Gracias a la Vida

por Leonardo Savassi

A vida é feita de imprevistos. Tudo no papel fica bonito, mas é difícil transformar o papel em realidade. Foi o que aconteceu. O papel dizia que teríamos motorista para nos levar à zona rural. Isto realmente aconteceu nas primeiras semanas. Mas foi só. De uma hora para outra o prefeito nos avisou que não havia mais como disponibilizar o motorista, e que, já que tínhamos carteira, seríamos nós os nossos próprios motoristas. Já conhecíamos o caminho, e sendo assim, era só pegar o carro e ir.

Chegamos a ensaiar uma paralisação nas atividades rurais, porém sabíamos que tínhamos pouco tempo pela frente e uma população vítima da desorganização do serviço. E assim foi feito. A prefeitura então se comprometeu a fornecer um carro. Nos deparamos com uma ambulância Elba adaptada, pneus mais carecas que o Roberto Carlos jogador, e que cantavam nas curvas mais que o Roberto Carlos compositor. Aquilo podia ser chamado de tudo, menos de carro. Mas fomos mais uma vez corajosos.

Itabirito tem três distritos: Acuruí, São Gonçalo do Bação, e São Gonçalo do Monte. Para ir a São Gonçalo do Bação, pegamos a estrada de terra apenas uma vez, gastando mais de uma hora de viagem e com duas certezas: a primeira é que iríamos nos perder algumas vezes, e a segunda é que com chuva, o rally seria uma opção fatal.

A estrada de Acuruí, que dava acesso também ao posto de saúde de Bonsucesso, ao contrário, era boa, larga, e fazia parte de um piloto ecologicamente correto, com cálculo de inclinação e saídas para a enxurrada. Já a estrada de São Gonçalo do Monte, que passava pela unidade de Córrego do Bação, era estreita, mas trafegável. O caminho, agradável, nos revelava igrejas seculares e natureza ainda pouco explorada.

Numa destas viagens a São Gonçalo do Bação, a última que fizemos em conjunto, optamos por trafegar pela 040, já que ganhávamos no mínimo 20 minutos e não tínhamos como nos perder.

Pois bem, a opção desta vez foi Mendes dirigir a ambulância e eu tirar o tradicional cochilo, embalado pelas curvas da estrada de Itabirito e pela suavidade do asfalto. Ledo engano. Na melhor reta da estrada, Mendes pisa fundo e a Elba chega a fazer inacreditáveis 115 km/hora, algo inimaginável para aquela pobre estrutura enferrujável.

Foi quando o cômico quase se tornou trágico: ao passarmos por um caminhão que vinha em sentido contrário, todo o desalinhamento e desbalanceamento do veículo vieram à tona, e a ambulância literalmente balançou no meio do asfalto. Pausa de cinco eternos segundos. O primeiro som que ouvi foi o gargalhar nervoso de Mendes, repetindo quase histericamente: “Ce viu isso? Ce viu isso?”.

Não respondi. Na minha cabeça, estava morto. Tive literalmente a sensação de morte eminente. Poucos sabem o que é sentir um carro em movimento balançar nesta velocidade, deitado em uma maca. Pareceu-me que o chão – no caso a maca – tinha sumido abaixo de mim.

Pálido, trêmulo, cheguei à localidade e pedi ao colega que iniciasse os atendimentos, pois eu precisava tomar um ar. Parei, olhei a bela paisagem montanhosa, e lentamente fui voltando à realidade. Estava vivo, isto era o importante.

Entrei, sentei, e chamei o primeiro paciente do dia. Comecei meus atendimentos. Ao final do dia, além de darmos graças pela vida – quase cantando a música de Joan Baez – saímos com a ligeira impressão de que o nome “Bação”, dado a região, fazia algum sentido: o índice de esquistossomose da região nos pareceu extremamente alto.