De 8 a 80

Resultado de imagem para linha reta eletrocardiograma

por Luís Vilela

Dia de plantão noturno em pronto socorro, já esperamos aquele inferno de sempre que a gente se habitua. Para minha surpresa estava tranquilo, apenas uma hora e meia de espera para o baixo risco (ficha verde). Tinha muitos pacientes internados, mas com aquela equipe, estava tudo dominado.

Primeiro paciente: senhor João 58 anos, com queixa de lombalgia (dor nas costas) mecânica. Conversa vai e vem, e ele me pergunta:

– O Sr. me parece familiar. Por acaso não estava aqui há 3 anos?
– Sim. Eu não lembro, é muito paciente que a gente atende…
– Como é seu nome?
– Luís.
– Então é o Sr. mesmo que salvou minha vida e eu nunca agradeci. Era de madrugada, eu estava com dor no peito, fui direto para Emergência você chegou, olhou o eletro, e falou “tá com um infarto dos brutos”. Aí veio a ambulância e me levou para o hospital. Depois do cateterismo e ponte de safena, estou melhor. O cirurgião que me operou disse que só estou vivo porque fiz tudo o que precisava muito rapidamente.
– Fico feliz Sr. João. Muito mesmo. Com esse seu histórico, é importante saber que alguns medicamentos aumentam o risco cardiovascular, entre eles o Ibuprofeno e o diclofenaco. Vou prescrever outras opções.
(https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2017/03/28/ibuprofeno-e-diclofenaco-aumentam-chances-de-infarto-diz-pesquisa.htm)

Tudo seguia bem, e por volta das 22:00 fui jantar. Quando estava passando pela hidratação, fui abordado por uma mãe desesperada em prantos. “Moço salva a minha filha!” e apontou para sala de Emergência, enquanto rezava.

Quando cheguei, vi uma menina de 20 e poucos anos no que a gente chama de pré- parada: inconsciente, pele fria, já monitorada, presenciamos a linha reta no monitor, e iniciamos a massagem cardíaca prontamente.

O colega que atendia o caso desde o inicio conduziu o protocolo da parada. Realizo a intubação orotraqueal. Em pouco tempo, todos os plantonistas estavam ali para ajudar. Uma amiga cardiologista foi conversar com a família para saber o histórico e tentar nos ajudar a saber a causa da parada cardiovascular. Ela estava midriática (com pupilas dilatadas) e teve incontinência urinária e fecal. Será uma causa central (AVE/derrame).

Me ofereci para substituir o enfermeiro na massagem cardíaca. E no final do meu ciclo, ela voltou: pulso presente, forte. Ritmo no monitor flutter atrial e bloqueio de ramo direito (BRD), chega a 100 de frequência cardíaca, pressão inaudível. Nega uso de drogas, exceto anticoncepcional oral, tinha queixa de dores nas pernas e ansiedade.

Linha reta novamente. Reinicia-se a massagem. Todos pensamos em tromboembolismo pulmonar (TEP). As panturrilhas não estavam empastadas. A suposição era que um trombo nas pernas tinha se deslocado até o pulmão, o que levou a hipoxemia (oxigênio baixo no sangue), dor no peito e a parada, o que seria compatível com uma sobrecarga atrial pelo TEP e com o ritmo de flutter atrial/BRD. Ela voltou novamente. Pulso presente.

O telefone toca: novas urgências chegando, e o povo já reclamava da demora no atendimento. Fui atender os casos. Quatro fichas amarelas (prioridade moderada). Atendi todas rapidamente. A gente fica adrenalizado.

Depois de um tempo, atendo a demanda da porta, aparecem meus colegas de trabalho. Todos cabisbaixos. Sentimento de tristeza. Escuto no consultório ao lado o choro da mãe que há pouco rezava, e de seus familiares.
Nessa altura já perdera a fome, mas tinha que comer alguma coisa porque a noite ia ser longa.

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Toninho

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Tem pacientes que a gente se apega. Toninho era um deles. Há cerca de 4 anos o visitava freqüentemente. Idoso frágil, 85 anos, polimorbidade ,polifármacia, polimédicos. Muito bem cuidado pela esposa e sua filha mais velha.
Toninho sempre tinha um sorriso no rosto, era alegre e gostava de cachorro, era palmeirense e gostava de café e água de coco.
Sujeito gente boa, que graças a Deus, pude ajudar algumas vezes. Insulinizei, prescrevi, desprecrevi, drenei hematoma no cotovelo, encaminhei para operar a catarata…
Estava eu ali mais uma vez. Toninho estava dormindo no sofá. A filha me diz:
– Ele tomou banho para te receber. Mas ultimamente fica cansado por qualquer coisa.
O cabelo estava molhado e seu cachorro deitado a seu lado.
– Então! Doutor só me sobrou você. Fui no cardiologista falei que o pai estava desmaiando. Ele apaga, às vezes só para ir no banheiro. Ele fez um teste. Depois que o papai ficou deitado ao se levantar perdeu os sentidos. Isso acontece frequentemente. Ele disse que a culpa era do remédio da cabeça e os da ansiedade. Disse para conversar com neurologista para ele tirar. Fui no neurologista e ele disse que a culpa era dos remédios do cardiologista, o que faço?
– Temos um diagnóstico de hipotensão ortostática. Deixa eu conferir esses remédios. Esse medicamento é novo eu não conheço muito bem. Deixa eu ver a bula… efeitos adversos…hipotensão. Interessante. Menos um, vamos parar com esse.  Seu pai está bem controlado daquelas crises que ele teve de agitação. Podemos reduzir a dose desse aqui também. Os remédios do coração é difícil mexer, pois a insuficiência cardíaca do seu pai é grave. Ele está com quanto de diurético?
– Ele estava com 4. Liguei para o Cardio ele baixou para 3 ontem depois que o neuro não tirou os remédios.
– Então já deve ajudar. Ele está sequinho olha a perna.
Toninho começou a acordar. Deu aquele sorriso bobo como de costume.
– Estávamos falando do senhor. Eu disse em voz alta, aproximando-se do seu ouvido.
– Bem ou mal?
– Eu estava falando para ela, para a gente tirar um pouco desses remédios o que for possível.
– Graças a Deus! Por isso que eu gosto do senhor.
– Deixa eu olhar aqui as costas. Ele está com os pulmões limpos, podemos manter 3 comprimidos de diurético.
– Ele está me pedindo para eu levar ele para ver a irmã dele doutor. Ela está fraca e ele quer muito vê-la.
– Olha acho que devemos levar muito a sério um pedido desse e fazer o que podermos para realizar.
– É cerca de 3 horas de carro.
– Vamos ver como ele fica esta semana. Se para com essas síncopes e queda de pressão. Acho que uma meia elastica também pode ajudar, até na viagem. Coloca pela manhã nele, vamos ver se ele se habitua…
Toninho ficou bem a semana toda. Também animado para ver a irmã. Viajou e retornou em segurança. Eu o visitei algumas outras vezes até seu falecimento a cerca de 1 ano.
E é com carinho que eu o homenageio neste singelo causo.

Médico cupido

por Luís Vilela

Quarta-feira à tarde, dia de visita.

Saímos eu, a agente comunitária (ACS) e a técnica de enfermagem.

Estacionamos em frente à casa do seu Erisvaldo, que normalmente iria sozinho ou acompanhado da filha ao posto de saúde, era a primeira visita em sua casa. A ACS adianta-me que a vizinha tinha pedido a visita por ele não estar comendo direito e estar muito magro. Uma pinscher nos recebe com latidos na porta. Seu Erisvaldo logo em seguida grita com a miniatura de cachorro: “já para dentro Mônica! Ela não morde, pode ficar tranquilo. Vamos entrar gente! Tudo bem doutor? Quanto tempo! Que bom que o senhor veio!”.

“Tudo bem!”. Adentramos a modesta, mas muito bem organizada casa de madeira. Todos se acomodaram e o seu Erisvaldo com os braços molhados e uma toalha na mão apontava para eu sentar no sofá. Acontece que Mônica me olhava com a cabeça torta em cima do sofá e latia sem parar. Deixei ela cheirar o dorso da minha mão e a safada me lambeu e se enfiou embaixo da minha mão para eu coçar. Ela parou instantaneamente de latir.

– Então Seu Erisvaldo em que posso ajudá-lo?

– Eu estou bem doutor. Mas já que o Sr. veio estou com uma dor aqui no cotovelo. Acho que é de lavar roupa. Esses dias também andei abusando para passar o fio da televisão naquela canaleta ali no teto.

– O Sr. Está morando aqui sozinho?

– Eu tinha me mudado para casa do meu filho em uma cidade a 50km, depois que minha filha morreu.

Aquilo me pegou de surpresa, pois, eu também era médico de sua filha há muitos anos e não tinha tido notícia de seu falecimento. E fiquei ali com um sentimento de pesar e tristeza, Mônica lambeu os meus dedos como que quisesse me consolar.

– Faz quanto tempo que ela faleceu?

– Uns 4 meses, doutor.

– O que aconteceu?

– Ela teve um infarto igual a mãe dela. Você sabe de todo aquele problema dela. Quando ela nasceu e fez a cirurgia no coração os médicos diziam que ela tinha sido a primeira da região a sobreviver a essa doença. Saiu no jornal e tudo.

Lembrei com carinho de Margarete, que faleceu aos 55 anos, das várias consultas, das suas conversas sobre o pai e suas manias, e do seu vasto histórico médico em decorrência de uma malformação congênita.

– O senhor não se adaptou com o seu filho?

– Sabe, doutor, eu não sou homem parar viver em uma edícula. Gosto das minhas coisas e fazer do meu jeito. Lá era tão pequeno que nem consegui levar este sofá.

– Tá certo. Deixa eu dar uma olhada neste cotovelo.

– Eu estava lavando roupa. Deixa eu secar bem.

– Parece que está tudo bem, pode ser de ficar torcendo a roupa mesmo. Acho que poucos dias de anti-inflamatórios deve resolver e alongar este antebraço também vai ajudar. O Sr. está se alimentando bem?

– O povo acha que eu sou muito magro. Mas eu sempre fui assim. Amanhã completo 90 anos. Sempre fui magrelo assim, doutor. Minha neta comprou asse negócio aqui olha: leite ninho. Mandou eu misturar com açúcar. É uma delícia! Comecei a comer demais e já estou maneirando, quando eu engordo não me sinto bem.

Riso de todos.

Saí dali revigorado e impressionado com a energia e disposição daquele homem.

 

A próxima visita era 2 casas acima na mesma rua da recém mudada, mas antiga paciente Dona Florinda.

Batemos a sua porta e o vira-lata caindo aos pedaços chamado Eduardo dá o sinal de nossa presença.

“Ah doutor! Pensei que o Sr. não ia visitar minha casa nova. Moça só fecha a porta se não o Eduardo foge pra rua”, diz ela a nossa técnica de enfermagem.

– Tudo bem, Dona Florinda?

– Tá tudo bem não. Deu uma alergia danada essa mudança, uma tosse que quase jogo meus pulmões para fora. Ainda bem que tinha um resto daquele xarope que o você tinha me dado, senão estava perdida. Tô toda dolorida de arrumar essas tralhas. E essa bagunça? E essa casa que não bate sol direito… O aluguel dá na mesma da outra casa quase. Não sei se tinha que ter mudado…

E no meio de todo aquele falatório eu fiquei pensando na Mônica e no Eduardo, este último deitado ali tranquilamente no tapete da sala, uma epifania! A música do legião, é claro, já ressoava em minha mente. Maktub!

– Dona Florinda! A Sra. tem que fazer um bolo.

– Para que bolo? Endoido é?

– Seu vizinho, aqui duas casas para baixo, faz 90 anos amanhã. Ele mora sozinho. Homem como ele hoje em dia não há. Lava roupa e arruma as coisas. Tem bom humor e está muito bem conservado. É um partidão, Dona Florinda!

Ela caiu na risada. Depois foi ficando sem graça e apareceu um sorriso de canto de boca, um rubor na face.

– O Sr. deu para juntar pelanca agora é?

A ACS parecia muito animada com toda aquela conversa e me solta:

– Ele tem casa própria, a senhora para de pagar aluguel!

Rimos todos mais um pouco. Atendemos as demandas de Dona Florinda. Orientamos que para toda aquela irritação com a casa nova era necessário sair um pouco mais. Ver o sol. E principalmente conhecer os novos vizinhos.

 

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Vamos resolver aqui mesmo

por Luís Vilela

Sexta feira, estavam precisando de médico para fazer atendimento noturno em uma unidade básica de saúde, plano de fazer horários alternativos para atender trabalhadores que não podem em horário comercial. Bom, lá vou eu.

Décima paciente da noite, 36 anos.

– Olá! Em que posso ajudar?

– Então, doutor, ontem fui no UPA e tenho 3 cartas da médica que me atendeu lá:

Primeira: encaminhar neurologia por cefaleia recorrente.

Segunda: solicitar tomografia de crânio por cefaleia recorrente.

Terceira: encaminhar para o psiquiatra por depressão e ansiedade.

Amasso o amontoado de papel formando uma bola e faço uma cesta no lixo a cerca de 2 metros. A paciente ri. Eu penso: ainda bem.

– Então, estou vendo que é casada aqui na ficha. Você tem filhos?

– Tenho 2: uma de 23 e outro de 20.

– Vocês moram juntos?

– Sim, tem mais uma neta. Minha filha se separou recentemente.

– Seu marido trabalha de que, tudo bem no casamento?

– Ele é pedreiro. Está tudo bem, ele não para em casa, é muito trabalhador.

– E você trabalha de que?

– Eu trabalho de auxiliar de cozinha. Sabe doutor eu sempre fui ansiosa. Mas piorou no último mês no trabalho.

– Por quê?

– Por exemplo: A gente tem que começar a colocar na mesa por volta das 10 horas. Eu fico muito ansiosa. Não pode atrasar.

– E às vezes você sente batedeira no coração? Tremor?

– Às vezes tenho esses negócios aí.

– Você chora fácil?

– Choro. Mas fala com um sorriso no rosto e tem olhos vibrantes.

– E chora por quê?

– A não sei doutor. Sou manteiga derretida. Choro às vezes e nem sei o porquê.

– E você está triste?

– Às vezes fico triste.

– Tem pouca vontade de fazer as coisas?

– Faço tudo normal.

– E essa dor de cabeça, como que é? Onde é?

– Aqui na nuca. E aqui na testa um pouco. Piora quando eu fico mais estressada. Como um aperto, uma coisa ruim.

– No final do dia é mais comum?

– Acho que sim.

– Faz tempo que foi no oftalmologista?

– Uns seis meses, mudou pouca coisa no meu óculos.

– Dá vontade de vomitar ou sente mais alguma coisa junto com a dor de cabeça?

– Não.

-Hummm … Tempo para reflexão. O que mais? Você está dormindo bem? Tem algo a mais que queria falar.

– Às vezes tenho insônia. Quando fico preocupada. E estou com pouco apetite.

Hummmm

– Acho que tenho 3 boas notícias: Você não precisa de nenhuma daquelas 3 cartas. Acho que precisa de alguém que entendesse um pouco o contexto da sua vida, isso pode levar um pouco de tempo que é difícil em uma unidade de urgência.

– Que bom. Mas o que eu tenho?

– Me parece um quadro depressivo e ansioso leve, que tem relação com a dor de cabeça que é do tipo mais comum chamada de cefaleia tensional.

– Acho que é isso mesmo.

– Que bom que você concorda comigo. Isso facilita o tratamento.

Às vezes mudança no estilo de vida já resolveria o problema. Duro que eu estou aqui só de quebra galho então não consigo te avaliar em um retorno.

– Você não tem consultório particular?

– Não tenho. Não sobra tempo. Sorrio feliz de ver o ganho da confiança.

– Não têm algum remédio que pode me ajudar nesses sintomas?

– Tem várias opções. Vou prescrever um para tomar a noite. Acho que em 3 semanas estará bem melhor. Depois volta aqui neste posto mesmo. Se tiver boa resposta seria interessante manter a medicação por no mínimo 6 meses após a melhora. É comum sentir boca seca com esse remédio, também pode te deixar um pouco ressecada. Por isso quero que tome mais água, mais frutas como mamão, ameixa e laranja e seria muito interessante que fizesse atividade física pelo menos 150 minutos por semana.

– Qual atividade física?

– Pode ser uma caminhada 30 minutos 5x por semana. Pode ser andar de bicicleta, academia. Pode ser uma combinação dessas atividades um dia você caminha outro vai na academia, por exemplo. Enfim, principalmente achar uma atividade que você goste e fique animada. Vários benefícios da atividade física, pode propiciar um sono melhor, prazer, melhorar o intestino, descarregar as energias de um dia a dia difícil. Então só não pode ficar parada.

– Obrigada.

– De nada!

Por enquanto não tinha novos pacientes para atender. Tranquilo ali, pego um copo de água. Vou até a recepção para ver o pessoal. Tudo tranquilo e vazio. Acho que esse pode dar um causo, penso no silencio do consultório. E começo a escrever no bloco de notas do celular.

Cãibras

por Luís Vilela

Quinta feira. Entra na sala já conhecida paciente de meia idade com histórico de câncer de mama, leucemia e insuficiência cardíaca bem controlada.

– Em que posso ajudar?

– Ah doutor, são 3 coisas. A primeira é que estou meio surda. A segunda que eu não consigo dormir. Nunca tive cãibras tão fortes! Tenho espasmos dolorosos no meio da noite principalmente nas pernas. E também acho que preciso de alguns exames.

– Então vamos por partes (levanto e examino o conduto auditivo preenchido por cera e um pouco besuntado). A senhora colocou alguma coisa aqui?

– Aquele óleo da farmácia. Faz uns 5 dias.

– Podemos lavar, então. É cera mesmo. Pode ser hoje à tarde? As meninas (enfermeiras) vão preparar o material.

– Pode ser doutor.

– Agora esse negócio da cãibra às vezes é difícil o diagnóstico.

– Acho que é difícil mesmo porque você já é o terceiro para quem reclamo. O oncologista e o cardiologista mandaram comer banana, verdura verde escura e nada. Não sei se eles me escutaram muito, pois era no final da consulta que eles viram outras coisas.

– Quais os remédios que a senhora está tomando?

– O do câncer de mama, da leucemia e os da pressão.

Revejo o prontuário: usava de suplemento de cálcio e vitamina D por osteopenia e pelo uso do anastrozol (medicamento para o câncer de mama que pode interferir no metabolismo do cálcio).

Coloco o aparelho de pressão em seu braço e digo que deixarei por 3 minutos para ver se desencadeia uma crise. Em cerca de 2 minutos e meio sua mão se curva em uma crise dolorosa. Sinal clínico de nome bonito, como outros tantos na medicina, este se chama Trousseau.

Trousseau

– Ai doutor! Acho que é isso que acontece.

– A senhora não está usando o cálcio?

– O meu cardiologista suspendeu. Disse que o cálcio fica nas artérias.

– As cãibras começaram após parar com o cálcio?

– Agora que o senhor falou, sim.

Deixo escapar um sorriso. Momento Doctor House no posto de saúde. Faz aquela massagem boa ego, mas a gente gosta mesmo é de gente e que me deixa mais feliz é quando o diagnóstico traz ajuda para o paciente.

– O que foi doutor?

– Eu achei que seria mais difícil, mas nós matamos a charada. Acho que a senhora tem tetania que são estes espasmos por falta de cálcio.

– Mas e agora o que eu faço?

– Volta a tomar cálcio mais vitamina D acho que teremos bons resultados.

– E o meu cardiologista. Ele meteu medo em mim.

– Olha, ele está certo quando diz que o cálcio faz parte do processo de arteriosclerose, se pensarmos só no sistema cardiovascular. Mas, se pensarmos na senhora, que não dorme por conta dos espasmos, que usa medicamento que pode contribuir para o problema e que, infelizmente, não podemos suspender até completar 5 anos do tratamento do câncer de mama, e que isso tem afetado sua qualidade de vida significativamente, acho que o benefício supera os riscos em muito. O que você acha?

– Acho que se eu ficar sem as cãibras concordo contigo.

– Então fechou: Aqui estão seus exames, e a receita de oxalato de cálcio e vitamina D para tomar 3 vezes por dia. Quando voltar para me trazer os exames me conta como foi e se melhorar significativamente podemos reduzir a dose.

A lavagem de ouvido à tarde foi um sucesso.

Ela volta 2 semanas depois:

– O senhor é um mágico! Nunca ninguém acertou tão em cheio!

Ego massageado mais uma vez… Ah vá! Quem não gosta?!

– Que bom! Aquele sorrisão, que não consegui esconder.

-A segunda noite já dormi a noite inteira. Eu estou tão bem que reduzi por conta a dose. Estou usando 1 comprimido só. Ainda estou assustada com aquele negócio que pode entupir as veias, que o cardiologista falou. Mas, mesmo assim não voltou, continuo bem.

– Sabe, o cardiologista tem um pouco de razão, muitas pessoas tomam esses suplementos sem necessidade, e correm risco desnecessário. O que não é seu caso, que tem uma prescrição médica. Eu reduziria para 2 comprimidos por dia.  Temos que pensar na osteopenia também, que deu naquele exame de densitometria que a senhora fez há algum tempo.

– Eu entendi doutor, mas ainda tenho receio.

– Tudo bem vamos observar se voltar às crises começa dois por dia. Mantemos pelo menos 1 todo dia. Mais para frente temos que repetir a tal densitometria, ela pode mudar o tratamento e a dose.

– Tudo bem! Disse com satisfação, acho que por participar da conduta.

Os exames foram vistos. As orientações feitas. E o cuidado continua.

O peso das emoções

por Luís Vilela

pesodasemoções

Quarta-feira, final de tarde, as notícias não eram animadoras no grupo do WhatsApp da unidade de urgência. O plantão estava com desfalque médico na parte da manhã e da tarde. Chego a unidade de pronto atendimento, as 19:00hs e me batem nas costas, dizendo: “boa sorte! Você vai precisar…” “Está preparado?” (Sou um cara de sorte e nasci preparado, então estou de boa) Pelo menos a noite estávamos com a escala completa. Encontro um “bolo” de fichas, o primeiro paciente que chamei tinha dado entrada às 10 da manhã (Hoje à noite vai ser longa…). Empenhado em dar dinâmica aos atendimentos chamo os pacientes o mais rápido possível e, como de costume, observo a equipe comprometida em atender aquelas pessoas que já aguardavam há tanto tempo. Perto das 21:00, leio a pré consulta da enfermagem: “vômitos, pós operatório de cirurgia bariátrica”.

Na minha mente vieram várias hipóteses de complicações decorrentes da cirurgia, (falta de vitaminas, fístula¹, estenose²). Entra em minha sala uma senhora com aproximadamente 50 anos, sem obesidade. Ela se senta e logo diz:

-Doutor, não queria incomodar, sei que hoje está muito cheio, mas eu não consigo mais aguentar. Tenho vomitado, principalmente depois que como.”

– Há quanto tempo você fez a bariátrica?

– Há um ano.

– E quantos quilos você perdeu?

– Perdi 60 quilos.

– Há quanto tempo você começou a vomitar?

– Cerca de um mês e meio.

-Isso já tinha acontecido antes, depois da cirurgia?

– Não.

– Entendo. (Tem algo há mais aí, deixa ela falar)

– Eu ando muito nervosa, a minha mãe morreu há dois meses, disse com lágrimas nos olhos. (Eu sabia)

Levanto e pego papel para enxugar suas lágrimas.

– Depois que minha mãe morreu, meu pai me escolheu para cuidar dele, hoje ele mora comigo. Meu pai dá muito trabalho, ele é dominador e fica mandando em mim o tempo todo.

– Entendo. (E o que mais?)

– Acho que eu tenho saído da dieta um pouco. (Danadinha.)

– Você tem chorado muito ultimamente?

– O tempo todo… Não tenho paciência para meu pai e suas reclamações me afetam muito.

– Quando você tem retorno com seu cirurgião?

– É daqui duas semanas. Você acha, doutor, que isso pode estar me afetando?

– Eu acho, sim.

Convido-a para deitar na maca para realizar o exame. Os dados vitais estavam normais, os olhos eram tristonhos, o excesso de pele evidenciava a grande perda de peso, o abdômen era flácido. Ela não tinha dor, não tinha náusea ou outras queixas naquele momento.

– Estou aqui pensando como posso te ajudar. Parece que está tudo bem com a cirurgia, mas a dificuldade pode estar no relacionamento com o seu pai e nas atribuições do papel de cuidadora.

– Eu preciso de uma coisa para me ajudar, não quero descontar as coisas na comida, nem posso mais. Não consigo mais.

– Não costumo iniciar alguns medicamentos aqui na urgência, mas vou abrir uma exceção no seu caso, pois, acho que vai te ajudar nos seus sintomas. Você precisará de acompanhamento com o seu médico de referência.

– Ah doutor, eu agradeço! Acho que eu preciso mesmo. Quando eu passar com meu cirurgião, também tenho consulta com a psicóloga.

– Não falte a consulta. Você tem irmãos?

– Comigo são 12 irmãos.

– Acho que você poderia conversar com seus irmãos para compartilhar os cuidados com seu pai. Se são 12, em um ano da um mês para cada. Risos.

– É verdade, doutor, disse ela sorrindo. Mas ele que me escolheu… Vou conversar com eles, não aguento mais. Muito obrigada mais uma vez.

Saiu com um semblante mais vivo e decidido. Eu respirei fundo… A porta entreaberta mostrou uma fila que serpenteava na sala de espera. Hoje a noite vai ser longa…

1 – Fístula = canal patológico que cria uma comunicação entre duas vísceras (fístula interna) ou entre uma víscera e a pele (fístula externa).

2 – Estenose = estreitamento patológico de um conduto, canal ou orifício.

Hoje não tem injeção!

por Luis Vilela

Leio a pré-consulta:
Criança de 5 anos com tosse seca  iniciado há 2 dias e 1 episódio de diarreia líquida hoje.
Chamo o paciente que começa a chorar compulsivamente.
Ele entra aos trancos e barrancos segurado firmemente pela mãe.
– Ou você se comporta ou o médico te dará uma injeção.
– NÃO POR FAVOR! EU NÃO QUERO! UhhhhhAHHH!
– Eu já falei que você vai ganhar uma injeção! Não quero ouvir mais um pio.

Eles entram. O garoto me dá uma olhada fugaz. Naquele dia estava de camisa xadrez e calça jeans e com estetoscópio no pescoço que me apresso a colocar na mesa.
Ele segurava na perna da mãe, que parecia impaciente e cansada.
Agachei ao seu lado e disse:
– Hoje não tem injeção!
– Não?
– Eu prometo que não vou fazer nada que vai te machucar. Quero te apresentar meu amigo o Senhor Palito:

Sr. Palito

O garoto ainda estava desconfiado mais o Senhor Palito o acalmou e chamou sua atenção.
– Antes de você ir embora vou te apresentar meu amigo Pica Pau. Tudo bem?

O exame ocorreu bem. O Senhor Palito me mostrou uma amígdala normal. A mãe mais aliviada me contou que o pequeno flamenguista não teve febre, não teve sangue ou muco nas fezes.
Então eu lhe apresentei meu amigo Pica Pau:

Pica Pau

– É meu?
– É seu.
– Obrigado moço.
– De nada!
A mãe agradece. Fala que não irá mais ameaça-lo com injeções.