Fé no Cuidado

medicos-e-burnout-coracao-vivo-786x319

por Carolina Reigada

Eu tenho andado desanimada com a medicina. Já vinha há uns meses, aí quando um paciente (cujo causo ainda escreverei) me falou que “médico e remédio é tudo tapeação”, eu concordei com ele. Muito. Meu coração concordou muito com ele.

Vejam, ser médica ou médico de família e comunidade não é fácil. Você está sempre contra a corrente. Você é aquele que repensa o remédio, diz que o exame não precisa e, muitas vezes, trabalha no posto de saúde do bairro e fica conhecido como o “médico do postinho”.

Com todo o PESO que ser o cara do “postinho” traz, sabe? Médico de família e comunidade é um especialista, sabiam? Ele faz residência que nem o cardiologista, o pneumologista, esses “istas” todos. Mas muitos médicos e pacientes nos acham… assim… inferiores aos “istas“. É. Inferiores. Tipo:

“Leva essa receita lá pro postinho que eles ficam renovando pra você” – gente, eu posso discordar da prescrição, eu sou médica também.

“Leva esse exame lá pro postinho que ele transcreve pra você”. – eu posso discordar da indicação do exame, sabe?

“Você leva seu filho no médico do postinho???? Que mãe ruim!” – é, uma vez uma paciente disse que a professora da creche julgou ela porque ela acompanhava no postinho. A parte feliz foi que a resposta dela foi: eles sempre acertam com meu filho e comigo. Ufa.

Enfim, lá estava eu, desanimada…eu tinha vestido o estereótipo de médica do postinho e estar me achando assim…inútil. Me perguntando se eu sirvo pra alguma coisa além de renovar receita e transcrever exame.

Eis que chega o residente: “Carol, não sei o que essa paciente tem.”

“Hum…que tá acontecendo?”

“Ah, ela tá com dor no corpo todo! Ela apoia o braço, tem dor. Apoia a mão, dor. Anda, dor. Mexe o pescoço, dor. Tudo dói!”

Aí, falamos de várias coisas biomédicas menos interessantes, conversamos sobre diagnósticos diferenciais, até que entramos no consultório para falar com a paciente. Olha ela:

“É que eu vou na pneumologista e ela só olha o pulmão. Eu vou no cardiologista e ele só olha a pressão. Agora, dor no corpo todo…eu não sabia onde ir. Vim pra cá, pra vocês olharem tudo”

Já fiquei mais feliz, ó, alguém me valorizou. Aí eu:

“Me fala mais dessa dor, quando começou?”

“Ah, tem um ano…mas tá muito pior há 3 semanas”

“E o que estava acontecendo na sua vida há um ano?”

“Ah, eu tive enfisema há um ano”

“Teve…ou tem?”

Pausa. Choro.

“Eu não planejei isso. Eu tenho 50 anos e tudo me cansa, forró me cansa, trabalhar me cansa. Eu não consigo seguir o ritmo das outras pessoas. Eu não consigo ir nas festas da minha família, porque todo mundo fuma. Eu vomito se alguém com perfume forte fica do meu lado. Eu nunca imaginei que chegaria aos 50 anos me sentindo com 70. Eu tento não deixar minha doença me definir, mas na minha família, ninguém leva a minha doença a sério”.

“Você acha que as dores têm a ver com o enfisema?”

“Eu acho, eu interno uma vez por ano, e cada vez que eu interno, eu saio pior. Mais fraca. É como se o oxigênio não chegasse nos meus músculos, aí eles ficam fracos e doem”

“Entendi. Realmente deve ser muito desgastante sofrer e não poder ser acolhida por ninguém”

“Você acha que tudo isso pode ser da minha cabeça, pode ser nervoso?”

“Eu acho que nervoso tem a capacidade de deixar tudo pior, inclusive as dores. Tem muita gente que fica nervosa e fica com dor no estômago, dor na cabeça…”

“Olha eu aqui, colocando os podres todos da família para fora, desculpa”

“Nada, estamos aqui pra isso. Quando a boca fala, o corpo sara”

“Nossa! Você tá falando de nervoso, então agora eu vou te dizer o que aconteceu! Já sei! É a minha sobrinha. Sabe quando isso tudo começou? Quando eu vim cuidar dela, depois do acidente dela. Larguei minha vida pra cuidar dela, e foram uns meses infernais. Assim que ela voltou pra casa dela, eu fiquei doente. Fiquei com enfisema. A partir daí, o corpo nunca parou de doer. E faz 3 semanas que ela ligou e disse que tá voltando pra cá.”

Risada

“Muito obrigada. É isso! Olha, a dor tá até melhor. Olha, vocês estão bem na fita aqui, hein? Era muito mais fácil só escrever dois remédios no papel e me mandar embora. Mas olha só…é isso. Muito obrigada. Eu volto daqui a umas duas semanas pra falar com vocês!”

E pronto. Ainda estou com a fé na biomedicina abalada. Mas foi só uma paciente reconhecer o nosso fazer diferente que voltei a ter fé no Cuidado.

Anúncios

Uma história de amor

https://i0.wp.com/www.manillenials.com/wp-content/uploads/2014/10/up-movie-carl-and-ellie.jpg
É, eu sei, as histórias de amor estão batidas, são melosas ou simplesmente idealizadas. Pra que perder tempo com elas?
 
Eu estava na faculdade de medicina e em uma fase particularmente descrente nesse “amor pra toda a vida”. Aproveitei a oportunidade e topei passar alguns meses morando fora de casa, em uma cidadezinha de 30.000 habitantes, chamada Piraí. Lá, faria meu internato em Medicina de Família e Comunidade.
 
Ainda nessa tendência intimista, como se tivesse muito a achar na minha introspecção, optei por me afastar ainda mais: me refugiei em Santanésia, um distrito de Piraí. Uma única equipe de saúde da família era responsável por toda a (minúscula) população, que somava um total de 1300 pessoas.
 
Durante o internato, chamou a atenção o número de idosos no local. Consequentemente, haviam também muitos cuidadores de idosos. A bem dizer, eram 22 cuidadores no total. Resolvi fazer meu trabalho de conclusão de estágio sobre esses cuidadores: quem eram, como faziam para superar as dificuldades diárias. Afinal, cuidar de alguém de forma tão íntima é um trabalho sem fim de semana, um trabalho que exige tanta comunhão e comprometimento que, eu diria, não pode mais ser considerado um trabalho. É uma devoção.
 
E a carga emocional…quando os cuidadores eram da família, era ainda mais confuso. A dor de ver o familiar piorando, apesar dos cuidados. Ou a dor do cuidador que sofre com o mau-humor e maus tratos da pessoa que cuida. E a insegurança de, não tendo nenhuma formação para o cargo, simplesmente estar fazendo tudo errado.
 
Mas, como eu disse, eram 22 cuidadores – desses, 21 eram mulheres. Somente um era homem. Desse, eu nunca esqueci: cuidava de sua esposa. Engraçado, sempre que lembro deles, os imagino vestidos de branco. Acho que faço relação com o compromisso do casamento. Mas, estou me adiantando.
 
Moravam ele e sua esposa, ambos com muitos cabelos brancos na cabeça, denunciando os mais de 70 anos vividos. A casa, aconchegante e arejada, limpa. A encontrei no sofá, com um monte de mau-humor estampado no rosto. Respondeu ao bom dia com palavrões. Ele tentou acalmá-la, recebeu alguns xingamentos bem específicos – acho que ela vinha praticando a arte de ofender há muito tempo!
Chegava a ser engraçado o contraste entre aquela senhora angelical, naquela casa de campo, xingando com tanta desenvoltura.
 
O marido se desculpou: “Ela tem Alzheimer, há muitos anos. Os remédios melhoram as coisas, mas não gosto de deixá-la dopada e dormindo o dia todo, então tem dias que são assim.”.
Eu, estudante, continuei curiosa: “São muitos esses dias?”.
Ele riu, cansado, e disse: “Acho que quase todos!”
Me surpreendi. Imagina ouvir isso todos os dias! Ninguém é de ferro, não! Por isso, veio a minha próxima pergunta: “Tem alguém da família que ajuda o senhor?
Ele me explicou que os filhos moram em outras cidades, têm suas famílias e suas vidas. Visitam e ligam sempre, mas não podem morar com eles.
Eu, preocupada, insisti: “Mas e um cuidador, para dividir a carga? Não deve ser fácil viver assim!”.
 
Ele deve ter visto alguma coisa no meu rosto, porque se levantou e foi sentar ao lado da esposa. A abraçou, e ela deixou. Ficou mais calma e esboçou um sorriso. Foi aí que ele me ensinou:
 
“Ela é minha menina. Foi minha namorada, foi minha noiva, é minha esposa…(respirou fundo)…É o amor da minha vida. Não tem outra pessoa pra cuidar dela, não.”
E sorriram um pro outro, como se nem o mundo, nem o Alzheimer, existissem.
 
Amor é difícil de definir. Mas aquela cena, naquela casa, naquele vilarejo me ensinou de amor, comprometimento, compromisso, de um jeito que Shakespeare nenhum conseguiu.
O amor de um personificado no outro, o outro a personificação do amor do um. Uma soma muito além do que eu entendia.
 
Realmente, não existe nada de mesquinho no amor.
 
Já de volta à clínica, escrevendo o relatório da visita, tive vontade de terminar as anotações no prontuário com aquela célebre frase: “e viveram felizes para sempre”.

A morte do meu pai

luto

por Carolina Reigada

Eu queria falar sobre a morte do meu pai.

Aconteceu em janeiro desse ano, 2016. Meu pai tinha insuficência cardíaca há quase 10 anos. Tomava as 11 medicações todos os dias, direitinho, e era acompanhado pela atenção secundária. Sempre foi um cara independente e seu maior medo era ficar “preso a uma cama”, por isso o cuidado com as medicações. Ele gostava muito do cardiologista que o acompanhava. “É um cara direito, correto”, ele dizia. Eu ficava feliz com essa confiança, pois acredito muito na relação médico-paciente. Não queria me intrometer muito, tanto porque meu pai não gostava das intromissões, quanto porque eu não queria ser médica dele: era filha, não podia acumular funções. Quando eu tentei acumular funções, nós brigamos e não gostei da experiência. Voltei a ser filha.

No natal de 2015, estava conversando com ele na cozinha, quando ele apagou. Inconsciente em milésimos de segundos, batida oca e surda da cabeça no chão. Corri pra achar pulso enquanto gritava para minha mãe ligar para o SAMU. Ele acordou logo depois, não entendeu o que estava fazendo no chão. A ambulância já estava a caminho, mas ele cancelou a ambulância. Ele não queria ficar internado.

Eu insisti, meu irmão insistiu, minha mãe, minha cunhada. Conseguimos vaga para internação, para marcapasso transitório, para cuidar dessa arritmia. Ele não quis.

Conversamos com carinho e com raiva. Conversamos logicamente e aos prantos. Fiz chantagem emocional. Cogitamos leva-lo à força para emergência. Desistimos de levá-lo à força. Ele não quis.

Meu pai não estava deprimido. Ele estava consciente da escolha dele. Depois, eu parei pra pensar nas vezes que conversei com ele: a dificuldade de ir à esquina encontrar os amigos, depois de descer para cuidar do jardim, depois de enxergar na tela do computador, depois de sair da cama. Acho que eu não percebi antes porque não quis. Meu pai não gostava mais dessa vida limitada que estava tendo. Sim, ele via os netos, conversava com as pessoas, mas…não era o que ele queria. E acho que não estava preparada para conversar sobre isso com ele. Na verdade, todas as vezes que eu tentei, eu chorei tanto que desisti.

Meu pai não se matou. Ele podia ter ficado internado e ter morrido sozinho, longe de todos, no hospital, no mesmo minuto que morreu em casa.

Hoje, ele faria aniversário. Hoje, me arrependo de não ter conseguido encarar essa fase da vida com ele. Acho que ele sabe o quanto isso me assusta, provavelmente me perdoou. Sinto muita falta dele todos os dias. Principalmente porque parece que ele não morreu. Parece que ele existia condensado em uma estrutura física, e agora ele existe em quase tudo que eu faço, toco, escuto, leio e lembro dele. E essa lembrança ainda é doída, mas acho que melhora.

Acho que o principal motivo de eu querer escrever hoje, além da saudade, é que eu não fui negligente com meu pai. Explico: no dia que ele faleceu, liguei para o médico dele para contar a notícia e pedir para ele assinar a declaração de óbito. Eu (e minha mãe) vínhamos ligando para ele nas duas semanas antes da morte, pois estávamos muito preocupadas com a arritmia. Porém, quando ele me atendeu, ele disse que não podia assinar a declaração, pois estava viajando. Até aí, tudo bem. O que doeu foi o que ele disse depois:

“Vocês tinham que ter me procurado antes, ele não precisava ter morrido, é uma causa tratável, que desperdício!”

Eu também achei “um desperdício” meu pai ter morrido. Mas, como ficou entalado, deixar eu colocar pra fora: não foi culpa minha, nem de ninguém. Foi uma escolha dele. E, se TODOS os envolvidos na situação (inclusive o médico) tivessem conseguido ter a empatia de perceber o mundo pelos olhos dele, teríamos entendido a escolha dele e facilitado a passagem para ele.

Desculpem, mas eu precisava falar sobre isso. Ontem não consegui dormir, sentindo “arritmia” no coração. Quem sabe, hoje melhora.

Fica a saudade, mas também o orgulho de que meu pai enfrentou esse último desafio como ele escolheu e como bem quis. Apesar de termos tentado tirar dele esse último motivo de orgulho.

Parabéns, pai!

03/10/16

Um grelo anônimo

por Carolina Reigada

Quando enviei esse causo aos meus amigos escritores deste blog, fiquei na dúvida se ele seria censurado. Mas, para minha alegria, a resposta geral foi: “Censura, que nada!”. Sendo assim, um viva à liberdade de expressão e outro às pessoas maravilhosas que escrevem por aqui.

Bom, aconteceu durante a minha residência médica em Medicina de Família e Comunidade, em Manguinhos.

Para quem não conhece, Manguinhos é uma comunidade muito vulnerável no Rio de Janeiro. Carente de estrutura, dominada pelo tráfico e pela violência. Como geralmente acontece nessas situações, é o bom humor que salva da loucura do dia-a-dia.

Pois bem, estava eu atendendo dentro do consultório no sábado de manhã. Clínica cheia, apesar de ser fim-de-semana. Saiu um paciente do consultório, agradeceu, deixou a porta entreaberta, enquanto eu acabava de fazer anotações em seu prontuário.

Eis que entra reboleante pela porta, de macacão de lycra colado ao corpo voluptuoso, uma morena de cabelos cacheados, lindos, já falando alto:

“Dra, é rápido, olha só!”

E escancarou a porta.

“Só preciso que a sra olhe um negócio!”

E abaixou a parte de cima do macacão.

“O negócio tá ficando enorme!”

E abaixou o macacão e a calcinha.

“Olha o tamanho do meu grelo!”

E colocou seu grelo logo na linha da minha visão, já que eu estava sentada digitando, e havia parado no meio de uma frase de pouca importância, como “oriento início de AAS para prevenção secundária de infarto agudo do miocárdio”.

Recuperando um pouco do meu bom senso, sugeri:

“Talvez não é melhor fechar a porta?”

“Ah, é! Nossa! Que cabeça!”

E tapou o grelo para fechar a porta. Deitou na maca para ser examinada.

“A sra anda usando alguma coisa pra malhar, tipo bomba?”

“Claro! Carnaval vem vindo, né?”

“Pois é, é que bomba faz isso: aumenta grelo, engrossa pelo, engrossa voz…”

“Sério? Aí já era! Vou ter que ficar com o grelo grande mesmo”.

E pulou da maca, vestiu o macacão de uma vez, ajeitou os cabelos e já ia saindo.

Ainda sentada no banco em que estava enquanto a examinava, a interrompi quando ela estava com a mão na maçaneta:

“Calma! Não quer conversar sobre os efeitos ruins dessa bomba? Aliás, nem sei seu nome!”

Afinal, eu precisava anotar a consulta no prontuário.

“Ah, dra, coisa boa é assim. Vem rápido e some rápido. Beijo!

Deu um beijo estalado no ar, abriu a porta e saiu rebolativa.

Não descobri o nome.

Chamei o próximo paciente.

A tal da febre interna

Carolina Reigada

Há cerca de duas semanas, percebi uma paciente conhecida em pé em um canto da sala de espera. A conheci há cerca de 3 ou 4 meses. Ela trouxe o marido, que estava com a pele completamente amarela, para consulta – tinha medo que fosse hepatite.

“Ele nunca se cuida, sabe, doutora? Tive que arrastar ele até aqui.”

Após examinar, tive a impressão – ou a certeza – de câncer. Encaminhei com urgência, conseguiu fazer os exames no mesmo dia (já ficou internado). Infelizmente, veio a falecer cerca de um mês depois.

Retornou para agradecer o atendimento. Disse que não estava bem, mas não era para estar bem nesse momento, mesmo.

Mas, enfim, há cerca de duas semanas, a notei parada no canto da sala de espera, parecia angustiada. Quando fui falar com ela, ela foi muito ríspida. Acusou a clínica de não servir pra nada, que já havia ido mais de 4 vezes e não conseguiu atendimento. E que inclusive ia embora novamente nesse momento, não aguentava mais esperar para ser chamada!

Nesse momento, eu respirei fundo (com a única intenção de me acalmar) e coloquei a mão no ombro dela. Disse que eu preferia que ela ficasse, pois queria cuidar dela.

Ela esperou mais vinte minutos. Quando entrou no consultório, se jogou na cadeira e listou os sintomas: dor no pescoço, dor na cabeça, peso nos ombros, febre interna, mal-estar, cansaço, insônia. Depois deles, listou os exames que queria: ultrassonografia, hemograma, radiografia.

Eu esperei mais um pouco. Depois de um tempo de silêncio, perguntei: mais alguma coisa está preocupando a senhora?

Ela disse que não era pela morte do marido. Ela estava bem quanto a isso. Mas havia encontrado uma massa na vagina. Foi aí que ela soltou os braços, que estavam cruzados:

“E se…se ele deixou alguma coisa em mim? Alguma coisa ruim?”

Pedi para examinar. Ela concordou, já com a postura mais aliviada. No exame, concordamos que era…um pelo encravado.

Depois que falei, ela concordou que parecia mesmo só um pelinho encravado…como não percebeu antes?

Enfim, concordamos no diagnóstico. Depois do exame, ficou mais calma. Até riu. Gargalhou e disse: “Nossa, tomei de tudo que é remédio, mas agora sim, essa febre interna passou!”

E foi embora. Nenhum exame solicitado. Nenhum grande diagnóstico. Mas a febre, essa estava curada.

Falando de nada

por Carolina Reigada

Era uma manhã de Visita Domiciliar, carinhosamente apelidada de “VD”. Estou pegando o casaco e o guarda-chuva, pensando que os sapatos estarão cheios de barro no fim da manhã.

Escuto uma pequena comoção na entrada da clínica. Parece que sairemos atrasados para a VD.

“Doutora, tem uma paciente nossa. É que o irmão dela morreu ontem à noite. Ela disse que está passando mal…”

“Claro, vamos lá”

Encontro uma mulher sentada na cadeira, dentro do consultório. Nunca a consultei antes, mas percebi que passou parte da noite bebendo e chorando. A amiga fica por perto, mas com um braço cruzado, mantendo alguma distância.

“Oi, meu nome é Carolina. Como eu posso ajudar?”

Falo baixo, respeitando o luto que ela carrega. Ao mesmo tempo, me sinto boba. O irmão morreu e essa coisa de morte parece muito, mas muito maior do que eu.

A resposta vem em um suspiro fundo. Depois tenta falar. Desiste, balança a cabeça. Pega o ar, se prepara para falar. Mostra as palmas das mãos. Fecha as mãos e as apóia na mesa. Encarando a mesa, relata:

“Ele morreu. Eu rezei muito, eu tentei muito, mas ele morreu. Ele foi embora. Eu criei ele. Ele morreu. Ele não existe mais”.

É, taí. Sempre que ela chega, eu penso: a morte é, simplesmente, grande demais. Acho muito difícil encarar a morte. Por isso, sempre que eu conforto os pacientes em luto, me sinto hipócrita. Mas ainda acredito que, entre eu e o paciente, devo ser eu a pessoa a desistir por último. Então, vamos:

“Quer falar mais sobre seu irmão?”

“Ele tinha câncer, ele tinha dor. Eu cuidei dele, cuidei dos filhos dele. Meu marido está com os filhos dele, agora, por isso não veio. Eu queria ficar com ele pra mim, sabe? Eu não acredito que ele não existe mais!”

“Perder alguém tão querido é muito difícil, mas ele ainda existe. Existe nos filhos dele, existe quando você fecha os olhos e lembra dele e agora existe pra mim, que não conhecia ele, e sei que ele existe, através de você.”

Não me julguem. Eu sei que parece um argumento fraco, mas o que não parece fraco diante da morte? Além disso, minhas lembranças fortes são muito palpáveis, e vejo sentido em entender que a pessoa que vive dentro de nós não morre enquanto nos lembramos dela.

Bom, alguma coisa dá certo, os olhos saem do tampo da mesa e viram-se para mim.

“Eu consigo vê-lo direitinho, na minha cabeça. O tempo todo. O que me deixa feliz é que os filhos dele ainda estão aqui, comigo. E minha neta…já vai nascer. Eu acho que o que mais machuca é que ele não aceitou morrer. Ele morreu e não aceitou morrer.”

Pela quarta ou quinta vez na vida, reforço minha anotação mental: melhor aceitar morrer enquanto estiver viva. Facilita muito a aceitação para quem fica. Minha mente ameaça devanear para os meus próprios medos de morrer. Minha paciente me chama de volta:

“Eu também vim aqui porque minha mão está formigando, a palma da mão. Formiga até o cotovelo, e às vezes até o ombro. Aí pára.”

Opa! Calma, biomedicina. Corpo-máquina, será que o coração vai falhar? Ligo os alertas. Revejo as informações: mulher, 40 anos, sem morbidades ou outros fatores de risco cardiovasculares. Preciso de mais dados:

“E além do formigamento? Falta de ar, alguma dor?”

“Não, dor não.”

“Esse formigamento, só vai até o ombro? E no peito, não sente nada?”

Nada. Mas que palavra eu fui escolher! Aquela mão que estava formigando tomou a minha mão e apertou, agora sim os olhos olharam e a boca repetiu “Nada. No peito, nada.” E aí as lágrimas caíram.

É, no peito não ficou nada. Entendi o recado.

Conversamos mais alguns minutos, agora mais à vontade uma com a outra. Concordamos em um plano para o dia de hoje, perguntei se queria voltar outro dia e deixei a equipe disponível a ela. Fiquei pensando na fatídica palavra que eu escolhi. Tentei encher o “nada” com algumas das coisas que ela preza: os filhos, os sobrinhos, qualquer coisa! Me deixa corrigir essa gafe!

“Eu vou ficar bem, doutora. Minha neta vai vir, tenho as crianças. As coisas se ajeitam. Obrigada.”

E ela foi para casa. Me deixou pensando em coisas se moldando aos nossos espaços vazios. Que coisas moldamos aos nossos espaços vazios? Ou os vazios que moldam as coisas?

Levantei e, finalmente, fui para a VD, pensando no meu nada.

Iô-iô

por Carolina Reigada

A conheci grávida. Ela estava grávida, não eu. Tinha uma barriga grande, como se contivesse dentro um bebê há 9 meses, ou dois deles. Tinha um rosto marrom e muito marcado – de tempo, de história, de sofrimento. Ao olhar, eu daria 40 anos àquele rosto.

Mas ele só tinha 26.

Conversei com ela, afinal, faz parte da consulta. À esse paradoxo cronológico, adiciono mais informações: parando para ouvir, ela parecia ter 12 anos. Ai ai ai.

Pois bem, a cada consulta era uma novidade. Em uma, a pressão estava aumentada. Em outra, havia brigado com a irmã. Em outra, outra e mais outra, a briga havia sido com o marido. Só não brigava com aquele ser em crescimento dentro de si. Pelo contrário, era a única coisa em sua vida que a fazia sorrir. O sorriso era mágico como máquina do tempo. O rosto de 40, parecia ter 30 quando os seus dentes apareciam de dentro daquela boca, aberta em total deleite em um sorriso de esperança.

Mas o brilho no olhar, antevendo o gozo de segurar aquele seu filho, ainda era de criança.

Conheci-a além da grávida. Ela teve um filho, antes desse. Mas não tomou-o para si. Tomaram dela. Disseram que ela não tinha capacidade para cuidar dele. Agora ela não pode mais vê-lo, porque brigou com a tia, que faz as vezes de mãe.

“Sinto falta dele todos os dias.” Dizia o rosto de 40 nessa mulher de 26 com maturidade de 12. A dor nessa frase eu não conseguiria numerar, nem em 100 anos eu entenderia.

Eis que o fruto de sua gestação nasceu. Foi difícil e dolorido. Tive medo. Se as gestantes seguras e maduras sofrem tanta violência obstétrica no Rio de Janeiro, o que seria dessa gestante negra, analfabeta, abandonada e, no sentido prático, uma criança?

E meus temores se concretizaram. Ela conheceu o filho, amamentou o filho, registrou o filho. Ele tinha o nome e sobrenome que escolheu. Ele sugava de seu peito. E ele foi levado para o abrigo. Alguém falou que ela não seria capaz de cuidar de uma criança, de novo.

Ela não desistiu, dessa vez. Ela saiu da maternidade, ainda com os pontos de sutura recentes no ventre, e foi levada ao abrigo pela assistência social, para ver seu filho. Mas não saiu de lá com ele.

Na verdade, ela foi deixada lá. E teve que andar vários quilômetros, com bolsa do bebê, pacotes de fraldas e cicatriz recente, até sua casa, no topo do morro. Era uma guerreira que havia perdido o motivo pelo qual lutar. Aquela cicatriz agora era uma marca de batalha, uma batalha perdida.

Fui à sua casa logo que soube que estava de volta da maternidade, sem seu filho. Sua casa era como uma caverna, uma escavação logo acima da terra. Não tinha janelas. Havia um buraco grande e escuro no teto. Tinha dois cômodos, um com fogão e um com cama e colchão. Era úmido e frio. Mas, se todo o resto da casa era inóspito, o cantinho de seu filho reluzia. As roupas doadas limpas e passadas. A mamadeira. As fraldas. Ela me mostrou tudo que fez para recebe-lo. Ele era sua esperança.

Esperança…talvez de um futuro melhor, de um futuro diferente…ou só de cuidado. Cuidar e sentir-se cuidada. E não estar mais sozinha.

Meu coração já viu e ouviu muita coisa, mas naquele momento ele vacilou. Eu chequei os pontos de sutura, inflamados e esgarçados, e orientei o cuidado. Eu chequei as mamas e percebi que o leite, produzido com tanto amor e afinco, empedrava e machucava. Tive que ajudá-la a ordenhá-lo para fora.

E ali, sentada naquele colchão, naquela caverna úmida, eu me senti suja. Eu a ajudei a colocar aquele leite para fora. E a cada gota que caía era como uma lágrima. Eu faço parte desse sistema de saúde e assistência social que a machucou. E outra gota de leite caía e era como sangue. É culpa minha também que ela vive nessa caverna e eu, em um apartamento. E várias gotas caíam da sua mama, e eu perdi a conta de quantas caíram dos olhos dela, quando ela entregou as armas e entendeu que seu filho não viria mais.

Não caíram gotas dos meus olhos. Meu coração é calejado, já disse, ele não deixa mais que isso aconteça.

Mas deixo que as palavras cumpram sua função de redenção. Quem sabe, se repetidas, elas chegarão a ouvidos e olhos suficientes.