Coroadinho

comunidade
Hoje foi meu último dia em São Luis, e trabalhando no Coroadinho, segundo o IBGE, a quarta maior favela do Brasil, com 54mil pessoas.
Quando a gente quer um motivo para ficar angustiado e sentir pressa, sempre encontra. Há quem viva assim. Eu vivi esse ano no Maranhão e até sou tranquilona. Mas esses dias eram a véspera do término de contrato, de vencimentos, de achar um mecânico confiável, uma transportadora, e não perder a chegada daquelas castanhas de caju torradas e sem sal pra levar à São Paulo. Eu tava impaciente, querendo sentir urgência.
Ela deve ter percebido. Na dita favela do Coroadinho. Comunidade. Ela, minha paciente, tem 57 anos, é mulher, 3 partos vaginais espontâneos, trabalhos informais, diabetes gestacional, Maranhão na era Sarney, sobe e desce ladeira do morro São Sebastião, netos, ex-maridos, já jogou tarrafa. Bumba boi demais, Arremaria! Foi buscar a caixa de som que o vizinho furtou e trocou por pedra. Subiu na biqueira com os moleque, voltou com a caixa.
Água de berinjela, arroz de cuxá, cozidão com osso, vinagreira. O que essa mulher não sabe?!
É de gêmeos também, eu reparo mas não digo.
Carimbei a receita da Farmácia Popular, ela fez que ia mas não foi, na cadeira ficou, e lançou:
-Tu é bem assim do tipo que deixa saudade, Dra Giulia.
– Vixi!
-É.
-Ta com saudade? Eu disse que vou embora?
– Não. Você vai, Dra? É o seu jeito. Dá saudade.
*
Deixar saudade é um privilégio.
Eu tenho saudade do cheiro do pescoço do meu irmão, das mãos gordas da Vó Niria. Do Nono Maximino. De conversar com o Lucas, contar minhas histórias para a Tia Rita e a Tia Ana. Ser abraçada pela Laura, dividir um paiêro e segredos com a Bruna, um pandeiro com o Rubinho, uma casa com a Vi, e uma cerveja de cúmplices com a Amanda.
Eu não tenho nenhuma saudade da escola, das angústias que se tem aos 14, reverberam até os 24, e agora desapareceram. Eu tenho saudade do que me traz prazer, conforto, das coisas bonitas que são boa parte da mulher que lutei para ser.
Deixar saudade chega a ser um fardo, como o é possuir alguns privilégios.
Eu não disse à paciente que a recíproca é verdadeira, pois toda vez que isso é dito soa a mim como ouvir “eu também” após dizer “eu te amo”.
Parece que amar também não funciona. Amar, sim. É coisa minha.
Na Comunidade do Coroadinho e na Cidade Operária deu para amar, sim.
E conhecer a dureza e a privação que a Academia discute, e a Sociologia explica, e que a grande maioria das pessoas com quem convivo e convivi fora do trabalho, e desses teóricos todos, não conhecerá. Deu para duvidar da existência de Deus, e ter uma certeza revoltada de que a vida das pessoas pode ser miseravelmente desesperadora e superexplorada.
Tem tanto Amor na vizinha que pega as criança pra criá. Hiperglicemia e diabetes depois do abandono e da traição. Hipertensão no desemprego.
Doença de cachorro em crianças que tem que chamar de casa um barraco insalubre onde um cachorro, podendo fugir, não ficaria.
Depressão no filho que a PM matou.
Medo nos que ainda matará.
Toque de recolher, briga de facção.
Aborto, diagnóstico de HIV, sífilis, hepatite, metástase, diabetes, demência.
Gestantes de 14 anos. Um dia na agenda da semana dedicado apenas aos muitos pacientes com Hanseníase e Tuberculose em tratamento ou recém diagnosticados. Leishmaniose de livro? Teve também. Nas pessoas.
A letra bonita foi tão pouco entendida quanto a feia. A maioria dos maiores de 50 anos não sabe ler. Caprichar na prescrição sempre foi falar.
Deu para ser mais feliz.
Mais angustiada, acessível.
Muito menos burocrática e formal que a médica que eu já pensei ser.  Tentei ser resiliente e paciente.
Fui “Dra Bonitona”, haha.
“A paulista”.
“Guiulia”, “Goêlia”, “GIRÚLIA”.
“Estrangeira”.
“Feminista”.
“A médica que dá bom dia”.
“A novinha”.
*
Cuidar foi natural, urgente e instintivo. Simples, básico.
Outras tantas vezes foi complexo e me vi cheia de dúvidas e envergonhada.
Ser médica, branca, paulista e usar jaleco oprime. Deu para tentar ser o menos opressora possível, ainda em treinamento.
Eu quis ser mãe com bebê no colo de segunda-feira. Eu nunca mais quis ser mãe no aborto por negligência do Hospital de referência.
Quis cuidar de grávida menina e ser ginecologista. Acordei psiquiatra, assinei o ponto, e fui embora infectologista. Dormi pediatra, ou deixei de dormir de plantão na emergência.
Deve ser hora de estudar e aprender a ser Médica de Família e Comunidade, pois.
Maranhão, São Luis, Coroadinho, grandes amigos que reconheci aqui, e minhas centenas de pacientes já são, de várias formas, e por tanta vivência e intensidade, “bem assim do tipo que deixa saudade”.

Na ocasião de um dia internacional da mulher

por Giulia Balbão

Tem uma frase da Alice Ruiz, maravilhosa, bem assim: depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco. ❤

Ela faz todo o sentido diante da história que segue… observe.

“Na sexta passada eu acordei assustada, acendi a luz e vi que eu  estava sangrando muito, Dra Giulia… já era tarde da noite, eu fui ao pronto socorro da maternidade e o médico me passou remédio para dor, e me disse pra ir embora. Eu não queria ir embora sangrando tanto, eu não estava com dor! Ele não me examinou, ele nem me olhou. Sai de lá, minha família me emprestou dinheiro, e fiz um ultrassom particular, cedinho: meu filho tinha batimentos cardíacos normais. Eu voltei ao hospital para mostrar o exame, pois eu continuava sangrando, estava me sentindo fraca, e lá outra médica me disse: ‘se isso for um aborto, lá na sua casa você espera isso sair. você não tem critério para ficar aqui.’
‘Isso’, Dra?”

E fez uma longa pausa, chorando, com a mão na barriga magrinha.

“No outro dia, com muita insistência, e eu ainda sangrava, consegui ser atendida em outro hospital, depois de horas. Ao ser examinada pela primeira vez em três atendimentos, ele me avisou que eu estava expelindo ‘isso’: o meu primeiro filhinho.”

Foi a primeira consulta daquele dia. Dia de pré natal. Resiliência, Giulia.

Foi um pré Natal cuidadoso, ela não perdia uma consulta, conversava bastante, tinha todos os exames e vacinas. Passava a mãozinha pequena com satisfação na barriga, mesmo no início, quando a barriga ainda nem aparecia. Diz que não fuma, não bebe. Não usou medicamentos e outras drogas, não caiu da escada, não foi atropelada. E eu acredito..
Não teve febre, mal olhado, zika, raio, enchente. Azar, talvez…

Porque é mulher pobre. E mulher pobre nesse país sofre de uma catástrofe chamada negligência.
Existe violência obstétrica para mulher rica. Para pobre você acha que tem o que?

Primigesta. Para ela já era filho, já tinha nome, tinha berço, tinha mãe da mãe querendo ser avó.
A grávida queria parir.
Teve que expelir.

A mulher nesse país realmente não pode escolher interromper sua gestação, legalmente e amparada.
Se aborta é incriminada, e punida. Vão dizer que faltou religião, educação, amor. Opinião alheia não faltará. Pastoral, igreja, polícia, militantes pela vida não faltarão. Vai ter algema, camburão, vai ser avaliada por profissionais da saúde mental.

Se tem sua vida e a vida de seu filho negligenciada pelo sistema de saúde sucateado, lotado, moroso no atendimento à urgência, e/ou pelo profissional condecorado com o título de especialista, e então tem sua gestação interrompida, é o que?! Não tem pastoral nessa hora. Não tem camburão, não tem ninguém para dizer que faltou amor, que faltou educação, religião. Não tem psicólogo, terapia.
Nessa hora tem uma mulher voltando para casa de circular, sem filho, acordando cedo para conseguir um encaixe e chorar essa mágoa inteira para “a médica do posto”.

E se a médica do posto contar para vocês, há quem dirá que ela está acreditando muito na histeria e negação de uma mulher pobre e revoltada. Que essa história é só um exagero.

Isso tudo é só para lembrar que depois de amanhã eu não quero flor nem esse tipo de exagero. É difícil lidar com ele.

Eu quero autonomia em relação ao meu corpo de mulher. E quero que minhas iguais sejam respeitadas, bem como suas vontades e necessidades de saúde.

Esse texto não quer te convencer de nada. Esse texto sou eu dizendo que como mulher eu quero poder escolher, e quero que minha paciente não seja negligenciada, e escolha.

Banana da terra

por Giulia Balbão

Era pra ser só mais uma sentada de 40 minutinhos na São Francisco, aquela linha do busão. R$2,60. Motorista sangue bom, cobradora já ta começando a sorrir para mim. Corta a feira-do-fim-de-tarde, bate aquele cheiro de banana, Jussara e Tambaqui.
Mangue com Açaí.
Meia dúzia bate na lataria pra zabumba parar. Momentos de tensão.
Revolta bolchevique, pensei! haha Antes fosse mesmo! Haahaha “Êita, Ribamar, tu é doido, merrrrmão?! Pare pra Joseli!”-  A cobradora volta a lixar a unha.
E eu quase-sou da comunidade: “corre fia, pega lá o lugar do lado de Doutora Giulia!!”
-Oi. E aí? Cê ta bem?
-Que sorte te encontrar, Dra! Tô boa, boa! Tô fazendo dieta. Tu fica bonita com essa calça estampadona.
-Obrigada.
-Eu tava para baixar lá no postinho. Sabe a lista que tu fez daquilo que diabético tem que por menos no prato?
-Sei
-Juliana molhou é tudo. Perdi. Macaxeira entra?
-Ah, sim, você tem que pensar que ela faz parte do grupo dos carboidratos, lembra? Não precisa lembrar dessa palavra mas eles…………….. e blablablablabla, batata, melado, bêiju! E não esquece também que… blablablablabla tira aquele monte de açúcar do cafezinho que eu lembro que você toma demais!
Silêncio no fundo do busão. Os que estavam perto já estavam virados me ouvindo. Só se vê bem com os olhos da cara mesmo. O essencial é visível aos olhos: reduzir os carboidratos e fazer exercício. Pausa nos arranques do busão. Tinha virado palestra. Duas ou três perguntas, com os dedinhos levantados, esperando a vez. A parada tava organizada demais. É boa a acústica do fundo do circular. Emocionei, até.. mas ninguém percebeu. Nos pontos principais sobe um, desce outro, mas a maioria vai pro ponto final.
-Cheguei no meu ponto. Nossa conversa não acaba aqui, gente. Foi um prazer. Depois a gente conversa mais. Tchau!
Eu pulei fora, e ouvi um grito antes do busão arrancar:
-DOUTORA! Eu ôvi tudim mas vô levar banana da terra boa de comê, de fritá, pra tu amanhã!!Só não pode por farinha né?!
E gargalhou.
Fiz tchau e ri.

Meu trabalho é amor. Amor. Mas ai de Seu Ferreira se não me levar essas bananas amanhã. ❤️