consulta. Às vezes vai com o seu carro mesmo, dependendo da distância. Às vezes vai a pé, curtindo um sol do Rio de Janeiro, enquanto você atravessa até a outra ponta da comunidade, pelo atalho das antenas da Light. Vai conhecendo um visual que só aquela gente conhece, a cada dia vai ficando mais apegado, passo a passo.

A primeira visita hoje é longe, lá no fim da rua. O prédio é daqueles sobradinhos antigos, três andares, com escada estreita, mal cabe a bolsa de visita. De lá de baixo a gente grita, avisando que chegou. De lá de cima aparece uma mão abanando, avisando que já vai abrir. O portão estala, vamos entrando! Passo a passo vamos subindo, passando pelas portas dos vizinhos que não acompanham na unidade ainda. Ofegantes, somos recebidos pela cuidadora da paciente que já vai abraçando, agradecendo a visita, puxando cadeira, oferecendo água. Ela está lá no quarto, deitada.

Somos apresentadas: “aqui é a nova médica do posto, veio conhecer você”. Aperto de mão, sorriso gentil, aquela olhadela em volta pra me familiarizar com o contexto clínico e social. Deve ser um pouco mais velha que minha mãe, branca, cabelo ondulado, olhos claros, sorriso discreto. Sentada na cama, banho tomado, camisola de algodão bordada em ponto cruz, ela mesmo quem faz. Cama de casal, janela bem aberta, quarto arejado, vista pra rua. Estante com livros, cômoda com televisão, porta retratos antigos e novos. Uma cadeira com roupas, criado mudo com a Bíblia e os remédios: diabetes, pressão alta e dor. Alguns brinquedos no chão, sem tapetes, o pé esquerdo de um chinelo. Uma prótese de perna direita apoiada na cabeceira da cama. Passo a passo vou entrando naquele universo familiar.

Me fala da sua cirurgia de amputação da perna, bem abaixo do joelho, da boa recuperação e da filha que veio com a família morar com ela. Me mostra as receitas, me mostra o coto, me mostra a prótese e conta que está com alguma dificuldade de adaptação. Pergunto como está a fisioterapia e peço pra me mostrar como tem feito. “Tenho chamado minha ajudante”. Sem precisar falar nada, ouço aquele barulho gostoso de pequenos pés descalços vindo pelo corredor: “bobó!” Os pequenos passos vão se aproximando e a dona dos brinquedos no chão entra tropeçando na sua camisolinha bordada, cai e se levanta novamente: “Bobó!”. Esta já adaptou sua prótese, vai se apoiando na cômoda, chamando a neta para dar a mão. Passo a passo pelo corredor vão as duas com suas camisolinhas bordadas, motivando, ensinando, aprendendo e reaprendendo. Impossível saber quem está professorando quem. As vejo ir e voltar, segurando a prancheta, fotografando mentalmente aquele momento.

Orientações feitas, receitas renovadas, já estamos indo, tem mais gente pra ver. Agradecimentos, abraços, ternura. Da calçada vemos as duas dando tchau pela janela. Passo a passo vamos nos distanciando, rumo a outro universo familiar.É mais um dia de visita, daqueles que a gente guarda com carinho.

dsc_0503

 

O que os olhos não vêem

por Maria Carolina Falcão

Entra a família no consultório. Duas mulheres, um homem e seu jovem irmão. Este fala pelos outros três. Conta que precisam de um exame geral para o passe livre no transporte público. Seu rosto parece cansado, mas seus olhos sorriem levemente.
Volto-me para uma delas, a perguntar como estava se sentindo. Ela me vê, abre um largo sorriso e sinaliza que vai bem, com as mãos. Me pergunta como chamo. Percebo que fala em linguagem de sinais. Eu, pouco. Limitei-me a aprender praticidades médicas durante a formação acadêmica, para questionar sobre doenças… “dor”, “febre”, “náusea”, “alergia”… Não foi nos ensinado que conversaríamos com pessoas, não com doenças. Até agora, pelo que pude perceber. Soletro meu nome, devagar como uma criança que está aprendendo a escrever com giz de cera largo, trêmula. Ela sorri e dana-se a sinalizar para mim, seus irmãos e novamente para mim, balbuciando pacientemente para que eu pudesse entendê-la através de leitura labial. O efeito foi reproduzido por seu irmão, um senhor de barbas brancas e olhos miúdos, apertados como se a luz do consultório estivesse demasiadamente forte. Só compreendi que estavam felizes. Ambos me mostravam como sinalizar seus próprios nomes, como contar, como me expressar. Como professores entusiasmados, pegam o aparelho de pressão, o estetoscópio, me fazem examina-los. Felizes. Alguém fizera esforço para compreendê-los.
O rapaz os silencia, afagando seus braços e mãos, se dirigindo a mim, em tom interpretativo: “Síndrome de Usher, já ouviu falar?”. Na verdade não, era a primeira vez. Uma alteração genética, degenerativa, com diversos espectros de evolução, iniciando com surdez progressiva e perda gradual da visão. Seus irmãos estavam em diferentes estágios: perda parcial da audição; surdez e alguma perda de visão; surdez e cegueira totais. Ele não. Nascera depois, ouvindo e vendo, tendo se formado em Fonoaudiologia e pós-graduado em reabilitação da comunicação. “Minha missão de vida é cuidar deles”.
Infinitas perguntas me vêm à mente, uma mistura de sensações… Admiração, inquietude, emoção. Percebo, então, que a outra senhora permanecia sentada, fitando o infinito, sem esboçar reação alguma. Perda total da visão e audição. Perda. Total. Nenhum som, nenhuma luz, nenhum vislumbre de todo aquele momento comunicativo que há pouco tinha enchido o consultório de sons e sorrisos. Apenas seu ser. Seus pensamentos, talvez? Uma clausura, uma privação solitária, sem comunicação com o externo, vivendo passivamente o resto de sua história. Como proceder? O que fazer? Como examiná-la, sem invadir sua intimidade reclusa? Como transmitir o que penso? Como iniciar um vínculo com essa pessoa tão singular?
As dúvidas certamente transparecem, pois seu irmão me lança um olhar maroto, de quem sabe que irá agradar num belo espetáculo. Chama a senhora pela mão, ela se levanta. Como num balé, as mãos da senhora em concha, sentem os sinais produzidos pelo irmão, que informa onde estão e o que irá acontecer. Seus braços acompanham os movimentos sincronizados do outro, uma conversa dançada, o mundo se reduzia a eles, naquele consultório, num posto de saúde da Tijuca. Saberiam os outros da sala de espera, do posto, da rua, o que estavam perdendo ali?
Toco-a com gentileza. Examino. Pressão, coração, pulmão… Minúcias requeridas pelo tal documento. Sorrio, mesmo sabendo que ela não me vê. Inicialmente sinto-me boba. Mas quem liga? Quando termino, olho para meu intérprete em busca de mais alguma coisa em que possa ser útil. Há mais algo sim. A senhora, de dentro do seu mundo silencioso e distante, sente os detalhes do meu rosto. O cabelo preso, o óculos, nariz… O sorriso que fiz questão de manter. Ela sorri também, sinaliza algo para seus irmãos, provocando uma comoção geral, palmas sutis, gargalhadas sonoras, entreolhares familiares. Senti-me isolada daquele mundo, como se meus sentidos, afinal, atrapalhassem a percepção de tudo o que estava se passando. Como uma estrangeira se perde a achar a graça numa piada, pelo coloquialismo lingüístico. Meus sentidos de nada valiam naquele momento.
Percebendo minha presença, o irmão me coloca a par. Tinham gostado do atendimento e voltariam em breve. Despedem-se, aprendo mais um sinal. Num mundo de cores vibrantes e de sons diversos, às vezes deixamos a suavidade do toque cada vez mais esquecido. Quando acho que já posso chamar o próximo da espera, o irmão me agradece: “ela disse que você toca como quem cuida, obrigado”.
Imagens e palavras não descrevem suficientemente bem. Quem agradece, na verdade, sou eu. Todos os dias.