Pequenos fragmentos de rotina

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por Fabricio Mattei

Já infartou três vezes e tem pressão alta. Recita os diversos medicamentos que usa:
“…AAS, sinvastatina e metoprolol.”
“Mais alguma coisa?”
“Ah, e omeprazol né? Que os médicos disseram que eu tenho que usar porque tomo muito remédio.”
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Mulher de dezoito anos, veio para consulta de pré-natal.
“Aquele é o pai? Ele não quer entrar junto na consulta?”
“Não, doutor. Acho que ele prefere ficar ali conversando com o amigo dele.”
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Servente de obras com dor no ombro e formigamento nas mãos.
“Se eu ficar uma semana parado, eles colocam outra pessoa pra trabalhar no meu lugar. Vou ter que suportar só com os remédios mesmo…”
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Hoje veio por dor de barriga. Semana passada, enxaqueca. Há duas semanas, ardência para urinar.
“Vi aqui que, só neste mês, é a sexta vez que tu consulta…”
Me olha desconfiada.
“Às vezes é o nosso corpo mostrando que alguma coisa não está bem,” digo.
Pensa um pouco e a cara muda.
“Sim… É o meu trabalho. Está uma porcaria. No outro eu ia trabalhar até quando estava mal. Mas neste não dá… E o pior é que não posso sair, porque preciso do dinheiro, e está difícil de conseguir alguma coisa, né?”
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Outro pré-natal; diarista com fortes dores nas costas.
“Não contei pra nenhum dos meus patrões que estou grávida. Tenho medo que não vão me querer mais, e meu marido está desempregado. Fora que é problema meu, não era pra eu ter engravidado. Que culpa eles tem?”
Converso sobre os benefícios de alguns dias de repouso.
“É complicado. Por exemplo, em uma casa que eu vou três vezes por semana, a patroa também está grávida, e eu não posso deixar ela na mão né?”
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Mulher invade o consultório solicitando receitas dos mais variados remédios para a mãe, que está presa. Vários são de uso não contínuo e sem registro no prontuário (pede até mesmo antibióticos).
“Não tem como tu entender, doutor. Tu nunca vai puxar cadeia.”
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“Minha alucinação é suportar o dia a dia;
Meu delírio é a experiência com coisas reais.”
Belchior, Alucinação
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Surpresas

por Fabricio Mattei

Era um dos meus últimos meses de residência médica. Já enfrentava a difícil tarefa de me despedir de algumas pessoas atendidas ao longo daqueles dois anos, com quem tinha construído fortes laços. Minha intenção, naquele período, era não me apegar a novas situações para as quais não poderia dar seguimento. Mal sabia eu que isso era impossível.

Perto do fim de uma manhã daquelas bem corridas, um novo boletim entrou na fila do acolhimento. Todos os estagiários já estavam ocupados, então resolvi eu mesmo atender (eu estava responsável pela sua supervisão, naquele dia). “Coisa rápida”, alguém comentou. “Apenas o resultado de um Beta-HCG”.

Antes mesmo que pudesse chamá-la, outra profissional da equipe me puxou para um canto. “Acho que é positivo. Fabricio, ela já tem cinco! Está desesperada!”. Sem querer, começava a me preocupar. “Tu nem imaginas as condições da casa…”; Todo o tipo de imagem passou pela minha cabeça, baseadas em outros casos teoricamente semelhantes com que já havia me deparado. Chequei o exame, já disponível no sistema eletrônico e efetivamente ali constava: “Beta-HCG: >10000 mIU/ml”. Positivo.

Quando chamei Daiana, não me surpreendi com seu rosto maltratado, trinta e dois anos que valiam muito mais. Seu nervosismo era evidente, contudo, e sem dúvida me contaminou. Algo me dizia que a notícia poderia não ser bem recebida, e de fato isso causava um considerável grau de apreensão. Perguntei, como se não soubesse a resposta: “Como posso lhe ajudar hoje?”. “O resultado do exame, doutor”, disse, impaciente. “O que você acha que vai dar?”, perguntei, poucos milissegundos depois me questionando por que diabos não acabava com aquela tensão de uma vez. “Positivo”, balbuciou. Ao responder, olhava atentamente em meu rosto, e percebi que confirmei sua suspeita antes mesmo de formular as palavras. Com um leve movimento de cabeça, concordei: “Exatamente”.

O que se passou nesse momento é extremamente difícil de descrever. Não identifiquei nela a frustração que esperava encontrar. Lágrimas e gargalhadas se juntaram em uma única expressão que, ao menos na língua portuguesa, é órfã definições. Ela tentava organizar o pensamento enquanto eu buscava um lenço de papel para enxugar sua face. “Pode vir, doutor. Pode vir. Vai ser muito bem criada, como todos os outros. Vou dar o meu melhor pra ela, pode acreditar. A Jéssica, minha mais velha, de dezesseis, foi morar com o namorado, então sobra um espacinho. Aliás, essa é outra que vai aparecer grávida por aí um dia desses”. Curioso sobre o tratamento no feminino, ouvi: “É menina, tenho certeza. Mariana.”

Suas frases eram entremeadas por soluços e gargalhadas. Pela primeira vez, nos dez anos que se passaram desde a entrada na faculdade até ali, minha frieza tantas vezes imposta (ou seria auto-imposta?) cedeu sem resistência. A água correu pelo meu rosto, assim como fazia no dela. E não senti nenhuma necessidade de me opor a esse evento sem precedentes em minha experiência. Por alguns segundos, fizemos apenas isso: choramos e rimos em conjunto.

Dei início ao pré-natal, e a vi ainda algumas vezes antes do fim da residência. Gostaria de pensar que passar o atendimento para outro médico foi tão difícil para ela quanto foi para mim, mas acho pouco provável. O vínculo – aquele que eu queria evitar, lembram? – insistiu em ser uma via de duas mãos, e me alcançar quando eu menos esperava. Foi um momento inesperado de vulnerabilidade compartilhada. E uma marca que ficou.

A Trama e o Desenlace

por Fabricio Mattei

Reviso o prontuário. Idade: trinta e dois anos. Na sala de espera, apenas uma mulher aparentando no mínimo cinquenta. Indeciso, chamo pelo nome. Ela própria, não há engano. Mal senta, as lágrimas já iniciam, desde o princípio acompanhadas de pedidos de desculpa. “Por aqui ninguém me escuta. Dizem que sou louca.”
Sua história é dolorosa, porém tristemente familiar: pais biológicos que nunca conheceu, pais adotivos negligentes. Primeiro abuso aos doze anos. Foi quando começaram as vozes. Acordava no meio da noite com medo dos invasores na cozinha – que nunca estavam lá. Quatro filhos, dois maridos, diversos endereços e empregos depois, agora em minha frente, desaba: há duas semanas a filha de quatorze anos acusou o padrasto de tentar violentá-la e fugiu para a casa do pai. A mãe, contudo, decidiu ficar com o marido “até sair o resultado do exame”. Os vizinhos a acusam de conivente, e proibiram seu trabalho na cooperativa de reciclagem. “Imagina, doutor: nunca deixou faltar nada. Mas se for positivo, vou embora na mesma hora.” As vozes progressivamente se tornaram insuportáveis, a ponto de buscar ajuda.

Situações semelhantes se sucedem, às vezes ao longo de um mesmo dia. Presenciar dois homicídios e uma invasão policial na própria casa. O filho morto em disputa entre facções. O marido preso na semana do parto da primeira filha. Pessoas que experienciam em um mês mais estressores que os presentes em toda uma existência. Na periferia de Porto Alegre (como de todo o país) a reação de luta ou fuga é o estado natural. De que ferramentas disponho para enfrentar as marcas deste processo, além da intervenção química – com suas limitações?

Sou homem, branco, de classe média alta. Podem fracassar todos os meus projetos de vida, e ainda assim estarei a quilômetros de distância dessa realidade. Dizer que é possível alcançar uma empatia autêntica talvez seja hipocrisia. O resultado final, muitas vezes, é somente pena. Tristeza. Impotência. Se esforçar para isso, todavia, pode ser um passo para oferecer alívio à pessoa que procura ajuda – é o que tento convencer a mim mesmo. Se não há possibilidade de êxito, o processo em si ganha maior relevância. A interação de uma consulta vira um fim em si mesma. Um enorme caminho; um destino minúsculo. Me recordo de uma canção de Jorge Drexler: “Ir y venir, seguir y guiar, dar y tener, entrar y salir de fase. Amar la trama mas que el desenlace.”