Nem fardo, nem pluma

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por André L. Silva

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Atenção: o ensaio pessoal a seguir foi baseado em um caso real, porém todos os nomes são fictícios. E todos os elementos do conto ocorreram em diversas situações, que fui costurando na história central com um fio chamado minha história de vida. Nessa colcha de retalhos alguns detalhes são mais antigos, outros mais recentes. Mas todos são do fundo das memórias e do coração.

Fica como sugestão de trilha sonora para ler essa pequena história essa lista de músicas que ouvi enquanto escrevi. São música que me fazer sorrir, que me fazem chorar, que me tocam enquanto humano em toda a minha vulnerabilidade. Boa leitura!

Apple Music: https://itunes.apple.com/br/playlist/mulheres-que-cantam-e-contam/idpl.f27824fc9d504751abc1ec871645f2fc

Spotify: https://open.spotify.com/user/12149067289/playlist/4zWIc3OC4qzcircUtguqyG

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– Vocês estão me enganando! Eu não acredito em vocês!! Isso é um absurdo!!

Eu ouvi os gritos vindos da recepção, voz de mulher, enquanto eu conversava com duas alunas do último ano de medicina e me preparava para atender a última pessoa da manhã daquela quinta-feira de outono. Já havia até ligado aquele som ambiente com Enya que a residente já havia dito que não aguentava mais ouvir.

Vou até a recepção, e me deparo que aquela senhora que eu havia atendido há três semanas, dona Matilde. Magrinha, negra, as mãos castigadas pelo tempo e pelo trabalho duro na roça e em casa nos seus 70 e poucos anos de vida. Tão franzina que era até difícil imaginar que teve quatro filhos.

– Doutor, por que vocês estão fazendo isso comigo? – disse quase aos prantos.

Enquanto ela gritava, um mini filme passou na minha cabeça: o diagnóstico de HIV há mais de mês que ela não aceitou, a discussão do caso com a enfermeira e a dificuldade em fazê-la entender. E aqueles dados frios no papel: 14000 e poucos vírus por mL de sangue, 350 leucócitos tipo TCD4, números que não nos deixavam dúvidas, mas para dona Matilde só aumentavam sua angústia.

Eu, quase que num reflexo, a chamo para o consultório, aquele mesmo que tinha Enya de música de fundo.

– Doutor, não tem como eu ser aidética, estou sem homem há mais de 30 anos desde que enviuvei, não tomei sangue… o que vai ser de mim? Quanto tempo de vida eu tenho?

Acabei pausando a música. Acho que foi pior, pois dava para se ouvir as respirações tensas das duas alunas, Bruna e Pamela, e a minha própria.

– Dona Matilde, vamos conversar com calma. Estou aqui para tirar todas as suas dúvidas.

– Doutor, não tenho homem há mais de trinta anos, minha vida foi cuidar dos quatro filhos, e justo agora que conheci minha primeira netinha. Olhe, olhe, o senhor lave a cadeira aqui que sentei pra não passar pras pessoas que o senhor for atender! – soluçava dona Matilde, já em pé.

“Difícil acreditar que hoje em dia ainda existam pessoas que achem que HIV se transmitem assim.” – pensei em em toda a minha pequenez. “Preciso agir rápido, preciso me despir dos meus preconceitos e dos meus medos.”

Ligo novamente a música ambiente. Peço para dona Matilde se sentar e respirar profundamente junto comigo. As alunas ali no canto, mudas.

– Dona Matilde, pouco vem ao caso de onde veio esse vírus. O que importa é que hoje em dia tem tratamento e estaremos sempre aqui para acompanhar a senhora.

– Mas doutor, as pessoas não vão poder se aproximar mais de mim e…

– Dona Matilde, por favor, me dê as mãos.

– Mas, mas…

– Dona Matilde, me dê as mãos. Vamos. – falo com um pouco mais de firmeza.

Acolho aquelas mãozinhas magrelas, e olho para aquela senhorinha de lenço na cabeça.

– Viu como AIDS não passa assim? Viu que não precisamos ter medo? Viu como a senhora ainda vai brincar muito com sua neta? Basta a senhora se tranquilizar. A senhora vai poder tomar os remédios e viver muito ainda.

– Doutor, o senhor tem idade pra ser meu neto. O senhor não mentiria para mim, né? Eu vou poder mesmo continuar vindo aqui, sentar nessa cadeira, ser cuidada por todo mundo aqui no posto?

– Mas não tenha dúvida, dona Matilde.

– E vou poder pegar minha netinha no colo?

– Claro.

– E posso abraçar qualquer pessoa?

– A senhora pode até me abraçar, dona Matilde.

E eis que aquela senhora abre os braços e me envolve em um abraço, aos prantos. “Muito obrigada”, disse. É um novo filme passa na minha cabeça: minha infância pobre, o mais novo de oito filhos, as causas e condições que me levaram para a medicina, para a medicina de família, para aquela cidade distante cinco mil quilômetros da cidade onde nasci e cresci, a saudade da mãe, aquele grande amigo com mais de trinta anos de HIV, aquele outro amigo que foi diagnóstico há pouco tempo, a fragilidade e a riqueza desse fenômeno chamado vida. E cai uma lágrima de dentro do meu ser, enquanto abraço aquela pessoa pequenina.

– Doutor, então eu vou indo, muito mais tranquila. Não quero mais tomar o tempo do senhor. Eu posso vir amanhã com a minha filha para o senhor me explicar como vai ser daqui pra frente? Os exames, os remédios?

– Por favor, dona Matilde. Estaremos esperando a senhora.

E dona Matilde sai, leve como uma pluma. Vejo Bruna e Pamela emocionadas.

– Professor, que lindo isso tudo! Mas ficamos com uma dúvida: um médico no hospital nos disse uma vez que jamais devemos abraçar pacientes, nem em consultório particular, pois “dá muita liberdade” para o paciente pedir mais e mais coisas, e se torna um fardo. Quer dizer que podemos abraçar também?

“Preciso ser cuidadoso com as palavras”, penso enquanto lembro do zelo que aprendi a ter quando faço ikebanas, aqueles arranjos florais japoneses.

– Gurias, mas se até os médicos de UTI falam que o abraço e o toque ajuda, o que dizer de nós, médicos de família, de gente, de vidas, de histórias e de emoções? Abraço é terapêutico para pacientes e para nós. E imagino que vocês tenham tido um exemplo agora há pouco.

– Sem dúvida, professor. Levaremos isso para a vida. Obrigada – falaram as alunas ao mesmo tempo.

Então me despeço das alunas e fico a pensar no consultório. O relógio marca meio-dia, hora do almoço. Olho para a foto do Lord, meu cachorrinho que morreu há alguns meses após 14 anos de carinho, e fico ali, absorto nos meus pensamentos, nas minhas saudades, nas minhas lágrimas, no vazio. E lembro de mestre Dogen, um antigo mestre zen japonês, que dizia que a nossa prática na vida deve ser “de ganho nenhum”. Acho que é isso. Apenas médico de família, de gente, de vidas, de histórias, de emoções. Sem ganho nenhum, nem fardo, nem pluma.

Muitos meses depois, após idas e vindas da dona Matilde que segue “muito bem, obrigado”, quando estava fazendo mais um ikebana às pressas antes do jantar durante um retiro, assim que terminei o arranjo floral, lembrei da dona Matilde, e do que significa a vida: um sopro, uma flor que desabrocha e murcha, uma força, o voo do pássaro que não deixa rastros, um instante. E o ikebana ficou assim. Sou grato à senhora, dona Matilde. E me descobri nem fardo, nem pluma.