Pontos turísticos

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por Mayara Floss

– Mataram um aqui, outro ali – ele aponta com o dedo indicador, e segue naturalmente – mataram outro aqui. –  ele mostra com a mão uma porta de garagem, seguimos andando – mataram um mesmo aqui – aponta o ponto do cachorro quente – aqui o pai viu o filho morrer, na verdade ele achou que eram uns amigos e chamou o filho pra morte – aponta a porta de uma casa – agora o pai decidiu se mudar – caminhamos mais um pouco – mataram também aqui, mas já faz um tempo. Pergunto: – quanto tempo? – ele diz – Ah, alguns meses só.

(Caruaru, fevereiro/2017)

O que me faz voltar

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por Gabriela Machado

É fevereiro e faz um calor daqueles na cidade de São Sebastião, de São Jorge e de Ogum. Hoje não dormi bem, pois tive uma discussão daquelas com meu pai o que me fez ir deitar muito tarde. Associado ao fato que é quase carnaval, o que quer dizer que já estamos purpurinados por mil vidas ( é que purpurina não sai muito fácil da onde encosta) e que eu ultrapassei meus limites cantando marchinhas e batendo o pé no chão ao ritmo dos tambores de olokun. Bom, voltando ao meu pai, apesar de ter 31 anos ainda dependo dele para me sustentar. Faz parte da escolha que fiz de fazer medicina como segunda faculdade. Sim, pai, você tem mesmo razão. Sou grata ao fato de você ter ultrapassado suas dificuldades de se expressar e ter falado comigo (meu pai é muito contido). Faço-lhe afagos e peço desculpas também ultrapassando minha dificuldade do toque. Acabei de chegar da minha primeira aula de dança e isso facilitou o caminho do meu coração para minhas mãos e, finalmente, aos cabelos cada vez mais grisalhos do meu amado pai.

Saio de casa atrasada, pego o ônibus pra Rocinha. É dia de visita domiciliar, ou seja, meu dia preferido, e eu não me preocupo tanto com o calor que vou sentir ao subir o morro. Hoje vamos ver o seu Honório. Ele tem 65 anos e foi diagnosticado com câncer de estômago, mas não quer mais se tratar.

A Rocinha é cortada por uma vala de esgoto que corre a céu aberto. Um rio, que não é rio, no Rio. Passamos por ele algumas vezes na subida pra casa do nosso paciente. Algumas paradas no caminho: Alexandre que caiu da laje e está se recuperando. Cria umas galinhas e oferece café. Olha, tem que ficar de olho no Felipe…ele não está tomando o remédio de tuberculose não. Batemos na porta, mas o Felipe não está desde ontem. Ele é travesti e faz programa à noite, além disso ele é o vizinho do Alexandre e cuida das galinhas dele quando ele não está. Na favela tem dessas coisas: está todo mundo muito perto. É um território que favorece os afetos. Afeto no sentido de se afetar com o outro. Tudo se esbarra, se espeta, se cuida, se olha. Vamos lá no Seu Honório. Tem uns cachorros que moram ali na escadaria que é continuação da casa de dois cômodos que vamos visitar. Eles fazem que não vão deixar, mas sob olhares atentos deixam a gente passar sossegados.

Oi, Seu Honório! Tudo bem com o senhor? É a residente falando. Eu sou acadêmica. E paro nesse momento: que casa tão limpinha! Fico até com medo de sujar com meus sapatos. Ele está só. Não vou não. Mas, Seu Honório…Não adianta que não vou. Está irredutível. Depois que minha filha voltou pro Ceará eu fiquei sem vontade. Ah, sim. Mas ela precisou voltar para trabalhar, não é?! E tem sua outra filha. Mas aquela era minha preferida. Essa não sabe cuidar de mim. A Cátia que sabia as coisas que eu gostava e as que eu não gostava. Agora já não importa. Quero só ficar aqui quieto em casa. Vou não. Mas a situação do senhor pode ficar pior. Imagina ter que ficar internado, ir pro CTI, ter um sangramento em casa…tantas coisas. Eu não vou não, doutora. Vou morrer aqui em casa se tiver que morrer. O Alexandre também chega. Vamos lá, eu posso levar o senhor quando precisar. Mas não tem jeito mesmo. É difícil deixar a casa. O que fazer? Tem coisas que a ciência não alcança. A medicina não dá conta da complexidade do ser humano. E tem que dar? E a gente? Faz psicologia para aprender a lidar com essas questões? Palestra de comunicação não violenta, yoga, análise, danças, aula de maracatu…olha o carnaval aí. Tanta coisa essa vida. E será que ele não tem razão? Também quero morrer em casa. E, quem sabe, ganhar muitos beijos e carinhos dos meus bem-quereres. Mas o senhor pode ter uma qualidade de vida…que qualidade de vida, minha filha? É..hoje não está fácil. A gente volta, tá bem? Vocês que sabem, mas eu não vou fazer nada de quimioterapia, nem nada enquanto a Cátia não voltar.

Tô em casa olhando pro céu mudar de cor. Mas não tô vendo. Tô vendo é o chão limpinho daquela casa. Imaginando a Cátia e o Seu Honório juntos e agora ele sozinho. Esse sistema que impõe que uma filha tenha que se afastar do pai para conseguir dinheiro em troca da venda da sua força de trabalho. Que ele tenha que ter saído de perto de sua família e sua terra para conseguir dinheiro. E que agora à esta altura da vida ele esteja só. Tem que saber o que é seu e o que é do outro, Gabi. E o que é que é meu aí? Eu penso no meu pai e nos seus cabelos grisalhos. E na sua dificuldade de desligar o alarme do celular, que quer dizer sua dificuldade com as novidades, que quer dizer que ele está envelhecendo. E penso na minha casa que também tem o chão limpinho por que minha mãe tem mania de limpeza. E penso no meu avô que foi tirado de perto da gente em um dos momentos mais importantes da sua vida: a sua morte.

Ninguém sai impune da vida. Ninguém sai impune da medicina de família. Vale a pena sofrer se é esse o preço do afeto, ou da tomada de consciência do que ele produz em mim. Voltaremos Seu Honório. Voltaremos quantas vezes couberem na sua vida e não importa o que você vai querer fazer dela, estaremos contigo mesmo que não saibamos muitas vezes o que ou como fazer. Mesmo que não saibamos como lidar com sua fuga (?) e seu sofrimento (o seu e o que o sistema te impõe). Mesmo que isso faça a gente sofrer. Estaremos por que esse é o nosso dom, não o dom de cura, mas o de se afetar e continuar presente.

Uma história de amor

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É, eu sei, as histórias de amor estão batidas, são melosas ou simplesmente idealizadas. Pra que perder tempo com elas?
 
Eu estava na faculdade de medicina e em uma fase particularmente descrente nesse “amor pra toda a vida”. Aproveitei a oportunidade e topei passar alguns meses morando fora de casa, em uma cidadezinha de 30.000 habitantes, chamada Piraí. Lá, faria meu internato em Medicina de Família e Comunidade.
 
Ainda nessa tendência intimista, como se tivesse muito a achar na minha introspecção, optei por me afastar ainda mais: me refugiei em Santanésia, um distrito de Piraí. Uma única equipe de saúde da família era responsável por toda a (minúscula) população, que somava um total de 1300 pessoas.
 
Durante o internato, chamou a atenção o número de idosos no local. Consequentemente, haviam também muitos cuidadores de idosos. A bem dizer, eram 22 cuidadores no total. Resolvi fazer meu trabalho de conclusão de estágio sobre esses cuidadores: quem eram, como faziam para superar as dificuldades diárias. Afinal, cuidar de alguém de forma tão íntima é um trabalho sem fim de semana, um trabalho que exige tanta comunhão e comprometimento que, eu diria, não pode mais ser considerado um trabalho. É uma devoção.
 
E a carga emocional…quando os cuidadores eram da família, era ainda mais confuso. A dor de ver o familiar piorando, apesar dos cuidados. Ou a dor do cuidador que sofre com o mau-humor e maus tratos da pessoa que cuida. E a insegurança de, não tendo nenhuma formação para o cargo, simplesmente estar fazendo tudo errado.
 
Mas, como eu disse, eram 22 cuidadores – desses, 21 eram mulheres. Somente um era homem. Desse, eu nunca esqueci: cuidava de sua esposa. Engraçado, sempre que lembro deles, os imagino vestidos de branco. Acho que faço relação com o compromisso do casamento. Mas, estou me adiantando.
 
Moravam ele e sua esposa, ambos com muitos cabelos brancos na cabeça, denunciando os mais de 70 anos vividos. A casa, aconchegante e arejada, limpa. A encontrei no sofá, com um monte de mau-humor estampado no rosto. Respondeu ao bom dia com palavrões. Ele tentou acalmá-la, recebeu alguns xingamentos bem específicos – acho que ela vinha praticando a arte de ofender há muito tempo!
Chegava a ser engraçado o contraste entre aquela senhora angelical, naquela casa de campo, xingando com tanta desenvoltura.
 
O marido se desculpou: “Ela tem Alzheimer, há muitos anos. Os remédios melhoram as coisas, mas não gosto de deixá-la dopada e dormindo o dia todo, então tem dias que são assim.”.
Eu, estudante, continuei curiosa: “São muitos esses dias?”.
Ele riu, cansado, e disse: “Acho que quase todos!”
Me surpreendi. Imagina ouvir isso todos os dias! Ninguém é de ferro, não! Por isso, veio a minha próxima pergunta: “Tem alguém da família que ajuda o senhor?
Ele me explicou que os filhos moram em outras cidades, têm suas famílias e suas vidas. Visitam e ligam sempre, mas não podem morar com eles.
Eu, preocupada, insisti: “Mas e um cuidador, para dividir a carga? Não deve ser fácil viver assim!”.
 
Ele deve ter visto alguma coisa no meu rosto, porque se levantou e foi sentar ao lado da esposa. A abraçou, e ela deixou. Ficou mais calma e esboçou um sorriso. Foi aí que ele me ensinou:
 
“Ela é minha menina. Foi minha namorada, foi minha noiva, é minha esposa…(respirou fundo)…É o amor da minha vida. Não tem outra pessoa pra cuidar dela, não.”
E sorriram um pro outro, como se nem o mundo, nem o Alzheimer, existissem.
 
Amor é difícil de definir. Mas aquela cena, naquela casa, naquele vilarejo me ensinou de amor, comprometimento, compromisso, de um jeito que Shakespeare nenhum conseguiu.
O amor de um personificado no outro, o outro a personificação do amor do um. Uma soma muito além do que eu entendia.
 
Realmente, não existe nada de mesquinho no amor.
 
Já de volta à clínica, escrevendo o relatório da visita, tive vontade de terminar as anotações no prontuário com aquela célebre frase: “e viveram felizes para sempre”.

​Adoçante?

por André L. Silva
Mais um dia na Unidade de Saúde. Mais uma agenda cheia de demandas espontâneas. Mais pessoas. Mais um gole de café. Ok, é a vida seguindo, é a agridoce sina de ser médico de pessoas, de famílias e de comunidade.

Penúltimo atendimento da manhã, dona Sônia, 80 e muitos anos. Aquela senhorinha pequenina, rechonchudinha, mais uma senhorinha. O caso? (e a nossa mania de querer rotular e dar diagnóstico a tudo) Diabetes pouco controlada. 

Breve história que dona Sônia conta. Mais uma. Às vezes esquece-se de tomar os remédios e de aplicar a insulina. A visão cada vez mais borrada. Ok, não foi a primeira do dia.

– E a alimentação, dona Sônia? Como que a senhora faz?

– Ah, doutor, comida de pobre, né? Como moro sozinha, eu “me viro” com o que consigo. Um feijão, um arroz, essas coisas. 

– E a senhora adoça as comidas com o quê? Açúcar ou adoçante?

– Doutor, confesso que uso açúcar, mas pouquinho. Ou quando não tem, não uso nada.

Exame físico… Orientações de praxe… Solicitada avaliação do oculista… Receitas… Ok, não foram as primeiras do dia. Mais um dia.

À tarde, pouco antes de sair, converso rapidamente com a Elisângela, agente de saúde, sobre a consulta e sobre as orientações dadas à dona Sônia, inclusive sobre o adoçante:

– Olha só, imagino que ela tenha ficado com vergonha de te contar, mas ela passa muita necessidade, chega a passar fome. Mora de aluguel em um quartinho, está devendo 2 meses e sofre muita pressão da dona do quarto. Está devendo dinheiro de empréstimos que fez para tentar tratar a filha dependente química que vive “no mundo”. Quem ajuda muito ela, inclusive com refeições, é o vizinho dela, o Alemão e sua esposa.

– Hum, sendo assim, quem sabe a gente faz uma visita a ela?

Ok, dito isto, mais um dia se encerra. Vão-se horas, dias, e uma semana depois, retomamos a conversa e partimos para visitar dona Sônia. Somos recebidos na entrada pelo Alemão, seu vizinho:

– Pessoal, dona Sônia está internada. Sofreu uma “isquemia cerebral” e levamos ao hospital. O médico lá disse que não foi grave. Ela deve ter alta nos próximos dias. Informo vocês.

Bate aquela culpa básica (e arrogante, até) de médico de família, sempre se sentindo mais responsável que de costume: deixei de fazer algo? A dose da sinvastatina estava baixa? Esqueci alguma orientação? Ok, mais um dia… Mais um dia, mais conversas com Elisângela e com a equipe de trabalho, até recebermos o telefonema do Alemão alguns dias depois:

– Dona Sônia já está aqui.

Planejamos a visita a casa dela. Mais uma da rotina de quem faz consultas no consultório e em domicílio. Dia marcado, no final da manhã, chegamos ao quartinho. Somos recebidos por uma dona Sônia enxergando com dificuldade. “Entrem, entrem!”. Glicose capilar (aquela medida na ponta do dedo) 300 e muito. Poucas sequelas motoras – provável ataque isquêmico transitório (lá vem essa mania de diagnosticar tudo. Pare para prestar atenção nela, cara!). 

– Dona Sônia, e como a senhora está fazendo com a alimentação? – pergunta Elisângela.

– Hum… ah, minha filha, eu comi um pão de ontem. – responde constrangida.

– E a senhora tem café, alguma outra coisa em casa?

– Oh, minha filha, só contando com a ajuda de Deus, do Alemão e da Tita (sua esposa).

Nos armários, apenas pratos e nada de comida. Na geladeira velhinha, água e a insulina na porta. No fogão, um resto de café frio. Quartinho pequeno, claro pela luz do sol que entra por uma janela, asseado, em ordem, graças aos cuidados da Tita e da própria dona Sônia.

Eis que, encima da mesa, reluz aquele pequeno frasco transparente com líquido incolor. Ele mesmo, o adoçante.

– Dona Sônia, e esse frasco aqui?

– Viu, doutor? Eu segui a sua recomendação e comprei o adoçante. Ao menos no café estou usando.

Engoli em seco. Idiota, idiota, idiota, como pude ser tão idiota? 

– Dona Sônia, vamos ver o que podemos fazer, tudo bem? Vamos ver outras possibilidades para que a senhora possa usar o adoçante, ok?

E, na saída, falamos em meia voz para o Alemão:

– Vamos providenciar alguns alimentos para ela. Você tem como receber e a Tita ajudar a preparar?

– Claro, pessoal. Aguardamos vocês.

Compramos alguns itens no mercadinho da esquina, e não esquecemos alguns vegetais (os médicos sempre dizem que é bom comer frutas e verduras, não é? E usar adoçante também, certo?).

Elisângela leva as compras e mais uma televisão pequena que ela tem sobrando em casa (dona Sônia não tinha uma) no início da tarde.

E me tranco no consultório. Idiota, idiota, idiota. Por que você reforçou justamente o adoçante para quem mal tinha o que comer? E algumas lágrimas de uma mistura de culpa e tristeza escapam como aves em revoada. 

Mais um dia, mais pessoas atendidas. Mais uma pessoa que usa adoçante. 

Já em casa, à noite, uma enxurrada de conclusões e aprendizados (não de diagnósticos, por favor): na vida, para seguir em frente e cuidando de gente, devemos ser como adoçante. Mesmo que não seja açúcar, mas que traga algum sabor doce para as pessoas. Sabor. Aquela sensação fugaz do gosto do feijão feito pela mãe, daquele cafezinho passado. Idiotas também apreciam sabores, e podem usar e ser adoçantes.  Antes de dormir, lembrei-me de um texto japonês muito antigo: 

“É como olhar no espelho precioso,

Você não é ele, mas ele é tudo de você.”
Em tempo: uns dois meses depois, dona Sônia faleceu. Foi enterrada no interior. Não pude dizer adeus. Pois é, idiota. A filha soube semanas depois, depois de vagar a esmo por aí. Tudo o que pude fazer, como um idiota prescritor de adoçante, foi acender uma vela dentro do coração, e enviar uma coroa de flores imaginária: 

“Dona Sônia, obrigado por tudo,

(de adoçante)”

Em tempo 2:  Pela sua gentileza de ter chegado até aqui, deixo de presente uma playlist: “A arte de ser como é”. Músicas que mobilizam o meu ser, canções do presente e do passado, músicas que manifestam emoções em idiotas como eu. Espero que apreciem.

Com carinho, A.

Apple Music: https://itunes.apple.com/br/playlist/a-arte-de-ser-como-e/idpl.52792866c5a74f84831db82cfb36e5a8

Spotify: https://open.spotify.com/user/12149067289/playlist/4UWYbSgkSU1KDGWdTdM174

Cleck

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por Antônio Modesto

Família, família
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê é estridente
Assim não dá pra ver televisão
Família, eh! Família, ah! Família

Titãs – Família

Bebíamos na sala ele, o namorado e eu, conversando à meia luz e em meia fase. Contávamos com que idade tínhamos começado a beber, quando ele solta:
– Fiz xixi na cama até os quinze.
– Xixi na cama? Você tinha que colocar o colchão no sol até os quinze anos? – perguntou o namorado, me fazendo lembrar de quando minha mãe fazia isso no sobrado em Nova Iguaçu.
– Não… Eu não fazia xixi na cama toda noite até os quinze, já era raro. Mas eu usei fralda até os doze!
– Doze?! – o namorado não cessava de se surpreender. – Já nascendo pentelho…
– Mas tu andava por aí de fralda?! – perguntei, imaginando o desconforto, o volume, a escola. Imagina a escola!
– Não! Era só de noite. Aí eu comecei a tomar um remédio pra parar de fazer xixi na cama…
– Antidepressivo?
– Não sei, um lá que eu esqueci o nome, que me ajudou muito. Quando eu tomei esse remédio eu quase parei, só fazia de vez em quando, quando eu bebia muito…
– Bebia muito? Com quinze anos?
– Bebia muita água antes de dormir! Aí com quinze anos eu parei de vez.
Fiquei lembrando como era ruim o cheiro de colchão mijado.

* * *

– E agora tá morando meu irmão, a namorada dele e a filhinha deles lá em casa – ele conta.
– Tu não tinha um irmão que era xarope? Que tu escreveu outro dia no Face, e tal?
– É justamente esse!
– E ele agora tá morando na tua casa.
– Ele, a namorada, que fica super sem jeito, e a filha deles, que é uma fofa.
– Vocês são irmãos de mesmo pai e mesma mãe?
– Sim, sim.
– Puxa! Mas por que vocês são tão diferentes?
– Porque ele foi criado pela minha tia-avó.
– Porque tua mãe…?
– Minha mãe nada: quando meu irmão nasceu, minha tia-avó veio pra nossa casa ajudar. Então a criação dele foi muito influenciada por ela, e eu acho que isso deixou ele um cara que lida mal com as frustrações, meio babaca, sabe?
– Ah, tipo filho único criado com vó.
– Isso! Só que não era filho único, e era tia-avó.
– E cadê ela?
– Ela ficou com a gente até morrer, quando eu tinha uns quinze anos.
– Bem quando tu parou de fazer xixi na cama, né?
Quando seus olhos viraram plástico e sua boca congelou, eu sabia o que tinha feito. Já tinha visto aquela cara antes. Dava pra ouvir seu cérebro rangendo, os hemisférios destroncando, o arrepio na espinha, as imagens encaixando, o óbvio nunca visto.
– Que… do mal! – balbuciou, e eu o olhava contente, que delícia essa sensação de desvelo! Tomava ar, tentava falar alguma coisa, não conseguia. “O que que eu faço com isso agora?!”, devia pensar. Eu, inconsequente, não saberia responder.
– Muito obrigado, volta semana que vem – brinquei, e ele ria, reorganizando as ideias, voltando a si, entendendo a tarefa recém-surgida.
Bebemos.

Companheira

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por Rodrigo Lima

Alberto, 50 e poucos anos, usando um antidepressivo há alguns anos para controlar sua irritabilidade. Diz que é muito nervoso, e que com o remédio se sentia mais controlado. Diz que muitas coisas o preocupam, mas que tem muito apoio de sua companheira, que é muito tranquila. Se não fosse por ela, diz ele, perderia o controle quase todo dia. Avisa que ela será a próxima a ser atendida.

Sai Alberto, entra Clara, quase da mesma idade. Começa a consulta trazendo uns exames velhos sem quaisquer alterações, quer saber o que eu acho deles, e começa o rosário de queixas: palpitações, sensação de aperto no peito, fôlego curto às vezes, perturbações do sono, irritabilidade. Enquanto explorávamos sua história ela vai desmoronando emocionalmente, e menciona que talvez precisasse de um psicólogo, e que seu marido também. Diz que o marido era o paciente que atendi antes dela, e que ele é muito nervoso. Comentei que ele me disse o mesmo, e que falou que ficava melhor com ela por causa da tranquilidade que ela tinha. Ela imediatamente se recompõe, dá um sorriso amarelo e disse: “é, sou tranquila mesmo”.

Juventude

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por Marcos Mendonça
Conversando comigo do outro lado da varanda, Dona Terezinha me confessou o sonho que possui de voltar a ser jovem.
Enquanto a ouvia, sentia a transcendentalidade de seus pensamentos brilhar em suas pupilas enquanto lamentava seus arrependimentos. Tal qual o Farol da Solidão: emitindo uma bela e clara luz solitária, mas de portões trancados, arraigada em um balneário velho e abandonado. Entre um devaneio e outro, dizia que se tivesse mais uma chance não teria casado; dançaria mais, viajaria para outros mundos, conheceria pessoas diferentes e teria mais apetite pelos livros. Faminta por uma nova vida, a cada projeção emitia um suspiro, imaginando um dia no passado onde receberia a visita de uma Terezinha do futuro, que lhe mostraria todas as suas cicatrizes adquiridas pelas suas escolhas e que lhe desse conselhos de mudança, encorajando uma personalidade outrora pueril, covarde e coagida, a ter coragem para buscar, de uma vez por todas, a tão sonhada felicidade.

De volta aos pés no chão, retorno para casa. Ao sentar na mesa, me deparando com as folhas em branco, tento rabiscar algumas letras. Mas me envergonho dos olhares destas paredes brancas que me encaram questionando os motivos pelos quais, mesmo em pleno auge da minha juventude e de minha sanidade, novamente sinto vontade em trancar minhas portas e, entre lágrimas e decepções, desejo a passagem do tempo.

Penso então na conversa que tive. Sexagenária, tendo passado apenas poucos anos de sua viuvez, nem mais no dia de finados Terezinha visita o túmulo do falecido marido. Embora seu semblante não demonstre qualquer reação contra as chagas causadas pelo sofrimento dos anos, interrompia minhas retribuições de esperança para ensinar que nem os mortos merecem a memória da nossa tristeza.
E termina dizendo que nós, os sobreviventes deste mundo, somos os verdadeiros maestros da nossa própria vida. Nossos instintos mais profundos devem incentivar as nossas escolhas, construídas a partir do nosso caráter, com muita coragem e com muita alegria de viver – quebrando assim as correntes que prendem a abertura de nossos portões, movendo assim nossos solitários faróis aos oceanos. O medo não é sair da beira do mar: é iluminar aquilo que ainda não conhecemos.
Hoje Terezinha é a personificação do meu futuro batendo em minhas grades, me aconselhando a bradar por liberdade, por uma vida nova. No fim de mais um ciclo, não vou fraquejar. Vivo para ela e para a minha paz. Assim, ergo a cabeça em direção ao ponto mais distante deste oceano; esqueço as mágoas, remodelo as recordações e saio a buscar o desconhecido. A força das ondas na arrebentação já não são mais obstáculos.
Dá adeus à terra firme; sai em busca de ti.

Sabedoria de avó

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por Mayara Floss

Bom, segundo a lei municipal não pode-se ter galinhas na cidade, é arriscado para a saúde pública. Minha avó tem um terreno na zona urbana, com cara de rural, comprou com o dinheiro contado da aposentadoria, bem na periferia, estrada de chão. Lá no alto dos seus 90 anos cria galinhas e mantém suas parreiras. Galinhas proibidas pela ordem municipal. Galinhas que ela conhece o nome, são todas batizadas e ela ainda sabe quem está cantando. Ela cria para ter um ou outro ovo de vez em quando, ninguém tem coragem de comer essas galinhas. Na frente da casa (que fica no meio do terreno) não raro você encontra milho plantado ou alguma plantação da época.
Ela vai estar de vestido florido (ou de uma cor só) e chinelo de dedo. As agentes da dengue foram visitar a casa da vó, procurando larvas de mosquito, vasos, etc. Não encontraram nada, nadinha, tudo certo. A agente perguntou:
– O que a senhora faz para não ter nenhuma larva de mosquito na sua casa?
Minha avó respondeu:
– As galinhas cuidam disso.
A agente disse:
– Mas você não pode ter galinhas, galinhas são proibidas.
Minha avó respondeu:
– E mosquito? Mosquito pode?
A mulher despediu-se educadamente e foi embora e deixou minha avó em pé ao lado do fogão a lenha olhando para ela.

Médico de Fotografia e Comunidade

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por Guilherme Bruno

Lembro-me como se fosse ontem de Dona Neusa chegando no meio de uma tarde de sexta-feira, dia tradicionalmente mais vazio no Centro de Saúde em que eu trabalhava em Belo Horizonte. Ela era uma idosa robusta, alegre, otimista, determinada e muito disciplinada, daquelas pessoas que te fazem pensar que quase não precisavam de você, de tão bem que sabia se cuidar.

Ela trazia em suas mãos uma máquina fotográfica digital novinha, carregando-a como se fosse um pequeno animal que estava machucado pelo caminho e que recolhera para que alguém pudesse salvar. “Alguém deve ter esquecido no Centro de Saúde e ela trouxe pra gente guardar”, pensei.

– “Boa tarde, Dona Neusa! Vi a senhora mais cedo na farmácia, já pegou seus remédios direitinho, não é?”

– “Claro, doutor! Preciso me cuidar, né? Na minha idade se eu não andar na linha, morando sozinha, filhos morando longe, o trem sai do trilho!” – brincou, sorridente como sempre, repousando a câmera sobre a mesa.

– “Verdade, Dona Neusa! Mas com a senhora eu não me preocupo, confio na sua disciplina!”

– “E eu também confio muito no senhor, doutor! E é por isso que vim lhe pedir ajuda.” – disse ela aproximando de mim a câmera digital. “Meu filho vai voltar para o Brasil nesse final de semana com meu neto que nasceu tem uns meses e eu não quero perder nenhum momento com ele! Não entendo muito essas novidades e ninguém lá na vizinhança tem paciência pra me explicar como funciona essa maquininha. Mas o senhor sempre tem paciência em me ouvir e então eu vim aqui hoje pro senhor me ajudar.” – disse, decidida.

Na faculdade de medicina e na residência médica a gente é preparado pra lidar com várias situações, doenças e adoecimentos. Mas ninguém te prepara pra esse tipo de surpresa, que só quem trabalha na Atenção Primária e precisa exercer a Competência Cultural de forma tão vasta pode receber.

– “Puxa, Dona Neusa! Que surpresa boa, tem muitos anos que seu filho está morando fora, não é? Então precisamos nos apressar porque essa câmera aí tem que ficar nossa melhor amiga hoje ainda!” – respondi, já procurando o manual na internet.

Na sexta-feira seguinte, no final do dia, deixamos um horário combinado para revermos as fotos e ajudá-la a selecionar as que desejava que fossem impressas. Poucas vezes vi alguém tão grata em minha vida!

As pessoas sempre me surpreendem, mais que os avanços tecnológicos. Principalmente Dona Neusa, agora eternizada nas selfies com seu netinho, numa época em que essa palavra nem existia…