Doutor Ernesto

por Antônio Modesto

Para Arthur

Ernesto era o tal “médico de família das antigas”: fez residência em Medicina Preventiva (a Geral Comunitária não existia na época, muito menos a de Família e Comunidade), foi médico de vila de pescadores e de aldeia rural, e hoje clinicava na cidade. “Até quando der”, dizia. “Vinte horas por semana eu dou conta”. Viúvo, filhos formados, netos vacinados e alfabetizados, ele sabia que estava nesse mundo até quando desse.

Atendeu esses dias uma mulher de trinta anos.

“Em que eu posso ajudar hoje?”

“Doutor Ernesto, eu tenho muita dor no pé quando esfria”

“Dor no pé quando esfria?”

“É. Não é qualquer frio, né, normalmente acontece quando está menos de dez graus”

“Nos dias mais frios de inverno, então”

“Ou quando eu viajo para lugar frio, tipo fim-de-semana na serra, sabe?”

“Claro. E quando está menos frio, uns quinze graus…?”

“Aí normal, sinto frio normal, mas meus pés não doem”

“E quando dói, você faz o quê?”

“Aí eu tenho que colocar meia”

“E quando você coloca meia…?”

“Aí a dor passa”

“Hum…”

“Só que meu namorado acha feio mulher dormir de meia, então eu queria ver o que que eu tenho, se tem algum tratamento, não sei…”

“Entendi. Mais alguma coisa te incomoda?”

“Não”

“Posso te examinar?”

“Pode!”

Mediu a pressão arterial e a frequência cardíaca; ouviu coração e pulmões; palpou pulsos centrais e periféricos;1 pediu que ela elevasse e abaixasse os membros inferiores para avaliar sua perfusão periférica – assim como fizeram médicos e médicos e médicos por gerações antes dele.

Fez perguntas enquanto a examinava. Nada mais a incomodava além da dor nos pés quando fazia menos de dez graus.

 

* * *

 

Um mau clínico não suportaria deixar aquela mulher sem algum diagnóstico. Diante de um exame físico praticamente normal – a mulher tinha a circulação um pouco lenta nas pontas dos dedos dos pés, mas as artérias dos seus pés pulsavam normalmente – daria início a uma cascata que começaria com exames reumatológicos, passaria por um ultrassom doppler de membros inferiores e poderia chegar até a uma polissonografia. Se depois de tudo isso não tivesse chegado a um diagnóstico ou encontrado um problema novo que desviasse a atenção, teria então a tranquilidade de escrever

 

HD: DOR EM MM.II. IDIOPÁTICA – ANSIEDADE?2

 

Recomendaria que a mulher procurasse um psicólogo para conversar sobre a vida e chamaria a próxima.

 

* * *

 

Um clínico muito virtuoso não desperdiçaria exames. Ao contrário, examinaria a mulher de cima abaixo, incluindo todos os seus reflexos e alguns testes de sensibilidade térmica e dolorosa. Dispensaria exames reumatológicos, porque “a clínica é soberana” e não havia critérios suficientes para essas doenças, mas talvez solicitasse um doppler de membros inferiores, porque insuficiência arterial periférica era um diagnóstico possível e errare humanum est. Doppler normal, registraria no prontuário

 

HD: DOR RECORRENTE EM MEMBROS INFERIORES IDIOPÁTICA. ANSIEDADE?

 

Recomendaria que a mulher procurasse um psicólogo para conversar sobre a dor e lamentaria secretamente não ter sido uma doença rara que gerasse um relato de caso.

 

* * *

 

Doutor Ernesto era um bom clínico, com a visão e tranquilidade dada pelos anos, pelos filhos formados, pelos netos vacinados e alfabetizados, pela esposa que morreu. Após examinar a mulher, disse:

“Isso que você tem não é doença, é uma característica sua. Tem gente que tem mais frio no pé, tem gente que tem menos. Se piorar, me procure. Enquanto isso, vou te recomendar uma coisa”

E escreveu em um receituário

 

RECOMENDAÇÃO MÉDICA

USAR MEIAS SEMPRE QUE A TEMPERATURA AMBIENTE FOR MENOR OU IGUAL A DEZ GRAUS.

 

Datou, carimbou, assinou, explicou a recomendação e, ao entregar a receita, olhou a mulher por cima dos óculos e disse:

“Ah… E manda seu namorado se catar”

 

* * *

 

1 Por exemplo, carótida (central) e punho (periférico).

2 Traduzindo, “hipótese diagnóstica: dor em membros inferiores sem causa definida, possivelmente relacionada a ansiedade”.

Cleck

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por Antônio Modesto

Família, família
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê é estridente
Assim não dá pra ver televisão
Família, eh! Família, ah! Família

Titãs – Família

Bebíamos na sala ele, o namorado e eu, conversando à meia luz e em meia fase. Contávamos com que idade tínhamos começado a beber, quando ele solta:
– Fiz xixi na cama até os quinze.
– Xixi na cama? Você tinha que colocar o colchão no sol até os quinze anos? – perguntou o namorado, me fazendo lembrar de quando minha mãe fazia isso no sobrado em Nova Iguaçu.
– Não… Eu não fazia xixi na cama toda noite até os quinze, já era raro. Mas eu usei fralda até os doze!
– Doze?! – o namorado não cessava de se surpreender. – Já nascendo pentelho…
– Mas tu andava por aí de fralda?! – perguntei, imaginando o desconforto, o volume, a escola. Imagina a escola!
– Não! Era só de noite. Aí eu comecei a tomar um remédio pra parar de fazer xixi na cama…
– Antidepressivo?
– Não sei, um lá que eu esqueci o nome, que me ajudou muito. Quando eu tomei esse remédio eu quase parei, só fazia de vez em quando, quando eu bebia muito…
– Bebia muito? Com quinze anos?
– Bebia muita água antes de dormir! Aí com quinze anos eu parei de vez.
Fiquei lembrando como era ruim o cheiro de colchão mijado.

* * *

– E agora tá morando meu irmão, a namorada dele e a filhinha deles lá em casa – ele conta.
– Tu não tinha um irmão que era xarope? Que tu escreveu outro dia no Face, e tal?
– É justamente esse!
– E ele agora tá morando na tua casa.
– Ele, a namorada, que fica super sem jeito, e a filha deles, que é uma fofa.
– Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe?
– Sim, sim.
– Puxa! Mas por que vocês são tão diferentes?
– Porque ele foi criado pela minha tia-avó.
– Porque tua mãe…?
– Minha mãe nada: quando meu irmão nasceu, minha tia-avó veio pra nossa casa ajudar. Então a criação dele foi muito influenciada por ela, e eu acho que isso deixou ele um cara que lida mal com as frustrações, meio babaca, sabe?
– Ah, tipo filho único criado com vó.
– Isso! Só que não era filho único, e era tia-avó.
– E cadê ela?
– Ela ficou com a gente até morrer, quando eu tinha uns quinze anos.
– Bem quando tu parou de fazer xixi na cama, né?
Quando seus olhos viraram plástico e sua boca congelou, eu sabia o que tinha feito. Já tinha visto aquela cara antes. Dava pra ouvir seu cérebro rangendo, os hemisférios destroncando, o arrepio na espinha, as imagens encaixando, o óbvio nunca visto.
– Que… do mal! – balbuciou, e eu o olhava contente, que delícia essa sensação de desvelo! Tomava ar, tentava falar alguma coisa, não conseguia. “O que que eu faço com isso agora?!”, devia pensar. Eu, inconsequente, não saberia responder.
– Muito obrigado, volta semana que vem – brinquei, e ele ria, reorganizando as ideias, voltando a si, entendendo a tarefa recém-surgida.
Bebemos.

WAZE

por Antônio Modesto

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“Não conheço esse caminho”, pensei ao olhar o mapa no celular. “Mais curto… Rua reta, compridona… Não deve ser favela”. E saio da avenida pela esquerda, a caminho da supervisão do Mais Médicos.

Dirijo por quatro quadras. “Onde é que vira à direita, aqui ou na próxima?”. Na esquina seguinte, dois garotos sem camisa se agitam, me olham muito, tem alguma coisa na mão de um deles, será guarda do morro? Paro o carro. É guarda do morro e tá olhando pra mim. É uma pistola na mão dele. Tá segurando esquisito, junto à cintura, mas tá apontada pro meu peito. Dá pra ver o buraquinho do cano. Tá apontada pro meu peito.

“Se eu tivesse essa ocupação, em quem eu atiraria? Em quem parecesse uma ameaça. Tenho cara de trouxa, meu carro tem placa de São Paulo, celular pendurado no para-brisa com um mapa. Que mais? Mostrar que eu tô desarmado”. Ponho uma mão do lado de fora e a outra fica aberta, apoiando o volante com o punho.

– Bla bla bla bla!

Não entendi. Tô desarmado, não é possível que me alvejem. O buraquinho do cano continua a dez metros apontado pro meu peito. Ia ser um tiro esquisito, mas ia me colar no banco. Sinto um comichão no esterno.

– Abaixa a mão! Pode abaixar a mão! – diz o que está desarmado.

– Vem pra cá! – diz o que está armado. Ele também segura um saco de objetos brancos que não devem ser hóstias. Hesito. Já viram que eu tô desarmado e me chamam. Vou?

– Pode vir, vem pra cá! – repete. Impossível não ir. Primeira marcha, pouca pressão no acelerador, o comichão no esterno piora.

– Oi, pessoal, foi mal, tô indo num posto de saúde em tal lugar, desculpa aí…

– Tá perdido? – a pistola sumira, e agora ele me aponta uma gentileza mais desconcertante que a arma. Um ruído indica que ele traz um walkie-talkie na cintura.

– Não, tô aqui seguindo o Waze, normalmente eu vou por tal rua, mas dessa vez ele me mandou pra essa aqui…

– Ih, isso é longe pra cacete! – diz, enquanto o amigo olha o celular no parabrisas.

Já ia dizendo “ótimo, deixa eu voltar pra avenida, tchau” quando chega um sujeito perto da janela. A marcha, o olhar e os dentes sugerem etilismo crônico e trabalho precário.

– Onde é que cê vai?

– Vou num posto de saúde na rua tal, em frente a tal coisa.

– Ah! Segue aqui direto, direto; quando chegar em tal lugar, vira à esquerda e depois segue adiante.

– Eu também posso voltar e pegar a rua tal, não tem problema…

– Não! – diz o rapaz armado. Vai por aqui! É tranquilo!

“Tô vendo”, penso.

– Pega essa aqui até tal lugar, vira em tal lugar e segue adiante – o rapaz repete.

– Beleza. Mas não vai atrapalhar o rolê de vocês, aí, não?

– Nada! Vai lá, vai lá!

Se o gatekeeper disse que pode, vamos nessa. Primeira marcha, segunda, vidros abaixados, cara de “com licença”, sigo pela rua comprida. Não vejo mais ninguém armado. Adiante, a via fica estreita, entre uma ribanceira pra cima e outra para baixo. Um carro parado me impede de seguir, e uma mulher arrasta um pedaço de tronco para fechar a passagem atrás dele.

“Eu tô num lugar que tem um bloqueio na rua. Puta que pariu”.

– Oi! Eu tô tô indo num posto de saúde em tal lugar, pode passar?

A mulher se atrapalha em dar atenção a mim e ao seu motorista, que grita alguma coisa de dentro do carro. “Fecha aqui depois, tá?”, ela diz apressada, logo antes de entrar no carro e partir.

“Fecho ou não fecho?”, me pergunto qual risco queria correr. Desligo o carro, abro a porta e arrasto o pedaço do meio dos três troncos que impedem a passagem, com a certeza de que, em algum lugar dali, tem alguém me olhando.

A rua alarga novamente. Chego no posto em dez minutos. A médica está atendendo uma gestante.

– Antônio, que bom que você chegou! Essa é fulana, ela teve diagnóstico de sífilis em agosto,tava um pra sessenta e quatro, repetiu os exames agora, mas ainda tá um pra oito…

– Oi! – digo pra gestante. – Eu sou Antônio, sou médico de família, trabalho no Mais Médicos e vim visitar a Doutora Fulana. Tudo bem?

REBELDE

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Por Antônio Modesto

– Esse aqui é um paciente hipertenso refratário, muito rebelde, toma quatro remédios, que veio acompanhar a pressão – diz a médica que o atende, e que vim supervisionar.
– Isso aí. Graças a Deus ela tá diminuindo – diz o rebelde.
– Isso. Mas a gente tava conversando que ele usa outras coisas também…
– Ah, é? O quê? – pergunto.
– Cannabis.
– Ahn?
– Cannabis.
– Ah, cannabis.
– E ele usa há muito tempo, e eu já disse pra ele que pode prejudicar…
– Pois é, doutor, não vou mentir: faz 59 anos que eu fumo cannabis.
– E fuma quantos baseados por dia?
– Se tiver vinte, eu fumo os vinte!
– Tá, mas, no geral, quantos?
– Ah, na base de uns três, quatro…
– E aí, o que você fez? – pergunto à médica.
– Eu encaminhei ele pro CAPS AD.
– E tem aqui? Tem funcionado?
– Eh… Tinha, fechou, parece que reabriu, mas a psiquiatra do NASF quer atender as pessoas antes da gente encaminhar pra lá.
– E por que você quer parar de fumar cannabis?
– Esquecimento, doutor.
– Esquecimento…
– Pois é, tô muito esquecido. Eu fumo pra fazer tudo: pra comer, pra dormir, pra trabalhar… Pra namorar… Não consigo trabalhar sem fumar, mas, quando eu fumo – eu sou eletricista, já me aposentei, mas pego um serviço de vez em quando – quando eu fumo, aí eu vou passar um fio daqui (e aponta no ar) até aqui (aponta um metro depois). Aí quando eu volto pra cá (o primeiro lugar) eu já não lembro o que que era. Aí isso me prejudica. Mas quando eu paro de fumar eu não como, não durmo, não trabalho… Não namoro…
– Entendi. É, todo mundo sabe que maconha dá esquecimento na hora, e quem fuma muito tempo pode ficar esquecido direto.
– Pois é! E eu não quero isso!
– Acho que pode ser uma boa conversar com a psiquiatra e a Dra. Fulana, mesmo. Porque se você conseguisse passar pra um baseado ao dia, já era uma grande conquista!
– Eu disse isso a ele! – interpela a médica. – Faz um pequenininho e vai fumando aos poucos…
– Não dá, doutora! Eu tenho muita vontade! Hoje eu tinha consulta e não fumei, mas já tô pensando que quando eu chegar em casa eu já vou fumar um… E se eu apertar um fininho (aponta pro meio do indicador), daqui a meia hora eu tô com vontade de novo! Prefiro apertar um grandão, grossão, assim (estica o polegar e o indicador), um charutão, que vai levar umas duas horas pra me dar vontade de novo.
– Mas vê, você pode fazer que nem a gente fala pra fazer com cigarro: quando der vontade, enrola, deixa pra fumar um pouco depois… E outra: às vezes demora pra ficar doidão, então…
– Eu não fico doidão, não, doutor. Eu fumo e fico relaxaaado…
– Sim, claro, não quis dizer doidão de ficar malucão, quis dizer que a onda demora a bater. Então você pode ir maneirando, fuma pouco, espera bater, quando der vontade embroma um pouco, faz outra coisa…
Tivemos um pouco mais de conversa e eu já achava que estávamos perto de nos despedir, quando, súbito, surge uma receita azul na mesa, diante dele: alprazolam diário. Confiro o carimbo, é da médica do meu lado, de hoje.
– Por que você passou alprazolam pra ele?
– Porque ele tem se queixado de ansiedade, tem tido insônia, às vezes fica muito irritado, e quando ele veio pra mim, ele já usava e eu suspendi. Aí agora passei de novo por causa dessas coisas…
– Péra, mas então por que ele não continua usando maconha? Se ele fuma pra dormir e ficar relaxado, mas quer parar porque tá tendo esquecimento, a gente vai tirar a maconha e dar um remédio pra dormir e ficar relaxado que também dá esquecimento e causa muito mais dependência?
– É…
– É…
– Então, o que você acha?

Nunca mais?

despedida-calouros-galera

Por Antônio Modesto

 

“Quer fazer exames de DST”, diz a anotação do ACS na agenda. O jovem oriental nas feições e no sobrenome, de olhos assustadiços e com uma cifose discreta, me lembra os estudantes da Engenharia que iam nas festas que o CA de Medicina organizava, atrás de cerveja barata e meninas bonitas.

– Eu sou Antônio, sou médico de família, em que eu posso te ajudar hoje?

– Eu vim fazer exame de DST.

– E por que você decidiu sair da sua casa pra fazer esses exames?

– Porque eu quero doar sangue, e achei que era uma boa saber se tava tudo bem antes.

“Aham… claro”

– E você tá preocupado com alguma doença em especial?

– Sim, AIDS.

– Você acha que pode ter pegado AIDS de alguma forma?

– Não… Acho que não…

“Aham… claro”

– Você teve relação sexual sem camisinha?

– Sim.

– Com quem?

– Com uma garota de programa.

– Entendi.

– Aí fiquei com medo de pegar alguma coisa e vim aqui.

– É, acho que você poderia ter pegado alguma coisa independentemente dela ser garota

de programa. É bom usar preservativo em todas as relações. Quando foi isso?

– Há seis semanas.

– Entendi. Mas me estranha que ela tenha topado transar contigo sem camisinha, me parece que elas têm sido mais cuidadosas…

– Ah, ela disse que tinha feito exame e não tinha nada…

– Sim, mas ela podia ter pegado alguma coisa de você!

– Não, eu era virgem.

“Puta que pariu, esse cara não tinha um amigo pra ensinar as coisas pra ele, não?”, penso. Me dá uma pena enorme dessa garotada dando mole.

– Aí eu falei com o meu irmão, ele ficou puto, disse que ela podia ter mentido…

– É, se eu fosse seu irmão, eu teria arrancado a sua cabeça, mas eu não tô aqui pra isso. Tô aqui pra te fazer esses exames e algumas sugestões. Tá em que série?

– Terceiro ano.

– E vai fazer o quê de vestibular?

– Economia.

– Economia! Legal…

Não fossem tempos tão tristes para a economia e a política nacionais, e eu teria feito um gracejo.

– Mas eu já tava pensando em mudar.

– Ah, é?

– É! Se eu tivesse AIDS, ia fazer farmácia.

– Putz, cê tá apavorado com isso, né? Vai lá fazer esses exames.

Depois de um breve aconselhamento pré-teste e daqueles longos vinte minutos, nos reencontramos.

– Olha, tá aqui: sífilis negativo, hepatite B negativo, HIV negativo. Hepatite C tamos em falta, mas a transmissão sexual é quase insignificante. Você usa droga injetável, tem tatuagem, fez transfusão de sangue…?

– Não.

– Então tudo normal. Legal!

– Ufa. E tem mais algum tratamento, algum remédio que eu precise tomar pra não ter nada? Eu vi que tinha outras doenças…

– Você deve tá preocupado com gonorreia, etc. Nessa altura, não. Possivelmente você teria percebido alguma coisa, e tal… Inclusive se você tivesse nos procurado em até três dias depois dessa relação, a gente podia ter te passado alguns remédios pra evitar que você viesse a pegar alguma coisa. Agora tamos tranquilos de outra forma, fica atento se não vai surgir ferida, corrimento na uretra, cueca suja de pus…

– É que eu descobri essa coisa dos três dias quando já tinha passado três semanas.

– Entendi. Mas ó, achei muito bom você ter procurado a gente pra cuidar disso. Espero que não precise, mas pode vir quando precisar.

– Tá bem.

– Bom então é isso. E cara, na faculdade vai ter muita oportunidade pra você transar. Tem muita festa, muita gente bacana… Precisa se cuidar, usa camisinha!

– Não! Depois dessa, eu não quero transar nunca mais!

“Aham… claro”

Matador de passarinho

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por Antônio Modesto

 

Às vésperas de me mudar pra São Paulo pra fazer residência, tive uma despedida dos amigos em um show no Odeon BR, na Cinelândia – um lugar que eu certamente levaria no meu coração quando saísse da cidade. Embora tenha me formado na UFRJ, não tirei meu primeiro CRM no Rio, porque logo iria embora; assim, o carimbo amarelo com o CRM paulista estava no bolso, como um símbolo de passagem.

Quem cantava aquela noite era Rogério Skylab. Se eu dissesse que em uma música ele aconselha uma mulher a entrar no banheiro, fechar o basculante e ligar o gás, e que em outra ele diz que matar passarinhos ajuda a espantar o vazio de existir, eu poderia gerar uma má impressão. Prefiro pensar no cantor como um esculhambador geral.

Ao fim da última música, Rogério – um homem franzino, de cabelos grisalhos, que lembra vagamente Fernando Gabeira – levanta um dos braços triunfalmente e cai no chão. Aplausos. Ele fica no chão. Aplausos. Continua no chão. Os aplausos escasseiam, as pessoas começam a ir embora, e ele no chão. “Gente, o cara tá lá deitado ainda”, eu digo pros meus amigos. “Você vai lá ver se ele tá passando mal? Agora você é médico!”. Hesito. Ninguém mais aplaude, as luzes do cenário apagam e ele continua lá, deitado.

Deixo os amigos pra trás e fico à beira do palco, onde encontro aquele frágil senhor deitado, o microfone ao seu lado. “É ISSO AÍ, ROGÉRIO! FICA AÍ MERMO!”, diz um espectador. Um assistente da banda começa a recolher os cabos, e Rogério deitado, irresponsivo. Respira discretamente.

“Será que o cara desmaiou?”, alguém pergunta do meu lado, e foi o suficiente pra nós dois subirmos no palco e agacharmos do lado do sujeito, chamando seu nome. Alguém da produção se aproxima.

“Eu sou enfermeiro, pode deixar”.

“Ah, legal, eu sou médico”

“Eu sou enfermeiro, ele é médico, tá tudo resolvido. Rogério!”

“hmmm”, ele se manifesta.

“Vamo levar ele lá pra dentro”.

Então me vi com uma semana de registro profissional, na minha festa de despedida, prestes a me mudar pra São Paulo, carregando Rogério Skylab do palco do Odeon BR para o seu camarim.

Tendo dado sinais de vida mais concretos no caminho, sentamos o homem em um sofá. “Meio caído esse camarim”, pensei, em um cômodo branco com um sofá de alvenaria, sem nenhum come ou bebe à vista.

“Por que vocês me trouxeram pra cá?”, perguntou, como se estivesse saindo de um transe.

“Você tava caído no chão, não respondia, a gente te trouxe pra cá”, disse o enfermeiro.

“Vocês acham MESMO que eu tinha desmaiado?”

Olho pro enfermeiro e respondemos em uníssono: “achamos!”

“Eu não estava passando mal… Eu tinha tudo planejado… Eu deitei no chão, as luzes iam apagar, e eu ia sair do palco quando as cortinas fechassem!”

Fiquei sem jeito de pedir um autógrafo.

Bruxo

gandalf e galadriel

por Antônio Modesto

 

Ele parecia um Hell’s Angel que engordou, se aposentou e trocou a moto por uma picape; ela, uma ex-hippie, tanto pelo figurino quanto pelo fogo de outrora, hoje domado pela experiência, mas que ainda escapava pelos atentos olhos azuis. Do meu lado, o residente de vinte e poucos anos. Ele tinha vindo para reavaliação depois de ter iniciado insulina e tido diagnóstico de hepatite C – nunca saberemos se pelas transfusões antigas ou as agulhas compartilhadas nos anos 70. Hoje era apicultor e, na equipe, tinha o apelido de Bruxo. Na consulta, é o Bruxo quem quer respostas: “o que eu posso fazer pra não piorar?”.

“O mais importante a fazer é não ingerir bebida alcoólica, até porque não sabemos se há lesão hepática, precisamos do laboratório e do ultrassom. Qualquer quantidade de bebida pode piorar uma eventual lesão”.

“Nem o xarope que eu preparo?”, pergunta, me contando a receita de um combinado de ervas diluídas em álcool.

“Se puder diluir em outra coisa, melhor”, respondo, tentando esconder que não tinha certeza se quantidade irrisória de álcool seria danosa.

“Não, doutor, eu passo no álcool e depois diluo em água, fica essa quantidade”, diz, gesticulando.

“Ah, então sobra muito pouco…” (minha dúvida era tanta que não lembro a que conclusão chegamos). “Quanto ao diabete, já conversamos sobre a alimentação, se o senhor puder começar alguma atividade física e perder peso, vai controlar melhor e, de repente, dá pra tirar a insulina e ficar tomando remédio pela boca”, oriento, tentando não lançar para a mulher aquele olhar de “prestou atenção?”.

“Que bom, doutor. Então vou poder continuar fumando meu cigarrinho…”, diz, rindo.

O residente se mexe na cadeira, acho que murmura um “não”.

“Bom, não é uma boa, porque o cigarro faz mal pras artérias”, e bla, bla, bla, “você não deveria fumar”.

“Não, doutor, não é esse cigarro, não…”

Quando volto a esse momento não consigo lembrar se não entendi, não acreditei ou não queria perder essa.  “Qual é, então?”.

“É…”, hesita, contando moedas invisíveis com polegares e indicadores,  “cannabis…”

“Cannabis…”, repito, ganhando segundos preciosos. “Fuma todo dia?”

“Todo dia, doutor…”

Não perguntei há quanto tempo, não precisava. Aliás, acho o apelido da equipe muito adequado: mais que um Hell’s Angel aposentado, ele parecia um Gandalf fora de forma.

“Eu acordo, aperto uns três, aí vou fumando durante o dia…”

“Três por dia…”, repito, não dou conta de tanta novidade. A mulher, então, toma a frente.

“Não, doutor, é assim: todo dia ele acorda, aperta um maço de baseados, fuma um, toma café, pega o carro e vai pra Miguel Pereira, cuidar lá da abelhas dele…”

“VOCÊ DIRIGE FUMADO ATÉ MIGUEL PEREIRA?”

“Dirijo” – e ri, o Gandalf das abelhas.

“Eu nunca conseguiria… Não é perigoso, teus reflexos não diminuem?”.

“Doutor, eu faço isso há vinte anos, nunca bati o carro”.

“Caramba…”

“É verdade, doutor”, diz a mulher, “ele é o melhor motorista que eu conheço”.

“Minha mulher já me disse isso”, penso, “é uma baita declaração de amor”.

“Uau…”, murmuro. “Mas e aí, cê compra?”

“Compro. Eu já plantei, doutor, mas hoje eu compro”.

“É difícil plantar, né?”.

“Né não, doutor… Com a luz certa, vai fácil!”.

“Prensado?”

“Prensado”.

“Bem… Claro que não faz tão mal quanto cigarro, que tem um monte de porcaria junto, que o risco de câncer e outras doenças é muito alto, e tal, mas não sei até que ponto essa quantidade de fumaça inalada não pode fazer mal aos teus pulmões – um enfisema, por exemplo. Até porque eu soube que no prensado eles colocam amônia, um monte de coisa…”.

“É, botam mesmo”.

“Então eu pensaria em diminuir essa quantidade. Outra coisa que tá muito claro é que pessoas que fumam muito tempo podem ter prejuízos importantes na memória, até permanentes”.

“Ih, doutor, isso aí eu já tenho”, e ri, o Gandalf da cannabis.

“Bom, podemos avaliar isso direito num próximo encontro, posso testar tua memória, mas não notei nada muito esquisito até agora. Meu medo é você ficar velho e lesadão, sabe? Tipo, que não lembra nada, não entende direito o que tá acontecendo, e tal… Imagino que você não queira isso”.

“Não, doutor”.

“Então acho que você podia pensar em diminuir um pouco essa quantidade, aí”.

“Pode deixar, doutor”, diz, sem convencer a ninguém na sala.

Tudo bem, já foi muito por hoje. Receitas, apertos de mão, marcação de retorno, e saem Gandalf e Galadriel a criar abelhas e fazer poções, deixando um feiticeiro e seu aprendiz a pensar na vida.

* * *

Enviei uma primeira versão desse texto ao residente, que me respondeu por email: “Estive com o próprio (Rúbeo Hagrid/Gandalf/Bruxo) hoje!  Já começou a mudar os hábitos. Mudança na dieta, é claro… A cannabis fica!”.

“Que bom que gostou”, penso. “Tenho que lembrar de discutir a relação entre cannabis e hiperfagia no retorno”.

Raciocínio clínico

por Antônio Modesto

Homem, idoso, pernas cruzadas

– Oi, eu sou Antônio, sou médico de família, supervisor do Dr. Fulano. Hoje ele tá meio enrolado, tudo bem você passar comigo?

– Tudo.

Polo surrada enfiada na bermuda mais surrada. Sinais de tabagismo. O cinto é novo.

# Magro demais?

# Abordar tabagismo

– Que que eu posso te ajudar hoje?

– Doutor, eu tenho 83 anos,

Mais velho que o meu pai

Meu pai morreu

– Sou hipertenso,

# Abordar hipertensão

– Vim aqui fazer uns exames pra ver como eu tô.

# Checar laboratório HAS

# Prevenção quaternária

# Demanda oculta?

– Mais alguma coisa?

– Ultimamente eu tô tendo tontura.

Odeio tontura. Encaminho logo?

# Síncope? Vertigem?

# HAS + idade + tabagista. Isquemia?

– Mais alguma coisa?

– Não.

– Então você tem pressão alta, veio acompanhar, talvez fazer uns exames, e tem tido tontura.

– Isso.

Conversa sobre a tontura

# Não é síncope. Não é vertigem. Não é isquêmico.

Exame físico. Pressão pouco alterada

# Não é neurológico. Parece não ser cardíaco.

– E quando é que te dá essa tontura?

– Normalmente de manhã, quando eu tô indo pro trabalho.

– Você acorda, se arruma, toma café, e vai pro trabalho.

– Não, eu não tomo café.

– Ah, você não toma café?

– Não.

– Então você sai de casa em jejum.

– Saio.

Silêncio

– A não ser que eu teja ficando tonto por que eu tô saindo sem comer…

Óbvio, né

– É, você sai em jejum, algumas pessoas ficam tontas quando saem de casa sem comer nada.

– É…

– Mas por que você não come nada antes de sair de casa?

– Porque doutor… Esses últimos três meses eu tô morando com a minha irmã…

# Privação financeira? Divórcio?

– E eu não quero dar trabalho.

– Mas por que, grana?

– Não, eu tô na casa dela, e não quero dar trabalho, acordar ela…

– Mas você não pode preparar o café?

Peguei pesado?

– Posso, mas vai fazer barulho, a casa é pequena… Mas eu posso comer fora de casa…

Conversa sobre como pretende comer cedo pra não ter tontura de fome

– E por que você tem morado com a sua irmã?

Vai dar merda

– Doutor, eu

Meteu a mão nos olhos e começou a soluçar

Fodeu

# Mantenha a calma.

# Cale-se. Aguarde.

Pego ou não pego nele? Melhor não

O homem para de soluçar e conta que está separado da esposa, com quem viveu dezenas de anos até dois ou três meses atrás. Não entendi, após algumas tentativas, por que se separaram. Parece que ele gosta muito dela, quer voltar, mas ela o recebe na porta de casa quando a visita.

– E você acha que ela tá com outra pessoa?

– Não, ela só não quer que eu entre em casa.

Conversa sobre os remédios da pressão.

Prescrevo, peço exames, programo retorno.

Então o senhor volta com o Dr. Fulano, dia tal, hora tal. Eu devo estar por aqui, se ele precisar de alguma coisa, vai conversar comigo.

Cumprimento perto da porta. Fecho a porta. Me jogo na cadeira.

# Tontura (fome) => vai comer de manhã. Orientações.

# Divórcio => atentar para depressão.

# HAS => Medidas de PA. Colher laboratório. Retornar em um mês. Considerar aumentar amlodipino.