Fé no Cuidado

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por Carolina Reigada

Eu tenho andado desanimada com a medicina. Já vinha há uns meses, aí quando um paciente (cujo causo ainda escreverei) me falou que “médico e remédio é tudo tapeação”, eu concordei com ele. Muito. Meu coração concordou muito com ele.

Vejam, ser médica ou médico de família e comunidade não é fácil. Você está sempre contra a corrente. Você é aquele que repensa o remédio, diz que o exame não precisa e, muitas vezes, trabalha no posto de saúde do bairro e fica conhecido como o “médico do postinho”.

Com todo o PESO que ser o cara do “postinho” traz, sabe? Médico de família e comunidade é um especialista, sabiam? Ele faz residência que nem o cardiologista, o pneumologista, esses “istas” todos. Mas muitos médicos e pacientes nos acham… assim… inferiores aos “istas“. É. Inferiores. Tipo:

“Leva essa receita lá pro postinho que eles ficam renovando pra você” – gente, eu posso discordar da prescrição, eu sou médica também.

“Leva esse exame lá pro postinho que ele transcreve pra você”. – eu posso discordar da indicação do exame, sabe?

“Você leva seu filho no médico do postinho???? Que mãe ruim!” – é, uma vez uma paciente disse que a professora da creche julgou ela porque ela acompanhava no postinho. A parte feliz foi que a resposta dela foi: eles sempre acertam com meu filho e comigo. Ufa.

Enfim, lá estava eu, desanimada…eu tinha vestido o estereótipo de médica do postinho e estar me achando assim…inútil. Me perguntando se eu sirvo pra alguma coisa além de renovar receita e transcrever exame.

Eis que chega o residente: “Carol, não sei o que essa paciente tem.”

“Hum…que tá acontecendo?”

“Ah, ela tá com dor no corpo todo! Ela apoia o braço, tem dor. Apoia a mão, dor. Anda, dor. Mexe o pescoço, dor. Tudo dói!”

Aí, falamos de várias coisas biomédicas menos interessantes, conversamos sobre diagnósticos diferenciais, até que entramos no consultório para falar com a paciente. Olha ela:

“É que eu vou na pneumologista e ela só olha o pulmão. Eu vou no cardiologista e ele só olha a pressão. Agora, dor no corpo todo…eu não sabia onde ir. Vim pra cá, pra vocês olharem tudo”

Já fiquei mais feliz, ó, alguém me valorizou. Aí eu:

“Me fala mais dessa dor, quando começou?”

“Ah, tem um ano…mas tá muito pior há 3 semanas”

“E o que estava acontecendo na sua vida há um ano?”

“Ah, eu tive enfisema há um ano”

“Teve…ou tem?”

Pausa. Choro.

“Eu não planejei isso. Eu tenho 50 anos e tudo me cansa, forró me cansa, trabalhar me cansa. Eu não consigo seguir o ritmo das outras pessoas. Eu não consigo ir nas festas da minha família, porque todo mundo fuma. Eu vomito se alguém com perfume forte fica do meu lado. Eu nunca imaginei que chegaria aos 50 anos me sentindo com 70. Eu tento não deixar minha doença me definir, mas na minha família, ninguém leva a minha doença a sério”.

“Você acha que as dores têm a ver com o enfisema?”

“Eu acho, eu interno uma vez por ano, e cada vez que eu interno, eu saio pior. Mais fraca. É como se o oxigênio não chegasse nos meus músculos, aí eles ficam fracos e doem”

“Entendi. Realmente deve ser muito desgastante sofrer e não poder ser acolhida por ninguém”

“Você acha que tudo isso pode ser da minha cabeça, pode ser nervoso?”

“Eu acho que nervoso tem a capacidade de deixar tudo pior, inclusive as dores. Tem muita gente que fica nervosa e fica com dor no estômago, dor na cabeça…”

“Olha eu aqui, colocando os podres todos da família para fora, desculpa”

“Nada, estamos aqui pra isso. Quando a boca fala, o corpo sara”

“Nossa! Você tá falando de nervoso, então agora eu vou te dizer o que aconteceu! Já sei! É a minha sobrinha. Sabe quando isso tudo começou? Quando eu vim cuidar dela, depois do acidente dela. Larguei minha vida pra cuidar dela, e foram uns meses infernais. Assim que ela voltou pra casa dela, eu fiquei doente. Fiquei com enfisema. A partir daí, o corpo nunca parou de doer. E faz 3 semanas que ela ligou e disse que tá voltando pra cá.”

Risada

“Muito obrigada. É isso! Olha, a dor tá até melhor. Olha, vocês estão bem na fita aqui, hein? Era muito mais fácil só escrever dois remédios no papel e me mandar embora. Mas olha só…é isso. Muito obrigada. Eu volto daqui a umas duas semanas pra falar com vocês!”

E pronto. Ainda estou com a fé na biomedicina abalada. Mas foi só uma paciente reconhecer o nosso fazer diferente que voltei a ter fé no Cuidado.

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Médica de burocras

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por Márcia Santos

E ontem tivemos mais um causo.

Dona Célia* já era minha velha conhecida na unidade. Vou relembrá-los:

Em 2013, chamei o nome dela que já aguardava a consulta por algumas horas. Quando perguntei qual motivo a levou até a clinica, ela respondeu que ia receber um benefício por conta da saúde debilitada mas, para isso, precisava abrir uma conta no Itaú.

Sim. Era essa a demanda dela.

Aqueles milésimos de segundos em que utilizei o raciocínio tipo 1 buscando respostas rápidas na mente para esse “problema médico” ao mesmo tempo que me surge na cabeça o pensamento “tá de sacanagem”.

Nada.
Vazio. Mente vazia.
Zero scripts mentais.
Silencio.
Meu rosto refletindo nos olhos da dona Célia que aguardava minha resposta.

Acionei o raciocínio tipo 2: busca na literatura. Entrei no google e busquei o endereço da agência mais próxima e as linhas de ônibus que a levariam até lá.

“Mais alguma coisa?”
“Não doutora, só isso mesmo, obrigada.”

Pois ontem, dona Célia voltou.
Fez 65 anos semana passada.
Tinha agora direito ao RioCard Senior, cartão de gratuidade para o transporte público municipal.
Um irmão informou a ela que precisaria tirar a foto pro cartão. E ela foi lá, na clínica, para eu tirar a foto dela. ❤️❤️❤️❤️❤️

É mto amô, minha gente ❣️❣️❣️

Como já conhecia a paciente, (longitudinalidade linda) entrei no site do RioCard e agendei dia e horário no posto de atendimento que dona Célia escolheu. Ganhou abraço de parabéns. Ficou de voltar semana que vem pra dar outro abraço, pelos “meus” parabéns.

Fui dormir pensando que era uma médica de burocracias, mas acordei com a certeza de que acolho as demandas dos pacientes.

Me arrependi de não ter tirado uma selfie, mas depois ia ser complicado pra dona Célia entender que aquela foto não bastava.

*Nome da paciente foi trocado pra eu não levar bronca.

E tem CID pra isso?

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por Lia Shimamura

Sexta feira é dia de VD. Fomos eu, a residente e a ACS. Bom, só de andar por tantas vielas e escadarias, casas empilhadas, portas escondidas, fiação exposta, crianças correndo, esgoto a céu aberto, a reflexão é inevitável. Que realidade é essa do nosso lado e tão diferente de nós? Eu só conhecia a Rocinha olhando, pela estrada da Gávea, sua muitas luzes e casas sobrepostas. Aquele mundão que faz a gente dobrar o pescoço para conseguir enxergar tudo. Só conhecia, por trás do vidro do carro, no ar condicionado, com as janelas fechadas e som ligado. Na minha visão, ela era iluminada, grande e imóvel. Hoje, quando eu subia, sentia que ali escorre vida. E muita. De todos os tipos. E de um lado uma porta. De outro um mercado. De outro o menino do tráfico que olha. De outro os idosos que pararam para descansar de tantos degraus. E em meio a tantas vidas, fomos atrás de uma. Dona Maria. Ela mora do lado do mercadinho, numa casa verde. Uma porta que dá para sala. Um sofá, uma mesa e uma tv. Ao lado do sofá, um corredor que se estende até o ultimo cômodo. Talvez sejam 3 ou 4 cômodos e um banheiro cheio de baldes com água amarelada. Talvez seja a reserva dela desde que a agua acabou. Bom, mas não foi a casa que fomos ver. Foi a senhorinha de idade, de cabelos brancos e meio ralos, soltos, com 1,60 de altura, cega dos dois olhos, diabética, mora sozinha, não tem filhos. Fomos entregar seus exames de sangue e ver se estava tudo bem. Não está. Ela senta e começa a contar sobre o sobrinho que cuidava dela, mas teve AVC e se mudou para Queimados, sobre seus olhos que já não prestam mais e só enxergam a claridade, sobre como ela se escora nas paredes para andar e já caiu muitas vezes. E chora ao lembrar de sua solidão. Dona Maria chora quando perguntamos como ela toma os remédios, como vive sozinha e como está. Ela se confunde com os remédios, não termina uma frase sem demonstrar falta de ar e apresenta uma glicemia capilar no céu. Enquanto a via chorar, segurei em sua mão e falei que tudo ficaria bem, afinal, estávamos lá pra cuidar dela. Mas a verdade, é que eu não sei bem se tudo vai ficar bem, porque enquanto pensava que eu podia ausculta-la, calcular sua frequência, fazer minha melhor semiologia, nada adiantaria. Podia ser uma insuficiência cardíaca, uma pneumonia, uma cetoacidose. Podia ser só tristeza. Mas o que eu achava mesmo era que o problema dela não tinha CID. E a solução, não estava nos remédios. Ela precisava regularizar a glicemia, melhorar a dispneia, descobrir sua causa e iniciar algum tratamento. Ela precisava de alguém que mostrasse os remédios, ajudasse a andar, a cuidar da casa, do dinheiro e das compras. Ela precisava morar num lugar mais baixo, sem escadas, sem aglomerações e com água. Ela precisava de carinho. E eu, me senti impotente e me perguntava, “gente, qual o CID dela! Como a gente vai encaixar ela num problema só? Como que a gente resolve isso só chamando o SAMU? A assistente social pode levá-la para uma casa de idoso? O que será que ela pode fazer? O que será que nós podemos fazer? O que será que eu posso fazer?” E em meio a um bilhão de pensamentos, a ACS apareceu com o irmão de dona Maria. Ele morava com a esposa em cima da casa da velha senhorinha. Era ele quem cuidava das compras e do dinheiro, mas disse que o resto todo ela fazia sozinha. Perguntamos se dava para levá-la a clínica. Pediu nos uma hora para estar lá. Saímos e ela levantou, segurando as paredes, procurando seu quarto para trocar de roupa.

Descemos para começar a arrumar a papelada para uma vaga zero. Ficou decidido chamar uma ambulância, para leva-la a uma Emergência para investigar e arredondar os problemas médicos de dona Maria. Ela precisa de exames com resultados imediatos e a CSF não dispõe desse recurso. A assistente social será acionada num segundo momento. Eu percebi que, apesar de me sentir impotente, o que tava acontecido ali era fruto de uma sistema público de saúde funcionando a pleno vapor! De uma VD a uma emergência para resolver as prioridades do momento, sem ignorar que, num segundo momento, ela vai precisar de uma outra profissional para suas questões sociais. Que mesmo que não sejam solucionadas, mas que sejam pelo menos, consideradas.

Bom, tudo foi encaminhado e no meio dessa história toda, vou te contar o que eu guardo pra mim com carinho: eu passei pela sala de espera e lá estava Dona Maria. Com cabelo arrumado e vestido até o joelho, de pano grosso, branco e todo bordado champagne. Desses mesmo, que as senhorinhas usam para ir em casamentos. Ela, com 54 incursões respiratórias por minuto, colocou seu melhor vestido para ir ao médico. E além de dizer para todo mundo o quanto eu achei ela fofíssima, eu senti gratidão (e um pouco menos de impotência). Por estar vivendo e vendo isso, a medicina sendo essencialmente medicina. Sendo cuidado. Sendo humana.

Encaixe

atrasado

por Rodrigo Lima

O senso comum sugere que consultas “de encaixe” são aquelas onde o motivo é simples e a consulta em si bem rápida. Quando isso acontece costumamos ficar bem felizes, porque muitos de nós costumam estar atrasados, sempre com muita gente esperando lá na recepção. Já ouvi que “o atrasado é o ladrão do tempo alheio”, e também que “os médicos de família que se atrasam mais costumam ser os que estão mais disponíveis para as pessoas”. A primeira é radical demais, embora não deixe de ser verdadeira. A segunda parece esquisita, mas minha rotina costuma dar muita razão a ela…ou pelo menos quero crer nisso.

Numa dessas consultas “de encaixe” Ricardo entra no consultório com sua mãe, Lara. Ele tem 6 anos, sua mãe parece estar ao redor dos 30. A queixa: febre que surgiu há 4 dias e que ontem desapareceu, dando lugar a manchas vermelhas por todo o corpo, e nenhuma outra queixa relacionada. “Oba!”, vibro por dentro, vislumbrando que o “encaixe” era um simples caso de roséola, e que eu conseguiria terminar a consulta em poucos minutos, após algumas orientações. Sigo com a entrevista, e pergunto como foram esses 4 dias. Lara me conta que no segundo dia de febre ela foi correndo com Ricardo ao hospital, porque ele costuma ter amigdalite de vez em quando e os médicos da emergência já disseram que ele não podia ficar com febre alta em casa, que era melhor ir logo ao hospital tomar uma injeção de antibiótico. Nessa hora a gente abre a porta pra outras possibilidades…e é aí que as pessoas encaixam outras demandas no nosso “encaixe”…

“E o que você acha dessa recomendação?”, pergunto a Lara, tentando entender como ela tem se sentido com essa “bomba-relógio” nas mãos. Ela diz que fica muito preocupada, porque fica com medo de acontecer algo mais sério com Ricardo. “E por que você tem esse medo? Já aconteceu algo mais sério com ele?”. Lara baixa o olhar. Passa a mão na cabeça do filho. E fala num tom mais baixo que Ricardo nasceu com baixo peso, ficou alguns dias internado. Na primeira semana de vida descobriu que o menino nasceu com “traço falciforme”, e que havia vários casos de anemia falciforme na família do marido, incluindo um adolescente que sofria bastante com dores articulares e já tinha até feito uma cirurgia para retirar o baço. Nessa hora ela conta que Ricardo ocasionalmente tem dores nas pernas, e que ela morre de medo de que ele tenha a doença. Conta também que recentemente Ricardo apresentou um sopro no coração, e que um cardiologista passou vários exames para descobrir a causa do sopro, mesmo sabendo que o menino não tem qualquer queixa: corre, joga bola, faz de tudo. Acabaram de vir de outro estado pra morar aqui e ela está tentando conseguir os exames.  Nesse momento eu resolvo interromper: “Lara, tua cabeça deve estar uma loucura com tanta coisa envolvendo esse menino, né?”

Finalmente o “encaixe” encaixou. Algumas consultas vão seguindo até que num dado momento uma pergunta muda tudo. A consulta era pra Ricardo, mas quem precisava de cuidados mesmo era Lara, que deixa cair uma lágrima, e responde sim à minha pergunta acenando com a cabeça, enquanto pega lenços de papel que eu ofereço (sempre os tenho à mão para as “consultas sagradas”, como me ensinou o mestre Juan). Ela prossegue dizendo que morre de medo de acontecer algo, e parece que quanto mais vai a médicos pior fica, pois cada um a assusta de modo diferente.

Agora chegou a minha vez. Ricardo não vai ter anemia falciforme, o sopro no coração dele provavelmente não significa nada, e não há razão pra procurar a emergência sempre que ele tiver febre. “Traga ele aqui sempre que quiser, a partir de agora cuidaremos de vocês”, digo, numa tentativa de fazer o que a mestra Barbara resumiu: primeiro contato, cuidados ao longo do tempo, abordagem integral, coordenação do cuidado. Lara sorri, um sorriso de alívio. Diz que vai fazer os exames porque só vai ficar tranquila com os resultados. Eu respeito a decisão, e me ofereço para ver os resultados assim que estiverem em mãos. Dirigimos os olhares para Ricardo, que brinca sentado na cadeira entre nós. “Então é isso, grandão…vamos nos ver outras vezes, ok?”. Ele me olha, olha para mãe como que buscando aprovação, e ao vê-la sorrir, sorri também. E de repente tudo se encaixou.

Termina a consulta, olho para o relógio. Eu, o eterno ladrão do tempo alheio, mais atrasado do que já estava. Sorrio. Não vejo problemas no roubo, desde que eu continue me encaixando nessas vidas que me procuram.

Fibromialgia

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por Mônica Lima

Um dia nem tão típico de saúde da família é aquele repleto de coisas novas, pois depois de dois anos em um determinado lugar aqueles pacientes mais complicados já passaram e a coisa começa a ser meio monótona, porém, pelo menos 3 ou 4 vezes no mês vem aquele dia, aquele em que entra de tudo um pouco no seu dia, misturando visitas domiciliares e atendimentos. Semana passada tive um dia assim, muitos novos pacientes (tivemos uma alteração na área de abrangência e há muitos que moravam em cidades maiores que ficaram sem emprego e voltaram para perto da familia) , de repente Cajati meio que explodiu, infelizmente com essa explosão vem também a violência, assaltos e coisas sobre as quais temos menos costume de lidar.

Mas, voltando aquele dia, não só os pacientes eram variados e muitos de primeira vez, mas aqueles que têm 5, 6, 7 problemas para relacionar, e é incrível como eles não tem pressa depois que sentam naquela cadeira!!!! E então a gente fica esgotado física e emocionalmente.

A penúltima consulta do dia me levou uma hora. Uma hora tia?! Vocês podem perguntar. Sim uma hora, paciente jovem com dor do fio do cabelo ao dedão do pé, choques e parestesias para todos os lados, 432 exames feitos, de ressonância da coluna a tomografia, ultrassons , exames laboratoriais, consultas com neurologistas, reumatologistas, psiquiatras, etc…

Diagnóstico? Claro, todos os colegas sabiam, e todos escreveram: fibromialgia. Ela também sabe, uma ansiedade nítida nos olhos, uma sede de cura, uma busca frenética de algo que seja palpável, extirpável, mas não é.

Reclino-me na cadeira e pergunto, diante de tudo isso, qual a sua expectativa hoje aqui comigo? O que você busca? Uma hora de conversa, uma hora de questionamentos sobre os motivos e as motivações. O que posso te oferecer aqui menina?

Ela olha pra mim meio confusa com a pergunta, talvez a busca dela fosse por mais exames, por mais remédios, por outro diagnóstico, mas ela é muito inteligente, entendeu perfeitamente o que eu quis dizer, naquele momento senti que o grau de ansiedade dela diminuiu drasticamente, ela relaxou, se recortou na cadeira, e então pudemos entrar em acordo sobre o que poderia oferecer ali no posto de saúde: parceria, conforto e cuidado.

Na massacrante maioria das vezes não temos respostas, muito menos certezas. Mas temos uma coisa que jamais será substituído pela tecnologia: o coração. E a cura será que poderá vir daí?

Superando medos e adversidades

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por Lucas Felipe Gomes*

Olá, meu nome é Lucas, e como todo jovem eu tinha sonhos e projetos.

Mas por divergências da vida, alguns desses sonhos e projetos foram interrompidos, e então com o passar do tempo por achar que nunca mais eu iria retornar e alcança-los, eu me desesperei e não enxergava uma saída. Desde então comecei a apresentar quadro clínico de ansiedade.

Eu já não conseguia dormir, não me achava capaz de nada, achava que iria acabar tudo pra mim a qualquer momento, frequentava o pronto atendimento (P.S.) toda noite. Me dopavam de Diazepam e outros medicamentos. Eu tinha dificuldade em externar meus problemas, pois tinha o tempo todo que me fazer de forte, e quando raramente eu deixava aparecer meus medos eu ouvia quer era frescura, que era normal. Quando eu cometia alguns pequenos deslizes logo eu ouvia: “Mano, você?! Quem diria!”

Eu não consegui manter essa situação, comecei a ter falta de ar, coração acelerado, e não achava um meio de resolver e nem quem pudesse me ouvir sem fazer julgamentos ou dizer que não esperava isso de mim. Então procurei ajuda no posto de saúde, mesmo achando que não ia funcionar mais uma vez, e então passei por uma consulta com o Dr. Pedro.

Ele ao avaliar meu quadro clínico fez com que eu me sentisse a vontade, me estimulando a externar algumas questões que me afligiam. E iniciamos um tratamento que chamamos de Resolução de Problemas. Ele me ajudou a enxergar que tenho que dividir por etapas e tentar resolver uma coisa de cada vez, e entender que eu não posso controlar o que as pessoas pensam de mim, e que não posso me cobrar em relação a isso, porque as vezes o meu melhor não é o bastante, e os outros se decepcionarem mesmo assim.

Ele me ajudou a ver que nunca é tarde pra correr atrás do que sonhamos. Planejamos e consegui resolver várias questões que achava que não tinha mais jeito e retomei todos os sonhos e projetos que tinha. Um deles era cursar enfermagem e finalmente consegui realizar esse feito. Agradeço muito a ajuda prestada pelo Dr. Pedro. As vezes tudo que uma pessoa precisa é alguém que possa ouvi-la e tentar entendê-la.

 

*Lucas é paciente do Dr. Pedro Oliveira, médico de família e comunidade em São Carlos-SP, que após uma experiência bem-sucedida ao usar a Terapia de Resolução de Problemas encorajou seu paciente a escrever sobre o processo. Ele encarou o desafio e autorizou a publicação do texto no blog.

Sobre vínculo, confiança, respeito e verdade

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por Bianca Niemezewski Silveira

Plantão na sutura do HPS:

Estava esperando chegarem pacientes. Ouço a técnica de enfermagem chamar um paciente. Vejo ela fechando as cortinas do leito e fico curiosa, vou lá e vejo uma paciente deitada com a barriga para baixo, a saia levantada e um corte a ser suturado na nádega.

Volto à tela dos pacientes para verificar quem ela era e qual era a história e encontro dois pacientes:

Marlene* de 89 anos e Wellington* de 28 anos.

Tenho um estranhamento inicial e nesse meio tempo chega minha colega e pergunta: “como assim? Tem alguma coisa errada!” Em seguida, eu já raciocino e lhe digo: pode ser uma pessoa trans 🙂

Minha colega se dirige ao leito e já inicia a higienização, já que eu tinha feito a sutura do paciente anterior e fazemos revezamento.

Abro o prontuário do paciente chamado Wellington e a história refere ferimento em nádega. Ao mesmo tempo, escuto a técnica contando para outra: “ah, ele disse que as crianças estavam descascando uma fruta, deixaram uma faca em cima do sofá e ele não viu e sentou em cima.”

Resolvo me dirigir ao leito. Minha colega está anestesiando a paciente de saia.

Me aproximo. Vejo sua saia, sua blusa, seu sutiã, sua bolsa e seu cabelo pintado. Cumprimento-lhe, me apresento e lhe pergunto: “como tu gosta de ser chamada?” “De Gabi!!!” Responde ela com um sorriso de orelha a orelha.

Fico feliz com o sorriso e a receptividade dela comigo e me sinto à vontade para puxar assunto.

“Poxa, que coisa, ali no sistema está o outro nome! Sabia que tu pode oficializar teu nome social?”

“Sabia e eu fiz! Mas eu perdi a minha carteira com o nome social e daí eles não aceitam colocar ele e têm que colocar o outro…”

“Puuutz, que ruim, sinto muito por ti! E já pensou em pegar uma segunda via?”

“Sim, mas é complicado…”

“Eu imagino… Mas e onde tu mora?”

“Ah, moro na Restinga, mas vivo mais pelo centro…”

“Ah, lá na Restinga tem posto de saúde, né?”

“Sim, tem sim…”

“Mas quando tu diz que vive mais pelo centro, tu quer dizer que está em situação de rua?”

“Sim!”

“Hmmm… mas se tu fica mais pelo centro, tu por acaso é atendida pelo consultório na rua?”

“Sim!!! Lá do Santa Marta!”

“Aaah, legal!!! Eles são uma equipe bem boa, né?”

“Aham!!!”

“Acompanha com eles?”

“Sim, sim”

“Legal! Mas então… ééé… o que que tu te considera?”

“Como assim?”

“Ai, desculpa se eu estou sendo indelicada, mas é que eu gosto muito do assunto LGBT! Não precisa falar nada!”

“Não, não, falar é melhor! Eu me considero trans!”

“Aaaah, legal!!! E tu tá bem com a tua imagem corporal?”

“Como assim?”

“Tu te sente bem com tua genitália?”

“Sim!”

“Já operou?”

“Não!”

“Gostaria?”

“Não…”

“Ah bom, que bom! E hormônios? Já teve vontade de tomar?”

“Já tomei!!! Tomei por conta uma época… mas minha médica… pq lá no Santa Marta eu acompanho para cuidar de outra doença, aquela sabe?”

“Aquela que trata com ‘três em um’?”

“Essa mesma… Ela me pediu para eu nunca mais fazer isso! Pq agora estou seguindo o tratamento! Faz três meses que estou tomando os remédios direitinho!”

“Poxa, que legal, parabéns!!! Maaas, tu comentou que tá em situação de rua, né? Como que faz para tomar o medicamento certinho?”

“Ah, eu pego no posto, deixo na minha bolsa e levo sempre comigo!”

“Entendi! Que legal, parabéns mesmo!”

“É, é que ano passado eu perdi minha irmã por causa dessa mesma doença… daí eu decidi que queria tratar dessa vez. Faz dois anos que eu descobri que tinha!”

“Puxa, sinto muito pela tua perda. Mas fico feliz que tu tenha decidido seguir o tratamento agora. Mas eu imagino que seja muito difícil!”

“É sim… para mim, a ficha só caiu quando peguei os remédios na mão e tive que tomar… muito ruim, ainda tem muito preconceito na sociedade, sabe?”

“Sei sim…”

“Pois é, mas daí agora tá tudo certo!”

“Com certeza… mas e tu costuma usar preservativos nas tuas relações? Tu e a tua ou o teu parceiro no caso, né?”

“Ah sim, eu sei que a gente pode pegar outras doenças tbm, já tive sífilis e tratei, mas daí peguei de novo…”

“Sim, sim, mas sífilis a gente pode tratar. Se tu pegou de novo, pode tratar de novo. O problema são outras doenças, como hepatites por exemplo.”

“Sim, por isso sempre uso!”

“Que ótimo, parabéns mesmo! Mas e como que é a aceitação pelos teus pais? Eles te apoiam?”

“Siiiim! Claro, no início não né, mas hoje a minha mãe vive pedindo para eu voltar para casa…”

“Sério?! Que demais!!! Isso é incrível!!! E por que tu não volta?”

“Ah, pq é difícil… ainda tem muito preconceito né… não consigo emprego e me sinto muito mal de ficar morando com ela sem poder ajudar. Não gosto de ver ela trabalhando e eu lá sem poder ajudar…”

“Hmm.. entendo, complicado né? Eu imagino que seja muito difícil, mas pensa com carinho nesse pedido dela… Na rua tu acaba ficando tão exposta ao ódio de tantas pessoas… Imagino que tu já deve ter passado por situações tão delicadas e deve ter mil histórias para contar.”

“Ah, com certeza, é muito difícil ficar por aí… eu sou o combo completo: mulher, preta e pobre! Não é fácil!”

“Pois é, eu imagino… Mas enfim, pensa nisso, cuida de ti, te protege como for possível se assim tu achar melhor. Por que por mais que tu não possa trabalhar fora, pensa assim: tua mãe tá tendo que trabalhar duas vezes: fora para ganhar dinheiro e dentro de casa para manter tudo em dia, não é?”

“Sim…”

“Então se tu for para casa, mesmo que não traga dinheiro para casa, se ajudar com as tarefas do dia a dia já vai estar ajudando e muito ela!”

“Sim, é bem isso que ela me diz!!!”

“Então! Pensa com carinho… Quem sabe, né? Hehehe…”

Vejo que minha colega está terminando a sutura e resolvo finalmente fazer a pergunta que eu geralmente faria no início da ‘anamnese’ do HPS:

“Mas então, o que que aconteceu contigo para ficar com esse corte aí mesmo?”

“Ah, um ex-namorado… ele não aceita que eu não quero mais… daí eu tava lá na minha e do nada quando eu vi já tava com minha bunda sangrando…”

“Puuutz, que ruim!!! Sinto muito! Mas agora minha colega já está terminando e vai ficar bem!”

“Ai, sim, muito obrigada vocês duas! Muito queridas! Porque eu agora tô desse jeito: com dois furos na bunda! Hahahaha…”