Saramágicas

poente
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É verão nos trópicos. O sol a pino parece ser inclemente, mas o calor paralisante acontece mesmo é nas horas mortas da tarde. Quem recebe a luz poente, sabe a quentura que lhe sobe. Aquele calor úmido, mormaço das horas poedoras, que a tudo esquenta.

Fui chamado para constatar o óbito. O médico pensa ser o concorrente da morte, mas é o seu sócio, a bem da verdade. Negocia com ela a hora derradeira. Às vezes, consegue adiar alguns anos, dias, minutos. Aí é visto como herói. Nada fez, senão barganhar tempo, afinal, a última palavra é sempre dela.

Aquela tarde estava atipicamente quente, até para nós. A temperatura média do lado de fora, marcava no visor do carro: 34 ºC. Dentro daquele quarto, tudo deveria estar a uns 40. O pesados raios de sol batiam na veneziana de vidro, adentrando. E davam um ar ainda mais melancólico àquele quarto, onde defuntava o corpo. Tudo nele lembrava a morte. Aquele olhar vago, numa iris paralisada, que até há pouco abria e fechava com facilidade. Não olhava nada, porque ela não olha pra ninguém, se não para todos. Mas eu me sentia olhado por ela, no fundo daqueles olhos mortos, borrados por uma opacificação nada cristalina. A rigidez anunciava, que voltamos ao inanimado, quando estamos habitados por ela. Mas o calor, o calor conservava aquele corpo inerte quente. E isso fazia parecer chegada a hora das intermitências saramágicas da morte. A hora final daquele corpo parecia estender-se por toda a tarde, suspensa pelo calor inebriante. O calor mantinha a morte em suspense. Meu pensamento, alucinado pelo escaldante sol de março, conversava com a morte suspensa no fundo daqueles olhos. Ou será que era a minha morte quem conversava com a dele? Estávamos em planos diferentes?

“Doutor, podemos ir?”… “Sim, claro. Meus pêsames à família”. Volto a mim, recobro a consciência. Ou será que foi só a minha morte que recolheu-se a um canto escondido em mim, depois daquele encontro, e deu lugar à vida que ainda me habita? E a dele para onde foi? Conservou-se no corpo? Enfim largou-o? Continua comigo? Não me deixou  dormir à noite. Aquele encontro entre dois mundos, suspensos pelo calor das horas derradeiras de um dia, é a metáfora da vida: como o pó que flutuava no quarto, suspenso por “um leve e macio raio de sol”.

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Fé na Humanidade

por Bruno Pessoa

Se meus joelhos não doessem mais
Diante de um bom motivo
Que me traga fé, que me traga fé
[…]
O mar escuro trará o medo
lado a lado
Com os corais mais coloridos
O Rappa – Pescador de Ilusões

É um fim de tarde de sábado, estamos na orla de Maceió, os cachinhos de Liz balançam ao sabor da agradável brisa que sopra do mar. Ficamos ali, nós três, só observando o céu tingir as ondas de crepúsculo. Já já vai escurecer.
“Com licença, senhor, posso mostrar o meu trabalho”. Aquele menino magrinho, com três palhas de coqueiro na mão, poderia causar irritação (estaria ele “atrapalhando” meu descanso?), ou medo(afinal somos ensinados a desconfiar de todo mundo, especialmente se sua aparência for humilde). Naquele dia a felicidade era tanta, por ter cumprido minhas primeiras 20 horas-aula como professor e por poder estar com minha família, que nem pensei em nada. Fui movido pela curiosidade. Pode.
Com a habilidade de um exímio artesão, o rapaz dobrava e amarrava aqueles filetes de palha, num movimento giratório rápido. Enquanto ele tecia decidi puxar conversa. Como é teu nome? “Pedro”. A flor ia tomando forma. Onde foi que tu aprendesse a fazer isso? “Na rua, doutor. A rua ensina muita coisa. Eu não sou daqui não, eu vim pra cá porque me disseram que era um lugar bom de ganhar a vida”. De onde você é? “Feira de Santana. Lá é um lugar bom, mas num tem oportunidade. Aí eu vim pra cá”. Ah, você tem parente aqui? “Não doutor, eu moro na rua. Quando eu cheguei aqui eu ficava procurando bico. Aí eu conheci o dono daquela barraca de côco ali, e ele me acolheu. De dia eu vendo água de côco e de noite ele deixa eu dormir na barraca. Agora a vida tá melhor, antes eu dormia na beira da praia, em baixo dessas alvenaria. Aí tinha noite que acordava com a água molhando o lençol”. Engulo seco. “Pronto tá aqui”.  E ele entrega uma linda flor a Liz.
Vasculho os bolsos, minha esposa procura na carteira. Nada. Amigo, estou sem trocado. “Quanto você tem?” Cem reais. “Eu troco”. Naquela fração de segundos você precisava pensar: dou o dinheiro? e se ele sumir? ele tem mil motivos para não voltar? Eu só tenho um motivo para dar o dinheiro – vale a pena apostar cem reais na humanidade? Ok, amigo, troca lá. Ele sai em direção a barraca vizinha: “vou ver se ainda tenho crédito com a tia da tapioca”. Ele volta em meio minuto. Ela tinha acabo de abrir, não tinha como trocar. “Posso ir ali no posto?”Ele foi.
Dessa vez ele não levou meio minuto. O Sol já havia ido embora, os refletores acesos denunciavam a chegada da noite. O movimento nas barracas começava a aumentar. E nem sinal de Pedro. Alguns meninos parecidos com ele se juntavam por trás de uma barraca ali perto para carregar as cadeiras para um caminhão. Pensei tê-lo visto no meio de alguns daqueles rapazes, com areia até no meio da canela e suor até a metade da camisa, mas não reconhecia o rosto. Já se passavam 20 minutos (ou seria menos?). Liz já tinha largado a flor, Eneline avisou que já era hora do soninho dela, era melhor irmos embora, definitivamente ele não ia voltar. Ficamos refletindo por alguns momentos sobre o que tinha acontecido. Juntamos todos os pertences, fechamos a bolsa para ir embora. Eis que uma bicicleta sai da ciclofaixa detrás da gente e pára bem próximo ao nosso banco. Num salto Pedro sai do garupa.
“Desculpa a demora doutor. Tive que ir trocar esse dinheiro bem longe. Sabe como é, todo canto que eu chegava diziam que não tinha. Quando eles vêm a gente com uma nota dessas pensa logo que é falsa, ou que é roubada”. Meu coração já não sabia o que pensar. Era óbvio que Pedro precisava mais do que eu daquele dinheiro, perdê-lo seria decepcionante, mas rever o rapaz depois que todas as esperanças tinham se apagado, reavivou minha fé na humanidade.
Poucos dias depois, estou em minha sala, numa consulta habitual. Estou bem perto de terminar a receita de hipertensão do senhor Paulo. “Doutor, o senhor esteve em minha casa nesses dias”. Foi mesmo, não lembro de ter visto o senhor. “Não, eu moro numa vila, o senhor foi visitar minha vizinha, uma velhinha que mora sozinha”. Ah, sei, uma vila que tem uns três carrinhos de churros e pipoca. “Isso mesmo doutor, aqueles carrinhos são meus. Hoje eu vendo churros e pipoca no parque da jaqueira, no sítio da trindade, nas festas. Hoje minha vida é boa. Eu criei meus filhos vendendo água de côco. Andava dez quilômetros na areia da praia, debaixo do sol quente, carregando um isopor. A vida não era fácil, eu dormia embaixo da barraca de côco e muitas vezes acordava de noite com a água batendo na espuma do colchão. Tinha noite que fazia frio. Hoje meus filho estão tudo criado. Tem um que é gerente de loja de shopping, tem outro que é professor. Tudo formado”.
Meus olhos marejaram, entreguei a receita, me despedi. Hoje as histórias de Pedro e Paulo se confundem na minha cabeça. Não sei mais quem é quem. Mas a fé permanece, porque a mesma humanidade que foi capaz de criar a rosa de Hiroshima, foi a que me deu a rosa de palha.
flor palha
Bruno Pessoa
Pai de Liz, esposo de Eneline, médico de família e comunidade.