Novembro multicores

por Alfredo de Oliveira Neto

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Estava 20 minutos atrasado, o dedo em riste rumo ao ponto eletrônico. O próximo paciente era jovem, recém chegado ao Rio e em grave sofrimento psíquico. Apesar de a consulta não ter sido marcada, tive que estendê-la por motivos óbvios, o que alcançou o horário do meu compromisso seguinte: ação coletiva da minha equipe de saúde nas ruas de Vila Isabel referente ao chamado “novembro azul”.

Neste mês acontece uma campanha anual de conscientização do cuidado do homem que se iniciou na Austrália em 2003 e tinha como foco o câncer de próstata. Como hoje em dia nem o Ministério da Saúde, nem o Instituto Nacional de Câncer, nem os comitês sobre prevenção à saúde dos EUA, Canadá e Reino Unido recomendam o rastreamento de câncer de próstata em assintomáticos sem história familiar, decidimos focar nossa singela atividade nos fatores de risco que realmente importam para o homem: violência, tabagismo, etilismo, obesidade e infecções sexualmente transmissíveis. Queríamos ir para onde supostamente os homens estariam numa tarde de sexta-feira: o bar. Para evitar um tom maçante e professoral de palestra e não atrapalhar o meio ambiente, decidimos, em vez de panfletar, criar cartazes com os seguintes hashtags:

# HomensMorrem+QueMulheres

#FiqueLongeDasArmas

#FaçaMaisAmor #EncapeOZé

#SaibaBeber #NãoVacile

#CigarroBroxa #éCaroeEnvelhece

#SeLigue #FrituraeGorduraEntopeCoração

No intuito de garantir que não seríamos ignorados, homens vestidos de mulher, e mulher de homem, pandeiro, marcação cênica e a música Tem Pouca Diferença, de Luiz Gonzaga.

Logo após a consulta com o jovem, corremos ao banheiro, o agente comunitário e eu, únicos homens do grupo, para colocarmos os vestidos emprestados pela minha mulher. Enquanto, de cuecas, apanhávamos com uns buracos existentes no colo do vestido que achávamos que era para os braços, mas era para os seios, adivinhem quem entra no banheiro após ter pego a medicação na farmácia? “Rapaz, veja só, vamos fazer uma campanha de saúde…” balbuciei totalmente sem jeito, ainda com jaleco na voz, para o meu jovem paciente que havia acabado de atender.

Quando já devidamente maquiados e ensaiando com o resto do grupo, ele já aplaudia e cantava junto, ouviram até ele comentar: “e ainda dizem que o doidinho sou eu”. A consulta havia sido ótima e ele ainda, rapaz!, comete este insight freudiano?! Depois dizem que médico de família não deve participar das ações de promoção…

Desde o nosso primeiro bar, percebemos um achado antropológico: a maior parte dos bebedores de Vila Isabel no fim de tarde de sexta são do gênero feminino, bem-vindos à Vila do novo século. Utilizamos inicialmente como plateia cobaia os clientes de um bar, bem roots, na esquina da Visconde de Abaeté com a Boulevard 28 de setembro, os bebedores estranharam de início, mas fomos laureados no final com algumas palmas esparsas. Adiante, encontramos um compositor que fez questão de cantar o seu samba acompanhado do meu pandeiro. Estava só, mas acompanhado da oitava cerveja de garrafa. Montamos também o circo em outro roots bar Vila, na Duque de Caxias em frente à oficina de carros. Um pedreiro trabalhando no primeiro andar de uma casa na Torres Homem fez fiu-fiu para mim e Luiz, o agente comunitário, agradecemos como madames. De uma coisa tínhamos certeza, usar saias numa tarde quente no final da primavera em Vila Isabel é muito melhor que calças. Dá para abanar.

Como os bares ali do quadrilátero, o baixo Vila, estavam ainda repletos de mesas vazias, tentamos entrar no Hortifrutti da 28. Fomos gentilmente acolhidos pela supervisora, eu, elegantemente de batom, me apresentando como médico da nova clínica da família, mostrava-lhes cada membro da equipe e suas funções, mas infelizmente não conseguimos entrar, precisava da liberação do gerente de marketing, anotei o telefone e convidei a supervisora para conhecer a unidade de saúde da família. Precisávamos de um bar cheio, repleto de homens sedentos por informação sobre saúde e receptivos a uma performance político-musical.

Andamos toda a Jorge Hudge, sem nos animarmos muito. No fundo, já sabíamos onde seria nosso gran finale, um bar na beira da São Francisco Xavier, barulhento e quente, chamado Loreninha. Os estudantes da Uerj praticamente colam o grau ali, além de ter gente de outras tribos devido ao preço acessível da cerveja em temperaturas boreais. Bingo! Lotado e repleto de homens sedentos.

Sempre quando começávamos a performance, as pessoas olhavam meio de canto “não tenho dinheiro não, moço”. Quando, no final, entregávamos os preservativos e o kit da saúde do homem com cartilhas e outros penduricalhos, as pessoas sacavam que não éramos vendedores de rua, e aí alguns batiam palmam, os garçons davam um legal e partíamos. O Loreninha estava lotado e decidimos fazer nossa mini-apresentação sem comunicar ao dono. Quando me posicionei, olhando para a rua, na soleira do piso de cima do bar e comecei “que diferença da mulher o homem tem?”, vi no canto do olho a indecisão da dona em me expulsar ou não, estava muito confuso para alguma decisão rápida: vestido de mulher, todo pintado, com aparência de zona sul, sotaque de nordestino e não era um calouro.

A apresentação era organizada previamente para combinarmos o local de cada um no intuito de todos os clientes poderem nos ver, permanecíamos alguns segundos em estátua, e eu começava a música, havia uma deixa para que um erguesse pausadamente o cartaz, e assim era seguido, também lentamente, por todos. Na segunda deixa, eles começavam a se mover como aquelas mulheres no intervalo do boxe, passo decidido e sorriso largo. Novamente paravam em outras posições e dois deles largavam os cartazes e distribuíam os kits e preservativos, enquanto eu ia ficando rouco, competindo com o barulho dos ônibus. Apesar do constrangimento da dona, tudo estava ocorrendo na perfeição. Quando acabou, fiz um discurso breve sobre o cuidado dos homens, e agora chegou a parte mais interessante da crônica, lá ia eu falando sobre violência como causa de morte importante entre os homens, levantei a mão imitando uma arma quando para abruptamente, juro, um carro da polícia militar em frente ao bar. Um garoto de rua que estava ali vendo nossa apresentação da calçada percebe, fica lívido, e parte em disparada sentido 28 de setembro atropelando os jarros de planta. Dois policiais rapidamente saem do carro com a arma em punho, todos do bar se curvam, preparando-se para o chão. Desistem de atirar e entram no ônibus atrás de um suposto segundo garoto, todos do bar assistindo à cena. Não o encontram, entram novamente na viatura e partem zunindo de sirene ligada. Não me curvei, estava de camarote, virei estátua na soleira do piso do bar. Quando a poeira desceu, terminei o meu discurso interrompido com um “tão vendo? Eu não disse? Se cuidem!”, olhei para a dona que a esta altura já era nossa camarada e nos trouxe uma cerveja boreal. “O negócio aqui não tá brincadeira não, doutor”.

Voltamos para a clínica sem muita conversa, já havia mais gente na rua sedenta à procura de bares, a gente meio já esquecidos de nossos trajes, uma menina passou por nós “sen-sa-cio-nal!”. Rimos e nos percebemos: a Clínica da Família Pedro Ernesto não mais possuía uma equipe com o nome Manoel de Abreu, havíamos nos tornado a Equipe Azul Profeta de um Novembro Homem.

A morte da calopsita

por Alfredo de Oliveira Neto

miro3(Mujer y pájaro a la luz de la luna, Miró, 1949.)

Um dia fui fazer uma visita domiciliar na Tijuca que abalou minhas certezas, ou suposições, sobre como o mundo deve girar sobre o seu eixo.

Psicóloga há 24 anos, atuante em consultório, conseguiu reservar economias para comprar um apartamento, onde mora há 10 anos. Não casou e nem teve filhos, conviveu desde então com 5 calopsitas.

Foi demitida de um emprego e o consultório começou a minguar faz uns dois anos. No início do ano passado fechou o consultório e trouxe todos os móveis e livros para a sala de seu apartamento de 67 m².

Desde que sua mãe faleceu há 4 anos vem amargando uma tristeza que se ampliou com o abismo financeiro. Perdeu o contato com todos os irmãos.

Como também é bacharel em direito, foi atrás de recursos, estava sem nenhuma renda, e conseguiu uma bolsa-família. Sim, aquele benefício que até então, pensava eu, nenhuma família moradora de um apartamento na Tijuca jamais precisasse, e caso fosse, não teria direitos pois certamente nos morros do Borel e do Formiga haveria centenas de famílias mais necessitadas. Culturalmente conservadores, muitos tijucanos, pensava eu, inclusive são contra o bolsa-família, consideram uma esmola assistencialista desnecessária, muitos bateram panela contra o governo que associou este benefício como uma de suas marcas. Só que não.

Não só recebe 85 reais mensais do bolsa, como também é ajudada por um Centro Espírita próximo à sua casa que lhe fornece uma cesta básica mensalmente. E só.

É completamente lúcida, sabe que não durará muito apenas com feijão, macarrão e arroz e por isso já tentou suicídio com medicações, sem sucesso. Com 57 anos, não possui a menor perspectiva de como ampliar a renda, já tentou voltar a atender em sua sala, mas supõe que a condição em que vive – organização da casa, auto-higiene e saúde abalada afastaram os últimos clientes. A sua lucidez é um castigo.

Há alguns meses sofreu uma queda da própria altura, vem se sentindo tonta, o que reforçou o medo prévio de sair de casa. Sai apenas uma vez por mês para ir à lotérica receber o benefício.

Diz não comer uma fruta ou proteína há muito. Obviamente diz que sim, passa fome.

No entanto, o que mais a abalou recentemente foi a morte de 1 de suas 5 calopsitas. “Morreu de fome”. Desde então decidiu passar um pouco mais de necessidade para garantir a parte do feijão, macarrão e arroz para as quatro calopsitas restantes. Neste momento da visita, ouvimos uma longa cantarolada das aves que moram numa gaiola na cozinha. “Tá vendo? Elas sempre sabem quando eu falo delas…”

Voltei dirigindo para casa em silêncio sepulcral, não ousei ligar o som e nem conferir o zap, o meu mundo estava em franco processo de reequilíbrio à procura de outro eixo.

febre por dentro

por Alfredo Oliveira Neto

(para Júlia Rocha)

quando Celsius beija o Farenheit do meu desejo

me sinto inteiro, quente, maneiro

38 é quase minha idade e por maturidade

minha velhice vira bebê

me sinto prenho e mantenho uma chama

de delícia nas minhas entranhas

nada do que é pouco me sacia

e nunca saberia que

grau tem a ver com quentura

39 ou 40

pra mim é par de sapato

porque tudo o que me esquenta é doçura

e nem você de cima do seu salto

e do seu sentimento

perceberá de leve que agora

o nada que eu sinto por fora

vem da febre de tudo que eu sinto por dentro

crédito cardíaco

por Alfredo de Oliveira Neto

nunca fui tão debitado pela sua paixão

sua ganância de me querer à vista

essa generosidade de não cobrar

juros de beijo meu

sempre me fez economizar afetos

 

num planejamento concreto

do que vai ser a longo prazo

me penalizo do risco

de sempre investir no acaso

não sei se no fundo dos meus investimentos

a bolsa que eu trago se descostura

e deixa cair a crise

sobre a qual assinamos concordata

 

sinto uma palpitação chata

que taquicardiza essa figura

chamada meu coração

rogo para que o déficit coronariano cicatrize

e no superávit da minha ilusão

você volte para os braços da usura

e que o nosso produto interno seja bruto

uma tremenda exportação de prazeres

e tudo que for importado seja sem tributo

o vinho, o queijo, o pão

 

e este ar que me falta?

essa inflação de O2, de nós dois

essa economia de dizeres que me ama?

 

tudo isso piora a pressão

dos meus investidores arteriais

não serão os meus ais

que penalizarão o nosso ato

mas se o meu débito for perdoado

um largo crédito cardíaco

será dilatado sem juros

cá dentro do peito

e tudo que me é de direito

será socializado

e o nosso amor será considerado

estado